Tuesday, May 16, 2017

O Primeiro Cronista


Rua Clara, a Andradas da "subida"

Finalmente pus as mãos naquilo que é o primeiro registro de um cronista ilhéu* sobre o nosso burgo açoriano. O livro é o Antigualhas, ou "Reminiscências de Porto Alegre". O autor é Antônio Pereira Coruja, contemporâneo de Araújo Porto Alegre. O livro é uma espécie de Os Trabalhos e os Dias dos primeiros tempos da cidade.

A maioria das histórias que hoje são correntes — como a história do Alto da Bronze ou dos famosos três nomes da rua General Bento Martins remonta ao texto original das Antigualhas. Publicadas originalmente em 1887, na Gazeta de Porto Alegre (do Von Koseritz, não confundir com o diário de Porto Alegre, de 1833, o primeiro da capital).

Ou seja, muito do que temos hoje, e que é amiúde citado por historiadores a partir dali tem o Antigualhas como o ponto de partida. O Guia Histórico (do Sérgio da Costa Franco), por exemplo, praticamente compilou tudo o que serviria a respeito de nomes de logradouros, topônimos, localização de ruas e seus nomes originais. Com efeito, tudo o que podemos dizer que é informação histórica de valor (muito embora o livro não se presta a tanto, como diz no seu subtítulo) já diluiu-se em publicações afora.

No entanto, causa um espanto a experiência de atravessar as páginas do relato original, tratando-se, pois, de uma fonte primaríssima de um sujeito que nos coloca no alvorecer de Porto Alegre com a sua singular visão de spretcher. Sde a simples citação apenas apresenta-se como uma mera referência, o Antigualhas é como se voltássemos no tempo e travássemos conhecimento com o cronista Coruja em suas andanças da memória, perfazendo o caminho pela lembrança do jovem que ele foi quando relata essas histórias — de memória, a lembrança do jovem que vive no homem velho que Coruja era, já vivendo na Corte, há muito apartado do seu porto dos casais.

Coruja foi menino para frequentar a escola do Amansa-Burros: era um professor de Latim e de Primeiras Letras que lecionava na região da Matriz, e tinha um liceu mais ou menos na esquina da hoje Riachuelo com Caldas Júnior. Ao contrário da tradição popular que, como acontece com os eventos da rua do Arvoredo, trás o tal professor para o final do século XIX, a maioria das "reminiscências" de Coruja são anteriores à Revolta de 35 — da qual ele tomou parte do lado dos revoltosos e, por conta disso, acabou exilando-se depois de oito meses de prisão (na OPresinganga que foi de onde o Conde de Porto Alegre conflagrou a retomada de Porto Alegre, em 1836).

Aliás, foi durante as aulas que Coruja ganhou o apelido. Para poder exorcizar o bullyng, ele decidiu incorporá-lo ao nome. quer dizer, assim como aconteceria com Antônio Mostardeiro, é caso similar de apelido que virou sobrenome (o famoso Comendador Coruja, por sua vez, é filho de criação deste, não o mesmo, como muitos confundem).

Pelas descrições do traçado de Porto Alegre, por exemplo, fica a impressão de que, como a Tróia descoberta por Heinrich Schliemann, da cidade original, a atual Porto Alegre herdou pelo menos apenas o seu traçado. Era uma outra cidade e cabe a nós, ao ler as descrições de Coruja sobre tanto os nomes de ruas (que muitos tinham a ver com a sua origem e que, com a alteração, perderam muito da sua história com isso) quanto da de pessoas (muitos pelo apelido (dr. Cevadinha, Dr. Perdiz, Espalha Brasas, Barriga Me Dói, etc) demonstram como Porto Alegre era uma cidade pequena, um burgo açoriano, como dizia o Reverbel, e onde todos se conheciam. Tanto que muitos topônimos eram relacionados a pessoas — como o Beco do Fanha, nome original da atual Caldas Júnior.

Alguns nomes têm referências históricas e que foram pouco exploradas. Um exemplo interessante é a Vasco Alves, que originalmente teve o nome de Beco dos Guaranis. Consta que ali fora sediado o que restou de dois batalhões de guaranis que, em 1827, foram recrutados pelo exército brasileiro para bater-se contra as tropas do General Rivera, e que sofreram uma terrível derrota contra os orientais na guerra Cisplatina, em setembro de 1825.

Os remanescentes do 24º e 25º regimentos que bateram-se contra Rivera em Rincón de Las Gallinas veio para Porto Alegre, onde ali ficou aquartelado, num prédio na esquina da Barros com Riachuelo. Daí veio o nome, Beco dos Guaranis, que durou pelo menos uns cinquenta anos.

Quer dizer, o nome fixou-se entre a população e perdurou mesmo depois da mudança para Vasco Alves. Mesmo assim, hoje ninguém chama o local de Beco dos Guaranis. Ao contrário do Alto da Bronze, cujo topônimo é realmente uma prova da passagem do tempo. A sua menção remonta, justamente, à mocidade de Coruja, ou seja, o primeiro quartel do Século XIX. Se a personagem Bronze existiu (e existiu), ela pertence a segunda dentição de ilhéus do nosso burgo açoriano.




Porto Alegre era realmente circunscrita à península. Toda a sua história estava dentro desses quadrantes. Havia uma entrada por terra (o Portão, mais ou menos onde hoje fica aquela praça zoada na esquina da Salgado Filho com a Annes dias, no quartier-latin dos salgadoces do centro). O resto era um casario colonial (casas em geral sem platibanda. Coruja viu a primeira casa ganhar vidros, na Rua da Ponte), ruas de pé de moleque, trânsito de muares e muitos frades de pedra pelas calçadas, becos sem saída e muito lixo pelas ruas.

Para os lados de fora do portão, havia um terreno, de propriedade da viúva de Pinto Bandeira, e que estendia-se do começo da estrada dos Moinhos de Vento (a largada da Independência com a Santa Casa, então Caridade, até os altos da Barros Cassal (ali ficava o tal moinho que emprestou o nome à tal estrada e, por conseguinte, ao bairro onde ela chegava, lá no alto da colina de quem ia para os lados da Aldeia (Gravataí). Da esquina da Indepê com a Barros até o Guaíba (ainda sem aterros), era tudo um terreno fechado, que ´pertencia a mulher. A Chácara, pois, ganhou o nome de "da Brigadeira").

Porto Alegre, como Tróia, tem diversas porto alegres por debaixo da que vemos hoje. Se o relato cru e vivo do Nilo Ruschel no Rua da Praia, ao contar, com desenvoltura e ilustração, da Porto Alegre do começo do século passado, com os primeiros cafés cantantes, a imprensa e o comércio alemães, enfim, a Porto Alegre que morreu com a Revolução de 30, a Porto Alegre do tempo dos Caçadores (que Erico Verissimo tenta reconstituir no Arquipélago), a Porto Alegre das Antigualhas é uma volta ao começo, é como chegar nas ruínas da Tróia de Príamo, do Paládio, de Andrômaca e de Heitor.



* Sempre lembrando que o nosso "primeiro cronista" mesmo foi um estrangeiro, o preclaro Saint-Hilaire, lá pelos idos de 1820. Curioso que, o botãnico francês, no entanto, não é mencionado por Coruja.



Friday, May 12, 2017

Love or Confusion


A capa original

Parece que foi ontem que eu ganhei o meu primeiro disco do Jimi Hendrix — cujo álbum de estreia faz 50 anos esta noite.

Lembro que foi na época que os remasters dele estavam aparecendo em CD (depois de um primeiro lançamento, em formato digital, pela Polydor, nos anos 80, mas que não chegou a aparecer muito por aqui). Os CDs estavam aparecendo com uma mixagem excepcional para a época (1997) e, o que era melhor, em versão brasileira.

Quando eu era piá, lembro-me de assistir aleatoriamente na tevê a famosa cena do Jimi tocando o star Spanned Banner naquela manhã visceral e nublada em Woodstock. Achava que ele fosse um músico instrumentista apenas, e essa foi a impressão que ficou comigo por anos.

Fora que, vivendo naqueles tempos em que a internet era mais do que uma utopia, não havia nada mais esquecido do que artistas dos anos 60. E mais do que isso: parecia que o objetivo dos anos 80 era que aquela gente fosse esquecida mesmo. E quase foi.

Um disco do Hendrix, por exemplo. Disputado a manotaços e cachaçadas em sebos, muitas vezes nem paravam nas estantes. Na maioria das vezes, algum colecionador já combinava com o dono da loja que, se aparece o "disco aquele", ele queria e 1 certamente — pagaria a quantia que fosse pelo bolachão.

Por isso que coisas de artistas como o Jimi eram tão escassos que pouco podíamos conhecer. Não havia publicações a respeito. Isso foi por anos, até 1997.

Recordo que o Contracultura, da FM Cultura, fez um especial enorme com aqueles discos. Era a primeira vez que eu certamente ouvia no rádio um cara como o Jimi. Não prestei muita atenção, porém, gravei o programa na época.

Aliás, minto: a primeira vez que eu escutei o Experience foi quando recebi de doação a trilha do Sem Destino. Tinha lá o "If Six Was Nine" (música que eu amigo meu, beatlemaníaco, detestava, como detestava o Experience). Na verdade, aquele disco mudou meu gosto musical: até então, eu não escutava nada de rock que fosse além de 67 (além dos Beatles e Stones, só até a fase Brian Jones, ora veja só que bobagem).

Gostei da loucura dionisíaca de "If Six Was Nine", mas era a única faixa que eu tinha ouvido naquele sentido de colocar o disco na minha própria eletrola e ouvir (essa experiência, com efeito, é essencial para assimilar a música, mais do que a do rádio).

Lembro que pedi de presente de Natal daquele ano a coletânea Experience Hendrix (o Smash Hits só foi relançada recentemente). Não sei o que aconteceu, mas, por um surpreendente delay de um ano, eu acabei ganhando o CD em dezembro do ano seguinte.

Botei o disquinho no meu estéreo e viciei. Fiquei reouvindo aquilo pelos meses seguintes, pensando: meu Deus, isso aqui é o futuro". Não fosse o bastante, fui obrigado a corer atrás de todos os discos. Por sorte, achei num sebo um Are You Experienced (por incrível que pareça, naquele tempo o vinil, mesmo valorizado, valia menos que o compact disc, ainda mais lançamento, porque era um produto ainda muito caro nas lojas.

Lembro de inúmeras chapações e bebedeiras abastecidas pelo Are You Experienced. Aquilo me abriu a cabeça para aquele tipo de rock visceral, que dialogava com outras expressões, como o jazz, até por conta de que Mitch Mitchell, a despeito da idade, era um músico de estúdio experimentado (desculpe o trocadilho) e era totalmente influenciado tanto por fusion quanto por Ronnie Stephenson.

O resultado foi, e é, uma das maiores parcerias da história da música, que é a de Mitch com Hendrix. Mesmo que eles não tivessem nada na cabeça para tocar, qualquer jam furada com ambos era uma experiência (desculpe) profunda, de cabeça limpa, imagine sob influência de outras coisas. Gostava de ficar trancado no quarto ouvindo repetidas vezes o Are You, de preferência, tomando talagaços de vodka (tanto que eu não conseguia escutar aquilo de cara).

O tempo passou, vendi meus discos (cheguei a ter o Band of Gypsies americano, capa linda, provavelmente uma prensagem dos anos 80, selo vermelho). Com a Internet, aí comecei a ouvir muitas outras coisas (muita coisa do tempo dele, e que a gente não tinha acesso). Mas, desde aqueles tempos imemoriais, em que uma informação era quase uma mensagem numa garrafa, hoje é ótimo saber que os anos 60 não foram devastados pelos anos 80 (que também não foram devastados pelos anos 90), e que tem muito guri com a camiseta do Hendrix andando por aí, e isso é realmente um milagre da vida.

Thursday, May 11, 2017

Crusoé

Para LFV



Ninguém acreditou quando, numa última sexta-feira de janeiro, descobriram eu sujeito que parecia o Robinson Crusoé na região mais inóspita da Amazônia. Convivendo com índios Awás, ele era do extremo sul do Brasil e havia desaparecido há mais de um ano. Quand oo encontraram, ele estava perfeitamente integrado à região. Tanto que, quando tentavam dar-lhe alimentação adequada, ele não conseguia comer: estava acostumado a insetos e à água dos rios.

Também havia desaprendido ao falar — não se sabe por algum tipo de trauma ou simplesmente por conta do contato com os aborígenes. Palo que me contaram, tiveram que fazer ele reaprender o português.

— Sumarã! sumarã! dizia o homem, vendo os expedicionários e médicos.

Decorridos algumas semanas, o bom selvagem acaba voltando a tornar-se uma pessoa (vamos dizer assim) civilizada. Primeiro, passam máquina zero naquela melena de Tiradentes. Depois, fazxem a barba de bandeirante. A partir de um mês, já consegue comer cozido. Mas o grande momento foi quando, recuperado do trauma, ele volta a falar fluentemente. Então, diz qual é seu nome:

- Vicente.

A melhora é visível. Aos poucos, o homem começa a contar da sua vida até de onde havia um grande hiato que, por sinal, o impedia de explicar a sua desdita. Disse que estava no meio da mata, procurando Ayahuasca. Lembra-se, no entanto, que o problema começou quando ele brigou com o guia e resolveu seguir por conta própria, confiando apena sem mapas que havia pesquisado por conta (todos com efeito associaram o teu trauma (ou "trauma") ao uso da dita beberragem, o que seria uma hipótese mais do que plausível.

Contou que levara um rádio de onda curta, e que captava emissoras de todo o mundo, inclusive de sua terra. Na verdade, teve um celular roubado por um felá, e foi obrigado a virar-se um um Transglobe que mal cabia na bagagem. Até que a eneriga das pilhas acabaram, e ele perdeu todo o contato com o resto do mundo. Fornando um pouco mais a memória, chega a lembrar-se de cerimoniais de iniciação ao Daime e que havia cogitado trazer a Ayahuasca de contrabando.

Em alguns momentos, porém, a saúde deve parecia declinar. Acharam que a recordação desses episódios pudessem retardar a recuperação. Assim, resolveram deixá-lo em repouso, evitando que tentasse recordar de alguma coisa.

Contudo, depois de ficar uma manhã inteira em silêncio, na hora da sopa, ele interpelou ao perplexo auxiliar de enfermagem:

- Quando eu desapareci, lembro que o Inter de Porto Alegre estava liderando o Brasileirão. O Inter foi campeão?

Perplexo, entes de responder qualquer coisa, ele chama os médicos. E fala da pergunta. Eis que, entreolhando-se eles entram no quarto. ele refaz as perguntas. Todos ficam sérios. Um deles responde, feliz.

- Ah, o Inter? Foi campeão.

- É mesmo? - responde o homem. - Puxa!

O tratamento continuava. Sempre que aparecia alguém novo no hospital, diziam para confirmar que o Inter foi campeão em 2017.

Alguém comentou:

- Vocês estão todos malucos? Ele vai descobrir a verdade, mais cedo ou mais tarde.

- E, mas agora, pelo visto, a verdade pode ser traumatizante. Por isso, é melhor não correr o risco.

Não deu outra. Vicente acabou ficando tão empolgado com a história do Inter que, sempre que aparecia alguém, eles inventavam as mais mirabolantes histórias. Gols imaginários, comemorações, estádio lotado nas últimas rodadas, etc. Uma auxiliar fica com medo de entrar na potoca. Serve nosso herói naturalmente. Quando vai vai sair do quarto, retirando a refeição, ele dispara:

- Quando foi o último jogo?

Sem saída, resolve chutar:

- Hã, acho que fo-foi empate com o Atlético Mineiro...

- Ué, mas eu lembro que a tabela dizia que a última rodada era com o Fluminense.

- Bom — arremeta a moça — qualquer coisa, eu vou confirmar com o plantonista...

Crusoé ficou com uma pula atrás da orelha. Afinal, ele ali conhece o próprio time mais do que ninguém. E se eles estivessem faltando com a verdade? Passa um filma na sua cabeça. E se não aconteceu justamente o contrário, e eles o estivessem mentindo por piedade?


- Acho que ele descobriu — suspirou um médico.

A auxiliar de enfermagem arrancava os cabelos:

- A culpa foi minha, a culpa foi minha!!

- Acontece — disse o segundo médico.

- E agora, e se ele piorar? — quis saber o terceiro médico.

- Vamos ver.... — murmurou o quarto médico.

Todos entraram no quarto do paciente. Crusoé parece arrasado. Abate-se sobre ele uma tristeza temporã, e que todos os torcedores do seu clube já haviam, de certa forma, elaborado. Ele iria ter que conviver com isso mas, dada a sua condição, quem sabe se conseguirá resistir?

- Bom, enfim — falou o doente. — De nada ficarmos rememorando o Brasileirão. Não irei mais encher o saco de vocês sobre esse assunto. — E como foi o Campeonato Gaúcho deste ano?

Desesperado, um dos médicos, fora do alcance de Crusoé, agitava os braços com uma planilha enquanto tentava ser ouvindo pela leitura labial e os olhos esbugalhados:

- Não falem do Gauchão! Não falem do Gaúchão!







Tuesday, May 09, 2017

Entrevista com

Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?

Nasci na Beneficiência Portuguesa. Aliás, estive ali outro dia. Acho engraçado essas coisas. A gente vai ficando velho e vai se desligando do presente, e vai se perdendo num passado que, às vezes, nunca existiu. Minha vó conta que minha mãe teve uma série hemorragia depois do meu parto, ela sangrou até a morte, o sangue escorria pela cama, lençóis, roupas, escorria pela escada, por tudo, até que ela se deu conta e chamou as enfermeiras. Foram acordar o dr. Tiago, e ele chegou, ela estava praticamente morta. ela sobreviveu para contar a história. sempre que eu passo ali eu imagino que eu nasci numa madrugada, num espasmo de sangue, numa pororoca de morte.

Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco, disse eu. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução.


Eu acho que sou de esquerda. Mas não sou praticamente. Eu lembro de uma época em que política era algo meio subestimado. parecia mais coisa de politiburo, de diretório, de grêmio acadêmico. Vivia uma época na minha graduação em que discutir política era algo que não existia. Era coisa de gente desbundada. Confesso que tinha total desprezo pela matéria. é aquela coisa, a gente quer só festa na graduação, não quer aprender nada. Nada! Aquele atestado de não quis mudar o mundo. Quem é que queria naquela época? Política era coisa de velho, de político mesmo. Essa era o pensamento da época. Quando voejo as pessoas protestando hoje, me sinto um anacrônico. Minha época de protestar passou. mas eu acredito que meus filhos, se um dia eu os terei, eles viverão sob o socialismo. Mas na verdade, eu sou um capitalista lúmpen. O capitalismo me deu tudo: iates, mansões, estabilidade e um bangalô na Jamaica.

Loira ou morena?


Bem eu acho que todo mundo um dia vai morrer. Outro dia passei no jazigo da minha família. E um belo jazigo. Estava bastante florido e haviam colocado mais fotos. E estranho quando as pessoas que você conviveu estão hoje morando lá. às vezes eu acho que a gente não morre. A gente vai para um asilo em algum lugar. Sei que elas estão lá, em algum lugar, provavelmente vivendo melhor do que aqui. É como um parente seu que está internado em algum lugar, mas você não vai visitá-lo. Mas sente que ele está bem. Isso me lembrou de uma tia quando morreu. Ele teve uma vida ingrata. Um dia, tempos depois, eu sonhei com ela. eu estava em algum lugar como naquelas casas tipo, sei lá, tipo Ailsa Avenue, Twickenham, estilo londrino. E ela me atendeu, parecia feliz. Então eu cheguei a conclusão que ela estava viva e bem, porém distante. Como meus avós, sinto falta de falar com eles. Eram pessoas boas de se conviver. é difícil encontrar pessoas assim. Acho que a pior morte é a solidão total.

Gosta de sertanejo universitário?

Acho que a gente está em plena distopia. Não vou usar aquela palavra, mas a verdade é que é o começo do fim. A vida dá voltas e a gente chegou na Tirania dos Trinta.

Você é cínico ou crê no amor?

Tive uma infância comum. Porém morei em tanto lugar que não tenho raízes, nem sotaque. Na verdade, eu sou como um judeu errante. Acho que é algum atavismo, algo ligado à minha ascendência, é maior do que eu. Acho que é maldição, só os oráculos poderiam dizer. Mas não tenho saudades de nada. Só tenho saudades do futuro.

Thursday, April 27, 2017

The Georgia Peach


Little Richard

No último feriadão eu reli a autobiografia do Little Richard, escrita pelo Charles White, um DJ britânico. O livro saiu por aqui nos anos 80 (nos tempos heróicos da LPM, quando ela ainda era uma editora alternativa e muitos daqueles títulos daquele tempo há muito estão esgotados).

Lembro que eu achei o livro na época na Miscelânea, uma banca que ficava entre o MARGS e os Correios. Eu peguei o livro acho que porque eu estava cavando alguns discos de rockabilly da finada Brasidisc nos sebos de Porto Alegre. Naquele tempo, como se sabe, a internet ainda não existia e um livro como esse era uma chance única de conhecer aquela história. Mesmo publicações de música, revistas em geral, voltavam-se para coisas daquele tempo.

Eu, que era um fedelho de uns dezesseis anos, não gostava nem um pouco do que tocava no rádio (hoje eu tenho muita saudade das canções dos anos 80, quem diria?) e, em pouco tempo, era um fanático roxo por rockabilly e todo aquele material que foi produzido nos anos 50, como, por exemplo, a trilha do filme Loucuras de Verão.

Aquilo era o tipo de coisa que eu procurava em vinil naquele tempo. A gravadora que mais se especializava nesse catálogo era a Brasidisc. Lá por 87, eles lançaram uma coletânea, em parceria com as TVS/SBT, intitulada "O Melhor dos Anos Dourados". O lado A era anos 50 e o B, anos 60. Foi mais ou menos desse elepê que eu saí a à cata de outros discos similares, muitos com fonogramas de onde foram extraídos aquelas faixas do disco.

Desses, eu catei o Georgia Peach, do Little Richard. Achei curioso anos depois que esse disco, na verdade, era uma coletânea bem irregular, e que a primeira parte eram todas regravações que ele havia feito para a Vee-Jay, em 1964. Isso me deixou bem frustrado, e achei aquele material bem lado B do disco pouco ou nada interessante.

O engraçado é que eu não lembro seu eu comprei o disco antes do livro, ou um junto do outro. A verdade é que a tudo o que eu aprendi sobre rock foi na autobiografia do Little Richard.

Claro que, para um guri de 16 anos, aquele livro era um escândalo, tanto pela loucura e a insanidade da juventude dele, vestindo-se de mulher em espetáculos circenses, em vaudevilles ou até mesmo em minnistrels. E aquilo era a cultura daquela juventude pobre, entre a religião, a música gospel, o rhythm'n blues.

Richard bem que aprendeu muito sobre como ser um grande performer naqueles dias. A música, ele aprendeu nos tabernáculos: aquilo era uma segunda natureza. Nós, aqui no Brasil, não temos a menor ideia da influência da música gospel nos norte-americanos, principalmente nos habitantes do sul. Isso explica por que tantos artistas do rock dos anos 50 gravaram discos do gênero em todos os tempos.

Da Brasidisc, eu achei também o dance Album do Carl Perkins. Depois de ler o livro do Richard, sempre achei que tanto Richard quanto Perkins foram injustiçados em favor do Elvis. Ou, no caso do Richard, do Pat Boone que, a despeito de ter regravado muita coisa do Reverendo Penniman, sempre reconheceu a primazia do autor de "Lucille". Ao mesmo tempo, sempre achei que Perkins e Richard fossem dois expoentes de duas respectivas vertentes que, juntas, formariam o rock.

A música do Richard estava impregnada daquele soul que vinha dos spirituals, do gospel, e o R&B. Perkins era uma versão jovem do hillibily e do honky tonk. A diferença é que, como eles eram jovens, eles adaptaram aquele legado à sua maneira. O rockabilly cortava aquele ranço caipira a la Hank Willims, mas não a essência da coisa: a difernça é que eles trocaram a roupa de cowboy e os fiddle players pela bateria, algo impensável nos discos do Williams. E Richard, da mesma forma, adaptou a postura de palco (certamente influenciado por pastores, como James Cliveland, do lado religioso, e de Esquerita, do lado "secular" da coisa), somado a um senso de performance nunca antes vista. Richard era glitter antes do glam rock.

Na verdade, quando eu li o livro pela primeira vez, não conhecia tanto a história do rock a ponto de poder versar sobre essas coisas. Hoje, relendo o livro, ao mesmo tempo em que vejo Richard em Prince, no Creedence, em James Brown, em Hendrix, Otis Redding e em muitos outros, influências tanto óbvias quanto referentes, como no caso confesso (mas também óbvio) de Elton John.

Reler a autobiografia do Richard pois me fez retornar ao tempo da primeira leitura e fazer um contraponto com aquele passado e com a minha primeira formação como ouvinte.

Na verdade, lembro agora: eu comprei o segundo disco da trilha sonora do filme La Bamba. Até então, eu tinha a trilha de outro filme, no mesmo estilo, o "Conta Comigo" (que eu vi na Cinemateca Paulo Amorim, pois ele não saiu em circuito comercial), que tinha Chordettes, Buddy Holly, shirley And Lee, Coasters, coisas assim. eu me apaixonei por aquele tipo de música e não entendia por que aquilo não tocava no rádio. Parecia que os anos 80 fizeram de tudo para que as pessoas esquecessem aquelas músicas, e o fato de não existir, na época, uma forma de entrar em contato com aquilo (como hoje), fazia com que existisse um enorme hiato cultural entre duas eras, de músicas que estavam sendo progressivamente enterradas pelo tempo, e não era pelo fato delas serem ruins. Até porque, com o American Grafitti, houve um revival daquelas canções, cujo paroxismo certamente é o Grease.

Ou seja, sempre foram filmes que trouxeram aquelas músicas de volta. O La Bamba era outro exemplo, já nos estertores dos 80, de outro episódio onde uma fita recordava os anos 50. O próprio cover de "Donna" e "La Bamba" chegaram a tocar muito no rádio na época. Pois o segundo disco da trilha do la Bamba, o "2", era composto de faixas originais e que apareciam incidentalmente na história, como Skyliners, Chuck Berry e outros.

Pois a primeira faixa era "Readdy Teddy". lembro que eu fiquei muito impressionado com aquilo. Era a faixa do primeiro elepê do Richard, e a gravação de 1956, com o Earl Palmer na bateria. Aquilo era fantástico. Quem era aquele cara com aquela voz, que parecia voar como um foguete acima de todos os mortais, cantando aquilo. Meses depois (para ver como era sem internet) que eu descobri que Little Richard era negro. E, quando nós lemos os depoimentos da autobiografia dele, há um trecho com o John Lennon dizendo que ouviu "Long Tall Sally" através de um amigo e chegou a conclusão que 'aquilo' era muito melhor do que o Elvis.

Então, eu acabei acho que descobrindo os Beatles (que eu já conhecia, de um White Album que eu havia ganho de aniversário com 10 anos e que eu nunca ouvi porque nunca vi sentido nenhum naquele disco com capa branca e selo com uma maçã inteira e outra cortada no verso...) porque, quando eram garotos, como eu, os Beatles ouviam e gostavam do mesmo tipo de música que eu gostava. Ou seja, minha identificação com eles deu-se da forma mais estranha possível.

Quer dizer, a partir de "Ready Teddy" que eu descobri o Richard, achei o livro e o disco. O álbum da Brasidisc, bem oportunista, porque saiu na esteira do sucesso da minissérie da Globo, e chamava-se O Ritmo dos Anos Dourados. O disco abria e fechava com Richard. Foi então (agora recordo) que catei o Georgia Peach.

Mas notei que as faixas todas eram regravações. Na verdade, o livro explica: Richard lançou o primeiro trabalho pela speciality. Depois, ao converter-se, gravou um LP gospel muito subestimado, mas produzido pelo Quincy Jones. Logo, essas faixas do Georgia Peach eram da época da Vee-Jay (1964-65). O lado B tinha "Going Home Tomorrow", "Without Love" e "Going Home Tomorrow" (do Don Covay). Alguma coisa contava com Maurice James, o futuro Hendrix, na guitarra. Fiquei frustrado porque as clássicas eram regravações. Porém, hoje acho muitas delas melhores do que as originais.

O curioso é ver, do ponto-de-vista musical (para quem quiser saber de todos os bastidores bizarros da carreira dele, recomendo pois o livro), que, num primeiro momento, ele sofreu com a concorrência com artistas brancos, mesmo tendo sido o primeiro a quebrar com a barreira de público, integrando todos racialmente, pela primeira vez no rock.

O hiato religioso dele de 1958 até 63 foi contra a carreira dele no sentido que Richard perdeu muito do que surgiu na música naquele tempo: numa época em que músicos começavam a desbravar as possibilidades de estúdio, ele ainda era um cara do palco. Fazendo um paralelo com o Elvis: o Rei ficou de fora dessa 'revolução' enquanto estava "perdido" em Hollywood. Quando procurou retomar musicalmente o caminho dele, acabou optando pelo palco, e deixou-se levar pelo comodismo e pela total falta de ambição musical.

Richard, por sua vez, teve primeiro o "retiro espiritual" em seis anos que foram cruciais na mudança do mercado musical. Tanto que, quando ele retoma a carreira "secular", ele é quase atropelado pela onda da Invasão Britânica (que ele conheceu desde e começo, tocando com os então desconhecidos Beatles e Stones, mas nunca imaginou que eles fossem atravessar o Atlântico daquela maneira). Naquele mesmo tempo, a nova geração estava tomando conta dos estúdios e ditando suas próprias produções.

Enquanto isso, Richard tinha a virtude do palco, e precisava de um produtor que o ajudasse nisso. Ele mesmo diz, em determinado trecho do livro, que ele penou com péssimas produções que foram levando ele e sua banda numa irregularidade de mudança constante de selos (Vee-Jay, Mercury, Reprise, Okeh), e nunca conseguiu decolar, a não ser com um single nos anos 70, "Freedom Blues".

Outro fator que ia contra Little Richard: muitos que acreditavam em sua elevação espiritual como pastor passaram a rejeitá-lo. De roldão, muitas rádios do sul o baniram da programação (ao mesmo tempo em que ele não apresentava material consistente e constante), ao passo que outros disk-jockeys, numa época em que, também no sul, a audição era segmentada em favor de artistas negros de emissoras "negras" voltados ao público negro, e que preferiam o som da Motown, Stax, FAME e congêneres.

Richard defendia-se dizendo que não queria ser um Wilson Pickett, não queria ter a música dele associada a um mercado propositalmente tão restrito já que, desde o começo, ele não fazia distinção de cor no tocante ao seu público.

Por último, emissoras de tevê achavam sua performance, com suas roupas e atitude excêntricas demais para a televisão. Ele entendia isso como puro racismo. Mas, como diz o ditado latino, são tempos e modos e, hoje, é risível imaginar que o público se chocasse com a performance dele, comportada até demais com o que vemos agora (e que provavelmente nasceu a partir da própria transgressão perpretada por Richard, há seis décadas).

No fim das contas, ainda em paralelo com o Elvis, Richard optou por investir totalmente em shows em detrimento do trabalho em estúdio (a Reprise, que era uma grande gravadora, foi acusada por ele de não interessar-se em divulgar seus discos, muito embora ele tenha se dado conta de que, como não podia deixar de ser, o esquema de jabá nos anos 70 já tinha se transformado em uma segunda natureza da indústria cultural em todo o mundo) a partir de Las Vegas. Num segundo momento, ele de fato afundou-se num cotidiano de bebida e drogas que só não acabou com ele (como acabou com Elvis) porque ele voltou-se, mais uma vez, para a religião.

Na mesma época em que Charles White lançou o disco, Richard tinha voltado para o mundo da música. Ao mesmo tempo, passou a entender que o rock não era tão demoníaco e, finalmente pôde conciliar tanto música quanto religião (lembrando que a história dele vai até o começo dos anos 80 e o filme feito sobre a obra vai até o começo dos 60). Mas, pelos depoimentos, tanto dele quando de gente como Art Rupe e Bumps Blackwell, mais do que uma mera biografia, a obra ajuda a entender como era a indústria do disco e de entretenimento a partir do começo dos anos 50 (as primeiras gravações de Richard são de 51), e como as duas vertentes, a do rockabilly e a do rhythm'n blues se fundiram numa pororoca chamada rock. O exercício de investigar essas origens sempre faz com que a gente aprenda algo mais e é uma fonte inesgotável de debates — graças a Deus (ou a diabo) — sem fim.




PS: Curioso que, na mesma época em que saíram esses discos e o livro, foi quando as lojas de disco começaram a receber os primeiros compact-discs. Naquele fim dos anos 80 e por muito tempo ainda, era um ítem impossível de comprar, tanto o disquinho quanto o aparelho. E lojas, como A Discoteca, recebiam coleções tipo movie play de coletâneas de artistas de anos 50. Aquilo era uma loucura, mas era um sonho d (elirante)istante, porque eram importados e não sairiam no Brasil. Se saírem, eu não lembro de ter visto. A verdade é que isso era suficiente para ver que o CD estava fazendo uma espécie de reciclagem de décadas de indústria da música a ser retomada na era digital. Com a internet, isso ficou muito mais acessível. Mesmo assim, existe muita coisa de disco (e que colaborativamente é despejado em plataformas virtuais) ainda a ser redescoberta. Para ver que, como naqueles mesmos anos 80, onde o que se esperava em matéria de música (e arte em geral) era o último grito da moda. Agora a gente percebe que existe um baú escondido com música para a gente descobrir. Na era do disco, o que salvava eram as coletâneas. Agora é possível ter acesso a tudo de todo mundo. Ou seja, música não falta.

Friday, April 07, 2017

Não Seja Já! *

Se eu tiver que morrer na flor dos anos por favor meu deus onipotente onisciente e onipresente por favor eu lhe imploro de joelhos por que o que há de mais sagrado por favor please please me não seja já eu quero ouvir na laranjeira à tarde cantar suspiros e saudades o sabiá nas palmeiras de minha terra amada e abençoada que há de tragar a minha derradeira última quimera que a bicharia há de roer todo o meu coração quando em meu peito rebentar a última fibra que me enlaça à dor vivente ai meu deus não me d~e esse tamanho desgosto pelo menos esse não por favor se eu tiver que morrer que não seja já que eu queria ver tanta coisa meu deus tanta coisa my sweet lord que anda na cabeça são tantas bocas que estão falando alto pelos botecos o que vive nos mercados o anil lavado vagando de verso em verso o azul dos céus suburbanos da leal e valorosa que eu quero pisar nos astros distraído não seja já pelo amor do senhor por favor que eu quero ouvir o João Gilberto cantar o pato que não é o pato que ganhou sapato e foi logo tirar retrato mas é o que vinha cantando alegremente quém quém que eu quero ouvir o Dorival cantar os clarins da banda militar e a Doralice e a Marina e a Rosa Morena e o samba da minha terra quero ver as três mulheres do sabonete araxá às 4:00 da tarde meu deus não seja já como dizia o Casimiro poeta pálido e triste lá de Indaiaçu, terra litorânea bonita e serena de entardecer enluarado saravá não me deixe morrer se não eu vou ficar triste de dar dó e o médico disse que é nervoso se eu tiver que morrer eu vou com gosto de fel para a sepultura e o céu até deve ser legalzinho mas não tem o Cruzeiro do Sul meu deus o Cruzeiro do Sul eu não quero ir deixar o meu Brasil varonil país do futuro nossos bosques têm mais vida que é país que vai prafente meu sr meu coração é verde amarelo branco azul anil ninguém segura esse país de todos os santos baianos barroco de pau ôco meu deus me leva sodade inté meu São Sebastião saravá oh eu não quero morrer que a vida é a arte do encontro embora sejam demais os perigos desta vida pelo amor doc~e não me deixa morre que caramba caramboles sou do samba não me amoles que eu quero ver Peri beijar Ceci quero ouvir meu bom disco de Noel que faz dança as arvre do arvoredo e faz a lua nascer mais cedo eu queto ver as jeunnes filles en fleur bicicletantes nas tardes ensombradas de coqueiros quero vestir camisa listrada e sair puraí em vez de tomar chá com torrada quero tomar Paratí se eu tiver que morrer palhaço das perdidas ilusões não sê tão ingrato meu deus espera um pouco, um pouquiiiito más já dizia o bodisatva julio igresias não sê tão ingrato meu deus do céu quero rever meu guaíba rever meu bem querer quero ler o róseo que é leitura indispensável quero terminar de ler aquele Eça que eu parei no ano passado e não continuei mais e esqueci a história quero ver quero ver quero ver me importo por favor me dá uns dois ou três anos pelo menos ó insensato coração porque me fizeste sofrer meu deus por favor não sejá já!






















[inner groove]























* Esse texto tirou terceiro lugar num concurso do Diretório Acadêmico Manuel Bandeira, em 1996, ou seja, há vinte anos. A história dele é engraçada, por isso eu decidi resgatá-lo (ia postar no ano passado, mas acabei protelando e protelando e protelando). Os textos selecionados foram publicados pela PUCRS através do Instituto de Artes, em 1997. Meu texto, uma brincadeira glosando clichês romântico-nacionalistas em fluxo de consciência, Casimiro de Abreu e uma crônica de Vinícius de Moraes (do Para Uma Menina Com Uma Flor, na época meu livro de cabeceira). é divertido transcrevê-lo e lembrar da época da criação dele. Ocorre que, em 1995, eu estagiava num jornal de bairro no Moinhos de Vento. Quando coube a mim fazer a crônica, mandei para o editor esse texto, assim, desta maneira, sem pontuação. Qual não foi minha surpresa quando o texto fora recusado! Acabei brigando com ele infantilmente, com direito a torcida contra e a favor. No fim, perdi a queda de braço e tive que escrever outro texto, dessa vez, com pontuação. O editor me fez, todavia, uma ressalva: publicaria o texto se eu o pontuasse. Como eu entendi que isso estragaria todo o espírito da coisa, eu mesmo vetei o texto. Foi quando, um ano depois, apareceu notícia do concurso do DAMB. Como naturalmente esse texto em fluxo de consciência seria desclassificado como crônica por naturalmente não se enquadrar no gênero. Inscrevi ele em poesia, onde foi selecionado. Porém, sempre achei uma besteira, pois não considero isso poesia. Antes, porém, mandei o obscuramente polêmico "Não Seja Já" para um professor, Gilberto Scarton (naquele tempo eu fazia as cadeiras básicas de Português Aplicado À Comunicação e estava mais ligado às coisas do curso de Letras do que de Comunicação Social, o que era fácil de acontecer quando a gente fica perdido naquele limbo de cadeiras iniciais, onde não se mexe quase nada com o curso pelo qual nos inscrevemos e passamos no concurso vestibular) como exercício de aula, que achou o texto sensacional. Naquele momento, depois da recusa da publicação pelo jornal, eu queria é me livrar desse texto que, a rigor, como sempre acontece quando, com o tempo, a gente começa a estranhar o que produziu, era como se ele elogiasse algo que não era de minha autoria. Um rapaz, que também fora selecionado, me interpelou nos corredores da Famecos, onde estudava. Ele perguntou se eu já tinha lido Joyce. Respondi que sim mas, na verdade, ainda não tinha lido, embora soubesse do monólogo do final de Ulysses. No fim das contas, a única lição que eu tirei desse episódio é que eu deveria ter feito Letras, e não Jornalismo.

Thursday, April 06, 2017

Uma Manhã na Rádio da Universidade


O castelinho do Campus Centro



Esses dias, fui convidado como ouvinte a dar um depoimento sobre a rádio da Universidade, que vai fazer aniversário dia 1º de julho. Eles vão juntar vários depoimentos gravados de ouvintes, professores, ex-funcionários, e lembraram-se de mim. Fiquei um tanto lisonjeado, e ainda por cima feliz em voltar ao castelinho onde fica a emissora, no Campus Centro da UFRGS.

Me pediram para falar algo como uns dois minutos sobre minha história com a rádio. Passei o dia mirabolando alguma coisa. Lembrei de várias. Até porque o rádio é uma companhia constante e, numa época em que as opções na onda média estão cada vez menores, a gente vai se prendendo a poca coisa. Mas a Rádio d-a Universidade sempre será uma constante para mim.

Quando chegou o momento de gravar, numa terça de manhã, cheguei mais cedo, sentei-me nas mesas do Antônio, ali mesmo no Campus, e pus-me a escrever copiosamente o que me viesse à mente. Não tinha computador á mão, logo apelei para meu caderno.

A primeira coisa que eu me lembro da rádio da Universidade é aquele disco arranhado do Roberto Szidon interpretando as polcas e os tangos do Ernesto Nazareth. Lembro que eu achava bonito ficar ouvindo música clássica. Deixava o rádio alto para que todo mundo notasse o maluco que estava escutando clássico. Mas, na verdade, quando eu ouvia aquilo, eu não tinha lá muita ideia do que se tratava. Só que era algo muito distante daquilo que a gente se acostuma a ouvir.

Também me chamava a atenção o som do AM da rádio. Tinha um reverber, algo que é sempre típico do som de cada emissora. Mesmo no AM, a gente percebe uma sensível diferença no áudio de cada canal. o som da 1080 é bem peculiar, o som do estúdio, na hora da locução, ainda mais quando a gente escuta em equipamento antigo.

Ao mesmo tempo, sempre fiquei intrigado. Como uma rádio consegue manter-se no ar tocando coisas que a maioria das pessoas não procura em rádio. Além disso, eu não gostava de música clássica ainda. Achava aquilo exótico, mas ficava pensando nas pessoas que tinham o hábito de ficar ao pé do rádio ouvindo aquilo.

Um dia, tempos depois, eu perguntei ao professor (já aposentado) Sérgio Stosch, que era meu professor na Famecos quando fiz minha primeira graduação, em Jornalismo, lá por 95. Ele ministrava o curso de rádio na faculdade da PUCRS, e me convidou. Foi então a primeira vez que eu estive nas dependências do castelinho.

Achei maravilhosa a concepção daquele prédio avoengo abrigando um estúdio gigantesco, com piano de cauda e tudo. e, no andar do rés do chão, uma sala enorme com discos. Naquele tempo, a rádio ainda tocava disco na maior parte da programação. Eles estavam começando a formar uma cedeteca, e ainda era difícil montar um acervo digital (logo depois, as coisas iriam mudar) mas, mesmo assim, a discoteca da emissora, além de histórica, tinha tudo o que se pudesse imaginar em matéria de música. Por sinal, hoje que todas as rádios deletaram sues respectivos acervos, a 1080 deve ser a única em Porto Alegre que ainda mantém uma discoteca.

Naquele dia, indaguei justamente isso ao Stosch: como uma college radio ainda se mantinha como quer parada no tempo, com uma programação de erudito 24 horas? E justamente focando num tipo de programação que não devia interessar muito aos estudantes da UFRGS. Além do mais, outras universidades tinham uma programação jovem, a Unisinos e a Ulbra (pelo menos, em 95, ainda era uma college radio, até aderir ao pop comercial anos depois, e ainda mais agora, que virou enlatada).

Ele concordou que havia resistência de ouvintes. E era uma marca registrada deles. E a rádio tinha muitos ouvintes de fora, de outros estados e outras cidades, que apreciavam a programação. Ele disse que muitos ouvintes achavam que, devido ao tamanho de muitas peças, alguns reclamavam que achavam que a rádio "esquecia" os seus ouvintes no ar.

O curioso é que, com o tempo, eu refiz o erro de cálculo: eu é que deveria aprender a ouvir a programação da rádio.

Pois, de tanto ouvir aquele disco arranhado do Szidon, eu decidi comprar um disco de música clássica. Então, peguei um fascículo da Abril com peças do Chopin. Aconteceu comigo como aconteceu com relação a ouvir tango: depois que eu comprei o disco e ouvi, minha atenção se voltou para aquele tipo de música.

Ou seja, eu comprei meu primeiro disco de música clássica por causa da rádio da Universidade. Como naquele tempo voc~e comprava vinil de clássico quase de graça em sebos, eu acabei formando uma discoteca gigantesca (sobre ela já aludi em post anterior, chamado "Desapegos", que conta o trágico fim dessa mesma discoteca).

acabei comprando todos aqueles fascículos de música clássica da Abril. Achava legal que, nessa época, a 1080 sempre fazia um breve histórico de algumas peças que eram executadas. Foi uma época de aprendizado, de guiar-me pela programação deles e de aprender sobre a história dos compositores pelos fascículos, e isso numa época em que não havia internet. Hoje, eu me guio pela programação do site, jogo no Google alguma coisa que está tocando. Sempre tem alguma coisa de algum compositor que eu ou ainda não conheço ou que não ouvia há tempos.

Com o tempo, eu acabei virando ouvinte fiel da rádio, depois me desfiz do meu acervo, então, a rádio da Universidade é hoje a minha memória afetiva. Afinal, da minha gigantesca coleção de discos, todos comprados a dedo, sobrou apenas um disco do Bach Edition, com duas cantatas, e a caixa do Nabucco, do Verdi, com o Tito Gobbi. Para mim, o que ficou é o que eles tocam. Meu espólio é a música que anda pelo éter e é transmitida pela rádio da UFRGS. Hoje eu tenho um outro entendimento, e a música que eles tocam é a minha música, o que eu gosto de ouvir.

Num mar de esquisitices, ainda mais hoje, na era do pós-rádio, onde todas as práticas e segmentações foram eliminadas em favor de convergência de mídias e horizontalização com produção de conteúdo virtual por canais da internet, rádio como a da Universidade parecem anacrônicas, como eu a achava, quando jovem, mas vejo que elas são vitais, mas vivem o paradoxo de serem um patrimônio cultural à disposição das pessoas e que é totalmente negligenciada, como em tudo o que se refere a práticas culturais em geral: ninguém mais quer aferrar-se ao que é difícil. Ninguém quem empreender uma jornada em busca de conhecimento. Quer um dispositivo que diga o que eles querem ouvir. Parece ranhetice da minha parte, mas eu digo isso simplesmente porque eu era assim.

Comentei, a guisa de mero improviso, antes de ligarem o microfone para mim, que eu conhecia o espírito da programação musical. Claro que referi-me aos programas institucionais, de professores, de alunos, da associação de professores e a de funcionários, programas que existem ainda, como o Literatura, A Voz do Docente, Sexta Lírica etc. E outros que acabaram, como o Tangos en La Noche. E que sabia que de manhã, eles sempre começam com uma cantata do Bach, depois é um desfile de barroco e clássico, Haydn, Haendel, até ali pela metade da manhã, quando entram os românticos, Liszt, Czerny, Mendelsohn. De tarde, já aparece um Chabrier, Satie, Stravinski, Saint-Saens, Glazunov, Rameau, Respighi, por aí. E, já entrando madrugada adentro, depois do boletim astronômico, aí, como não há as interrupções nas horas cheias, com os boletins de notícia, a programação é copiosa em peças longas, Réquem alemão do Brahms, sinfonias do Mahler, poemas sinfônicos do Strauss, etc.

Acho divertido, e até comentei essas coisas na hora de gravar o spot na rádio. Não havia tempo para falar muito, e acho que falei coisas que não escrevi aqui, da mesma forma que escrevo agora lembrando de coisas que esqueci de falar. Não dei a sugestão á eles, mas a verdade é que daria para fazer um programa com ouvintes falando sobre suas peculiaridades. Um ouvinte de rádio que toca musica clássica é algo como um dodô, uma espécie em vias de extinção. Eu sou um dodô.

Wednesday, March 29, 2017

Porto Alegre Noir

Terminei de ler o 20 Relatos Insólitos de Porto Alegre, do Raphael Guimarens (Libretos, 2017). Li e lembrei dos antigos cronistas de Porto Alegre, desde o Antônio Álvares Coruja, lá do começo do século XIX até o Nilo Ruschel, nos anos 70, e o Renato Maciel de Sá Júnior.

Não procuro fazer comparações entre eles, embora isso seja inevitável. Até porque, ao contrário do Coruja e do Ruschel, que realmente viveram aquelas histórias que contaram, o que é surpreendente, porque eles falam de uma cidade que não existe mais, Renato e o Raphael recontam histórias do passado.

O Renato Maciel descobriu o filão do memorialismo sobre Porto Alegre saindo daquela coisa formal, que existia com o Ary Sanhudo ou o próprio Ruschel, no seu inesquecível Rua da Praia. Tanto que seu trabalho rendeu uma inesperada trilogia — que foi um best-seller (hoje pouco lembrado) nas feiras do livro de Porto Alegre nos anos 80.

Eu particularmente descobri a bibliografia a respeito da história (no viés "histórias) de Porto Alegre com o seu Anedotário da Rua da Praia. Os livros são excelentes. Infelizmente, Renato coletou depoimentos históricos, mas não teve interesse em emprestar uma perspectiva "histórica" na sua obra, optando por uma abordagem pitoresca, para não dizer obviamente humorística. Por sinal, é notável perceber que muito dos livros do Sá Júnior têm o volume de Nilo Ruschel como ponto de partida.

Já Raphael Guimarães têm desenvolvido uma obra singular que tem esse atavismo da perspectiva do memorialismo sobre a capital, numa série de livros que têm Porto Alegre como cenário. Desde o Tragédia da Rua da Praia a até o livro sobre a enchente de 42, o 20 Relatos Insólitos de Porto Alegre se caracteriza por ser uma rescolta de histórias, o que o aproxima do panteão dos grandes cronistas da cidade.



Mas interessante em 20 Relatos Insólitos de Porto Alegre é o tom a la New Journalism das histórias. O texto não quer o mero relato formal nem explorar o lado humorístico de histórias um tanto sombrias e que, por mais incrível que possa parecer, realmente aconteceram.

O tom, do livro é de quem está assistindo a um filme de curtas, e é impossível não ler os relatos sem imaginá-los como pequenos romancetes com um tom meio noir, tão bem contados que parecem pura ficção. Muitas delas tem um lado noir mesmo, e em preto-e-branco, de jornalismo antigo, romance policial, com histórias divertidamente folhetinescas, casos de amor e morte.

Arthur Elsner, um dos grandes maestros de Porto Alegre, cego e regente da antiga rádio Difusora torna-se uma espécie de compositor torturado por uma paixão fulminante por uma garçonete da Confeitaria Central (que ficava no Largo dos Medeiros que, por si só, valeria um livro), e o caso de amor também trágico, de Araújo Vianna por Olintha Braga. Um grupo de prostitutas que, com a ajuda do intrépido repórter e rábula Mário Cinco-Paus, consegue uma habeas para pode voltar a fazer o lenocínio de cada dia; uma fuga impossível da Ilha do Presídio; o triste fim de d Honorina, viúva de Júlio de Castilhos. Um caso policial em pleno bairro Navegantes dos anos 20 e sua surpreendente reviravolta; ou o extravagante caso do Professor Hindu que, de noite, virava o transformista Danúbio Azul.

Raphael soube recontar de forma sucinta e original duas histórias que, por muito tempo, viviam na memória da população como lendas urbanas: o assassinato de Maria Francelina, de amásia a santa do bairro Partenon (que Raphael transforma o algoz em tema de um debate absurdamente dostoievskiano a respeito das razões do crime) ; e o sumiço do delegado responsável pelo famoso inquérito envolvendo as mortes na rua do Arvoredo, ocorrido no longínquo ano de 1864. o caso foi tão escandaloso para a época (segundo reinado) que ela só sobreviveu como lenda — inclusive, por muitos anos, muita gente achou que era lenda mesmo.

em 20 relatos, a história ganha nova abordagem, num contexto de texto jornalístico, agora sob um novo contexto. Olhado em retrospectiva, o Crime da rua do Arvoredo hoje parece banal. A lenda só transformou um duplo assassinato num caso de canibalismo por parte de toda a população de Porto Alegre. (a história só seria recontada em seu devido contexto mais um século depois, com o O Maior Crime da Terra, de Décio Freitas).

Mesmo que as histórias não sigam um padrão, é curioso observar, em 20 relatos, que algumas delas, mais curtas e mais leves, sirvam como 'vinhetas' entre as crônicas mais dramáticos. Mas é importante notar tanto o apuro na hora de contar os tais relatos ( em alguns casos, elas ganham foros quase de auto-ficção, onde a primeira pessoa se confunde com o repórter-narrador (o elemento recorrente na obra é o trânsito entre a reportagem de jornal e a história policial, como se fossem complementares, e típicos desse voyeurismo literário do fait-divers e suas possibilidades poéticas, do folhetim ao jornalismo literário), tornando assim o leitor cúmplice do desdobramento do drama, o que empresta ao livro esse clima noir, de pequenos roteiros 'ligeiros'. O 20 Relatos Insólitos de Porto Alegre pegar e não largar. Já estamos esperando outros 20.

Saturday, March 25, 2017

Geração


Batida (no mau sentido) na Lancheria Redenção

Acabaram com o Baile de Porto Alegre. esse ano não vai ter aquele evento que era o ponto máximo da comemoração da Semana da Cidade.

Acho que todas as coisas boas se foram cedo demais. Cedo demais até para que a gente possa falar em nostalgia. Nostalgia parece coisa por demais avoenga, daquelas que a gente tenta recordar não sem um pouco de imaginação. Afinal de contas, se a gente lebra de tudo, então é porque a gente não viveu tudo aquilo.

Mas Porto Alegre parece uma cidade que envelheceu cedo demais.

Digo isso e retorno à Cristóvão Colombo. Quando a gente descia a Ramiro, dobrava à direita e começava a rotina dos bares. Havia o Grilo, com aquele toldo grande, lembra? do lado, havia uma brechó, o Pé da Múmia — que tinha inclusive uma gata gorda que ficava sentada em cima dos livros e discos e ai de quem ousasse mexer com ela ali.

Mais adiante, tinha o Bar do Walter. Verdadeiro pé sujo, mas com m cardápio proustiano. Quem não lembra do filé de porco á milanesa, com aquela travessa de arroz fumegante junto? Ou então, a gente variava o cardápio, e ia no Xuvisco, que fica embaixo, até hoje. O Walter se mudou — foi para a Dr. Vale, e vocês sabem o que eu penso a respeito de bares que mudam de endereço.

Havia muitos outros, como a Cantina Roma, ali, defronte á Brahama, muito antes daquilo virar shopping. Eu morava no Edelweiss e aspirava todas as madrugadas aquele sarro de cerveja sendo preparada.

Hoje, o único bar da Cristóvão que ainda insiste em existir é o Vassouras, na esquina da Câncio Gomes. Passei na frente sexta de noite. Havia um público interessante. Claro que temos ainda o Alfredo, mas ele não conta. Não é propriamente um bar como era o Grilo ou o Walter.

Mas mudei de assunto: estava falando do Baile da Cidade. ele ocorria sempre no sábado da Semana. Não recordo da última edição no parque. Mas lembro que, até os anos 80, havia ainda a vida noturna da Oswaldo Aranha à noite, já naquela fase entre meados dos 80 até 1998.

Por que 1998? Explico. Depois daqueles incidentes que foram chamados de Berlim-Bonfim, a vida noturna na Oswaldo até que durou bastante. A verdade é que, aos fins de semana, aquela parte do Bonfim atraía um número considerável de gente. Às vezes, inconsíderável. Aos domingos, era um negócio weird. lembro de ficar depois do Brique por ali. Até ali pelas cinco da tarde, começava a festa. Era tanta gente que as pessoas conversavam no meio da rua, na frente do Araújo. No Mercado, havia o Luar Luar, com suas mesas que iam calçada afora. Nos fins de tarde, já não havia mesas. A Lancheria também lotava, assim como o João e o Bar Redenção.

Quem chegava atrasado não tinha nem onde ficar para beber. Mas isso não era problema, dada a quantidade de ambulantes vendendo toda a sorte de bebidas possível.

Um domingo comum na Oswaldo era encontrar algum conhecido na Oswaldo, cercado de grupos — muitos punks de verdade, com cabelo moicano e roupas cheias de pregos e penduricalhos. Dali a pouco, rolava aquela vontade de beber algo. A grana era pouca, até que a gente juntava uns morlacos e regateava com algum tio ou tia ambulante a vende rum copo de batida. De repente, você encontrava outro conhecido, rolava um crowdfunding dos brothers e a gente arrecadava mais um copo de trago.

Mais adiante, aparece algum amigo endinheirado com um outro amigo idem e dava para encarar uma Lancheria do Parque. Encarar em termos. Ali pelas seis, sete (ainda hoje), o espaço é disputado. Não existem mesas. Como a lanchera disponibilizava copos de plástico, isso aumentava o consumo mesmo que a gente tivesse que ficar na rua. E, com o balcão do lado, a calçada se comprimia de tanta gente — gente na via, gente na calçada, gente no canteiro, gente por toda Oswaldo. Naquela altura, os ônibus e carros tinham que debriar para poder passar no meio da multidão. Era como se fosse um desses be-ins tão na moda hoje, porém nada combinado. As pessoas simplesmente iam.

Por isso que aquela música do Frank Jorge faz todo o sentido. O "Amigo Punk" nada mais é que uma crônica daqueles dias: punks atravessando a Oswaldo para lá e para cá. Muitas vezes, aquele populacho ficava por ali até a madrugada. O povo arrefecia, mas os bares continuavam, muitos ficavam madrugada adentro. Às vezes, era comum você chegar de noite na Lancheria, e ficar só no vinho (quando beber era barato no Bonfim), e dê-lhe conversa. Sempre tinha alguém para conversar e alguém para juntar os morlacos para a próxima taça de vinho.

De repente, a noite morria na Lancheria. Aí, a gente, já transformado em Mr Hyde, ia procurar mais algum conhecido para pagar uma cerveja no Bar do Beto ou arredores. Ou aproveitava o mundaréu de gente na Lancheria e ficava no balcão, roubando cerveja de alguém que saiu e deixou munição no copo. Lembro de tardes malucas com gente até dependurada do lustre na Lancheria. de repente, aquele blend de maconha do banheiro. E lá ia o Adelar com algum garçom buscar os malucos.

Em 1998, eu lembro do Baile da Cidade. Acho que nunca, antes, nem depois, foi tanta gente. Naquele ano, o grande sucesso aqui era a Hard Working Band. Eles tocavam em todas as partes, no Opinião eram figurinhas batidas. estavam lançando um disco gravado ao vivo no Salão de Atos da PUCRS (a gente tava lá!) e iam ser o piece de resistance do Baile.

A gente conhecia os caras. e juntou um pessoal do estágio em jornalismo para assistir ao show. Parecia que tava toda Porto Alegre dentro da Redenção. eu cheguei cedo, com a grana contada. fiquei tomando umas latinhas de Antárctica no Zé do Passaporte (o antigo, ainda no tempo do Zé, no trailer). Depois, fiquei assistindo ao um casamento (prá matar tempo) na Santa Terezinha, depois fui para o parque. O pessoal começou a chegar. E dê-lhe cerveja, cerveja, até a hora do show. Apareceu um professor nosso, e ele tava com uma garrafa de uísque. e aquilo rodou, literalmente. Depois da Hard Working, ia tocar uma banda de baile, mesmo. No intervalo, já embalados, a gente foi esticar na Lancheria. E dali, aquela coisa. Amigo vai, amigo vem, garrafa de cerveja vai, garrafa de cerveja vem, eu já tava com a tampa cheia, mas positivo operante.

Isso até quando eu realmente fiquei trêbado. subi numa árvore e fiquei gritando que eu era o Billy Shears. Depois, recordo de ver meu chefe passando com a esposa e me vendo pagando vexame ali. O resto eu esqueci. Uma amiga depois me explicou que ela me levou até em casa, e que eu não conseguia andar sem me escorar pela grade. O que eu lembro foi que eu acordei no capacho do 802 (eu morava no 702) na manhã seguinte.

Aquele foi o último baile. No fim do ano, o Olívio ganhou a eleição e o Bonfim foi uma festa. Acho que foi a última vez que eu vi a Oswaldo cheia de gente — e foi certamente a última vez que eu fui no Luar Luar. Um ano depois, como num vendaval, tudo mudou: o Mercado fechou e os bares foram juntos. Luar, Escaler.

O Redenção fechou, o João começou sua lenta agonia, junto com o Bristol e Baltimore. O Araújo resistiu por mais alguns tempos, até 2001. Depois, fechou por quase uma década. E todos aqueles bares que viviam em função desse público, como o Vermelho 27 ou outros, efêmeros, pela volta do HPS, foram sumindo. O que restou, como o Bar do Beto, acabou sofrendo o lógico processo de gentrificação (e que também mudou de lugar).

Acho que toda aquela época acabou numa vomitada épica com a cara enfiada na privada do Bar do João depois de uma noite misturando vinho com cachaça e cerveja. Daquelas que a ânsia continua e não tem mais nada para sair.

E, como no poema do John Updike, a gente nem desconfiava que era uma geração.





Tuesday, March 21, 2017

Um Homem Célebre


Bach

Tenho um professor de música que sempre diz que todos os tratados teóricos musicais são feitos a posteriori. Isso quer dizer que toda o legado histórico de epifanias de compositores que fizeram a história da teoria musical através dos tempos só pode ser elaborada de forma diacrônica. Isso implica dizer que, no caso da música, a prática sempre irá preceder a teoria, e jamais o contrário.

A prática vem antes da teoria. A prática é quem viabiliza a 'teorização'. Assim, foi preciso um longo caminho para a consolidação de práticas e experimentos em diversas épocas e momentos para que toda a teoria fosse sendo observada com vistas a uma possível sistematização.

No caso do Barroco, toda a chamada era do "baixo contínuo" formou-se desde Monteverdi e os bardistas (os primeiros músicos de corte que passaram a lidar com uma voz só mas acompanhada com um instrumento (obbligato), ao invés da tradicional polifonia dos tempos de Josquin e Palestrina) até 1750.

Quem basicamente consolidou esse tipo de música e cifrou ela foi justamente Bach. Bach não foi um inventor, não inventou uma nova forma de fazer música. Ele pegou toda a tradição do baixo contínuo e levou-a ao paroxismo. Assim como Palestrina representou o fim da polifonia (que começou lá no tempo da Ars Nova, lá no século XIV.

O baixo continuo é um produto do século XIII. Na tentativa de criar um espetáculo cênico como numa recriação da tragédia grega, eles optaram pela substituição do canto coral pela ária. O baixo contínuo seria a cama onde a voz solo deitava-se. Esse formato iria ser a base da música barroca (e que os ouvintes modernos podem reconhecer bem, ao distinguirem a forma como o baixo é tratado no Barroco com relação ao classicismo). O baixo contínuo já estava presente na ópera Orfeo, de Monteverdi, de 1607, por exemplo.

1750 foi o ano da morte de Bach. Mesmo tratando-se de uma convenção, é ponto pacífico afirmar que o Barroco morreu com ele. Afinal, em 1750, uma nova geração de músicos já havia há muito superado o baixo contínuo e produzia música de forma e temática diversas. É importante lembrar que o século XVIII é o das Luzes. Naquele momento, a música religiosa estava em desuso, como se fosse um insidioso atavismo de uma sociedade aristocrática, diferente do espírito burguês que nascia com o Iluminismo.

Quer dizer, Bach não era um inventor, não um elemento de transição dentro do estilo; ele foi o fim de um ciclo gigantesco da história da música. E quando ele morreu, ele não era ninguém. ele era um arauto de uma arte decadente. Algo como (usando de um jargão da imprensa) um dromedário do tempo da máquina de escrever, do copidesque, do folhetim e do famoso artigo de fundo, que sempre usa algum tipo de formalismo tipo "preclaro amigo" numa época de jornalismo online.

Mozart, por exemplo, quando referia-se a Bach, ele queria falar de Carl Philipp Emanuel, que era um expoente do Classicismo de sua época. Os filhos de Bach, Carl e Johann Christian, por sua vez, já eram adeptos do classicismo, um novo estilo que surgiu quando bach ainda era vivo. Para se ter uma ideia: quando Carl Philipp Emanuel convidou o velho Bach para conhecer Frederico da Prússia, ele foi introduzido ao pianoforte.

O mestre de Eisenach experimentou aquele novo tipo de teclado, porém, não gostou. Afinal de contas, passou a vida toda afinando e consertando órgãos e compondo em espinetas e cravos. Um piano era demais para ele. era como convidar alguém que passou a vida toda atrás de uma Olivetti a escrever e salvar um texto no Word (a minha comparação é esdrúxula, mas dá para ter uma ideia do que aconteceu).

Bach morreu e toda uma época desapareceu com ele, desapareceu sem vestígios. Mozart foi um músico de transição já dentro do classicismo. Bach pai foi um músico do fim do Barroco, que foi esquecido, como uma herança de um passado que não valia a pena ser relembrado. Bach pai só seria redescoberto dois anos depois da morte de Beethoven, em 1829, já no começo do Romantismo. Como se sabe, uma das características do Romantismo é esse retorno ao passado.

A redescoberta valeu a pena, mesmo que a música religiosa não fosse uma coisa muito em voga em meados do século XIX. Mesmo assim, Mendelsohn apresentou a um novo público a Paixão segundo São Mateus, de Bach, e a cantata causou grande espanto. A partir dali, Bach pai se transformaria num símbolo da música alemã e influenciaria toda a segunda geração de músicos do estilo - mesmo que, durante essa 'idade das trevas' de esquecimento da arte de Johann Sebastian, ele fosse ainda um "músico dos músicos". sua música não era executada em público, mas algumas de suas partituras não eram desconhecidas de compositores que antecederam essa renascença bachiana.

Quando Bach escreveu suas maiores obras, a Missa em Si Menor, a Oferenda Musical e a Arte da Fuga, ninguém queria mas saber daquele tipo de música. O curioso é que, mesmo sabendo que, a rigor, essas peças eram formalmente impossíveis de serem executadas (A Missa em Si era católica, e não luterana), ao contrário do que era comum durante a sua vida, ele não compôs sob encomenda de nenhum príncipe ou margrave: escreveu-as para ele mesmo (assim como Mozart escreveu o Requiem e as duas últimas sinfonias para si).

E Bach, ao contrário de Vivaldi, não se tornou popular porque não escreveu óperas. e por que Bach não escreveu óperas? Ele não gostava? Não, não era bem por isso. Na verdade, isso se deu justamente porque ele vivia pregado no trabalho de mestre de capela nas cidades onde viveu (muitas vezes, isso exigia dedicação exclusiva) e, em geral, essas cidades (Kothen, Weimar, Leipzig) não tinham casas de ópera. Leipzig chegou a ter um teatro, mas ele foi demolido pela municipalidade anos antes de Bach mudar-se para lá, em 1723.

Vivaldi viveu em Veneza, Viena, empresário musical, como Haendel, que foi para a Inglaterra; Bach viveu naquele mundo pequeno da Turíngia. Bach vivia andando pelo sul da Alemanha, de lá para cá. se formos ver, Arnstadt, Mühlhausen, Weimar, Leipzig, ele viajava muito, contudo, não saia dos mesmos lugares.

Mas, mesmo assim, Bach sabia de tudo o que tava acontecendo na Europa daquele tempo e conhecia a obra do Vivaldi, por exemplo. Inclusive, Bach transcriou vários concertos do mestre vienense, curioso que era, sempre queria saber o que estava acontecendo pelo mundo da música de seu tempo.

Aliás, Bach compôs em vários estilos, gêneros, porém não escreveu óperas, mas chegou perto. havia um café em Leipzig, chamado Zimmerman. Para o dono, ele escreveu cantatas profanas. Que, na verdade, não eram bem cantatas (embora formalmente tivessem a estrutura típica de ária-recitativo, mas não tinham coros). Eram, na verdade, variações baseadas pelo modelo da cantata barroca, mas por serem profanas, a generalização delas é algo sempre em disputa. Para muitos, tratam-se de operetas. Hoje elas são pouco conhecidas (não estão entre os temas mais conhecidos do mestre de Eisenach), mas são bem interessantes.

Aí alguém vai me dizer: "o religioso Bach escreveu...operetas??". Sim. Aqui está:



Naquele tempo, o café estava na moda por lá, era ainda uma iguaria rara, difícil de achar na Europa de meados do século XVIII. A história é simples: de um pai desesperado porque quer que a filha case mas não quer que ela tome café (ela é viciada na coffea arabica). Ela, contudo, só topa o consórcio se o futuro noivo aceite o seu hábito de tomar café.

Monday, March 20, 2017

Bye Bye, Johnny


Chuck no documentário Jazz on a Summer's Day, de 59.

Chuck Berry não apenas influenciou como determinou a existência de uma geração de músicos após ele.

Muitos sequer se deem conta, mas Chuck foi o primeiro grande letrista do rock. “School Days” é um dos primeiros hinos da juventude transviada. É um blues, mas a temática é diversa: o jovem que sai da opressão da sala de aula, chega no snack bar, e bota moedas na jukebox para dançar. Ninguém tinha pensado nisso. Chuck era o cronista dos rebeldes sem causa. “Sweet Little Sixteen” conta a febre do rock avassalando a costa leste da América e uma menina implorando aos pais para que eles a deixar ver o show. “Rock’n Roll Music” é um comentário bem humorado e irônico sobre alguém que quer colocar o rock no meio de outros gêneros musicais e conquistar o seu lugar ao sol.

Esses exemplos mostram que Berry soube ser o letrista da boa nova do rock, tematizando o novo ritmo com inteligência. Claro que isso não iria passar batido pela geração de jovens músicos britânicos que, depois que a onda americana morreu, em 1959, resolveram helenizar a boa nova de Chuck para o mundo.

Mais: invadiram a América anos depois tocando “Roll Over Beethoven”. Centenas de milhares de garotos ingleses que resolveram montar conjuntos depois de ouvir e ouvir aqueles disquinhos da Chess com clássicos imediatos como “Carol”, “Maybeline”, “Reelin’ And Rockin’”. Chuck podia soar como se suas canções fossem nada menos do que variações sobre o mesmo tema. Porém, eles sabiam que essas músicas eram feitas para eles. Berry falava a linguagem desses garotos, eis a identificação. Irresitível.

Chuck como letrista ia além daquele esquema “garoto ama garota”. Duas que eu mais aprecio dele vão além do tema. Uma é “Memphis Tenesssee”, onde ele conta as desventuras de um pai em busca da filha, cuja esposa levou-a para longe do desesperado progenitor. Essa era uma das favoritas de John Lennon, que fazia questão de ser o lead vocal nos show dos Beatles — e que a gravou várias vezes, contudo nenhuma realmente para um disco oficial.

Outra é “Promised Land”. Essa ele compôs na cadeia. E imaginou um garoto do leste americano tentando a sorte pegando a estrada para a Califórnia. A música ele criou usando um mapa rodoviário dos Estados Unidos para roteirizar a intrépida viagem do rapaz, até quando ele chega na Terra Prometida e, de brincadeira, liga para os seus, do outro lado do país. Elvis fez uma versão definitiva desse que é um clássico subestimado de Chuck.

Chuck foi o primeiro guitar hero. Pelo menos, se não em virtuososmo, certo que sim em matéria de proeminência. Ele sabia que não precisava ser mais do que ele era, porque ele tinha as qualidades suficientes para um guitar hero: inteligência, talento e, além de tocar, ele interpretava todas as suas canções. Por isso todos os meninos ingleses queriam ser como ele.

Keith Richards disse no livro Life que roubou todos os licks e riffs possíveis do Chuck. Na verdade, isso é apenas uma confissão. Afinal de contas, todo mundo sempre soube disso. Quem não sabe, então conhece os Stones mas nunca ouviu Chuck Berry na vida. Aliás, a primeira gravação dos Stones na Decca foi, justamente, um sucesso então recente de Chuck, “Come On” (de 1962, quando retomava sua carreira). Do primeiro disco, eles gravaram “Carol” e inspiraram-se na versão de Berry para “Route 66” (originalmente um tema de Nat King Cole dos seus tempos de pianista de jazz).

Falando em Keith Richards como grande admirador de Chuck, ele sabia que seu ídolo tinha um “irmão” — Johnnie Johnson. Aliás, mais do que um irmão. Foi Johnson quem catou Chuck para seu trio de jazz, assim que o solista original, um sax-tenor chamado Alvin Bennett, teve que sair do grupo por problemas médicos.

Foi Berry quem mudou o estilo da banda, ao ponto de pegar um tema deles, “Ida Red”, e transformá-la em “Maybeline”. A Chess gostou do som e assinou com eles. “Wee Wee Hours”, instrumental de Johnson também ganhou letra e a marca registrada de Chuck. Como tempo, o “trio” virou a banda de apoio de Chuck quando este tornou-se o primeiro da lista.

Berry e Johnson então firmaram uma parceria de quase duas décadas compondo e gravando juntos, além de criarem clássicos tanto da carreira de Chuck quanto da história da música ocidental do Século XX, “Reelin’ and Rockin’”, “Rock ‘n Roll Music”, “Sweet Little Sixteen”.”Carol”, “Nadine”, “Johnny B Goode” e a citada “School Days”.

Johnny era o verdadeiro “Johnny B. Goode” da letra (na verdade, “be good”, como que “comporte-se”). Johnson tinha sérios problemas de bebida (só largou o trago nos anos 90, depois de quase cair duro no palco) , e isso Chuck não tolerava. Inclusive, não queria que ninguém bebesse durante suas turnês. Esse foi um dos fatores que acabou separando a grande dupla.

Johnson desapareceu com a poeira do tempo, e virou motorista de ônibus em St. Louis por anos, até que o guitarrista dos Stones conseguiu acabar com o racha entre ambos, e pôs Johnnie como pianista no documentário Hail! Hail! Rock’n Roll, de 1987. De repente, o parceiro de Berry estava de volta ao mundo do show-biz.

Keith não existiria sem Berry, John Lennon também. é possível imaginar um mundo sem Berry, Beatles e Stones? É como imaginar a evolução da música ocidental sem Bach. O que iria resultar dessas ausências?

Voltando ao começo. Um exemplo da interferência recorrente de Berry no som dos Stones é é “Star, Star”, que é uma transcriação do som do Berry. Assim como “Subterranean Homesick Blues”, de Bob Dylan, é “Too Much Monkey Bussiness”, “Surfin’ USA” é totalmente decalcada de “Sweet Little Sixteen”, “Come Togheter” é inspirada em “You Can Catch Me” e o baixo de “Talkin’ Bout You” é o começo de “I Saw Her Standing There”, dos Beatles.

Se não fosse por Chuck, todo mundo hoje estaria tocando guitarra como se toca violão. Ele foi o profeta e evangelista da guitarra, Até quem nunca ouviu ele foi influenciado por Chuck Berry e não sabe (“Cigarretes And Alcohol, do primeiro do Oasis, é inspirada em Bang a Gong, do T. Rex que, por sua vez, é decalcada de… “Little Queenie”). Assim como um pianista para considerar-se como tal deve conhecer bem pelo menos todos os prelúdios e estudos de Chopin, um guitarrista não existe sem conhecer os riffs e licks de Chuck Berry.

Friday, March 10, 2017

Chinaski

No Carnaval eu estava cuidando da casa de um amigo enquanto ele viajava.

Minha tarefa diária era mais ou menos colocar o pastor alemão dele na entrada no começo da noite e abastecê-lo de ração, que ele faria o resto, latindo para os passantes.

Porém, nesse meio tempo, notei que era comum entrar na casa 1 quase sempre sorrateiramente, pela janela, um gato amarelo malhado.

Na verdade, quando o cachorro ficava no pátio da casa, durante o dia, o gato aparecia. na verdade, ele não aparecia: ele miava. E era um miado longo e langoroso de tão triste. Era um miado triste, como um suspiro. Achei que fosse fome. E, de fato, ele era um gato bastante magro. quase não tinha culotes. Porém, ele não parecia ser um bicho de rua. Cogitei que fosse de algum vizinho.

Todo dia, ele dava o ar da graça. Passava pelo jardim da frente. quando eu ouvia o miado, corria para a janela. Mas não sabia o que fazer. eu só tinha a comida de cachorro para lhe oferecer. Ele rondava a entrada da casa, sempre com aquele miado triste. e ia embora.

Isso se dava esporadicamente, porém. eu nem podia notar, já que cuidava da casa penas durante o começo da manhã e à noite. Uma noite, eu trouxe comida da rua. Quando ele apareceu, eu ofereci. Deixei no jardim. O bichano apareceu, cheirou a comida (era batata doce picada com arroz). Porém não quis saber. Me correu a vista de baixo para cima, soltou aquele miado característico dele e foi embora.

Duas semanas depois, o sogro do meu amigo apareceu. Tirou o pastor para os fundos e foi buscá-los no aeroporto. Fiquei naquele sábado na casa. Antes, porém, saí para comprar alguma coisa no mercado. quando voltei, ouvi os miados do gatinho, do jardim. sentei-me no sofá da sala e fiquei lendo. De repente, notei que o choro do bicho estava perto demais.

Quando me dei conta, o gato estava dentro de casa! Fiquei surpreso, tentei chamá-lo, mas ele era impassível. Parecia avesso a qualquer comando. Entrou e foi andando pela casa, pelos aposentos, sala de estar, cozinha...cozinha! Lembrei que havia deixado o postigo da porta da cozinha aberto quando foi colocar as roupas para estender lá fora! O pastor podia ver o animalzinho e atacá-lo impiedosamente.

Fui correndo tentar impedir o encontro fatal. Quando chego, o gato e o cachorro estão se olhando — um de cada lado do postigo. O pastor abanava o rabo. O gato deu outro daqueles miados, e o cachorro sorria com o rabo. Isso durou cerca de um minuto. Então o gato voltou calmamente para a sala; de lá, para a janela e, dali, para o jardim, ganhando a rua.

Depois que meu amigo chegou, eu perguntei: "por acaso você conhece um gato assim, assim?". Ele respondeu: "ah, ele é o Chinaski". Diante da minha cara de espanto, ele explicou:

— Quando minha cachorra morreu, há algum tempo atrás, lembro que ela sempre me esperava na entrada da garagem, um pouco antes da escada que sobe para os fundos. Ela sempre me esperava ali. Quando ela partiu, eu fiquei pensando: sempre que eu chegar, não mais a verei ali. E, sempre que eu passar por ali, eu vou me recordar dela. Pois não é que, uma semana depois que minha cachorra morreu, esse gato apareceu do nada. E, do nada, ele me esperava sempre no mesmo lugar onde ele costumava me esperar — sempre no pé das escadas.

Eu ouvia. Então ele prosseguiu:

— Há coisa de um ano e meio atrás, meu sogro salvou de um incêndio esse pastor que eu tenho agora. Ele era um dos filhotes numa casa onde a proprietária morreu a o imóvel ficou á própria sorte, com os animais todos trancados, passando fome. Os bichos acabaram sendo salvos, todos foram doados, e eu fiquei com esse pastor. Ele era bem pequenininho. Então eu o deixei aqui no pátio. Porém, nessa época, eu tinha o gato. O Chinaski praticamente adotou o filhotinho. e, por meses, os dois viveram juntos, aqui. Até que o cão cresceu, e o gato deixou a casa. Vejo que ele sempre aparece por aqui, mas é muito raro. Na verdade, há meses que eu não tinha notícias dele — até que você me falou dele.

Depois ele foi até o quarto e me mostrou uma foto. Era o Chinaski com o pastor, ainda filhotes: os dois brincavam como dois irmãozinhos. Fiquei pensando que devia haver algo de espiritual nisso tudo. O gato parecia um espírito que abençoava alguma coisa, e ele meio que representou um ciclo na vida de todos ali.


Fui embora pensando em perdas e em grandes amizades.

Tuesday, March 07, 2017

100 anos de "Livery Stable Blues"



O começo do jazz há um século

Se o ponto de partida do samba foi a primeira gravação de “Pelo Telefone”, lançado nas festas de Momo de 1917, o Jazz como gênero também possui a sua respectiva certidão de nascimento, exatamente na mesma época: o lançamento de “Livery Stable Blues”, interpretada pela Original Dixieland Jass Band, há exatos 100 anos, no dia 7 de março de 1917. 
 
é curioso ver que muitas são as semelhanças entre os dois gêneros. Claro que, como no caso de “Pelo Telefone”, a importância da data de lançamento de “Livery Stable Blues” serve mais como uma referência. Assim como ocorreu com o samba, o jazz foi um processo que começou ainda no final do Século XIX. Como no caso brasileiro, quando Bahiano registrou o samba coletivo, porém atribuído à Donga e Mauro de Almeida (gravado por Bahiano) coube à Original Dixieland Jass Band a primazia de pontificar no primeiro disco do gênero.
 
 A Original Dixieland Jass (ainda com dois esses) Band tava a chance de gravar um disco porque, à época, eles faziam muito sucesso divulgando a música de Nova Orleãs em Chicago e principalmente em Nova Iorque. Por conta disso, eles foram responsáveis pela popularização do gênero dixieland pelo país afora, mesmo que muito antes de podermos falar em Indústria Cultural.
 
 Aproveitando a grande chance em Nova Iorque, depois de uma audição frustrada na Columbia, a Original Dixieland Jass Band fechou contrato para um 78 rotações pela Victor, que interessou-se pelo progressivo interesse do público pelo jazz. Em 26 de fevereiro de 17, eles gravaram “Livery Stable Blues” no lado A, com “Dixieland Jass Band One-Step”. O disco fez grande sucesso. É possível que a disco tenha sido a primeira gravação comercial a atingir o marco de 20 mil cópias vendidas, a sete centavos de dólar cada. Nem Enrico Caruso, com toda sua glória e reputação, conseguira vender tanto com apenas um disco. 
 
Em 1914, Freddie Keppard viajou à Los Angeles para tocar jazz na Costa Oeste, com um sexteto chamado The Original Creole Orchestra. Em pouco tempo, o trompetista iria tornar-se uma lenda, tocando em espetáculos de vaudeville por todo o país. Contudo, ele tinha medo que outros músicos o copiassam. Tanto que, a fim de ‘esconder’ seu estilo, ele cobria as mãos com um lenço durante as apresentações no palco. 
 
Na mesma Victor que, três anos depois gravaria “Livery Stable Blues”, em dezembro de 1915, quando a Creole estava em Nova Iorque, ele declinou de um convite para gravar um disco. Keppard tinha tanto medo que roubassem seu estilo ouvindo os discos que ele deixou passar a grande chance. 
 
Por ironia do destino, coube a um grupo branco a tal primazia de gravar o primeiro disco de jazz. Ao contrário de Keppard, o filho de italianos Nicky LaRocca, líder da Original Dixieland Jass Band era obstinado, excêntrico e ambicioso o suficiente para fazer qualquer coisa para não desperdiçar uma chance dessas. As duas faixas escolhidas para a sessão de fevereiro de 1917, “Livery Stable Blues” e “Dixieland Jass Band One-Step”, já eram bastante conhecidas em Nova Orleãs.

Boa parte do sucesso de “Livery Stable Blues” está no caráter cômico da gravação, onde os instrumentos de sopro imitam sons de animais: LaRocca fazia a corneta parecer uma galinha e Larry Shields fazia a clarineta soar como um galo. Foi a primeira vez que grande parte dos americanos travaram conhecimento com o jazz. O sucesso foi tão grande que o quinteto acabou realizando uma grande turnê pela Inglaterra. 
 
Mas como acontece com as melhores famílias, todo o estrondoso e surpreendente sucesso da Original Dixieland Jass Band não foi suficiente para que a banda resistisse por muito tempo. Quatro anos depois, ela estava oficialmente desfeita. 
 
Ainda em paralelo com “Pelo Telefone”. Assim como aconteceu com o samba amaxixado que nasceu na casa da Tia Ciata, a gravação de“Livery Stable Blues” também está metida em polêmicas. Inclusive, a sua importância na história do jazz está na querela em torno da opinião de Nicky LaRocca a respeito de sua música. 
 
Até o fim, de forma disparatada o líder do quinteto auto-proclamava-se o criador do jazz. Até aí, tudo bem; afinal, Jelly Roll Morton também morreu jurando que ele era o inventor do estilo.
Mas, como se não bastasse, LaRocca asseverava que o gênero era uma “criação exclusiva de brancos”. “Os negros”, dizia ele, “não tinham nada a ver com o processo”. Pelo contrário, Nicky ainda por cima defendia que os negros, segundo ele, aprenderam o jazz com os brancos. “Os negros não fizeram nenhum tipo de músicas que se assemelharam ao que os brancos fizeram em nenhum momento”, afirmou.

Outro paralelo com a primeira gravação do samba: O lado B de “Livery Stable Blues” foi acusada de ser plágio de “That Teasin’ Rag”, de Joe Jordan. Para escapar de processo, LaRocca publicou a partitura com outro nome, e aí então descaradamente com o seu nome como autor.

Já a Columbia, que não se interessou pela Original Dixieland Jass Band com medo que o disco encalhasse, com o êxito sem precedentes de “Livery Stable Blues”, resolveu chamá-los de volta, para que gravassem mais um disco. Dessa vez, para livrar-se problemas com direito autoral, o selo pegou duas músicas do Tim Pan Alley, a rua das editoras musicas de Nova Iorque: “Home Again in Indiana” e “At the Darktown Strutters Ball”.

Mesmo assim, o disco faz com que o estilo se tornasse popular o suficiente para que Nova Iorque e Chicago virassem celeiros de conjuntos oriundos de Nova Orleãs, provocando uma diáspora — justamente num momento crucial: No final dos anos 10, o mercado do jazz por lá estava totalmente saturado.

Em 1918, King Oliver era um dos emigrantes que deixava o sul para a Cidade dos Ventos, para fazer história, com sua Creole Jazz (já sem os dois esses) Band — tanto no meio-oeste quando em Los Angeles com sua corneta. Quatro anos depois, ele levaria para Chicago um protegido seu, um certo Louis Armstrong. E o resto é história.

Monday, March 06, 2017

O Segredo do Segredo de Joe Gould


Joe Gould


Joe Gould, o famoso boêmio do Village dos anos 40, que convenceu o Joseph Mitchell de que ele teria escrito uma História Oral "de nossos tempos" — que era maior do que a Suma Teológica, ganhou uma biografia há menos de um ano. Jill Lepore, colunista do New York Times e historiadora, resolveu ir além do "segredo" do mais famoso biografado de Mitchell. No passado de Gould, ela descobriu que ele esteve envolvido em casos de assédio sexual e racismo.

Joe Gould's Teeth narra toda a trajetória do boêmio do Bowery antes do encontro com Joseph — desde sua descendência, oriundo de uma família rica da Nova Inglaterra, até seu ingresso em Harvard. Porém, quando o repórter da New Yorker travou conhecimento com ele, Joe não passava de um mero pedinte, transitando pelas ruas e bares do Village, mendigando desde pontas de cigarro até uma mísera refeição — em geral, um salgado empestado de vidros de ketchup.

O que o diferenciava Gould dos demais milhares de mendigos de Manhattan é que ele era um ex-estudante de Harvard, um intelectual que estava interessando em escrever uma obra-prima, a História Oral. Foi justamente essa lenda por trás dele que atraiu Mitchell a fim de procurá-lo para um perfil para a revista.

O primeiro texto de Joseph, "O Professor Gaivota" (1942), consolidou a reputação do biografado. O segundo e derradeiro, "O segredo de Joe Gould" (1965), conta a história por trás da produção da matéria e o que aconteceu entre ambos a partir de então.

Ali, o jornalista revela que, um dia, conseguiu contato com um editor para publicar a tal História Oral (que Joe dizia ter escrito e deixado esboços com vários amigos. O editor insistiu que o ajudaria a recuperar todos os originais. Contudo, ele usou de uma surpreendente desculpa esfarrapada de que queria deixar o manuscrito "para ser publicado após sua morte".

Aí Mitchell enfureceu-se. quando ficaram a sós, o repórter insinuou que ele, na verdade, não tinha escrito coisa alguma, só alguns ensaios subliterários sobre o "efeito do tomate nos americanos", sobre índios do Dakota do Norte e coisas sobre seus pais. Para Joseph, o mais frustrante foi notar pelo menos duas coisas: ou Joe tinha ambição e não tinha talento, e sabia disso, ou tinha talento mas era um preguiçoso. "Não sou preguiçoso", respondeu o notório boêmio.

O perplexo Gould não disse nada sobre a alada acusação, nem confirmou nem negou. Mitchell, que havia feito um perfil dele na New Yorker, logo depois sentiu remorso por ter acusado sua fonte. Com o tempo, procurou demonstrar que não se importava com o segredo (a inexistência da História Oral) que, para ele, ora diabos, seria bem para a máscara de Joe para ter alguma reputação entre seus amigos e entre as pessoas que passaram a admirá-lo e cortejá-lo a parir da repercussão do perfil entre os leitores da revista.



Gould morreu gagá em 57 e Mitchell só contou o 'segredo' numa matéria antológica, também para a Yorker, mais de vinte anos depois da publicação da primeira matéria, que havia entronizado Gould, como o maior escritor subterrêneo das ruas do Village que jamais existiu e lenda viva do Bowery. O segredo era que, infelizmente, na verdade, ele não passava de uma farsa, embora ele, Joseph, tenha se identificado um pouco com o perfil procastinador de sua intrépida fonte de talvez ter, ele também, procastinado a sua obra-prima, já que ele, Mitchell, quando era jovem, também queria escrever ter a sua glória literária contado a história de um Ulisses de Manhattan, que nunca escreveu.

Jill Lepore vai além do mito criado ao redor dele, e além da própria mitologia consolidada pelos textos da New Yorker. Primeiro: ela sustenta que, depois de "O segredo", muitos leitores alegaram que Joe teria realmente deixado material referente ao que seria a História Oral, além dos ensaios que Mitchell conheceu.

Segundo: Joe chegou a trabalhar como jornalista e pesquisador quando jovem. Autista, ele passou por eletrochoques e sofreu lobotomia em 1949. No começo dos anos 20, ele fez estudos sobre Determinismo Social para o Laboratório Cold Spring Harbor. Para Jill, seu contato com os índios do meio oeste veio desse trabalho que, segundo ela, Joseph tratou apenas como se fosse uma passagem excêntrica na vida de Gould que, para ela, foi influenciado pelo eugenismo típico da época, e que isso influenciou profundamente sua visão racial.

Isso não o impediu de nutrir uma relação com a famosa escultora Augusta Savage. De acordo com Lepore, Joe a assediava de tal forma que ela foi obrigada a deixar Nova Iorque. Ela liga a relação maníaca de Joe com Mitchell que´, depois da repercussão do perfil, não conseguiu livrar-se de sua fonte (até que o jornalista o desmascarasse, embora não publicamente). Ela também entende que enquanto seus amigos o idealizavam como um homem que sofria pela sua arte, na verdade, ele era uma pessoa atormentada pela sua fúria e frustração. "Para mim, seu sofrimento não era nada romântico e seu ódio não era nada inofensivo", diz.

No fim, de sua folclórica figura de bufão do perfil de 1942, ele decaiu para a farsa literária de "O Segredo" e, agora, para o quasímodo de Jill Lepore. Ela nota que muito do que serviu para a entronização de Gould nos meios literários da época foi o apoio e a amizade que ele travou com gente como Malcolm Crowley, e.e cummings e até mesmo Ezra Pound.

Jill entende que a forma de entender essa "lenda" reside no fato de que eles (e muitos outros) queriam ajudá-lo a sair de uma situação de irreversível invulnerabilidade social(de certa forma, quando Joseph arranjou um editor para a sua História Oral, não estava querendo nada mais do que isso: que Joe encarasse o livro como um desafio e uma forma de poder pelo menos viver de uma possível renda proveniente dos direitos autorais, salvando-o de acabar em 'flophouses').

Por outro lado, ela também entende esse movimento como uma "conspiração literária" a fim de esconder a personalidade instável, selvagem e agressiva de Mr. Hyde-Gould em uma pessoa socialmente integrada. No entanto, se a autora destrói o mito da personalidade do lendário boêmio do Village, ela faz o caminho inverso ao de Mitchell ao tentar provar que, mesmo não tendo algum manuscrito que comprove isso, ele realmente escreveu um livro.

Lepore explica que, após a publicação de "O Segredo", muitos leitores enviaram cartas à redação da New Yorker, afirmando que possuíam esboços da História Oral. O próprio repórter, à época, respondeu dizendo que, se tivesse o material em mãos, iria finalmente fazer a retificação e comer o próprio chapéu.

No entanto, a história ficou como estava. A questão hoje, porém, é que não importa a qualidade ou a excelência do que restou nesses cadernos; mas, mais do que isso, o fato de que existe um legado — mesmo que, se, no fim das contas, fossem pastas e mais pastas de laudas escritas à mão com as mesmas digressões sobre índios e tomates que Mitchell encontrou (e a "história oral" que Joe relatou em séries de entrevistas em mesas de bar para provar que, sim, havia um texto, mesmo que apenas na sua cabeça).

Enfim, o que vale seria uma edição crítica do "algo" que corresponde à totalidade de seus manuscritos, para que a posteridade possa conhecer exatamente o que ele deixou quem sabe não como escritor, mas, como grafomaníaco. Afinal, Joseph mesmo relatou que havia sim manuscritos, mas quanto mais ele lia, mais ele descobria que ele versava sempre sobre os mesmos temas (Gould defendia-se, alegando que era a parte "ensaística" da História. Porém, de tão enfastiado das supostas mentiras de sua fonte, ele resolveu dar cabo do perfil antes que desistisse dela em favor de outra pauta).










Saturday, March 04, 2017

URSS no Divã


Capa do livro

Terminei o livro da Svetilana Aleskevich, Vozes de Tchérnobyl (ou Chernobyl, como prefiro usar aqui). Que coisa impressionante você ouvir a voz interior do povo russo da forma como ela fez. Não sei o que dizer. ela colocou a URSS no divã. A história da viúva do liquidador eu chorei acho que uns 40 minutos. é muita coisa para dizer e para se pensar.

Mas, como ela disse no discurso do Nobel, na verdade os livros dela no fim das contas, pelo método que ela emprega e o tema, são discursos sobre o mesmo tema. A relação do povo com o estado, com o passado soviético, o homem soviético, esse sentimento fatalista, essa coisa de ter que esconder essas histórias em favor do estado, do orgulho russo.

A loucura da forma como as pessoas foram tratadas como lixo na evacuação, aquilo é um quadro apocalítico. Antes de tudo eram pessoas, pessoas enterradas vivas, uma nação de seres humanos jogado na vala.

Uma história de guerra, da enfermeira que arrastou um soldado alemão, pôs o homem numa tala, e salvou um russo, eis que os dois acordam e, mesmo mortalmente feridos, começaram a matar-se, ela afastava os dois, no chão, se esvaindo em sangue, e o sangue deles se misturava e cobria a enfermeira que, em desespero queria apartar aquela briga absurda.

Os russos encaram a II Guerra como a Guerra Patriótica. Aquilo para eles é tudo, é mais que o 7 de setembro. Mas Chernobyl foi uma guerra que eles não entenderam. Na II Guerra, as pessoas queriam ir para o front, queriam defender de peito aberto a Rússia. Em Chernobyl eles foram tratados como gado.

Foi criminoso: ainda mais porque politizaram o episódio. Quem expusesse as contradições da forma como o Estado tratava o assunto era inimigo infiltrado. E queriam, como disse alguém, usar pás para lutar contra o átomo. Outro diz: o problema é que os russos sabiam conpreender o que era uma luta patriótica contra o inimigo. Eles souberam lutar contra Napoleão, contra Hitler, mas não estavam preparados para Chernobyl.

Não queriam dar máscaras antigás para "não causar pânico". Medo do pânico, desinformação, mentiras de que estava tudo bem, que era coisa da CIA fez com que a tragédia fosse muito maior. Hoje, na Ucrânia na Bielorússusia, de 14 homens que morrem só um morre de velho.

O resto são hibakushas russos, como no Japão. são os filhos de Chernobyl. Como eles, por décadas os hibakushas foram segregados. Viviam como em colônias penais agrícolas.. São pequenos reatores ambulantes. Até os mortos 'sadios' não queriam saber dos mortos radioativos, fala uma mulher, quando foi enterrar o marido. A chaga exposta, a angústia, o desespero daquelas pessoas marcadas para sempre é uma coisa que, para ver! Eu via aquelas fotos absurdas de Prípat e não entendia nada.

O que aconteceu. Uma imagem vale por mais de mil palavras. Mas aquelas fotos não são nada comparado com os relatos. Os relatos explicam tudo. É avassalador, desesperador. Assim como eu via aquelas meninas bonitas em fotos do front russo, como aquela atiradora de elite, Roza Chanina. Uma menina linda. O que ela estava fazendo no front? O que aquelas mulheres fizeram na II Guerra é inacreditável.

A História Oral que ela faz é banido da academia soviética. Era como no 1984. Quem controla o passado, controla o futuro. Não queriam saber de história oral. Queriam apenas propagar a versão oficial. Achavam que ela queria ser um Erich Remarque da vida. Não tem como não lembrar o John Hershey, Ele chocou o mundo quando deu voz àquelas pessoas e recontou a história delas no Hiroshima. Aquele livro já é desesperador, imagine o Vozes de Chernobyl. Quem paga o preço dessas famílias partidas e destruídas?

O fim de Vozes de Chernobyl prepara-nos para o seu mais recente lançamento no Brasil: o Fim do Homem Soviético. Como Svetilana Aleskevich fala, por conta da técnica e dos temas, os três livros se completam. Em algum momento, um homem fala: nós, diferentemente de outros povos, como o alemão, não aprendeu a lidar com a técnica, com a tecnologia. Nós sempre tratamo o trator como se fosse um cavalo empacado ou coisa parecida. Outros vão mais longe. Apontam o atavismo rural medieval de um país que se fez potência sem passar por um processo histórico como os demais. É der se pensar: esse é só o começo do degelo da União Soviética.