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Tuesday, February 25, 2020

Com os anjos do céu


Judee Sill

Lembro de ter ouvido Judee Sill numa época em que nós (eu) caçávamos álbuns em mp3 na internet, quando houve um surto de vazamento de discos que, até então, estavam inacessíveis a todos nós. Porém, mais recentemente, depois de ler um artigo recente sobre ela no obituário do New York Times, assinado pelo jornalista Minju Pak. Achei que ela fosse uma cantora no estilo da Laura Nyro ou como suas contemporâneas, Joni Mitchell. Inclusive, foi através daquela turma de Laurel Canyon ligada ao Crosby, Stills, Nash que ela chegou ao disco. 

Ela morreu de overdose de heroína numa época, os anos 970, onde lembro de ler um artigo do Village Voice (desenterrado no Twitter do periódico recentemente), que fala da quantidade de gente que exagerou no uso de drogas numa época de hedonismo e de excessos, como Danny Whiten, Tim Buckley, e outros. Soma-se ao fato de que ela representa o estereótipo do artista que não foi reconhecido em seu tempo, como Van Gogh, talvez o representante magno disso.

E some-se mais ainda a isso o fato de que ela veio de um histórico de perda do pai, de violência familiar, de uso de drogas, de internações e de umaprisão. Quando ela saiu, Judee, mesmo admitindo que seria uma junkie,descobriu na música uma oportunidade do que ela disse que era poder fazer algo para si, e não contra.

Ela também aprendeu a tocar piano sozinha e, depois, tornou-se organista de uma igreja perto de onde vivia. Esse aprendizado certamente foi crucial para o desenvolvimento de sua música. Se formos escutar canções como “Heart Food” ou “The Kiss”, seu estilo está muito mais próximo de uma criação camerística. Nesta última,  é possível vislumbrar uma forte influência das árias de Bach, um compositor que ela estudou.

Quando eu resolvi escutar a sério, eu fiquei deslumbrado com a qualidade de sua produção, que parece está mais chegada à música de um Brian Wilson ou de Nick Drake.  O primeiro, por causa de suas harmonizações; o segundo,por conta de sua música difícil e que a frustrou, de certa forma, porque acho que Sill deveria ter tentado uma carreira em música erudita, onde certamente seria “entendida”, ao invés de se lançar como cantora folk, o que ela, com efeito, não era. Ou era, mas era muito mais do que isso. 

Porém, estava num mundo de cantores desse estilo, primeiro como compositora para os Turtles e, depois, excursionando com Nash e divulgando seu trabalho, cujo ponta pé foi uma demo que ele enviou à recém fundada Geffen Records, que estava à procura de folk singers. .

A história dela  lembra bastante a de Drake, com a diferença de que ele realmente era avesso ao show biz e não conseguia se adaptar à rotina de shows,e um dia, vendo que estava longe do que demandava a indústria musical, recolhei-se à sua casa e morreu (ou suicidou-se).

Suas canções, como “Crayon Angels”, "The Donor",com um tema circular que ela trabalha ao longo de oito minutos, parece uma oração,  ou mesmo “The Kiss” ou “Abracadabra pareciam ser endereçadas a algum tipo de profunda espiritualidade. “The Kiss”, a primeira que eu ouvi, parece escrita não para um cara, mas para Deus. Ela construiu um mundo minado por um sentimento transcendente provavelmente como uma evasão de vida triste e vazia. E suas letras falam a partir de um outro mundo, como a canção do mundo dos anos, muito além da terra e de um amor puro e espiritual- e muito além do folk com a qual ela estava cifrada, com cantoras como Carole King ou Joni Mitchell, que eram muito mais pop.

Judee sill nasceu em Oakland, California, em outubro de 1944 e faleceu em novembro de 1979, com apenas 35 anos. Sobre seu caminho para a música, ela disse à Rolling Stone: “Pude ver que teria que escrever canções que eram sobre essas coisas [sobre sua vida particular]. Cheguei a algumas realizações fantásticas tentando fazer  s leis da natureza trabalharem para mim ao invés de contra. Senti que era meu dever comigo mesmo entrar nisso, e foi o que eu fiz”. Quando ela foi achada morta, ela tinha um manuscrito que muitos acharam que fosse uma nota de suicídio. 

Mas mais provavelmente, fosse mais uma de suas criações, que hoje foram como redescobertas. Mas assim como muitos de sua geração, como Buckley, Drake, Tim Hardin, ela vivia uma vida arriscada e com um histórico familiar que, de certa forma, explica toda uma vida de abandono, amores frustrados e excessos. Quem sabe o que é isso pode imaginar o quanto sua vida foi sofrida e seu apelo à música e a arte foi uma experiência engrandecedora e libertadora.

Também lembro que, na listagem dos 1001 albuns de Robert Dimery, inexplicavelmente seu livro, que redescobriu tantos elepês que tiveram o mesmo destino do trabalho de Judee, ou seja, passaram batido em sua época, contudo que foram desenterradas qual uma arqueologia sonora. Com certeza que seu disco, Heart Food, de 1973, deve estar entre os discos para se ouvir com os anjos do céu.  

Tuesday, March 21, 2017

Um Homem Célebre


Bach

Tenho um professor de música que sempre diz que todos os tratados teóricos musicais são feitos a posteriori. Isso quer dizer que toda o legado histórico de epifanias de compositores que fizeram a história da teoria musical através dos tempos só pode ser elaborada de forma diacrônica. Isso implica dizer que, no caso da música, a prática sempre irá preceder a teoria, e jamais o contrário.

A prática vem antes da teoria. A prática é quem viabiliza a 'teorização'. Assim, foi preciso um longo caminho para a consolidação de práticas e experimentos em diversas épocas e momentos para que toda a teoria fosse sendo observada com vistas a uma possível sistematização.

No caso do Barroco, toda a chamada era do "baixo contínuo" formou-se desde Monteverdi e os bardistas (os primeiros músicos de corte que passaram a lidar com uma voz só mas acompanhada com um instrumento (obbligato), ao invés da tradicional polifonia dos tempos de Josquin e Palestrina) até 1750.

Quem basicamente consolidou esse tipo de música e cifrou ela foi justamente Bach. Bach não foi um inventor, não inventou uma nova forma de fazer música. Ele pegou toda a tradição do baixo contínuo e levou-a ao paroxismo. Assim como Palestrina representou o fim da polifonia (que começou lá no tempo da Ars Nova, lá no século XIV.

O baixo continuo é um produto do século XIII. Na tentativa de criar um espetáculo cênico como numa recriação da tragédia grega, eles optaram pela substituição do canto coral pela ária. O baixo contínuo seria a cama onde a voz solo deitava-se. Esse formato iria ser a base da música barroca (e que os ouvintes modernos podem reconhecer bem, ao distinguirem a forma como o baixo é tratado no Barroco com relação ao classicismo). O baixo contínuo já estava presente na ópera Orfeo, de Monteverdi, de 1607, por exemplo.

1750 foi o ano da morte de Bach. Mesmo tratando-se de uma convenção, é ponto pacífico afirmar que o Barroco morreu com ele. Afinal, em 1750, uma nova geração de músicos já havia há muito superado o baixo contínuo e produzia música de forma e temática diversas. É importante lembrar que o século XVIII é o das Luzes. Naquele momento, a música religiosa estava em desuso, como se fosse um insidioso atavismo de uma sociedade aristocrática, diferente do espírito burguês que nascia com o Iluminismo.

Quer dizer, Bach não era um inventor, não um elemento de transição dentro do estilo; ele foi o fim de um ciclo gigantesco da história da música. E quando ele morreu, ele não era ninguém. ele era um arauto de uma arte decadente. Algo como (usando de um jargão da imprensa) um dromedário do tempo da máquina de escrever, do copidesque, do folhetim e do famoso artigo de fundo, que sempre usa algum tipo de formalismo tipo "preclaro amigo" numa época de jornalismo online.

Mozart, por exemplo, quando referia-se a Bach, ele queria falar de Carl Philipp Emanuel, que era um expoente do Classicismo de sua época. Os filhos de Bach, Carl e Johann Christian, por sua vez, já eram adeptos do classicismo, um novo estilo que surgiu quando bach ainda era vivo. Para se ter uma ideia: quando Carl Philipp Emanuel convidou o velho Bach para conhecer Frederico da Prússia, ele foi introduzido ao pianoforte.

O mestre de Eisenach experimentou aquele novo tipo de teclado, porém, não gostou. Afinal de contas, passou a vida toda afinando e consertando órgãos e compondo em espinetas e cravos. Um piano era demais para ele. era como convidar alguém que passou a vida toda atrás de uma Olivetti a escrever e salvar um texto no Word (a minha comparação é esdrúxula, mas dá para ter uma ideia do que aconteceu).

Bach morreu e toda uma época desapareceu com ele, desapareceu sem vestígios. Mozart foi um músico de transição já dentro do classicismo. Bach pai foi um músico do fim do Barroco, que foi esquecido, como uma herança de um passado que não valia a pena ser relembrado. Bach pai só seria redescoberto dois anos depois da morte de Beethoven, em 1829, já no começo do Romantismo. Como se sabe, uma das características do Romantismo é esse retorno ao passado.

A redescoberta valeu a pena, mesmo que a música religiosa não fosse uma coisa muito em voga em meados do século XIX. Mesmo assim, Mendelsohn apresentou a um novo público a Paixão segundo São Mateus, de Bach, e a cantata causou grande espanto. A partir dali, Bach pai se transformaria num símbolo da música alemã e influenciaria toda a segunda geração de músicos do estilo - mesmo que, durante essa 'idade das trevas' de esquecimento da arte de Johann Sebastian, ele fosse ainda um "músico dos músicos". sua música não era executada em público, mas algumas de suas partituras não eram desconhecidas de compositores que antecederam essa renascença bachiana.

Quando Bach escreveu suas maiores obras, a Missa em Si Menor, a Oferenda Musical e a Arte da Fuga, ninguém queria mas saber daquele tipo de música. O curioso é que, mesmo sabendo que, a rigor, essas peças eram formalmente impossíveis de serem executadas (A Missa em Si era católica, e não luterana), ao contrário do que era comum durante a sua vida, ele não compôs sob encomenda de nenhum príncipe ou margrave: escreveu-as para ele mesmo (assim como Mozart escreveu o Requiem e as duas últimas sinfonias para si).

E Bach, ao contrário de Vivaldi, não se tornou popular porque não escreveu óperas. e por que Bach não escreveu óperas? Ele não gostava? Não, não era bem por isso. Na verdade, isso se deu justamente porque ele vivia pregado no trabalho de mestre de capela nas cidades onde viveu (muitas vezes, isso exigia dedicação exclusiva) e, em geral, essas cidades (Kothen, Weimar, Leipzig) não tinham casas de ópera. Leipzig chegou a ter um teatro, mas ele foi demolido pela municipalidade anos antes de Bach mudar-se para lá, em 1723.

Vivaldi viveu em Veneza, Viena, empresário musical, como Haendel, que foi para a Inglaterra; Bach viveu naquele mundo pequeno da Turíngia. Bach vivia andando pelo sul da Alemanha, de lá para cá. se formos ver, Arnstadt, Mühlhausen, Weimar, Leipzig, ele viajava muito, contudo, não saia dos mesmos lugares.

Mas, mesmo assim, Bach sabia de tudo o que tava acontecendo na Europa daquele tempo e conhecia a obra do Vivaldi, por exemplo. Inclusive, Bach transcriou vários concertos do mestre vienense, curioso que era, sempre queria saber o que estava acontecendo pelo mundo da música de seu tempo.

Aliás, Bach compôs em vários estilos, gêneros, porém não escreveu óperas, mas chegou perto. havia um café em Leipzig, chamado Zimmerman. Para o dono, ele escreveu cantatas profanas. Que, na verdade, não eram bem cantatas (embora formalmente tivessem a estrutura típica de ária-recitativo, mas não tinham coros). Eram, na verdade, variações baseadas pelo modelo da cantata barroca, mas por serem profanas, a generalização delas é algo sempre em disputa. Para muitos, tratam-se de operetas. Hoje elas são pouco conhecidas (não estão entre os temas mais conhecidos do mestre de Eisenach), mas são bem interessantes.

Aí alguém vai me dizer: "o religioso Bach escreveu...operetas??". Sim. Aqui está:



Naquele tempo, o café estava na moda por lá, era ainda uma iguaria rara, difícil de achar na Europa de meados do século XVIII. A história é simples: de um pai desesperado porque quer que a filha case mas não quer que ela tome café (ela é viciada na coffea arabica). Ela, contudo, só topa o consórcio se o futuro noivo aceite o seu hábito de tomar café.