Friday, April 07, 2017

Não Seja Já! *

Se eu tiver que morrer na flor dos anos por favor meu deus onipotente onisciente e onipresente por favor eu lhe imploro de joelhos por que o que há de mais sagrado por favor please please me não seja já eu quero ouvir na laranjeira à tarde cantar suspiros e saudades o sabiá nas palmeiras de minha terra amada e abençoada que há de tragar a minha derradeira última quimera que a bicharia há de roer todo o meu coração quando em meu peito rebentar a última fibra que me enlaça à dor vivente ai meu deus não me d~e esse tamanho desgosto pelo menos esse não por favor se eu tiver que morrer que não seja já que eu queria ver tanta coisa meu deus tanta coisa my sweet lord que anda na cabeça são tantas bocas que estão falando alto pelos botecos o que vive nos mercados o anil lavado vagando de verso em verso o azul dos céus suburbanos da leal e valorosa que eu quero pisar nos astros distraído não seja já pelo amor do senhor por favor que eu quero ouvir o João Gilberto cantar o pato que não é o pato que ganhou sapato e foi logo tirar retrato mas é o que vinha cantando alegremente quém quém que eu quero ouvir o Dorival cantar os clarins da banda militar e a Doralice e a Marina e a Rosa Morena e o samba da minha terra quero ver as três mulheres do sabonete araxá às 4:00 da tarde meu deus não seja já como dizia o Casimiro poeta pálido e triste lá de Indaiaçu, terra litorânea bonita e serena de entardecer enluarado saravá não me deixe morrer se não eu vou ficar triste de dar dó e o médico disse que é nervoso se eu tiver que morrer eu vou com gosto de fel para a sepultura e o céu até deve ser legalzinho mas não tem o Cruzeiro do Sul meu deus o Cruzeiro do Sul eu não quero ir deixar o meu Brasil varonil país do futuro nossos bosques têm mais vida que é país que vai prafente meu sr meu coração é verde amarelo branco azul anil ninguém segura esse país de todos os santos baianos barroco de pau ôco meu deus me leva sodade inté meu São Sebastião saravá oh eu não quero morrer que a vida é a arte do encontro embora sejam demais os perigos desta vida pelo amor doc~e não me deixa morre que caramba caramboles sou do samba não me amoles que eu quero ver Peri beijar Ceci quero ouvir meu bom disco de Noel que faz dança as arvre do arvoredo e faz a lua nascer mais cedo eu queto ver as jeunnes filles en fleur bicicletantes nas tardes ensombradas de coqueiros quero vestir camisa listrada e sair puraí em vez de tomar chá com torrada quero tomar Paratí se eu tiver que morrer palhaço das perdidas ilusões não sê tão ingrato meu deus espera um pouco, um pouquiiiito más já dizia o bodisatva julio igresias não sê tão ingrato meu deus do céu quero rever meu guaíba rever meu bem querer quero ler o róseo que é leitura indispensável quero terminar de ler aquele Eça que eu parei no ano passado e não continuei mais e esqueci a história quero ver quero ver quero ver me importo por favor me dá uns dois ou três anos pelo menos ó insensato coração porque me fizeste sofrer meu deus por favor não sejá já!






















[inner groove]























* Esse texto tirou terceiro lugar num concurso do Diretório Acadêmico Manuel Bandeira, em 1996, ou seja, há vinte anos. A história dele é engraçada, por isso eu decidi resgatá-lo (ia postar no ano passado, mas acabei protelando e protelando e protelando). Os textos selecionados foram publicados pela PUCRS através do Instituto de Artes, em 1997. Meu texto, uma brincadeira glosando clichês romântico-nacionalistas em fluxo de consciência, Casimiro de Abreu e uma crônica de Vinícius de Moraes (do Para Uma Menina Com Uma Flor, na época meu livro de cabeceira). é divertido transcrevê-lo e lembrar da época da criação dele. Ocorre que, em 1995, eu estagiava num jornal de bairro no Moinhos de Vento. Quando coube a mim fazer a crônica, mandei para o editor esse texto, assim, desta maneira, sem pontuação. Qual não foi minha surpresa quando o texto fora recusado! Acabei brigando com ele infantilmente, com direito a torcida contra e a favor. No fim, perdi a queda de braço e tive que escrever outro texto, dessa vez, com pontuação. O editor me fez, todavia, uma ressalva: publicaria o texto se eu o pontuasse. Como eu entendi que isso estragaria todo o espírito da coisa, eu mesmo vetei o texto. Foi quando, um ano depois, apareceu notícia do concurso do DAMB. Como naturalmente esse texto em fluxo de consciência seria desclassificado como crônica por naturalmente não se enquadrar no gênero. Inscrevi ele em poesia, onde foi selecionado. Porém, sempre achei uma besteira, pois não considero isso poesia. Antes, porém, mandei o obscuramente polêmico "Não Seja Já" para um professor, Gilberto Scarton (naquele tempo eu fazia as cadeiras básicas de Português Aplicado À Comunicação e estava mais ligado às coisas do curso de Letras do que de Comunicação Social, o que era fácil de acontecer quando a gente fica perdido naquele limbo de cadeiras iniciais, onde não se mexe quase nada com o curso pelo qual nos inscrevemos e passamos no concurso vestibular) como exercício de aula, que achou o texto sensacional. Naquele momento, depois da recusa da publicação pelo jornal, eu queria é me livrar desse texto que, a rigor, como sempre acontece quando, com o tempo, a gente começa a estranhar o que produziu, era como se ele elogiasse algo que não era de minha autoria. Um rapaz, que também fora selecionado, me interpelou nos corredores da Famecos, onde estudava. Ele perguntou se eu já tinha lido Joyce. Respondi que sim mas, na verdade, ainda não tinha lido, embora soubesse do monólogo do final de Ulysses. No fim das contas, a única lição que eu tirei desse episódio é que eu deveria ter feito Letras, e não Jornalismo.

Thursday, April 06, 2017

Uma Manhã na Rádio da Universidade


O castelinho do Campus Centro



Esses dias, fui convidado como ouvinte a dar um depoimento sobre a rádio da Universidade, que vai fazer aniversário dia 1º de julho. Eles vão juntar vários depoimentos gravados de ouvintes, professores, ex-funcionários, e lembraram-se de mim. Fiquei um tanto lisonjeado, e ainda por cima feliz em voltar ao castelinho onde fica a emissora, no Campus Centro da UFRGS.

Me pediram para falar algo como uns dois minutos sobre minha história com a rádio. Passei o dia mirabolando alguma coisa. Lembrei de várias. Até porque o rádio é uma companhia constante e, numa época em que as opções na onda média estão cada vez menores, a gente vai se prendendo a poca coisa. Mas a Rádio d-a Universidade sempre será uma constante para mim.

Quando chegou o momento de gravar, numa terça de manhã, cheguei mais cedo, sentei-me nas mesas do Antônio, ali mesmo no Campus, e pus-me a escrever copiosamente o que me viesse à mente. Não tinha computador á mão, logo apelei para meu caderno.

A primeira coisa que eu me lembro da rádio da Universidade é aquele disco arranhado do Roberto Szidon interpretando as polcas e os tangos do Ernesto Nazareth. Lembro que eu achava bonito ficar ouvindo música clássica. Deixava o rádio alto para que todo mundo notasse o maluco que estava escutando clássico. Mas, na verdade, quando eu ouvia aquilo, eu não tinha lá muita ideia do que se tratava. Só que era algo muito distante daquilo que a gente se acostuma a ouvir.

Também me chamava a atenção o som do AM da rádio. Tinha um reverber, algo que é sempre típico do som de cada emissora. Mesmo no AM, a gente percebe uma sensível diferença no áudio de cada canal. o som da 1080 é bem peculiar, o som do estúdio, na hora da locução, ainda mais quando a gente escuta em equipamento antigo.

Ao mesmo tempo, sempre fiquei intrigado. Como uma rádio consegue manter-se no ar tocando coisas que a maioria das pessoas não procura em rádio. Além disso, eu não gostava de música clássica ainda. Achava aquilo exótico, mas ficava pensando nas pessoas que tinham o hábito de ficar ao pé do rádio ouvindo aquilo.

Um dia, tempos depois, eu perguntei ao professor (já aposentado) Sérgio Stosch, que era meu professor na Famecos quando fiz minha primeira graduação, em Jornalismo, lá por 95. Ele ministrava o curso de rádio na faculdade da PUCRS, e me convidou. Foi então a primeira vez que eu estive nas dependências do castelinho.

Achei maravilhosa a concepção daquele prédio avoengo abrigando um estúdio gigantesco, com piano de cauda e tudo. e, no andar do rés do chão, uma sala enorme com discos. Naquele tempo, a rádio ainda tocava disco na maior parte da programação. Eles estavam começando a formar uma cedeteca, e ainda era difícil montar um acervo digital (logo depois, as coisas iriam mudar) mas, mesmo assim, a discoteca da emissora, além de histórica, tinha tudo o que se pudesse imaginar em matéria de música. Por sinal, hoje que todas as rádios deletaram sues respectivos acervos, a 1080 deve ser a única em Porto Alegre que ainda mantém uma discoteca.

Naquele dia, indaguei justamente isso ao Stosch: como uma college radio ainda se mantinha como quer parada no tempo, com uma programação de erudito 24 horas? E justamente focando num tipo de programação que não devia interessar muito aos estudantes da UFRGS. Além do mais, outras universidades tinham uma programação jovem, a Unisinos e a Ulbra (pelo menos, em 95, ainda era uma college radio, até aderir ao pop comercial anos depois, e ainda mais agora, que virou enlatada).

Ele concordou que havia resistência de ouvintes. E era uma marca registrada deles. E a rádio tinha muitos ouvintes de fora, de outros estados e outras cidades, que apreciavam a programação. Ele disse que muitos ouvintes achavam que, devido ao tamanho de muitas peças, alguns reclamavam que achavam que a rádio "esquecia" os seus ouvintes no ar.

O curioso é que, com o tempo, eu refiz o erro de cálculo: eu é que deveria aprender a ouvir a programação da rádio.

Pois, de tanto ouvir aquele disco arranhado do Szidon, eu decidi comprar um disco de música clássica. Então, peguei um fascículo da Abril com peças do Chopin. Aconteceu comigo como aconteceu com relação a ouvir tango: depois que eu comprei o disco e ouvi, minha atenção se voltou para aquele tipo de música.

Ou seja, eu comprei meu primeiro disco de música clássica por causa da rádio da Universidade. Como naquele tempo voc~e comprava vinil de clássico quase de graça em sebos, eu acabei formando uma discoteca gigantesca (sobre ela já aludi em post anterior, chamado "Desapegos", que conta o trágico fim dessa mesma discoteca).

acabei comprando todos aqueles fascículos de música clássica da Abril. Achava legal que, nessa época, a 1080 sempre fazia um breve histórico de algumas peças que eram executadas. Foi uma época de aprendizado, de guiar-me pela programação deles e de aprender sobre a história dos compositores pelos fascículos, e isso numa época em que não havia internet. Hoje, eu me guio pela programação do site, jogo no Google alguma coisa que está tocando. Sempre tem alguma coisa de algum compositor que eu ou ainda não conheço ou que não ouvia há tempos.

Com o tempo, eu acabei virando ouvinte fiel da rádio, depois me desfiz do meu acervo, então, a rádio da Universidade é hoje a minha memória afetiva. Afinal, da minha gigantesca coleção de discos, todos comprados a dedo, sobrou apenas um disco do Bach Edition, com duas cantatas, e a caixa do Nabucco, do Verdi, com o Tito Gobbi. Para mim, o que ficou é o que eles tocam. Meu espólio é a música que anda pelo éter e é transmitida pela rádio da UFRGS. Hoje eu tenho um outro entendimento, e a música que eles tocam é a minha música, o que eu gosto de ouvir.

Num mar de esquisitices, ainda mais hoje, na era do pós-rádio, onde todas as práticas e segmentações foram eliminadas em favor de convergência de mídias e horizontalização com produção de conteúdo virtual por canais da internet, rádio como a da Universidade parecem anacrônicas, como eu a achava, quando jovem, mas vejo que elas são vitais, mas vivem o paradoxo de serem um patrimônio cultural à disposição das pessoas e que é totalmente negligenciada, como em tudo o que se refere a práticas culturais em geral: ninguém mais quer aferrar-se ao que é difícil. Ninguém quem empreender uma jornada em busca de conhecimento. Quer um dispositivo que diga o que eles querem ouvir. Parece ranhetice da minha parte, mas eu digo isso simplesmente porque eu era assim.

Comentei, a guisa de mero improviso, antes de ligarem o microfone para mim, que eu conhecia o espírito da programação musical. Claro que referi-me aos programas institucionais, de professores, de alunos, da associação de professores e a de funcionários, programas que existem ainda, como o Literatura, A Voz do Docente, Sexta Lírica etc. E outros que acabaram, como o Tangos en La Noche. E que sabia que de manhã, eles sempre começam com uma cantata do Bach, depois é um desfile de barroco e clássico, Haydn, Haendel, até ali pela metade da manhã, quando entram os românticos, Liszt, Czerny, Mendelsohn. De tarde, já aparece um Chabrier, Satie, Stravinski, Saint-Saens, Glazunov, Rameau, Respighi, por aí. E, já entrando madrugada adentro, depois do boletim astronômico, aí, como não há as interrupções nas horas cheias, com os boletins de notícia, a programação é copiosa em peças longas, Réquem alemão do Brahms, sinfonias do Mahler, poemas sinfônicos do Strauss, etc.

Acho divertido, e até comentei essas coisas na hora de gravar o spot na rádio. Não havia tempo para falar muito, e acho que falei coisas que não escrevi aqui, da mesma forma que escrevo agora lembrando de coisas que esqueci de falar. Não dei a sugestão á eles, mas a verdade é que daria para fazer um programa com ouvintes falando sobre suas peculiaridades. Um ouvinte de rádio que toca musica clássica é algo como um dodô, uma espécie em vias de extinção. Eu sou um dodô.

Wednesday, March 29, 2017

Porto Alegre Noir

Terminei de ler o 20 Relatos Insólitos de Porto Alegre, do Raphael Guimarens (Libretos, 2017). Li e lembrei dos antigos cronistas de Porto Alegre, desde o Antônio Álvares Coruja, lá do começo do século XIX até o Nilo Ruschel, nos anos 70, e o Renato Maciel de Sá Júnior.

Não procuro fazer comparações entre eles, embora isso seja inevitável. Até porque, ao contrário do Coruja e do Ruschel, que realmente viveram aquelas histórias que contaram, o que é surpreendente, porque eles falam de uma cidade que não existe mais, Renato e o Raphael recontam histórias do passado.

O Renato Maciel descobriu o filão do memorialismo sobre Porto Alegre saindo daquela coisa formal, que existia com o Ary Sanhudo ou o próprio Ruschel, no seu inesquecível Rua da Praia. Tanto que seu trabalho rendeu uma inesperada trilogia — que foi um best-seller (hoje pouco lembrado) nas feiras do livro de Porto Alegre nos anos 80.

Eu particularmente descobri a bibliografia a respeito da história (no viés "histórias) de Porto Alegre com o seu Anedotário da Rua da Praia. Os livros são excelentes. Infelizmente, Renato coletou depoimentos históricos, mas não teve interesse em emprestar uma perspectiva "histórica" na sua obra, optando por uma abordagem pitoresca, para não dizer obviamente humorística. Por sinal, é notável perceber que muito dos livros do Sá Júnior têm o volume de Nilo Ruschel como ponto de partida.

Já Raphael Guimarães têm desenvolvido uma obra singular que tem esse atavismo da perspectiva do memorialismo sobre a capital, numa série de livros que têm Porto Alegre como cenário. Desde o Tragédia da Rua da Praia a até o livro sobre a enchente de 42, o 20 Relatos Insólitos de Porto Alegre se caracteriza por ser uma rescolta de histórias, o que o aproxima do panteão dos grandes cronistas da cidade.



Mas interessante em 20 Relatos Insólitos de Porto Alegre é o tom a la New Journalism das histórias. O texto não quer o mero relato formal nem explorar o lado humorístico de histórias um tanto sombrias e que, por mais incrível que possa parecer, realmente aconteceram.

O tom, do livro é de quem está assistindo a um filme de curtas, e é impossível não ler os relatos sem imaginá-los como pequenos romancetes com um tom meio noir, tão bem contados que parecem pura ficção. Muitas delas tem um lado noir mesmo, e em preto-e-branco, de jornalismo antigo, romance policial, com histórias divertidamente folhetinescas, casos de amor e morte.

Arthur Elsner, um dos grandes maestros de Porto Alegre, cego e regente da antiga rádio Difusora torna-se uma espécie de compositor torturado por uma paixão fulminante por uma garçonete da Confeitaria Central (que ficava no Largo dos Medeiros que, por si só, valeria um livro), e o caso de amor também trágico, de Araújo Vianna por Olintha Braga. Um grupo de prostitutas que, com a ajuda do intrépido repórter e rábula Mário Cinco-Paus, consegue uma habeas para pode voltar a fazer o lenocínio de cada dia; uma fuga impossível da Ilha do Presídio; o triste fim de d Honorina, viúva de Júlio de Castilhos. Um caso policial em pleno bairro Navegantes dos anos 20 e sua surpreendente reviravolta; ou o extravagante caso do Professor Hindu que, de noite, virava o transformista Danúbio Azul.

Raphael soube recontar de forma sucinta e original duas histórias que, por muito tempo, viviam na memória da população como lendas urbanas: o assassinato de Maria Francelina, de amásia a santa do bairro Partenon (que Raphael transforma o algoz em tema de um debate absurdamente dostoievskiano a respeito das razões do crime) ; e o sumiço do delegado responsável pelo famoso inquérito envolvendo as mortes na rua do Arvoredo, ocorrido no longínquo ano de 1864. o caso foi tão escandaloso para a época (segundo reinado) que ela só sobreviveu como lenda — inclusive, por muitos anos, muita gente achou que era lenda mesmo.

em 20 relatos, a história ganha nova abordagem, num contexto de texto jornalístico, agora sob um novo contexto. Olhado em retrospectiva, o Crime da rua do Arvoredo hoje parece banal. A lenda só transformou um duplo assassinato num caso de canibalismo por parte de toda a população de Porto Alegre. (a história só seria recontada em seu devido contexto mais um século depois, com o O Maior Crime da Terra, de Décio Freitas).

Mesmo que as histórias não sigam um padrão, é curioso observar, em 20 relatos, que algumas delas, mais curtas e mais leves, sirvam como 'vinhetas' entre as crônicas mais dramáticos. Mas é importante notar tanto o apuro na hora de contar os tais relatos ( em alguns casos, elas ganham foros quase de auto-ficção, onde a primeira pessoa se confunde com o repórter-narrador (o elemento recorrente na obra é o trânsito entre a reportagem de jornal e a história policial, como se fossem complementares, e típicos desse voyeurismo literário do fait-divers e suas possibilidades poéticas, do folhetim ao jornalismo literário), tornando assim o leitor cúmplice do desdobramento do drama, o que empresta ao livro esse clima noir, de pequenos roteiros 'ligeiros'. O 20 Relatos Insólitos de Porto Alegre pegar e não largar. Já estamos esperando outros 20.

Saturday, March 25, 2017

Geração


Batida (no mau sentido) na Lancheria Redenção

Acabaram com o Baile de Porto Alegre. esse ano não vai ter aquele evento que era o ponto máximo da comemoração da Semana da Cidade.

Acho que todas as coisas boas se foram cedo demais. Cedo demais até para que a gente possa falar em nostalgia. Nostalgia parece coisa por demais avoenga, daquelas que a gente tenta recordar não sem um pouco de imaginação. Afinal de contas, se a gente lebra de tudo, então é porque a gente não viveu tudo aquilo.

Mas Porto Alegre parece uma cidade que envelheceu cedo demais.

Digo isso e retorno à Cristóvão Colombo. Quando a gente descia a Ramiro, dobrava à direita e começava a rotina dos bares. Havia o Grilo, com aquele toldo grande, lembra? do lado, havia uma brechó, o Pé da Múmia — que tinha inclusive uma gata gorda que ficava sentada em cima dos livros e discos e ai de quem ousasse mexer com ela ali.

Mais adiante, tinha o Bar do Walter. Verdadeiro pé sujo, mas com m cardápio proustiano. Quem não lembra do filé de porco á milanesa, com aquela travessa de arroz fumegante junto? Ou então, a gente variava o cardápio, e ia no Xuvisco, que fica embaixo, até hoje. O Walter se mudou — foi para a Dr. Vale, e vocês sabem o que eu penso a respeito de bares que mudam de endereço.

Havia muitos outros, como a Cantina Roma, ali, defronte á Brahama, muito antes daquilo virar shopping. Eu morava no Edelweiss e aspirava todas as madrugadas aquele sarro de cerveja sendo preparada.

Hoje, o único bar da Cristóvão que ainda insiste em existir é o Vassouras, na esquina da Câncio Gomes. Passei na frente sexta de noite. Havia um público interessante. Claro que temos ainda o Alfredo, mas ele não conta. Não é propriamente um bar como era o Grilo ou o Walter.

Mas mudei de assunto: estava falando do Baile da Cidade. ele ocorria sempre no sábado da Semana. Não recordo da última edição no parque. Mas lembro que, até os anos 80, havia ainda a vida noturna da Oswaldo Aranha à noite, já naquela fase entre meados dos 80 até 1998.

Por que 1998? Explico. Depois daqueles incidentes que foram chamados de Berlim-Bonfim, a vida noturna na Oswaldo até que durou bastante. A verdade é que, aos fins de semana, aquela parte do Bonfim atraía um número considerável de gente. Às vezes, inconsíderável. Aos domingos, era um negócio weird. lembro de ficar depois do Brique por ali. Até ali pelas cinco da tarde, começava a festa. Era tanta gente que as pessoas conversavam no meio da rua, na frente do Araújo. No Mercado, havia o Luar Luar, com suas mesas que iam calçada afora. Nos fins de tarde, já não havia mesas. A Lancheria também lotava, assim como o João e o Bar Redenção.

Quem chegava atrasado não tinha nem onde ficar para beber. Mas isso não era problema, dada a quantidade de ambulantes vendendo toda a sorte de bebidas possível.

Um domingo comum na Oswaldo era encontrar algum conhecido na Oswaldo, cercado de grupos — muitos punks de verdade, com cabelo moicano e roupas cheias de pregos e penduricalhos. Dali a pouco, rolava aquela vontade de beber algo. A grana era pouca, até que a gente juntava uns morlacos e regateava com algum tio ou tia ambulante a vende rum copo de batida. De repente, você encontrava outro conhecido, rolava um crowdfunding dos brothers e a gente arrecadava mais um copo de trago.

Mais adiante, aparece algum amigo endinheirado com um outro amigo idem e dava para encarar uma Lancheria do Parque. Encarar em termos. Ali pelas seis, sete (ainda hoje), o espaço é disputado. Não existem mesas. Como a lanchera disponibilizava copos de plástico, isso aumentava o consumo mesmo que a gente tivesse que ficar na rua. E, com o balcão do lado, a calçada se comprimia de tanta gente — gente na via, gente na calçada, gente no canteiro, gente por toda Oswaldo. Naquela altura, os ônibus e carros tinham que debriar para poder passar no meio da multidão. Era como se fosse um desses be-ins tão na moda hoje, porém nada combinado. As pessoas simplesmente iam.

Por isso que aquela música do Frank Jorge faz todo o sentido. O "Amigo Punk" nada mais é que uma crônica daqueles dias: punks atravessando a Oswaldo para lá e para cá. Muitas vezes, aquele populacho ficava por ali até a madrugada. O povo arrefecia, mas os bares continuavam, muitos ficavam madrugada adentro. Às vezes, era comum você chegar de noite na Lancheria, e ficar só no vinho (quando beber era barato no Bonfim), e dê-lhe conversa. Sempre tinha alguém para conversar e alguém para juntar os morlacos para a próxima taça de vinho.

De repente, a noite morria na Lancheria. Aí, a gente, já transformado em Mr Hyde, ia procurar mais algum conhecido para pagar uma cerveja no Bar do Beto ou arredores. Ou aproveitava o mundaréu de gente na Lancheria e ficava no balcão, roubando cerveja de alguém que saiu e deixou munição no copo. Lembro de tardes malucas com gente até dependurada do lustre na Lancheria. de repente, aquele blend de maconha do banheiro. E lá ia o Adelar com algum garçom buscar os malucos.

Em 1998, eu lembro do Baile da Cidade. Acho que nunca, antes, nem depois, foi tanta gente. Naquele ano, o grande sucesso aqui era a Hard Working Band. Eles tocavam em todas as partes, no Opinião eram figurinhas batidas. estavam lançando um disco gravado ao vivo no Salão de Atos da PUCRS (a gente tava lá!) e iam ser o piece de resistance do Baile.

A gente conhecia os caras. e juntou um pessoal do estágio em jornalismo para assistir ao show. Parecia que tava toda Porto Alegre dentro da Redenção. eu cheguei cedo, com a grana contada. fiquei tomando umas latinhas de Antárctica no Zé do Passaporte (o antigo, ainda no tempo do Zé, no trailer). Depois, fiquei assistindo ao um casamento (prá matar tempo) na Santa Terezinha, depois fui para o parque. O pessoal começou a chegar. E dê-lhe cerveja, cerveja, até a hora do show. Apareceu um professor nosso, e ele tava com uma garrafa de uísque. e aquilo rodou, literalmente. Depois da Hard Working, ia tocar uma banda de baile, mesmo. No intervalo, já embalados, a gente foi esticar na Lancheria. E dali, aquela coisa. Amigo vai, amigo vem, garrafa de cerveja vai, garrafa de cerveja vem, eu já tava com a tampa cheia, mas positivo operante.

Isso até quando eu realmente fiquei trêbado. subi numa árvore e fiquei gritando que eu era o Billy Shears. Depois, recordo de ver meu chefe passando com a esposa e me vendo pagando vexame ali. O resto eu esqueci. Uma amiga depois me explicou que ela me levou até em casa, e que eu não conseguia andar sem me escorar pela grade. O que eu lembro foi que eu acordei no capacho do 802 (eu morava no 702) na manhã seguinte.

Aquele foi o último baile. No fim do ano, o Olívio ganhou a eleição e o Bonfim foi uma festa. Acho que foi a última vez que eu vi a Oswaldo cheia de gente — e foi certamente a última vez que eu fui no Luar Luar. Um ano depois, como num vendaval, tudo mudou: o Mercado fechou e os bares foram juntos. Luar, Escaler.

O Redenção fechou, o João começou sua lenta agonia, junto com o Bristol e Baltimore. O Araújo resistiu por mais alguns tempos, até 2001. Depois, fechou por quase uma década. E todos aqueles bares que viviam em função desse público, como o Vermelho 27 ou outros, efêmeros, pela volta do HPS, foram sumindo. O que restou, como o Bar do Beto, acabou sofrendo o lógico processo de gentrificação (e que também mudou de lugar).

Acho que toda aquela época acabou numa vomitada épica com a cara enfiada na privada do Bar do João depois de uma noite misturando vinho com cachaça e cerveja. Daquelas que a ânsia continua e não tem mais nada para sair.

E, como no poema do John Updike, a gente nem desconfiava que era uma geração.





Tuesday, March 21, 2017

Um Homem Célebre


Bach

Tenho um professor de música que sempre diz que todos os tratados teóricos musicais são feitos a posteriori. Isso quer dizer que toda o legado histórico de epifanias de compositores que fizeram a história da teoria musical através dos tempos só pode ser elaborada de forma diacrônica. Isso implica dizer que, no caso da música, a prática sempre irá preceder a teoria, e jamais o contrário.

A prática vem antes da teoria. A prática é quem viabiliza a 'teorização'. Assim, foi preciso um longo caminho para a consolidação de práticas e experimentos em diversas épocas e momentos para que toda a teoria fosse sendo observada com vistas a uma possível sistematização.

No caso do Barroco, toda a chamada era do "baixo contínuo" formou-se desde Monteverdi e os bardistas (os primeiros músicos de corte que passaram a lidar com uma voz só mas acompanhada com um instrumento (obbligato), ao invés da tradicional polifonia dos tempos de Josquin e Palestrina) até 1750.

Quem basicamente consolidou esse tipo de música e cifrou ela foi justamente Bach. Bach não foi um inventor, não inventou uma nova forma de fazer música. Ele pegou toda a tradição do baixo contínuo e levou-a ao paroxismo. Assim como Palestrina representou o fim da polifonia (que começou lá no tempo da Ars Nova, lá no século XIV.

O baixo continuo é um produto do século XIII. Na tentativa de criar um espetáculo cênico como numa recriação da tragédia grega, eles optaram pela substituição do canto coral pela ária. O baixo contínuo seria a cama onde a voz solo deitava-se. Esse formato iria ser a base da música barroca (e que os ouvintes modernos podem reconhecer bem, ao distinguirem a forma como o baixo é tratado no Barroco com relação ao classicismo). O baixo contínuo já estava presente na ópera Orfeo, de Monteverdi, de 1607, por exemplo.

1750 foi o ano da morte de Bach. Mesmo tratando-se de uma convenção, é ponto pacífico afirmar que o Barroco morreu com ele. Afinal, em 1750, uma nova geração de músicos já havia há muito superado o baixo contínuo e produzia música de forma e temática diversas. É importante lembrar que o século XVIII é o das Luzes. Naquele momento, a música religiosa estava em desuso, como se fosse um insidioso atavismo de uma sociedade aristocrática, diferente do espírito burguês que nascia com o Iluminismo.

Quer dizer, Bach não era um inventor, não um elemento de transição dentro do estilo; ele foi o fim de um ciclo gigantesco da história da música. E quando ele morreu, ele não era ninguém. ele era um arauto de uma arte decadente. Algo como (usando de um jargão da imprensa) um dromedário do tempo da máquina de escrever, do copidesque, do folhetim e do famoso artigo de fundo, que sempre usa algum tipo de formalismo tipo "preclaro amigo" numa época de jornalismo online.

Mozart, por exemplo, quando referia-se a Bach, ele queria falar de Carl Philipp Emanuel, que era um expoente do Classicismo de sua época. Os filhos de Bach, Carl e Johann Christian, por sua vez, já eram adeptos do classicismo, um novo estilo que surgiu quando bach ainda era vivo. Para se ter uma ideia: quando Carl Philipp Emanuel convidou o velho Bach para conhecer Frederico da Prússia, ele foi introduzido ao pianoforte.

O mestre de Eisenach experimentou aquele novo tipo de teclado, porém, não gostou. Afinal de contas, passou a vida toda afinando e consertando órgãos e compondo em espinetas e cravos. Um piano era demais para ele. era como convidar alguém que passou a vida toda atrás de uma Olivetti a escrever e salvar um texto no Word (a minha comparação é esdrúxula, mas dá para ter uma ideia do que aconteceu).

Bach morreu e toda uma época desapareceu com ele, desapareceu sem vestígios. Mozart foi um músico de transição já dentro do classicismo. Bach pai foi um músico do fim do Barroco, que foi esquecido, como uma herança de um passado que não valia a pena ser relembrado. Bach pai só seria redescoberto dois anos depois da morte de Beethoven, em 1829, já no começo do Romantismo. Como se sabe, uma das características do Romantismo é esse retorno ao passado.

A redescoberta valeu a pena, mesmo que a música religiosa não fosse uma coisa muito em voga em meados do século XIX. Mesmo assim, Mendelsohn apresentou a um novo público a Paixão segundo São Mateus, de Bach, e a cantata causou grande espanto. A partir dali, Bach pai se transformaria num símbolo da música alemã e influenciaria toda a segunda geração de músicos do estilo - mesmo que, durante essa 'idade das trevas' de esquecimento da arte de Johann Sebastian, ele fosse ainda um "músico dos músicos". sua música não era executada em público, mas algumas de suas partituras não eram desconhecidas de compositores que antecederam essa renascença bachiana.

Quando Bach escreveu suas maiores obras, a Missa em Si Menor, a Oferenda Musical e a Arte da Fuga, ninguém queria mas saber daquele tipo de música. O curioso é que, mesmo sabendo que, a rigor, essas peças eram formalmente impossíveis de serem executadas (A Missa em Si era católica, e não luterana), ao contrário do que era comum durante a sua vida, ele não compôs sob encomenda de nenhum príncipe ou margrave: escreveu-as para ele mesmo (assim como Mozart escreveu o Requiem e as duas últimas sinfonias para si).

E Bach, ao contrário de Vivaldi, não se tornou popular porque não escreveu óperas. e por que Bach não escreveu óperas? Ele não gostava? Não, não era bem por isso. Na verdade, isso se deu justamente porque ele vivia pregado no trabalho de mestre de capela nas cidades onde viveu (muitas vezes, isso exigia dedicação exclusiva) e, em geral, essas cidades (Kothen, Weimar, Leipzig) não tinham casas de ópera. Leipzig chegou a ter um teatro, mas ele foi demolido pela municipalidade anos antes de Bach mudar-se para lá, em 1723.

Vivaldi viveu em Veneza, Viena, empresário musical, como Haendel, que foi para a Inglaterra; Bach viveu naquele mundo pequeno da Turíngia. Bach vivia andando pelo sul da Alemanha, de lá para cá. se formos ver, Arnstadt, Mühlhausen, Weimar, Leipzig, ele viajava muito, contudo, não saia dos mesmos lugares.

Mas, mesmo assim, Bach sabia de tudo o que tava acontecendo na Europa daquele tempo e conhecia a obra do Vivaldi, por exemplo. Inclusive, Bach transcriou vários concertos do mestre vienense, curioso que era, sempre queria saber o que estava acontecendo pelo mundo da música de seu tempo.

Aliás, Bach compôs em vários estilos, gêneros, porém não escreveu óperas, mas chegou perto. havia um café em Leipzig, chamado Zimmerman. Para o dono, ele escreveu cantatas profanas. Que, na verdade, não eram bem cantatas (embora formalmente tivessem a estrutura típica de ária-recitativo, mas não tinham coros). Eram, na verdade, variações baseadas pelo modelo da cantata barroca, mas por serem profanas, a generalização delas é algo sempre em disputa. Para muitos, tratam-se de operetas. Hoje elas são pouco conhecidas (não estão entre os temas mais conhecidos do mestre de Eisenach), mas são bem interessantes.

Aí alguém vai me dizer: "o religioso Bach escreveu...operetas??". Sim. Aqui está:



Naquele tempo, o café estava na moda por lá, era ainda uma iguaria rara, difícil de achar na Europa de meados do século XVIII. A história é simples: de um pai desesperado porque quer que a filha case mas não quer que ela tome café (ela é viciada na coffea arabica). Ela, contudo, só topa o consórcio se o futuro noivo aceite o seu hábito de tomar café.

Monday, March 20, 2017

Bye Bye, Johnny


Chuck no documentário Jazz on a Summer's Day, de 59.

Chuck Berry não apenas influenciou como determinou a existência de uma geração de músicos após ele.

Muitos sequer se deem conta, mas Chuck foi o primeiro grande letrista do rock. “School Days” é um dos primeiros hinos da juventude transviada. É um blues, mas a temática é diversa: o jovem que sai da opressão da sala de aula, chega no snack bar, e bota moedas na jukebox para dançar. Ninguém tinha pensado nisso. Chuck era o cronista dos rebeldes sem causa. “Sweet Little Sixteen” conta a febre do rock avassalando a costa leste da América e uma menina implorando aos pais para que eles a deixar ver o show. “Rock’n Roll Music” é um comentário bem humorado e irônico sobre alguém que quer colocar o rock no meio de outros gêneros musicais e conquistar o seu lugar ao sol.

Esses exemplos mostram que Berry soube ser o letrista da boa nova do rock, tematizando o novo ritmo com inteligência. Claro que isso não iria passar batido pela geração de jovens músicos britânicos que, depois que a onda americana morreu, em 1959, resolveram helenizar a boa nova de Chuck para o mundo.

Mais: invadiram a América anos depois tocando “Roll Over Beethoven”. Centenas de milhares de garotos ingleses que resolveram montar conjuntos depois de ouvir e ouvir aqueles disquinhos da Chess com clássicos imediatos como “Carol”, “Maybeline”, “Reelin’ And Rockin’”. Chuck podia soar como se suas canções fossem nada menos do que variações sobre o mesmo tema. Porém, eles sabiam que essas músicas eram feitas para eles. Berry falava a linguagem desses garotos, eis a identificação. Irresitível.

Chuck como letrista ia além daquele esquema “garoto ama garota”. Duas que eu mais aprecio dele vão além do tema. Uma é “Memphis Tenesssee”, onde ele conta as desventuras de um pai em busca da filha, cuja esposa levou-a para longe do desesperado progenitor. Essa era uma das favoritas de John Lennon, que fazia questão de ser o lead vocal nos show dos Beatles — e que a gravou várias vezes, contudo nenhuma realmente para um disco oficial.

Outra é “Promised Land”. Essa ele compôs na cadeia. E imaginou um garoto do leste americano tentando a sorte pegando a estrada para a Califórnia. A música ele criou usando um mapa rodoviário dos Estados Unidos para roteirizar a intrépida viagem do rapaz, até quando ele chega na Terra Prometida e, de brincadeira, liga para os seus, do outro lado do país. Elvis fez uma versão definitiva desse que é um clássico subestimado de Chuck.

Chuck foi o primeiro guitar hero. Pelo menos, se não em virtuososmo, certo que sim em matéria de proeminência. Ele sabia que não precisava ser mais do que ele era, porque ele tinha as qualidades suficientes para um guitar hero: inteligência, talento e, além de tocar, ele interpretava todas as suas canções. Por isso todos os meninos ingleses queriam ser como ele.

Keith Richards disse no livro Life que roubou todos os licks e riffs possíveis do Chuck. Na verdade, isso é apenas uma confissão. Afinal de contas, todo mundo sempre soube disso. Quem não sabe, então conhece os Stones mas nunca ouviu Chuck Berry na vida. Aliás, a primeira gravação dos Stones na Decca foi, justamente, um sucesso então recente de Chuck, “Come On” (de 1962, quando retomava sua carreira). Do primeiro disco, eles gravaram “Carol” e inspiraram-se na versão de Berry para “Route 66” (originalmente um tema de Nat King Cole dos seus tempos de pianista de jazz).

Falando em Keith Richards como grande admirador de Chuck, ele sabia que seu ídolo tinha um “irmão” — Johnnie Johnson. Aliás, mais do que um irmão. Foi Johnson quem catou Chuck para seu trio de jazz, assim que o solista original, um sax-tenor chamado Alvin Bennett, teve que sair do grupo por problemas médicos.

Foi Berry quem mudou o estilo da banda, ao ponto de pegar um tema deles, “Ida Red”, e transformá-la em “Maybeline”. A Chess gostou do som e assinou com eles. “Wee Wee Hours”, instrumental de Johnson também ganhou letra e a marca registrada de Chuck. Como tempo, o “trio” virou a banda de apoio de Chuck quando este tornou-se o primeiro da lista.

Berry e Johnson então firmaram uma parceria de quase duas décadas compondo e gravando juntos, além de criarem clássicos tanto da carreira de Chuck quanto da história da música ocidental do Século XX, “Reelin’ and Rockin’”, “Rock ‘n Roll Music”, “Sweet Little Sixteen”.”Carol”, “Nadine”, “Johnny B Goode” e a citada “School Days”.

Johnny era o verdadeiro “Johnny B. Goode” da letra (na verdade, “be good”, como que “comporte-se”). Johnson tinha sérios problemas de bebida (só largou o trago nos anos 90, depois de quase cair duro no palco) , e isso Chuck não tolerava. Inclusive, não queria que ninguém bebesse durante suas turnês. Esse foi um dos fatores que acabou separando a grande dupla.

Johnson desapareceu com a poeira do tempo, e virou motorista de ônibus em St. Louis por anos, até que o guitarrista dos Stones conseguiu acabar com o racha entre ambos, e pôs Johnnie como pianista no documentário Hail! Hail! Rock’n Roll, de 1987. De repente, o parceiro de Berry estava de volta ao mundo do show-biz.

Keith não existiria sem Berry, John Lennon também. é possível imaginar um mundo sem Berry, Beatles e Stones? É como imaginar a evolução da música ocidental sem Bach. O que iria resultar dessas ausências?

Voltando ao começo. Um exemplo da interferência recorrente de Berry no som dos Stones é é “Star, Star”, que é uma transcriação do som do Berry. Assim como “Subterranean Homesick Blues”, de Bob Dylan, é “Too Much Monkey Bussiness”, “Surfin’ USA” é totalmente decalcada de “Sweet Little Sixteen”, “Come Togheter” é inspirada em “You Can Catch Me” e o baixo de “Talkin’ Bout You” é o começo de “I Saw Her Standing There”, dos Beatles.

Se não fosse por Chuck, todo mundo hoje estaria tocando guitarra como se toca violão. Ele foi o profeta e evangelista da guitarra, Até quem nunca ouviu ele foi influenciado por Chuck Berry e não sabe (“Cigarretes And Alcohol, do primeiro do Oasis, é inspirada em Bang a Gong, do T. Rex que, por sua vez, é decalcada de… “Little Queenie”). Assim como um pianista para considerar-se como tal deve conhecer bem pelo menos todos os prelúdios e estudos de Chopin, um guitarrista não existe sem conhecer os riffs e licks de Chuck Berry.

Friday, March 10, 2017

Chinaski

No Carnaval eu estava cuidando da casa de um amigo enquanto ele viajava.

Minha tarefa diária era mais ou menos colocar o pastor alemão dele na entrada no começo da noite e abastecê-lo de ração, que ele faria o resto, latindo para os passantes.

Porém, nesse meio tempo, notei que era comum entrar na casa 1 quase sempre sorrateiramente, pela janela, um gato amarelo malhado.

Na verdade, quando o cachorro ficava no pátio da casa, durante o dia, o gato aparecia. na verdade, ele não aparecia: ele miava. E era um miado longo e langoroso de tão triste. Era um miado triste, como um suspiro. Achei que fosse fome. E, de fato, ele era um gato bastante magro. quase não tinha culotes. Porém, ele não parecia ser um bicho de rua. Cogitei que fosse de algum vizinho.

Todo dia, ele dava o ar da graça. Passava pelo jardim da frente. quando eu ouvia o miado, corria para a janela. Mas não sabia o que fazer. eu só tinha a comida de cachorro para lhe oferecer. Ele rondava a entrada da casa, sempre com aquele miado triste. e ia embora.

Isso se dava esporadicamente, porém. eu nem podia notar, já que cuidava da casa penas durante o começo da manhã e à noite. Uma noite, eu trouxe comida da rua. Quando ele apareceu, eu ofereci. Deixei no jardim. O bichano apareceu, cheirou a comida (era batata doce picada com arroz). Porém não quis saber. Me correu a vista de baixo para cima, soltou aquele miado característico dele e foi embora.

Duas semanas depois, o sogro do meu amigo apareceu. Tirou o pastor para os fundos e foi buscá-los no aeroporto. Fiquei naquele sábado na casa. Antes, porém, saí para comprar alguma coisa no mercado. quando voltei, ouvi os miados do gatinho, do jardim. sentei-me no sofá da sala e fiquei lendo. De repente, notei que o choro do bicho estava perto demais.

Quando me dei conta, o gato estava dentro de casa! Fiquei surpreso, tentei chamá-lo, mas ele era impassível. Parecia avesso a qualquer comando. Entrou e foi andando pela casa, pelos aposentos, sala de estar, cozinha...cozinha! Lembrei que havia deixado o postigo da porta da cozinha aberto quando foi colocar as roupas para estender lá fora! O pastor podia ver o animalzinho e atacá-lo impiedosamente.

Fui correndo tentar impedir o encontro fatal. Quando chego, o gato e o cachorro estão se olhando — um de cada lado do postigo. O pastor abanava o rabo. O gato deu outro daqueles miados, e o cachorro sorria com o rabo. Isso durou cerca de um minuto. Então o gato voltou calmamente para a sala; de lá, para a janela e, dali, para o jardim, ganhando a rua.

Depois que meu amigo chegou, eu perguntei: "por acaso você conhece um gato assim, assim?". Ele respondeu: "ah, ele é o Chinaski". Diante da minha cara de espanto, ele explicou:

— Quando minha cachorra morreu, há algum tempo atrás, lembro que ela sempre me esperava na entrada da garagem, um pouco antes da escada que sobe para os fundos. Ela sempre me esperava ali. Quando ela partiu, eu fiquei pensando: sempre que eu chegar, não mais a verei ali. E, sempre que eu passar por ali, eu vou me recordar dela. Pois não é que, uma semana depois que minha cachorra morreu, esse gato apareceu do nada. E, do nada, ele me esperava sempre no mesmo lugar onde ele costumava me esperar — sempre no pé das escadas.

Eu ouvia. Então ele prosseguiu:

— Há coisa de um ano e meio atrás, meu sogro salvou de um incêndio esse pastor que eu tenho agora. Ele era um dos filhotes numa casa onde a proprietária morreu a o imóvel ficou á própria sorte, com os animais todos trancados, passando fome. Os bichos acabaram sendo salvos, todos foram doados, e eu fiquei com esse pastor. Ele era bem pequenininho. Então eu o deixei aqui no pátio. Porém, nessa época, eu tinha o gato. O Chinaski praticamente adotou o filhotinho. e, por meses, os dois viveram juntos, aqui. Até que o cão cresceu, e o gato deixou a casa. Vejo que ele sempre aparece por aqui, mas é muito raro. Na verdade, há meses que eu não tinha notícias dele — até que você me falou dele.

Depois ele foi até o quarto e me mostrou uma foto. Era o Chinaski com o pastor, ainda filhotes: os dois brincavam como dois irmãozinhos. Fiquei pensando que devia haver algo de espiritual nisso tudo. O gato parecia um espírito que abençoava alguma coisa, e ele meio que representou um ciclo na vida de todos ali.


Fui embora pensando em perdas e em grandes amizades.