Saturday, June 10, 2017

O sprecher: Diego Velázquez através do espelho


Las Meninas

No livro Traçando Madrid (1997), Luís Fernando Verissimo narra sua estada na cidade espanhola, sendo ciceroneado pelo espírito de Goya (espirituosamente da mesma forma que Malazartes em Gato Preto em Campo de Neve, de seu pai, Erico).

No capítulo cinco, encontramos o cronista no Museu do Prado. Dentre tantas pinturas que ele observa, Verissimo presta atenção no Las Meninas, de Diego Velasquez (óleo sobre tela, 1656).

O quadro mostra uma cena trivial. Velázquez em seu estúdio, no Alcazár, antigo aposento do falecido príncipe Baltasar Carlos. Os reis de Espanha observam seu trabalho quando a Infanta Margarida irrompe em cena com um séquito, como se buscasse um espaço no meio da composição.

Sobre Las Meninas, Ernest Gombrich (1999), pergunta: “o que significa exatamente tudo isso?”, Ele mesmo responde: “é possível que nunca o saibamos, mas eu gostaria de imaginar que Velázquez fixou um momento real de tempo muito antes da invenção da máquina fotográfica” (p.287).

À guisa de interpretação, ele diz: “talvez a princesa lenha sido trazida a presença de seus régios pais a fim de aliviar o tédio da pose para o retrato, e o Rei ou a Rainha comentasse com Velázquez que ali estava um tema digno de seu pincel”, explica.

Para ele, as palavras proferidas pelo soberano são sempre tratadas como uma ordem e, assim, é provável que devamos essa obra-prima um desejo passageiro, e que “somente Velázquez seria capaz de converter em realidade”.

Arriscando uma interpretação, Verissimo lança mão de um conceito de sprecher (conceito que roubo dele — e que provavelmente tenha sido invenção do cronista, já que não encontramos cognato em cinema ou estética) para tentar olhar além do mero observador. Mesmo que sobre a obra-prima de Velázquez existam aos milhares, é interessante pegar carona com seu olhar diante da pintura.

Para o autor do Analista de Bagé, o sprecher (ou o “orador”, em alemão) é a “figura que, num tableau ou numa cena de multidão, está olhando, por assim dizer, para a câmera, e que é uma constante na história da pintura”. Ele explica que o sprecher raramente é a figura principal do quadro: “Não é um queixudo habsburg retratado por Velázquez ou um arrogante burguês pintado por Rembrandt, que olham para o pintor e para a posteridade como se olhassem num espelho, e cujo olhar não ultrapassa o verniz”, explica.

Ele entende que o resultado é como se esse observador da obra fosse um coadjuvante que é colocado para “preencher o quadro” ou “equilibrar uma composição da tela”. Contudo, o sprecher se destaca por quebrar os demais personagens do quadro, que meramente ‘posam’. Ao contrário deles, o sprecher olha “para fora” do quadro como se olhasse para nós.

A teoria do sprecher como o personagem intrusivo que olha para fora parece ser corroborada por Luiz Roberto Lopéz, (1996, p. 101). No entanto, ele afirma que o personagem principal no Las Meninas é o espaço. Ele também entende que, ao olhar para a frente, o pintor olha para fora do quadro.

Já o rei e a rainha, para Lopez, são personagens ausentes, muito embora façam parte da composição. “fisicamente eles só existem como reflexos no espelho (…) é o espectador, postado diante do quadro, quem ocupa o lugar dos modelos reais”. Dessa forma, de acordo com o autor, “realidade e pintura se tornam uma coisa só e o expectador se transforma em parte do quadro”, conclui.

No quadro, Verissimo acredita que Velasquéz é o sprecher dele mesmo. "Las Meninas é uma pintura cheia de truques em que Velasquéz vai além da clandestinidade e nos pôe dentro do quadro, nos convida formalmente a entrar"(Verissimo, p.94).

Também parece concordar com Lopéz quanto à essa “troca” onde o observador olha “para fora” ao mesmo tempo em que o expectador é conduzido “para dentro”. “Ele, no quadro, está pintando um quadro, espiando detrás de uma tela. O que está pintando não fica claro, depende da interpretação”.

Para Verissimo, as meninas estão no primeiro plano, elas seriam o foco do retrato. Contudo, Velázquez está atrás delas, olhando por cima da cabeça delas, diretamente para nós. Ele observa o engodo do espelho ao refletir o casal real: “se a cena fosse real, hipoteticamente seríamos nós refletidos (algo parecido com o “engodo” do reflexo da Vênus no Espelho).

Dessa forma, segue o cronista, o Velázquez estava a pintar o casal quando, de repente, a infanta e as damas de companhia irrompem a cena, como num instantâneo (o que vai de encontro com a observação de Gombrich, de que Velázquez fixou o tempo antes do advento da fotografia). Ao mesmo tempo, todos nós estamos inseridos naquele instantâneo, “participando de tudo”, diz.

O mistério posto (Verissimo cita o teatrólogo e escritor inglês Sir Jonathan Miller) é que, se essa interpretação é correta, então deveria existir um retrato de Felipe IV e sua mulher. Essa pintura seria a “matriz” da cena; Las Meninas, por conseguinte, seria uma espécie de “fotografia de bastidores”, ou um “making of”.

Porém, se o artista espanhol estava retratando o casal (a pintura poderia ser um símile dos Esponsais dos Arnolfini, de Van Eyck, que foi grande inspiração de Velázquez. Miller dá a largada e lança uma provocação: se o pintor estava pintando o casal real, onde está a obra? (frase na verdade muitas vezes atribuída a Théophile Gautier). Verissimo responde que pintar fazendo uma pintura que nunca existiu talvez fosse um truque de Velázquez.

De remate, o cronista diz que, no fim das contas, não podemos nos queixar: “indiretamente, ele nos transformou em realeza e nos colocou na corte espanhola no século XVII sem precisarmos estar vivos naquela época e portanto mortos agora” (p.95).

Numa interpretação mais ousada, Verissimo pontifica que Las Meninas é uma reflexão sobre as relações entre arte e poder. Como o quadro é elaborado do ponto-de-vista do casal régio, Velázquez pintou-se não como ele se via, mas como seus patronos o viam.

A despeito de ser o pintor real, Velázquez era quase um criado (Felipe IV, como se sabe, chegou a condecorar o pintor; porém, nos espetáculos de corrida de touros, ele tinha que ficar na quarta fila, ao lado das criadas de quarto), e um intruso na intimidade do palácio.

O artista, nesse contexto, como observa o cronista, só existe e prospera em deferência do rei. “Mas pintando-se no ponto-de-vista do rei, Velázquez se coloca como rei(grifo nosso), pelo menos naquele momento da criação. Para Verissimo, pinta o próprio rosto como o rei o vê, mas pinta o rei refletido no espelho, portanto a imagem do rei pelo inverso, portanto, o rei errado”, conclui.


Narrativas

Voltando à teoria do sprecher de Luís Fernando Verissimo, poderíamos comparar o observador intrusivo dentro da composição da obra como efeito análogo ao que encontramos na “quarta parede”. Segundo Mário Lago (2011), ela é uma quebra de artifício, na qual o público olha a “verdade”, como que por meio do buraco de uma fechadura.

Ao mesmo tempo, Verissimo entende o sprecher é elemento voyeur na pintura. No entanto, entre ele e a plateia, existe o surpreendente contato (da quarta parede) que vira um foco desconcertante de atenção. “Estabelece-se um estranho contato, uma forma de cumplicidade [entre o espectador e o personagem da tela]”. Em Las Meninas, sendo Velázquez retratado olhando além da realidade da tela, ele quebra a ilusão divisória e “sai” do quadro querendo comunicar-se nos olhos do espectador além dos personagens do quadro, que simplesmente posam.

O olhar dele no nosso pode estar atravessando alguns séculos. Todos na pintura já morreram, o pintor morreu e continua ali, com seu olhar inquisidor posto no futuro. O único sobrevivente. Ou então está querendo nos dizer alguma coisa. Pode ser só uma mensagem do pintor. Só o que fica dos dramas e esplendores do mundo é esse contato mudo — que só perdurará enquanto houver olhos humanos para olhar o quadro e encontrar o olhar cúmplica do spretcher (1997, p.93)

Logo, de acordo com Verissimo, podemos entender que Diogo Velázquez, a um só tempo, teria feito uma inversão: um auto-retrato sob o ponto-de-vista do rei, colocando-se, disfarçadamente, em proeminência mas “protegendo-se ao colocar a Infanta Margarida em primeiro plano. De forma concomitante, com efeito, ele quebra a quarta parede da composição, explorando uma inusitada familiaridade com o espectador.

A quebra da “quarta parede” pode nos remeter á metalinguagem: em Las Meninas, além da primeira narrativa (o pintor retratando Felipe IV num quadro imaginário) há a ilustração de uma cena dentro da cena (a Infanta e seu séquito) e uma terceira cena, que é Velázquez flagrando-se no ato de pintar — o artista falando da sua arte ou, o pintor auto retratando-se como artista, onde esses vários planos concorrem ao mesmo tempo, num flagrante instantâneo.

Logo, abre-se a possibilidade de se pensar nessa intertextualidade entre o Van Eyck do casal Arnolfini (onde Eyck sutilmente pinta a si mesmo, embora no sentido de documentar o retrato, muito antes do truque do espanhol) e Velázquez, como se Las Meninas seja uma narrativa dentro de outra narrativa ambas dentro de uma terceira que emoldura as duas, que é metalinguística. Esta, por sua vez, nos faz pensar, enquanto tentamos entender o conjunto da obra, sobre o ato de pintar, ou o ato da criação.

Não indo muito longe, outro autor do Século de Ouro que lança mão da metalinguística é Cervantes. Numa cena dentre tantas no Dom Quixote, há a famosa história de dois inseparáveis amigos — Anselmo e Lotário.

O primeiro deles se casa e resolve fazer um teste de fidelidade logo depois das bodas, convidando seu amigo a ficar na casa dele com a esposa enquanto ele viaja. No fim, depois de tantas peripécias, o outro foge com a esposa e o marido traído, o curioso impertinente, vítima de sua mórbida curiosidade, comete suicídio (sintomático que nosso Machado de Assis não era indiferente a essa história do Cervantes quando ele resolveu escrever o Dom Casmurro).

Detalhe é que o cura devolve o livro ao dono da estalagem (a obra era de alguém que havia esquecido bagagem ali) e faz um comentário meio à guisa de crítica literária, achando a história ligeiramente inverossímil — porém não deixando de achar a história do triângulo amoroso muito “bem bolada”.

Então, a um só tempo, aqui nós temos também uma espécie de jogo de espelhos, onde há uma narrativa que abre-se dentro de outra (como lembra Borges ao referir-se às 1001 Noites) e, em seguida, um comentário a respeito dessa segunda narrativa, tudo concorrendo naquilo que Maria Augusta da Costa Vieira (2013) aponta no escritor espanhol, a sua tendência a experimentar formas de discurso, e gostar de “brincar com essas mesmas formas discursivas que existiam naquele tempo”.

Maria Augusta salienta que, com esse expediente, Cervantes desafia o leitor que, à primeira vista, não dá conta da complexidade de Dom Quixote. “Ele estimula o leitor para pensar o tempo inteiro sobre a própria arte da escrita”, diz ela.

Esse comentário a respeito da hipertextualização (aqui empregada mais no sentido de fenômeno intertextual) em Dom Quixote não passaria muito longe do que podemos apreender, nas artes visuais, de Velázquez? No Las Meninas também vemos esses dois expedientes: o de brincar com o espectador e o de estimulá-lo a pensar sobre a própria arte da pintura.

Finalmente, outro exemplo de hipertextualização podemos encontrar em Shakespeare. Como lembra Frank Kermode (2001) usa a metalíngua como efeito recorrente em seu teatro, (p.256). Nelson Rodrigues (1994) ilustra o fenômeno:


Você se lembra que, em Hamlet, acontece o seguinte: — de repente, o palco shakespeariano é invadido por um bando de comediantes e os recém chegados fazem piruetas, dão saltos mortais, dançam e declamam. A plateia fica atônita de beleza. É o teatro dentro do teatro, a poesia dentro da poesia, o sonho dentro do sonho (p 269)

Na cena II do 2º ato (2012), Rosencrantz informa ao príncipe da Dinamarca que uma trupe de saltimbancos chega a Elsinor. Halmet pergunta por que o grupo resolveu partir de Wittenberg e seu amigo informa que eles foram proibidos de atuar na Saxônia devido “ao que eles representam” (p.56).

Em seguida, Rosencrantz e Hamlet começam a debater a respeito de moda e protocolo na montagem teatral. Quando trava contato com a trupe, o filho de Gertudes debate com os atores desde a natureza do teatro quanto à sua representação no palco e suas contingências, ensaiam uma interpretação, ao mesmo tempo em que barganha a famosa interpolação que irá desmascarar o rei aos olhos de Hamlet.

No ato III, temos finalmente o teatro no teatro. Hamlet, que antes doutrinara a trupe, agora noutro plano é o voyeur do rei, descrevendo a reação do espectador singular. A plateia vê o teatro, o teatro no teatro e a peça sendo vista pelos olhos do sprecher da cena — o intrépido herdeiro do trono da Dinamarca, que faz com que nós sejamos cúmplices dele projetados como se víssemos os saltimbancos da coxia.




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Embora pareça movediço e carente de certa fundamentação teórica, o conceito de sprecher nos parece interessante no sentido de poder, na nossa opinião, amalgamar um conceito de arte visual com de linguística, onde pode existir mais coisas além do céu e a terra do que supõe o código.

Contudo, o conceito de Quarta Parede, oriunda do teatro e usado em escala fordista no cinema, é mais utilizado como expediente cômico, de forma a que haja, a título de chiste, uma quebra dos protocolos da representação cênica com o aliciamento de espectador.

No caso de Velázquez, é como se o pintor espanhol tivesse provocado o fenômeno, de acordo com Verissimo, de, ao mesmo tempo, atrair para si a realeza de sua arte ao colocar-se em primeiro plano de forma original, mas não com a intenção de comicidade, mas de fazer com que o espectador possa meditar sobre a natureza de sua arte, e da pintura em geral.

Isso faz com que pensemos nos vários planos que concorrem em Las Meninas e que nos fazem lembrar das palavras de Maria Augusta da Costa Vieira, que observa como, assim como Velázquez, seu contemporâneo Cervantes, também gosta de brincar com formas discursivas e colocar o leitor/espectador a pensar, quase que o tempo todo, sobre o próprio código a ser utilizado: a arte de pintar e a de escrever. O pensamento está ali, se exercendo o tempo todo. Daí decorre toda essa “mobilidade” da narrativa, que se desenvolve em vários planos. Ou, como dizia Montaigne: “quem perde a minha pista é o leitor desatento”.


Fontes consultadas:



CERVANTES, Saavedra, Miguel de. Dom Quixote: o cavaleiro da triste figura. 4. ed.
São Paulo: Scipione, 2010.

FILHO, Mário. Quarta Parede. Disponível em Acessado em 30/05/2017.

GOMBRICH, Ernst. História da Arte. LTC, 2001.

KERMODE, Frank. Shakespeare's Language. Penguin UK, Inglaterra, 2001.

LOPEZ, Luiz Roberto. Sinfonias e Catedrais. UFRGS, 1996.

RODRIGUES, Nelson. A Menina Sem Estrela. Coampanhia das Letras, 1994.

SHAKESPEARE, William. Hamlet. LPM, Porto Alegre, 2012.

UNIVESP TV. Literatura Universal - Dom Quixote de La Mancha - Maria Augusta da Costa Vieira - Pgm 04. disponível em Acessado em 26/05/2017.

VERISSIMO, Luis Fernando. Traçando Madrid. Artes e Ofícios, Porto Alegre, 1997

Wednesday, May 31, 2017

Album de Retratos




Olha essa foto aqui, minha bisavó, minha avó, minha tia e o irmão dela, todos vestidos de aqualoucos, ele está montado num burrico, na beira da praia de Pinhal. O burrico um senhor lambe-lambe passeia pela orla para tirar fotos com banhistas. Ao fundo, quase na linha do horizonte no mar, vemos a cauda do Nautilus. Logo atrás da minha bisavó, temos Poseidon, o Príncipe Submarino (correndo atrás do guarda-sol que o Nordestão acabou levando ele) e, com um chicabon, aquele cara de chapéu dos 18 do Forte.

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Da direita para a esquerda: Cláudio, Hamlet, Fortimbrás, Laertes, Horácio, Polônio (com um copo de quentão), Cornélio, Ofélia (morta), Bernardo, Francisco. Os sem cabeça são Rosencrantz e Guildsntern. O local é o castelo de Elsinor.


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Essa foi tirada na terra dos Feácios. Eu (de amarelo), depois Ulisses ao lado de Alcinoo, Nausicaa, Calipso, Cila, Eumeu, Euricleia, os lotófagos, Caríbdis, as sereias, Aquele com um olho só é o Polifermo. do lado dele, Ninguém.

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Essa aqui eu tentei tirar do Little Richard do fundo do palco, mas ele não parava quieto então a foto pegou só um pedaço do piano e a cabeça do baixista.

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Brahms na casa dos Fellinger. O dr. Fellinger e a mulher dele são os do lado direito dele. Pela cara do Brahms (de faróis baixos) e as garrafas vazias, certamente que a foto foi tirada na hora da saideira.

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Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Katharine Houghton e... adivinha quem veio para jantar?


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Meu vô no Grêmio. Acho que é o Campeonato Municipal de 1927 (ou 26, mais provavelmente 26). Essa foto é bastante conhecida, mas ninguém conhece quem são os atletas na foto. O cara de branco deitado é o Lara. Meu vô é esse agachado com cara de velho mas com uns 19 anos ainda. O gordinho mulato à direita dele é o Adroaldo. O baixinho de pé no meio é o Luiz Carvalho.

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Eu com uns oito ou nove anos e o Garrincha no Churrascão Colônia lá em Curitiba. diziam que ele bebia, mas no jantar, ele não passou do guaraná.

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A Infanta Margarida, Dona Maria Agustina Sarmiento de Sotomayor, Dona Isabel de Velasco, Mari-Bárbola, Dona Marcela de Ulloa (atrás da dona Isabel), Diego Ruiz Azcona (lá na penumbra), Dom José Nieto (no fundo, na parte mais luminosa). Lá no canto esquerdo, dá prá ver o reflexo de Filipe IV e dona Mariana de Áustria (não queriam aparecer mas aceitaram ficar mais ao longe). O cara de bigodes pintando é o Velasquéz.

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Ligeiramente mareado, Dr. Victor Frankenstein. ao lado, o intrépido Capitão Wolton e o Monstro. ao fundo, um iceberg.

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Essa é a que eu mais gosto: Dante, Beatriz e Haroldo de Campos, nas margens do Letes.

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A luta pela liberdade e contra a opressão são o tema central deste folhetim que narra a história dos irmãos Coragem: João, Jerônimo e Duda, na fictícia cidade de Coroado. Tarcísio Meira é João Coragem, Cláudio Marzo é Eduardo Coragem (o Duda), Cláudio Cavalcanti é Jerônimo Coragem, Glória Menezes é Maria de Lara Barros Lemos e a Regina Duarte é a Ritinha.

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Uma bela selfie na lancha: Heidi Lamarr, Debbie Harry, Audrey Hepburn, o Gato, Rita Hayworth, Orson Welles, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Fidel Castro, meu avô, John, Paul, George, Ringo e a sombra de uma vítima de Hiroshima.

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Alfredo e Violeta e as ciganinhas. O senhor contemplativo ao fundo com cara de poucos amigos é Giorgio Germont.


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No entanto, para dizer a verdade, hoje em dia a razão e o amor quase não andam juntos. É pena que alguns vizinhos honestos não se esforcem para torná-los amigos. Como vê, também posso ser espirituoso se houver ocasião.

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Dom Quixote, Sancho Pança, os galeotes, um vigário, Anselmo, Lotário e Camila. Ao fundo, parecido com um moinho de vento, um moinho de vento.

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A noite é linda
Nos braços teus
é cedo ainda
Pra dizer adeus

Vem
Não deixe pra depois
Depois
Vem
Que a noite é de nós dois
Nós dois
Vem
Que a lua é camarada
Em teus braços
Quero ver
O sol nascer

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De pé: Gainete, Sadi, Scala, Luis Carlos, Tovar e Laurício. Agachados: Valdomiro, Bráulio, Claudiomiro, Dorinho e Canhoto.

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Dumas pai, George Sand e a Condessa Marie d'Agoult. de pé, Hector Berlioz, Victor Hugo, Paganini, Gioachino Rossini. No piano, Lizst tocando provavelmente "A Mulher do Leiteiro". O busto em cima do pianoforte é Beethoven. Lá no fundo, na parede, um retrato de Byron e uma estátua da Santa Joana D'Arc na esquerda.

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Os apóstolos se agrupam em quatro grupos de três, Cristo no centro. Da esquerda para a direita da foto, segundo as cabeças, estão: no primeiro grupo, meu avô, Bartolomeu, Tiago Menor e André; no segundo grupo, Judas Iscariote, Pedro (cabelo branco) e João (imberbe); Cristo (fazendo vinho) no terceiro grupo, Tomé, Tiago Maior e Filipe (também imberbe); e no quarto grupo, Mateus (aparentemente com barba rala), Judas Tadeu e Simão Cananeu também chamado de Simão, o Zelote, por último.


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Essa foto é para entrar para a história realmente muito rara, está colada com uma espécie de moldura de papelão bem grosso. É Heinrich Schliemann posando feliz diante das ruínas de Tróia. Ao seu lado, vemos Aquiles, Tétis, Páris, Heitor, Pátroclo, Palas Atena, Apolo, Helena, Agamênon, Ajax, Nestor, Silvana Mangano, Anthony Quinn, Rossana Podestà e Dino De Laurentiis.


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Essa aqui, nunca antes vista, é do famoso Atentado de Sarajevo: foi tirada por um popular que passava as férias no local. Quando ampliada, podemos ver que, na verdade, o Arquiduque é, na verdade, um sósia. Isso comprova a tese de que Gavilo Princip fora realmente contratado para forjar a eliminação física de Francisco Ferdinando que, na verdade, não morreu. Apenas cansou daquela barafunda decadente que era o Império e decidiu mudar de identidade, fugindo para Buenos Aires através de uma ratline.

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Grande momento quando Alexander Selkirk é finalmente resgatado de uma ilha perdida no Pacífico por Woodes Rogers, que é o capitão do Duke. O sujeito ao lado de Selkirk usando um calção Adidas é Sexta-Feira, nativo da ilha.


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Essa aqui é clássica: Édipo, Tirésias, Creonte e Freud (com um charuto)


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Moulin Rouge, no Montmartre, final do século XIX. no primeiro plano, uma moça com o rosto branco pela luz do flash. Ao fundo, duas moças conversando e um senhor de cartola olhando para o lado. No centro, rodeando uma mesa, tomando absinto, vemos um senhor de barbas, uma senhora com o rosto verde, outro senhor desconhecido de bigodes, depois José Ferrer como Lautrec e Zsa Zsa Gabor (de costas).








Saturday, May 27, 2017

O Criador e a Criatura


Capa do relançamento do Pepper's

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, chega aos 50 anos e, como não podia deixar de ser, com relançamento comemorativo e muitos comentários a respeito do álbum que é considerado um dos melhores discos de rock de todos os tempos.

Acho que não há praticamente mais nada a ser escrito a respeito do oitavo trabalho do grupo. Sobre ele, já escreveram-se milhares de artigos, dezenas de documentários e livros. O relançamento em caixa especial, por exemplo, vem com sobras de estúdio e toda a sorte de memorabilia a respeito, desde estojo em formato de bumbo até o fac-símile do famoso cartas do Mr. Kite.

Porém, ao invés de me somar à tudo o que já foi dito de positivo, prefiro debruçar-me sobre a versão dos oponentes do trabalho. Não pode questão de gosto, já que, com relação ao meu próprio, de fato, ele é ambíguo quanto ao álbum. Claro que sempre me entusiasma ouvir e reouvir o disco, porém tenho um interesse (mórbido?) em avaliar as opiniões em contrário ao mito do Pepper's.

Por exemplo, ao passo de que um musicólogo, John Covack, o define como "proto-progressivo". Por outro lado, Billy Childish, artista plástico, músico e queridinho de Kurt Cobain e Jack White considera o Pepper's "a morte do rock'n roll. Porém, antes de um ardoroso fã dos Beatles não se contenha e esteja a dois passos de meter a mão na cara dele, não deixa de ser sintomático que um dos primeiros críticos do disco foi John Lennon.

Aliás, isso deixou George Martin magoado por muito tempo. John falou mais ou menos o que poderíamos entender como morte do rock: que, pegando o mote de Covack sobre o Pepper's como precursor do progressivo, em entrevistas após a saída dos Beatles, Lennon dizia que o trabalho não era rock. Mesmo que eles tivessem sido pioneiros da aplicação de tecnologias como o Adicional Double Tracking (ADT) que, mais tarde, seria a doença fácil da própria era do progressivo — e John estivesse largamente engajado nesse processo, ele passou a renegar o Pepper's, como se ele fosse uma espécie de fraude feita por toneladas de overdubs e pós-produção.

O curioso é que, recentemente, o guitarrista dos Stones, Keith Richards, dourou a mesma pílula de Childish, chamando o álbum de 'rubbish'. Óbvio que isso atraiu a fúria de beatlemaníacos (principalmente os que detestam os Stones) e, com efeito, muitos morderam a isca de Keith que, como nós o conhecemos bem, é um sincero bravateiro. Críticas à Richards passaram na conta do divertido e malfadado Theuir Satanic Majesties Request que, por si só, desqualificaria qualquer opinião dos Stones contra o disco.

Fato é que Keith também detestava Their Satanic. Hoje, provavelmente nenhum stone goste desse disco (embora fãs, como nós, sempre achemos que somos as respectivas únicas pessoas que gostam dele). Todos foram na voga do flower power. Mas, passada a moda, todos sentiram saudades do rock.

Por mais perplexidade que a produção de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band tenha causado nos últimos 50 anos, esse tipo de crítica — pegando o mote do progressivo e da "morte do rock", a verdade é que, se formos pensar, no começo, assim como no jazz, tudo era ao vivo. Tudo era essencialmente acústico. Nem que você tivesse que achar alguém na rua só para entrar no estúdio só para tocar o pandeiro, o corte todo era ao vivo. Quer dizer, o culpado não é o Sgt. Pepper's; vamos dizer que a culpa é do overdub.

Foi um salto gigantesco na música poder mostrar que era possível fazer avant-garde num disco de rock. Por isso, o álbum dos Beatles é o que é. Mas, pelo que vemos, a crítica se dá no sentido de que, a partir dali, músicos passaram a frequentar também a mesa de gravação, a influenciar cada vez mais a produção dos seus próprios trabalhos, que foram ganhando cada vez mais foros de complexidade, de uma forma nunca antes vista. O problema é que, por conta do ADT e de meses as pistas múltiplas, tudo era uma "fraude". Era uma banda que só existia no estúdio.

Essa foi a opção dos Beatles. Deixaram a arena do rock para ingressar na avant-garde. O Pepper's, nesse sentido, é amplamente proto-progressivo. Tudo o que apareceu, até o mais excrescente, veio da costela do Pepper's. Até que, de fato, ninguém mais aguentava mais progressivo, como se a aventura em questão tivesse ido longe demais (e o próprio Childish era um músico punk, o que explica em parte o ódio aos Beatles). Como se todo o perfeccionismo e a magalomania sinfônica do progressivo fosse culpa do Pepper's. De fato, é fácil de entender esse rancor. Vamos dizer assim: rock com "tracking" já não é rock, é a traição do rock.

Hoje é difícil ser tão radical: até gravações ao vivo que caem no mercado têm overdubs. A própria indústria da música matou o ao vivo. Se formos radicais, chegaremos à conclusão de que o rock, como diria o falecido Raul Seixas, morreu mesmo nos anos 50, nos tempos do Sam Philips.

Contudo, ao focar sobre a música dos Beatles, nada seria como antes. Muitos críticos entendem, por exemplo, que o Pepper's não é uma evolução mas o contrário. difícil bancar essa. Mas entende-se que, com o White Album, a produção do quarteto foi tornando-se marcante pela auto-paródia pelo ecletismo extremo. E, afinal de contas, o projeto Get Back, por sua vez, parecia mais uma mudança de percurso, onde os Beatles tentavam inutilmente voltar aos tempos do Please Please Me. A gente entende a crítica, pois é difícil criticar tanto o quarteto, quanto a sua produção.

Dizer que houve uma involução nos Beatles é difícil. O rock saiu do palco, adaptou-se á mesa de gravação, abarcou outros estilos musicais e tropicalizou-se, isso é involução? Para os roqueiros bizantinos, é possível. Mas, enfim, o que quero dizer é que, para o bem ou para o mal, é importante entender as razões da crítica, não só nesse caso, mas em todos, tentar entender o que se quer dizer. Talvez realmente haja algo de depurador na crítica, principalmente no caso do Pepepr's (e isso que não quis elencar muitas outras, refutáveis ou não, que foram direcionadas ao álbum), onde existem bilhões de resenhas positivas e estudos sobre. Como diria Nelson Rodrigues, enfim, dando o braço a torcer: a maior apoteose é a vaia.

Eu particularmente, já devo ter escrito dezenas de artigos sobre o Sgt. Pepper's. Não que eu seja rebelde, mas de fato eu realmente não teria nem como acrescentar mais o que eu disse, imagine acrescentar a tudo o que já foi dito.

Quando eles largaram os palcos, escolheram entrar na banda do Sargento Pimenta. Mas criaram um Frankenstein. Como o cientista do livro de Mary Shelley, teriam que suportar o monstrengo pelo fim dos seus dias. John dizia que não gostava do disco, preferia o White Album. Certa vez, em Los Angeles, nos anos 70, Martin reencontrou John num estúdio. Lennon pediu desculpas a George, dizendo que falou aquilo tudo sem pensar. Verdade é que Martin ficou muito magoado com a crítica, que tomou como pessoal. Como no caso do Dr. Victor Frankestein, é difícil para o criador entender a criatura.




Tuesday, May 16, 2017

O Primeiro Cronista


Rua Clara, a Andradas da "subida"

Finalmente pus as mãos naquilo que é o primeiro registro de um cronista ilhéu* sobre o nosso burgo açoriano. O livro é o Antigualhas, ou "Reminiscências de Porto Alegre". O autor é Antônio Pereira Coruja, contemporâneo de Araújo Porto Alegre. O livro é uma espécie de Os Trabalhos e os Dias dos primeiros tempos da cidade.

A maioria das histórias que hoje são correntes — como a história do Alto da Bronze ou dos famosos três nomes da rua General Bento Martins remonta ao texto original das Antigualhas. Publicadas originalmente em 1887, na Gazeta de Porto Alegre (do Von Koseritz, não confundir com o diário de Porto Alegre, de 1833, o primeiro da capital).

Ou seja, muito do que temos hoje, e que é amiúde citado por historiadores a partir dali tem o Antigualhas como o ponto de partida. O Guia Histórico (do Sérgio da Costa Franco), por exemplo, praticamente compilou tudo o que serviria a respeito de nomes de logradouros, topônimos, localização de ruas e seus nomes originais. Com efeito, tudo o que podemos dizer que é informação histórica de valor (muito embora o livro não se presta a tanto, como diz no seu subtítulo) já diluiu-se em publicações afora.

No entanto, causa um espanto a experiência de atravessar as páginas do relato original, tratando-se, pois, de uma fonte primaríssima de um sujeito que nos coloca no alvorecer de Porto Alegre com a sua singular visão de spretcher. Sde a simples citação apenas apresenta-se como uma mera referência, o Antigualhas é como se voltássemos no tempo e travássemos conhecimento com o cronista Coruja em suas andanças da memória, perfazendo o caminho pela lembrança do jovem que ele foi quando relata essas histórias — de memória, a lembrança do jovem que vive no homem velho que Coruja era, já vivendo na Corte, há muito apartado do seu porto dos casais.

Coruja foi menino para frequentar a escola do Amansa-Burros: era um professor de Latim e de Primeiras Letras que lecionava na região da Matriz, e tinha um liceu mais ou menos na esquina da hoje Riachuelo com Caldas Júnior. Ao contrário da tradição popular que, como acontece com os eventos da rua do Arvoredo, trás o tal professor para o final do século XIX, a maioria das "reminiscências" de Coruja são anteriores à Revolta de 35 — da qual ele tomou parte do lado dos revoltosos e, por conta disso, acabou exilando-se depois de oito meses de prisão (na OPresinganga que foi de onde o Conde de Porto Alegre conflagrou a retomada de Porto Alegre, em 1836).

Aliás, foi durante as aulas que Coruja ganhou o apelido. Para poder exorcizar o bullyng, ele decidiu incorporá-lo ao nome. quer dizer, assim como aconteceria com Antônio Mostardeiro, é caso similar de apelido que virou sobrenome (o famoso Comendador Coruja, por sua vez, é filho de criação deste, não o mesmo, como muitos confundem).

Pelas descrições do traçado de Porto Alegre, por exemplo, fica a impressão de que, como a Tróia descoberta por Heinrich Schliemann, da cidade original, a atual Porto Alegre herdou pelo menos apenas o seu traçado. Era uma outra cidade e cabe a nós, ao ler as descrições de Coruja sobre tanto os nomes de ruas (que muitos tinham a ver com a sua origem e que, com a alteração, perderam muito da sua história com isso) quanto da de pessoas (muitos pelo apelido (dr. Cevadinha, Dr. Perdiz, Espalha Brasas, Barriga Me Dói, etc) demonstram como Porto Alegre era uma cidade pequena, um burgo açoriano, como dizia o Reverbel, e onde todos se conheciam. Tanto que muitos topônimos eram relacionados a pessoas — como o Beco do Fanha, nome original da atual Caldas Júnior.

Alguns nomes têm referências históricas e que foram pouco exploradas. Um exemplo interessante é a Vasco Alves, que originalmente teve o nome de Beco dos Guaranis. Consta que ali fora sediado o que restou de dois batalhões de guaranis que, em 1827, foram recrutados pelo exército brasileiro para bater-se contra as tropas do General Rivera, e que sofreram uma terrível derrota contra os orientais na guerra Cisplatina, em setembro de 1825.

Os remanescentes do 24º e 25º regimentos que bateram-se contra Rivera em Rincón de Las Gallinas veio para Porto Alegre, onde ali ficou aquartelado, num prédio na esquina da Barros com Riachuelo. Daí veio o nome, Beco dos Guaranis, que durou pelo menos uns cinquenta anos.

Quer dizer, o nome fixou-se entre a população e perdurou mesmo depois da mudança para Vasco Alves. Mesmo assim, hoje ninguém chama o local de Beco dos Guaranis. Ao contrário do Alto da Bronze, cujo topônimo é realmente uma prova da passagem do tempo. A sua menção remonta, justamente, à mocidade de Coruja, ou seja, o primeiro quartel do Século XIX. Se a personagem Bronze existiu (e existiu), ela pertence a segunda dentição de ilhéus do nosso burgo açoriano.




Porto Alegre era realmente circunscrita à península. Toda a sua história estava dentro desses quadrantes. Havia uma entrada por terra (o Portão, mais ou menos onde hoje fica aquela praça zoada na esquina da Salgado Filho com a Annes dias, no quartier-latin dos salgadoces do centro). O resto era um casario colonial (casas em geral sem platibanda. Coruja viu a primeira casa ganhar vidros, na Rua da Ponte), ruas de pé de moleque, trânsito de muares e muitos frades de pedra pelas calçadas, becos sem saída e muito lixo pelas ruas.

Para os lados de fora do portão, havia um terreno, de propriedade da viúva de Pinto Bandeira, e que estendia-se do começo da estrada dos Moinhos de Vento (a largada da Independência com a Santa Casa, então Caridade, até os altos da Barros Cassal (ali ficava o tal moinho que emprestou o nome à tal estrada e, por conseguinte, ao bairro onde ela chegava, lá no alto da colina de quem ia para os lados da Aldeia (Gravataí). Da esquina da Indepê com a Barros até o Guaíba (ainda sem aterros), era tudo um terreno fechado, que ´pertencia a mulher. A Chácara, pois, ganhou o nome de "da Brigadeira").

Porto Alegre, como Tróia, tem diversas porto alegres por debaixo da que vemos hoje. Se o relato cru e vivo do Nilo Ruschel no Rua da Praia, ao contar, com desenvoltura e ilustração, da Porto Alegre do começo do século passado, com os primeiros cafés cantantes, a imprensa e o comércio alemães, enfim, a Porto Alegre que morreu com a Revolução de 30, a Porto Alegre do tempo dos Caçadores (que Erico Verissimo tenta reconstituir no Arquipélago), a Porto Alegre das Antigualhas é uma volta ao começo, é como chegar nas ruínas da Tróia de Príamo, do Paládio, de Andrômaca e de Heitor.



* Sempre lembrando que o nosso "primeiro cronista" mesmo foi um estrangeiro, o preclaro Saint-Hilaire, lá pelos idos de 1820. Curioso que, o botãnico francês, no entanto, não é mencionado por Coruja.



Friday, May 12, 2017

Love or Confusion


A capa original

Parece que foi ontem que eu ganhei o meu primeiro disco do Jimi Hendrix — cujo álbum de estreia faz 50 anos esta noite.

Lembro que foi na época que os remasters dele estavam aparecendo em CD (depois de um primeiro lançamento, em formato digital, pela Polydor, nos anos 80, mas que não chegou a aparecer muito por aqui). Os CDs estavam aparecendo com uma mixagem excepcional para a época (1997) e, o que era melhor, em versão brasileira.

Quando eu era piá, lembro-me de assistir aleatoriamente na tevê a famosa cena do Jimi tocando o star Spanned Banner naquela manhã visceral e nublada em Woodstock. Achava que ele fosse um músico instrumentista apenas, e essa foi a impressão que ficou comigo por anos.

Fora que, vivendo naqueles tempos em que a internet era mais do que uma utopia, não havia nada mais esquecido do que artistas dos anos 60. E mais do que isso: parecia que o objetivo dos anos 80 era que aquela gente fosse esquecida mesmo. E quase foi.

Um disco do Hendrix, por exemplo. Disputado a manotaços e cachaçadas em sebos, muitas vezes nem paravam nas estantes. Na maioria das vezes, algum colecionador já combinava com o dono da loja que, se aparece o "disco aquele", ele queria e 1 certamente — pagaria a quantia que fosse pelo bolachão.

Por isso que coisas de artistas como o Jimi eram tão escassos que pouco podíamos conhecer. Não havia publicações a respeito. Isso foi por anos, até 1997.

Recordo que o Contracultura, da FM Cultura, fez um especial enorme com aqueles discos. Era a primeira vez que eu certamente ouvia no rádio um cara como o Jimi. Não prestei muita atenção, porém, gravei o programa na época.

Aliás, minto: a primeira vez que eu escutei o Experience foi quando recebi de doação a trilha do Sem Destino. Tinha lá o "If Six Was Nine" (música que eu amigo meu, beatlemaníaco, detestava, como detestava o Experience). Na verdade, aquele disco mudou meu gosto musical: até então, eu não escutava nada de rock que fosse além de 67 (além dos Beatles e Stones, só até a fase Brian Jones, ora veja só que bobagem).

Gostei da loucura dionisíaca de "If Six Was Nine", mas era a única faixa que eu tinha ouvido naquele sentido de colocar o disco na minha própria eletrola e ouvir (essa experiência, com efeito, é essencial para assimilar a música, mais do que a do rádio).

Lembro que pedi de presente de Natal daquele ano a coletânea Experience Hendrix (o Smash Hits só foi relançada recentemente). Não sei o que aconteceu, mas, por um surpreendente delay de um ano, eu acabei ganhando o CD em dezembro do ano seguinte.

Botei o disquinho no meu estéreo e viciei. Fiquei reouvindo aquilo pelos meses seguintes, pensando: meu Deus, isso aqui é o futuro". Não fosse o bastante, fui obrigado a corer atrás de todos os discos. Por sorte, achei num sebo um Are You Experienced (por incrível que pareça, naquele tempo o vinil, mesmo valorizado, valia menos que o compact disc, ainda mais lançamento, porque era um produto ainda muito caro nas lojas.

Lembro de inúmeras chapações e bebedeiras abastecidas pelo Are You Experienced. Aquilo me abriu a cabeça para aquele tipo de rock visceral, que dialogava com outras expressões, como o jazz, até por conta de que Mitch Mitchell, a despeito da idade, era um músico de estúdio experimentado (desculpe o trocadilho) e era totalmente influenciado tanto por fusion quanto por Ronnie Stephenson.

O resultado foi, e é, uma das maiores parcerias da história da música, que é a de Mitch com Hendrix. Mesmo que eles não tivessem nada na cabeça para tocar, qualquer jam furada com ambos era uma experiência (desculpe) profunda, de cabeça limpa, imagine sob influência de outras coisas. Gostava de ficar trancado no quarto ouvindo repetidas vezes o Are You, de preferência, tomando talagaços de vodka (tanto que eu não conseguia escutar aquilo de cara).

O tempo passou, vendi meus discos (cheguei a ter o Band of Gypsies americano, capa linda, provavelmente uma prensagem dos anos 80, selo vermelho). Com a Internet, aí comecei a ouvir muitas outras coisas (muita coisa do tempo dele, e que a gente não tinha acesso). Mas, desde aqueles tempos imemoriais, em que uma informação era quase uma mensagem numa garrafa, hoje é ótimo saber que os anos 60 não foram devastados pelos anos 80 (que também não foram devastados pelos anos 90), e que tem muito guri com a camiseta do Hendrix andando por aí, e isso é realmente um milagre da vida.

Thursday, May 11, 2017

Crusoé

Para LFV



Ninguém acreditou quando, numa última sexta-feira de janeiro, descobriram eu sujeito que parecia o Robinson Crusoé na região mais inóspita da Amazônia. Convivendo com índios Awás, ele era do extremo sul do Brasil e havia desaparecido há mais de um ano. Quand oo encontraram, ele estava perfeitamente integrado à região. Tanto que, quando tentavam dar-lhe alimentação adequada, ele não conseguia comer: estava acostumado a insetos e à água dos rios.

Também havia desaprendido ao falar — não se sabe por algum tipo de trauma ou simplesmente por conta do contato com os aborígenes. Palo que me contaram, tiveram que fazer ele reaprender o português.

— Sumarã! sumarã! dizia o homem, vendo os expedicionários e médicos.

Decorridos algumas semanas, o bom selvagem acaba voltando a tornar-se uma pessoa (vamos dizer assim) civilizada. Primeiro, passam máquina zero naquela melena de Tiradentes. Depois, fazxem a barba de bandeirante. A partir de um mês, já consegue comer cozido. Mas o grande momento foi quando, recuperado do trauma, ele volta a falar fluentemente. Então, diz qual é seu nome:

- Vicente.

A melhora é visível. Aos poucos, o homem começa a contar da sua vida até de onde havia um grande hiato que, por sinal, o impedia de explicar a sua desdita. Disse que estava no meio da mata, procurando Ayahuasca. Lembra-se, no entanto, que o problema começou quando ele brigou com o guia e resolveu seguir por conta própria, confiando apena sem mapas que havia pesquisado por conta (todos com efeito associaram o teu trauma (ou "trauma") ao uso da dita beberragem, o que seria uma hipótese mais do que plausível.

Contou que levara um rádio de onda curta, e que captava emissoras de todo o mundo, inclusive de sua terra. Na verdade, teve um celular roubado por um felá, e foi obrigado a virar-se um um Transglobe que mal cabia na bagagem. Até que a eneriga das pilhas acabaram, e ele perdeu todo o contato com o resto do mundo. Fornando um pouco mais a memória, chega a lembrar-se de cerimoniais de iniciação ao Daime e que havia cogitado trazer a Ayahuasca de contrabando.

Em alguns momentos, porém, a saúde deve parecia declinar. Acharam que a recordação desses episódios pudessem retardar a recuperação. Assim, resolveram deixá-lo em repouso, evitando que tentasse recordar de alguma coisa.

Contudo, depois de ficar uma manhã inteira em silêncio, na hora da sopa, ele interpelou ao perplexo auxiliar de enfermagem:

- Quando eu desapareci, lembro que o Inter de Porto Alegre estava liderando o Brasileirão. O Inter foi campeão?

Perplexo, entes de responder qualquer coisa, ele chama os médicos. E fala da pergunta. Eis que, entreolhando-se eles entram no quarto. ele refaz as perguntas. Todos ficam sérios. Um deles responde, feliz.

- Ah, o Inter? Foi campeão.

- É mesmo? - responde o homem. - Puxa!

O tratamento continuava. Sempre que aparecia alguém novo no hospital, diziam para confirmar que o Inter foi campeão em 2017.

Alguém comentou:

- Vocês estão todos malucos? Ele vai descobrir a verdade, mais cedo ou mais tarde.

- E, mas agora, pelo visto, a verdade pode ser traumatizante. Por isso, é melhor não correr o risco.

Não deu outra. Vicente acabou ficando tão empolgado com a história do Inter que, sempre que aparecia alguém, eles inventavam as mais mirabolantes histórias. Gols imaginários, comemorações, estádio lotado nas últimas rodadas, etc. Uma auxiliar fica com medo de entrar na potoca. Serve nosso herói naturalmente. Quando vai vai sair do quarto, retirando a refeição, ele dispara:

- Quando foi o último jogo?

Sem saída, resolve chutar:

- Hã, acho que fo-foi empate com o Atlético Mineiro...

- Ué, mas eu lembro que a tabela dizia que a última rodada era com o Fluminense.

- Bom — arremeta a moça — qualquer coisa, eu vou confirmar com o plantonista...

Crusoé ficou com uma pula atrás da orelha. Afinal, ele ali conhece o próprio time mais do que ninguém. E se eles estivessem faltando com a verdade? Passa um filma na sua cabeça. E se não aconteceu justamente o contrário, e eles o estivessem mentindo por piedade?


- Acho que ele descobriu — suspirou um médico.

A auxiliar de enfermagem arrancava os cabelos:

- A culpa foi minha, a culpa foi minha!!

- Acontece — disse o segundo médico.

- E agora, e se ele piorar? — quis saber o terceiro médico.

- Vamos ver.... — murmurou o quarto médico.

Todos entraram no quarto do paciente. Crusoé parece arrasado. Abate-se sobre ele uma tristeza temporã, e que todos os torcedores do seu clube já haviam, de certa forma, elaborado. Ele iria ter que conviver com isso mas, dada a sua condição, quem sabe se conseguirá resistir?

- Bom, enfim — falou o doente. — De nada ficarmos rememorando o Brasileirão. Não irei mais encher o saco de vocês sobre esse assunto. — E como foi o Campeonato Gaúcho deste ano?

Desesperado, um dos médicos, fora do alcance de Crusoé, agitava os braços com uma planilha enquanto tentava ser ouvindo pela leitura labial e os olhos esbugalhados:

- Não falem do Gauchão! Não falem do Gaúchão!







Tuesday, May 09, 2017

Entrevista com

Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?

Nasci na Beneficiência Portuguesa. Aliás, estive ali outro dia. Acho engraçado essas coisas. A gente vai ficando velho e vai se desligando do presente, e vai se perdendo num passado que, às vezes, nunca existiu. Minha vó conta que minha mãe teve uma série hemorragia depois do meu parto, ela sangrou até a morte, o sangue escorria pela cama, lençóis, roupas, escorria pela escada, por tudo, até que ela se deu conta e chamou as enfermeiras. Foram acordar o dr. Tiago, e ele chegou, ela estava praticamente morta. ela sobreviveu para contar a história. sempre que eu passo ali eu imagino que eu nasci numa madrugada, num espasmo de sangue, numa pororoca de morte.

Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco, disse eu. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução.


Eu acho que sou de esquerda. Mas não sou praticamente. Eu lembro de uma época em que política era algo meio subestimado. parecia mais coisa de politiburo, de diretório, de grêmio acadêmico. Vivia uma época na minha graduação em que discutir política era algo que não existia. Era coisa de gente desbundada. Confesso que tinha total desprezo pela matéria. é aquela coisa, a gente quer só festa na graduação, não quer aprender nada. Nada! Aquele atestado de não quis mudar o mundo. Quem é que queria naquela época? Política era coisa de velho, de político mesmo. Essa era o pensamento da época. Quando voejo as pessoas protestando hoje, me sinto um anacrônico. Minha época de protestar passou. mas eu acredito que meus filhos, se um dia eu os terei, eles viverão sob o socialismo. Mas na verdade, eu sou um capitalista lúmpen. O capitalismo me deu tudo: iates, mansões, estabilidade e um bangalô na Jamaica.

Loira ou morena?


Bem eu acho que todo mundo um dia vai morrer. Outro dia passei no jazigo da minha família. E um belo jazigo. Estava bastante florido e haviam colocado mais fotos. E estranho quando as pessoas que você conviveu estão hoje morando lá. às vezes eu acho que a gente não morre. A gente vai para um asilo em algum lugar. Sei que elas estão lá, em algum lugar, provavelmente vivendo melhor do que aqui. É como um parente seu que está internado em algum lugar, mas você não vai visitá-lo. Mas sente que ele está bem. Isso me lembrou de uma tia quando morreu. Ele teve uma vida ingrata. Um dia, tempos depois, eu sonhei com ela. eu estava em algum lugar como naquelas casas tipo, sei lá, tipo Ailsa Avenue, Twickenham, estilo londrino. E ela me atendeu, parecia feliz. Então eu cheguei a conclusão que ela estava viva e bem, porém distante. Como meus avós, sinto falta de falar com eles. Eram pessoas boas de se conviver. é difícil encontrar pessoas assim. Acho que a pior morte é a solidão total.

Gosta de sertanejo universitário?

Acho que a gente está em plena distopia. Não vou usar aquela palavra, mas a verdade é que é o começo do fim. A vida dá voltas e a gente chegou na Tirania dos Trinta.

Você é cínico ou crê no amor?

Tive uma infância comum. Porém morei em tanto lugar que não tenho raízes, nem sotaque. Na verdade, eu sou como um judeu errante. Acho que é algum atavismo, algo ligado à minha ascendência, é maior do que eu. Acho que é maldição, só os oráculos poderiam dizer. Mas não tenho saudades de nada. Só tenho saudades do futuro.