Friday, December 24, 2010

Eça e o Milagre


O bruxo de Póvoa de Varzim


Dia de Natal eu me lembro de uma história de um de meus escritores preferidos, o velho Eça de Queirós.

Creio que é de um conto (ou um trecho de um livro?), que acho que o Carlos Reverbel (ou o Flávio Alcaraz Gomes?) citava no Correio do Povo lá nos tempos de antigamente.

Enfim: diz que o rico Obed, com seus gados morrendo e as vinhas morrendo, mandou servos atrás de um certo Rabi da Galiléia que fazia milagres.

Não o encontraram.

Um certo Publius Septimus, o poderoso centurião romano, estava com a filha pequena com uma febre muito alta, à morte. Pronto despachou legionários em busca do mesmo Rabi. Não o acharam.

Pois, entre Enganiu e Cesarea, um menino miserável e insalubremente pobre e moribundo empertigava-se num catre, suplicando à sua mamãe que lhe trouxesse Jesus, que (diziam) ama os pequeninos, para que ele pudesse então ser curado.

A mãe, em desespero e entre soluços, apenas pôde susurrar: 'Ó meu filho, como posso te deixar? Longas são as estradas da Galiléia e curta a piedade dos homens. Ninguém atenderia ao meu recado e me apontaria a morada do doce Rabi. Ó meu filho, talvez Jesus morresse... (já dispinéica em seu desalento, a prantear o filho) Nem mesmo os ricos e fortes o encontram. O céu o trouxe, o céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes...'.

A criança murmurou: 'Mãe, eu queria ver Jesus...'. E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança: 'Aqui estou'.




Feliz Natal.

Adoração dos Reis Magos



Baltazar: Puxa, é a sua cara, hein, seu José?
José: ¬¬

Thursday, December 23, 2010

Conto de Natal

Tenho uma tia que tem um daqueles carrinhos de bebida na sala. Detalhe que ela não bebe e o meu tio só bebe vinho de garrafão (ele metodicamente guarda o estoque no porão, e é extremamente ciumento com seu vinho vadio). Ou seja, o tal carrinho é quase um depósito de bebidas destiladas que eles ganham de presente e — óbvio — deixam tudo de enfeite.

Sempre que eu visito ela eu passo na sala e fico gracejando sobre aquele seleto elenco de uísques, vermutes, amarulas, conhaques que ficam ao Deus dará. Porém, o meu xodó era uma garrafa de vinho licorado importado (aquele do Orson Welles).

Eu vivia falando que queria beber aquele vinho licorado. Eu pegava a garrafa, olhava, falava do rótulo. Minha tia dizia: "olha, guri, o teu tio não vai gostar de saber que tu tá mexando no carrinho" (eu claro não ia beber, mas gostava de fazer menção só para deixá-la baratinada). Eu enchia tanto o saco dela que ela chamava o Paul Masson de "o vinho do Marcelo". Eu pegava e imitava o Orson Welles: "MWAHHHHAAAAAAA the french champagne has always been celebrated for it's excellence... THERE IS A CALIFORNIA CHAMPAGNE!".

Um dia eu dormi lá — tava (vejam só a coincidência) — dormindo no sofá da sala. E tava todo mundo dormindo, era alta madrugada. Eu pensei com meus botões: "porra. Eles não vão beber nunca essa merda de vinho. Nem esse vinho, nem porra de bebida nenhuma dessa merda de carrinho". Eu vou é abrir esse maldito vinho licorado. Foda-se.

Na penumbra, fui até a cozinha. Peguei uma jarra vazia, um saca-rolhas e um copo. Abri o vinho na surdina, debaixo do sofá (com um AHAM!! bem alto junto). Passei o líquido para a jarra.

Depois, pé ante pé, fui até a cozinha de novo, liguei o fogão e fervi uma bule de chá da índia. Depois da infusão, peguei de um funil e despejei o chá dentro da garrafa de vinho vazia. Meti a rolha de novo, coloquei silenciosamente a garrafa com o chá no carrinho, e fiquei curtindo o vinho madrugada afora, até dormir. Melhor vinho de todos os tempos.


Tempos depois, nossa família resolveu mudar a liturgia de entrega dos presentes: ao invés de cada um seguir à risca uma lista para filhos, afilhados e pais, inventaram de fazer um amigo secreto!

Eu peguei um primo. Comprei prá ele um JB que me custou as burras, mas tudo bem. Noite do dia 24, todo mundo trocando presentes — um luxo. Chegou a minha vez de falar quem era: "ele é assim, assado — aquela merda toda". Aí prtonto, meu primo ganhou o JB — já abrindo e tomando tipo cauboizinho e tal.

Quando todo mundo já havia falado, chegou a vez da minha tia. Aí ela: "meu amigo secreto é assim, assado, gosta disso, gosta daquilo, usa tênis tal, torce para o time tal". Pessoal: "é o Marcelo, é o Marcelo". Minha tia:

— É o Marcelo!

Eu: "opa, obrigado, titi". Peguei a caixa e fui para o meu canto. Abri a caixa. Era a garrafa do Paul Masson com o chá dentro. Do outro lado da sala, minha tia me dava tchauzinhos. Depois me disse, sorrindo: "tu queria tanto esse vinho que eu não resisti, espero que gostes".

Must be Santa

Tuesday, December 21, 2010

O Verão austral chegou



O Verão austral chegou. A lua faz as ondas do mar morrerem em fúria na areia numa festa de espumas; o estio se insurge em marcha, chega a hora da colheita, Perséfone volta para o seio de Deméter, a brisa é mansa e triste, as crianças entram em férias e a Brigada Militar lança a Operação Golfinho, Tramandaí se enche de pescadores e turistas chatos.

O Verão austral chegou. Acho que junto com o largo do 'Inverno', o primeiro movimento do 'Verão' do Vivaldi é um dos mais belos e melancólicos do Estro Armonico. O que seria um paradoxo, a estação mais alegre chora num suave monocórdio de inquietação, melancolia e tristeza.

O Verão chegou. O Verão é o sábado das estações. Ou como dizia o Máriio Quintana: o Verão é um senhor gordo de camiseta na varanda bebendo cerveja. E o Inverno? "O Inverno é um velhinho tritritante".

Certa vez ele conversava com o general Flores da Cunha na redação da Livraria do Globo sobre assuntos diversos e alhures lhe veio à mente essa tese. Flores o fuzilou: "E o senhor? O senhor é qual estação?". Mário Quintana sorriu e disse: "Ah, bom, general, eu sou o Inverno"

O Verão austral chegou. Então vem o estio, vivemos num breve instante de eternidade a eterna perspectiva de cumprir todas as promessas não cumpridas, Perséfone volta para o seio de Deméter, a grama cresce alto, as crianças entram de férias, a vida recomeça e Tramandaí vira uma festa.

Saturday, December 18, 2010

A Bíblia tinha razão...


Jacó e o anjo, por Doré


Tava lendo as manchetes do G1 no Twitter e fiquei imaginando o site mancheteando passagens do Velho Testamento. Ia ficar algo assim:

Jonas em Nínive depois de escapar da baleia: "Tá tudo bem agora".

Reviravolta: Esaú vende direito de primogenitura e Jacó passa a perna em Isaac

Fumacinha branca no Sinai. Mais detalhes em instantes

Caim mata Abel. Meliante responde a pena em liberdade

Jacó briga com anjo e fica manco. Já foi medicado e liberado do hospital

Sarai vê Abraão com Agar e sente ciúmes

Sansão é obrigado a contar enigma durante festa de casamento e mata todo mundo. BM no local

Josué põe Jericó abaixo e é o vencedor. Israelitas dançam nas bancadas

IBAMA vai notificar Moises por mortandade de peixes durante abertura do Mar Vermelho

Josué põe Jericó abaixo e é o vencedor. Israelitas dançam nas bancadas

Golias enfrenta Davi. Davi wins

Dalila corta a peruca de Sansão: Sansão fica furioso e mata filisteus

Acompanhe pelo G1 a diplomação do Rei Davi em Hebron

Reviravolta: Labão oferece Raquel em vez de Lia e Jacó trabalha mais sete anos

Reviravolta: José está vivo e salva família

Exclusivo: israelitas em fuga adoram Bezerro. Moisés da piti, roda a baiana e acaba com todo mundo

Deus manda Dilúvio mas Noé sobrevive

Reviravolta: Anjo trova Agar durante a fuga e ela decide voltar para Abraão

Após denúncias de desvio de verba por empreiteira entraves burocráticos, obras da

Torre de Babel são interrompidas

Sodoma e Gomorra são destruídas — Lot escapa mas sua mulher vira estátua de sal. Deus sobre o incidente: "Eu avisei".

Sunday, December 12, 2010

It's Easy to Remember...

...But so hard to forget. A voz-guia do Sonho Americano — se fosse vivo — faria hoje seus 95 anos. Com vocês, senhoras e senhores...




Se você é mais um daqueles que acha que Frank Sinatra é aquele cara bonachão que canta New York, New York em tudo o que é festa brega de casamento, você está errado. Procure um box-set em compact disc (ou procure na Internet) chamado The Capitol Years e conheça o maior cantor popular de todos os tempos interpretando o vade mecum musical do Século XX.

Saturday, December 11, 2010

A Importância de ser Noel


Noel


Poeta da Vila, poeta lição. Noel Rosa nasceu há exatos cem anos.

Naquele tempo, o gênero pelo qual ele se notabilizaria ainda engatinhava nos saraus da casa da Tia Ciata, no Centro do Rio de Janeiro. O estilo musical dos tempos do Marechal Hermes era diverso e sofria uma enorme influência européia: eram mazurcas, valsas, modinhas, dobrados, tangos. Chiquinha Gonzaga fazia o crossover entre os sons colonizados e a musicalidade brasileira, assombrando a elite bem vestida da Capital Federal com seus maxixes — para muitos, era um verdadeiro escândalo.

Quando Noel Rosa despertou para o samba, em 1930, o gênero já entronizado por compositores como Pixinguinha, Donga, João da Baiana e Sinhô ainda tinha forte influência africana. O primeiro samba carnavalesco de sucesso — e que lançaria o paradigma do compositor popular do gênero por excelência, Pelo Telefone, em 1917, ainda não existia o rádio comercial.

De Pelo Telefone até o a morte de Sinhô, o samba tomou vulto. Em pouco tempo, todos aqueles gêneros europeizados iam cair de moda, como o espartilho e o pince-nez. Da revista para o rádio, logo ele iria cruzar o Rubicão e conquistar o Brasil e o mundo.

Pois o Poeta da Vila surgiu no panorama musical brasileiro ao mesmo tempo em que o samba desceu o morro e que o rádio e o disco ganharam visibilidade pela primeira vez. Noel nasceu em 11 de dezembro de 1910. O parto foi difícil: o garoto não saia do ventre da mãe de jeito nenhum. Foi obrigado a nascer a fórceps.

As seqüelas foram terríveis. Noel ficou com o queixo deformado: seu perfil se tornaria uma marca registrada, o queixo ausente, contrastando com o cigarro caído era uma caricatura que ele gostava de fazer, e o transformava quase numa figura chapiliniana.

Contudo, se o poeta nasceu à fórceps, seus sambas nasciam com extrema facilidade. Sua música lhe brotava pelos dedos, pelos cotovelos. Mais do que isso: ao contrário do estilo de samba de roda típico do morro, Rosa, de educação livresca, emprestou ao samba um estilo sofisticado sem, no entanto, deixar de pagar tributo aos grandes mestres. “A Vila/não quer apagar ninguém/só quer mostrar que faz samba também”.

E a Vila fazia um samba que fazia até dançar os galhos do arvoredo e a lua nascer mais cedo. Além de sambista, o Noel era um exímio versejador. Tinha um talento impressionante para rimas originalíssimas, como em Três Apitos: “nos meus olhos você vê/como sofro cruelmente/com ciúmes do gerente/impertinente/que dá ordens/a você”.

Noel era uma espécie de malandro quixotesco. Por um lado, se integrava ao estereótipo, como em Conversa de Botequim. Por outro lado, fazia polêmica com quem bancava o papel do malandro por excelência. Por conta disso, ele acabaria se metendo numa curiosa polêmica com Wilson Batista — este defendendo a malandragem, enquanto Noel fazia o papel do advogado do diabo. Na polêmica, salvaram-se todos, e quem saiu ganhando foi ele — o samba.

Noel chapiliniano. Para ele mesmo ele compôs malandro medroso: gostava de se caricaturar. Noel por Noel. Não tinha navalha, a gravata da foto era uma meia branca. Os sapatos sujos, a roupa amarfinhada. Mas sempre dava um jeito de colocar o melhor terno (o único) terno branco para passear bonito pela Lapa ou pelo Café Nice. Sempre precisava de vintém: “seu garçom me empreste algum dinheiro/que eu deixei o meu com o bicheiro”. Nada poderia defini-lo melhor

Noel intérprete: no tempo dos vozeirões estilo Vicente Celestino, com tenores e vibratos épicos, o Poeta da Vila cantava com sua voz pequena e quase cômica. Muitos dividem-se em avaliar quem melhor defendeu suas canções — Marília Batista ou Aracy de Almeida (descoberta dele)? O melhor intérprete de Noel era ele — Noel.

Noel iconoclasta: assim como Orestes Barbosa, ele era, com efeito, um cronista do cotidiano. O autor de Chão de Estrelas trouxe o modernismo para a música em suas serestas, enquanto Noel modernizava o próprio samba. Em O Orvalho Vem Caindo — parceria com o boxeador Kid Pepe — Rosa parte para a temática social: “meu cortinado/é o vasto céu de anil/e o meu despertador/é o guarda civil/que o salário inda não viu”. Misturando o onírico do céu e o profano do guarda-civil, o apito da fábrica ou o Russinho do Vasco da Gama (em Quem dá Mais?), ele tirava a poesia dos píncaros azulados do parnasianismo para o rés do chão do lirismo de cada dia.

Noel também era inefável ao recriar o vocabulário, em misturar o gongorismo poético da voga de então com a gíria dos bares e das calçadas, ele foi único em criar rimas insólitas para os ouvidos acostumados ao romantismo das modinhas, ao falar de fábricas de tecidos, guardas-noturnos, ou criando paráfrases engraçadíssimas, como em Cordiais Saudações: “Espero que notes bem/estou agora sem um vintém/se puder, manda-me algum/Rio, 7 de Setembro de 31”.

Cedo ele aprendera bandolim e o violão. O instrumento lhe dava sensação de importância. Dedicou-se com tanto afinco ao pinho que, com quinze anos, sabia tocar quase como os velhos chorões da Praça Onze. Porém, ao mesmo tempo em que o Poeta da Vila se entusiasmava com a música, ele foi largando os estudos em Medicina. Com vinte anos, ele já era o mais novo ‘rapaz folgado’ do bairro, fazendo ponto no Rio Clube ou no ponto de Cem Réis (que viraria samba).

Da Vila para o disco e o rádio foi um pulo. Primeiro com seus amigos Almirante e João de Barro com o Bando de Tangarás, que faziam números de emboladas e modas sertanejas, que faziam muito sucesso nos teatros de revista no final dos anos 20. O samba entra em sua vida a partir de Com que Roupa, de 1929.

O disco já existia no Brasil desde 1902. Contudo, foi com o rádio comercial, a partir dos anos 30 e o surgimento das três grandes — Philips, Mayrink Veiga e Educadora que Noel seria um dos compositores pioneiros justamente na função de cantores/compositores/artistas numa época em que a questão de direitos autorais ainda era antedliuviana e a expressão Indústria Cultural era algo inimaginável.

Mas nos anos 30, com a explosão promocional das marchinhas de carnaval, e éter e o microfone era o elemento irresistível e suficientemente capaz de criar a geração de entretainers no Brasil que saía do Teatro de Revista para o éter.

No princípio, Noel era contra-regra do Programa Casé, na Phillips. Ninguém ganhava bem, mas trabalhar no rádio era uma cachaça. Ali, ele pedia achar qualquer intérprete e, de chofre, apresentar-lhe o seu mais novo samba. Mário Reis, Aracy de Almeida, Marília Batista se tornariam grandes defensores das canções do Poeta. Aliás, saindo do cerco de Francisco Alves, que empresariava o então jovem Orlando Silva, Noel conseguiu fazer com que o Cantor das Multidões estreasse no disco com uma músicas suas: Menina dos Olhos(com Joel, da dupla Joel e Gaúcho) e Cidade Mulher, (de 1935), trilha do filme de mesmo nome.

Naquele tempo, para ganhar um tutu forte, um compositor popular dependia de um grande cantor para servir-lhe de ponte entre ele e o disco. Disso Francisco Alves se valeu durante sua vida da seguinte forma: gravava a canção desde que ganhasse a co-autoria. Assim Benedito Lacerda ganhou parceria com Pixinguinha e Chico Viola com Ismael Silva e Noel.

A parceria rendeu sucessos para Alves e Mário Reis, que formavam uma dupla no começo dos anos 30. Mais tarde, o Poeta resolveu se desvencilhar desse acordo desagradável: foi quando conheceu Osvaldo Gogliano. Músico erudito, Vadico emoldurou acordes que imortalizaram grandes momentos do Poeta, como Feitio de Oração e Feitiço da Vila. Mas Noel também sabia criar música de qualidade. Tanto que Três Apitos, Até Amanhã e Último Desejo, Com Que Roupa e Conversa de Botequim — o cartão de visitas de Rosa — são composições originais suas.

Poeta-lição: Noel tinha uma outra forma de malandragem. De rima em rima, ele conseguiu transformar música em trabalho. Ele já tinha um talento superior em estar sempre no lugar certo, municiado de suas canções. Nássara dizia que ele conseguia ter livre trânsito com todo mundo no meio. Desde a turma do dia e a do morro (fez Pierrô Apaixonado com Heitor dos Prazeres) ou a barra pesada do sereno. E seus sambas complementavam isso. Ele era um agitador cultural avant la lettre e um inteligentíssimo marqueteiro de escol muito antes da palavra jabá se tornar depreciativa...

Noel Rosa preferiu arder arder como uma chama breve do que se extinguir com o tempo. Vivia a boemia do Rio de Janeiro dia e noite. Como aconteceu com seu amigo Custódio Mesquita, viveu muito, viveu pouco. Como cronista de costumes, cantando sua cidade e a Vila, versejando amores de tango, amores não correspondidos.

Três Apitos talvez seja o maior exemplo. Noel gostava de uma funcionária da fábrica Confiança e o apito de outra fábrica (ele confundiu-as, como diz Carlos Didier e João Máximo, em biografia definitiva do compositor) foi o mote para a sua mais bela canção de amor: “mas você não sabe/que enquanto você faz pano/faço junto/do piano/esses versos/prá você”.

Saudade que faz um samba: “e quem suportar uma paixão/sentirá que o samba então/nasce do coração”. Poeta-lição. Noel está morto? Não. Noel está vivo e faz um século. Século de Noel Rosa, o Poeta da Vila.

Monday, November 22, 2010

Na Caixa de Entrada

Prezado Candidato (a),


Agradecemos sua participação no processo seletivo para a nossa maravilhosa empresa, com mais de dez anos de experiência e contando sempre com os melhores e mais capazes profissionais da área.

Infelizmente, não foi possível seu aproveitamento nesta oportunidade. entendemos que você estava plenamente disposto a cumprir todas as metas, que contava com um emprego excelente, ainda mais nessa época do ano em que o mercado abre um número incontável de vagas tanto para a indústria quanto para o comércio. Também entendemos que você se predispôs, com engenho e arte, a enfrentar o processo de seleção sabendo que o salário seria excelente, fora assistência médica, décimo terceiro, décimo quarto, você ia tirar o pé da lama, ia conseguir alugar um apartamento e enchê-lo de bens materiais, ia poder economizar dinheiro e quem sabe viajar para onde quiser, frequentar restaurantes, lugares descolados, festas, pagar rodadas e mais roadas de cerveja para seus parentes e amigos e ser a alma da festa, ia poder dar até quem sabe um pontapé num mestrado e tirar o pé dessa lama que é essa sua vidinha de merda, que a sua vida iria ganhar parâmatros, você ia ter um novo status, ia poder se sustentar sem problemas daqui em diante, adquirir virtude e confiança diante de tudo, ia ganhar auto-estima e ia se sentir feliz e orgulhoso de si mesmo. E saiba que não é nada pessoal, achamos que você tem potencial mas, a despeito da vaga não exigir nenhuma experiência na função, conforme veiculamos no anúncio do jornal, você foi preterido.

Mas tenha a certeza de nosso prazer, da nossa alegria, da nossa felicidade, do nosso sincero júblilo e agradecimento por tê-lo (a) como participante.


Mantenha seu currículo atualizado em nosso site para alguma futura oportunidade!


Cordialmente,

TARTUFOS SOLUÇÕES EM RH

Monday, November 15, 2010

Deodoro, o Marechal


Independência ou Morte!


Eram quase sete da manhã. Um oficial entrou nos aposentos do famoso Marchal Deodoro da Fonseca. Encontrou o Marechal abraçado numa garrafa de Velho Barreiro em posição fetal,roncando estrepitosamente, como se não houvese amanhã. Na escrivaninha do Marechal (ao lado da cama), um prato vazio, um canudinho cortado na metade e o cartão de crédito dele (do Marechal).

Acordeu o homem: "Marechal, Marechal, Marechal!". O Marechal acordou de súbito: "rrrrrrrronc!" e abriu os olhos antes de acordar, aos safanões do soldado-pajem. "Hein, Mulher de quem"?

O Oficial: "Marechal, olha eu aqui, o senhor tem que proclamar a República, Marechal!". O Marechal: "Caralho, mas eu sou monarquista, que eu faço?". "Não faz nada, Marechal, bota a farda e boralá, Marechal". O Marechal, trôpego, ia carregado por mais dois soldados. Levaram meia hora tentando colocar o homem em cima do cavalo, que sempre caía do outro lado.

Já eram cinco para tentar fincar o intrépido Marechal na sela, dormindo em pé. O Marechal meio que, de repente, "reacordou" no meio da operação. Sorriu maliciosamente à eles: "Ah, sim, não, mas deixa então eu tomar só mais uma cachacinha!". O oficial: "Mas meu caro Marechal, nós estamos atrasados!".

O Marechal, que tava dormindo em pé, acordou ficou puto. "Olha aqui, seu proxeneta de merda, deixa eu levar a garrafa sim, senão eu não subo nessa merda de cavalo e a República que se foda". Ao dar a garrafa e o chapéu, o soldado-pajem observou: "Marechal!". O Marechal, estilo Paulo César Pereio: "Que foi agora, porrrra?

"Marechal, o senhor está com polvilho antisséptico Granado nos bigodes". O Marechal: "Isso não é polvilho antisséptico Granado, seu idiota".


E lá foram eles, proclamar a República

Saturday, November 13, 2010

Balaio, meu bem, Balaio


Livros à mão cheia, na Praça da Alfândega


Vejam vocês: pois a intrépida reportagem do PATO MACHO esteve ontem na Feira do Livro de Porto Alegre para conferir o que havia de bom nos famosos balaios da Praça da Alfândega. A questão é a seguinte: recebemos inúmeras reclamações, por parte de frequentadores do evento, dando conta de que a qualidade dos chamados balaios — setor destacado de cada respectiva banca onde os leitores podem encontrar livros em preços de ocasião, estava uma bazófia só.

Um leitor nos advertiu por e-mail, esta semana: "esses exemplares colocados à venda na verdade não passam de lixo reciclável encadernado, que não servem nem para doação nos postos de coleta", disse uma leitora assídua do nosso blog que, no entanto, não quis revelar o seu nome — com medo de ir parar num camburão, como aconteceu anteontem com a nossa amiga, Telma Scherer. Consta que a polícia queria até fazer um teste de sanidade mental (tsc, tsc...).

Por conta disso, nosa reportagem decidiu investigar à fundo a alma profunda dos balaios da Feira do Livro de Porto Alegre, a ponto de conferir in loco se realmente procede a reclamação, por parte de alguns de seus frequentadores, de que estão vendendo mercadoria estragada e fora do prazo de validade em nossos balaios.

Pelo que pudemos constatar, a coisa não é de se fazer terra arrasada. Eis alguns dos excelentes títulos que a reportagem do PATO MACHO encontrou nos maravilhosos balaios da Alfândega — e recomenda:


Luiz Zini Pires: 71 Segundos - O Jogo de Uma Vida (clássico do jornalista e amigo do Celso Roth)
Almanaque Abril 1984 (atualíssimo)
Allan Kardec: O Evangelho Segundo o Espiritismo (na dúvida, leve o Novo Testamento revisto e explicado)

Fernando Sabino: Zélia, Uma Paixão (Sabino em seu melhor momento)

Gabriel Moojen: Histórias Tatuadas (não sei quem é, mas o prefácio é muito bom)

Eduardo Bueno: Mamonas Assassinas - Blá,blá,blá (obra-prima de Peninha, o humorista)

Morris West - As Sandálias do Pescador (o autor dos mesmos livros de sempre dos mais destacado nos mesmo balaios de sebos todos os anos, o que mostra a atualidade de West e do interesse do público nesse grande autor de balaios)

Bruna Surfistinha: Livro O Doce Veneno do Escorpião (melhor, só o R$ 20 sem pressa prá você voltar da Conceição)

Irwin Wallace: O Fã Clube (outro The Best Of dos balaios de 1 real)

André Gonçalves - O Homem que Seduziu a Vida (sem comentários)

Richard Bach: Fernão Capelo Gaivota (só não entra nos mais vendidos porque todo mundo tem esse livro)

Dan Brown: Código Da Vinci (o notório romance histórico-policial que virou filme e hoje é mais notório porque a Eurostar, serviço europeu de trens de alta velocidade, divulgou a notícia de que, ao cabo de um ano, quase mil exemplares do worst-seller haviam sido deixados na linha Londres-Paris)

Monday, November 08, 2010

Meninos, eu vi


Paul em Porto Alegre


Eu poderia me debulhar em lágrimas e escrever pelos cotovelos falando o quanto eu sou fã e admirador do trabalho do Paul McCartney mas, como muita gente está comentando e irá comentar sobre a parte sul-americana da Up And Coming Tour, eu vou ser objetivo.

Considero essa a melhor banda desde a The Paul McCartney World Tour, de 89. Até porque creio que, quando ele voltou a excursionar pelo mundo, no fim dos anos 90, Paul quis deixar sua música com um ar mais contemporâneo, gravando com Hugh Padgham, depois Hamish Stuart, Elvis Costello, Robbie McIntosh e o Paul Wickens, que é o único remanescente daquela fase. Foi justamente com esse comjunto que ele excursionaria pela primeira vez no Brasil, em 1990 e em 1993.

Mas de lá para cá, McCartney foi deixando a sofisticação (que marcou épicos como Flowers In The Dirt) de lado: com a banda atual, reformulada a partir de 2001 quando o Rusty Anderson e o Laboriel, Jr. foram convidados para tocar com Paul no Driving Rain.

A partir dali, passado o hiato desde a New World Tour, quando ele voltou aos palcos, fez duas coisas admiráveis: entrou de cabeça mesmo num repertório ostensivamente focado nos Beatles e promoveu um downsizing nos músicos. E decidiu, já sessentão (e enxutaço DIZEM), cair na estrada prá valer.

O grupo ficou mais compacto e coma influência de Abe, que tocou com Steve Ray Vaughn, e o Rusty, que faz um rock calcado em anos 60 e no punk setentista. Quando o Brian Ray entra na turnê do Driving, Paul McCartney passou a excursionar com regularidade. O Wix voltou e virou o spalla de uma banda que não tem nada de erudito. O que eles fazem mesmo é rock de garagem, pauleira e pesado, como deve ser.

Ou seja, o time amalgama regularidade e momentos inesperados (que vão além do ritual do show programado — como atender a uma fã em pleno palco,quem diria?) para mortais como nós, tem noção exata de como se portar no sob os holofotes, tanto pela experiência do Paul em levantar estádio desde o Shea, em 65 quanto a de Brian, Rusty e Abe que, a despeito de parecerem eternamente garotões, têm uma folha corrida de estrada — tanto em carreira-solo quanto como músicos produtores.

E pensem que decorridos mais de oito anos, a banda é uma máquina está, funcionando no máximo e perfeitamente azeitada. E interessante notar que ao vermos, conjunto possa parecer um bando de desajustados, mas em cada show, o essencial funciona perfeitamente. O supérfluo (nesse caso, o mais essencial), e o inenarrável charme do Paul em bancar o entretainer com o público, falando com eles na respectiva língua local, mas sempre com a boa pinta de um MBE.

Que também engana: como diria Nelson Rodrigues, o menino mora dentro do homem. E Paul McCarney impressiona qualquer audiência sendo uma lenda viva e, ao mesmo tempo, o teddy boy que tocava 12 horas seguidas em Hamburgo, no começo dos anos 60, e pavimentaram em campo adversário as boas vindas do rock com a Beatlemania, em 64.

Aliás, um parêntese: Foram os próprios Beatles que criaram o show de estádio. Depois do Shea Stadium, todos os produtores musicais vieram que era possível lotar um estádio com um oceano de gente para ver uma banda de rock. Só que naquela época, eles ligavam um amplificadorzinho tr00 Vox de 100 watts num sistema precário de auto-falantes, cujo som já era ruim em partidas de basebol. Hoje, é muito mais fácil. Embora aqueles 55 mil pagantes do mitológico Shea Stadium em 65 — talvez por conta do documentário, parecem sempre muito mais gente do que eram. Ontem, no Beira-Rio, estádio do Internacional, havia mais do que isso.

E espanta mesmo para quem achava que quando ele chegasse finalmente aos 64, fosse se dedicar apenas a cultivar o seu jardim e a compôr oratórios (como um Liszt em fim de carreira) que Paul McCartney rejuvenesceu com a nova banda, e talvez tenha assumido uma jovialidade chocante para um homem idade provecta (desculpem, é um eufemismo) ao vê-lo brincar de guitar hero com sua Les Paul ou demonstrar toda a sua versatilidade com o uekele e o mandolim.

Ou seja, para ele, amelhor forma de produzir e como Paul mesmo disse, hoje ele tem possibilidade de ficar na estrada mais tempo. Vieram a Driving USA Tour, a Back In The U.S. Tour, a Driving Mexico. Mas desde 2001, a fórmula seria a mesma.

Só que as apresentações em geral faziam sempre o périplo entre os Estados Unidos e a Europa.

Faltava o Brasil.

Especulações não faltavam. Mas era uma guerrilha de informações. quando mais se falava, menos se acreditava ou se dava trela. Até o anúncio de Buenos Aires.

Quando eu os vi no Festival de Wight, em junho (pelo Youtube, claro), eu nunca imaginei que, cinco meses depois, eu ia ver Sir Paul em terras brasileiras, na cidade onde eu moro e no estádio do meu clube. É mole?

Sobre a banda e o show, não haveria muito em evoluir em matéria de estética. McCartney virou ídolo de uma nova dentição de fãs a partir dos anos 90 quando o rock dos Beatles virou referência no som do Britpop (como se para ele isso fosse necessário, claro que não, né, vocês me entendem), por exemplo. Se a onda era reciclar, se alguém não precisava de cerimônia para fazer rock'n roll como nos velhos tempos, esse alguém era Paul McCartney.

E o melhor que ele tinha que fazer era voltar às origens porém sem perder o seu lado eclético e fora a gentileza que ele sempre concede aos seus fãs, sendo um cara simpático e acessível. Sou suspeito para falar mas ele foi mais espirituoso em Porto Alegre do que no campo do Mets. Pode ser que não, mas ninguém vai me convencer.

E até podia ser um show meramente suadosista, mas estamos falando de um músico criativo, versátil, sensível, inteligente, moderno e prolífico. E toca bateria.

McCartney abriu o show durante um pôr-do-sol da irretocável primavera porto-alegrense, empunhou seu baixo Höfner e, com ele, tocou Venus And Mars/Rockshow (que naturalmente nos remete aos show do Wings, nos anos 70) Jet, Letting Go (música subestimadíssima do Venus e que, mesmo não sendo uma favorita dos fãs, ele sempre gostou dela, executou-a na excursão do Wings Over America), Drive My Car e Highway.

Depois largou o terno roxo e o baixo, empunhou sua Les Paul e tocou Let Me Roll It. Não existe música melhor para ele tocar ao vivo — e demonstra que não se esconde atrás de um contrabaixo, mostrando ser um ótimo guitarrista (já demonstrava antes, em Another Girl, Taxman e no McCartney I, por exemplo). O coração de todos, desde os gatos-pingados do Beira Rio até a pláteia VIP chique & moderna, balança no ritmo da música na hora do refrão.

E no fim, eles emendam Foxy Lady do Hendrix, só faltou o Paul chegar no microfone E sussurrar: UH, FOXY

Gente até no lustre. Paul se debruça diante do piano, faz um Dó Menor e ataca de The Long And Winding Road. Ouve-se um OUNNNNNNNNNNN geral. Paul Wickens, spalla, faz as cordas da música nos teclados. Ainda bem que a produtora do show distribiu lenços para quem entrava no estádio. Precisei de 14 ao todo.

Segue-se aquela que eu considero o momento crucial do Band On The Run, Nineteen Hundred and Eighty-Five. Ao invés de (I Want to) Come Home, ele toca Let 'Em In que é mais conhecida do público brasileiro. E quenão tem exatamente a mesma mística de Let Me Roll It para o show.

My Love é sua homenagem à Linda McCartney. Que ele sempre dedicava á ela na turnê de 1989/90 — mas, naquele tempo, ela estava com ele. Como eu estava debaixo da marquise da Padre Cacique, só pude acompanhá-lo ali pelos telões. Meu coração parou. O tempo parou. O mundo parou. Menos as lágrimas.Mais lenços.


Paul salta do piano como um garoto, pega o seu violão folk casca de noz, faz o furioso fingerpicking da introdução de I've Just Seen A Face (que ele troca por I'm Looking Trough You). Confesso que também queria I'm Looking Trough You. Esse era o momento em que eu queria pegar o meu, descer para o palco e fazer uma canja com o Paul (brincadeira, gente).

And I Love Her. Mais lenços. Eu gastava os dedos em bolhas arranhando ela nas cordas prá aprender. E de repente, eu estava vendo o meu irmão mais velho, que me ensinou inglês e violão — e eu não o conhecia. Pessoalmente. Até então.

Blackbird (lenços), Here Today (muitos lenços) e Dance Tonight(que ele toca no mandolim) é um set onde Paul toca sozinho. Mesmo pianinho, a banda volta.

Com o violão folk e a banda, Mrs Vandebilt. Essa ele tocou em Kiev em 2008 e de repente se deu conta que deveria ter colocado no set-list há algum tempo. Wings na cabeça. Ainda com o instrumento, ele canta Eleanor Rigby com Wickens, que faz as cordas nos teclados.

Com o uekle (aquele instrumento que o George gostava, lembram?). Os iniciados já sabem que ele vai tocar a sua versão de meio progressiva de Something. antes, contudo, McCartney toca Ram On, da antiga: mais uma escolha pessoal e intransferível. Quando a banda entre num tutti na hora do solo da canção de George Harrison — com o Brian Ray gastando a palheta, os lenços voltam à ativa. É impactante.

A heróica Sing the Changes é uma música muito, mas MUITO legal, e que é pouco conhecida. Prá mim, a melhor dele dos últimos tempos, do Electric Arguments by The Fireman, que é uma injustiça que você não a tenha ouvido, ainda. Mas vai ouvir logo, logo. Ele fez outro clássico. Grande momento do show. Não conhece? Eis o link:



Dali para a frente, o show é uma covardia, um inexpugnável ataque sonoro em massa. Abe — que é de longe o batera mais boa praça do mundo (depois do Ringo, mas ali) — faz a moldura musical e pavimenta o caminho para Band on the Run, Ob-La-Di, Ob-La-Da, Back in the U.S.S.R, I've Got a Feeling e Paperback Writer.

Em Paperback, Paul troca a Les Paul pela Epiphone Casino da época do Revolver. Os três, Paul, John e George ganharam aquele mesmo modelo sunburst, mas só McCartney deve tê-la conservado (John lixou a dele). Se não for a original de época...

Lenços esvoaçam e giram na ponta dos dedos do público. Um jato de alegria e de adrenalina que não é possível explicar aqui.

A Day in the Life/Give Peace a Chance é curiosa. Os Beatles deixaram de excursionar em 1966 alegando que os sons que eles faziam em estúdio eram impossíveis de serem reproduzidos ao vivo. Mas eis que ele escolhe ofinal épico do Sgt. Pepper's. Só o tmpo explica. Ele canta mas todos lembram de John (uma curiosidade: no lançamento do seu álbum ao vivo anterior, Back In U.S, McCartney decidiu mudar a ordem da autoria da dupla com John para McCartney-Lennon — fato que gerou bastante controvéria. A raiz dessa alteração, dizem alguns, é a de que Yoko Ono havia tirado Paul da parceria com Lennon em Give Peace a Chance, em 1997. Mesmo assim (e talvez adespeito disso ou, por isso mesmo) ele decidiu incluí-la na nova turnê). De repente, a platéia da frente (a que chacoalha as jóias, como dizia um amigo meu) começou a acender isqueirinhos. o contraste ficou meio Before The Flood. Coisas de show de rock.

Let It Be. OUNNNN. Não dá tempo para lenços. Live and Let Die é épica. Um ultraje aos meus nervos em frangalhos. É uma paulada Eu havia dado uma volta atrás do palco pela arquibancada superior. Um dos "orientadores" pediu para que eu retornasse — não sem antes eu correr os olhos na parafernália e a vista pelos bastidores. Depois eu descobri porque não poderia estar ali. No meio de Live and Let Die, acontece um espetáculo pirotécnico assustador, atrás dos telões e na base do palco. Uma cena wagneriana, digna do finale do Crepúsculo dos Deuses, da Abertura 1812 do Tchaicovsky. Eu estava no festival sagrado em Bayreuth.

Hey Jude, bom. Lenços, Lenços,lenços à mancheia. Paul fala e arranca risos, como se fosse um acrobata de circo fazendo piruetas. Fala (contra todas as expectativas) gauchês e todos explodem num riso que só é reprimido quando McCartney volta ao piano e os lenços ao seu uso habitual. Você dá gargalhadas num momento e, de repente, está de novo chorando, chorando, chorando convulsivamente.

Mais Beatles: a agonia agora é ver que o show se encaminha para o fim no auge. Você acredita que é imortal e a apresentação não vai acabar nunca. Day Tripper, Lady Madonna (naquele piano psicodélico dele) e Get Back.

Em Yesterday, ele pega um terceiro violão, um Epiphone Texan FT 79 (vi bem no telão). Aliás, o mesmo que ele gravou-a, em 65. Isso (pode) se explica(r) porque ele às vezes toca ela noutra afinação. Lenços, lenços, lenços...

Quem ainda estava chorando ouve o Paul falar: "ah, vocês tão querendo, rock, é? então vocês vão ter!". Ouve-se as guitarras de Helter Skelter. A banda toca alto e forte, pauleira geral, garagem total. Delírio total. Imagens de uma volta de montanha-russa estilo câmera de Fórmula-1. O show não pode acabar agora, em pleno looping.

Mas acaba. Depois do bis e do adorável incidente com as fãs que portavam cartazes. Alguns fãs apupam quando uma delas diz que é de Flonianópolis (ele soube então que tratava-se de uma espécie de divertida rivalidade "bairrista" entre a capital catarinense) Porto Alegre. Enquanto gentilmente autografava o braço da menina (como ela então impossivelmente lhe pedia no cartaz) ele, suspirou: "Entendo, é que eu sou de Liverpool". Um gentilman. Um gêno da raça.

O encerramento é Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (reprise)/The End. Em 90, Paul Fazia uma versão com as duas, um solo e o fim na reprise. Agora ele fecha mas enendando o last rock do Abbey Road. OH, YEAH, ALL RIGHT, ARE YOU GONNA BE IN MY DREAMS TONIGHT?

Paul, meu irmão de trago, do tempo que a gente chegava em casa com um elepê do sebo de discos direto para a eletrola e de viola comos amigos na calçada, tentando em vão tocar I Will ou Blackbird de forma decente às vezes brincava com a platéia, faz graça e derrama simpatia. Tenta falar português. Fala gauchês e porto-alegrês. Ele estava bem assessorado por causa daquele "mas bah, tchê". ele deve ter se divertido com a reação. E não precisava fazer média com o público, mas ele tem anos e anos de estrada. Sabe como é. E tomou todos de asalto. E estava desassombradamente à vontade, como sempre. Ele é aquele brother nosso que está sempre certo. Parece que sabe exatamente o que fazer. Nós é que não. Ele estava preparado para nós. Nós é não estávamos preparados para ele.


PS: Falei que eu ia ser objetivo e imparcial. eu não resisti, desculpem.
PS 2: Volta Paul!

Friday, October 22, 2010

Teté e o telefone


Larri e Bodinho


Meados da década de 50. semana de Gre-nal.

Os jogadores do Inter estavam concentrados nos Eucalíptos desde quarta. O técnico, Teté, o Marechal das Vitórias controlava seus pupilos: chegava até a procurar obsessivamente macumba em alguma esquina do estádio para ver se não tenha nenhuma amarração, como um sherlock do batuque.

Mais: ninguém podia falar ao telefone. Vai que alguma mala preta falante resolva combinar algo com algum.

Na sexta de tarde, o telefone tocou. Do outro lado da linha, o sujeito, que se recusava a dar o nome, queria porque queria falar com o La Paz (Florindo, Oreco, Chinesinho, Bodinho, Larri, etc), o goleiro.

— Meu amigo, o La Paz não pode atender, meu amigo — respondeu Teté — só passo recado, o que você quer falar com ele? Diz aí que eu transmito o recado.

— Mas eu preciso falar pessoalmente com ele — gemeu o sujeito do outro lado.

— É, mas não dá. disse o treinador. e bateu o telefone.

Duas horas depois, o telefone toca. É a mesma voz, o cara queria falar com o La Paz.

— Mas quem raios é o senhor, o que o senhor quer tanto falar com ele — indignou-se Teté.

— È...bem...eu sou um amigo. É que, olha só, este é um assunto particular, sócom ele mesmo...

— E o telefone não parava. O sujeito talvez quisesse que outra pessoa que não Teté atendese e ele conseguisse falar com o La Paz. Chamadas caiam por toda a noite de sexta e o sábado. quando atendia, era sempre a mesma coisa, e o sujeito não queria se identificar de jeito nenhum.

Domingo de manhã: a mesma coisa. Dirigentes do Inter estavam começando a trocar olhares significativos. O que estava acontecendo?

— Mas eu preciso falar como La Paz! Eu preciso falar com ele! — dizia o angustiado interlocutor de Teté.

— Eu dou o recado — respondeu Teté, com uma paciência insuportável.

— Poxa, mas tem que ser com ele mesmo. É particular! Olha só, é o Teté, né? seu Teté, não tem como o senhor me fazer esse favor e arrumar um jeitinho? Pelo amor de Deus, seu Teté, faça isso por mim! Por favor! Olha só, eu, ele nem tem que sair dos Eucaliptos, é só ir até o portão da Silveiro, eu falo bem rápido com ele e aí o La Paz pode voltar para a concentração, não tem problema nenhum!

Meio-dia, toca o telefone. Teté inexpugnavelmente bloqueia o sujeito.

Vencido, ele diz:

— Tá bom.... Mas o senhor me promete que vai dar o recado para ele, seu Teté?

— Prometo. Fala aí, rapaz.


— Então....então diz prá ele que já tá tudo acertado, conforme o combinado, viu? Tá tudo OK. Tchau!

Monday, October 18, 2010

A Velha Contrabandista


Oi amgs



Essa história é meio Luma de Oliveira, é OLD but GOLD.

Todo dia a velhinha passava pelos guardas da fronteira com uma mochila enorme, montada numa lambreta. Sorria, acenava para eles e passava,feliz da vida.

Passou um mês, o guarda, macaco velho, começou a desconfiar. Essa velha tem esquema, só pode. "Não é porque é velha que é santa", pensava.

Um dia, ele parou a velha. "Boa tarde, o que o que tem na mochila?" Ela: "areia". Ele: "deixa ver". Ela "OK'. Ela abriu a mochila e — surpresa — só tinha areia.

E lá foi ela, sorridente. O guarda ficou perplexo: porra, em 30 anos dessa indústria vital eu nunca vi isso. Todo dia o fiscal achava areia...

Um dia, ele foi sincero:

— Olha vovó, eu tenho que ser sincerocom a senhora. Eu sou fiscal de alfândega há trinta anos, manjo o esquema e tenho certeza que a senhora é contrabandista!

— Mas só tem areia na mochila — murmurava a santa senhora.

O fiscal, mais angustiado que barata de ponta cabeça, propôs:

— Olha vovó, eu lhe deixo passar. Não apreendo nem dou parte, não conto nada a ninguém, mas a senhora TEM, PELO AMOR DE DELS que me dizer qual é a muamba que a senhora passa!

A velha olhou para os lados. Perguntou:

— O senhor promete que não me deda, formosinho guarda?

Ele, crispado de curiosidade e emoção: "Sim, Juro"! Ela: "jura mesmo"?

Então a velha sorriu seu sorriso de batom torto e disse:

— É lambreta AOPKSPAOSKOPAKOPKSPAOSKOPAK Õ/

Friday, October 15, 2010

A Última loucura de Kerouac


Hit the road, JK

Eu acredito que não fui o único, mas confesso que fiquei profundidissimamente (como diria Augusto dos Anjos) perturbado depois de ler o incensado On The Road, porque eu me projetei ao infinito no idealismo dos personagens, e uma forma livre de viver, integrada ao ambiente e sempre em movimento, vendo gente e mais gente, é algo incomensurável, é a vida que sopra no seu rosto.

Curioso é que depois eu li a biografia dele (a escrita pelo Yves Buin), e ele era uma pessoa diferente do Sal Paradise: parece que quando ele finalmente conseguiu a notoriedade que ele tanto perseguiu, ele virou nada mais, nada menos do que um cadáver adiado (como diria Pessoa). Não havia lido nada de novo dele, depois que sua obra foi finalmente recolocada em catálogo, embora não tivesse mais tanto interesse pela literatura beat como antes.

Claro que, pelo exercício da escrita, ou como fetiche de escrever, eu sempre releia trechos e trechos (& trechos & trechos & trechos & mais trechos) do Kerouac – até porque o exercício da releitura é algo interessante e ligeiramente subestimado pela imensa maioria dos leitores – mas não era bem isso o que eu estava prestes a dizer.

Li tudo o que me caiu em mãos até o Big Sur (LPM Editores, 192 páginas). Este livro é o testamento final (de vida e literário, já que a partir dali, seus textos foram perdendo todo o vigor de outrora) do Kerouac real, não é o jovem idealista a la Rousseau, alguém entronizado num santo vagabundo, em alguém transcendente. Era um bêbado chato e decadente de meia idade como qualquer um, que não conseguiu, mesmo depois do sucesso, encontrar uma finalidade para a vida. E também confesso que, conhecendo o idealismo ardente de sua obra máxima, como leitor de Ti Jean, foi doloroso ler isso.

Jack poderia se estabilizar como qualquer pessoa normal, ele tinha nome, poderia arranjar um emprego permanente de correspondente para qualquer jornal, mas a instabilidade emocional e a sensação de que a virtude foi morar nos puídos aposentos de sua proustiana memória o venceu.

Era alguém que entregou a vida em sua obra máxima, isso fora o fato de que a doença dele fez com que ele se tornasse uma pessoa perdida, reclusa, anti-social, dependente.Enfim, não existe felicidade no Big Sur, é o On The Road de cabeça para baixo, nada de glamour, nada de feliz, nenhuma paz, enfim, além de noitadas e bebedeiras.



A vida essencialmente calcada no desregramento que eu achava que era a essência da literatura beat não foi o que eu achei na aventura de Sal e Dean, por isso que eu idealizei e me projetei de verdade no livro. Aquilo não aspira uma eterna juventude; pelo contrário, aquilo é exatamente o que eu via de negativo, infelizmente relacionado ao Kerouac real. Buin escreveu que o discurso final do livro era quase uma descrição clínica de um delírium tremens — e de fato, talvez seja oexemplo mais notório de algo do tipo na literatura.

Quem realmente sabe que ele era uma esponja que absorvia quantidades colossais de vinho licorado, sabe perfeitamente que, naquele estágio da vida, aquele consumo ia enlouquecer qualquer cidadão. Por isso eu fiquei com a impressão de Big Sur como alguém que chegou no limite para o fim. Basta ver aquele trecho em que ele tenta carona e não consegue, tenta realizar uma marcha a pé da barraca do Lawrence Ferlingheti nos despenhadeiros do sul da Califórnia e não consegue, sendo obrigado a fazer algo que ele raramente fazia nas suas antigas viagens, pegar um ônibus...

Aliás, o próprio Cassady, que no On The Road é praticamente a espinha dorsal de qualquer movimento dentro do livro, que é uma ode ao velho santo vagabundo Dean, no Big Sur é uma figura apagada, ele e Jack não demonstram mais nenhuma afinidade, não amigos pela memória, contudo não demonstravam qualquer vitalidade, qualquer intimidade entre si.

Porém, pela qualidade literária que ainda restava na mente do Jack, é possível vislumbrar ecos de sua escrita meticulosa e fluída,e a capacidade em caracterizar personagens e descrever ambientes. Ou seja, o valor literário permanece porque a mente do Kerouac ainda funcionava O discurso final do livro é exuberante,mas é algo sombrio e lancinante, de alguém que como poucos, soube escrever como um Proust sobre a sua loucura final.

Thursday, October 14, 2010

O Jogo do Século


O Rolo Compressor

Uma vez eu estava esperando o ônibus para Porto Alegre, vindo do interior. No café, eu vi um gaucho todo altaneiro contando causos para o pessoal do balcão - na verdade, verdadeiras atochadas: era uma história mais absurda do que a outra.

Aliás, isso aqui é muito comum - a prática de atochar, ou "queimar campo", ou contar histórias inverossímeis em primeira pessoa, por puro histrionismo - uma espécie de mentira muito bem contada. E não tem balcão de rodoviária do interior que não tenha o seu atochador de plantão.

Um atochador, nessas rodoviárias da vida, certa feita um coronelão me (nos) contava (atochava) que houve uma seca terrível em Bagé, e a gadaria dele via aquele mato amarelado e não queria pastar. Eis que ele ouviu pelo rádio que a Polícia Federal ia leiloar material que ela havia retido na fronteira com a Argentina.

Entre eles, havia um contrabando de óculos Ray-Ban — e era daqueles esverdeados. Ele não pensou duas vezes. Mandou um ordenança dele lá em Livramento arrematar o lote. Depois, o coronel mandou que um peão 'instalasse' os Ray-Ban nas vacas. "Elas passaram e ver o mato todo verde, e voltaram a pastar", disse.

Um sujeito tava fantasiado de gaúcho com um sacolão de roupas e uma mala de garupa, bicando um copo de café preto. E dizia que era atirador. E falava da vez em que ele ia tentar acertar a cabeça de uma sucuri que vinha em sua direção:

- Pues escuitem, uma vez se sucedeu assim: eu levantei a minha winchester com todo o cuidado do mundo, fiz a pontaria, descansei bem devagarinho o dedo no gatilho da arma...

No meio da conversa, tocou o celular dele. ele pediu um momento, e foi para um canto chasquear. Dez minutos depois, lá estava o gaúcho de volta:

— Onde é que eu tava, mesmo? — perguntou, coçando o chapéu.

— O senhor ia apertar o gatilho da Winchester — respondi.

Ele:

— Mas bah, tchê! pues eu nunca errei uma — exclamou. — Quando eu dei o tiro naquela saracura fiadaputa, foi pena prá tudo quanto é lado!


....

Mas a mais pitoresca foi essa. Um atochador de rodoviária lá em Passo Fundo disse que o pai (tio oui avô, não me lembro bem) dele tinha sido presidente de futebol de um clube de lá.

Ele contou da vez que o famoso Rolo Compressor do Internacional dos anos 40 foi jogar em Passo Fundo. Como aquela equipe do Tesourinha e do Carlitos era conhecido por todas as partes como o maior time de todos os tempos - e que era capaz de aplicar goleadas mitológicas em qualquer escrete do planeta. Pios quando o colorado aceitou o convite para um amistoso lá no Planalto Médio, o presidente procurou a banda de música da cidade.

Ele chamou o maestro da banda e disse: "Passo Fundo vai assistir ao jogo do século no domingo, então queremos que o senhor toque para nós durante toda a partida, o senhor estaria interessado?."

O maestro aceitou, mas — segundo o sujeito — pediu um valor exorbitante pelo serviço. Como não havia outra banda, ele tentou regatear com os músicos. Então ficou decidido que a banda iria tocar apenas na abertura e quando ocorresse gol.

Aí ele contou:

— E então eles toparam. E o Rolo chegou. Contra todas as previsões, porém, o Inter pegou a bola e então não largou mais, ia de pé em pé e inapelavelmente direto para as metas do nosso goleiro. Tava uma hora que já tava uns sessenta a zero para eles. O Carlitos pegou a bola sozinho, o Carlitos era atarracado e baixinho, mas o chute daquele cara era uma bala de canhão! Tava uma hora que ele ficou pela milésima vez na cara do golo e o keeper saiu correndo do meio dos arcos cagado de medo da pontaria mortífera do Carlitos, e o Carlitos disse: "porra, home, tu é homem ou tu é um rato?". O keeper respondeu "que nada, quem, toma cinquenta, toma cinquenta e um - e tomou um balaço. Então começou a chover tanto gol, mas tanto gol, mas tanto gol, mas tanto gol que, a aí, no fim do jogo, as clarinetas estavam rachadas, os bumbos e tambores furados! Os metais de sopro estavam em brasa; para resfriá-los, tiveram que pular o muro e fazer fila, a fim de trazer água em baldes, direto de uma casa vizinha. O coitado do sujeito da corneta, então? O pobre diabo criou papada de tanto assoprar, o maestro ficou de braço duro de tanta cãibra e viveram que levar o cara da tuba direto para um balão de oxigênio. O mais engraçado foi o que aconteceu com o tocador de pratos: pegou resfriado de tanto vento que apanhou.

Wednesday, October 13, 2010

A Culpa Original


"Comerás o teu pão..."


E disse o Senhor: “Maldita a tua terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos. Passarás oito anos estudando um monte de coisas das quais nunca tirarás proveito por conta da profissão que seguirás farás um segundo grau Monteiro Lobato para conseguir concorrer a um vestibular de merda concorrido de 20 vagas por candidato depois ficarás boiando num curso que escolheste e te arrependerás dele mas por pressão da família já que todos os teus irmãos e primos seguirão tenência na vida & terão carro do ano e terão uma vida estável com casa própria e casa na praia e serão sócios do Clube do Comércio e tu maldito que tu serás vergonha da família solteiro & pobre por conta de tua maldita vocação nunca jamais terás concluirás a duras penas graças a um crédito educativo pelo qual jamais terá condições de pagar irás colar grau e ficarás sem saber o que fazer da vida sem condições de fazer uma pós tendo água batendo nas barbas não terás dinheiro nem para uma rodade de chope como s amigos no Dona Neuza nem xis com batata frita do Cavanhas ou happy-hour no Pedrini nem ROLLET na Cidade Baixa nem almoço de negócios no Dado Grill nem putaria no Carmen's Club & tendo que arranjar um curso Senac de qualquer coisa para poder arrumar um emprego qualquer via CDL ou SINE de estoquista ou balconista ou vendedor ou atendente de telemarketing da NET porque tentarás arranjar uma vaga em algum concurso qualquer de Ensino Médio já que concursos de curso superior são de 4782 candidatos por vaga e você a essa altura do campeonato já terás esquecido tudo o que estudou no primeiro grau e no Monteiro Lobato e pobre e endividado não terás cabeça nem dinheiro para encarar uma apostila da Caixa Federal ou do Tribunal até que de tanto vagar como um gauche na vida até que mais por insistência do que por força de vontade tu maldito arranjarás um emprego fuleiro qualquer de auxiliar de limpeza na Petiskeira do Iguatemi ou vendedor ganhando aproximadamente R$ 499 por mês tirando o vale-transporte e o vale-refeição trabalhando de segunda a domingo exceto feriados porém tendo direito a um dia de folga para teres direito a morares numa vila a mais de 50 quilômetros do centro da cidade numa rua que atende por um número com direito a uma tevê com rede aberta porque a NET não chega lá e direito a um gato de luz e outro de orelhão”. E expulsou-o: e colocou ao oriente do Éden querubins armados de espadas flamejantes a fim de guardar para sempre o caminho da Árvore da Vida.

Tuesday, October 12, 2010

Essas crianças....


Debret

Falando em Dia das Crianças, eu me lembrei hoje de uma história que a minha avó materna me contou (aliás, devota de Nossa Senhora Aparecida) há muito tempo, e que aconteceu no tempo em que ela vivia na Estância da Quinta, lá no Alegrete — isso há priscas eras...escutem.


Ela foi visitar uma amiga comum de sua irmã, em outra estância, a Tia Iaiá. Essa amiga foi com um menino de uns oito, nove anos, que era amiguinho do filho dessa senhora. Eles iam passar a tarde de sábado lá, num bucólico sarau vespertino lá...


Quando eles chegarm lá, a Tia Iaiá estava fazendo goiabada na enorme cozinha. Absorto na tarefa de sua mãe, o seu menino (uns nove anos, também) perguntou que paçoca era aquela que ela estava enlatando.

— Isso é veneno para ratos — disse a mãe — se você abrir, vai se intoxicar, moleque. Isso mata, hein? Nem chegue perto, senão tu vais ver o que é bom para a tosse.

Claro que ao dizer que o tal "produto" era perigoso, Tia Iaiá estava espertamente (à maneira dela) se precavendo de que o filho da puta do moleque mantesse distância e não comesse tudo. E guardou as latas na dispensa da cozinha — aquelas de armário embutido, onde cabem duas pessoas dentro, e com folga.

Imagina.

Então chegaram as visitas. enquanto as senhoras fofocavam na sala de estar trincando suas chávenas de chá, os dois garotos, entediados, resolveram abrir uma enciclopédia, que estava na estanta da sala. No livro, eles então acharam várias daquelas gravuras do Debret, o famoso pintor da Missão Francesa, que fez aqueles desenhos do Brasil do começo do Século XIX.

Mas a gravura que mais os impressionou foi a de um grupo de escravos que iam sendo tocados estrada afora, com os calcanhares presos por uma corrente. Ficaram bestas de tão maravilhados de ver aquele monte de gente andando com o pé direito amarrado um no outro, como se fossem animais, com um sujeito de chapéu, bigodões e botas descendo o chicote no lombo deles.

Foi quando o garoto da Tia Iaiá teve a brilhante idéia: e se eles pegassem um rolo de barbante e fizesse com os pintinhos do galinheiro a mesma coisa?

E lá foram os dois moleques. Pegaram dez deles, puxaram o barbante e foram amarrando a corda nos tornozelos dos pobres bichos. Quando o décimo ficou atado ao liame, eles pegaram a pequena tropa e puseram os coitadinhos para caminhar no meio do quintal.

Enquanto os pequenos animais iam tentando caminhar em marcha numa mesma direção, trôpegos e confusos, os dois moleques rolavam de rir da cena. Riam feito dois fedelhos desprezíveis sádicos ante àquela cena dantesca.

Mas algo estava por vir.

No meio das gargalhadas, enquanto os pintinhos tentavam chegar ao galinheiro, um gavião que, no alto de uma árvore do quintal assistia friamente a tudo, deu um rasante estilo Red Baron e agarrou o primeiro da fila. Alçou voo e, condoreiramente, deu meia volta, se postou no galho mais alto da árvore.

Então começou a devorá-los, um por um — ajudado, é claro, pelo barbante.

Perplexos, os dois garotos entraram em parafuso. Estavam metidos numa bela encrenca. O gavião dizimou a prole da galinha da Tia Iaiá. Agora quem ia sentir o amargo sabor do chicote eram aqueles dois fedelhos desprezíveis.

Passou-se uma hora. As impávidas senhoras coneçaram a estranhar: aqueles dois moleques do barulho estavam quietos demais. O que havia acontecido com eles?

Levantaram suas respectivas ancas gordas do canapé e saíram casa a fora atrás da dupla. Nada deles. Começaram então a buscá-los nos locais mais improváveis. Foi quando Tia Iaiá resolveu abrir a dispensa.

Abriu as portas e lá estavam nossos heróis, ao lado das duas latas de goiabada já quase no fim, de barriga para cima, com ar mareado...

— Mas que porra é essa? — quis saber a ilustre senhora.


— Foi quando seu filho, num último suspiro de vida, replicou:


— O gavião comeu todos os pintinhos e nós decidimos cometer suicídio. Desculpa, mamãe.

Monday, October 11, 2010

A Violinista


Quartier Latin

A Cris é a mais linda flor do meu jardim. Ela é uma força da natureza: relampeja, sopra, chove, arde.

Alta, insinuante e tinha (tem) uma bunda linda. É recatada e discreta, mas sabe se insinuar. Detesta a solidão, mas vive cercada do seu clã dos Verdurin: ela é a minha musa proustiana, é o prólogo, o meio e o fim dos meus pobres devaneios. Linda, louca e inatingível. E superior a tudo e a todos. e desesperadamente linda.

Se irrita fácil, rejeita sem nenhum puder mas não gosta de se sentir rejeitada. Ela pode te esquecer por meses, mas ai de quem esquecer dela! Às vezes me dava um olhar. Eu via o tempo parar e vivia eternamente aquele momento fugaz.

Com seus quatorze anos ela parecia uma moça de vinte e quatro. Com vinte e quatro ela tem todas as galas de uma garota de vinte e oito; com trinta e um, ela vai ser a mulher mais linda do mundo, mas no entanto voltará a ter toda a pureza dos treze, na infinita pureza de um primeiro amor.

Ela é uma espécie de Ava Gardner da roça, mas já singrou seu Allstar branco pelo Quartier-Latin...

Não contei como isso aconteceu.

Ela era uma menina como todas as outras, misteriosa e perdida em si mesmo, e que não precisava ocupar a adolescência preocupada como eleitorado. Ela aprendeu música, gostava de dançar e aprendeu espanhol através de letras de tango. Foi uma surpresa para todos (eu, inclusive e tudo o que aconteceu depois, até hoje), quando ela resolveu aprender violino.

Ficava insuportáveis horas a fio decifrando os capricci do Paganini. Manejava o arco com a destreza de uma amazona – só Deus sabe como ela aprendera tanto em tão pouco tempo. Foi quando ela disse que queria ir à Paris para estudar num conservatório.

Todos tentaram convencê-la a desistir da idéia. Quanto mais insistiam, mais aquilo fermentava em sua pequena cabeça louquinha. Quando Cris bota uma idéia na cabeça, nem os deuses conseguem demovê-la. Ela é do tipo que faz as malas duas semanas antes de viajar. Eu achava graça naquilo, como se ela forçasse a Primavera a florescer mais cedo, por seu puro e simples capricho de desejar algo.

Custou tempo, mas ela conseguiu o dinheiro. Disse que ia se virar quando chegar lá (me esqueci de dizer que ela sabia francês, acho que aprendeu na Aliança ou no Julinho. Ou nos dois).

Então ela foi para Paris. Ficou quatro anos lá. Nesse meio tempo, quase não chegou a se comunicar conosco. De repente, sem qualquer aviso, ela voltou.

Ela chegou toda de preto, como uma George Sand e com um xale, também preto, por debaixo do pélago dos seus longos cabelos negros. Estava mudada, era uma mulher de verdade. Era a Ava Gardner mais linda que a Ava Gardner, porém com uma discreta indecifrável elegância. Também havia abandonado seus Allstar brancos. Trouxe também um menino.

- Este é meu filho, Enrico.

E, voltando-se para o menino, ela disse:

- Conheça a vovó e o vovô, Enrico.

Ele pôs os olhos gulosos nas órbitas dos velhos (coisa de criança), que choravam de alegria e perplexidade.

E deixando os três a só, foi rever o seu vetusto e pequeno quarto, nos fundos do corredor. Sem dizer palavra abriu as janelas e, espanou a poeira dos seus aposentos e entrou na vida. Aquela menina cheia de poesia não existe mais.




Violino. Aqui, ó!

Saturday, October 09, 2010

John e o leão-de-chácara


John fanfarrão

John Lennon tava saindo lá do Cavern Club com a guitarra depois de um show, quase de manhã. Passou pelo leão-de-chácara — isso lá por 61.

Olhou de soslaio para o sujeito, metido num casacão estilo Otto Von Bismarck. Ele meteu a mão no bolso do cara e disse: "toma aí, chucrute (kraut), isso aqui é para tu tomar um uísque depois do expediente". E foi embora.

Comovido, o porteiro sorriu e bateu continência para o guitarista dos Beatles, que ganhou a rua e sumiu na névoa da manhã. Então ele meteu a mão no bolso e achou três pedrinhas de gelo.

Tuesday, October 05, 2010

O Câmera do Leão


Walmor Bergesch, fundador da TV Gaúcha. Ao lado, uma das famosas câmeras do Canal 5


Outro dia, um operador de áudio me contou uma história muito engraçada, lá dos tempos dos primórdios da televisão aqui no Rio Grande do Sul.

Foi assim: uma vez, a TV Gaúcha fez um teleteatro da Paixão, era O Manto Sagrado - foram, ao todo, três capítulos de uma hora cada, isso em 1963, quando a TV Gaúcha não era da hoje RBS.

A novidade era que, dessa vez, eles iam, pioneirísticamente, fazer externas, loucura de um famoso diretor da época, o Nelson Vaccari. Por exemplo, a filmagem passada na história na ilha de Creta foi feita aqui na Ilha do Presídio. A atriz tinha que saltar de uma altura de quase dez metros (tinha uma equipe de resgate, claro) e não sabia nadar, imagine. Tiveram que fazer seguro de vida para ela, era a Rosa Maria, então esposa do radialista Pedro Amaro.

Até a Elis Regina fez uma ponta como uma hebréia, cantando, a cena foi filmada na praia de Ipanema (a de Porto Alegre, lógico).


Mas as histórias de bastidores são folclóricas.

Um ator que fazia o Demetrius foi manejar um arco e flecha e quase matou o cinegrafista. Para a cena da orgia de Herodes, eles puseram uma equipe de prostitutas. Eles haviam recrutado menininhas inocentes que, sob o olhar zeloso das mães, não podiam mostrar pernocas, decotes, nada. Então foram chamar umas garotas lá no Beco do Oitavo. Quase acabou em putaria.


Contudo, a melhor foi uma cena em que os cristãos são cruelmente atirados às feras, num circo em Roma. Era o ápice. Tipo, uma liliputiana tevê do extremo sul do Brasil querendo dar uma de Cecil B de Mille. Eles gravaram tudo no antigo campo do Cruzeiro de Porto Alegre, na rua Natal.

E fizeram todo o cenário de época comme il faut, cobrindo os alambrados para fazer de conta que era uma muralha de pedra, colocaram a multidão, devidamente fantasiada. Também destacaram uma tropa da Brigada Militar para servir de legionários. O 'povo' ficava naquela arquibancada que ainda existe, hoje na subida do cemitério João 23.

Mas faltava o leão, né. Aí acharam um, num circo do interior. Botaram ele camuflado atrás das "pedras" dentro da jaula, e soltaram no "circo romano" vazio com um cameraman instalado num buraco no chão, pra filmar o leão "atacando" os cristãos em contra-plongée (num ângulo de baixo para cima), com o objetivo de imprimir mais veracidade à cena...

O câmera ficava escondidinho num buraco camuflado com madeira e serragem por cima, com um furo no forro só para a lente captar a cena e o leão. Foi quando soltaram o nosso intrépido rei das selvas que, ao invés de passar batido por cima do cameraman, ele escorregou e caiu de cara justamente no buraco.

Tipo, o leão ficou enterrado no buraco com a bunda de fora. Foi um cagaço geral na equipe, o camera simplesmente se borrou todo e desmaiou. Não foi devorado pelo bicho acho que por falta de espaço. E não ia conseguir sair sozinho.

Aí a equipe foi puxar o animal pelo rabo. Quando ele saiu, ele ficou putíssimo da cara, saiu correndo e, no auge do seu leonino estresse, foi atrás de todo mundo, deu uma patada violenta numa escada, desmontou a escada, depois foi tentar entrar na jaula e errou o buraco da "mureta de pedra" e desmanchou o alambrado do estádio.

Prá quê.

Porra, imagine, o público ali viu o bicho e saiu correndo, eles bateram todos os recordes de salto em altura, em distância, salto com vara, pentatlo moderno, imagina, os caras escalando aquela mureta de merda de tão íngreme.

Depois ele voltou para o campo, e só um diretor e mais um "legionário" conseguiram acalmar a fera já ronrronante, de barriga para cima, com duas "lanças" de cabo de vassoura.

Esse camera depois foi trabalhar na Globo, essa história foi bastante difundida por anos e o rapaz na câmera, o James, ganhou para sempre o apelido de "o câmera do leão".

Saturday, October 02, 2010

Boca de Urna

Bem amigos, já que o homem é um animal político, como diria a bicha estagirita do Aristóteles e que o pior analfabeto é o analfabeto político, como diria Pepino, o Breve, este humilde redator que, com efeito, não é nenhum filho de chocadeira, SIM, tem candidato para esta eleição e - pasmem - vai abrir o seu voto.

Sem maiores delongas, chega de intermediários, no dia 3 de outubro, vote 99: CECÍLIA MEIRELES NA CABEÇA.


Uma fábula


Oi amgs

Era uma vez um jumento falante, orelhudo e ligeiramente cinza. Ele puxava pelas ruas uma carroça de carretos. Um dia, um homem viu o jumento rezingando:

"Ai de mim, ai de mim, mas que droga de vida que eu vivo, faça chuva ou faça sol, eu puxando carretos". O homem ficou surpreso, e perguntou:

"Meu amigo jumento, se você pode falar, por que você não se rebela, não fala que você está sendo explorado dessa maneira lamentável e lastimável, meu amigo jumento?".

O jumento respondeu: "meu amigo ser humano, se esse celerado do meu dono descobre que eu falo ele ainda vai me mandar gritar OLHA O CARRETOOOOO".


MORAL DA HISTÓRIA: Não tem moral nenhuma, vão dormir todos vocês

Saturday, September 25, 2010

500 REAIS


A Ponte de Azenha


Patrício, não me avexo de uma heresia;
mas era Deus que estava
no luzimento daquelas estrelas

Simões Lopes Neto





É aquela história que a minha vó já dizia
: se você quer que alguém faça alguma coisa, por Tutatis, peça para quem tem bicho-carpinteiro, hypocrite lecteur, mon semblable, mon fere; para maturango, não peças nada - jamais. Escute.

Minha história é a seguinte. Meu chefe mandou me confiou um envelope pardo com R$ 500 para que eu depositasse na conta da empresa. Problema é que me pediram para comprar uma passagem para Itaqui, na Rodoviária. Tudo isso numa sexta-feira véspera de feriadão (era Semana Farroupilha).

Eu, como sempre, com panfletos, chaves, troco de todo o tipo nos bolsos, saí correndo, mala de garupa às costas e tudo (sempre que me vêem de mala de garupa, me perguntam se eu sou de Uruguaiana, não sei o porquê, mas azar)

Fui primeiro na Rodoviária. Uma fila enorme, muita gente. Comprei as passagens. Depois, tive que ir numa lotérica e, antes, parei numa lanchonete para beber algo. Bebi uma, duas, três cervejas. Já estava quase no clima do feriado.

Quando era quase quatro da tarde, eu entrei na agência. Revirei a mala, bolsos, e nada. Cadê os R$ 500? Olhava para os clientes para lá e para cá, alheios à minha confusão de idéias. E eu revirava de tudo o que é jeito os meus bolsos. Mala de garupa, Mala de garupa, bolsos, bolsos da jaqueta de brim. Nada.

Perdi os R$ 500. Só tinha o troco das passagens e mais um dinheiro que eu carregava sempre comigo. Tudo passou pelo meu pensamento lívido como aquele fim de tarde: todo o trajeto. Fila, Rodoviária, loja, ônibus, lotérica, Rodoviária, lotérica, fila. Onde eu esqueci aquilo, meu Deus?

Meu Deus. Certo é que, onde quer que fosse, eu havia perdido tudo para sempre. Era dinheiro, apenas dinheiro e nada mais do que dinheiro. Quem achou desapareceu na poeira do tempo, por mãos excusas e inocentes. Eu estava ficando pálido de desespero.

- Você está bem, meu filho? – Perguntou uma velhinha.

- Eu fiz besteira, minha senhora, fiz besteira, eu perdi dinheiro do meu chefe – balbuciei. Preferia antes que o diacho me levasse com suas botas, mas agora, o que vai ser de mim?

Fiquei com aquela sensação de quem quebrou algo e fica imaginando que, há poucos minutos antes, estava tudo bem na santa paz de Deus. Fiquei também pensando como a vida, num pequeno movimento, faz tudo cair por terra como um castelo de cartas. Não, eu também tinha parte nisso, e muita.

Eu fui displicente em guardar aquele valor (fiquei vagando em meus pensamentos). Eu fui negligente e irresponsávele não percebi que isso podia acontecer, mesmo sabendo que já fiz coisa do tipo antes. Me odiei por me permitir cometer novamente tamanho ato pueril, ainda mais guardando algo que alguém havia confiado em mim. Pior: quem vai acreditar que eu perdi? Vão achar que eu roubei & menti que perdi para ficar com os R$ 500...

Eu andava na rua à parte, eu não fazia parte da euforia da multidão. Pássaros psicodélicos de 150 kg voando, camundongos de chumbo e girafas coloridas viadutos vomitando carros, brigadianos disfarçados de cavaleiros da Távola vendendo cachorros-quentes para hippies imundos na rua, a Dama do Lago singrando as águas solitárias do Guaíba, as ondinas wagnerianas nuas a correr pelo Cais na cidade dourada da liberdade e as suas santas irmandades aguardando o Fim enquanto entrelaçavam seus cabelos dourados diante da Fonte do Porto sob o manto de esmeralda de um exército de gafanhotos que consumiam o bulício e a loucura da tarde enquanto o Guaíba ria pelos cotovelos e o vento uivava pelo alto dos edifícios de rocha pura e a Mboiotatá devorava olhos de luz pelo Largo da Conceição afora, etc.

Subi toda a Conceição enquanto via as pessoas felizes. Desci o Rosário até o Bonfim, cruzei com um bando de tropeiros que levava a sua cavalhada para o Acampamento Farroupilha, cruzei a João Pessoa e fui descendo a Azenha quando começoua chover forte. Em duas quadras, só minhas cuecas estavam ainda secas. A água havia entrado em meu Allstar furado. Toda a desgraça da minha vida aziaga chovia com aquela chuva sdobre mim. Não me sentia em lágrimas, tamanha era a choradeira que caía do Céu.

Iam me acusar de roubo! Ladrão! É exatamente isso o que eu sou, um ladrão barato, um batedor de carteiras do Polícia em Ação que se vende por nada e que põe toda a sua virtude fora por uma ninharia! Não, por Deus! Eu perdi o maldito dinheiro, meu Deus! Isso não! Não posso ser réu de juízo por algo que eu não fiz! Mas quem vai diabos vai acreditar em mim? Em quem eu posso confiar, agora? Onde eu vou conseguir dinheiro para repor isso, meu Deus?

Pensei em morrer ou me matar. Cheguei debaixo das palmeiras imperiais da Azenha e fiquei olhando a fúria das águas lamacentas quase a transbordar furiosamente em seu curso no Dilúvio...

Subi na ponte. Ningém podia me ver ou reconhecer, a chuva transformou a paisagem noturna em luzes de faróis e carros apressados correndo de volta para casa. Fiquei parado na mureta da Ponte da Azenha, ali onde os farroupilhas outrora invadiram a cidade, mas agora debaixo de uma chuva torrencial. O Dilúvio agora serpenteava hectolitros de lama, galhos de árvores, cadáveres de cachorros e estofados. Eu ia dar um salto ornamental para o fim do meu sofrimento.


Então bradei:

Pereça o dia em que nasci.

E a noite em que foi dito: uma criança masculina foi concebida! Que esse dia semude em trevas! Que Deus nas alturas não se incomode mais com ele! Que as trevas e a obscuridade se apoderem dele, que as nuvens o envolvam, que eclipses o apavorem, que a sombra o domine! Que esse dia não seja contado entre os dias do ano, nem seja lembrado entre os meses. E que seja estéril essa noite para todo o sempre, Amém.


Então eu me lembrei dela. Seus cabelos castanhos, sua pele ebúrnea, sua verruguinha na bochecha direita, sua voz pueril, do seu riso engraçado quando eu falo as minhas besteiras, doseu cálido olhar suave quando me olha, do seu Allstar branco, da sua adorável teimosia, do óculos dela colado com fita isolante Scotch, do seu sorriso que sempre me faz sorrir em minha alma profunda. Eu tenho que vê-la novamente, MAS ANTES TRNHO QUE acabar com todo esse drama tolo que eu me meti.

Um vira-latas (branco com as patas e o olho esquerdo carimbado de preto) me viu pendurado e, dado o insólito da situação, me fitou do rés-do chão da calçada abanando o rabo lentamente, com a cara pingando chuva.

Deus existe. Ele certamente estava naquele momento em que eu desci da ponte. Ele fez aquele vira-latas me sentir um tolo ali na ponte. Minha mala de garupa agora era um filete de pano encarcado no ombro.

Voltei para casa em fúria comigo mesmo: a culpa é minha, eu vou contar a verdade, e vou dizer que vou arrumar o dinheiro de volta, e com juros. Se isso aconteceu, foi para que eu aprendesse e não repetisse tamanha negligência nunca mais na minha vida. Ia, sei lá, arrumar um emprego de telemarketing nem que seja por dois malditos meses, para juntar a grana, depois assino a rascisão e dou baixa na carteira, ou, sei lá, continuo, azar. Havia uma solução. Sempre vai existir uma solução.

Cheguei em casa noite escura num estado de penúria. Meu pai me olhou sem me ver, e disse: “a janta está pronta”.

Entro no quarto escuro, tiro os tênis ensopados, abro as cortinas e acendo o abajur. Na minha escrivaninha, o envelope de papel pardo. Surpreso, abro o envelope. Lá estão os R$ 500.

Fiquei rindo como um tolo. Meu pai aparece de soslaio no marco da porta: “aconteceu alguma coisa?”.


- Graças a Deus não aconteceu nada - respondi.

Tuesday, September 21, 2010

TEATRO PATO MACHO

Capitalismo Selvagem

Tragédia em um ato
Personagens: empregador e o candidato
Época - atemporal


ATO ÚNICO:


Cantidato: Bom dia, eu vim responder a uma proposta de oferta de emprego.

Empregador: Muito bem, sente-se.

Candidato: (se senta)

Empregador: (com firmeza) Muito bem, estou vendo que você é dependente, mora de favor e está desempregado há mais de sete meses. Qual é a sua renda?

Candidato: nove salários mínimos, senhor.

Empregador: Onde você mora? Bairro, etc?

Candidato: Moro na Boa Vista, mais precisamente na praça Província de Shiga, senhor.

Empregador: Muito bem. Você tem carro?

Candidato: (com um sorriso surpreso) Sim, dois. Um Jaguar e um Lambourghini branco.

Empregador: Casa ou apartamento?

Candidato: Cobertura, senhor.

Empregador: Qual é a sua formação, tem curso superior, qual?

Candidato: (boceja) Coimbra, Cambridge e Oxford, senhor. Ciências da Comunicação, Sociologia e Filosofia, respectivamente.

Empregador: Você viaja com frequência? se viaja, para onde costuma viajar?

Candidato: (com ar de desdém, polindo as unhas das mãos) Viajo pouco, senhor, mas no último verão, eu estiquei um passeio até minha mansão de 44 quartos em Vilefranche-Sur-Mer, na Riviera Francesa...

Empregador: (tira os olhos do currículo do candidato e, com a rabeta dos olhos, fixa a vista na cara dele) Espere aí, você está me fazendo de bobo, é?

Candidato: Mas foi o senhor quem começou!


(Cai o pano bem rápido)

Saturday, September 18, 2010

Cidade Baixa Blues

Dinheiro não é tudo. Mas para sair com um amigo, de noite, sem grana, ou seja, sob o mecenato de um amigo, é complicado. Ainda mais se você souber que ele é um galanteador nato e, na verdade, não é bem amigo de verdade.

É aquele tipo de amigo que te procura para não sair sozinho, ou para não ficar sozinho num boteco da moda caso não ache nenhum parceiro no meio do pessoal. Claro que, sendo um galanteador nato e tenho grana, ele logo logo consegue puxar conversa com um trio de meninas que, com efeito, não estão ali a trabalho.

Tinha um chapa meu que um dia me achou na rua, e me pediu o Messenger. A gente trocou uma conversa ou duas e, dias depois, ele marcou uma balada ali na João Alfredo. Jantamos num restaurante ali perto e depois zarpamos para um bar em frente, que todos conhecem. Rolou conversa com umas minas, a gente achou uns conhecidos, o show começou e estava tudo bem.

Só que ao contrário dele, eu não tinha como oferecer cerveja para nenhuma delas. O cara achou mais um parceiro e como elas eram três, havia alguma relativa possibilidade de todos se darem bem.

Mas naturalmente eu me conheço e, nessas situações em que você fica na obriga, ou elas são lindas demais para você ou você é feio demais para elas, ou quase todas elas.

Fora que não havia como conversar com aquela música toda e eu, sem beber nada ou, por outra, simplesmente bebericando um copo de chope há pelo menos duas horas e meia para dar a entender que eu estava bebendo, eu sabia que a noite dependia de dinheiro. E eu era apenas um pajem de merda naquela noite triste.

A tendência era piorar, e foi o que aconteceu. O bar lotou, as meninas foram para outro canto do bar de tão entediadas, enquanto o meu amigo estava quase conseguindo um esquema com uma delas. Eu pensei rápido: é lógico, ele pega a mina, me deixa um troco para a consumação mínima e vai embora.

Numa progressão fulminante, ele apareceu. Disse: “bah, Marcelão, tu vai me desculpar, mas eu vou ter que sair. Aqui tá a grana da consumação”. Ele ainda estava lá dentro conversando com a garota quando eu discretamente peguei o porteiro e ganhei a rua. Devia ser ainda umas onze e vinte da noite.

Podia de repente esticar a noite, subir a República e tomar um engradado de Polar e depois voltar para casa para dormir o sono dos justos. Pior é que como convite surgiu no fim da tarde, pelo telefone, não pude colocar a minha melhor roupa. E não tinha dinheiro.

Wednesday, September 15, 2010

No MSN

Ela: oi
Eu: (estranhando um contato depois de cinco meses) oi
Ela: tudo bem?
Eu: saudades
Ela: tava doente,fui no médico e agora estou melhor
Ela: hoje foi um dia cheio, acordei, peguei o ônibus, fui para uma reunião de pauta com o pessoal da emissora, depois comi uma barrinha de cereal e tive que atravessar a cidade toda porque tinha que me reunir com a minha orientadora,discutir oanteprojeto, depois pegar uns livros na biblioteca, depois tive aeróbica, depois fui pagar algumas contas e depois ainda tive aula até as dez e quinze
Eu: (comovido)puxa, eu estava morrendo de saudades tuas
Ela: não tô entendendo o rumo dessa conversa
Eu só quis dizer que queria ter a oportunidade de dizer que eu estava morto de saudades...
Ela: sei lá
Ela: me esqueça
Ela: você fica me pressionando
Eu O.o
Ela: só queria saber se você estava bem
Ela: me esquece
Ela: agora vou dormir
Ela: estou cansada
Ela: sou uma pessoa muito ocupada

Friday, September 10, 2010

Sic Transit

Atendente psicótica do telemarketing do Itaú vamos fazer um Pic aqui em casa sua linda?

O senhor está interessado?
Então, o senhor está interessado?
Por que o senhor não está interessado?
O senhor tem que estar interessado, veja as vantagens (observem a função fática da linguagem)
Mas, afinal de contas, depois de toda a explicação do plano, o senhor não entende que isto será uma vantagem para o senhor?
Mas o senhor não acha que por apenas (não lembro o valor) debitado em sua conta, o senhor pode ter a chance de investir em algo que pode ser favorável para o senhor a sua família (que família)?

Wednesday, September 08, 2010

Meu Diário

Sonhei hoje que eu cheguei nos Céus e me atendeu o São Pedro com uma prancheta Umbro, estilo Joel Santana. São Pedro vai me fazer uma dinâmica de grupo. "É deixa ver, Marcelo, né, venha por aqui, tem mais sete candidatos". Ele dizendo: gentem, tenho 3 vagas aqui, uma para imadiato e duas de espera, no Purgatório. Eu esfreguei as mãos e pensei: "um purgatoriozinho já tá mais do que bom"

Certo momento, "Quem sabe de cor aí Romanos 8:35?". Aí vai aparecer um maldito beato e recita, na ponta da língua: "Quem vai nos separar do amor de Cristo?". Eu: "caralho". Outra, Lucas 19,10: "outro na salinha: "porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que havia se perdido". Bom, me fudi.

No fim, São Pedro disse: "os escolhidos a gente liga, tá legal, gente? Eu, perplexo: "porra, até aqui eu me fodo com essa merda". Aí fui para o Inferno de Dante.

Chego lá, um homem de barbas longas, vestes negras, e túnica,olhar sombrio e inquisidor e tez impassível me atende. Arrisco: "você é que o Dante?". Ele diz: "não, eu sou o Velho Barreiro". Aí eu ri: peraí, cara, isso é um sonho né? Tá na hora de acordar.

Tuesday, August 31, 2010

Eu & a Cyd Charisse


Cyd



Minha cadela Frida amanheceu doente, hoje. Ela estava estranha demais, a ponto de sequer me sorrir latindo com o rabo. Levei ela correndo no veterinário; na verdade, força de expressão, é uma veterinária. Uma morena de lábios provocantes e pernas longas, enfim, quase uma Cyd Charisse.

Ela tratou minha cadela com todo o amor e carinho. Ficou horas conversandocom ela, como se fosse capz de curar aquele pobre animal com sua voz doce e amigável. Depois, afagou a Frida, e explicou a ela (e a mim, mas à ela, principalmente) qual seria o procedimento a ser tomado. E eu fiquei ali segurando a Frida pela crina enquanto o soro corria veias afora. Depois, Cyd Charisse fez de tudo para que a vacina não fosse dolorosa: acariciava o pequeno dorso da minha pobre schnauzer,para que obicinhno entendesse que a aplicação era para o seu bem.

Em seguida, a Cyd liberou a Frida. Agora de tarde, ela quis saber como a Frida estava, e portanto me igou. Disse que ela estava bem, e então a Cyd recomendou várias coisas, naturalmente muitíssimo (como diria Augusto dos Anjos) preocupada para que a Frida convalecesse a contento e ficasse radiante e disposta novamente para correr e brincar, como é típico de um schnauzer.

Muito emocionado (estava meio emocionado por outras questões, essas que não tem nada a ver com o caso, enfim, eu me despedi), e desliguei. Mas mais tarde, ligeiramente perplexo, eu fiquei comparado o modus operandi da Cyd e a forma com que a gente é tratada por médicos em geral — em geral com uma íngreme frieza hospitalar para conosco e tal, daqueles tipo atendente do Beco dos Livros, que pergunta e responde sem ao menos olhar na nossa cara de espanto. Enfim. Depois de tudo isso, eu cheguei a uma conclusão conclusiva: da próxima vez que eu ficar doente, vou me consultar com a Cyd Charisse.

Tuesday, August 24, 2010

A morte e a morte de D. Vicente Scherer

Outro dia eu cometi um ato falho, estava falando dos desafetos do Nelson Rodrigues e,entre eles estavam o pensador católico Gustavo Corção, o fundador da AGIR Editora (e também pensador católico), Tristão de Atahíde e o Dom Hélder Câmara.

Não é o que eu iria dizer, ou por outra, ocorre que, ao citar D. Hélder, eu falei Dom Vicente Scherer. Ninguém sabia de quem eu estava falando, até que eu me dei conta que citava por engano o antigo Arcebispo de Porto Alegre (de 1947 até 1981) porque eu descobri que ele havia sido pároco na igreja São Geraldo (bairro operário da cidade), onde meus pais se casaram e este que voz escreve foi levado intrépida e galhardamente à pia batismal.

Mas depois me dei conta que o D. Vicente é uma figura hoje pouco lembrada (e pouco biografada), mas que, mesmo não sendo daqui (ele era de Bom Princípio), foi um dos mais ilustres e folclóricos personagens desta paisagem urbana. Claro que apenas peguei a deixa do meu execrável ato falho paraacrescentar um fato que tem mais a ver com o lado folclórico dele, e que muita gente acha que é lenda urbana.

A história é a seguinte. O Dom Vicente tinha um programa na Difusora toda terça, chamada A Voz do Pastor (ele assinava um artigo de fundo semanal com o mesmo nome na imprensa porto-alegrense, que seguiu no Correio do Povo mesmo depois da sua morte, em 1996, mas redigida obviamente pelo seu sucessor, e não por Dom Vicente in excelsis, vocês entenderam).

Como eu ia dizendo, o Dom Vicente falava nos microfones da Difusora toda semana e, de tanto ouvir a sua vóz fina e anasalada ("mistéeerios gozóooozos"), em pouco tempo, quase toda Porto Alegre sabia imitá-lo. Não era raro apareceram trotes de toda a espécie, sempre "protagonizados" pelo nosso "arcebispo" ao passo que a vítima, com efeito, temendo estar falando com o próprio Dom Vicente, ficava com medo de revidar. Ou não.

Ou não porque, certa feita, no fim dos anos 50, num domingo sonolento de sol, final de tarde, um pouco antes das seis, uma voz de mulher ligou para a então recém fundada rádio Guaíba.

— Pronto, boa tarde — disse a senhora — Eu sou a Madre Heloísa e estou ligando aqui da Cúria Metropolitana para informar, com grande tristeza, que o nosso querido arcebispo, Dom Vicente Scherer, acabou de falecer. Se por acaso os senhores desejarem mais detalhes, por obséquio, liguem para o Cônego Pedro Abelardo, número 5923.

Atônito e sob o impacto de receber aquela hercúlea bomba no colo, o redator de plantão foi confirmar o trágico sinistro (perdoem o pleonasmo. ou não). Atendeu o tal Cônego Pedro Abelardo, muito consternado:

— Sim, é vrdade — respondeu o clérigo. — Estamos muito consternados com tamanha infausta. Ele prostrou o seu deradeiro suspiro...

Num átimo de minutos, a Guaíba irrompia o éter com uma edição extraordinária do Corrspondente Renner (saudoso, diga-se de passagem) enquanto os sinos da Cetedral dobravam (a rigor, eram seis da tarde e eles sempre tocam às seis da tarde — ou não).


Uma hora depois, descobriu-se que era um trote, e que o Dom Vicente estava vivão. O então chefe da redação da emissora, Flávio Alcaraz Gomes, e o diretor da Guaíba, Arlindo Pasqualini irromperam do seu dia de folga para acompanharam o desenrolar dos acontecimentos quando ficaram também duplamente surpreeendidos com a tremenda bariga deflagrada pelo Correspondente.

Pasqualini queria triturar o pobre redator que caiu na pegadinha (embora tenha recebido confirmação embora fria, de qualquer forma, indesculpável, mas eram outros tempos românticos e floridos e dourados & isso hoje não acontece mais não é mesmo gnt). Como ia sobrar — e devia sobrar — para alguém, esse alguém foi o repórter.

Nesse meio tempo, durante a noite de domingo e a segunda inteira, a central de telefones da Guaíba foi infestada por trotes de gente ligando para tirar sarro da barrigada da emissora e, com efeito, imitando o jeito de falar de Dom Vicente...


Mas nosso herói não levou aquilo a sério como Pasqualini, que tinha a credibilidade do jornalismo da rádio a zelar. mas como um valor mais alto se "alevanta", como diria Camões, o nosso arcebispo soube da demissão do redator e, numa sublime missão de paz, decidiu ligar para a Guaíba para falar com o "capitão". Scherer queria que eles voltassem atrás, o perdoassem, em nome dos céus, e o reintegrassem à redação.

Dom Vicente liga para a Guaíba. Alguém atende. Ele fala:

— Alóooo, aqui quem fala é o Dom Vicéénte Scherer, eu queria rogaáar ao doutoóóór Pasqualini para que ele voltasse atrás e...

— Ora, vá à merda!

E desligou.

No dia segunte, surpresa: o Dom Vicente apareceu pessoalmente na sede da Caldas Júnior, para tratar do caso. Da entrada até a porta da Guaíba, no segundo andar, foi uma procissão de beija mãos e de "louvado seja Nosso senhor Jesus" até que Pasqualini o recepciona. Os dois se abraçam, o diretor beija a mão de Dom Vicente, que sorri para Pasqualini e dispara:

— Quer dizer que além de me matarem vocééés me ressusitam e ainda me mandam à merda, não é?

Friday, August 20, 2010

Uma taça e um sonho




Meu amigo Parsifal me mandou isso, ontem. Ele é colorado fanático, e tem mais ou menos a minha idade.

Ele me disse: "cara, me lembro quando o Inter foi campeão do Supercampeonato de 2002. Era o primeiro título desde, sei lá, acho que 1998",disse. Aí me falou que saiu com a camisa do clube na rua e ouviu de dois gremistas, na rua (minto, na fila da Biblioteca da PUCRS, ele disse). "Só porque ganharam esse campeonatinho tiraram a camisa do armário".

Quase se botou no autor do gracejo. Mas se segurou. Depois foi o drama do Brasileiro daquele ano, e falou daquele São Caetano e Inter, na última rodada: o Inter precisava de 3 pontos para a vaga na Libertadores e levou 5 em São Caetano do Sul.

O cara adoeceu, tava com o complexo de Vira-Latas incubado. Depois, a duras penas, veio aquele jogo contra o Boca, em 2004. Um desastre em Buenos Aires, a ilusão da reação no jogo de volta. Goleiro do Inter sofreu um gol sintomático, de clube que tem sapo enterrado. Bola bate nas costas dele e entra. Azar de perdedor. Me disse que sempre que saía na rua, um gremista amigo dele inticava: "ão ao ao, só ganha gauchão!".

disse que a saída do jogo era um misto de orgulho por disputar uma parelha numa partida de caráter internacional e de frustração. Ele disse que sacudiu um amigo na frente do Celeiro de Ases, sentpu no meio-fio e chorou lágrimas de esquicho.

"Porra, cara, essa é a nossa diferença deles! Quando a gente tava em baixa, eles aproveitaram e chegaram no topo. Quando eles estão em baixa, o nosso time não sabe aproveitar! É o time do quase mesmo, droga!". E as lágrimas caíam para os lados, como um filme mudo. Era a imagem do palhaço da ópera.

Veio 2005 e e Campeonato Roubrasileiro. E a anulação dos jogos. "pora, mas como pode?", ele dizia, crispado de espanto. Fim do ano, ele, putíssimo, berava: "porra, cara, roubam a gente daquela maneira e essa direção de merda fica comemorando os 30 anos de 75. mas o que é isso? Prêmio de consolação era uma Libertadores. Mas era tanta injustiça que o limão ia virar limonada.

Ia porque o Inter era favorito e perdeu o Gauchão mais ganho de todos os tempos e em casa. Veio a Libertadores e o resto todos sabem. Mas, como dizia o Sinatra, o melhor ainda estava para vir.

Problema era o complexo de vira-latas — diz ele mas, como qualquer torcedor, ele entende que até é uma hipótese plausível. O xis da questão era entender como o clube conseguiu superar o doloroso estigma de ser o time "do quase" e de viver do passado só para elaborar tudo como um ciclo que acabou. É um problema de muitos times, independente da torcida. Nelson Rodrigues tecia inúmeras tesas sobre isso, principalmente quando ninguém imaginava que fosse possível colocar o futebol no divã. O sapo era psicológico.

Mas o engraçado foi ver o cara ontem. Tava todo de vermelho, com uma lata de cerveja, e vivendo numa espécie de transe, de mundo paralelo. Parecia que tinha visto a face de Deus na sarça de fogo e havia descido do monte com as tábuas da Lei. E a sua cabeleira tinha um quê de bíblico, de Moisés de Cecil B. de Mille.

Ele nem acredita. Ninguém acredita, mas tanto faz. só sei que largou o psiquiatra. E o Internacional definitivamente também. É aquela coisa; se a história tem um fim, ela tem que terminar com uma taça e uma volta olímpica. a explicação que fique para os deuses do futebol. "Se a bola bate nas costas do goleiro hoje, ela sai prá escanteio", ri o meu amigo Parsifal. Ele bebia a cerveja com uma sede brutal e ria pelos cotovelos feito um fauno,feito a Laranja Irritante. A cerveja saía pelo nariz dele.


Ah, ele disse que achou o cara que tirava onde dele. O Parsifal olhou para o sujeito de alto a baixo, bateu no distintivo da camiseta e bradou: "ão, ao, ao, só ganha gauchão!!!!!".