Friday, February 18, 2011

Um Certo Erico Verissimo


"Era uma noite fria de lua cheia..."


Erico Verissimo sempre me lembrou meu avô. Não só pela fisionomia mas também porque me lembro de ver a lombada do Solo de Clarineta na sua estante. Contudo, o único livro do autor de Clarissa que eu havia me debruçado foi Noite, nos tempos da faculdade.

Quando o lançamento de O Continente completou cinqüenta anos, em 1999, eu guardei um suplemento literário sobre O Tempo e o Vento. Esses dias, o velho jornal me caiu nas mãos.

Então eu pensei: está na hora de eu ler definitivamente toda a trilogia. Isso se deu pouco antes da última Feira do Livro. Fiz algo que eu não fazia há tempos, ir a um sebo.

Eu não frequentava sebos há muito tempo e não me sentia remotivado a ler um livro — exceto os de sempre, que eu tenho sempre à cabeceira.


Peguei uns morlacos, uns livros usados de minha coleção e troquei pelo Continente. — que vai de 1745 a 1845. O interessante é que é um misto de história e ficção e a relação com o local não faz do livro um romance regionalista, mas sim um romance regional. Ao mesmo tempo, não tem o mesmo caráter "socializante" dos autores do Romance de 30, como Jorge Amado, Franklin Távora e o Jorge Amado.

Uma curiosidade: O Erico escreveu boa parte do Continente no escritório dele nos fundos da Livraria do Globo, no Centro de Porto Alegre, e a janela — ele diz no Solo de Clarineta — dava quase para a cozinha do antigo restaurante D. Maria (que ficava na José Montaury defronte ao abrigo de bondes, e que não existe mais), o que fazia com que, todo dia a partir das onze da manhã, o blend de óleo de peixe frito lhe embrulhase o estômago...

O capítulo Ana Terra é lindíssimo, é mitológico como uma passagem do Gênese.

O Continente é entremeado pelo cerco dos federalistas ao sobrado dos Terra Cambará, em 1895. Eles estão sitiados. Daí começa a história, mostrando a vida nos Sete Povos na voz de um padre jesuíta, Pe. Alonso. Fala perfeitamente como era a cultura e a economia nas missões jesuíticas no século XVIII.

É a história do Rio Grande do Sul contada da forma mas incrível e sublime.

Ele tenta salvar uma índia perdida que morre ao dar a luz a um menino, Pedro, batizado por Alonso. O menino tem visões. A mais bela é a de que sua mãe era a encarnação da Virgem, a e a chama de Rosa Mística.

Daí vem as guerras após o tratato de Santo Idelfonso. Vão entregar Sacramento aos portugueses e surge a figura do capitão alferes Sepé Tiaraju. Pedro vê Sepé morrer em batalha e é o fim de A Fonte.

Corte cinematográfico para o cerco do Sobrado. Aí começa a saga da família Terra, perdida no meio de uma sesmaria. Seus irmãos encontram um índio que havia sido ferido em batalha — o índio é Pedro. A família Terra veio de Sorocaba, pois o patriarca deles era tropeiro e decidiu ficar no sul.

Eles salvam Pedro, que se torna agregado da família, ele e Ana se apaixonam, ela engravida dele, ele depois disse que teve a visão da morte dele. Aí começa a tragédia.

Em alguns trechos, o Erico mostra, pela boca dos personagens, a diferença entre o homem da campanha, ligado a gueras, ao nomadismo, a viver numa região ao mesmo tempo fronteiriça e sem fronteiras, a lida com as armas e com a linguagem e os hábitos platinos em confronto com o homem típico do litoral, mais ligado ao nomadismo, ao comércio, à paz, e de raiz açoriana. Isso ele compara na boca do amigo do Cap. Rodrigo, Pe. Lara.

A sutilileza em que o Erico consegue dividir ambiente, caracterização dos personagens e fazer uma sociologia do gaúcho e das lendas e históricas é de uma síntese perfeita.


II


Aliás, tem um ensaio do Antônio Hohlfeldt que demonstra o elemento dialético na relação tempo - vento.

O tempo parece ligado às mulheres, que solidificam as tradições familiares e a perpetuam, e estão ligadas, por exemplo, na imagam da tesoura da mãe de Ana Terra, que passa de geração em geração quando elas a usam para cortar o corão umbilical das crianças. Elas são o elemento agregador.

Isso é curioso: na última fala entre Sílvia e Rodrigo Cambará, ele pergunta à ela se existe algo entre ela e seu filho, Floriano. Ela encolhe os ombros, e diz que não. A despeito de todo o seu lado infiel, ele explica à moça que ela devia permanecer ao lado de Jango (irmão de Floriano, que também disputava o amor da menina) porque ele, Rodrigo, sabia que ela seria o tal elemento agregador.

Isso que ela já havia gerado um filho (de Jango) e naturalmente se tornara a mulher que iria perpetuar esse lado agregador dos Terra-Cambará e de todas as mães do Rio Grande que se resignavam à esse papel histórico-mitológico ou o que quer que seja.

O elemento masculino, o de conquista e derrota, expansão é o do vento, e é simbolizado pelo punhal do Pedro Missioneiro. Esse elemento conquistador é desagregador, é beligerante, e mostra a diferença entre Ana Terra e um certo Cap. Rodrigo e a sua aura trágica. Ele é um personagem trágico, sabe que deve morrer em combate.

Todos os Cambarás tinham o código de honra: morrer em combate. O maior deles, o Chantecler, Dr. Rodrigo Cambará, morre na cama, sozinho, vitima de um infarte fulminante.

Numa fala, Bibiana pensa em An Terra e diz: "o destibno das mulheres da família era fiar, chorar e esperar". Mas eu vejo que nisso reside não uma total resignação, mas sim uma espécie de fortaleza emocional, de destino maternal e familiar.

Maria Valéria — que com sua vela que nunca se apaga, atravessa todos os sete volumes do Tempo e o Vento, quando confronta Licurgo, por exemplo, é capaz de separar o espaço feminino do masculino na casa na visão machista, mas ela também é capaz de ver a hipocrisia no discurso de Licurgo.

Ela encontra esse espaço e acaba se tornando, tanto quando Bibiana, a mulher que dá a corda no relógio do Sobrado e que é a guardiã, é a matriarca, a guardiã da virtude do Sobrado, ela sabe tudo, é uma mulher forte e prática, é uma personagem admirável, é a deusa do lar, a Héstia, é a memória cultural da família na figura feminina. Isso mostra a força das personagens femininas do Erico e do elemento feminino na formação desse espaço.

Claro que Erico se coloca o tempo todo na defensiva em favor das mulheres: ele naturalmente entende a figura basilar delas na família, mas desmascara o machismo. Como na fala de Luzia: "Mas dr. Winter, nesta terra os homens não fazem muita diferença entre as mulheres e os cavalos (...) veja bem, doutor, a idéia dos gaúchos em geral é a de que o cavalo e a mulher foram feitos para servirem aos homens, e nós nem podemos ficar ofendidas, porque os rio-grandenses dão muito valor aos seus cavalos..."

III

Interessante no O Continente são citações ao surgimento do comércio de gado, a partir do começo do Século XVIII.

O sul tinha uma vacaria sem dono e São Paulo e Minas precisavam de animais de carga para o extrativismo. Aí surgiu a primeira BR 101, que passava por dentro do Morro dos Conventos, Campos de Cima da Serra e depois o Litoral e Viamão.

A ocupação portuguesa - depois dos Sete Povos se deu quando a Coroa achou que erapreciso fixar gente aqui (porque a fronteira era inexistente, e a rigor,ia até as margens do Ibicuí), e concedeu sesmarias. Porto Alegre era uma sesmaria, lotada em Viamão.

A sesmaria de viamão tinha uma invernada, quanto mais posses os tropeiros conseguiam aquinhoar, maior poderia ser a sesmaria.

Depois de Viamão viria Rio Grande, que era o único porto possível no mar do Rio Grande, em 37. A Igreja Matriz da cidade é dessa época e é a mais antiga do Estado.

Para mão de obra, chegam 400 casais de açorianos. No livro, o Erico descreve a desgraça que foi a viagem do arquipélago para Laguna. Porém, a descendência dos Terra é portuguesa de Sorocaba, na verdade, e Pedro não era sesmeiro.

Outra é que a família Terra é atacada por castelhanos por 1780, mais ou menos.

Interessante é ver que desde 1760, depois do fim das guerras guaraníticas, o Rio Grande foi confiado a um civil e sendo desprotegido, ele virou foco de interesse do governador de Buenos Aires, que atacou Sacramento e sitiou Rio Grande por 13 anos.

Pedro de Cevallos era um doido do tempo do tratado de Tordesilhas e queria todo o Continente de volta. Atacou Rio Grande e depois Rio Pardo.

Isso explica porque nessa época em que o território era tão desprotegido, e a família de Ana Terra foi covardemente dizimada.

Pior que os castelhanos de 63 a 76 invadiram tudo mesmo, exceto Rio Pardo, mas derrotaram Rio Grande, e depois partiram para Viamão. Houve uma diáspora para o norte, mas muitos portugueses presos pelos espanhóis foram mandados para San Carlos, no Uruguai. Rio Grande só seria retomada em 1776.

IV

As mulheres representam a figura importante na família — como no caso da do próprio Erico, que teve sua mãe, Dona Bega, como a pessoa que carregou sua prole nas costas, enquanto seu pai deixava o lar.

Mas nem todas as mulheres de O Tempo e o Vento pertencem a esse arquétipo: existem as outras, as que viram a cabeça dos homens, as não agregadoras. Como no caso Luzia-Teniaguá.

Bolívar, ao contrário do pai, não seduz: é seduzido. Ela era vista como uma espécie de ameaça, uma femme fatale, uma devoradora de homens. Ela teria levado o filho de Bibiana à ruína, ela provocou a cisão no Sobrado e a "guerra" a que o referido capítulo do Continente se refere não é bem a do Paraguai, mas a da filha de Pedro Terra e sua insigne norinha diabólica.

Nesse episódio, é de se pensar se realmente Luzia era tão má como parecia ser. Talvez apenas na cabeça da velha Bibiana que, de tanto odiá-la na conquista do Sobrado que ela, coitada, acabou ficando gagá...

Bolívar Terra Cambará é uma espécie de anti-herói: ele herdou os defeitos das duas famílias, o ímpeto e a estupidez do pai e a teimosia muar dos Terra. Um homem traumatizado de guerra, nervoso, e que casa com uma mulher de outra cultura. A morte dele é triste, deprimente e estúpida.

Curioso é que o Erico mostra o contraste entre o colono português continentino, que é tosco, ao passo que ocorre um curioso choque cultural quando Predro Missioneiro mostra que, a despeito de ser indígena, sabe ler, escrever e tocar um instrumento musical, e os filhos dos Terra e as gerações posteriores nunca viram nada de mais em ter algum tipo de erudição.

Para ver que a civilização dos Sete Povos estava realmente à frente do seu tempo.

E a Luzia era uma mulher da Corte, e foi parar por acidente em Santa Fé. O casamento é a ruína desde o começo. E Bibiana, depois de velha, vira uma espécie de matrona vingativa, ciumenta (não deixa que ninguém corteje Luzia) e obcecada em tomar o Sobrado e a guarda de Licurgo.


Capitão Rodrigo é arquétpico. É uma figuraça. Ele é o tipo de gaucho que não é nem patrão, nem peão, é soldado paisano que luta a soldo de caudilho. Ele era soldado do Bento Gonçalves e entrou na guerra do lado dele, quando Bento Amaral ficou do lado dos legalistas. O curioso é que depois os amarais ficam do lado dos maragatos e os Cambarás do lado dos chimangos.

Mas sua fanfarronice é quase inverossímil: funciona mais como um arquétipo dentro da mitologia particular dos Cambará: gosta de mulheres, jogo, bebida e de morrer peleando. Ele assombraria a saga no Retrato, com Toríbio e Rodrigo que, ao contrário de Ligurgo, a figura parental transitória, têm muitos traços do Capitão. Licurgo, por sinal, é de uma mulher só: Ismália Caré, da morte de Alice até sua morte, na revolução de 23.

Os obscuros Carés também têm o lado obscuro dos Cambará: campeiros, suas mulheres serviam à fúria sexual deles, que tinham elas como seus objetos pessoais no meio do mato.

Momentos inesquecíveis são os diálogos notívagos entre o Padre Lara e o Capitão Rodrigo e a forma como o Erico fala pelo Capitão ao questionar a ordem instituída em Santa Fé e de como o Padre Lara fica do lado do poder por conveniência e por falta de alternativa.


A morte do Capitão Rodrigo sempre me chamou a atenção depois que eu li a Canção dos Nibelungos. Vejo uma relação entre Siegfried e ele, e Kriemhilde e Bibiana, mas bem vago. Eu sei que o Erico conhecia a história, ele cita os Nibelungos pela boca do Dr. Winter.

Os dois morrem meio que num anti-clímax na história eo destino da mulher deles muda a partir dali. Mais ou menos da mesma forma.

A mulher dos dois - Bolivar e Pedro - são más. a de um é comparada pelo Erico com a bruxa da lenda da Salamanca do Jarau e a outra provoca uma tragédia na vida do Pedro da Maia porque trai ele com outro e foge para a Itália.


Bolívar, de temperamento fraco e nervoso por excelência, se deixa morrer num duelo estúpido em parte por conta da rixa dos Terra Cambará com os Amarais, e o outro se mata.

E é curioso traçar correspondência entre Bibiana e Afonso da Maia nas duas histórias, e a relação deles com o lugar onde eles vivem, Afonso o Ramalhete, e Bibiana o Sobrado de Santa Fé, que é um personagem meio prosopopeico no livro.

V


Engraçado que uma professora de semiótica da faculdade me disse, certa feita, que o Erico tinha lido centenas de vezes Os Maias, do Eça. Agora que terminou "A Guerra", eu fiquei pensando que existe alguma ligação entre a segunda parte do Continente com o livro do Eça.

Até porque Bibiana acaba sendo como o Dr Winter analisa (e ele é uma espécie de coro de tragédia grega ao analisar os personagens cinicamente) ela como uma mulher prática. Ela aceita o casamento do Bolivar com uma mulher, a teiniaguá, para retomar o terreno do Pedro Terra em Santa Fé, e depois que o Bolivar morre, ela finca o pé no sobrado e se prende ao neto, Licurgo, a fim de se ficar ao lugar.

Mas a relação com o Eça é que a Bibiana, assim como o Afonso de Maia, ambos têm um filho que morre tragicamente e jovem, e o avô/ó (Afonso e Bibiana) compensam nos netos (Licurgo e Carlos da Maia) a educação que não puderam dar para compensar a personalidade fraca dos filhos (Bolivar e Pedro da Maia).

Licurgo quando cresce depois da guerra do Paraguai vira abolicionista e republicano e naturalmente partidário do Júlio de Castilhos, ou seja, vira um Chimango. E os amarais, sempre legalistas desde os Farrapos, viram maragatos.



VI

O Retrato é a história do neto do Cap. Rodrigo, Dr. Rodrigo Cambará, filho de Licurgo, neto de Bibiana. Ele é o típico filho de estância formado na cidade, cosmopolita e culto, um dândi e playboy bon vivant de fraque numa terra de bugres, que vivem de chilenas, bombachas e mangas de camisa.

Narra o retorno dele à Santa Fé e a sua ascenção como intelectual e agitador cultural na região. Mas como acontece na maioria dos pernagens épicos, ele tem dois lados. O Erico não perdoa nenhum personagem. A Bibiana, coitada, de tão obstinada e calculista depois de velha, ficou gagá.

A história vai de 1910 a 1915, começa na campanha civilista onde o Rodrigo se coloca contra Hermes da Fonseca e Pinheiro Machado. Licurgo já se desiludiu com o governo. Rodrigo tenta combater o borgismo e Hermes na cidade, vira um herói, um príncipe, um apolo narsísico e sanguíneo mas é um homem controverso, não foge ao sangue totalmente passional e impetuoso do avô.

Termina na morte do Pinheiro Machado. Mas tem um outro evento paralelo no desfecho (relacionado à Rodrigo) que é chocante. Genial demais. Erico usa o recurso de fluxo de consciência para mostrar a confusão mental de nosso herói, flagrado de forma trágica em mais uma aventura donjuanesca...


A música tema do jovem Rodrigo: Loin Du Bal

O Retrato começa e o Arquipélago termina em 1945 no intermezzo Retrato de Família (onde o lado psicológico é plenamente explorado, junto com o histórico), quando Rodrigo, já velho, é apeado do poder com a queda de Vargas, e termina seus dias condenado num quarto do Sobrado, cercado de seus amigos Liroca, Tenente Prates e Tio Bicho, analisando a Era Vargas.

No fim aparece Floriano, que é um alterego do Erico, totalmente. O último capítulo, narrado no foco de Floriano, é o Erico autobiografado, falando sobre o problema do escritor intelectual naquele momento histórico, de ser ou não engajado politicamente. Ele se explica (Floriano-Erico) com a sua data venia neutra.

Floriano é o Erico pacifista e o Erico escritor, se confrontando com o seu papel como escritor, do exercício da escrita e da forma como o intelectual que, na sua época, se não tivesse opção política ou não escolhesse entre preto ou branco, acabava sendo marginalizado ou taxado de alienado.

Ou, ser escritor num momento histórico em que era preciso tomar partido de alguma causa, qualquer que ela fosse.


O diferencial é que, ao contrário do Continente, o Retrato (e, principalmente o Arquipélago) não tem a mesma linguagem. É livrescamente bem mais 'urbanizado', como eu devo ter dito antes, evoca o estilo do Eça. E é um romance histórico. E, ao mesmo tempo, a própria linguagem utilizada por Verissimo se "moderniza".

No Continente, em alguns momentos, o tempo é sugerido, como em Ana Terra, a passagem do tempo é vaga. E no primeiro livro se vão 200 anos. No Retrato e no Arquipélago, são apenas 50 anos.


VII

A técnica narrativa do Erico é convencional às vezes, mas é requintada. É de grifar (como eu faço) palavras, frases, descrições de ambiente.

O delírio final do Rodrigo Cambará no Angico (fim de A Sombra do Anjo) é genial, o Erico utiliza uma técnica de fluxo de consciência que não é nada convencional, pelo menos, não esperava isso do Erico.

Interessante traçar a diferença entre Rodrigo e Toríbio, um urbanizado e o outro, campeiro, e depois Floriano e Eduardo, um escritor e o outro, comunista ferrenho, e os embates ideológicos.

Aliás, o Erico mete política o tempo todo nos diálogos, recheia o livro com momentos desse tipo.

Tem uma hora em que o Pinheiro Machado chega à Santa Fé e tenta convencer o Rodrigo a voltar ao PRR para se candidatar à deputado. No fim, ele rompe com o senador, no mesmo momento em que ele é assassinado no Rio, em 1915. Dá para ter a noção da importância do senador (que era conterrâneo do Erico) na vida pública brasileira na República Velha.

O curioso é que, a despeito do Continente, a parte da triologia que eu queria chegar era justamente o Arquipélago.

Acho que o Dr. Rodrigo Cambará é o grande personagem do livro. O Retrato é uma preparação para a aventuira política dele no Arquipélago e eu estou abismado. É genial como o Erico mostra como era a vida político-boêmia-intelectual-cultural de Porto Alegre e do Estado nos anos 10, 20 e 30.

Tem uma cena no Clube dos Caçadores, um famoso cabaré que existia aqui no Centro, que é totalmente noir.

O estilo dele no Arquipélago é bem mais apurado e conciso, e ele cuida de colocar elementos relacionados aos livros anteriores.

Em parte tem a saga política do Rodrigo, de castilhista até a Reação Republicana (ele apoiava o civilismo do Rui no Retrato, depois entrou no PRR a pedido do Sen. Pinheiro Machado e depois, com a crise de 1922 (Cartas falsas, 18 do Forte), ela passa apoiar a Reação Republicana apoiando o Nilo Peçanha e depois naturalmente o Assis Brasil contra o Borges.

E o livro mostra bem o que eram aqueles anos políticos aqui no Estado: conturbados e violentos, ainda vivendo o racha de 93, que só acabaria quando pica-paus e maragatos se uniram contra Washington Luís, na Aliança Liberal.

VIII

Mas o Arquipélago valeria só pelo Caderno de Pauta Simples. O Erico recriou aquele interlúdio poético entre os capítulos como esboços do Floriano, que também são arroubos de literatura "moderna" em Erico, que enfeixa o romance de forma inteligente ao usar ou de uma linguagem poética e figurativa dentro do seu respectivo contexto ao capítulo temático quando o diário de Sílvia, um beethoviniano e fulgurante scherzo quase no fim da sinfonia monumental que é o Tempo e o Vento, e que se liga triunfalmente à coda, o capítulo Encruzilhada.

No Retrato, Rodrigo Cambará volta apeado do poder em 45 e todos comentam sobre ele, de forma dividida. Dali começa a saga dele, no primeiro arquipélago, ele sai do PRR para se bater contra os chimangos.

Assim como no Cointinente os intermezzi da história é a resistência contra os maragatos no Sobrado, no Arquipélago é a agonia do Rodrigo Cambará e a relação dele com os filhos e o sobrinho (filho do Toríbio). É um romance ostensivamente psicológico.

Rodrigo é acusado de defender um continuismo que ele criticava em Borges e achava natural em Getúlio Vargas, já que ele era seu comensal, e usou dessa posição para se tornar o Duque de Mântua do Estado Novo, em sua vida de pândego na Capital Federal do tempo dos cassinos.

O engraçado é que o filho do Toríbio virou padre; e o romance, à mediDa em que muda de tempo cronologicamente, muda a própria linguagem.

O arquipélago é uma tese do Floriano-Erico para explicar a relação entre solidão agregamento das pessoas; do ponto de vista metafórico, pois, o 'Continente' é o todo, é a consolidação, a planificação, a solidificação; o 'Arquipélago' é a fragmentação humana e a nostalgia do coletivo — tanto em sociedade quanto dentro do próprio núcleo familiar.

Floriano é uma ilha, tentando unir sua família que se fragmentara pela intempérie e a clivagem do tempo.


Floriano evoca sua amada Sílvia ao ouvir o quinteto para clarineta de Brahms


Nos debates, é possível ver a posição do Verissmo em Floriano e em como ele sofria com o fato de ser escritor e permanecer humanista neutro contra o sectarismo à gaúcha que ele acusa no livro. De você se vender por uma causa apenas por não ter uma causa e ter a nostalgia de estar agregado a alguma causa.

O capítulo do Caderno sobre a irmã morta dele é um dos momentos mais fantásticos/comoventes do livro. Tanto o fim do Arquipélago 1 quanto o do Retrato 2, quando Floriano faz a sua profissão-de-fé pela primeira vez na obra.

Curioso é que um Caré lutou na Força Expedicionária Brasileira e vitrou mártir, neto do Cap. Licurgo. Só o Erico mesmo.

Eu queria que Santa Fé existisse. Nem que fosse para tomar uma cerveja gelada no Ponche Verde ou na Confeitaria Schintzler e ir a um baile no Municipal!

IX

No Solo de Clarineta o Erico diz que o Fandango é inspirado num tio dele que quebrou um disco dele santando em cima sem querer.

O Erico teve um insight. De que aquela gente, depois de 200 anos peleando pela formação do Rio Grande NÃO TEVE TEMPO PARA SE CIVILIZAR.

Luiza Silva é um exemplo: ela foi transformada em louca, mas ela não fez NADA. Era uma mulher cosmopolita diante de um bando de retacos.

O mote do Tempo e o Vento é isso: o choque cultural entre o regionalismo tacanho e o cosmopolitismo. Mesmo político, o Licurgo defendeu as teses republicanas mas era um tosco. Rodrigo Cambará é o primeiro intelectual da família, letrado mas com o ATAVISMO de ser um Cambará. Rodrigo, que mesmo detestando Sigmund Freud e "aquele pessoal de Viena", diz ao seu filho mais velho: "deixe o Cambará sair de dentro de você!". E ele sai, para surpresa de seu pai, que tanto o subestimou.

Floriano é outra pessoa, sofre pelo fato de ser intelectual sem ser engajado, mas é o Erico, o homem que lutou para transformar seu ofício não apenas em profissão, mas como meio de sustento. E nas críticas aos livros de Floriano em O Tempo e o Vento, transparece um reflexo no espelho de Erico, que era também subestimado ou acusado de superficialóide ou de pequeno burguês em alguns romances de formação.

O curioso são os personagens que são antítéticos. Dr Winter questiona o status quo de Santa Fé. Tio Bicho também, em sua verrina cáustica e quase sempre certeira, o castelhano que pintou o Retrato, Don Pepe; é o olhar estrangeiro naquela horda de castiços.

O Erico, em 61, mostra exatamente isso que tu disseste, aqui sempre foi um preto contra o branco, mesmo sem convicção, mas de forma compulsória. E eles nem defendiam o RS, cumpriam ordens de um caudilho. E Erico demonstra isso nos embates platônico-ideológicos ao longo do Arquipélago. O Gaúcho tem suas virtudes, seus mitos, mas tem os seus defeitos.

Voltando ao Continente, apesar de ser mulher e de não er "importância" na família de então, Ana Terra mais forte do que todos os homens so porque viu a hipocrisia em que ela e a sua mãe se submetiam, sobreviveu ao massacre dos Terra por amor ao seu filho com Pedro Missioneiro e agiu de forma brilhantemente agregadora ao se sacrificar por ele e pela cunhada, nem o Velho Testamento imaginaria algo assim. Ela foi muito mais forte e sábia (e lúcida) do que seus irmãos em perpetuar a sua linhagem. Mas nenhum deles poderia fugir ao seu destino trágico.

Por isso, prá mim, é uma das personagens maisa geniais de toda a literatura brasieira. Ela treve a lucidez, o insight que eles nãoi teriam, a despeito de serem os homens, eram personagens inferiores.

Aliás, o Erico salienta isso — de que quem agrega são as mulheres, os honens desagragam, não inconstantes.

A fortaleza da forma como o lado feminino é "continente" na história no sentido de agregação, de prudência, de paciência, nós vemos em Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria, de certa forma em Flora (que não é durona como elas) e finalmente Sílivia, que aceita o papel depois de consultar sua consciência — não sem a ajuda do Irmão Toríbio, filho do velho Toríbio que, ao invés de sair putanheiro, virou um discreto padre marista.

X

No começo de O Retrato, a história começa com o retorno de Rodrigo apeado do poder central, em 45. Todos se dividem em atacá-lo ou defendê-lo, mas ele não aparece. É o prelúdio...

Passa todo o Retrato contando a sua hisrória depois de cirar doutor até a morte do Pinheiro Machado, em 1915. E toda a sua repercussão, de como ele era influente, amado ou temido. Aliás, eventos históticos permeiam Santa Fé. O assassinato do homem forte da República Velha se alastra como um câncer pela cidade. E a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial provoca uma pancadaria no Ponche Verde, bar então gerenciado por alemães durante aquele interregno.

O Arquipélago começa e é entremeado em 45, com Rodrigo agora como personagem principal, como num acerto de contas com a família e suas divergências com os filhos, Jango, Eduardo e Floriano.

Esse trecho equivaleria no Continente como O Sobrado, e os trechos de poesia em prosa reaparecem como o Caderno de Pauta Simples.

Num debate entre pai e filhos, vem a tese do Floriano que explica as expressões Continente e Arquipélago. O primeiro é a consolidação e o segundo a fragmentação e a nostalgia inconsciente psicologico-sociológico do sentido de solificação: individual, social.

Termina em 23, quando Borges vence a eleição fraudando-a e começa a Revolução (que vai até 28).

XI

Tia Maria Valéria é muito engraçada, ela rouba a cena, ele singra todo o Tempo eo Vento, ele conquista o leitor — mesmo sem ser a personagem preferida nem deles, nem especificamente de Verissimo. Ela chama o Dr. Bandeira de Tio Bicho e o Arão Stein, o folclórico amigo comunista do Rodrigo de "João Felpudo", porque ele tem ares de janota. Eu morro de rir quando ela chama eles desse jeito.

E o sogro do Rodrigo, Babalo, também é uma figuraça, é mais pachorrento do que eu. Mas é o homem mais virtuoso de todos, em sua calma e discernimento, também sabe roubar a cena à sua maneira. É um homem preso à terra, dado seu passado de tropeiro, mas não é um sujeito obcecado pelo campo, como Toríbio ou Jango, ele tem uma visão menos patriarcalista e mais ligada ao afeto à família e aos seus.

Tio Bicho, sobre a Dinda: "lá vai a Pucela de Santa Fé com a sua vela na mão como um farol ambulante".

Um dia, Flora flagrou a velha falando sozinha enquanto dava corda no relógio do Sobrado. Perguntou: Ué, Dinda, falando sozinha?". Sem se virar, D. Maria Valéria: "estou conversando com os meus mortos". A Dinda fala que existe tempo prá tudo: tempo de plantar, tempo de colher, tempo de guerra, tempo de fazer pessegada...

Um dia, já cega pela catarata, ela disse à Sílvia: "acho que o relógio esqueceu do meu tempo de morrer".

O fascinante é que ela não "morre": Percorre todos os livros com sua vela na mão, vendo se todas as janelas do Sobrado estão bem fechadas, antes de dormir.

Liroca também: ele é eterno no Tempo e o Vento. E ela é o seu amor não correspondido. Curioso, não? Prá mim, são personagens subestimados, porque todos se lembram apenas dos do Continente...

XII

Li Lenço Encarnado (O Arquipélago 2) com uma paixão que nem quando eu tinha quinze e lia Mark Twain e Walter Scott eu me emocionava.

As cenas de combate da Revolução de 23, com a quixotesca coluna revolucionária do Cel. Licurgo são geniais, exceto a heróica, quixotesca e malograda tomada de Santa Fé.

O Erico foi de uma crueza de detalhes de morte, sangue e violência que ele sublimou em todo o Continente, em 35 e 93. A guerra sempre passa longe na primeira parte da trilogia.

Mas 23 virou um épico. Lia no ônibus a tentativa de invasão da Intendência, fiquei o dia todo com as cenas na mente.

No cap 33, que narrativa genial, o ginete do Angico que o Rodrigo sempre4 detestou salva ele de uma emboscada onbde 10 cavalarianos estavam atraindo a coluna para uma tropa de 500 provisórios para matá-los, o Rodrigo cai do cavalo morto (o cavalo), Pedro Vacariano chega, salva ele, põe o homem no seu cavalo e apeia, quando Rodrigo chama-o, o ginete esporeia o cavalo e faz cobertura para a fuga.

Depois eles se deparam com o cadáver do homem, varado de balas.

A Revolução de 23 era estranha, os assisistas queriam derrubar o Borges de Medeiros com lanças do tempo dos Farrapos. Muitos não tinham experiência militar e o Exército estava neutro.

Restavam piquetes de caudilhos, como Honório Lemes, que sobrevivia sem munição comparado com a Brigada do governo, que tinha a famosa Hotkiss, uma matraca. Era a guerra da metralhadora contra a lança. Chimangada dava tiro e os maragatos se escondiam em matas e capões, como se fugissem da Mboitatá.

A tomada frustrada de Santa Fé foi provavelmente inspirada na de Uruguaiana, na fronteira oeste, onde houve a famosa briga de gato e rato do Flores da Cunha com o Honório Lemes.

O sogro do Rodrigo (Aderbal Quadros, o velho e poético Babalo) lia os jornais oposicionistas louvando os feitos do Leão do Caverá como se o homem fosse um Aquiles dos pampas. E até hoje ele é.

O lado romance histórico dessa parte é fantástica, não se compara ao Continente. E o Erico descreve o Flores e o Honório de forma fiel, descreve até a moprte do Adão Latorre, o degolador maragato de 83, que pegou em armas ali com mais de 80 anos e morreu naquele combate na ponte sobre o Ibirapuitã.

Ali que nasceria o mito dos então caudilhos "provisórios" (lenços verdes) Flores e o Oswaldo Aranha. O primeiro depois ficaria contra Getúlio Vargas e o segundo seria o antípoda de Rodrigo Cambará como o homem de República (segundo Floriano).


XIII


Um Certo Capitão Toríbio é genial, boa parte pega a Coluna Prestes e o Toríbio marcha com o Prestes e o João Alberto, o Siqueira Campos e todos aqueles que itriam virar tenentes interventores depois de 30.

Mas o interessante é que o Toríbio é inspirado no tio do Erico, o Nestor Verissimo, que realmente marchou pelo Brasil com a Coluna que foi a única que resistiu às sublevações militares de 24. E descreve como foi a refrega épica de subir até o topo do Nordeste e depois o Nestor de fato escapou milagrosamente de ser morto num pelotão quando foram presos (eles foram presos porque eram do piquete de vanguarda, mas, como se sabe, a Coluna nunca caiu e fugiu pela Bolívia).


Mas, na história, o Toríbio escapa porque um milico reconhece ele como irmão do Rodrigo Cambará, que havia lhe salvo a vida em Santa Fé quando ele sentou praça lá anos antes. É um final de Júlio Verne de surpreendente, porque em parte vai de relatos externos, depois vira uma narrativa epistolar, e depois o Toríbio já no Sobrado conta as histórias de combate, em situações de total miséria e famelidade em que eles sobreviveram.

E a Coluna não era diferente das que os maragatos faziam para fugir da chimangada do Borges em 23, só que ela era muito maior e sem destino pelo Brasil.



Terminei hoje: História termina como começa: o autor é o Floriano, ele se reconcilia com o pai dele, que morre logo depois, e com Sílvia, com quem ele descobre que ela, assim como todas as 'grandes' mulheres da história, resignam ao seu papel de entidades que representam a manutenção do lar, quando ela finalmente se descobre grávida.

Aliás, é a cena mais triste quando Floriano se dá conta que é tarde demais para ele e Sílvia. Ele chega de noite no Sobrado e ouve os passos de Maria Valéria, e diz: "O Sobrado está vivo!". É o finale do Gotterdamerung do Verissimo.

Menção honrosa ao machadiano Tio Bicho, o Falstaff do livro. A cena do velório do Arão onde todo mundo vela o corpo bebendo cachaça é antológica.


Meu avô ia se orgulhar do meu feito: sete livros do Erico em três meses! No fim, eu olho para a pilha de livros ao meu lado como se a história fosse um pouco minha, e um pouco nossa: de todos nós que nascemos aqui. É a nossa bíblia secular.

Vou sentir saudades do tempo em que atravessei os sete volumes da trilogia. Principalmente de trechos como:

"Vassuncê se lembra do Monarca, o meu bragado? Pois tive a noite passada um sonho esquisito com ele. Sonhei que ele estava num potreiro muito grande e de repente vi o Monarca saindo do meio duma cerração. Estava bem aperado e faceiro, sacudindo a cabeça, fazendo sinais prá mim assim como querando dizer: "vim te buscar. Vamos embora". E vassuncê sabe duma coisa? Fiquei contente quando comprendi que o bragado ia me levar pro outro mundo. De repente não senti mais dor nesse peito nem frio nem tristeza nem nada. Tudo era como nos tempos de dantes. Montei no animal e entramos a trote na cerração..."

Thursday, February 17, 2011

O Pacto


O Chimango

Borges de Medeiros governou o Rio Grande por longos vinte e cinco anos. No entanto, pouco ou nada se sabe em matéria de anedótico do velho Presidente do Estado, que governou fraudando eleições à bico de pena de 1897 a 1907 e de 1912 a 1928.

Lacônico, discreto. Tido como mais fundo e fechado que baú de solteirona, Borges não era o tipo fanfarrão. A única história do Velho Chimango que entrou para os anais do folclore político ocorreu com um grande desafeto seu, o mineiro Arthur Bernardes.


Como se sabe, Borges apoiou Nilo Peçanha à Presidência em 1922, ou seja, contra Arthur. Mais tarde, a Revolução de 23 os indispôs novamente. Os maragatos forçaram uma guerra de guerrilhas no estado exigindo a intervenção federal no Rio Grande depois de outra eleição roubada.

Com o Pacto de Pedras Altas, mediante Bernardes, ocorreu a reforma da Carta de 91, impedindo o Chimango de concorrer em 28.

Por uma curiosa ironia do destino, os dois inimigos estavam na mesma trincheira quando Borges apoiou os paulistas em 32. A revolução não vingou: os dois conspiradores foram presos em Recife.

Foram obrigados a conviver na mesma cadeia. Não se falavam. Depois de muito insistir, outros presos conseguiram reconciliá-los. Os dois toparam. No entanto, havia um pacto entre ambos. Eles poderiam falar de qualquer coisa, menos de política.

E assim se deu, falavam de culinária, botânica, numismática, epicurismo, estoicismo, futebol, tomismo, escatologia, literatura, pintura pré-rafaelita, tudo, menos política.


Durante um vago e pachorrento café da manhã, estavam os dois calados, fazendo a ceia. Para quebrar o silêncio, Bernardes sorveu o último gole de café, depois raspou o açúcar que ficou no fundo da xícara e lambeu a colherinha adoçada distraidamente como se fosse um Chica Bon. Suspirou fundo, olhou para uma rachadura no teto e tentando puxar assunto, falou:

— Me lembro que, em 24...

Borges se exasperou. Pôs os olhos acusadores num surpreso Bernardes, afastou a xícara para o meio da mesa e disse:


— O senhor rompeu o pacto. Disse que não ia falar em política. Pois bem. Passe bem.

Depôs o gardanapo na mesa e foi embora.

Monday, February 14, 2011

Obrigado, Ronaldo

Eu acordava lá pelas cinco e meia da manhã, fazia o chimarrão; enquanto ficava soturno no escuro esquentando a chaleira, da sala olhava a janela, como um fantasma.

Do fim da quadra, lá vinha aquele homem, um cinquentão baixo e curvado. Desengonçado e janota, seus braços pareciam não corresponder com o ritmo dos passos e do corpo; coroava-lhe a cabeça grande um tufo de cabelos brancos ralos.

O carão cor de cuia revelava alguma raiz fronteiriça. Carregava um fardo descomunal de papel às costas, enfeixados por uma lona amarela e caminhava curtas passadas bamboleantes, como se subisse uma ladeira imaginária.

Então eu descia as esdadas de chinelo e ia até a caixa de correios do prédio: era a hora do jornaleiro chegar.

Achava engraçado quando ele metia o jornal quentinho nas caixas de correspondência, alguém chacoalhava as janelas, como se suspeitando de algum salteador noturno. Ato reflexo, sem parar seus movimentos, dizia: "não é ninguém, é o jornaleiro!".

Fazia isso sempre. Um dia, eu lhe interroguei:

— Como assim, você não é ninguém?

Ele riu e explicou o caso. Sempre que uma voz de dentro de alguma casa perguntava, ele dizia: "não é ninguém, é o jornaleiro". Eu repliquei: "mas qual é o seu nome?". Ele: "eu me chamo Ronaldo".

E foi embora.

Outro dia que falei com ele não quis detê-lo (ele é uma pessoa muito ocupada, como todos), contudo lhe fiz uma revelação: eu também já havia sido jornaleiro. Disse-lhe no entanto que de jornal de bairro. Trabalhei enquanto a pequena publicação durou; distribuía exemplares pelo Moinhos de Vento e em Petrópolis. Era cansativo, mas era heróico. Eu era estudante de jornalismo e era jovem!

Bons tempos em que a gente enchia um carro de jornais recém saídos do Expresso Caxiense, na Rodoviária e levava a carga para algum ponto do bairro.

(um parêntese: além de jornaleiros, nosso grupo de entregadores eram os próprios redatores e editores, entre aspas. Coisa de juvenília, de tempos de quando éramos estudantes idealistas, mas isso já passou.)

Nos separávamos cada um com um fardo e, sem nenhum método, íamos colocando os exemplares embaixo de portas, em caixas de correio ou na escrivaninha de porteiros perplexos (muitos ou não aceitavam ou queriam que a gente colocasse os jornalecos em caixas de correspondência, porém em edifícios com mais de quarenta apartamentos, imaginem!).

Era exaustivo e insalubre — principalmente sob o frio do Inverno gaúcho. Porém, no fim do "expediente", terminavávamos o serviço bebendo cerveja uruguaia no posto de conveniência da rótula da Protásio (antes da Prefeitura construir aquele viaduto medonho).

E mais: eu me julgava importante. Achava que estava fazendo a minha parte para a humanidade em realizar aquele trabalho de Sísifo. Os jornais estariam cedo na casa dos leitores, e eles iam ler as minhas matérias...

Eu me julgava importante. E aquele pobre homem, que nem se dignava a dizer o nome, não dava a mínima: apenas queria terminar o serviço e voltar para casa. E quando lhe perguntavam quem era, ele dizia:

— Não é ninguém, dona, é o jornaleiro.

Mas ele era um homem, tinha dignidade e um nome: Ronaldo. Ele me entregou o jornal, plastificado. Fez menção de seguir seu caminho na madrugada. Então se despediu:

— Obrigado, moço.

E eu lhe respondi:

— Obrigado, Ronaldo.

E lá foi ele assobiando algo sem melodia.

Saturday, February 12, 2011

Dr. Sarmento e o Discurso

Nome de rua no Centro de Porto Alegre, cirurgião e anatomista, o Dr. Eduardo Sarmento Leite foi o patriarca da Arte Médica aqui no Rio Grande do Sul. Fundou a Escola de Medicina de Porto Alegre, hoje a Faculdade, plenamente integrada à UFRGS, onde foi diretor por mais de trinta anos (não ininterruptos).

Além de sua importância histórica na cultura médica e no ensino no primeiro quartel do Século XX, Sarmento era conhecido por seu lado folclórico. A história do discurso ilustra bem esse lado do nobre catedrático.

Quando ele foi nomeado Diretor de Higiene do Estado (o que equivale hoje ao posto de Secretário da Saúde), foi então convidado — junto com o então Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, Dom João Becker, para fazer o discurso de inauguração do Sanatório Belém.

Contudo, antes dele, o cerimonial colocou para discursar o arcebispo. Empolado, Dom João aproveitou o insigne momento para mostrar seus dotes de cientista secular. Com sublime edudição, começou a dizer.

— Mycobacterium tuberculosis, ou bacilo de Koch, é a bactéria que provoca a maioria dos casos de tuberculose. Foi descrita pela primeira vez em 24 de março de 1882 por Robert Koch, que subsequentemente recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia por esta descoberta em 1905...

Surpreso, Dr. Sarmento notou que o santo homem começou a falar um discurso pachorrento e mais longo que xingamento de gago, versando justamente sobre a sua pauta: o problema da tísica e a evolução dos estudos sobre a Mycobacterium tuberculosis.

Pois quando justamente o clérigo fechou o bico, Dr Sarmento, que era a maior autoridade do assunto discorrido foi finalmente dar a sua preghiera.

Alçou a fronte, pigarreou, e disse:


— Meus amigos e senhores presentes, eu ia discurar aqui hoje. Mas eu não vou discursar. A razão é muito simples: o que eu poderia humildemente discorrer nesse momento foi dito, e foi magnificamente colocado pelo nosso glorioso, digo, a Sua santidade e excelentíssimo reverendíssimo santo padre. Só me resta é dar as bênçãos celestiais à essa nova instituição e pedir que todos nós, agora, nesse momento, rezemos um Padre Nosso. Combinado? vamos lá, todo mundo.

E, abrindo os braços, completou:

— Ora façamos o sinal da cruz: em nome do Pai, do Filho, Espírito Santo, Amém, Padre Nosso que estás no Céu, santificado seja o vosso nome...

O Rei se Diverte

Estava a ouvir o Rigoletto, do Verdi. Quem leu À sombra das Chuteiras Imortais, do Nelson Rodrigues, deve se lembrar de uma expressão recorrente nas célebres crônicas esportivas do escritor pernambucano: "Fazia um mau tempo de quinto ato do Rigoletto".

Ora, prá quem não sabe, a expressão é um delírio literário do Nelson. Não existe nem mau tempo na ópera e muito menos um quinto ato.

Vocês naturalmente conhecem a ária mais famosa, o La Donna É Mobile. O que vocês não sabem — acho eu, é que a ópera romântica tinha um papel na sociedade do começo do Século XIX, dado a sua popularização quando ao papel preponderante das casas de música na sociedade burguesa do Romantismo.


Ou seja, um operista como Verdi compunha uma ópera como quem hoje produz um longa-metragem.

Por exemplo, Rigoletto é, na verdade, uma adaptação do Rei se Diverte, do Victor Hugo. A peça foi um fracasso porque muitos acharam que ela fosse uma afronta ao rei francês Luis Felipe. a peça foi banida.

Verdi como perista tinha que entregar o libreto para a Censura, que na época era austríaca no norte da Itália (que não era ainda unificada). E a Igreja ia cair em cima.

A peça é um retrato sem retoques do hedonismo espúrio da corte francesa do rei Felipe I (e não Luís Felipe).

a história mastra uma corte corrompida numa vida de fofocas, de prevaricação e gente podre. E a cirte gira em torno de um bufão, Treboulet, que Verdi passou a chamá-lo Rigoletto.



Ele é um sujeito mais podre por dentro do que por fora. Sempre procura algo ou alguém para descontar o fato de que ele é feio e corcurda. A corte real é uma alcatéia de títeres onde ele a todos maneja, sem escrúpulos.

O libreto do Piave, seguindo conselhor do Verdi, que não queria deixar de adaptar a peça do Hugo, teve a habilidade de mudar a ação no tempo e no espço: Rogoletto se passa, então, na Itália do século XVI, em Mântua. O título original, A Maldição, foi também mudado para evitar problemas com a Igreja, que o acusaria de usar uma expressão funesta.

Ou seja, a quaztro mãos, eles habilmente mudaram a história mas não mudaram a essência.

Verdi soube também caracterizar os dois oponentes, o Duque, o canalha, e Rogoletto, o seu oponente. A música é leve para contrastar com o enredo sombrio e de final trágico.

Rogeletto é mais feio por dentro do que por fora, mas tem uma bela filha (bella figlia del amore). O Duque então, fantasiado de estudante, a seduz, por pura crueldade. Ela é raptada, o bufão consegue resgatá-la. Mas planeja matar o Duque e encomenda um matador de aluguel...

Mas a coisa não termina como ele esperava. O matador resolve matar o primeiro que ver na frente e não sabe que Gilda, travestida de homem para fugir de seus malfeitores, procura Rigoletto. O homem joga o cadáver da garota num saco.

Quando Rigoletto vai tirar o corpo do "Duque" do saco para finalmente jogar o cadáver num rio, ouve o próprio Duque a cantar e se saracotear a sua La Donna É Mobile. Então se depara com Gilda morta em seus braços.

Se Hugo teve problemas com sua peça, Verdi conheceu amplo sucesso mundial, a partir de 1851. É, com efeito, sua obra mais representada de todos os tempos.


Agora silêncio e parem de apupar, porque a orquestra vai tocar.

Desculpem o spoiler.


Thursday, February 10, 2011

I Walk the Line


Cash


Ouçam isso:




O country nasceu com o disco, lá nos anos 50, com o Hank Williams. Esse vídeo é uma brincadeira da minha parte, porque o Lovin' Spoonful lançou essa canção cogitando chegar no topo da Billbord Country, e não chegou. Na verdade, se a gente pensar, o country rock só iria aparecer depois dos Eagles. Ou seja, qualquer arremedo nesse sentido era mero arremedo.

Nos anos 50 o country virou uma espécie de estilo entronizado por Nashville, capitaneado por um programa de rádio, o Grand Ole Opry.

Aquilo virou tipo um paradigma parecido com o cetegismo aqui no Rio Grande do Sul. Mas como existem os mitos, existem os iconoclastas. E um deles é o Johnny Cash.

O Johnny Cash pagaria um preço alto por se pôr de frente ao country de Nashville, mas o Johnny Cash era o Johnny Cash.

A missão do Johnny Cash era acabar com o ranço pueril do country de Nashville e botar rock na coisa toda.

O Cash foi o cara que pôs rock no country, ele e o Gram Parsons. Aliás, a postura punk do Cash em mandar tudo à merda é além do country. O Cash foi um dos caras a mostrar que um gênero musical pode transcender a si. Um exemplo é a própria versão de Darlin' Companion do Johnny Cash do Lovin' Spoonful:

Friday, February 04, 2011

Un patacone bucato

Dia desses, eu ouvi uma história de um gaudério que tomava café no boteco dos motoristas, aqui na Rodoviária de Porto Alegre.

O boteco dos motoristas é aquele que fica defronte ao setor de desembarque, e que vende um pastel e um copo de suco de laranja a R$ 1,50. O gaúcho estava solenemente pilhchado e escorado no balcão, equilibrando a mala de garupa à tiracolo enquanto soprava o cefezinho num daqueles copinhos de cachaça.

Baixo, voz estrídula, metido em largas bombachas gris, chapéu de barbicacho, botas de sanfona com grandes chilenas. Parecia forçar o sotaque e de vez em quando soltava um "chô mico". Fazia menção de sorver um gole, assoprava a bebida e punha o copinho de volta no balcão. E falava pelos cotovelos.

Então ele contou a história de um bandoleiro que era o terror de Uruguaiana, o Black Jack da fronteira, em priscas eras. "Pues vacês já ouviram falar do Zé Viau?". quando todos mugiram um distraído "não" em uníssono, ele começou:

— O Viau era um filho de china com estrangeiro. Desgarrado, com quinze anos, o diacho já havia matado um homem. Com vinte, ele já tinha umas sete mortes no lombo. Um dia, ele matou uma figura importante em Uruguaiana. Acabou se bandeando para os lados da Argentina — disse. — Os parentes do tal figurão da cidade então juraram vingança: não iriam descansar enquanto não metessem o tal Zé Viau numa cova rasa.

Deu um gole (o primeiro) no café. Levou o copo em riste, apontando giratoriamente para todos que o circundavam:

— Pues vacês não sabem que quando a gente coloca uma moeda furada na boca de um defunto que foi assassinado, o facínora acaba voltando ao lugar onde ele cometeu o crime? Sabem?

— Não — disse um motorista da Planalto Itaqui-Porto Alegre, com a vista turva de olheiras de mais de oito horas de viagem já meio arregalada.

— Pues então — continuou o gaúcho — puseram um patacão furado na língua do morto (uns 900 réis, mais ou menos). Cerca de dois meses depois, não é que o Zé Viau apareceu num bolicho lá de Uruguaiana? O dono do bolicho gelou. Cerrou os punhos e suou frio, como se estivesse diante do Abominável Homem das Neves. Não conseguia balbuciar palavra.

— Vacê tá vendo algum fantasma, patrício? — quis saber o Black Jack da fronteira.

Todo cagado, o bolicheiro contou a tal história do patacão furado na boca do defunto.

— O quê? — empertigou-se o facínora, que tirou o pito da boca, cuspiu no chão entre as botas embarradas e tornou a olhar nos olhos do bolicheiro que, àquela altura, estava com a cara branca como quiejo caseiro. — Vacê tá querendo me dizer que enterraram aquele sarnento com uma pataca na goela?

O bolicheiro fez um "sim" com a cabeça, olhos arregalados e a boca aberta de pavor.

— Me espere — respondeu Zé Viau.

E foi embora.

Uma hora depois, o facínora voltou. Chegou até o balcão, meteu a mão no bolso e, com violência, espalmou a mão na mesa. recolheu o braço, olhou para o bolicheiro, apontou para uma moeda furada em cima do balcão e disse, depois de um silêncio que sustentava olhando nos olhos do perplexo atendente do estabelecimento:

— Me vê um patacão de cachaça, patrício.

O bolicheiro desmaiou.


Se non é vero...






—

Thursday, February 03, 2011

Deixa Cair

O homem Wilson Simonal sempre será um cara controverso. Ele é amado e odiado da mesma maneira. Já com relação ao intérprete Simonal, ele foi insuperável. O primeiro partiu para sempre; o segundo ainda existe no sulco dos discos.

O artista Simonal era o cara. Como disse Ruy Castro no Chega de Saudade: uma voz excelente, senso de divisão igual aos melhores cantores americanos e uma capacidade de fazer gato e sapato do ritmo, sem se afastar da melodia ou sem apelar para os "scats fáceis que eram a especialidade de Leny Andrade (que, como Wilson, era cria de Lenny Dale no Beco das Garrafas).

No começo, influenciado pelo Carlos Imperial, ele cantava cha-cha-chás (aliás, o Imperial fez o mesmo com o coitado do Roberto Carlos). Quem o levou para a Bossa Nova foi justamente Ronaldo Bôscoli, que foi responsável por lhe franquear um repertório excelente, que ia da Ela Vai Ela Vem até Lobo Bobo (melhor que ele cantando isso, só o próprio João Gilberto).

"Naquela fase", diz Castro, "ele era capaz de encaixar as bossas mais surpreendentes num tema e torná-la irresistível. Mas, só quando as bossas passaram a ser importantes em seu estilo, Simonal ficou repetitivo e voltou à esfera de Carlos Imperial.

Em 66, ele estava cantando "Mamãe Passou Açúcar Ni Mim". Em 71, ele regeu — com um dedo só — 15 mil pessoas no Maracanazinho ao som de uma (...) apropriação de Imperial, "Meu Limão, Meu Limoeiro".


Num certo dia dos anos 70, o Caboco Mamadô relegou o intrépido Wilson Simonal ao ostracismo musical. Acabou saindo do palco para virar um fait-divers, um arquétipo do artista perseguido como o Jean Valjean do Beco das Garrafas por honra e glória das patrulhas ideológicas. Como diz o autor do Chega de Saudade, Simonal foi exclúido do meio musical. Mas não pode ser expulso da história da Bossa Nova.


Esse vídeo dele com a Sarah Vaughan é um testemunho disso: Wilson canta de igual para igual com a diva do jazz.

Saturday, January 22, 2011

O Caso Dreyfus e o espírito de manada


O livro

Esses dias eu estava pesquisando sobre o Caso Dreyfus e, eis que de repente, me caiu nas mãos um livro excelente sobre o episódio. É "O Caso Dreyfus: Ilha do Diabo, Guantánamo e o Pesadelo da História" (Companhia das Letras, Louis Begley, 232 págs., R$ 45).

A história é conhecida, porém não muito conhecida por todos. A idéia de Begley foi fazer o que todo jornalista faria para rerquentar um assunto antigo: criar um gancho entre o fato pretérito e a atualidade, e essa é a grande sacada do livro.

O autor pegou o caso do oficial judeu do exército francês que foi injustamente acusado de espionagem. Alfred Dreyfus foi apontado como autor de uma carta suspeita encontrada no gabinete do tenente-coronel Schwarzkoppen, então adido militar alemão.

Alguém fazia espionagem para os alemães. Dreyfus seria o único suspeito de ter escrito o borderô, foi levado a um tribunal e condenado ao degredo na Ilha do Diabo.

O caso dividiu a opinião pública entre os "dreyfusistas" e não-dreyfusistas". Begley pega o caso para comparar com a querela dos condenados à morte em Guantanamo pelos atentados de 11 de setembro.

Ao compará-los, ele nota uma semelhança entre o antissemitismo que grassava na França no fim do século XIX e o preconceito contra muçulmanos perante a opinião pública norte-americana.

Ou seja, se para muitos franceses, na época da degradação de Dreyfus, ele foi parar na Guiana porque merecia, muitos americanos (segundo pesquisa mencionada no livro), independente de qualquer lisura no julgamento dos suspeitos, eles estariam presos por algum motivo, mais precisamente esse pré-julgamento é motivado pelo fato de serem muçulmanos.

Louis Begley faz um paralelo genial entre o clima de antissemitismo francês e a forma como Marcel Proust retrata aquele momento histórico em sua obra, inclusive na Recherche.

Em Em Busca do Tempo Perdido, ele demonstra que a cocote Odette de Crècy, pafra conseguir estabelecer um núcleo de diletantes e artistas em seus soareés, ela fazia questão de demosntrar que era contra Alfred Drayfus.

Logo, perente a opinião pública, a questão acabou saindo dos meandros bizantinamente judiciais para uma esfera totalmente diversa. Enfim, tratada com toda a superficialidade que qualquer tipo de preconceito requer, mesmo no caso dos prisioneiros de Guantanamo. Louis fala: é claro que existem de fato criminosos que merecem estar ali, mas o julgamento a que eles são submetidos é tão torpe quanto à do tribunal militar que transformou Dreyfus num inimigo do povo. É judeu? Então é culpado.

Proust, (que era ascendência judaica por parte de mãe), também comenta que, após a compovação que o ofocial era inocente, a história cuidou de apagar o episódio nos anos seguintes.

Emile Zola foi quem resolveu jogar a carreira de escritor pelo alto e escreveu uma carta aberta a Felix Fauré, presidente da França, no L'Aurore. O texto, hoje notório, foi o ápice da carreira do escritor de Germinal e a sua desgraça. Zola acabou virando tão mártir quanto Alfred Dreyfus. Bergley salienta que o que Emile Zola mais queria era se tornar membro da Academia Francesa. Depois de publica o seu implacável "Eu Acuso", se tornou um pária: se candidatou enão recebeu nenhum voto.

O clima era exasperador: o tema acabou dividindo o país de tal forma que criou uma cisma onde judeus eram perseguidos, ao mesmo tempo em que o Caso Dreyfus virou um mote para que republicanos e monarquistas rilhassem os dentes. Um julgamento de um oficial abalou a França na última década do Século retrasado.


O libelo de Zola

Zola mudou os rumos do processo contra o oficial francês mas pagara o preço de sua bravura: foi condenado por difamação e se viu obrigado a exilar-se na Inglaterra. Além da injusta degradação à Ilha do Diabo por cinco anos, a revisão do processo provou, quase uma década depois que o autor do borderô era o major Walsin Esterhazy. Ele não foi condenado, fugiu da França e continuou a combater os dreyfusistas.

No fim das contas, o livro de Louis Begley mostra pelo menos uma evidência: a história gagueja e que o calor da hora dos acontecimentos é a moldura ideal para que fatos, instituições e pessoas sejam corrompidas pelo espírito de manada de todos nós em julgar a sorte de tudo e de todos.

Wednesday, January 19, 2011

Três Apitos *


A antiga Confiança, hoje um supermercado


Nos seus tempos de estudante de Medicina, em 1931, Noel Rosa estava dividido entre dois amores. De um lado, Clara, a Clarinha, de Vila Isabel, que se dava com a mãe do poeta, e era vizinha do jovem sambista. Ela e Noel tinham um relacionamento de quatro anos, mas a cada ano, ela tinha cada vez mais dúvidas com relação aos reais sentimentos dele. Ela sabia de uma outra menina de quem o poeta gostava — Josefina. O curioso é que, sempre que achava que tudo estava perdido entre os dois, a jovem tinha o apoio de alguma irmã, que lhe inspirava confiança.

Enquanto a relação com Clarinha era do tipo “namorou, é pra casar”, Josefina não lhe exercia qualquer pressão. Mas Josefina era a mais ciumenta das duas, e não gostava dos famosos “sumiços” do compositor pelo Rio de Janeiro. Enquanto Clara suportava o poeta com uma paciência de Jó, Fina ameaçava quebrar o violão de Noel se não se explicar. Fina e Noel faziam cena, mas se gostam.

Viramundo — Um dia, dona Iracema, a mãe de Fina, decidiu que todas deviam trabalhar. Ela e sua irmã, Bazinha, se empregaram em fábricas do Andaraí. A primeira, na Hachiya, indústria de botões, e a segunda, em numa fábrica de tecidos, a América Fabril — então, uma das mais importantes da velha Capital Federal.

Constrangida com o emprego e com medo da marcação cerrada do Poeta da Vila, Josefina pediu aos seus familiares que não revelassem ao namorado o seu local de trabalho — até porque ela gostava de se sentir livre. Mas Noel era implacável: agora ele tinha comprado um carro, um velho Chandler preto, que apelidou com o singelo nome de Viramundo.

Na verdade, o automóvel foi uma aquisição interessante. Para quem não sabe, além de cantor, Francisco Alves era agenciador de veículos. Aliás, o “Rei da Voz” foi o primeiro marqueteiro da nossa música. Como a parceria dele com a insuperável dupla Ismael Silva-Nílton Bastos (“Adeus”, “Se Você Jurar”) havia acabado, ele decidiu “alugar” Noel por uns tempos. Para tanto, o poeta assinaria um contrato segundo o qual teria que pagar as prestações do Chandler em... sambas fresquinhos!

Cada samba composto era apresentado a Chico Viola, que abatia as prestações como promissórias. Agora, com o calhambeque, Noel podia estar mais perto de Fina. Só faltava descobrir em qual fábrica ela trabalha.

Um dia, andando pelo Andaraí e suspirando debruçado sobre o volante do Viramundo, ele encontrou a jovem na multidão, caminhando como se corresse contra o tempo, na hora do almoço com a marmita debaixo do braço, próxima à entrada da Companhia América. Sem saber que Fina levava a marmita para Bazinha, ele concluiu que sua musa trabalhava na tal fábrica de tecidos.

A partir de então, o poeta bateu ponto diariamente ali, no fim do expediente. Em seus arroubos apaixonados, Noel parecia ouvir silvos de um apito de fábrica. Na verdade, não eram nem da Hachiya, nem da América, mas sim da Confiança (de propriedade do pai de João de Barro, o Braguinha, amigo de Noel e parceiro musical em “As Pastorinhas”), que ficava perto da casa do compositor, em Vila Isabel. E foi com o silvo matinal da fábrica que o apaixonado sambista compôs uma de suas mais belas composições, “Três Apitos”:

Quando o apito
Da fábrica de tecido
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
Ou está interessada em fingir que não me vê
Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina
Do meu carro?



Na verdade, o som do apito é licença poética de Noel, que utiliza o estrépito para enfeixar em sua memória a lembrança da amada sempre que o som “vem ferir os seus ouvidos”. Segundo Carlos Didier e João Máximo, biógrafos do compositor, a confusão toda se deve ao fato de que ele achava que Fina trabalhava na América, e ainda incluiu o apito da Confiança. Como muitos associavam a fábrica pelo toque do apito, pensava-se (e pensa-se) que ela trabalhava na Confiança.

O caminho entre a casa de Josefina e Bazinha e a fábrica era longo, o que obrigava as duas a madrugarem para chegar a tempo no trabalho. Elas percorriam todo o percurso juntas, às cinco da manhã, e às cinco da tarde, quando Fina voltava sozinha. Para um trabalho simples, elas usavam roupas simples, sapatos de salto baixo e sem meias — detalhe que não passou desapercebido a Noel, que as via passar, com os olhos cerrados sob o chapéu, observando de longe e quase incógnito, dentro daquele carro velho e com a pintura descascada, o longo e tortuoso passeio que sua namorada fazia de casa até o trabalho.

Ele se enterneceu de vê-la tentando esconder dele que a jovem trabalhava numa reles fábrica de botões de osso e madrepérola e a entendeu. E escreveu:

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz réclame de você



Poeta Soturno — Mais aflito do que o grito da buzina do Viramundo era Noel, ao ver Fina desacompanhada e quase sempre à mercê do assédio de um certo contramestre da fábrica, Jerônimo da Encarnação, que sempre tentava puxar conversa com a moça. Noel tanto insistiu com a jovem que ela finalmente cedeu, e contou onde trabalhava. Então ele se deu conta do engano. Era na Hachiya e não na América!
Aqui, ele anotou mais quatro versos ao samba:

Nos meus olhos você lê
Como eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens
A você


O contramestre cercava Josefina com indisfarçada insistência, com propostas e galanteios. Ela se esquivava, apontava para aquele calhambeque parado longe, no outro lado da esquina, e dizia ao homem: “Olha lá o seu poetinha. Ele está te esperando...”. Era Noel, o “malandro medroso”, mas sempre vigilante e quase incógnito, cuidando os passos da menina em marcação cerrada, por detrás do volante do seu inefável Chandler.

Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe por quê
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Esses versos pra você.



No fim, ele permaneceu no equívoco em favor da rima pano/piano, já que ela fazia botões. Porém, mesmo com tanta confusão, o certo é que “Três Apitos” foi dedicada a Josefina. Noel Rosa revelou, em 1936, que este samba resumia o “romance mais sincero de minha vida gloriosamente romântica”.



Ele diz “que outra operária de fábrica se encaixaria nesta canção”. O dado curioso sobre “Três Apitos” é que, talvez por ser confessional demais (ou romântica demais. Ou confusa demais), Noel resolveu pôr defeitos na canção. Mesmo com achados poéticos diversos (até para uma época em que o gênero samba ainda lutava para se livrar de versos simplórios), o poeta acreditava justamente o contrário. Já o piano em questão também era mais uma licença poética de Noel, que como “pianeiro”, era um grande violonista.

Por conta do “desprezo” do poeta por “Três Apitos”, ela permaneceu inédita por muitos anos. Chegou a ser gravada na época em acetato por Orlando Silva (verdadeiro achado, catalogado na coletânea Noel Rosa — O Poeta da Vila, da gravadora Revivendo) em 1936, mas com versos a menos. A primeira versão “oficial” ocorreria apenas em 1951, na voz de Aracy de Almeida — cantora para quem ele dedicou a música, na época. Localizada por uma emissora de TV em 1984, Josefina disse: "Noel para mim fez apenas o 'Três Apitos', apesar de, em um dia de pileque, ter dito que eu tinha um riso de criança" (“Riso de Criança” era outra composição do Poeta, também supostamente inspirada por Fina). Aracy, que teve a primazia de levar o nostálgico samba em disco, revelou:

— Noel fez esse samba na Taberna da Glória, na hora, e me deu. Foi para mim que ele fez esse samba. Ele também fez música para mim.

Contudo, para alguns críticos, a mais bela versão de “Três Apitos” é a de Maria Bethânia, gravada em 1965, com Rosinha de Valença ao violão, em estilo intimista, bem como pede a letra.

Mas, e quanto aos tais três apitos? O maestro Homero Dornellas (aquele que botou na pauta o primeiro sucesso de Noel, “Com que Roupa?”, já que o compositor não sabia ler música), contou que, ao invés de três, a fábrica apitava nove vezes ao dia. Carlos Didier e João Máximo explicam: certamente que o título se refere aos que a Confiança soava pela manhã.

O primeiro, às quinze para as seis, para acordar os operários da redondeza. O segundo, às sete, o mais longo, que marcava a hora da entrada. E o terceiro às quinze para as oito, para os retardatários...



* Texto publicado originalmente por este escriba em 2004. Sinceros agradecimentos ao Museu da Canção (http://museudacancao.multiply.com) que o reproduziu: eu já não tinha mais o original...

Monday, January 17, 2011

Soul Men







No domingo, de madrugada, vi um filme que jamais tinha ouvido falar: Soul Men - Homens do Soul, com Bernie Mac e Samuel L. Jackson e participação especial de Isaac Hayes. Também foi o último filme de Hayes e Mac. A história é uma grande sacada. Com a morte da lenda do Soul Marcus Hooks (John Legend), a VH-1 promove uma festa de despedida para o ídolo e convida seus antigos parceiros Louis Hinds e Floyd Henderson para cantar, o The Real Deal. Só que os dois não vivem mais da música há muitos anos. Floyd Henderson (Bernie Mac) é gerente de um lava-rápido e Louis Hinds (Samuel L. Jackson) é um ex-presidiário. Os dois vivem em Los Angeles e têm que viajar até Nova Iorque, já que o show será no tradicional Apollo Theater. Como Hinds se nega a ir de avião, os dois atravessam os Estados Unidos num Cadillac, misturando exibições e confusões. O diretor Malcom D. Lee conduz o filme com mão segura, transformando a história numa excelente comédia. Bernie Mac está extraordinário, talvez seja o seu melhor filme. Samuel L. Jackson é o mesmo de sempre, seguro e competente. A trilha sonora também é um espetáculo. Para começar, tem Isaac Hayes. Abaixo, a lista das músicas e o link para download. Vale a pena. Alugue o filme, procure na programação da Net, baixe o álbum e curta. Eu curti.

Link: http://depositfiles.com/pt/files/3oom21qet

Song Title Artist Time
1. Soul Music Anthony Hamilton 2:58
2. I'm Your Puppet Bernie Mac 4:05
3. Private Number Chris Pierce 3:08
4. Water Me'Shell Ndegeocello 3:14
5. Never Can Say Goodbye Isaac Hayes 5:16
6. Boogie Ain't Nuttin' (But Gettin' Down) Bernie Mac 4:10
7. Just Dropped In (To See What Condition My Condition Was In) Sharon Jones and the Dap Kings 2:59
8. Memphis Train Ryan Shaw 2:53
9. Comfort Me Sharon Leal 2:31
10. You Don't Know What You Mean (To a Lover Like Me) Sugarman 3 3:30
11. I've Never Found A Girl (To Love Me Like You Do) Eddie Floyd 2:44
12. Do Your Thing Bernie Mac 13:54

Saturday, January 15, 2011

Leia o Livro (3)


Ronnie Spector


Uma das curiosidades do Vida, do Keith Richards é um singelo romance de estudante entre o guitarrista dos Rolling Stones e a líder das Ronettes, Ronnie Spector. Ele diz que eles se conheceram durante a primeira turnê britânica do trio, em 1964 — quando o póprio quinteto liderado por Brian Jones também iniciava a sua carreira nos palcos, após o lançamento do primeiro álbum homônimo, lançado naquele ano.

Keith diz que eles se conheceram e foi amor à primeira vista. Era uma paixão tão pura que eles nem sabiam o que fazer com aquele sentimento. Se encontravam às escondidas, principalmente porque entre eles estava ninguém menos que Phil Spector.

O produtor norte-americano namorava Ronnie à época, e como é notório, ele fazia uma marcação cerrada sobre a garota. O idílio teria turado pelo menos um mês. O curioso é que, a despeito disso, através de Andrew Loog Oldham, Phil estava trabalhando regularmente com os Stones (ele co-produz o primeiro álbum da banda, e o Out Of Our Heads, de 1965, inclusive tocando baixo em Play With Fire, lado B de Satisfaction).

Mas a fábula em torno disso é que, em sua autobiografia, Eric Clapton também menciona um possível amor de carnaval entre ele e a líder das Ronettes, inclusive com riqueza de detalhes; contudo, assim como Keith, era uma paixão de estudante. Como o Clapton fala, naqueles tempos, todos era realmente muito inocentes, e não sabiam o que era levar um amor a sério. E Ronnie, uma garota na flor do tesão dos seus dezenove aninhos, mulata jambo, com ancas intransponíveis, seios de granito, pele de seda, voz de boneca e um rosto desesperadamente lindo de cherokee e cabelo bolo-de-noiva, era o maior partido do show-biz. Quando cantava Be My Baby, então...

Com o tempo, Spector transformou-a numa prisioneira. Mantinha a garota presa em sua mansão, sob a mira de um revólver, com um caixão dourado no porão, esperando uma possível infidelidade. Loucura é pouco.

Mas voltando ao Slowhand: ele diz que Ronnie gostava dele porque Eric era, segundo ela, parecido com Phil. Clapton achava isso estranho, mas não deu muita bola. Tipo "se ela gosta de mim porque eu sou parecido com ele, o azar é dele".

E Eric e Phil não se conheceram na época do idílio. Ele só foi conhecer o famoso produtor durante as gravações do All Things Must Pass, em 1970. Foi quando ele se recordou das palavras de Ronnie: realmente, ele e Phil tinham uma mórbida semelhança — mas só por fora, é claro.

Leia o Livro (2)



Sobre o seu aprendizado com a guitarra, Keith aponta dois momentos cruciais: a primeira, quando ele aprendeu todo o seu repertório possível de riffs e acordes para começar a se sentir um músico profissional. Sobre isso, Richards diz que formou o seu caráter tocando violão acústico. e diz:

— Acredito piamente que, se você quer ser guitarrista, é melhor começar tocando violão acústico e depois passar para o elétrico — revela. — Não acho que você vai virar outro Townshend ou um Hendrix só porque pode fazer uíí uíí uah uah, e todos aqueles efeitos eletrônicos dos guitarreiros. Primeiro, vá conhecer direitinho o instrumento. E vá dormir abraçado com o seu violão. Se não tiver uma gata à mão, você dorme com o violão. Tem o formato certinho.

O outro momento crucial em sua carreira foi quando ele começou a perder a colaboração seminal do fundador dos Rolling Stones, Brian Jones, durante as sessões de gravação. Ao mesmo tempo, enquanto ele vivia a entressafra de shows, em meados de 1968, Keith passou a se interessar por slide e por afinações abertas, mais especialmente em Sol aberto.

Isso fez com que Richards passasse a tocar com uma corda a menos na guitarra. O corolário disso tudo foi que o guitarrista dos Stones criou um timbre muito particular para os seus riffs. Em Vida, ele salienta que isso acabou se tornando uma forma de deixar uma marca registrada nas músicas. "se você ver, quando alguém tenta tocar um riff meu numa afinação normal (standard tuning), nunca sai a mesma coisa", explica.

Um exemplo típico de timbre característico do Keith Richards num riff clássico:

Leia o Livro (1)


A capa


Se você tem alguns morlacos sobreando e gosta de rock, faça um favor a si mesmo: compre a biografia do guitarrista dos Rolling Stones, Vida. O livro é simplesmente um dos depoimentos mais interessantes do gênero, além de larçar uma luz particular sobre a obra da maior banda de rock de todos os tempos e, ao mesmo tempo, servir de evangelho a todo aquele que quiser um dia empunhar uma guitarra e seguir os passos de um gênio da raça, nascido em Dartford, Inglaterra, há 67 anos.

Aliás, a rigor, a história todos vocês conhecem: o detalhe do Vida é, justamente, as histórias e a forma bem-humorada em que Keith revela vários episódios pitorescos de sua carreira.

Uma delas: Keith Richards na biografia diz que, durante um recesso numa turnê australiana, ele morou dez dias com uma mulher com um bebê em Melbourne. O Keith então diz que ficava em casa de babá com a criança enquanto a mulher passava o dia fora, trabalhando. No fim, arremata:

— Tem um cara de seus 35 anos que anda prá lá e prá cá em Melbourne que não sabe que eu limpei a bunda dele quando ele era criança — diz.

Friday, January 14, 2011

É o Amor



Quem disse que o dinheiro não traz a felicidade, meu caro hipócrita leitor?

Wednesday, January 12, 2011

Ficha Suja

Para fins de uma possível admissão, o RH me solicitou que eu retirasse no Tudo Fácil (aquele serviço de atendimento integrado do governo estadual, prá quem não sabe) um atestado de bons antecedentes. Eu nunca tinha feito nada disso antes. Aliás, eu nem sabia que existia esse tipo de coisa.


E lá fui eu. Não entendo nada desse tipo de coisa. O que me ocorreu durante o trajeto do RH até o posto de atendimento foi: será que eles sabem alguma coisa que eu fiz e que eu acho que tenha permanecido encoberto, obscuro, apócrifo?

E se eles na verdade eles sabem de tudo o que eu sei e eu não sei que eles sabem e nem desconfio, sei lá? Se porventura sabem de todos os meus pensamentos, de todas as coisas sórdidas que eu tenha feito? Eu acho que não fiz nada — não deva ter feito nada que ficasse registrado em alguma coisa. Claro que, a rigor, toda a minha incúria estava em jogo: não sei como se verificava esse tipo de coisa. Mas é aquela coisa: nunca se sabe...

Fui atrás da tal fila. Cheguei lá, quase não tinha fila. Tinha só duas pessoas na minha frente.

Vi o rapaz quando chegou a minha vez e entreguei-lhe a minha cédula de identidade. "Não leva muito tempo", assegurou-me a moça do Recursos Humanos. Eu: "bom, tudo bem".

De fato, o expediente era simples: o rapaz lia o número do registro, digitava no teclado e aparecia o tal documento para impressão. Ele clicava o Ctrl+p e mandava para a impressora.

O cara da frente não levou mais de um minuto para pegar o atestado dele. O outro também. Chegou a minha vez.

O rapaz pegou a minha identidade, leu o RG, digitou o número. Ficou estatelado olhando para a tela — que, com efeito, estava contra mim. Absorto, ele começou a fazer uma aterradora cara de estupefação.

Eu fiquei apreensivo. Meu Deus, o que diz ali? Ele parecia correr a vista em alguma coisa pavorosamente extensa. Esbugalhava os olhos, batia a Bic ritimadamente na mesa. Levou a mão ao rosto: pelos olhos dele, ele lia algo enorme, algo estarrecedor, sabe-se lá o quê. Mandou para a impressora.

Foi-se a primeira folha. Mais uma, outra mais. Eu achando que era só uma folha, quando eu comecei a contar a partir da quarta, fiquei silenciosamente desesperado. O que tem ali de mim, meu Deus? Puta que pariu. Queria um emprego e vou para a cadeia? Maldita hora! Prá quê eu fui pedir um atestado de bons atnecedentes? O c ara tá é imprimindo a minha ficha corrida no crime!

Me lembrei de atraques no Bomfim, em balbúrdias em balneários, numa vez que eu arranquei um cavalete na Mauá, outra que eu mijei na cabine telefônica, caramba, eles descobriram tudo, estou perdido! Me lembrei da vez que a Brigada me parou no meioi da rua em frente à Rodoviária de Capão da Canoa porque eu estava podre de bêbado brincando de guarda de trânsito. Eles me recolheram e me mandaram para a emergência. Meu Deus Nosso Senhor, eles sabem de tudo de mim, tudo, tudo!

Já tava na décima quinta (ou décima sexta. Ou sétima. Sei lá) folha e eu imaginando dois Pedro e Paulo imaginários me pegando pelo braço ali mesmo na fila do Tudo Fácil direto para um saia-e-blusa da Salgado Filho direto para a Área Judiciária! Já sei! Foi tudo uma cilada! O pessoal do RH orquestrou tudo isso para que eu fosse preso, eles estão dentro da conspiração contra mim!

— Tô fudido... — gemi em surdina.

— O que o senhor disse? — perguntou o rapaz.

— Eu? Nada — ri amareladamente. — É que são quase duas e meia e eu vou perder o Vale a Pena Ver de Novo! — despistei.

— Ah.

A impressão terminou. O cara pegou o maço de papel, emparelhou-as na mesa, grampeou e — surprendentemente — chamou um outro funcionário. Eu já estava com as mãos crispadas no balcão, a típica imagem do desespero.

Veio o outro cara. O balconista pegou as folhas e deu para ele:

— Taqui as tablaturas do Pantera que tu me pediste.

Eu: hein? Olho de soslaio para a impressora, ela ejeta uma singela e solitária folha de papel. O rapaz pega ela com delicadeza, aponta para mim e diz:

— Aqui está senhor.

Ato reflexo, eu peguei com violência o papel das maos dele e corro a vista: Cosntatamos que o senhor fulano de tal está etc. Não tinha nada!

Fui embora lívido, nem agradeci ao pobre diabo. Quando eu desci as escadas até a Borges e ganhei a rua, respirei fundo.


Eu era um novo homem.

Monday, January 10, 2011

O Jogo do Século

A "Barriga" é um jargão do jornalismo para designar deslizes cometidos por repórteres e jornais quando eles não checam uma informação e acabam franqueando uma pseudonotícia. Ou quando divulgam uma notícia como certa antes do tempo — na ânsia de ter a primazia do fato consumado e levam um capote das ciscunstâncias.

Poderia citar dois exemplos recentes: em julho do ano passado, a imprensa deu como certo o nome do Muricy Ramalho na Seleção. Saiu reportagem, perfil, primeira página para o Muricy, que jamais iria negar o convite — e negou.

O outro exemplo — o do sábado passado — bom, deixa para lá.

Ao invés de citar o mais recente, vou recordar a mais clássica das barrigas jornalísticas da imprensa gaúcha de todos os tempos — conhecida como O Jogo do Século.


Na tarde do dia 23 de junho de 1972, um conhecido jornal de Porto Alegre recebia um curioso e instigante telex.

ATENÇÃO DIRETORIA DE ESPORTES DE ZERO HORA. AQUI É DA TRIBUNA DO ESPORTE, DE SALVADOR, BAHIA. GOSTARÍAMOS DE SABER SE TEM FUNDAMENTO A NOTÍCIA DE QUE A SELEÇÃO DA CONCACAF VAI JOGAR CONTRA O FORTES E LIVRES DA CIDADE DE MUÇUM, CAMPEAN DO INTERIOR DO RIO GRANDE DO SUL. FIZEMOS ESCUTA NA RADIO BANDEIRANTES E ESTA NOTÍCIA FOI DIVULGADA. EIS O TELEGRAMA:

Salvador (Sucursal) Depois de encerrar a sua participação na Mini Copa, promovida pela CBD, a Seleção da Concacaf (N.E: Confederação de Futebol da América Central) prepara-se agora para uma série de jogos amistosos no território nacional. A primeira partida, segundo os dirigentes da delegação, será realizada na até agora desconhecida cidade de Muçum, no Rio Grande do Sul, "numa homenagem dos povos do Caribe àquela cidade irmã, uma vez que temos em nossas ilhas uma localidade chamada "Muzzum". No Rio Grande do Sul, a Seleção da Concacaf enfrentará a equipe do "Fortes e Livres", de Muçum, e a renda será destinada a instituições beneficentes. Mesmo assim, a Seleção do Caribe receberá uma quota de 5 mil Dólares.


LIGAREMOS MAIS TARDE A FIM DE SABER A RESPOSTA. GRATOS, LUIZ CARLOS MAIA - EDITOR DE ESPORTES.


Ao tomar ciência da história, o jornal tratou de destacar repórteres para entrevistar o presidente do Fortes e Livres, que também era o prefeito da cidade, localizada a 52 quilômetros de Porto Alegre. Ao saber da boa nova relatada pelo jornalista, o homem aceitou o convite, incontinente. Embalado pela espectativa, a Zero Hora berrava, na capa: "MUÇUM ACEITA JOGAR COM CONCACAF". A matéria terminava assim: "O prefeito de Muçum já telegrafou ao diretor de futebol da CBD (antiga CBF, para quem não sabe), Antônio do Passo, confirmando o interesse pelo Fortes e Livres em disputar uma ou duas partidas amistosas com a Seleção do Caribe, atualmente na Bahia participando dos jogos classificatórios da Taça Independência...".

O Estado de São Paulo da mesma data, por sua vez, detalhava a história sobre o telegrama e a CBD: "pedindo sua intercessão junto ao caso e explicando que os centro-americanos não recusarão o convite, porque deverão jogar na cidade onde o nome é idêntico ao de uma cidade do Caribe, de onde três dirigentes são naturais..."

Dia 24, mais um telex aparecia. Dessa vez, na redação da Folha da Tarde:

BOM DIA. PRECISAMOS DE UM FAVOR AÍ DOS AMIGOS DA CALDAS JÚNIOR. FICAMOS SABENDO AQUI NA BOA TERRA QUE A SELEÇÃO DA CONCACAF ESTARÁ NO RIO GRANDE DO SUL NA PRÓXIMA SEMANA PARA JOGAR CONTRA O CAMPEÃO DO INTERIOR DO ESTADO, FORTES E LIVRES DA CIDADE DE MUÇUM. A INFORMAÇÃO FOI TRANSMITIDA ONTEM POR UM REPÓRTER DE UMA EMISSORA CARIOCA QUE ENTREVISTOU O SENHOR ANTÔNIO DO PASSO. ELE RECEBEU TELEGRAMA DESSA CIDADE GAÚCHA PEDINDO PERMISSÃO PARA O JOGO E FICOU TUDO ACERTADO. PRECIDAMOS SABER ALGUMA COISDA AÍ DOS AMIGOS DA 'FÔLHA DA TARDE', POIS QUEREMOS FAZER UMA BOA MATÉRIA COM A SELEÇÃO DA CONCACAF UMA VEZ QUE O FATO ABRE UM PRECEDENTE NO ESQUEMA DA CBD.

CARLOS RICARDO, EDITOR DE ESPORTES DO JORNAL 'TRIBUNA DO ESPORTE', SALVADOR, BAHIA.

No outro dia, José Inácio Werneck (que hoje trabalha na Gazeta Esportiva), então no Jornal do Brasil, comentou o fato em sua coluna diária: 'o prefeito de Fortes e Livres de Muçum existe. É um time de futebol. De Muçum, no Rio Grande do Sul. Acaba de convidar a Concacaf para um amistoso. A idéia do prefeito, que justificou a iniciativa dizendo haver na Nacarágua uma cidade com o nome de Muzzum. Como se vê, uma trágica coincidência. Mas, senhor prefeito, que culpa tema torcida? A homofonia não devia dar à Concacaf e ao Fortes e Livres o direito de conspirar contra a bola. Eles não são da bola e nem a bola é deles. A bola, há muitos anos, é de Pelé'.

A 'Folha' do dia 26 de junho complementava o telegrama da CBD, e repercutia a goleada sofrida que o Fortes e Livres havia tomado, após cair de quatro diante do Guarani de Garibaldi, pela Copa Governador do Estado. Já Zero Hora destacava uma página inteira com o presidente do afortunado clube, que à estas alturas, já ganhara destaque nacional. A matéria, intitulada 'O SONHO DE UM PREFEITO, VER A CONCACAF EM MUÇUM', ainda documentava reprodução do fonograma urgente remetido pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF), à época presidida por Rubens Hoffmeister, ao Fortes e Livres, onde se garantia a cota de US$ 5 mil e o custeio de todas as despesas do clube por parte da entidade. Ao ser interpelado sobre aquele que seria o 'jogo do Século', o presidente anunciava melhoramentos no estádio do Fortes e Livres, incluindo gramado e novas arquibancadas

— Será uma recepção que eles jamais esquecerão — garantia.

Já o diretor de futebol do Fortes, mesmo a despeito da goleada sofrida pelo Rio-Grandense, semanas antes, polemizava:

— Talvez a gente não ganhe o jogo, mas posso adiantar tranqüilamente que iremos complicar — desafiava, orgulhoso de seu exuberante escrete. — O time nunca esteve em tão boa situação como agora.

No fim da entrevista, o prefeito de Muçum, que já fazia correr um livro de ouro angariando verba para a reforma do 'fortim' do Fortes, contabilizava:

— É possível que a gente receba deles um convite para realizar uma gira pelos países da América Central. Isto acontecendo, e se tivermos todas as nossas despesas pagas, é bem provável que a gente aceite.

Foi quando a diretoria do Fortes e Livres recebeu ligação de um jornal paulistano pedindo a confirmação do jogo. Em seguida, a FGF despachou telegrama ao clube de Muçum, avisando que a CBF, na figura de Antônio do Passo, iria tratar pessoalmente da questão, e que tudo era apenas questão de tempo.

No outro dia, a coluna Sem Pulo da Folha avisava:

VERBA

Se depender da Câmara Municipal de Muçum, sai mesmo o jogo entre a Concacaf e Fortes e Livres. Foi aprovada a verba necessária para trazer a seleção da América Central.

A edição do dia 27 do pelotense Diário Popular, também se referia ao jogo e aproveitava para dar uma corneteada no time: "assim, pode ser que a Seleção do Caribe saia do Brasil com uma vitória, porque na Minicopa ela só perdeu". No mesmo dia, o carioca Correio da Manhã trombeteava que só faltaria decidir a data do "Jogo do Século".

E confirmava: "A Federação Gaúcha de Futebol está tratando de todos os detalhes do jogo e pagará todas as despesas da vinda da seleção, mais a cota de US$ 5 mil".

Na manhã de 28 de junho de 1973, a Zero Hora mancheteia: "FEDERAÇÃO NEGA JOGO DA CONCACAF E FORTES E LIVRES NA CIDADE DE MUÇUM".

A matéria explicou: primeiro o supervisor pensou que fosse gozação e procurou dentre os fonogramas que a Federação enviou e não encontrou nenhum dirigido ao Fortes e Livres. Resolveu então telefonar para Antônio do Passo da CBD, que nada sabia da partida e até indicou o secretário de futebol, Abílio de Almeida, para tratar do assunto. O prefeito de Muçum e presidente do clube já havia enviado telegrama à CBD pedindo conformação das datas.

Depois de tudo, e da explicação de que o Fortes estava já encaminhando as reformas do estádio para receber a Concacaf, foi difícil convencer os dirigentes do clube que os fonogramas eram falsos e que os telefonemas que ele havia recebido eram trotes. Colérico, o prefeito foi à Porto Alegre tratar pessoalmente do assunto. Já o supervisor da Federação avisou que a brincadeira já havia ido "longe demais", até porque haviam inclusive falsificado a sua assinatura.

Também solicitou à CRT (ex- Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações, hoje Brasil Telecom) que tentasse descobrir a origem dos fonogramas, a fim de que se tomassem as devidas providências.

O Sem Pulo do dia 30 dizia:

PREFEITO

E para complicar mais a situação de [Rubens] Hoffmeister a CRT forneceu o número que solicitou o fonograma com trote. O número é 24.87.33, telefone da Federação Gaúcha de Futebol. Por causa disso, o prefeito de Muçum anunciou ontem que processará a entidade.

Pressionado pela oposição de sua cidade, o cartola-edil até contratou advogado para acionar os autores da brincadeira, movendo ação na Justiça Civil da cidade. Enquanto isso, sucediam-se notícias e comentários. MUÇUM NÃO QUER MAIS JOGAR COM A CONCACAF¿, ¿FORTES E LIVRES NÃO ADMITE BRINCADEIRAS COM SEU NOME". Na charge da Zero Hora de 26 de junho, um repórter pergunta: "prefeito, e o jogo contra a Concacaf?". Ao que o homem responde: ¿se eles não aceitarem o desafio, eu vou convidar o Igrejinha".

As notas que haviam sido enviadas por uma fonte um tanto obscura ganharam tamanho corpo e repercussão na sociedade esportiva gaúcha que o anti-clímax foi inefável. Isso sem falar na imprensa regional, que embarcou bonitaço na potoca. Se os editores não sabiam onde se enfiar, de tanta vergonha por ostentar tamanha barriga (no jargão jornalístico, significa plantar notícia), o que dizer do pobre prefeito-cartola, que não sabia o que falar para a sua população, sobre o "Jogo do Século", que aconteceu por não ter acontecido? E se a oposição usasse esta mancada nas próximas eleições?


Tempos depois é que se soube: esse trote — que marcou época foi criado por tres jovens repórteres, que utilzaram a sucursal porto-alegrense de O Estado de São Paulo, então pioneira em operar por telex, novidade nesses pagos, naquela época, para despachar a insubmersível "barriga".

De qualquer maneira, estiver realmente interessado nessa surreal, rocambolesca e estapafúrdia história sem fim pode perguntar (segundo o falecido Renato Maciel de Sá Júnior) ao Rogério Mendelski, ao Roberto Appel e ao Antônio Pinheiro Machado onde raios fica aquela tal cidade de Muzzum, nas Antilhas....

Friday, December 24, 2010

Eça e o Milagre


O bruxo de Póvoa de Varzim


Dia de Natal eu me lembro de uma história de um de meus escritores preferidos, o velho Eça de Queirós.

Creio que é de um conto (ou um trecho de um livro?), que acho que o Carlos Reverbel (ou o Flávio Alcaraz Gomes?) citava no Correio do Povo lá nos tempos de antigamente.

Enfim: diz que o rico Obed, com seus gados morrendo e as vinhas morrendo, mandou servos atrás de um certo Rabi da Galiléia que fazia milagres.

Não o encontraram.

Um certo Publius Septimus, o poderoso centurião romano, estava com a filha pequena com uma febre muito alta, à morte. Pronto despachou legionários em busca do mesmo Rabi. Não o acharam.

Pois, entre Enganiu e Cesarea, um menino miserável e insalubremente pobre e moribundo empertigava-se num catre, suplicando à sua mamãe que lhe trouxesse Jesus, que (diziam) ama os pequeninos, para que ele pudesse então ser curado.

A mãe, em desespero e entre soluços, apenas pôde susurrar: 'Ó meu filho, como posso te deixar? Longas são as estradas da Galiléia e curta a piedade dos homens. Ninguém atenderia ao meu recado e me apontaria a morada do doce Rabi. Ó meu filho, talvez Jesus morresse... (já dispinéica em seu desalento, a prantear o filho) Nem mesmo os ricos e fortes o encontram. O céu o trouxe, o céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes...'.

A criança murmurou: 'Mãe, eu queria ver Jesus...'. E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança: 'Aqui estou'.




Feliz Natal.

Adoração dos Reis Magos



Baltazar: Puxa, é a sua cara, hein, seu José?
José: ¬¬

Thursday, December 23, 2010

Conto de Natal

Tenho uma tia que tem um daqueles carrinhos de bebida na sala. Detalhe que ela não bebe e o meu tio só bebe vinho de garrafão (ele metodicamente guarda o estoque no porão, e é extremamente ciumento com seu vinho vadio). Ou seja, o tal carrinho é quase um depósito de bebidas destiladas que eles ganham de presente e — óbvio — deixam tudo de enfeite.

Sempre que eu visito ela eu passo na sala e fico gracejando sobre aquele seleto elenco de uísques, vermutes, amarulas, conhaques que ficam ao Deus dará. Porém, o meu xodó era uma garrafa de vinho licorado importado (aquele do Orson Welles).

Eu vivia falando que queria beber aquele vinho licorado. Eu pegava a garrafa, olhava, falava do rótulo. Minha tia dizia: "olha, guri, o teu tio não vai gostar de saber que tu tá mexando no carrinho" (eu claro não ia beber, mas gostava de fazer menção só para deixá-la baratinada). Eu enchia tanto o saco dela que ela chamava o Paul Masson de "o vinho do Marcelo". Eu pegava e imitava o Orson Welles: "MWAHHHHAAAAAAA the french champagne has always been celebrated for it's excellence... THERE IS A CALIFORNIA CHAMPAGNE!".

Um dia eu dormi lá — tava (vejam só a coincidência) — dormindo no sofá da sala. E tava todo mundo dormindo, era alta madrugada. Eu pensei com meus botões: "porra. Eles não vão beber nunca essa merda de vinho. Nem esse vinho, nem porra de bebida nenhuma dessa merda de carrinho". Eu vou é abrir esse maldito vinho licorado. Foda-se.

Na penumbra, fui até a cozinha. Peguei uma jarra vazia, um saca-rolhas e um copo. Abri o vinho na surdina, debaixo do sofá (com um AHAM!! bem alto junto). Passei o líquido para a jarra.

Depois, pé ante pé, fui até a cozinha de novo, liguei o fogão e fervi uma bule de chá da índia. Depois da infusão, peguei de um funil e despejei o chá dentro da garrafa de vinho vazia. Meti a rolha de novo, coloquei silenciosamente a garrafa com o chá no carrinho, e fiquei curtindo o vinho madrugada afora, até dormir. Melhor vinho de todos os tempos.


Tempos depois, nossa família resolveu mudar a liturgia de entrega dos presentes: ao invés de cada um seguir à risca uma lista para filhos, afilhados e pais, inventaram de fazer um amigo secreto!

Eu peguei um primo. Comprei prá ele um JB que me custou as burras, mas tudo bem. Noite do dia 24, todo mundo trocando presentes — um luxo. Chegou a minha vez de falar quem era: "ele é assim, assado — aquela merda toda". Aí prtonto, meu primo ganhou o JB — já abrindo e tomando tipo cauboizinho e tal.

Quando todo mundo já havia falado, chegou a vez da minha tia. Aí ela: "meu amigo secreto é assim, assado, gosta disso, gosta daquilo, usa tênis tal, torce para o time tal". Pessoal: "é o Marcelo, é o Marcelo". Minha tia:

— É o Marcelo!

Eu: "opa, obrigado, titi". Peguei a caixa e fui para o meu canto. Abri a caixa. Era a garrafa do Paul Masson com o chá dentro. Do outro lado da sala, minha tia me dava tchauzinhos. Depois me disse, sorrindo: "tu queria tanto esse vinho que eu não resisti, espero que gostes".

Must be Santa

Tuesday, December 21, 2010

O Verão austral chegou



O Verão austral chegou. A lua faz as ondas do mar morrerem em fúria na areia numa festa de espumas; o estio se insurge em marcha, chega a hora da colheita, Perséfone volta para o seio de Deméter, a brisa é mansa e triste, as crianças entram em férias e a Brigada Militar lança a Operação Golfinho, Tramandaí se enche de pescadores e turistas chatos.

O Verão austral chegou. Acho que junto com o largo do 'Inverno', o primeiro movimento do 'Verão' do Vivaldi é um dos mais belos e melancólicos do Estro Armonico. O que seria um paradoxo, a estação mais alegre chora num suave monocórdio de inquietação, melancolia e tristeza.

O Verão chegou. O Verão é o sábado das estações. Ou como dizia o Máriio Quintana: o Verão é um senhor gordo de camiseta na varanda bebendo cerveja. E o Inverno? "O Inverno é um velhinho tritritante".

Certa vez ele conversava com o general Flores da Cunha na redação da Livraria do Globo sobre assuntos diversos e alhures lhe veio à mente essa tese. Flores o fuzilou: "E o senhor? O senhor é qual estação?". Mário Quintana sorriu e disse: "Ah, bom, general, eu sou o Inverno"

O Verão austral chegou. Então vem o estio, vivemos num breve instante de eternidade a eterna perspectiva de cumprir todas as promessas não cumpridas, Perséfone volta para o seio de Deméter, a grama cresce alto, as crianças entram de férias, a vida recomeça e Tramandaí vira uma festa.

Saturday, December 18, 2010

A Bíblia tinha razão...


Jacó e o anjo, por Doré


Tava lendo as manchetes do G1 no Twitter e fiquei imaginando o site mancheteando passagens do Velho Testamento. Ia ficar algo assim:

Jonas em Nínive depois de escapar da baleia: "Tá tudo bem agora".

Reviravolta: Esaú vende direito de primogenitura e Jacó passa a perna em Isaac

Fumacinha branca no Sinai. Mais detalhes em instantes

Caim mata Abel. Meliante responde a pena em liberdade

Jacó briga com anjo e fica manco. Já foi medicado e liberado do hospital

Sarai vê Abraão com Agar e sente ciúmes

Sansão é obrigado a contar enigma durante festa de casamento e mata todo mundo. BM no local

Josué põe Jericó abaixo e é o vencedor. Israelitas dançam nas bancadas

IBAMA vai notificar Moises por mortandade de peixes durante abertura do Mar Vermelho

Josué põe Jericó abaixo e é o vencedor. Israelitas dançam nas bancadas

Golias enfrenta Davi. Davi wins

Dalila corta a peruca de Sansão: Sansão fica furioso e mata filisteus

Acompanhe pelo G1 a diplomação do Rei Davi em Hebron

Reviravolta: Labão oferece Raquel em vez de Lia e Jacó trabalha mais sete anos

Reviravolta: José está vivo e salva família

Exclusivo: israelitas em fuga adoram Bezerro. Moisés da piti, roda a baiana e acaba com todo mundo

Deus manda Dilúvio mas Noé sobrevive

Reviravolta: Anjo trova Agar durante a fuga e ela decide voltar para Abraão

Após denúncias de desvio de verba por empreiteira entraves burocráticos, obras da

Torre de Babel são interrompidas

Sodoma e Gomorra são destruídas — Lot escapa mas sua mulher vira estátua de sal. Deus sobre o incidente: "Eu avisei".

Sunday, December 12, 2010

It's Easy to Remember...

...But so hard to forget. A voz-guia do Sonho Americano — se fosse vivo — faria hoje seus 95 anos. Com vocês, senhoras e senhores...




Se você é mais um daqueles que acha que Frank Sinatra é aquele cara bonachão que canta New York, New York em tudo o que é festa brega de casamento, você está errado. Procure um box-set em compact disc (ou procure na Internet) chamado The Capitol Years e conheça o maior cantor popular de todos os tempos interpretando o vade mecum musical do Século XX.

Saturday, December 11, 2010

A Importância de ser Noel


Noel


Poeta da Vila, poeta lição. Noel Rosa nasceu há exatos cem anos.

Naquele tempo, o gênero pelo qual ele se notabilizaria ainda engatinhava nos saraus da casa da Tia Ciata, no Centro do Rio de Janeiro. O estilo musical dos tempos do Marechal Hermes era diverso e sofria uma enorme influência européia: eram mazurcas, valsas, modinhas, dobrados, tangos. Chiquinha Gonzaga fazia o crossover entre os sons colonizados e a musicalidade brasileira, assombrando a elite bem vestida da Capital Federal com seus maxixes — para muitos, era um verdadeiro escândalo.

Quando Noel Rosa despertou para o samba, em 1930, o gênero já entronizado por compositores como Pixinguinha, Donga, João da Baiana e Sinhô ainda tinha forte influência africana. O primeiro samba carnavalesco de sucesso — e que lançaria o paradigma do compositor popular do gênero por excelência, Pelo Telefone, em 1917, ainda não existia o rádio comercial.

De Pelo Telefone até o a morte de Sinhô, o samba tomou vulto. Em pouco tempo, todos aqueles gêneros europeizados iam cair de moda, como o espartilho e o pince-nez. Da revista para o rádio, logo ele iria cruzar o Rubicão e conquistar o Brasil e o mundo.

Pois o Poeta da Vila surgiu no panorama musical brasileiro ao mesmo tempo em que o samba desceu o morro e que o rádio e o disco ganharam visibilidade pela primeira vez. Noel nasceu em 11 de dezembro de 1910. O parto foi difícil: o garoto não saia do ventre da mãe de jeito nenhum. Foi obrigado a nascer a fórceps.

As seqüelas foram terríveis. Noel ficou com o queixo deformado: seu perfil se tornaria uma marca registrada, o queixo ausente, contrastando com o cigarro caído era uma caricatura que ele gostava de fazer, e o transformava quase numa figura chapiliniana.

Contudo, se o poeta nasceu à fórceps, seus sambas nasciam com extrema facilidade. Sua música lhe brotava pelos dedos, pelos cotovelos. Mais do que isso: ao contrário do estilo de samba de roda típico do morro, Rosa, de educação livresca, emprestou ao samba um estilo sofisticado sem, no entanto, deixar de pagar tributo aos grandes mestres. “A Vila/não quer apagar ninguém/só quer mostrar que faz samba também”.

E a Vila fazia um samba que fazia até dançar os galhos do arvoredo e a lua nascer mais cedo. Além de sambista, o Noel era um exímio versejador. Tinha um talento impressionante para rimas originalíssimas, como em Três Apitos: “nos meus olhos você vê/como sofro cruelmente/com ciúmes do gerente/impertinente/que dá ordens/a você”.

Noel era uma espécie de malandro quixotesco. Por um lado, se integrava ao estereótipo, como em Conversa de Botequim. Por outro lado, fazia polêmica com quem bancava o papel do malandro por excelência. Por conta disso, ele acabaria se metendo numa curiosa polêmica com Wilson Batista — este defendendo a malandragem, enquanto Noel fazia o papel do advogado do diabo. Na polêmica, salvaram-se todos, e quem saiu ganhando foi ele — o samba.

Noel chapiliniano. Para ele mesmo ele compôs malandro medroso: gostava de se caricaturar. Noel por Noel. Não tinha navalha, a gravata da foto era uma meia branca. Os sapatos sujos, a roupa amarfinhada. Mas sempre dava um jeito de colocar o melhor terno (o único) terno branco para passear bonito pela Lapa ou pelo Café Nice. Sempre precisava de vintém: “seu garçom me empreste algum dinheiro/que eu deixei o meu com o bicheiro”. Nada poderia defini-lo melhor

Noel intérprete: no tempo dos vozeirões estilo Vicente Celestino, com tenores e vibratos épicos, o Poeta da Vila cantava com sua voz pequena e quase cômica. Muitos dividem-se em avaliar quem melhor defendeu suas canções — Marília Batista ou Aracy de Almeida (descoberta dele)? O melhor intérprete de Noel era ele — Noel.

Noel iconoclasta: assim como Orestes Barbosa, ele era, com efeito, um cronista do cotidiano. O autor de Chão de Estrelas trouxe o modernismo para a música em suas serestas, enquanto Noel modernizava o próprio samba. Em O Orvalho Vem Caindo — parceria com o boxeador Kid Pepe — Rosa parte para a temática social: “meu cortinado/é o vasto céu de anil/e o meu despertador/é o guarda civil/que o salário inda não viu”. Misturando o onírico do céu e o profano do guarda-civil, o apito da fábrica ou o Russinho do Vasco da Gama (em Quem dá Mais?), ele tirava a poesia dos píncaros azulados do parnasianismo para o rés do chão do lirismo de cada dia.

Noel também era inefável ao recriar o vocabulário, em misturar o gongorismo poético da voga de então com a gíria dos bares e das calçadas, ele foi único em criar rimas insólitas para os ouvidos acostumados ao romantismo das modinhas, ao falar de fábricas de tecidos, guardas-noturnos, ou criando paráfrases engraçadíssimas, como em Cordiais Saudações: “Espero que notes bem/estou agora sem um vintém/se puder, manda-me algum/Rio, 7 de Setembro de 31”.

Cedo ele aprendera bandolim e o violão. O instrumento lhe dava sensação de importância. Dedicou-se com tanto afinco ao pinho que, com quinze anos, sabia tocar quase como os velhos chorões da Praça Onze. Porém, ao mesmo tempo em que o Poeta da Vila se entusiasmava com a música, ele foi largando os estudos em Medicina. Com vinte anos, ele já era o mais novo ‘rapaz folgado’ do bairro, fazendo ponto no Rio Clube ou no ponto de Cem Réis (que viraria samba).

Da Vila para o disco e o rádio foi um pulo. Primeiro com seus amigos Almirante e João de Barro com o Bando de Tangarás, que faziam números de emboladas e modas sertanejas, que faziam muito sucesso nos teatros de revista no final dos anos 20. O samba entra em sua vida a partir de Com que Roupa, de 1929.

O disco já existia no Brasil desde 1902. Contudo, foi com o rádio comercial, a partir dos anos 30 e o surgimento das três grandes — Philips, Mayrink Veiga e Educadora que Noel seria um dos compositores pioneiros justamente na função de cantores/compositores/artistas numa época em que a questão de direitos autorais ainda era antedliuviana e a expressão Indústria Cultural era algo inimaginável.

Mas nos anos 30, com a explosão promocional das marchinhas de carnaval, e éter e o microfone era o elemento irresistível e suficientemente capaz de criar a geração de entretainers no Brasil que saía do Teatro de Revista para o éter.

No princípio, Noel era contra-regra do Programa Casé, na Phillips. Ninguém ganhava bem, mas trabalhar no rádio era uma cachaça. Ali, ele pedia achar qualquer intérprete e, de chofre, apresentar-lhe o seu mais novo samba. Mário Reis, Aracy de Almeida, Marília Batista se tornariam grandes defensores das canções do Poeta. Aliás, saindo do cerco de Francisco Alves, que empresariava o então jovem Orlando Silva, Noel conseguiu fazer com que o Cantor das Multidões estreasse no disco com uma músicas suas: Menina dos Olhos(com Joel, da dupla Joel e Gaúcho) e Cidade Mulher, (de 1935), trilha do filme de mesmo nome.

Naquele tempo, para ganhar um tutu forte, um compositor popular dependia de um grande cantor para servir-lhe de ponte entre ele e o disco. Disso Francisco Alves se valeu durante sua vida da seguinte forma: gravava a canção desde que ganhasse a co-autoria. Assim Benedito Lacerda ganhou parceria com Pixinguinha e Chico Viola com Ismael Silva e Noel.

A parceria rendeu sucessos para Alves e Mário Reis, que formavam uma dupla no começo dos anos 30. Mais tarde, o Poeta resolveu se desvencilhar desse acordo desagradável: foi quando conheceu Osvaldo Gogliano. Músico erudito, Vadico emoldurou acordes que imortalizaram grandes momentos do Poeta, como Feitio de Oração e Feitiço da Vila. Mas Noel também sabia criar música de qualidade. Tanto que Três Apitos, Até Amanhã e Último Desejo, Com Que Roupa e Conversa de Botequim — o cartão de visitas de Rosa — são composições originais suas.

Poeta-lição: Noel tinha uma outra forma de malandragem. De rima em rima, ele conseguiu transformar música em trabalho. Ele já tinha um talento superior em estar sempre no lugar certo, municiado de suas canções. Nássara dizia que ele conseguia ter livre trânsito com todo mundo no meio. Desde a turma do dia e a do morro (fez Pierrô Apaixonado com Heitor dos Prazeres) ou a barra pesada do sereno. E seus sambas complementavam isso. Ele era um agitador cultural avant la lettre e um inteligentíssimo marqueteiro de escol muito antes da palavra jabá se tornar depreciativa...

Noel Rosa preferiu arder arder como uma chama breve do que se extinguir com o tempo. Vivia a boemia do Rio de Janeiro dia e noite. Como aconteceu com seu amigo Custódio Mesquita, viveu muito, viveu pouco. Como cronista de costumes, cantando sua cidade e a Vila, versejando amores de tango, amores não correspondidos.

Três Apitos talvez seja o maior exemplo. Noel gostava de uma funcionária da fábrica Confiança e o apito de outra fábrica (ele confundiu-as, como diz Carlos Didier e João Máximo, em biografia definitiva do compositor) foi o mote para a sua mais bela canção de amor: “mas você não sabe/que enquanto você faz pano/faço junto/do piano/esses versos/prá você”.

Saudade que faz um samba: “e quem suportar uma paixão/sentirá que o samba então/nasce do coração”. Poeta-lição. Noel está morto? Não. Noel está vivo e faz um século. Século de Noel Rosa, o Poeta da Vila.

Thursday, December 02, 2010