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Thursday, December 29, 2016

O Grupo Ivanhoé


Anúncio do Grupo Ivanhoé na Folha da Tarde


No dia 11 de setembro de 1971, a folha da Tarde anunciava: "Paulistas descobrem o Sul com a Ivanhoé". A empresa, na verdade, era paulista e capitaneada por um grupo de jovens que haviam ganho um bolão na Loteria Esportiva. Com a Ivanhoé, eles queriam criar uma espécie de holding, abarcando desde um banco de crédito imobiliário até uma agência de notícias. Aliás, anunciavam desde já uma publicação própria, a Alhos e Bugalhos, produzida pela recém fundada Ivanhopress.

No entanto, foi um necrológio, publicado na edição de 20 de outubro daquele mesmo ano que se soube mais sobre a megaempresa. Tratava-se de convite para enterro de Pedro Louzada Balaustre, que seria ocorrida na cidade de Muçum. O texto também destacava as ramificações do grupo. o Correio do Povo também deu notícia do infortúnio, pormenorizando o perfil do falecido presidente da Ivanhoé Produções "aos 84 anos".

No mesmo dia, a Folha divulgava um "comunicado" (reprodução acima) que repercutiu inclusive na Assembléia Legislativa. Um deputado da região de Muçum que, pedindo espaço na ordem do dia, comunicou o passamento do ilustre conterrâneo.

O Diário de Notícias de 22 de outubro trazia reportagem sobre Balaustre, intitulado pelo jornalista que assinava a matéria, Janer Cristaldo, de "Lincoln do oeste paranaense". O texto também destacava a importãncia do falecido em várias esferas públicas e até culturais.

Três dias depois, Pedro Louzada Balaustre Júnior divulgou ao seu público externo — acionistas, autoridades civis e eclesiásticas — relatório da Ivanhoé Produções a respeito das novas ramificações do grupo: Ivanhoaço (Aços Finos Ivanhoé), Ivanhoair, Ivanhomem (uma espécie de Mobral), Ivanholac (Laticínios) Afugi (Associação de Funcionários da Ivanhoé), Ivanhocard, Ivanhoterra, Ivanhojuris, Ivanhomed, Ivanhoquímica e Ivanhofértil.

No fim, o relatório resume biografia de Balaustre, destacando seu começo no seio da terra, seus esponsais com Carmelita Umbrella, a matriarca da família e protetora das artes. Carmelita era uma fusão de Darcy Vargas, Anita Malfatti e Lina Bo Bardi. Perplexo com o relatório, o advogado e professor de Direito Antônio Martins Costa mandou carta à Louzada Jr. dando enorme apreço ao finado patrono, "exemplo de amor e dedicação e de bem servir".

Semanas depois, a imprensa seguia repercutindo as ações da Ivanhoé. A coluna de Antônio Carlos Porto (De Alto a Baixo) dava votos de boas festas à Dona Carmelita, que iria lançar pedra fundamental do Orfanato Pedro Balaustre; Ataíde Ferreira, na Folha Esportiva retribuía mensagem de fim de ano de um certo Alberto Umbrella, do clube Fortes e Livres, da cidade de Muçum.

No dia 31 de dezembro de 71, Carlos Coelho, no Informe da Zero Hora, dava um furo: Gabril Inellas, loco-tenente geral da Ordem Hospitalar de São Lázaro, anunciava interesse em adquirir o controla acionário da Ivanhoé Produções. Fez-se a polêmica: dado o processo de translado de uma grande empresa gaúcha do cone sul, cogitou-se, à guisa de solução imediata e salvacionista, a reativação da Micronorte, empresa vetusta que fora criada quando o Bicre-Banco Ivanhoé de Crédito Republicano, sob ameaça de ser absorvido pela Unidesco, foi salvo em cima do laço por uma operação deus ex machina (ou quase excusa?) da Holding Midas, que contou com o auxílio da Ourivesaria Balaustre, Refinaria de Petróleo Dilúvio S.A e a Metalúrgica Umbrella S.A.

A coisa engrossou quando um certo grupo econômico criou campanha publicitária sobre seu respectivo presidente, posto a ombreá-lo com o desaparecido Pedro Balaustre. A resposta veio incontinente de Balaustre Jr, que respondeu à matéria, ameaçando acioná-lo na Justiça através da Ivanholex (Advocacia), dadas a farta documentação franqueada pela Ivanhoinform — Espionagem e Sigilos Industriais. Contudo, antes que a polêmica ganhasse vulto, desapareceu por completo.

Repercutindo o caso, porém, a edição de 4 de julho de 72 da Zero Hora trazia um furo, dado em primeira mão por Aspecyr Umbrella, da Ivanhopress: estavam em negociações uma possível cinebiografia de Louzada Balaustre. Enquanto isso, o Grupo Ivanhoé crescia: foram fundadasa a Ivanhodog (rede de lanchonetes fast-food, em moda na época em Porto Alegre, com o advento do cachorro-quente), Ivanhonasa (Rede de Comunicação), Ivanhoféretro (ramo funerário), Ivanhoar (refrigerações industriais e domésticas), Ivanhocar, Ivanhobrás (aproveitando a onda de civismo dos anos 70) e, por fim, a Rede Ivanhoé Sul de Comunicações. Tudo sempre ganhando relativo espaço na imprensa porto-alegrense.

Em notas e rodapés de colunas, também surgiram outros desdobramentos do Grupo Ivanhoé: da parceria comercial com o Grupo Habeas Corpore (rede de supermercados Império S.A), e o surgimento de franchises, como as Boutiques Carmelita, Empresa de Táxi Bandeira 3, Roupas Íntimas Jandira S.A, Cabanha Ivanhoé, Haras Ivanhoé, Ivanhoave (Aviário Ivanhoé), a novos braços tentaculares da Ivanhoé Produções — até a Ivanhoerva (empresa de fomento ao plantio de gererê).

A imprensa também dava conta de uma futura escuderia, o Balaustre's Racing Team, disposto a suplantar a Coopersucar. O patrocínio dos bólidos, é claro, é do Banco Ivanhoé S.A.



Tempos depois, descobriu-se a o Grupo Ivanhoé só existia na cabeça dos idealizadores da brincadeira: Rogério Mendelski, José Antônio Pinheiro Machado, depois contando com a ajuda dos demais citados (aliás, Luiz Fernando Verissimo ficava responsável pelos artigos de fundo, como o reproduzido acima). O mico ficou por conta de próceres tanto da Assembleia do estado quanto do Congresso, que entraram para os anais com seus respectivos votos de pesar, proferidos no púlpito ao passamento do patriarca da inexpugnável Ivanhoé Produções.

E do pároco da Matriz de Muçum, que realmente preparou a igreja para as exéquias do inesquecível Pedro Balaustre. ^



PS: a história sairia, com riqueza de detalhes, no livro Anedotário da Rua da Praia 2 (o melhor dos três), do renato Maciel de Sá Júnior.




Monday, December 26, 2016

Quarto Distrito, Dias e Noites


A Roosevelt nos tempos de Av. Eduardo

Andando de passe livre por uma Porto Alegre quase deserta e de lojas fechadas em busca de algum bar, desci no fim do T2 e fiz uma coisa que não fazia há tempos: percorrer toda a Avenida Presidente Franklin Roosevelt, no 4º Distrito.

Desci da João Inácio até onde ela desemboca numa pororoca de carros e ônibus no cruzamento da Farrapos, Almirante Tamandaré e Visconde do Rio Branco. Na esquina da Tamandaré, avistei o Bar Garota aberto.

Depois da segunda cerveja, perguntei ao dono do estabelecimento se ele se lembrava do bairro nos anos 70 ou 80. Ele respondeu que toca o boteco desde o começo dos anos 90.

Então eu contei que eu havia descido a Roosevelt de cabo a rabo e concluí que o Garota era o único comércio antigo que ainda resistia no São Geraldo, que é uma região da capital que, justamente a partir dali, passou a sofrer uma decadência terrível.


Na verdade, eu nasci lá. Não vivi muito tempo no bairro. Morei depois em outros lugares, mas o São Geraldo sempre será um lugar meio mitológico. Afinal, eu passei meu primeiro ano de vida ali. Depois, mais tarde, sempre retornava no Natal. No Gobbo — aquele edifício gigantesco na frente do posto Shell, além de nós, meus avós maternos habitavam o segundo andar (nós no quinto).

Claro que não tenho recordações daquele começo profundo: mais daqueles serões natalinos, quando ainda era possível juntar toda a família da parte de minha mãe. Hoje parece engraçado imaginar como aquele apartamento, apesar de gigantesco, conseguia comportar tanta gente.

Lembro do Presépio originalíssimo da minha avó. Ficava num balcão. Meu avô, que sempre fora habilidoso com as artes de marcenaria, havia montado ele. A reunião de Natal fazia parte do calendário da família. Nós éramos os "de fora". Vínhamos ou do rio ou de Curitiba especialmente para o ágape — e sempre emendávamos o Ano Novo junto.

Nessa pequena nesga de tempo, me era possível voltar á Porto Alegre. Porém, como não tinha idade para andar livre pela cidade, meus passeios eram nas redondezas.

Só que, naquele tempo, a Roosevelt — ou antiga Av. Eduardo, era um imenso bulevar. Tanto que a rua possuía um comércio gigantesco, era um shopping a céu aberto. A própria construção de prédios como o Gobbo, o Satélite (da Varig, na esquina da São Pedro com Farrapos) ou o King Eduardo estava no contexto de um bairro em ascensão, com lojas, cinema, clubes e associações. O Gondeleiros tinha um dos melhores carnavais de Porto Alegre.

O comércio de rua do São Geraldo naturalmente chamava gente de todas as partes da Zona Norte. Difícil comparar com algo hoje. Algo como é a Azenha, porém sem aquela populacha e trânsito frêmito de ônibus e pedestres. A Roosvelt era mais calma, até porque era uma via paralela à Farrapos, que puxava todo o tráfego norte-centro.

Lembro que a gente fazia todas as compras de natal ali. Descia do Gobbo pela penumbra porta de serviço — minha avó me levando feericamente pela rua, não sem antes parar para conversar com tudo o que era dona de boutique pelo caminho. Logo, do lado do prédio, tinha a Boutique das Noivas. Mais adiante, antes da Igreja Batista, a oficina Coruja, no fim da quadra, a gráfica Belgraf. Na Quintino Bandeira havia um restaurante que servia rã (esqueci o nome) e que também fechou faz tempo.

O comércio começava ali, na altura da lancheria Sagres; a lotérica e tabacaria, depois vinha a Livraria do Globo, Multisport, Dália (outra parada da minha avó para papear), Casas Pernambucanas, o consultório do dr. Raskin e mais uma loja que esqueci. Quase no Gondeleiros, tinha a Joilie Modas (outra parada da vó) e, ao lado, uma lanchonete (o Milka) que, até este ano, havia virado num pé sujo (onde eu primeiramente pretendia gelar a garganta mas descobri, pálido de espanto, que era um estabelecimento a menos na avenida).

Verão em Porto Alegre era um inferno. Mas, naquele tempo, a gente podia aproveitar a Roosevelt, que tinha uma belíssima iluminação noturna e uma vida idem lá para os lados do Concórdia. Sempre tinha um bar ou lanchonete onde dava para curtir até a meia-noite. época de Natal era bonito de ver tanta gente na rua: muita gente, mas com todo o tempo do mundo.

Passando a Moura Azevedo, tinha a PanVel e a Lobrás à direita de quem vai para a Sertório. A Lobrás era a minha loja preferida (euqe tinha umas sacolinhas bonitinhas quando a gente comprava balas), e principalmente porque era a que tinha a melhor seção de brinquedos do São Geraldo. Adiante, havia à esquerda a Renner (três andares, onde hoje é a Coelho Comércio de Móveis), a Soberana dos Móveis e a Imcosul. Hoje tem o Rissul na São Pedro. Naqueles tempos, o único supermercado da região era o Real, que ficava na esquina da Pernambuco. Uma pernada.

O restante do comércio se espraiava pela São Pedro, entre a Roosevelt e a Farrapos. O Marinha Magazine, do outro lado da rua, do lado de onde fica hoje a Caixa. Defronte, no 2502 da Farrapos (onde meu avô morava antes do Gobbo, depois de sair do Centro, há priscas eras), a J.H Santos, onde todo mundo ia lá aproveitar as "barbadinhas". Foi dali que eu ganhei meu Atari, no Natal de 85, sempre fingindo acreditar que eram presentes do Papai Noel.

Falando em presentes, antes da distribuição, minha avó (que, como matriarca, era a responsável pelo pregão dos presentes depois da reza inicial e agradecimentos pelo ano que passou etc etc.) pedia para que a gente não estragasse os papéis-presente. ela tinha um compartimento no armário do quarto com toneladas de papel de presente. Muitas vezes, ela comprava alguma lembrancinha para alguém em algum bazar, mas depois embrulhava o regalo com papel da Renner — aquele de Natal, que era dourado com vermelho, só para fingir que era um presente chique. eu me divertia vendo ela fazer a trampa (e depois pegava os papéis tudo de novo).

Aqueles serões de Natal eram divertidos. Até o ponto em que as famílias das famílias viravam famílias. E sempre o patriarca morria, a matriarca era o fator de coesão do grupo. Até que enfim ela partia, e todo o núcleo se desfez. Isso acontece com todas, não iria deixar de acontecer conosco.

O curioso foi que, junto com o progressivo desmanche da família Esperança, ocorreu o declínio da Roosevelt. No começo dos anos 80, surgiu o Iguatemi, seguindo uma tendência de fim de comercio de bairro pela cidade em favor de shoppings, a partir do primeiro deles, o Centro Comercial João Pessoa. Algumas lojas fecharam suas filiais no São Geraldo, como as Pernambucanas. Outras simplesmente fecharam suas portas — Imcosul, Soberana dos Móveis, Marinha Magazine e a J.H.

O comércio que ficou é pequeno, literalmente de rés do chão. E a Roosevelt congelou no tempo: o bairro está lá mas, como aconteceu comigo ao descer a avenida dos seus estertores até a Farrapos, naquela quente tarde de 25 de dezembro, estava eu na verdade em busca de outra Roosevelt, uma Roosevelt que não existe mais.






Thursday, December 01, 2016

Desapegos



No começo deste ano, por motivo de força maior, tive que me desfazer da minha coleção de discos. Não sei quantos eram, mas era uma estante inteira. Isso que eu recentemente havia ganho mais vinis de amigos, embora não tenha tido sequer a oportunidade de escutá-los. O problema é que, com o passar do tempo em que fui me mudando para lugares cada vez menores, cheguei a um ponto em que sequer tinha condições de fretá-los.

No entanto, foi uma decisão que vinha sendo pensada há algum tempo. Pelo menos, desde que meu DDS 99 da Gradiente estragou de vez. O rádio estava com a luz digital apagada, os tapedecks estragados e o prato tocava sem retorno. Até que, numa última mudança, a correia estragou de vez.

Menos mal. Acho que teria sido muito mais difícil para mim se o toca-discos ainda funcionasse. Então, em março, eu dividi minha coleção entre aquilo que podia ser bricado, e aquilo que talvez rendesse algum dinheiro, e mais alguma coisa que pudesse ser vendida a curto prazo. Meu plano não deu muito certo. Eu dispunha de duas semanas para livrar-me de tudo. Um lote eu vendi, e me garantiu alguma sobrevivência. Aliás, eu sequer imaginava que os elepês rendessem dinheiro. Na verdade, nem tudo. A maior parte — e paradoxalmente a que eu mais me aferrava — não tinha valor nenhum.

Nenhum comprador demonstrou interesse nos meus discos de música clássica, que compreendia acho que 90% do meu acervo. ia desde aqueles títulos da Deutsche Grammophon até fascículos da Abril, como o Grande Compositores da Música Universal.

Lembro do meu primeiro disco de música clássica. Eu comprei num brechó, que ficava na Cristóvão Colombo, na frente da antiga Brahma. era um fascículo do Chopin. de tanto ouvir aquele velho disco riscado do Roberto Zidon na Rádio da Universidade tocando Ernesto Nazareth, eu fiquei com vontade de comprar um disco de clássico. Acabei me viciando.

O curioso é que, nesse brechó, a dona havia adquirido um lote gigantesco que certamente pertenceu a uma pessoa que colecionava discos de clássico. Imagino que fosse um senhor que morreu, a família se desfez daqueles 'trambolhos' e a dona comprou o lote. Eu passava todo dia ali. Ela nem era entendida do assunto, o negócio do brechó era roupas.

Eu notei que os discos eram escolhidos a dedo, e isso numa época em que o gênero erudito realmente fez época na história da indústria fonográfica, vamos dizer assim, brasileira. Até porque, hoje, na era digital, num nível internacional (e virtual) souberam lidar com os novos formatos e o mercado de nicho, ao passo que as novas gerações vão descobrindo esse tipo de música, e tem tudo nos fones ao passo de um clique.

Mas lembro de quando eu descia no subsolo da Casa Coelho: tudo lá embaixo era só jazz e erudito, e tinha um balconista que entendia das duas coisas. Imagino que o antigo dono dos discos costumava ir na Victor, na Krahe ou na Coelho, e saía de lá com toneladas de Karajan, Bohm, Richter, Previn, Rubenstein e Brailovski, tudo em lançamentos RCA, Columbia, DG.



Era esse tipo de material que eu encontrava ali. Acho que o básico para uma discoteca de clássico eu comprei ali, com meus morlacos de estagiário. Tanto foi que os meus discos de rock começaram a ocupar menos espaço na minha estante. E era algo curioso de se ver. Esses eruditos, em brechós e sebos da cidade, sempre eram vendidos a preço de banana. Ainda são.

A gente vivia um tempo distante da revolução do mp3 e da Wikipedia. Então, a importância que aqueles fascículos e contracapas (as contracapas, meu Deus, as contracapas!) tinham para a formação de cada um de nós era incomensurável. Os fascículos da Abril foram o meu começo. As 9 Sinfonias (caixa da Abril, com a Sinfônica de Leipzig) do Beethoven. Ao mesmo tempo em que me guiava pela rádio da UFRGS, aquilo tudo criou em mim uma obsessão por música clássica que perdura até hoje.

De vez em quando, passo em algum sebo ou no Brique da Redenção, e vejo algum disco do tipo e lembro da minha coleção. Lembro do dia em que, não podendo mais ficar com meus elepês e, tendo que entregar o apartamento, apelei para o Mensageiro da Caridade. liguei para lá e agendei que passassem para levar os discos.

Enquanto os carregadores encaixotavam tudo aquilo, eu lembrava do meu primeiro disco, de tantas madrugadas de audições, das leituras das contracapas. aquilo tudo representava uma curva de vida, de uma vida que se fez por tantos anos, álbum a álbum, adquirido e guardado com tanto carinho. Recordava do dia que aquele Hammerklavier com o Emil Gilels foi comprado, aquela caixa com a Zauberflôte também, aquele Puccini da Victrola com árias com a Lícia Albanese, as valsas do Chopin com o Arrau, a Sinfonia em Ré Menor do Beethoven com o Toscanini, o meu sonho de ter toda a Bach Edition da Telefunken (aqueles de capa azul com fotos em relevo) com todas as cantatas sacras do mestre de Eisenach, os discos do I Musici, todas aquelas capas lindas da Deutsche Grammophon, que sempre foi aquela gravadora que a gente comprava o disco pelo selo, e se não fosse por isso, era pela capa. Aquela Eroica com o Karajan que eu garimpei na Augusta, quando fui para São Paulo que, aliás, era importado e o dono da loja me cobrou uma nota por ele. Aquele fascículo do padre José Maurício que, na época, tinha a única gravação do Réquiem dele.

Em poucos minutos, o pessoal do Mensageiro colocou quase duas décadas de discos do meu acervo em sacos e caixas e desceu com tudo para o caminhão. Não podia mais mantê-los. Me senti vazio. Ainda me senti, sempre que passo na frente de um brechó com discos antigos. Fiquei órfão de meus elepês. Os de rock eu passei adiante sem remorsos. Nem eram tantos. Menos mal que, desde que eu descobri o mp3, eu fui me desapegando dos bolachões.

Não tenho fetiche por vinil, algo muito comum hoje. Mas é impossível livrar-me de toda a cultura de formação que gira em torno da minha geração de ouvinte, quando o long-play era relevante. Eu me apegava mais porque aquele acervo, com aqueles solistas, e aquelas gravações (Georgy Cziffra interpretando os estudos do Chopin), era material de uma época em que o cast dos grandes selos mantinham nomes como um Karajan, cuja imagem se misturava com suas interpretações de Beethoven, como Richter com Bach. Enfim, toda uma época de ouro do vinil de clássicos que acho que renderia um belo livro sobre o assunto.

Como eu disse, as lojas davam um destaque enorme para uma seção como a de erudito, ao mesmo tempo que as gravadoras lançavam muita coisa do gênero. Foi um boom que começou nos 60 (muitos dos meus eram daquela época, a maioria 60/70, o auge do vinil). A RCA tinha até a série Victrola, que eram edições populares de clássico, a preços módicos. Para quem se detiver, vai perceber o valor de uma contracapa de disco era como hoje eu ouvir o Piano Concerto do Schumann (tinha o disco com o Van Cliburn e o Fritz Rainer) no Youtube lendo a Wikipedia.

Por essas e outras que meus discos farão falta, mas não tanto. Eu até que ainda tenho acesso àquele manaicial de informação. O que fica é a mesma curiosidade enciclopédica que querer aprender sempre. Ou seja, não me apegava pela forma (vinil) mas pelo conteúdo.

Ele hoje está no mundo virtual. Não sei se é um apanágio zodiacal, mas eu pressinto as coisas lentamente. Então, desde muito tempo, eu já me preparava para o fatal desenlace. Lá se foi meu acervo para a caridade. E a única pessoa que daria valor aos pobres discos era este que vos escreve.

Às vezes eu aleatoriamente ouço, aqui ou ali, algum trecho da Sinfonia do Novo Mundo, do Dvorak, ou a suíte da Coppélia, ou o final do primeiro ato da La Traviata, e me perco em divagações. Fico imaginando que, em algum lugar fora do tempo, meus discos estão incorruptos, naquela mesma estante, esperando por mim.

Wednesday, April 22, 2015

Orfeu no Refeitório



Encontrei uma doppelganger de uma antiga amiga no restaurante universitário na hora do almoço. Eu sentei e ela vinha do bufê. Olhei, a mesma altura, óculos, se sentou numa mesa mais à frente (não me viu e nem tinha como, eu estava no fundo, atrás de uma janela com sol nas costas). Olhei, era ela, mas não podia ser ela.

Sentou de costas para mim umas três ou quatro mesas adiante. Eu já tinha certeza que era ela. Mas fiquei pensando que não, porque ela não podia ter acesso ao refeitório porque não era vinculada. Mas eu não poderia ter certeza, porque não falo ou vejo ou sei nada dela há uns dois anos.

Pensei que não podia ser ela porque ela não podia estar ali, mas pensei que ela pode ter ido para ali de alguma forma nesse meio tempo, e afinal de contas, tudo pode acontecer nesse espaço de tempo.

Não quis me aproximar porque não nos damos mais e só iria piorar, mas ao mesmo tempo me censurei, achando tudo isso um truque da minha imaginação. Mas conservava os olhos nela, achando tudo muito parecido, todavia meu sexto sentido me dizia que era ela, sim.

Eu não conseguia resolver esse conflito, era ela e não era ela. Não podia ser ela. Pronto. Não era ela. Uma hora, uma outra moça foi falar com ela, achei que fosse sentar com ela (não lembro se sentou) contudo depois se foi, e ela ficou só de novo comendo.

Reparei que ela tinha um copo, e estava tomando água e sabia que a verdadeira não bebia durante as refeições. Isso fez com que eu começasse a pensar que eu estava ficando é louco, mesmo, um tarado com pensamentos obsessivos, e o meu lado que dizia que não era começou a ganhar terreno.

Não era ela, não era ela, e eu fazia o meu repasto com garfadas triunfais de arroz e feijão. Mas o cabelo, os brincos, a altura, eram dela demais, achava muito bizarro, porém aquele copo d'água não fazia o menor sentido. A não ser que ela (a verdadeira ou a doppelganger) de repente, por algum motivo que eu desconheça, resolveu, naquele dia, beber durante a refeição.

Terminei de almoçar e ela estava (olhei de relance, por alto) algo como tentando terminar o melão da sobremesa. Fiquei lá no fundo, com a bandeja vazia, olhando.

Ela demorava mais para devorar o melão do que o tempo que levou para almoçar. E eu com um ponto de exclamação no meio da cabeça e passando mal de ter comido daquele jeito, já sem fome desde a primeira ou segunda garfada.

Aqueles minutos levaram uma hora. De repente, ela se levantou, e foi levar a bandeja.

Eu fui atrás, bem devagar, mas já de volta ao planeta Terra a achando aquilo tudo muito absurdo, contido e tentando entender por que eu tinha tanta certeza que era ela (a partir dali, não vi com clareza mais o rosto), e estava suspenso, pensando que, se realmente fosse ela, aquele reencontro não poderia ser, não deveria acontecer. Como se a inexpugnável mão do deus Marte impedisse Diomedes de seguir além do fado.

Vendo-a de costas, parecia que o corpo não era o mesmo, mas a altura sim. E assim eu a segui (seguir?) até o lugar de deixar as bandejas. Ela deixou, virou-se e não olhou para trás. Eu estava pensando: "não é ela, se a interpelasse e não fosse, iria parecer um galanteio barato ("te conheço de algum lugar?"). Ou ser ela mesmo e, não, nós não poderíamos rever-nos.

Ela se dirigiu ao bebedouro e eu, com aquela lógica do "era não era, não é" já estava achando por certo não interpelar ela, quem quer que fosse.

Deixei a minha bandeja, estaquei, vi ela sumir de costas através da gigantesca fila do bufê e segui até as escadas vazias. sem olhar para trás. Até que, num ponto distante do povaréu, logrei esperar por um minuto - tempo que qualquer um levaria para sair do refeitório depois de largar a bandeja. Olhei para trás. Ela não passou.

Desci as escadas. Olhei mais uma vez para trás, e não era ela, mas ela não vinha. Esperei mais um pouco na calçada, ela não desceu. Àquela altura, eu já estava pensando em esquecer meu orgulho tolo e falar com ela, fosse quem fosse. Mas ela não voltou mais. Os deuses quiseram assim. Então eu fui embora.

Monday, February 14, 2011

Obrigado, Ronaldo

Eu acordava lá pelas cinco e meia da manhã, fazia o chimarrão; enquanto ficava soturno no escuro esquentando a chaleira, da sala olhava a janela, como um fantasma.

Do fim da quadra, lá vinha aquele homem, um cinquentão baixo e curvado. Desengonçado e janota, seus braços pareciam não corresponder com o ritmo dos passos e do corpo; coroava-lhe a cabeça grande um tufo de cabelos brancos ralos.

O carão cor de cuia revelava alguma raiz fronteiriça. Carregava um fardo descomunal de papel às costas, enfeixados por uma lona amarela e caminhava curtas passadas bamboleantes, como se subisse uma ladeira imaginária.

Então eu descia as esdadas de chinelo e ia até a caixa de correios do prédio: era a hora do jornaleiro chegar.

Achava engraçado quando ele metia o jornal quentinho nas caixas de correspondência, alguém chacoalhava as janelas, como se suspeitando de algum salteador noturno. Ato reflexo, sem parar seus movimentos, dizia: "não é ninguém, é o jornaleiro!".

Fazia isso sempre. Um dia, eu lhe interroguei:

— Como assim, você não é ninguém?

Ele riu e explicou o caso. Sempre que uma voz de dentro de alguma casa perguntava, ele dizia: "não é ninguém, é o jornaleiro". Eu repliquei: "mas qual é o seu nome?". Ele: "eu me chamo Ronaldo".

E foi embora.

Outro dia que falei com ele não quis detê-lo (ele é uma pessoa muito ocupada, como todos), contudo lhe fiz uma revelação: eu também já havia sido jornaleiro. Disse-lhe no entanto que de jornal de bairro. Trabalhei enquanto a pequena publicação durou; distribuía exemplares pelo Moinhos de Vento e em Petrópolis. Era cansativo, mas era heróico. Eu era estudante de jornalismo e era jovem!

Bons tempos em que a gente enchia um carro de jornais recém saídos do Expresso Caxiense, na Rodoviária e levava a carga para algum ponto do bairro.

(um parêntese: além de jornaleiros, nosso grupo de entregadores eram os próprios redatores e editores, entre aspas. Coisa de juvenília, de tempos de quando éramos estudantes idealistas, mas isso já passou.)

Nos separávamos cada um com um fardo e, sem nenhum método, íamos colocando os exemplares embaixo de portas, em caixas de correio ou na escrivaninha de porteiros perplexos (muitos ou não aceitavam ou queriam que a gente colocasse os jornalecos em caixas de correspondência, porém em edifícios com mais de quarenta apartamentos, imaginem!).

Era exaustivo e insalubre — principalmente sob o frio do Inverno gaúcho. Porém, no fim do "expediente", terminavávamos o serviço bebendo cerveja uruguaia no posto de conveniência da rótula da Protásio (antes da Prefeitura construir aquele viaduto medonho).

E mais: eu me julgava importante. Achava que estava fazendo a minha parte para a humanidade em realizar aquele trabalho de Sísifo. Os jornais estariam cedo na casa dos leitores, e eles iam ler as minhas matérias...

Eu me julgava importante. E aquele pobre homem, que nem se dignava a dizer o nome, não dava a mínima: apenas queria terminar o serviço e voltar para casa. E quando lhe perguntavam quem era, ele dizia:

— Não é ninguém, dona, é o jornaleiro.

Mas ele era um homem, tinha dignidade e um nome: Ronaldo. Ele me entregou o jornal, plastificado. Fez menção de seguir seu caminho na madrugada. Então se despediu:

— Obrigado, moço.

E eu lhe respondi:

— Obrigado, Ronaldo.

E lá foi ele assobiando algo sem melodia.