Saturday, February 12, 2011

O Rei se Diverte

Estava a ouvir o Rigoletto, do Verdi. Quem leu À sombra das Chuteiras Imortais, do Nelson Rodrigues, deve se lembrar de uma expressão recorrente nas célebres crônicas esportivas do escritor pernambucano: "Fazia um mau tempo de quinto ato do Rigoletto".

Ora, prá quem não sabe, a expressão é um delírio literário do Nelson. Não existe nem mau tempo na ópera e muito menos um quinto ato.

Vocês naturalmente conhecem a ária mais famosa, o La Donna É Mobile. O que vocês não sabem — acho eu, é que a ópera romântica tinha um papel na sociedade do começo do Século XIX, dado a sua popularização quando ao papel preponderante das casas de música na sociedade burguesa do Romantismo.


Ou seja, um operista como Verdi compunha uma ópera como quem hoje produz um longa-metragem.

Por exemplo, Rigoletto é, na verdade, uma adaptação do Rei se Diverte, do Victor Hugo. A peça foi um fracasso porque muitos acharam que ela fosse uma afronta ao rei francês Luis Felipe. a peça foi banida.

Verdi como perista tinha que entregar o libreto para a Censura, que na época era austríaca no norte da Itália (que não era ainda unificada). E a Igreja ia cair em cima.

A peça é um retrato sem retoques do hedonismo espúrio da corte francesa do rei Felipe I (e não Luís Felipe).

a história mastra uma corte corrompida numa vida de fofocas, de prevaricação e gente podre. E a cirte gira em torno de um bufão, Treboulet, que Verdi passou a chamá-lo Rigoletto.



Ele é um sujeito mais podre por dentro do que por fora. Sempre procura algo ou alguém para descontar o fato de que ele é feio e corcurda. A corte real é uma alcatéia de títeres onde ele a todos maneja, sem escrúpulos.

O libreto do Piave, seguindo conselhor do Verdi, que não queria deixar de adaptar a peça do Hugo, teve a habilidade de mudar a ação no tempo e no espço: Rogoletto se passa, então, na Itália do século XVI, em Mântua. O título original, A Maldição, foi também mudado para evitar problemas com a Igreja, que o acusaria de usar uma expressão funesta.

Ou seja, a quaztro mãos, eles habilmente mudaram a história mas não mudaram a essência.

Verdi soube também caracterizar os dois oponentes, o Duque, o canalha, e Rogoletto, o seu oponente. A música é leve para contrastar com o enredo sombrio e de final trágico.

Rogeletto é mais feio por dentro do que por fora, mas tem uma bela filha (bella figlia del amore). O Duque então, fantasiado de estudante, a seduz, por pura crueldade. Ela é raptada, o bufão consegue resgatá-la. Mas planeja matar o Duque e encomenda um matador de aluguel...

Mas a coisa não termina como ele esperava. O matador resolve matar o primeiro que ver na frente e não sabe que Gilda, travestida de homem para fugir de seus malfeitores, procura Rigoletto. O homem joga o cadáver da garota num saco.

Quando Rigoletto vai tirar o corpo do "Duque" do saco para finalmente jogar o cadáver num rio, ouve o próprio Duque a cantar e se saracotear a sua La Donna É Mobile. Então se depara com Gilda morta em seus braços.

Se Hugo teve problemas com sua peça, Verdi conheceu amplo sucesso mundial, a partir de 1851. É, com efeito, sua obra mais representada de todos os tempos.


Agora silêncio e parem de apupar, porque a orquestra vai tocar.

Desculpem o spoiler.


Thursday, February 10, 2011

I Walk the Line


Cash


Ouçam isso:




O country nasceu com o disco, lá nos anos 50, com o Hank Williams. Esse vídeo é uma brincadeira da minha parte, porque o Lovin' Spoonful lançou essa canção cogitando chegar no topo da Billbord Country, e não chegou. Na verdade, se a gente pensar, o country rock só iria aparecer depois dos Eagles. Ou seja, qualquer arremedo nesse sentido era mero arremedo.

Nos anos 50 o country virou uma espécie de estilo entronizado por Nashville, capitaneado por um programa de rádio, o Grand Ole Opry.

Aquilo virou tipo um paradigma parecido com o cetegismo aqui no Rio Grande do Sul. Mas como existem os mitos, existem os iconoclastas. E um deles é o Johnny Cash.

O Johnny Cash pagaria um preço alto por se pôr de frente ao country de Nashville, mas o Johnny Cash era o Johnny Cash.

A missão do Johnny Cash era acabar com o ranço pueril do country de Nashville e botar rock na coisa toda.

O Cash foi o cara que pôs rock no country, ele e o Gram Parsons. Aliás, a postura punk do Cash em mandar tudo à merda é além do country. O Cash foi um dos caras a mostrar que um gênero musical pode transcender a si. Um exemplo é a própria versão de Darlin' Companion do Johnny Cash do Lovin' Spoonful:

Friday, February 04, 2011

Un patacone bucato

Dia desses, eu ouvi uma história de um gaudério que tomava café no boteco dos motoristas, aqui na Rodoviária de Porto Alegre.

O boteco dos motoristas é aquele que fica defronte ao setor de desembarque, e que vende um pastel e um copo de suco de laranja a R$ 1,50. O gaúcho estava solenemente pilhchado e escorado no balcão, equilibrando a mala de garupa à tiracolo enquanto soprava o cefezinho num daqueles copinhos de cachaça.

Baixo, voz estrídula, metido em largas bombachas gris, chapéu de barbicacho, botas de sanfona com grandes chilenas. Parecia forçar o sotaque e de vez em quando soltava um "chô mico". Fazia menção de sorver um gole, assoprava a bebida e punha o copinho de volta no balcão. E falava pelos cotovelos.

Então ele contou a história de um bandoleiro que era o terror de Uruguaiana, o Black Jack da fronteira, em priscas eras. "Pues vacês já ouviram falar do Zé Viau?". quando todos mugiram um distraído "não" em uníssono, ele começou:

— O Viau era um filho de china com estrangeiro. Desgarrado, com quinze anos, o diacho já havia matado um homem. Com vinte, ele já tinha umas sete mortes no lombo. Um dia, ele matou uma figura importante em Uruguaiana. Acabou se bandeando para os lados da Argentina — disse. — Os parentes do tal figurão da cidade então juraram vingança: não iriam descansar enquanto não metessem o tal Zé Viau numa cova rasa.

Deu um gole (o primeiro) no café. Levou o copo em riste, apontando giratoriamente para todos que o circundavam:

— Pues vacês não sabem que quando a gente coloca uma moeda furada na boca de um defunto que foi assassinado, o facínora acaba voltando ao lugar onde ele cometeu o crime? Sabem?

— Não — disse um motorista da Planalto Itaqui-Porto Alegre, com a vista turva de olheiras de mais de oito horas de viagem já meio arregalada.

— Pues então — continuou o gaúcho — puseram um patacão furado na língua do morto (uns 900 réis, mais ou menos). Cerca de dois meses depois, não é que o Zé Viau apareceu num bolicho lá de Uruguaiana? O dono do bolicho gelou. Cerrou os punhos e suou frio, como se estivesse diante do Abominável Homem das Neves. Não conseguia balbuciar palavra.

— Vacê tá vendo algum fantasma, patrício? — quis saber o Black Jack da fronteira.

Todo cagado, o bolicheiro contou a tal história do patacão furado na boca do defunto.

— O quê? — empertigou-se o facínora, que tirou o pito da boca, cuspiu no chão entre as botas embarradas e tornou a olhar nos olhos do bolicheiro que, àquela altura, estava com a cara branca como quiejo caseiro. — Vacê tá querendo me dizer que enterraram aquele sarnento com uma pataca na goela?

O bolicheiro fez um "sim" com a cabeça, olhos arregalados e a boca aberta de pavor.

— Me espere — respondeu Zé Viau.

E foi embora.

Uma hora depois, o facínora voltou. Chegou até o balcão, meteu a mão no bolso e, com violência, espalmou a mão na mesa. recolheu o braço, olhou para o bolicheiro, apontou para uma moeda furada em cima do balcão e disse, depois de um silêncio que sustentava olhando nos olhos do perplexo atendente do estabelecimento:

— Me vê um patacão de cachaça, patrício.

O bolicheiro desmaiou.


Se non é vero...






Thursday, February 03, 2011

Deixa Cair

O homem Wilson Simonal sempre será um cara controverso. Ele é amado e odiado da mesma maneira. Já com relação ao intérprete Simonal, ele foi insuperável. O primeiro partiu para sempre; o segundo ainda existe no sulco dos discos.

O artista Simonal era o cara. Como disse Ruy Castro no Chega de Saudade: uma voz excelente, senso de divisão igual aos melhores cantores americanos e uma capacidade de fazer gato e sapato do ritmo, sem se afastar da melodia ou sem apelar para os "scats fáceis que eram a especialidade de Leny Andrade (que, como Wilson, era cria de Lenny Dale no Beco das Garrafas).

No começo, influenciado pelo Carlos Imperial, ele cantava cha-cha-chás (aliás, o Imperial fez o mesmo com o coitado do Roberto Carlos). Quem o levou para a Bossa Nova foi justamente Ronaldo Bôscoli, que foi responsável por lhe franquear um repertório excelente, que ia da Ela Vai Ela Vem até Lobo Bobo (melhor que ele cantando isso, só o próprio João Gilberto).

"Naquela fase", diz Castro, "ele era capaz de encaixar as bossas mais surpreendentes num tema e torná-la irresistível. Mas, só quando as bossas passaram a ser importantes em seu estilo, Simonal ficou repetitivo e voltou à esfera de Carlos Imperial.

Em 66, ele estava cantando "Mamãe Passou Açúcar Ni Mim". Em 71, ele regeu — com um dedo só — 15 mil pessoas no Maracanazinho ao som de uma (...) apropriação de Imperial, "Meu Limão, Meu Limoeiro".


Num certo dia dos anos 70, o Caboco Mamadô relegou o intrépido Wilson Simonal ao ostracismo musical. Acabou saindo do palco para virar um fait-divers, um arquétipo do artista perseguido como o Jean Valjean do Beco das Garrafas por honra e glória das patrulhas ideológicas. Como diz o autor do Chega de Saudade, Simonal foi exclúido do meio musical. Mas não pode ser expulso da história da Bossa Nova.


Esse vídeo dele com a Sarah Vaughan é um testemunho disso: Wilson canta de igual para igual com a diva do jazz.

Saturday, January 22, 2011

O Caso Dreyfus e o espírito de manada


O livro

Esses dias eu estava pesquisando sobre o Caso Dreyfus e, eis que de repente, me caiu nas mãos um livro excelente sobre o episódio. É "O Caso Dreyfus: Ilha do Diabo, Guantánamo e o Pesadelo da História" (Companhia das Letras, Louis Begley, 232 págs., R$ 45).

A história é conhecida, porém não muito conhecida por todos. A idéia de Begley foi fazer o que todo jornalista faria para rerquentar um assunto antigo: criar um gancho entre o fato pretérito e a atualidade, e essa é a grande sacada do livro.

O autor pegou o caso do oficial judeu do exército francês que foi injustamente acusado de espionagem. Alfred Dreyfus foi apontado como autor de uma carta suspeita encontrada no gabinete do tenente-coronel Schwarzkoppen, então adido militar alemão.

Alguém fazia espionagem para os alemães. Dreyfus seria o único suspeito de ter escrito o borderô, foi levado a um tribunal e condenado ao degredo na Ilha do Diabo.

O caso dividiu a opinião pública entre os "dreyfusistas" e não-dreyfusistas". Begley pega o caso para comparar com a querela dos condenados à morte em Guantanamo pelos atentados de 11 de setembro.

Ao compará-los, ele nota uma semelhança entre o antissemitismo que grassava na França no fim do século XIX e o preconceito contra muçulmanos perante a opinião pública norte-americana.

Ou seja, se para muitos franceses, na época da degradação de Dreyfus, ele foi parar na Guiana porque merecia, muitos americanos (segundo pesquisa mencionada no livro), independente de qualquer lisura no julgamento dos suspeitos, eles estariam presos por algum motivo, mais precisamente esse pré-julgamento é motivado pelo fato de serem muçulmanos.

Louis Begley faz um paralelo genial entre o clima de antissemitismo francês e a forma como Marcel Proust retrata aquele momento histórico em sua obra, inclusive na Recherche.

Em Em Busca do Tempo Perdido, ele demonstra que a cocote Odette de Crècy, pafra conseguir estabelecer um núcleo de diletantes e artistas em seus soareés, ela fazia questão de demosntrar que era contra Alfred Drayfus.

Logo, perente a opinião pública, a questão acabou saindo dos meandros bizantinamente judiciais para uma esfera totalmente diversa. Enfim, tratada com toda a superficialidade que qualquer tipo de preconceito requer, mesmo no caso dos prisioneiros de Guantanamo. Louis fala: é claro que existem de fato criminosos que merecem estar ali, mas o julgamento a que eles são submetidos é tão torpe quanto à do tribunal militar que transformou Dreyfus num inimigo do povo. É judeu? Então é culpado.

Proust, (que era ascendência judaica por parte de mãe), também comenta que, após a compovação que o ofocial era inocente, a história cuidou de apagar o episódio nos anos seguintes.

Emile Zola foi quem resolveu jogar a carreira de escritor pelo alto e escreveu uma carta aberta a Felix Fauré, presidente da França, no L'Aurore. O texto, hoje notório, foi o ápice da carreira do escritor de Germinal e a sua desgraça. Zola acabou virando tão mártir quanto Alfred Dreyfus. Bergley salienta que o que Emile Zola mais queria era se tornar membro da Academia Francesa. Depois de publica o seu implacável "Eu Acuso", se tornou um pária: se candidatou enão recebeu nenhum voto.

O clima era exasperador: o tema acabou dividindo o país de tal forma que criou uma cisma onde judeus eram perseguidos, ao mesmo tempo em que o Caso Dreyfus virou um mote para que republicanos e monarquistas rilhassem os dentes. Um julgamento de um oficial abalou a França na última década do Século retrasado.


O libelo de Zola

Zola mudou os rumos do processo contra o oficial francês mas pagara o preço de sua bravura: foi condenado por difamação e se viu obrigado a exilar-se na Inglaterra. Além da injusta degradação à Ilha do Diabo por cinco anos, a revisão do processo provou, quase uma década depois que o autor do borderô era o major Walsin Esterhazy. Ele não foi condenado, fugiu da França e continuou a combater os dreyfusistas.

No fim das contas, o livro de Louis Begley mostra pelo menos uma evidência: a história gagueja e que o calor da hora dos acontecimentos é a moldura ideal para que fatos, instituições e pessoas sejam corrompidas pelo espírito de manada de todos nós em julgar a sorte de tudo e de todos.

Wednesday, January 19, 2011

Três Apitos *


A antiga Confiança, hoje um supermercado


Nos seus tempos de estudante de Medicina, em 1931, Noel Rosa estava dividido entre dois amores. De um lado, Clara, a Clarinha, de Vila Isabel, que se dava com a mãe do poeta, e era vizinha do jovem sambista. Ela e Noel tinham um relacionamento de quatro anos, mas a cada ano, ela tinha cada vez mais dúvidas com relação aos reais sentimentos dele. Ela sabia de uma outra menina de quem o poeta gostava — Josefina. O curioso é que, sempre que achava que tudo estava perdido entre os dois, a jovem tinha o apoio de alguma irmã, que lhe inspirava confiança.

Enquanto a relação com Clarinha era do tipo “namorou, é pra casar”, Josefina não lhe exercia qualquer pressão. Mas Josefina era a mais ciumenta das duas, e não gostava dos famosos “sumiços” do compositor pelo Rio de Janeiro. Enquanto Clara suportava o poeta com uma paciência de Jó, Fina ameaçava quebrar o violão de Noel se não se explicar. Fina e Noel faziam cena, mas se gostam.

Viramundo — Um dia, dona Iracema, a mãe de Fina, decidiu que todas deviam trabalhar. Ela e sua irmã, Bazinha, se empregaram em fábricas do Andaraí. A primeira, na Hachiya, indústria de botões, e a segunda, em numa fábrica de tecidos, a América Fabril — então, uma das mais importantes da velha Capital Federal.

Constrangida com o emprego e com medo da marcação cerrada do Poeta da Vila, Josefina pediu aos seus familiares que não revelassem ao namorado o seu local de trabalho — até porque ela gostava de se sentir livre. Mas Noel era implacável: agora ele tinha comprado um carro, um velho Chandler preto, que apelidou com o singelo nome de Viramundo.

Na verdade, o automóvel foi uma aquisição interessante. Para quem não sabe, além de cantor, Francisco Alves era agenciador de veículos. Aliás, o “Rei da Voz” foi o primeiro marqueteiro da nossa música. Como a parceria dele com a insuperável dupla Ismael Silva-Nílton Bastos (“Adeus”, “Se Você Jurar”) havia acabado, ele decidiu “alugar” Noel por uns tempos. Para tanto, o poeta assinaria um contrato segundo o qual teria que pagar as prestações do Chandler em... sambas fresquinhos!

Cada samba composto era apresentado a Chico Viola, que abatia as prestações como promissórias. Agora, com o calhambeque, Noel podia estar mais perto de Fina. Só faltava descobrir em qual fábrica ela trabalha.

Um dia, andando pelo Andaraí e suspirando debruçado sobre o volante do Viramundo, ele encontrou a jovem na multidão, caminhando como se corresse contra o tempo, na hora do almoço com a marmita debaixo do braço, próxima à entrada da Companhia América. Sem saber que Fina levava a marmita para Bazinha, ele concluiu que sua musa trabalhava na tal fábrica de tecidos.

A partir de então, o poeta bateu ponto diariamente ali, no fim do expediente. Em seus arroubos apaixonados, Noel parecia ouvir silvos de um apito de fábrica. Na verdade, não eram nem da Hachiya, nem da América, mas sim da Confiança (de propriedade do pai de João de Barro, o Braguinha, amigo de Noel e parceiro musical em “As Pastorinhas”), que ficava perto da casa do compositor, em Vila Isabel. E foi com o silvo matinal da fábrica que o apaixonado sambista compôs uma de suas mais belas composições, “Três Apitos”:

Quando o apito
Da fábrica de tecido
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
Ou está interessada em fingir que não me vê
Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina
Do meu carro?



Na verdade, o som do apito é licença poética de Noel, que utiliza o estrépito para enfeixar em sua memória a lembrança da amada sempre que o som “vem ferir os seus ouvidos”. Segundo Carlos Didier e João Máximo, biógrafos do compositor, a confusão toda se deve ao fato de que ele achava que Fina trabalhava na América, e ainda incluiu o apito da Confiança. Como muitos associavam a fábrica pelo toque do apito, pensava-se (e pensa-se) que ela trabalhava na Confiança.

O caminho entre a casa de Josefina e Bazinha e a fábrica era longo, o que obrigava as duas a madrugarem para chegar a tempo no trabalho. Elas percorriam todo o percurso juntas, às cinco da manhã, e às cinco da tarde, quando Fina voltava sozinha. Para um trabalho simples, elas usavam roupas simples, sapatos de salto baixo e sem meias — detalhe que não passou desapercebido a Noel, que as via passar, com os olhos cerrados sob o chapéu, observando de longe e quase incógnito, dentro daquele carro velho e com a pintura descascada, o longo e tortuoso passeio que sua namorada fazia de casa até o trabalho.

Ele se enterneceu de vê-la tentando esconder dele que a jovem trabalhava numa reles fábrica de botões de osso e madrepérola e a entendeu. E escreveu:

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz réclame de você



Poeta Soturno — Mais aflito do que o grito da buzina do Viramundo era Noel, ao ver Fina desacompanhada e quase sempre à mercê do assédio de um certo contramestre da fábrica, Jerônimo da Encarnação, que sempre tentava puxar conversa com a moça. Noel tanto insistiu com a jovem que ela finalmente cedeu, e contou onde trabalhava. Então ele se deu conta do engano. Era na Hachiya e não na América!
Aqui, ele anotou mais quatro versos ao samba:

Nos meus olhos você lê
Como eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens
A você


O contramestre cercava Josefina com indisfarçada insistência, com propostas e galanteios. Ela se esquivava, apontava para aquele calhambeque parado longe, no outro lado da esquina, e dizia ao homem: “Olha lá o seu poetinha. Ele está te esperando...”. Era Noel, o “malandro medroso”, mas sempre vigilante e quase incógnito, cuidando os passos da menina em marcação cerrada, por detrás do volante do seu inefável Chandler.

Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe por quê
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Esses versos pra você.



No fim, ele permaneceu no equívoco em favor da rima pano/piano, já que ela fazia botões. Porém, mesmo com tanta confusão, o certo é que “Três Apitos” foi dedicada a Josefina. Noel Rosa revelou, em 1936, que este samba resumia o “romance mais sincero de minha vida gloriosamente romântica”.



Ele diz “que outra operária de fábrica se encaixaria nesta canção”. O dado curioso sobre “Três Apitos” é que, talvez por ser confessional demais (ou romântica demais. Ou confusa demais), Noel resolveu pôr defeitos na canção. Mesmo com achados poéticos diversos (até para uma época em que o gênero samba ainda lutava para se livrar de versos simplórios), o poeta acreditava justamente o contrário. Já o piano em questão também era mais uma licença poética de Noel, que como “pianeiro”, era um grande violonista.

Por conta do “desprezo” do poeta por “Três Apitos”, ela permaneceu inédita por muitos anos. Chegou a ser gravada na época em acetato por Orlando Silva (verdadeiro achado, catalogado na coletânea Noel Rosa — O Poeta da Vila, da gravadora Revivendo) em 1936, mas com versos a menos. A primeira versão “oficial” ocorreria apenas em 1951, na voz de Aracy de Almeida — cantora para quem ele dedicou a música, na época. Localizada por uma emissora de TV em 1984, Josefina disse: "Noel para mim fez apenas o 'Três Apitos', apesar de, em um dia de pileque, ter dito que eu tinha um riso de criança" (“Riso de Criança” era outra composição do Poeta, também supostamente inspirada por Fina). Aracy, que teve a primazia de levar o nostálgico samba em disco, revelou:

— Noel fez esse samba na Taberna da Glória, na hora, e me deu. Foi para mim que ele fez esse samba. Ele também fez música para mim.

Contudo, para alguns críticos, a mais bela versão de “Três Apitos” é a de Maria Bethânia, gravada em 1965, com Rosinha de Valença ao violão, em estilo intimista, bem como pede a letra.

Mas, e quanto aos tais três apitos? O maestro Homero Dornellas (aquele que botou na pauta o primeiro sucesso de Noel, “Com que Roupa?”, já que o compositor não sabia ler música), contou que, ao invés de três, a fábrica apitava nove vezes ao dia. Carlos Didier e João Máximo explicam: certamente que o título se refere aos que a Confiança soava pela manhã.

O primeiro, às quinze para as seis, para acordar os operários da redondeza. O segundo, às sete, o mais longo, que marcava a hora da entrada. E o terceiro às quinze para as oito, para os retardatários...



* Texto publicado originalmente por este escriba em 2004. Sinceros agradecimentos ao Museu da Canção (http://museudacancao.multiply.com) que o reproduziu: eu já não tinha mais o original...

Monday, January 17, 2011

Soul Men







No domingo, de madrugada, vi um filme que jamais tinha ouvido falar: Soul Men - Homens do Soul, com Bernie Mac e Samuel L. Jackson e participação especial de Isaac Hayes. Também foi o último filme de Hayes e Mac. A história é uma grande sacada. Com a morte da lenda do Soul Marcus Hooks (John Legend), a VH-1 promove uma festa de despedida para o ídolo e convida seus antigos parceiros Louis Hinds e Floyd Henderson para cantar, o The Real Deal. Só que os dois não vivem mais da música há muitos anos. Floyd Henderson (Bernie Mac) é gerente de um lava-rápido e Louis Hinds (Samuel L. Jackson) é um ex-presidiário. Os dois vivem em Los Angeles e têm que viajar até Nova Iorque, já que o show será no tradicional Apollo Theater. Como Hinds se nega a ir de avião, os dois atravessam os Estados Unidos num Cadillac, misturando exibições e confusões. O diretor Malcom D. Lee conduz o filme com mão segura, transformando a história numa excelente comédia. Bernie Mac está extraordinário, talvez seja o seu melhor filme. Samuel L. Jackson é o mesmo de sempre, seguro e competente. A trilha sonora também é um espetáculo. Para começar, tem Isaac Hayes. Abaixo, a lista das músicas e o link para download. Vale a pena. Alugue o filme, procure na programação da Net, baixe o álbum e curta. Eu curti.

Link: http://depositfiles.com/pt/files/3oom21qet

Song Title Artist Time
1. Soul Music Anthony Hamilton 2:58
2. I'm Your Puppet Bernie Mac 4:05
3. Private Number Chris Pierce 3:08
4. Water Me'Shell Ndegeocello 3:14
5. Never Can Say Goodbye Isaac Hayes 5:16
6. Boogie Ain't Nuttin' (But Gettin' Down) Bernie Mac 4:10
7. Just Dropped In (To See What Condition My Condition Was In) Sharon Jones and the Dap Kings 2:59
8. Memphis Train Ryan Shaw 2:53
9. Comfort Me Sharon Leal 2:31
10. You Don't Know What You Mean (To a Lover Like Me) Sugarman 3 3:30
11. I've Never Found A Girl (To Love Me Like You Do) Eddie Floyd 2:44
12. Do Your Thing Bernie Mac 13:54

Saturday, January 15, 2011

Leia o Livro (3)


Ronnie Spector


Uma das curiosidades do Vida, do Keith Richards é um singelo romance de estudante entre o guitarrista dos Rolling Stones e a líder das Ronettes, Ronnie Spector. Ele diz que eles se conheceram durante a primeira turnê britânica do trio, em 1964 — quando o póprio quinteto liderado por Brian Jones também iniciava a sua carreira nos palcos, após o lançamento do primeiro álbum homônimo, lançado naquele ano.

Keith diz que eles se conheceram e foi amor à primeira vista. Era uma paixão tão pura que eles nem sabiam o que fazer com aquele sentimento. Se encontravam às escondidas, principalmente porque entre eles estava ninguém menos que Phil Spector.

O produtor norte-americano namorava Ronnie à época, e como é notório, ele fazia uma marcação cerrada sobre a garota. O idílio teria turado pelo menos um mês. O curioso é que, a despeito disso, através de Andrew Loog Oldham, Phil estava trabalhando regularmente com os Stones (ele co-produz o primeiro álbum da banda, e o Out Of Our Heads, de 1965, inclusive tocando baixo em Play With Fire, lado B de Satisfaction).

Mas a fábula em torno disso é que, em sua autobiografia, Eric Clapton também menciona um possível amor de carnaval entre ele e a líder das Ronettes, inclusive com riqueza de detalhes; contudo, assim como Keith, era uma paixão de estudante. Como o Clapton fala, naqueles tempos, todos era realmente muito inocentes, e não sabiam o que era levar um amor a sério. E Ronnie, uma garota na flor do tesão dos seus dezenove aninhos, mulata jambo, com ancas intransponíveis, seios de granito, pele de seda, voz de boneca e um rosto desesperadamente lindo de cherokee e cabelo bolo-de-noiva, era o maior partido do show-biz. Quando cantava Be My Baby, então...

Com o tempo, Spector transformou-a numa prisioneira. Mantinha a garota presa em sua mansão, sob a mira de um revólver, com um caixão dourado no porão, esperando uma possível infidelidade. Loucura é pouco.

Mas voltando ao Slowhand: ele diz que Ronnie gostava dele porque Eric era, segundo ela, parecido com Phil. Clapton achava isso estranho, mas não deu muita bola. Tipo "se ela gosta de mim porque eu sou parecido com ele, o azar é dele".

E Eric e Phil não se conheceram na época do idílio. Ele só foi conhecer o famoso produtor durante as gravações do All Things Must Pass, em 1970. Foi quando ele se recordou das palavras de Ronnie: realmente, ele e Phil tinham uma mórbida semelhança — mas só por fora, é claro.

Leia o Livro (2)



Sobre o seu aprendizado com a guitarra, Keith aponta dois momentos cruciais: a primeira, quando ele aprendeu todo o seu repertório possível de riffs e acordes para começar a se sentir um músico profissional. Sobre isso, Richards diz que formou o seu caráter tocando violão acústico. e diz:

— Acredito piamente que, se você quer ser guitarrista, é melhor começar tocando violão acústico e depois passar para o elétrico — revela. — Não acho que você vai virar outro Townshend ou um Hendrix só porque pode fazer uíí uíí uah uah, e todos aqueles efeitos eletrônicos dos guitarreiros. Primeiro, vá conhecer direitinho o instrumento. E vá dormir abraçado com o seu violão. Se não tiver uma gata à mão, você dorme com o violão. Tem o formato certinho.

O outro momento crucial em sua carreira foi quando ele começou a perder a colaboração seminal do fundador dos Rolling Stones, Brian Jones, durante as sessões de gravação. Ao mesmo tempo, enquanto ele vivia a entressafra de shows, em meados de 1968, Keith passou a se interessar por slide e por afinações abertas, mais especialmente em Sol aberto.

Isso fez com que Richards passasse a tocar com uma corda a menos na guitarra. O corolário disso tudo foi que o guitarrista dos Stones criou um timbre muito particular para os seus riffs. Em Vida, ele salienta que isso acabou se tornando uma forma de deixar uma marca registrada nas músicas. "se você ver, quando alguém tenta tocar um riff meu numa afinação normal (standard tuning), nunca sai a mesma coisa", explica.

Um exemplo típico de timbre característico do Keith Richards num riff clássico:

Leia o Livro (1)


A capa


Se você tem alguns morlacos sobreando e gosta de rock, faça um favor a si mesmo: compre a biografia do guitarrista dos Rolling Stones, Vida. O livro é simplesmente um dos depoimentos mais interessantes do gênero, além de larçar uma luz particular sobre a obra da maior banda de rock de todos os tempos e, ao mesmo tempo, servir de evangelho a todo aquele que quiser um dia empunhar uma guitarra e seguir os passos de um gênio da raça, nascido em Dartford, Inglaterra, há 67 anos.

Aliás, a rigor, a história todos vocês conhecem: o detalhe do Vida é, justamente, as histórias e a forma bem-humorada em que Keith revela vários episódios pitorescos de sua carreira.

Uma delas: Keith Richards na biografia diz que, durante um recesso numa turnê australiana, ele morou dez dias com uma mulher com um bebê em Melbourne. O Keith então diz que ficava em casa de babá com a criança enquanto a mulher passava o dia fora, trabalhando. No fim, arremata:

— Tem um cara de seus 35 anos que anda prá lá e prá cá em Melbourne que não sabe que eu limpei a bunda dele quando ele era criança — diz.

Friday, January 14, 2011

É o Amor



Quem disse que o dinheiro não traz a felicidade, meu caro hipócrita leitor?

Wednesday, January 12, 2011

Ficha Suja

Para fins de uma possível admissão, o RH me solicitou que eu retirasse no Tudo Fácil (aquele serviço de atendimento integrado do governo estadual, prá quem não sabe) um atestado de bons antecedentes. Eu nunca tinha feito nada disso antes. Aliás, eu nem sabia que existia esse tipo de coisa.


E lá fui eu. Não entendo nada desse tipo de coisa. O que me ocorreu durante o trajeto do RH até o posto de atendimento foi: será que eles sabem alguma coisa que eu fiz e que eu acho que tenha permanecido encoberto, obscuro, apócrifo?

E se eles na verdade eles sabem de tudo o que eu sei e eu não sei que eles sabem e nem desconfio, sei lá? Se porventura sabem de todos os meus pensamentos, de todas as coisas sórdidas que eu tenha feito? Eu acho que não fiz nada — não deva ter feito nada que ficasse registrado em alguma coisa. Claro que, a rigor, toda a minha incúria estava em jogo: não sei como se verificava esse tipo de coisa. Mas é aquela coisa: nunca se sabe...

Fui atrás da tal fila. Cheguei lá, quase não tinha fila. Tinha só duas pessoas na minha frente.

Vi o rapaz quando chegou a minha vez e entreguei-lhe a minha cédula de identidade. "Não leva muito tempo", assegurou-me a moça do Recursos Humanos. Eu: "bom, tudo bem".

De fato, o expediente era simples: o rapaz lia o número do registro, digitava no teclado e aparecia o tal documento para impressão. Ele clicava o Ctrl+p e mandava para a impressora.

O cara da frente não levou mais de um minuto para pegar o atestado dele. O outro também. Chegou a minha vez.

O rapaz pegou a minha identidade, leu o RG, digitou o número. Ficou estatelado olhando para a tela — que, com efeito, estava contra mim. Absorto, ele começou a fazer uma aterradora cara de estupefação.

Eu fiquei apreensivo. Meu Deus, o que diz ali? Ele parecia correr a vista em alguma coisa pavorosamente extensa. Esbugalhava os olhos, batia a Bic ritimadamente na mesa. Levou a mão ao rosto: pelos olhos dele, ele lia algo enorme, algo estarrecedor, sabe-se lá o quê. Mandou para a impressora.

Foi-se a primeira folha. Mais uma, outra mais. Eu achando que era só uma folha, quando eu comecei a contar a partir da quarta, fiquei silenciosamente desesperado. O que tem ali de mim, meu Deus? Puta que pariu. Queria um emprego e vou para a cadeia? Maldita hora! Prá quê eu fui pedir um atestado de bons atnecedentes? O c ara tá é imprimindo a minha ficha corrida no crime!

Me lembrei de atraques no Bomfim, em balbúrdias em balneários, numa vez que eu arranquei um cavalete na Mauá, outra que eu mijei na cabine telefônica, caramba, eles descobriram tudo, estou perdido! Me lembrei da vez que a Brigada me parou no meioi da rua em frente à Rodoviária de Capão da Canoa porque eu estava podre de bêbado brincando de guarda de trânsito. Eles me recolheram e me mandaram para a emergência. Meu Deus Nosso Senhor, eles sabem de tudo de mim, tudo, tudo!

Já tava na décima quinta (ou décima sexta. Ou sétima. Sei lá) folha e eu imaginando dois Pedro e Paulo imaginários me pegando pelo braço ali mesmo na fila do Tudo Fácil direto para um saia-e-blusa da Salgado Filho direto para a Área Judiciária! Já sei! Foi tudo uma cilada! O pessoal do RH orquestrou tudo isso para que eu fosse preso, eles estão dentro da conspiração contra mim!

— Tô fudido... — gemi em surdina.

— O que o senhor disse? — perguntou o rapaz.

— Eu? Nada — ri amareladamente. — É que são quase duas e meia e eu vou perder o Vale a Pena Ver de Novo! — despistei.

— Ah.

A impressão terminou. O cara pegou o maço de papel, emparelhou-as na mesa, grampeou e — surprendentemente — chamou um outro funcionário. Eu já estava com as mãos crispadas no balcão, a típica imagem do desespero.

Veio o outro cara. O balconista pegou as folhas e deu para ele:

— Taqui as tablaturas do Pantera que tu me pediste.

Eu: hein? Olho de soslaio para a impressora, ela ejeta uma singela e solitária folha de papel. O rapaz pega ela com delicadeza, aponta para mim e diz:

— Aqui está senhor.

Ato reflexo, eu peguei com violência o papel das maos dele e corro a vista: Cosntatamos que o senhor fulano de tal está etc. Não tinha nada!

Fui embora lívido, nem agradeci ao pobre diabo. Quando eu desci as escadas até a Borges e ganhei a rua, respirei fundo.


Eu era um novo homem.

Monday, January 10, 2011

O Jogo do Século

A "Barriga" é um jargão do jornalismo para designar deslizes cometidos por repórteres e jornais quando eles não checam uma informação e acabam franqueando uma pseudonotícia. Ou quando divulgam uma notícia como certa antes do tempo — na ânsia de ter a primazia do fato consumado e levam um capote das ciscunstâncias.

Poderia citar dois exemplos recentes: em julho do ano passado, a imprensa deu como certo o nome do Muricy Ramalho na Seleção. Saiu reportagem, perfil, primeira página para o Muricy, que jamais iria negar o convite — e negou.

O outro exemplo — o do sábado passado — bom, deixa para lá.

Ao invés de citar o mais recente, vou recordar a mais clássica das barrigas jornalísticas da imprensa gaúcha de todos os tempos — conhecida como O Jogo do Século.


Na tarde do dia 23 de junho de 1972, um conhecido jornal de Porto Alegre recebia um curioso e instigante telex.

ATENÇÃO DIRETORIA DE ESPORTES DE ZERO HORA. AQUI É DA TRIBUNA DO ESPORTE, DE SALVADOR, BAHIA. GOSTARÍAMOS DE SABER SE TEM FUNDAMENTO A NOTÍCIA DE QUE A SELEÇÃO DA CONCACAF VAI JOGAR CONTRA O FORTES E LIVRES DA CIDADE DE MUÇUM, CAMPEAN DO INTERIOR DO RIO GRANDE DO SUL. FIZEMOS ESCUTA NA RADIO BANDEIRANTES E ESTA NOTÍCIA FOI DIVULGADA. EIS O TELEGRAMA:

Salvador (Sucursal) Depois de encerrar a sua participação na Mini Copa, promovida pela CBD, a Seleção da Concacaf (N.E: Confederação de Futebol da América Central) prepara-se agora para uma série de jogos amistosos no território nacional. A primeira partida, segundo os dirigentes da delegação, será realizada na até agora desconhecida cidade de Muçum, no Rio Grande do Sul, "numa homenagem dos povos do Caribe àquela cidade irmã, uma vez que temos em nossas ilhas uma localidade chamada "Muzzum". No Rio Grande do Sul, a Seleção da Concacaf enfrentará a equipe do "Fortes e Livres", de Muçum, e a renda será destinada a instituições beneficentes. Mesmo assim, a Seleção do Caribe receberá uma quota de 5 mil Dólares.


LIGAREMOS MAIS TARDE A FIM DE SABER A RESPOSTA. GRATOS, LUIZ CARLOS MAIA - EDITOR DE ESPORTES.


Ao tomar ciência da história, o jornal tratou de destacar repórteres para entrevistar o presidente do Fortes e Livres, que também era o prefeito da cidade, localizada a 52 quilômetros de Porto Alegre. Ao saber da boa nova relatada pelo jornalista, o homem aceitou o convite, incontinente. Embalado pela espectativa, a Zero Hora berrava, na capa: "MUÇUM ACEITA JOGAR COM CONCACAF". A matéria terminava assim: "O prefeito de Muçum já telegrafou ao diretor de futebol da CBD (antiga CBF, para quem não sabe), Antônio do Passo, confirmando o interesse pelo Fortes e Livres em disputar uma ou duas partidas amistosas com a Seleção do Caribe, atualmente na Bahia participando dos jogos classificatórios da Taça Independência...".

O Estado de São Paulo da mesma data, por sua vez, detalhava a história sobre o telegrama e a CBD: "pedindo sua intercessão junto ao caso e explicando que os centro-americanos não recusarão o convite, porque deverão jogar na cidade onde o nome é idêntico ao de uma cidade do Caribe, de onde três dirigentes são naturais..."

Dia 24, mais um telex aparecia. Dessa vez, na redação da Folha da Tarde:

BOM DIA. PRECISAMOS DE UM FAVOR AÍ DOS AMIGOS DA CALDAS JÚNIOR. FICAMOS SABENDO AQUI NA BOA TERRA QUE A SELEÇÃO DA CONCACAF ESTARÁ NO RIO GRANDE DO SUL NA PRÓXIMA SEMANA PARA JOGAR CONTRA O CAMPEÃO DO INTERIOR DO ESTADO, FORTES E LIVRES DA CIDADE DE MUÇUM. A INFORMAÇÃO FOI TRANSMITIDA ONTEM POR UM REPÓRTER DE UMA EMISSORA CARIOCA QUE ENTREVISTOU O SENHOR ANTÔNIO DO PASSO. ELE RECEBEU TELEGRAMA DESSA CIDADE GAÚCHA PEDINDO PERMISSÃO PARA O JOGO E FICOU TUDO ACERTADO. PRECIDAMOS SABER ALGUMA COISDA AÍ DOS AMIGOS DA 'FÔLHA DA TARDE', POIS QUEREMOS FAZER UMA BOA MATÉRIA COM A SELEÇÃO DA CONCACAF UMA VEZ QUE O FATO ABRE UM PRECEDENTE NO ESQUEMA DA CBD.

CARLOS RICARDO, EDITOR DE ESPORTES DO JORNAL 'TRIBUNA DO ESPORTE', SALVADOR, BAHIA.

No outro dia, José Inácio Werneck (que hoje trabalha na Gazeta Esportiva), então no Jornal do Brasil, comentou o fato em sua coluna diária: 'o prefeito de Fortes e Livres de Muçum existe. É um time de futebol. De Muçum, no Rio Grande do Sul. Acaba de convidar a Concacaf para um amistoso. A idéia do prefeito, que justificou a iniciativa dizendo haver na Nacarágua uma cidade com o nome de Muzzum. Como se vê, uma trágica coincidência. Mas, senhor prefeito, que culpa tema torcida? A homofonia não devia dar à Concacaf e ao Fortes e Livres o direito de conspirar contra a bola. Eles não são da bola e nem a bola é deles. A bola, há muitos anos, é de Pelé'.

A 'Folha' do dia 26 de junho complementava o telegrama da CBD, e repercutia a goleada sofrida que o Fortes e Livres havia tomado, após cair de quatro diante do Guarani de Garibaldi, pela Copa Governador do Estado. Já Zero Hora destacava uma página inteira com o presidente do afortunado clube, que à estas alturas, já ganhara destaque nacional. A matéria, intitulada 'O SONHO DE UM PREFEITO, VER A CONCACAF EM MUÇUM', ainda documentava reprodução do fonograma urgente remetido pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF), à época presidida por Rubens Hoffmeister, ao Fortes e Livres, onde se garantia a cota de US$ 5 mil e o custeio de todas as despesas do clube por parte da entidade. Ao ser interpelado sobre aquele que seria o 'jogo do Século', o presidente anunciava melhoramentos no estádio do Fortes e Livres, incluindo gramado e novas arquibancadas

— Será uma recepção que eles jamais esquecerão — garantia.

Já o diretor de futebol do Fortes, mesmo a despeito da goleada sofrida pelo Rio-Grandense, semanas antes, polemizava:

— Talvez a gente não ganhe o jogo, mas posso adiantar tranqüilamente que iremos complicar — desafiava, orgulhoso de seu exuberante escrete. — O time nunca esteve em tão boa situação como agora.

No fim da entrevista, o prefeito de Muçum, que já fazia correr um livro de ouro angariando verba para a reforma do 'fortim' do Fortes, contabilizava:

— É possível que a gente receba deles um convite para realizar uma gira pelos países da América Central. Isto acontecendo, e se tivermos todas as nossas despesas pagas, é bem provável que a gente aceite.

Foi quando a diretoria do Fortes e Livres recebeu ligação de um jornal paulistano pedindo a confirmação do jogo. Em seguida, a FGF despachou telegrama ao clube de Muçum, avisando que a CBF, na figura de Antônio do Passo, iria tratar pessoalmente da questão, e que tudo era apenas questão de tempo.

No outro dia, a coluna Sem Pulo da Folha avisava:

VERBA

Se depender da Câmara Municipal de Muçum, sai mesmo o jogo entre a Concacaf e Fortes e Livres. Foi aprovada a verba necessária para trazer a seleção da América Central.

A edição do dia 27 do pelotense Diário Popular, também se referia ao jogo e aproveitava para dar uma corneteada no time: "assim, pode ser que a Seleção do Caribe saia do Brasil com uma vitória, porque na Minicopa ela só perdeu". No mesmo dia, o carioca Correio da Manhã trombeteava que só faltaria decidir a data do "Jogo do Século".

E confirmava: "A Federação Gaúcha de Futebol está tratando de todos os detalhes do jogo e pagará todas as despesas da vinda da seleção, mais a cota de US$ 5 mil".

Na manhã de 28 de junho de 1973, a Zero Hora mancheteia: "FEDERAÇÃO NEGA JOGO DA CONCACAF E FORTES E LIVRES NA CIDADE DE MUÇUM".

A matéria explicou: primeiro o supervisor pensou que fosse gozação e procurou dentre os fonogramas que a Federação enviou e não encontrou nenhum dirigido ao Fortes e Livres. Resolveu então telefonar para Antônio do Passo da CBD, que nada sabia da partida e até indicou o secretário de futebol, Abílio de Almeida, para tratar do assunto. O prefeito de Muçum e presidente do clube já havia enviado telegrama à CBD pedindo conformação das datas.

Depois de tudo, e da explicação de que o Fortes estava já encaminhando as reformas do estádio para receber a Concacaf, foi difícil convencer os dirigentes do clube que os fonogramas eram falsos e que os telefonemas que ele havia recebido eram trotes. Colérico, o prefeito foi à Porto Alegre tratar pessoalmente do assunto. Já o supervisor da Federação avisou que a brincadeira já havia ido "longe demais", até porque haviam inclusive falsificado a sua assinatura.

Também solicitou à CRT (ex- Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações, hoje Brasil Telecom) que tentasse descobrir a origem dos fonogramas, a fim de que se tomassem as devidas providências.

O Sem Pulo do dia 30 dizia:

PREFEITO

E para complicar mais a situação de [Rubens] Hoffmeister a CRT forneceu o número que solicitou o fonograma com trote. O número é 24.87.33, telefone da Federação Gaúcha de Futebol. Por causa disso, o prefeito de Muçum anunciou ontem que processará a entidade.

Pressionado pela oposição de sua cidade, o cartola-edil até contratou advogado para acionar os autores da brincadeira, movendo ação na Justiça Civil da cidade. Enquanto isso, sucediam-se notícias e comentários. MUÇUM NÃO QUER MAIS JOGAR COM A CONCACAF¿, ¿FORTES E LIVRES NÃO ADMITE BRINCADEIRAS COM SEU NOME". Na charge da Zero Hora de 26 de junho, um repórter pergunta: "prefeito, e o jogo contra a Concacaf?". Ao que o homem responde: ¿se eles não aceitarem o desafio, eu vou convidar o Igrejinha".

As notas que haviam sido enviadas por uma fonte um tanto obscura ganharam tamanho corpo e repercussão na sociedade esportiva gaúcha que o anti-clímax foi inefável. Isso sem falar na imprensa regional, que embarcou bonitaço na potoca. Se os editores não sabiam onde se enfiar, de tanta vergonha por ostentar tamanha barriga (no jargão jornalístico, significa plantar notícia), o que dizer do pobre prefeito-cartola, que não sabia o que falar para a sua população, sobre o "Jogo do Século", que aconteceu por não ter acontecido? E se a oposição usasse esta mancada nas próximas eleições?


Tempos depois é que se soube: esse trote — que marcou época foi criado por tres jovens repórteres, que utilzaram a sucursal porto-alegrense de O Estado de São Paulo, então pioneira em operar por telex, novidade nesses pagos, naquela época, para despachar a insubmersível "barriga".

De qualquer maneira, estiver realmente interessado nessa surreal, rocambolesca e estapafúrdia história sem fim pode perguntar (segundo o falecido Renato Maciel de Sá Júnior) ao Rogério Mendelski, ao Roberto Appel e ao Antônio Pinheiro Machado onde raios fica aquela tal cidade de Muzzum, nas Antilhas....

Friday, December 24, 2010

Eça e o Milagre


O bruxo de Póvoa de Varzim


Dia de Natal eu me lembro de uma história de um de meus escritores preferidos, o velho Eça de Queirós.

Creio que é de um conto (ou um trecho de um livro?), que acho que o Carlos Reverbel (ou o Flávio Alcaraz Gomes?) citava no Correio do Povo lá nos tempos de antigamente.

Enfim: diz que o rico Obed, com seus gados morrendo e as vinhas morrendo, mandou servos atrás de um certo Rabi da Galiléia que fazia milagres.

Não o encontraram.

Um certo Publius Septimus, o poderoso centurião romano, estava com a filha pequena com uma febre muito alta, à morte. Pronto despachou legionários em busca do mesmo Rabi. Não o acharam.

Pois, entre Enganiu e Cesarea, um menino miserável e insalubremente pobre e moribundo empertigava-se num catre, suplicando à sua mamãe que lhe trouxesse Jesus, que (diziam) ama os pequeninos, para que ele pudesse então ser curado.

A mãe, em desespero e entre soluços, apenas pôde susurrar: 'Ó meu filho, como posso te deixar? Longas são as estradas da Galiléia e curta a piedade dos homens. Ninguém atenderia ao meu recado e me apontaria a morada do doce Rabi. Ó meu filho, talvez Jesus morresse... (já dispinéica em seu desalento, a prantear o filho) Nem mesmo os ricos e fortes o encontram. O céu o trouxe, o céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes...'.

A criança murmurou: 'Mãe, eu queria ver Jesus...'. E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança: 'Aqui estou'.




Feliz Natal.

Adoração dos Reis Magos



Baltazar: Puxa, é a sua cara, hein, seu José?
José: ¬¬

Thursday, December 23, 2010

Conto de Natal

Tenho uma tia que tem um daqueles carrinhos de bebida na sala. Detalhe que ela não bebe e o meu tio só bebe vinho de garrafão (ele metodicamente guarda o estoque no porão, e é extremamente ciumento com seu vinho vadio). Ou seja, o tal carrinho é quase um depósito de bebidas destiladas que eles ganham de presente e — óbvio — deixam tudo de enfeite.

Sempre que eu visito ela eu passo na sala e fico gracejando sobre aquele seleto elenco de uísques, vermutes, amarulas, conhaques que ficam ao Deus dará. Porém, o meu xodó era uma garrafa de vinho licorado importado (aquele do Orson Welles).

Eu vivia falando que queria beber aquele vinho licorado. Eu pegava a garrafa, olhava, falava do rótulo. Minha tia dizia: "olha, guri, o teu tio não vai gostar de saber que tu tá mexando no carrinho" (eu claro não ia beber, mas gostava de fazer menção só para deixá-la baratinada). Eu enchia tanto o saco dela que ela chamava o Paul Masson de "o vinho do Marcelo". Eu pegava e imitava o Orson Welles: "MWAHHHHAAAAAAA the french champagne has always been celebrated for it's excellence... THERE IS A CALIFORNIA CHAMPAGNE!".

Um dia eu dormi lá — tava (vejam só a coincidência) — dormindo no sofá da sala. E tava todo mundo dormindo, era alta madrugada. Eu pensei com meus botões: "porra. Eles não vão beber nunca essa merda de vinho. Nem esse vinho, nem porra de bebida nenhuma dessa merda de carrinho". Eu vou é abrir esse maldito vinho licorado. Foda-se.

Na penumbra, fui até a cozinha. Peguei uma jarra vazia, um saca-rolhas e um copo. Abri o vinho na surdina, debaixo do sofá (com um AHAM!! bem alto junto). Passei o líquido para a jarra.

Depois, pé ante pé, fui até a cozinha de novo, liguei o fogão e fervi uma bule de chá da índia. Depois da infusão, peguei de um funil e despejei o chá dentro da garrafa de vinho vazia. Meti a rolha de novo, coloquei silenciosamente a garrafa com o chá no carrinho, e fiquei curtindo o vinho madrugada afora, até dormir. Melhor vinho de todos os tempos.


Tempos depois, nossa família resolveu mudar a liturgia de entrega dos presentes: ao invés de cada um seguir à risca uma lista para filhos, afilhados e pais, inventaram de fazer um amigo secreto!

Eu peguei um primo. Comprei prá ele um JB que me custou as burras, mas tudo bem. Noite do dia 24, todo mundo trocando presentes — um luxo. Chegou a minha vez de falar quem era: "ele é assim, assado — aquela merda toda". Aí prtonto, meu primo ganhou o JB — já abrindo e tomando tipo cauboizinho e tal.

Quando todo mundo já havia falado, chegou a vez da minha tia. Aí ela: "meu amigo secreto é assim, assado, gosta disso, gosta daquilo, usa tênis tal, torce para o time tal". Pessoal: "é o Marcelo, é o Marcelo". Minha tia:

— É o Marcelo!

Eu: "opa, obrigado, titi". Peguei a caixa e fui para o meu canto. Abri a caixa. Era a garrafa do Paul Masson com o chá dentro. Do outro lado da sala, minha tia me dava tchauzinhos. Depois me disse, sorrindo: "tu queria tanto esse vinho que eu não resisti, espero que gostes".

Must be Santa

Tuesday, December 21, 2010

O Verão austral chegou



O Verão austral chegou. A lua faz as ondas do mar morrerem em fúria na areia numa festa de espumas; o estio se insurge em marcha, chega a hora da colheita, Perséfone volta para o seio de Deméter, a brisa é mansa e triste, as crianças entram em férias e a Brigada Militar lança a Operação Golfinho, Tramandaí se enche de pescadores e turistas chatos.

O Verão austral chegou. Acho que junto com o largo do 'Inverno', o primeiro movimento do 'Verão' do Vivaldi é um dos mais belos e melancólicos do Estro Armonico. O que seria um paradoxo, a estação mais alegre chora num suave monocórdio de inquietação, melancolia e tristeza.

O Verão chegou. O Verão é o sábado das estações. Ou como dizia o Máriio Quintana: o Verão é um senhor gordo de camiseta na varanda bebendo cerveja. E o Inverno? "O Inverno é um velhinho tritritante".

Certa vez ele conversava com o general Flores da Cunha na redação da Livraria do Globo sobre assuntos diversos e alhures lhe veio à mente essa tese. Flores o fuzilou: "E o senhor? O senhor é qual estação?". Mário Quintana sorriu e disse: "Ah, bom, general, eu sou o Inverno"

O Verão austral chegou. Então vem o estio, vivemos num breve instante de eternidade a eterna perspectiva de cumprir todas as promessas não cumpridas, Perséfone volta para o seio de Deméter, a grama cresce alto, as crianças entram de férias, a vida recomeça e Tramandaí vira uma festa.

Saturday, December 18, 2010

A Bíblia tinha razão...


Jacó e o anjo, por Doré


Tava lendo as manchetes do G1 no Twitter e fiquei imaginando o site mancheteando passagens do Velho Testamento. Ia ficar algo assim:

Jonas em Nínive depois de escapar da baleia: "Tá tudo bem agora".

Reviravolta: Esaú vende direito de primogenitura e Jacó passa a perna em Isaac

Fumacinha branca no Sinai. Mais detalhes em instantes

Caim mata Abel. Meliante responde a pena em liberdade

Jacó briga com anjo e fica manco. Já foi medicado e liberado do hospital

Sarai vê Abraão com Agar e sente ciúmes

Sansão é obrigado a contar enigma durante festa de casamento e mata todo mundo. BM no local

Josué põe Jericó abaixo e é o vencedor. Israelitas dançam nas bancadas

IBAMA vai notificar Moises por mortandade de peixes durante abertura do Mar Vermelho

Josué põe Jericó abaixo e é o vencedor. Israelitas dançam nas bancadas

Golias enfrenta Davi. Davi wins

Dalila corta a peruca de Sansão: Sansão fica furioso e mata filisteus

Acompanhe pelo G1 a diplomação do Rei Davi em Hebron

Reviravolta: Labão oferece Raquel em vez de Lia e Jacó trabalha mais sete anos

Reviravolta: José está vivo e salva família

Exclusivo: israelitas em fuga adoram Bezerro. Moisés da piti, roda a baiana e acaba com todo mundo

Deus manda Dilúvio mas Noé sobrevive

Reviravolta: Anjo trova Agar durante a fuga e ela decide voltar para Abraão

Após denúncias de desvio de verba por empreiteira entraves burocráticos, obras da

Torre de Babel são interrompidas

Sodoma e Gomorra são destruídas — Lot escapa mas sua mulher vira estátua de sal. Deus sobre o incidente: "Eu avisei".

Sunday, December 12, 2010

It's Easy to Remember...

...But so hard to forget. A voz-guia do Sonho Americano — se fosse vivo — faria hoje seus 95 anos. Com vocês, senhoras e senhores...




Se você é mais um daqueles que acha que Frank Sinatra é aquele cara bonachão que canta New York, New York em tudo o que é festa brega de casamento, você está errado. Procure um box-set em compact disc (ou procure na Internet) chamado The Capitol Years e conheça o maior cantor popular de todos os tempos interpretando o vade mecum musical do Século XX.

Saturday, December 11, 2010

A Importância de ser Noel


Noel


Poeta da Vila, poeta lição. Noel Rosa nasceu há exatos cem anos.

Naquele tempo, o gênero pelo qual ele se notabilizaria ainda engatinhava nos saraus da casa da Tia Ciata, no Centro do Rio de Janeiro. O estilo musical dos tempos do Marechal Hermes era diverso e sofria uma enorme influência européia: eram mazurcas, valsas, modinhas, dobrados, tangos. Chiquinha Gonzaga fazia o crossover entre os sons colonizados e a musicalidade brasileira, assombrando a elite bem vestida da Capital Federal com seus maxixes — para muitos, era um verdadeiro escândalo.

Quando Noel Rosa despertou para o samba, em 1930, o gênero já entronizado por compositores como Pixinguinha, Donga, João da Baiana e Sinhô ainda tinha forte influência africana. O primeiro samba carnavalesco de sucesso — e que lançaria o paradigma do compositor popular do gênero por excelência, Pelo Telefone, em 1917, ainda não existia o rádio comercial.

De Pelo Telefone até o a morte de Sinhô, o samba tomou vulto. Em pouco tempo, todos aqueles gêneros europeizados iam cair de moda, como o espartilho e o pince-nez. Da revista para o rádio, logo ele iria cruzar o Rubicão e conquistar o Brasil e o mundo.

Pois o Poeta da Vila surgiu no panorama musical brasileiro ao mesmo tempo em que o samba desceu o morro e que o rádio e o disco ganharam visibilidade pela primeira vez. Noel nasceu em 11 de dezembro de 1910. O parto foi difícil: o garoto não saia do ventre da mãe de jeito nenhum. Foi obrigado a nascer a fórceps.

As seqüelas foram terríveis. Noel ficou com o queixo deformado: seu perfil se tornaria uma marca registrada, o queixo ausente, contrastando com o cigarro caído era uma caricatura que ele gostava de fazer, e o transformava quase numa figura chapiliniana.

Contudo, se o poeta nasceu à fórceps, seus sambas nasciam com extrema facilidade. Sua música lhe brotava pelos dedos, pelos cotovelos. Mais do que isso: ao contrário do estilo de samba de roda típico do morro, Rosa, de educação livresca, emprestou ao samba um estilo sofisticado sem, no entanto, deixar de pagar tributo aos grandes mestres. “A Vila/não quer apagar ninguém/só quer mostrar que faz samba também”.

E a Vila fazia um samba que fazia até dançar os galhos do arvoredo e a lua nascer mais cedo. Além de sambista, o Noel era um exímio versejador. Tinha um talento impressionante para rimas originalíssimas, como em Três Apitos: “nos meus olhos você vê/como sofro cruelmente/com ciúmes do gerente/impertinente/que dá ordens/a você”.

Noel era uma espécie de malandro quixotesco. Por um lado, se integrava ao estereótipo, como em Conversa de Botequim. Por outro lado, fazia polêmica com quem bancava o papel do malandro por excelência. Por conta disso, ele acabaria se metendo numa curiosa polêmica com Wilson Batista — este defendendo a malandragem, enquanto Noel fazia o papel do advogado do diabo. Na polêmica, salvaram-se todos, e quem saiu ganhando foi ele — o samba.

Noel chapiliniano. Para ele mesmo ele compôs malandro medroso: gostava de se caricaturar. Noel por Noel. Não tinha navalha, a gravata da foto era uma meia branca. Os sapatos sujos, a roupa amarfinhada. Mas sempre dava um jeito de colocar o melhor terno (o único) terno branco para passear bonito pela Lapa ou pelo Café Nice. Sempre precisava de vintém: “seu garçom me empreste algum dinheiro/que eu deixei o meu com o bicheiro”. Nada poderia defini-lo melhor

Noel intérprete: no tempo dos vozeirões estilo Vicente Celestino, com tenores e vibratos épicos, o Poeta da Vila cantava com sua voz pequena e quase cômica. Muitos dividem-se em avaliar quem melhor defendeu suas canções — Marília Batista ou Aracy de Almeida (descoberta dele)? O melhor intérprete de Noel era ele — Noel.

Noel iconoclasta: assim como Orestes Barbosa, ele era, com efeito, um cronista do cotidiano. O autor de Chão de Estrelas trouxe o modernismo para a música em suas serestas, enquanto Noel modernizava o próprio samba. Em O Orvalho Vem Caindo — parceria com o boxeador Kid Pepe — Rosa parte para a temática social: “meu cortinado/é o vasto céu de anil/e o meu despertador/é o guarda civil/que o salário inda não viu”. Misturando o onírico do céu e o profano do guarda-civil, o apito da fábrica ou o Russinho do Vasco da Gama (em Quem dá Mais?), ele tirava a poesia dos píncaros azulados do parnasianismo para o rés do chão do lirismo de cada dia.

Noel também era inefável ao recriar o vocabulário, em misturar o gongorismo poético da voga de então com a gíria dos bares e das calçadas, ele foi único em criar rimas insólitas para os ouvidos acostumados ao romantismo das modinhas, ao falar de fábricas de tecidos, guardas-noturnos, ou criando paráfrases engraçadíssimas, como em Cordiais Saudações: “Espero que notes bem/estou agora sem um vintém/se puder, manda-me algum/Rio, 7 de Setembro de 31”.

Cedo ele aprendera bandolim e o violão. O instrumento lhe dava sensação de importância. Dedicou-se com tanto afinco ao pinho que, com quinze anos, sabia tocar quase como os velhos chorões da Praça Onze. Porém, ao mesmo tempo em que o Poeta da Vila se entusiasmava com a música, ele foi largando os estudos em Medicina. Com vinte anos, ele já era o mais novo ‘rapaz folgado’ do bairro, fazendo ponto no Rio Clube ou no ponto de Cem Réis (que viraria samba).

Da Vila para o disco e o rádio foi um pulo. Primeiro com seus amigos Almirante e João de Barro com o Bando de Tangarás, que faziam números de emboladas e modas sertanejas, que faziam muito sucesso nos teatros de revista no final dos anos 20. O samba entra em sua vida a partir de Com que Roupa, de 1929.

O disco já existia no Brasil desde 1902. Contudo, foi com o rádio comercial, a partir dos anos 30 e o surgimento das três grandes — Philips, Mayrink Veiga e Educadora que Noel seria um dos compositores pioneiros justamente na função de cantores/compositores/artistas numa época em que a questão de direitos autorais ainda era antedliuviana e a expressão Indústria Cultural era algo inimaginável.

Mas nos anos 30, com a explosão promocional das marchinhas de carnaval, e éter e o microfone era o elemento irresistível e suficientemente capaz de criar a geração de entretainers no Brasil que saía do Teatro de Revista para o éter.

No princípio, Noel era contra-regra do Programa Casé, na Phillips. Ninguém ganhava bem, mas trabalhar no rádio era uma cachaça. Ali, ele pedia achar qualquer intérprete e, de chofre, apresentar-lhe o seu mais novo samba. Mário Reis, Aracy de Almeida, Marília Batista se tornariam grandes defensores das canções do Poeta. Aliás, saindo do cerco de Francisco Alves, que empresariava o então jovem Orlando Silva, Noel conseguiu fazer com que o Cantor das Multidões estreasse no disco com uma músicas suas: Menina dos Olhos(com Joel, da dupla Joel e Gaúcho) e Cidade Mulher, (de 1935), trilha do filme de mesmo nome.

Naquele tempo, para ganhar um tutu forte, um compositor popular dependia de um grande cantor para servir-lhe de ponte entre ele e o disco. Disso Francisco Alves se valeu durante sua vida da seguinte forma: gravava a canção desde que ganhasse a co-autoria. Assim Benedito Lacerda ganhou parceria com Pixinguinha e Chico Viola com Ismael Silva e Noel.

A parceria rendeu sucessos para Alves e Mário Reis, que formavam uma dupla no começo dos anos 30. Mais tarde, o Poeta resolveu se desvencilhar desse acordo desagradável: foi quando conheceu Osvaldo Gogliano. Músico erudito, Vadico emoldurou acordes que imortalizaram grandes momentos do Poeta, como Feitio de Oração e Feitiço da Vila. Mas Noel também sabia criar música de qualidade. Tanto que Três Apitos, Até Amanhã e Último Desejo, Com Que Roupa e Conversa de Botequim — o cartão de visitas de Rosa — são composições originais suas.

Poeta-lição: Noel tinha uma outra forma de malandragem. De rima em rima, ele conseguiu transformar música em trabalho. Ele já tinha um talento superior em estar sempre no lugar certo, municiado de suas canções. Nássara dizia que ele conseguia ter livre trânsito com todo mundo no meio. Desde a turma do dia e a do morro (fez Pierrô Apaixonado com Heitor dos Prazeres) ou a barra pesada do sereno. E seus sambas complementavam isso. Ele era um agitador cultural avant la lettre e um inteligentíssimo marqueteiro de escol muito antes da palavra jabá se tornar depreciativa...

Noel Rosa preferiu arder arder como uma chama breve do que se extinguir com o tempo. Vivia a boemia do Rio de Janeiro dia e noite. Como aconteceu com seu amigo Custódio Mesquita, viveu muito, viveu pouco. Como cronista de costumes, cantando sua cidade e a Vila, versejando amores de tango, amores não correspondidos.

Três Apitos talvez seja o maior exemplo. Noel gostava de uma funcionária da fábrica Confiança e o apito de outra fábrica (ele confundiu-as, como diz Carlos Didier e João Máximo, em biografia definitiva do compositor) foi o mote para a sua mais bela canção de amor: “mas você não sabe/que enquanto você faz pano/faço junto/do piano/esses versos/prá você”.

Saudade que faz um samba: “e quem suportar uma paixão/sentirá que o samba então/nasce do coração”. Poeta-lição. Noel está morto? Não. Noel está vivo e faz um século. Século de Noel Rosa, o Poeta da Vila.

Thursday, December 02, 2010

Monday, November 22, 2010

Na Caixa de Entrada

Prezado Candidato (a),


Agradecemos sua participação no processo seletivo para a nossa maravilhosa empresa, com mais de dez anos de experiência e contando sempre com os melhores e mais capazes profissionais da área.

Infelizmente, não foi possível seu aproveitamento nesta oportunidade. entendemos que você estava plenamente disposto a cumprir todas as metas, que contava com um emprego excelente, ainda mais nessa época do ano em que o mercado abre um número incontável de vagas tanto para a indústria quanto para o comércio. Também entendemos que você se predispôs, com engenho e arte, a enfrentar o processo de seleção sabendo que o salário seria excelente, fora assistência médica, décimo terceiro, décimo quarto, você ia tirar o pé da lama, ia conseguir alugar um apartamento e enchê-lo de bens materiais, ia poder economizar dinheiro e quem sabe viajar para onde quiser, frequentar restaurantes, lugares descolados, festas, pagar rodadas e mais roadas de cerveja para seus parentes e amigos e ser a alma da festa, ia poder dar até quem sabe um pontapé num mestrado e tirar o pé dessa lama que é essa sua vidinha de merda, que a sua vida iria ganhar parâmatros, você ia ter um novo status, ia poder se sustentar sem problemas daqui em diante, adquirir virtude e confiança diante de tudo, ia ganhar auto-estima e ia se sentir feliz e orgulhoso de si mesmo. E saiba que não é nada pessoal, achamos que você tem potencial mas, a despeito da vaga não exigir nenhuma experiência na função, conforme veiculamos no anúncio do jornal, você foi preterido.

Mas tenha a certeza de nosso prazer, da nossa alegria, da nossa felicidade, do nosso sincero júblilo e agradecimento por tê-lo (a) como participante.


Mantenha seu currículo atualizado em nosso site para alguma futura oportunidade!


Cordialmente,

TARTUFOS SOLUÇÕES EM RH

Monday, November 15, 2010

Deodoro, o Marechal


Independência ou Morte!


Eram quase sete da manhã. Um oficial entrou nos aposentos do famoso Marchal Deodoro da Fonseca. Encontrou o Marechal abraçado numa garrafa de Velho Barreiro em posição fetal,roncando estrepitosamente, como se não houvese amanhã. Na escrivaninha do Marechal (ao lado da cama), um prato vazio, um canudinho cortado na metade e o cartão de crédito dele (do Marechal).

Acordeu o homem: "Marechal, Marechal, Marechal!". O Marechal acordou de súbito: "rrrrrrrronc!" e abriu os olhos antes de acordar, aos safanões do soldado-pajem. "Hein, Mulher de quem"?

O Oficial: "Marechal, olha eu aqui, o senhor tem que proclamar a República, Marechal!". O Marechal: "Caralho, mas eu sou monarquista, que eu faço?". "Não faz nada, Marechal, bota a farda e boralá, Marechal". O Marechal, trôpego, ia carregado por mais dois soldados. Levaram meia hora tentando colocar o homem em cima do cavalo, que sempre caía do outro lado.

Já eram cinco para tentar fincar o intrépido Marechal na sela, dormindo em pé. O Marechal meio que, de repente, "reacordou" no meio da operação. Sorriu maliciosamente à eles: "Ah, sim, não, mas deixa então eu tomar só mais uma cachacinha!". O oficial: "Mas meu caro Marechal, nós estamos atrasados!".

O Marechal, que tava dormindo em pé, acordou ficou puto. "Olha aqui, seu proxeneta de merda, deixa eu levar a garrafa sim, senão eu não subo nessa merda de cavalo e a República que se foda". Ao dar a garrafa e o chapéu, o soldado-pajem observou: "Marechal!". O Marechal, estilo Paulo César Pereio: "Que foi agora, porrrra?

"Marechal, o senhor está com polvilho antisséptico Granado nos bigodes". O Marechal: "Isso não é polvilho antisséptico Granado, seu idiota".


E lá foram eles, proclamar a República

Saturday, November 13, 2010

Balaio, meu bem, Balaio


Livros à mão cheia, na Praça da Alfândega


Vejam vocês: pois a intrépida reportagem do PATO MACHO esteve ontem na Feira do Livro de Porto Alegre para conferir o que havia de bom nos famosos balaios da Praça da Alfândega. A questão é a seguinte: recebemos inúmeras reclamações, por parte de frequentadores do evento, dando conta de que a qualidade dos chamados balaios — setor destacado de cada respectiva banca onde os leitores podem encontrar livros em preços de ocasião, estava uma bazófia só.

Um leitor nos advertiu por e-mail, esta semana: "esses exemplares colocados à venda na verdade não passam de lixo reciclável encadernado, que não servem nem para doação nos postos de coleta", disse uma leitora assídua do nosso blog que, no entanto, não quis revelar o seu nome — com medo de ir parar num camburão, como aconteceu anteontem com a nossa amiga, Telma Scherer. Consta que a polícia queria até fazer um teste de sanidade mental (tsc, tsc...).

Por conta disso, nosa reportagem decidiu investigar à fundo a alma profunda dos balaios da Feira do Livro de Porto Alegre, a ponto de conferir in loco se realmente procede a reclamação, por parte de alguns de seus frequentadores, de que estão vendendo mercadoria estragada e fora do prazo de validade em nossos balaios.

Pelo que pudemos constatar, a coisa não é de se fazer terra arrasada. Eis alguns dos excelentes títulos que a reportagem do PATO MACHO encontrou nos maravilhosos balaios da Alfândega — e recomenda:


Luiz Zini Pires: 71 Segundos - O Jogo de Uma Vida (clássico do jornalista e amigo do Celso Roth)
Almanaque Abril 1984 (atualíssimo)
Allan Kardec: O Evangelho Segundo o Espiritismo (na dúvida, leve o Novo Testamento revisto e explicado)

Fernando Sabino: Zélia, Uma Paixão (Sabino em seu melhor momento)

Gabriel Moojen: Histórias Tatuadas (não sei quem é, mas o prefácio é muito bom)

Eduardo Bueno: Mamonas Assassinas - Blá,blá,blá (obra-prima de Peninha, o humorista)

Morris West - As Sandálias do Pescador (o autor dos mesmos livros de sempre dos mais destacado nos mesmo balaios de sebos todos os anos, o que mostra a atualidade de West e do interesse do público nesse grande autor de balaios)

Bruna Surfistinha: Livro O Doce Veneno do Escorpião (melhor, só o R$ 20 sem pressa prá você voltar da Conceição)

Irwin Wallace: O Fã Clube (outro The Best Of dos balaios de 1 real)

André Gonçalves - O Homem que Seduziu a Vida (sem comentários)

Richard Bach: Fernão Capelo Gaivota (só não entra nos mais vendidos porque todo mundo tem esse livro)

Dan Brown: Código Da Vinci (o notório romance histórico-policial que virou filme e hoje é mais notório porque a Eurostar, serviço europeu de trens de alta velocidade, divulgou a notícia de que, ao cabo de um ano, quase mil exemplares do worst-seller haviam sido deixados na linha Londres-Paris)

Monday, November 08, 2010

Meninos, eu vi


Paul em Porto Alegre


Eu poderia me debulhar em lágrimas e escrever pelos cotovelos falando o quanto eu sou fã e admirador do trabalho do Paul McCartney mas, como muita gente está comentando e irá comentar sobre a parte sul-americana da Up And Coming Tour, eu vou ser objetivo.

Considero essa a melhor banda desde a The Paul McCartney World Tour, de 89. Até porque creio que, quando ele voltou a excursionar pelo mundo, no fim dos anos 90, Paul quis deixar sua música com um ar mais contemporâneo, gravando com Hugh Padgham, depois Hamish Stuart, Elvis Costello, Robbie McIntosh e o Paul Wickens, que é o único remanescente daquela fase. Foi justamente com esse comjunto que ele excursionaria pela primeira vez no Brasil, em 1990 e em 1993.

Mas de lá para cá, McCartney foi deixando a sofisticação (que marcou épicos como Flowers In The Dirt) de lado: com a banda atual, reformulada a partir de 2001 quando o Rusty Anderson e o Laboriel, Jr. foram convidados para tocar com Paul no Driving Rain.

A partir dali, passado o hiato desde a New World Tour, quando ele voltou aos palcos, fez duas coisas admiráveis: entrou de cabeça mesmo num repertório ostensivamente focado nos Beatles e promoveu um downsizing nos músicos. E decidiu, já sessentão (e enxutaço DIZEM), cair na estrada prá valer.

O grupo ficou mais compacto e coma influência de Abe, que tocou com Steve Ray Vaughn, e o Rusty, que faz um rock calcado em anos 60 e no punk setentista. Quando o Brian Ray entra na turnê do Driving, Paul McCartney passou a excursionar com regularidade. O Wix voltou e virou o spalla de uma banda que não tem nada de erudito. O que eles fazem mesmo é rock de garagem, pauleira e pesado, como deve ser.

Ou seja, o time amalgama regularidade e momentos inesperados (que vão além do ritual do show programado — como atender a uma fã em pleno palco,quem diria?) para mortais como nós, tem noção exata de como se portar no sob os holofotes, tanto pela experiência do Paul em levantar estádio desde o Shea, em 65 quanto a de Brian, Rusty e Abe que, a despeito de parecerem eternamente garotões, têm uma folha corrida de estrada — tanto em carreira-solo quanto como músicos produtores.

E pensem que decorridos mais de oito anos, a banda é uma máquina está, funcionando no máximo e perfeitamente azeitada. E interessante notar que ao vermos, conjunto possa parecer um bando de desajustados, mas em cada show, o essencial funciona perfeitamente. O supérfluo (nesse caso, o mais essencial), e o inenarrável charme do Paul em bancar o entretainer com o público, falando com eles na respectiva língua local, mas sempre com a boa pinta de um MBE.

Que também engana: como diria Nelson Rodrigues, o menino mora dentro do homem. E Paul McCarney impressiona qualquer audiência sendo uma lenda viva e, ao mesmo tempo, o teddy boy que tocava 12 horas seguidas em Hamburgo, no começo dos anos 60, e pavimentaram em campo adversário as boas vindas do rock com a Beatlemania, em 64.

Aliás, um parêntese: Foram os próprios Beatles que criaram o show de estádio. Depois do Shea Stadium, todos os produtores musicais vieram que era possível lotar um estádio com um oceano de gente para ver uma banda de rock. Só que naquela época, eles ligavam um amplificadorzinho tr00 Vox de 100 watts num sistema precário de auto-falantes, cujo som já era ruim em partidas de basebol. Hoje, é muito mais fácil. Embora aqueles 55 mil pagantes do mitológico Shea Stadium em 65 — talvez por conta do documentário, parecem sempre muito mais gente do que eram. Ontem, no Beira-Rio, estádio do Internacional, havia mais do que isso.

E espanta mesmo para quem achava que quando ele chegasse finalmente aos 64, fosse se dedicar apenas a cultivar o seu jardim e a compôr oratórios (como um Liszt em fim de carreira) que Paul McCartney rejuvenesceu com a nova banda, e talvez tenha assumido uma jovialidade chocante para um homem idade provecta (desculpem, é um eufemismo) ao vê-lo brincar de guitar hero com sua Les Paul ou demonstrar toda a sua versatilidade com o uekele e o mandolim.

Ou seja, para ele, amelhor forma de produzir e como Paul mesmo disse, hoje ele tem possibilidade de ficar na estrada mais tempo. Vieram a Driving USA Tour, a Back In The U.S. Tour, a Driving Mexico. Mas desde 2001, a fórmula seria a mesma.

Só que as apresentações em geral faziam sempre o périplo entre os Estados Unidos e a Europa.

Faltava o Brasil.

Especulações não faltavam. Mas era uma guerrilha de informações. quando mais se falava, menos se acreditava ou se dava trela. Até o anúncio de Buenos Aires.

Quando eu os vi no Festival de Wight, em junho (pelo Youtube, claro), eu nunca imaginei que, cinco meses depois, eu ia ver Sir Paul em terras brasileiras, na cidade onde eu moro e no estádio do meu clube. É mole?

Sobre a banda e o show, não haveria muito em evoluir em matéria de estética. McCartney virou ídolo de uma nova dentição de fãs a partir dos anos 90 quando o rock dos Beatles virou referência no som do Britpop (como se para ele isso fosse necessário, claro que não, né, vocês me entendem), por exemplo. Se a onda era reciclar, se alguém não precisava de cerimônia para fazer rock'n roll como nos velhos tempos, esse alguém era Paul McCartney.

E o melhor que ele tinha que fazer era voltar às origens porém sem perder o seu lado eclético e fora a gentileza que ele sempre concede aos seus fãs, sendo um cara simpático e acessível. Sou suspeito para falar mas ele foi mais espirituoso em Porto Alegre do que no campo do Mets. Pode ser que não, mas ninguém vai me convencer.

E até podia ser um show meramente suadosista, mas estamos falando de um músico criativo, versátil, sensível, inteligente, moderno e prolífico. E toca bateria.

McCartney abriu o show durante um pôr-do-sol da irretocável primavera porto-alegrense, empunhou seu baixo Höfner e, com ele, tocou Venus And Mars/Rockshow (que naturalmente nos remete aos show do Wings, nos anos 70) Jet, Letting Go (música subestimadíssima do Venus e que, mesmo não sendo uma favorita dos fãs, ele sempre gostou dela, executou-a na excursão do Wings Over America), Drive My Car e Highway.

Depois largou o terno roxo e o baixo, empunhou sua Les Paul e tocou Let Me Roll It. Não existe música melhor para ele tocar ao vivo — e demonstra que não se esconde atrás de um contrabaixo, mostrando ser um ótimo guitarrista (já demonstrava antes, em Another Girl, Taxman e no McCartney I, por exemplo). O coração de todos, desde os gatos-pingados do Beira Rio até a pláteia VIP chique & moderna, balança no ritmo da música na hora do refrão.

E no fim, eles emendam Foxy Lady do Hendrix, só faltou o Paul chegar no microfone E sussurrar: UH, FOXY

Gente até no lustre. Paul se debruça diante do piano, faz um Dó Menor e ataca de The Long And Winding Road. Ouve-se um OUNNNNNNNNNNN geral. Paul Wickens, spalla, faz as cordas da música nos teclados. Ainda bem que a produtora do show distribiu lenços para quem entrava no estádio. Precisei de 14 ao todo.

Segue-se aquela que eu considero o momento crucial do Band On The Run, Nineteen Hundred and Eighty-Five. Ao invés de (I Want to) Come Home, ele toca Let 'Em In que é mais conhecida do público brasileiro. E quenão tem exatamente a mesma mística de Let Me Roll It para o show.

My Love é sua homenagem à Linda McCartney. Que ele sempre dedicava á ela na turnê de 1989/90 — mas, naquele tempo, ela estava com ele. Como eu estava debaixo da marquise da Padre Cacique, só pude acompanhá-lo ali pelos telões. Meu coração parou. O tempo parou. O mundo parou. Menos as lágrimas.Mais lenços.


Paul salta do piano como um garoto, pega o seu violão folk casca de noz, faz o furioso fingerpicking da introdução de I've Just Seen A Face (que ele troca por I'm Looking Trough You). Confesso que também queria I'm Looking Trough You. Esse era o momento em que eu queria pegar o meu, descer para o palco e fazer uma canja com o Paul (brincadeira, gente).

And I Love Her. Mais lenços. Eu gastava os dedos em bolhas arranhando ela nas cordas prá aprender. E de repente, eu estava vendo o meu irmão mais velho, que me ensinou inglês e violão — e eu não o conhecia. Pessoalmente. Até então.

Blackbird (lenços), Here Today (muitos lenços) e Dance Tonight(que ele toca no mandolim) é um set onde Paul toca sozinho. Mesmo pianinho, a banda volta.

Com o violão folk e a banda, Mrs Vandebilt. Essa ele tocou em Kiev em 2008 e de repente se deu conta que deveria ter colocado no set-list há algum tempo. Wings na cabeça. Ainda com o instrumento, ele canta Eleanor Rigby com Wickens, que faz as cordas nos teclados.

Com o uekle (aquele instrumento que o George gostava, lembram?). Os iniciados já sabem que ele vai tocar a sua versão de meio progressiva de Something. antes, contudo, McCartney toca Ram On, da antiga: mais uma escolha pessoal e intransferível. Quando a banda entre num tutti na hora do solo da canção de George Harrison — com o Brian Ray gastando a palheta, os lenços voltam à ativa. É impactante.

A heróica Sing the Changes é uma música muito, mas MUITO legal, e que é pouco conhecida. Prá mim, a melhor dele dos últimos tempos, do Electric Arguments by The Fireman, que é uma injustiça que você não a tenha ouvido, ainda. Mas vai ouvir logo, logo. Ele fez outro clássico. Grande momento do show. Não conhece? Eis o link:



Dali para a frente, o show é uma covardia, um inexpugnável ataque sonoro em massa. Abe — que é de longe o batera mais boa praça do mundo (depois do Ringo, mas ali) — faz a moldura musical e pavimenta o caminho para Band on the Run, Ob-La-Di, Ob-La-Da, Back in the U.S.S.R, I've Got a Feeling e Paperback Writer.

Em Paperback, Paul troca a Les Paul pela Epiphone Casino da época do Revolver. Os três, Paul, John e George ganharam aquele mesmo modelo sunburst, mas só McCartney deve tê-la conservado (John lixou a dele). Se não for a original de época...

Lenços esvoaçam e giram na ponta dos dedos do público. Um jato de alegria e de adrenalina que não é possível explicar aqui.

A Day in the Life/Give Peace a Chance é curiosa. Os Beatles deixaram de excursionar em 1966 alegando que os sons que eles faziam em estúdio eram impossíveis de serem reproduzidos ao vivo. Mas eis que ele escolhe ofinal épico do Sgt. Pepper's. Só o tmpo explica. Ele canta mas todos lembram de John (uma curiosidade: no lançamento do seu álbum ao vivo anterior, Back In U.S, McCartney decidiu mudar a ordem da autoria da dupla com John para McCartney-Lennon — fato que gerou bastante controvéria. A raiz dessa alteração, dizem alguns, é a de que Yoko Ono havia tirado Paul da parceria com Lennon em Give Peace a Chance, em 1997. Mesmo assim (e talvez adespeito disso ou, por isso mesmo) ele decidiu incluí-la na nova turnê). De repente, a platéia da frente (a que chacoalha as jóias, como dizia um amigo meu) começou a acender isqueirinhos. o contraste ficou meio Before The Flood. Coisas de show de rock.

Let It Be. OUNNNN. Não dá tempo para lenços. Live and Let Die é épica. Um ultraje aos meus nervos em frangalhos. É uma paulada Eu havia dado uma volta atrás do palco pela arquibancada superior. Um dos "orientadores" pediu para que eu retornasse — não sem antes eu correr os olhos na parafernália e a vista pelos bastidores. Depois eu descobri porque não poderia estar ali. No meio de Live and Let Die, acontece um espetáculo pirotécnico assustador, atrás dos telões e na base do palco. Uma cena wagneriana, digna do finale do Crepúsculo dos Deuses, da Abertura 1812 do Tchaicovsky. Eu estava no festival sagrado em Bayreuth.

Hey Jude, bom. Lenços, Lenços,lenços à mancheia. Paul fala e arranca risos, como se fosse um acrobata de circo fazendo piruetas. Fala (contra todas as expectativas) gauchês e todos explodem num riso que só é reprimido quando McCartney volta ao piano e os lenços ao seu uso habitual. Você dá gargalhadas num momento e, de repente, está de novo chorando, chorando, chorando convulsivamente.

Mais Beatles: a agonia agora é ver que o show se encaminha para o fim no auge. Você acredita que é imortal e a apresentação não vai acabar nunca. Day Tripper, Lady Madonna (naquele piano psicodélico dele) e Get Back.

Em Yesterday, ele pega um terceiro violão, um Epiphone Texan FT 79 (vi bem no telão). Aliás, o mesmo que ele gravou-a, em 65. Isso (pode) se explica(r) porque ele às vezes toca ela noutra afinação. Lenços, lenços, lenços...

Quem ainda estava chorando ouve o Paul falar: "ah, vocês tão querendo, rock, é? então vocês vão ter!". Ouve-se as guitarras de Helter Skelter. A banda toca alto e forte, pauleira geral, garagem total. Delírio total. Imagens de uma volta de montanha-russa estilo câmera de Fórmula-1. O show não pode acabar agora, em pleno looping.

Mas acaba. Depois do bis e do adorável incidente com as fãs que portavam cartazes. Alguns fãs apupam quando uma delas diz que é de Flonianópolis (ele soube então que tratava-se de uma espécie de divertida rivalidade "bairrista" entre a capital catarinense) Porto Alegre. Enquanto gentilmente autografava o braço da menina (como ela então impossivelmente lhe pedia no cartaz) ele, suspirou: "Entendo, é que eu sou de Liverpool". Um gentilman. Um gêno da raça.

O encerramento é Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (reprise)/The End. Em 90, Paul Fazia uma versão com as duas, um solo e o fim na reprise. Agora ele fecha mas enendando o last rock do Abbey Road. OH, YEAH, ALL RIGHT, ARE YOU GONNA BE IN MY DREAMS TONIGHT?

Paul, meu irmão de trago, do tempo que a gente chegava em casa com um elepê do sebo de discos direto para a eletrola e de viola comos amigos na calçada, tentando em vão tocar I Will ou Blackbird de forma decente às vezes brincava com a platéia, faz graça e derrama simpatia. Tenta falar português. Fala gauchês e porto-alegrês. Ele estava bem assessorado por causa daquele "mas bah, tchê". ele deve ter se divertido com a reação. E não precisava fazer média com o público, mas ele tem anos e anos de estrada. Sabe como é. E tomou todos de asalto. E estava desassombradamente à vontade, como sempre. Ele é aquele brother nosso que está sempre certo. Parece que sabe exatamente o que fazer. Nós é que não. Ele estava preparado para nós. Nós é não estávamos preparados para ele.


PS: Falei que eu ia ser objetivo e imparcial. eu não resisti, desculpem.
PS 2: Volta Paul!

Friday, October 22, 2010

Teté e o telefone


Larri e Bodinho


Meados da década de 50. semana de Gre-nal.

Os jogadores do Inter estavam concentrados nos Eucalíptos desde quarta. O técnico, Teté, o Marechal das Vitórias controlava seus pupilos: chegava até a procurar obsessivamente macumba em alguma esquina do estádio para ver se não tenha nenhuma amarração, como um sherlock do batuque.

Mais: ninguém podia falar ao telefone. Vai que alguma mala preta falante resolva combinar algo com algum.

Na sexta de tarde, o telefone tocou. Do outro lado da linha, o sujeito, que se recusava a dar o nome, queria porque queria falar com o La Paz (Florindo, Oreco, Chinesinho, Bodinho, Larri, etc), o goleiro.

— Meu amigo, o La Paz não pode atender, meu amigo — respondeu Teté — só passo recado, o que você quer falar com ele? Diz aí que eu transmito o recado.

— Mas eu preciso falar pessoalmente com ele — gemeu o sujeito do outro lado.

— É, mas não dá. disse o treinador. e bateu o telefone.

Duas horas depois, o telefone toca. É a mesma voz, o cara queria falar com o La Paz.

— Mas quem raios é o senhor, o que o senhor quer tanto falar com ele — indignou-se Teté.

— È...bem...eu sou um amigo. É que, olha só, este é um assunto particular, sócom ele mesmo...

— E o telefone não parava. O sujeito talvez quisesse que outra pessoa que não Teté atendese e ele conseguisse falar com o La Paz. Chamadas caiam por toda a noite de sexta e o sábado. quando atendia, era sempre a mesma coisa, e o sujeito não queria se identificar de jeito nenhum.

Domingo de manhã: a mesma coisa. Dirigentes do Inter estavam começando a trocar olhares significativos. O que estava acontecendo?

— Mas eu preciso falar como La Paz! Eu preciso falar com ele! — dizia o angustiado interlocutor de Teté.

— Eu dou o recado — respondeu Teté, com uma paciência insuportável.

— Poxa, mas tem que ser com ele mesmo. É particular! Olha só, é o Teté, né? seu Teté, não tem como o senhor me fazer esse favor e arrumar um jeitinho? Pelo amor de Deus, seu Teté, faça isso por mim! Por favor! Olha só, eu, ele nem tem que sair dos Eucaliptos, é só ir até o portão da Silveiro, eu falo bem rápido com ele e aí o La Paz pode voltar para a concentração, não tem problema nenhum!

Meio-dia, toca o telefone. Teté inexpugnavelmente bloqueia o sujeito.

Vencido, ele diz:

— Tá bom.... Mas o senhor me promete que vai dar o recado para ele, seu Teté?

— Prometo. Fala aí, rapaz.


— Então....então diz prá ele que já tá tudo acertado, conforme o combinado, viu? Tá tudo OK. Tchau!

Monday, October 18, 2010

A Velha Contrabandista


Oi amgs



Essa história é meio Luma de Oliveira, é OLD but GOLD.

Todo dia a velhinha passava pelos guardas da fronteira com uma mochila enorme, montada numa lambreta. Sorria, acenava para eles e passava,feliz da vida.

Passou um mês, o guarda, macaco velho, começou a desconfiar. Essa velha tem esquema, só pode. "Não é porque é velha que é santa", pensava.

Um dia, ele parou a velha. "Boa tarde, o que o que tem na mochila?" Ela: "areia". Ele: "deixa ver". Ela "OK'. Ela abriu a mochila e — surpresa — só tinha areia.

E lá foi ela, sorridente. O guarda ficou perplexo: porra, em 30 anos dessa indústria vital eu nunca vi isso. Todo dia o fiscal achava areia...

Um dia, ele foi sincero:

— Olha vovó, eu tenho que ser sincerocom a senhora. Eu sou fiscal de alfândega há trinta anos, manjo o esquema e tenho certeza que a senhora é contrabandista!

— Mas só tem areia na mochila — murmurava a santa senhora.

O fiscal, mais angustiado que barata de ponta cabeça, propôs:

— Olha vovó, eu lhe deixo passar. Não apreendo nem dou parte, não conto nada a ninguém, mas a senhora TEM, PELO AMOR DE DELS que me dizer qual é a muamba que a senhora passa!

A velha olhou para os lados. Perguntou:

— O senhor promete que não me deda, formosinho guarda?

Ele, crispado de curiosidade e emoção: "Sim, Juro"! Ela: "jura mesmo"?

Então a velha sorriu seu sorriso de batom torto e disse:

— É lambreta AOPKSPAOSKOPAKOPKSPAOSKOPAK Õ/