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Friday, November 27, 2020

Missa em G


George Harrison em 1970

 

Sempre que vem à baila a discussão a respeito do All Things Must Pass, álbum do ex-beatle George Harrison que hoje completa cinqüenta anos (de lançamento nos Estados Unidos, na Inglaterra saiu dia 30), eu sempre ouço que é, de longe, o melhor trabalho solo de todos os quatro em suas carreiras-solo. O melhor disco solo de todos eles em todos os tempos é All Things Must Pass.  É uma bonita opinião. Longe de querer questioná-la. Eu preferiria analisar o disco no âmbito da própria carreira solo do George, carreira que é bastante irregular, e de um músico que sempre correu por fora do show-biz, principalmente depois que livrou-se das obrigações contratuais com a EMI, em 1976. A partir dali, sua carreira-solo é lacunar e distante da indústria da música e, principalmente, dos palcos. 

Escolha pessoal? Talvez. Eu diria que totalmente. Sempre admirei George pela escolha que ele fez, a escolha? A renúncia a uma carreira-solo e, mais do que isso, ele certamente nunca quis competir com seus pares dos Beatles. Lembro de John falar, certa feita, que George ainda estava por escrever a sua obra-prima. Ou seja, para Lennon, All Things Must Pass não é tudo o que dizem ou pensam. Acho na verdade complicado porque dizer que esse é o melhor disco solo dos ex-beatles implicaria dizer que é o melhor trabalho solo dele. Ou seja, é como se todo o resto da discografia do George fosse um mero anticlímax do que foi o All Thing Must Pass, como se ele tivesse vivdo eternamente, além da sombra dos Beatles, à sombra do seu primeiro trabalho solo (descontando os anteriores, Wonderwall e o Eletronic Sound, que ninguém entendeu, mas eu gosto muito desse). Então, essa afirmação, na medida que é uma provocação aos outros ex-parceiros (por parte dos fãs, lógico, a polêmica é válida), essa afirmação acaba desmerecendo todo o resto da produção de George como músico solo. Então, é melhor ir com cautela nessa transa aí. 


Acho que nessa época, começo dos anos 70, eles estavam ainda marcando suas posições. Harrison juntou-se a nada menos que Badfinger, Derek and the Dominos de Clapton e amigos. O disco, triplo, parece ser uma resposta aos seus ex-colegas. Transformados em inofensivos duendes, Ringo, Paul e John pareciam insignificantes demais. John entendeu a mensagem. Estrilou Quem não conhece George poderia pensar que tratava-se de uma vendeta estúpida. Bobagem, Harrison era cáustico por natureza, não iria perder a oportunidade de perder o amigo sem no entanto deixar a piada passar. Harrison como uma espécie de hortelão sentado no gramado inglês de Friar Park e seus três amiguinhos insignificantes. E o disco? Eu sempre digo que levei muito tempo para escutá-lo na íntegra. 

Ainda hoje, posso dizer até que não sei se cheguei a ouvi-lo a ponto de conhecer suas faixas de cabo a rabo, como conheço os discos dos Beatles. De fato, a culpa não é do George ou desse álbum especificamente. Eu realmente não consigo topar a carreira solo deles. Talvez seja por isso que eu não entre no debate bizantino sobre qual é o melhor trabalho solo dos quatro, como se a trajetória deles depois dos Beatles fosse uma gincana para saber quem fez o melhor disco solo. Realmente, eu vejo isso como papo de fã-clube. 

Penso no All Things Must Pass como um grande movimento para um homem como George. O disco é a sua libertação, é o seu decálogo, é quase uma cantata pop, um catecismo religioso. Quando George canta “My Sweet Lord” com a produção etérea de Spector, é como se ele cantasse do topo de uma montanha. O que me impressiona no disco é que, estribado na produção, o conteúdo do álbum é quase religioso. Isso me leva a pensar que em seu credo, Harrison está tão cifrado em sua mensagem que, em alguns momentos, chega a ser meio caturra de tão proselitista, que ele até mesmo se esqueceu quem ele era e de onde ele havia saído. De fato, George quis ser proselitista em All Things Must Pass

Muitos podem ter achado que era parte do espírito de época. Ele mesmo encontrou problemas na divulgação da música de Shankar. George, de fato, queria ser um pastor da boa nova. Ele de fato chegou a um nível de entendimento e de sabedoria que o conduziu para além das fronteiras do show-biz. Creio que esse foi o seu grande dilema: George se desinteressou rápido pelo que ele fazia. Quando teve as portas abertas para ser um grande artista, ele, apesar das boas produções posteriores, como Gone Troppo ou o Extra Texture, nunca conseguiu ir além do evengelho de All Things Must Pass. E penso que muitos que celebram a excelência e o estado da arte de All Thing Must Pass nunca pararam para pensar – ou ouvir- o restante da produção do ex-beatle, que muitas vezes se viu com acusações de falta de qualidade ou criatividade, como no caso da briga dele com a gravadora para lançar Somewhere In England

Seu maior sucesso nos lacunares anos 80 é um cover, excelente, aliás, Não diria que Harrison acabou virando refém do sucesso de All Things Must Pass mas, se compararmos com a trajetória de Paul McCartney, a carreira solo do George foi desinteressada e sem maiores ambições. Claro, fica o músico George e suas escolhas. De fato, como refletiu Clapton quando de sua turnê com o amigo nos anos 90, quando Eric disse em sua autobiografia que George estava no palco apenas de corpo presente. Seu espírito, na verdade, não estava ali. Acho que existe uma grande necessidade de se construir uma versão sobre o George solo que nem ele faria questão de corroborar. 

Na verdade, diria que o que ele realmente gostava era de algo como os Wilburys – e, se formos pensar, seus grandes momentos foram cercados de amigos, como nos Wilburys e em All Things Must Pass. O álbum, que completa meio século hoje merece ser ouvido, não como o melhor disco solo dos quatro Beatles. Mas como testemunho que um músico que um dia partiu em busca de iluminação e chegou lá. Noves fora, acho que All Things Must Pass não poderia ser o melhor disco solo do George nem em retrospectiva, porque o disco é uma promessa de artista solo que, em minha opinião, não se cumpriu. Fico com a opinião de John, uma opinião bastante forte vinda de quem veio. Afinal, Lennon era o mestre de George. 

Mas John também cometeu algumas derrapagens em sua respectiva carreira solo – e quem diz isso não sou eu. Eu seguidamente, em tempos de streaming, ouço aleatoriamente as faixas do disco. Confesso que não o ouço inteiro, duvido que alguém o faça. Ele tem grandes momentos, como “What is Life”, que não saberia dizer se ele fala para Deus como um Agostinho ou fala para Pattie. O resultado seria o mesmo. “All Things Must Pass”, a faixa, que quase se tornou uma canção de um disco dos Beatles. Eles chegaram a tocá-la mas, analisando bem, assim como “Cold Turkey”, era anti-beatles demais. No contexto da separação da banda e do próprio álbum, ela cala fundo, é profética e profundamente religiosa. “Awaiting on You All” parece daquela safra do “Sour Milk Sea”, um papo meio “read the book” ou “Within You, Without You”, um momento proselitista com direito a alguma iconoclastia. “It Isn’t a Pity”, que teria sido escrita em 1966, também no contexto do disco soa totalmente diferente, me parece o mais perfeito réquiém para os Beatles, a melhor trilha sonora para o fim de uma relação que parecia ser eterna. 

O final, parafraseando “Hey Jude”, deixa isso mais do que evidente. “Beware of Darkness”, “Hear Me Lord”, “Art of Dying” e “My Sweet Lord” seriam as outras partes da missa ecumênica de George. As outras, como “I’d Had You Anytime”, “If Not For You” e “Behind That Locked Door” parecem deslocadas para um contexto mais country-rock e que poderiam fazer parte de um outro disco paralelo em All Things Must Pass, esse sim, com influências de country-rock, uma tendência que George abraça nesse álbum mas que, no entanto, não desenvolve nos trabalhos posteriores, o que é uma pena. Mas, no final das contas, eu confesso que gosto desse cult following do All Things Must Pass como o melhor disco solo dos quatro Beatles em todos os tempos. Na verdade, me assombra o fato de que ele parece ser muito mais do que é, mais do que mais um disco, ele me parece uma grande experiência sonora e religiosa. A nota religiosa do disco, aliás, é a sua maior virtude e o que o sustenta. Não engrossaria aqui o coro, seria desnecessário aliás, de que este é o melhor disco das carreiras solo dos Beatles. Mas certamente que se eu fosse me inspirar em algum trabalho deles para fazer um disco, o escolhido certamente seria All Thing Must Pass.  


Thursday, May 07, 2020

It Isn't a Pity?

Capa do Mirror, repercutindo o anúncio do fim da banda, em março de 1970




Vejo um vídeo com o John Lennon tocando “John Sinclair” no Reelin’ in the Years. Sei que muita gente não gosta do disco Some Time In New York City. Acho que, naquele momento, como se sabe, aquela parceria dele com a Yoko tava meio que no fim naquele momento histórico. Penso nisso aleatoriamente enquanto vejo a mídia relembrar amanhã os 50 anos do disco Let It Be. 

Sabe,  eu, que sempre tive dificuldade com a carreira-solo dos Beatles, poderia contar nos dedos quantas vezes eu ouvi esse disco. Acho que foi o Rodrigo Merheb, no o Som da Revolução, que repercutiu uma fala do John, dizendo que essa fase do Some Time foi uma bola fora total dele.
Minha impressão sobre os Beatles solo será sempre a mesma que eu tenho quando re-ouço o McCartney, de 1970. É um trabalho de expressão, é um despertar depois da experiência dos Beatles, é a cara do Paul, um cara experimental, que não vê problema algum em ser, inclusive, solo dentro da própria carreira solo, como no curioso projeto do Fireman, e nos dois discos McCartney.

Mas a minha impressão, a minha verdadeira impressão e que, naturalmente, é apenas a minha opinião, é a que faltam os outros três. Aqueles mesmos três que George apresenta, na capa do seu seminal All Things Must Pass, como 3 duendes de jardim. John ficou puto com essa referência, o que não o impediu de recrutar seu amigo para as sessões do disco Imagine. “It Isn’t a Pity”, e isso é um dos motivos pelos quais eu acho sempre uma experiência meio dolorosa voltar a esses álbuns, sempre me pareceu um réquiem para os Beatles. 

Não era essa a intenção de George, porquanto ele havia escrito a letra muito antes do fim da banda. Mas aquele final, com uma lembrança do coro de “Hey Jude” foi o toque final na canção, e deu o tom do disco, um réquém ao extinto quarteto.

Vendo o movimento dos Beatles no fim da banda: George, depois, em seu álbum triplo, deu a entender que ele tinha muito a dizer. Ou seja, também minha impressão: era outra libertação. Ele disse que muito do que saiu nesse disco foi vetado pelos Beatles. Coisas que, quando eu ouço, eu posso entender o porquê. Até mesmo no caso de “Cold Turkey”, de John, e que ele queria lançar com a banda.

O que fica evidente, e que soube-se depois, é que a produção individual dos quatro não cabia sequer na proposta dos Beatles. Ao mesmo tempo, as respetivas experiências em estúdio deles, cada vez mais individuais, potencializadas pelo uso de overdubs, o que. desobrigava que ensaiassem ao vivo juntos, serviu para esse isolamento recíproco. Quando eles tentaram voltar a ensaiar juntos, não havia mais química: eles pareciam haver se desmamado uns dos outros. A carência da figura de um produtor só piorou isso.

A separação era iminente e o impacto na vida deles seria exasperadora. Infelizmente ou não, marcou muito esse começo da produção solo. Cada um juntou a sua turma, cada um pôde enfim dar vazão ao que eles queriam fazer mas os Beatles haviam se transformado numa franchise maldita para esses projetos. Essa separação se refletiu de várias formas nesses primeiros trabalhos: faixas muito experimentais(John, Paul,George), ou muito confessionais (John), sub-produções (Paul) ou digressões além do universo do rock (Ringo).

Coisas que eles podiam matar no peito pelo fato de que eles haviam juntado bastante capital simbólico com os Beatles. Mas acho que essa pretensão esbarrava no fato de que eles estavam sem esse guarda-chuva também simbólico (os Beatles) e precisavam arranjar resultado, fazer dinheiro, e isso também significava fazer músicas comerciais e ganhar dinheiro indo para a estrada. 

Quando fez os Wings, Paul queria ser uma espécie de Incredible String Band e tocar para universitários. Muito tempo depois é que ele viu que deveria assumir o status de uma verdadeira banda de rock, nos moldes dos anos 70.

Depois da egotrip do grito primal, com seu debut pós-Beatles, John misturava sua devoção quase filial a Yoko à petardos de azedume, rancor e deboche contra Paul. Algo que eu acho que vai contra o disco. havia um prazer especial em espezinhar McCartney. Na época. Por isso que Imagine, nesses momentos me soa datado. E acho que John, assim como renegou coisas dos Beatles, hoje teria outra v
isão sobre essas cantigas de maldizer...

O menino George juntou uma congregação para fazer uma segunda The Band. Ringo queria ser um cantor de vaudeville, interpretando canções que já tinham suas respectivas versões definitivas. E Paul, como eu citei acima, queria viajar de Kombi pelo interior da Grã-Bretanha com a família e fumar maconha.

O menino John levou a militância até seu paroxismo, já em Nova Iorque, encheu o saco daquela vida a dois e resolveu ‘volver a los 17’. Acho que o seu melhor período foi quando ele desmamou da relação amor e ódio Paul e Yoko e caiu na vida. Infelizmente, sem os Beatles, e até mesmo sem o rigor de Paul com relação aos três, John era aquele garoto bêbado em Woolton, cantando coisas ad-lib e com um violão desafinado.

Ou essa atitude era um atavismo, algo que só Freud explicaria, um ato de rebeldia, ou ele não havia aprendido nada com as lições de Brian Epstein no começo dos Beatles.A realidade é que ele sempre me pareceu um músico naif (não que isso seja algo depreciativo)  e que, durante algum tempo, com os Beatles, mantinha um controle sobre sua carreira. Sozinho, John se ressentia de sua ex-banda e inconscientemente, da falta dela .

Tanto que, minha opinião, claro, o grande momento de John solo é o encontro com Bowie e Elton John, e “Whenever Gets You Through The Night”, esta, sim, uma canção livre  daquele bolor dos primeiros discos, sem Paul ou Yoko no horizonte mental, e pensando em fazer sucesso à moda de um artista (um, não, dois) que era a cara dos anos 70, década que ele parecia não ter entrado.

George deu um salto monstro com All Things Must Pass,diz-se. Muitos consideram esse não apenas o seu grande momento mas, também, e essa é uma opinião sob disputa, poderia ser considerado o melhor trabalho solo dos quatro em todos os tempos. Foram dois petardos (ou duas granadas sonoras, como diria Big Boy), o All Things Must Pass e o Concert for Bangladesh. Mas o seu problema era a continuidade.

E muitos que exaltam esses dois álbuns triplos não têm a mesma impressão da seqüência. E até mesmo a própria EMI/Capitol que, quando lançou a primeira coletânea de Harrison (aquela do calhambeque), colocou no lado A os grandes momentos de George nos...Beatles.

Acho que George foi vítima do primeiro solo pós-quarteto de Liverpool. Isto é, ele ficou com a obrigação de matar um leão todo ano, enfim, lançar um “My Sweet Lord” a cada disco. E, o que era muito importante nos anos 70, cair na estrada. E esse foi justamente o motivo pelo qual ele quase saiu dos Beatles. 

A banda não voltou a excursionar por causa dele, que, reiteradamente, impôs sua permanência com essa posição, a de não retornar aos palcos. Nos anos 70, ele naturalmente foi convidado a rever essa opinião. Chegou a excursionar na época do Dark Horse, mas seria outra decepção. George nunca mais se adaptou à vida ao vivo – algo que foi de suma importância para a gestação dos Beatles e a própria permanência não só deles quanto de qualquer banda pop, no cenário musical.

Em sua autobiografia, Eric Clapton, seu grande amigo, disse que, quando convidou George a sair do eterno casulo e voltar a fazer shows, a experiência foi negativa. Segundo Eric, Harrison, naqueles shows no Japão, onde ele era a estrela, estava presente apenas em corpo, a alma estava muito longe dali. E se despirmos nossa armadura de fã, ao ouvir as gravações, até podemos perceber essa ausência espiritual de George. Seria injusto dizer que seu êxito solo se resumiria a All Things Must Pass. Mas a verdade é que, ao longo de sua trajetória solo, tudo é muito lacunar. E a resistência em ser uma figura pública apenas conforma isso.

E o que dizer do menino Paul?  Ele enfim chegou a conclusão de que estava jogando o seu talento pela janela da Kombi pregando no deserto com um hippie fora de época. E decidiu transformar os Wings num cavalo de batalha. Acho que, independente de querer escolher qual dos quatro solos é o melhor ou o que vendeu mais, creio que McCartney foi o único que encarou a realidade de ser um artista dos anos 70 e em diante. Que o diga a sua carreira, célere e contínua, que segue até hoje, com altos e baixos, como acontece com gente de carreira longa. Mas é o preço de uma carreira longa. 


Acho que ele foi o único que, em parte, conseguiu contornar aquelas pendengas existenciais do fim dos Beatles e assinar novamente o seu contrato com o show-biz. Tirando aquele hiato dos anos 80, quando democraticamente toda a turma dos anos 60 viveu a sua midlife crisis, A partir de 1990, com o revival dos Beatles (agora em CD!) e um novo disco solo (Flowers In the Dirt), Paul partiu para as suas terceiras boas vindas, e aqui está ele.

E John? Bem, uma coisa que eu acho que foi um marco para os quatro é que o contrato que eles assinaram em 1962 previa que eles produzissem até 1975 (isso está na contracapa do Please Please Me, lembra?). 

Então, acho que esse foi o grande teste para os Beatles em carreira solo. Era a metáfora do copo cheio e do copo vazio. Ou você enxerga esse prazo para cumprir tabela ou como laboratório para decolar. Na minha opinião bem de papo de mesa de calçada, enquanto John e George, em determinado momento, principalmente no fim do contrato, não estavam mais interessados em gravar. John voltou para Yoko com sua escova de dentes, depois de ficar, como diria George, num disco que muitos entusiastas de All Things... desconhece, “tired of midnight blue”.

Quando George submeteu o seu Somewhere In England para os executivos da Warner, eles vetaram o trabalho, alegando que ele não era comercial. E ele teve que fazer concessões, a despeito de ser ele, George Harrison, não o garoto do começo da carreira (Clapton passaria por isso também, no Behind the Sun). O disco acabou fazendo sucesso com “All Those Years Ago”, mas, mesmo assim, ele resolveu dar uma pausa, por se sentir desiludido com a indústria da música.

Contudo, creio que era mais fácil entender que os tempos mudaram, que ele não poderia relaxadamente fazer algo tão autoral e subestimar uma gravadora numa época o que mais valia uma canção de sucesso do que um álbum experimental, como o que ele fazia nos tempos do Álbum Branco. Esse desencanto com a “indústria”, de certa forma, não deixava de refletir esse momento na sua carreira, a sua própria personalidade e postura diante da criação musical e o descompasso entre um artista e sua época – já pós disco e que havia retomado o gosto pelo single, e não mais por álbuns conceituais que tanto notabilizou sua geração.

John já tinha dado uma pausa na carreira. Quando retornou, disse que os anos 70 foram uma droga. 
Double Fantasy parece limpo de tudo aquilo que ele passou naquela década que findava e que, na verdade, parecia ser uma longa preparação, um longo aprendizado de como viver sozinho depois dos Beatles, depois das revoltas contra o fim, contra todos os excessos. John confessou que, mesmo depois de toda a tarimba como compositor, se sentia inseguro.

Não sabia se ainda o queriam, se ele tinha a mágica. “Just Like (Starting Over)” me soa como um belo canto de cisne. Tem muito de permanente que havia em sua alma, citações a doo wops e a Beach Boys. É como na canção de Elton John em sua homenagem: John é aquele velho jardineiro que, um dia, sabíamos que ele existia, viva perto de nós, e deixou um jardim devastado e que sua melhor jardinagem havia sido há tempos idos. Aquele seu misterioso vizinho era, há décadas atrás, tocava guitarra numa banda.

O disco, bastante maduro e reflexivo.  A despeito de que, como eu disse, nunca fui um entusiasta de todo de suas respectivas carreiras solo. Platonicamente falando, sempre me parece que falta a parte que completa. Porém, o que parecia um recomeço acabou tragicamente se transformando no fim. O que ele faria depois? Nunca iremos saber. Para mim, o Double Fantasy é um belo momento que permanece eterno, uma doce eternidade, é a sua hierofania, quem sabe o seu trabalho mais autêntico.

Paul fez McCartney II em 1980, disco que poucos entenderam, embora John tenha curtido “Comin’ Up”. A aprovação de John a esse trabalho de Paul sempre me deixou assombrado, como se eles passassem a voltar a reparar no outro, não que isso tivesse acabado de todo. Mas depois de tudo o que eles tiveram que passar? Esse foi um dos mtivos pelo qual nos “anos 70 foram um saco”. Mas John havia gostado do disco, o que era um bom sinal, já que, anos antes, ele havia dito que a única coisa que seu parceiro havia sido “Yesterday”. Pelo visto, as mágoas eram agora águas passadas. E o futuro finalmente apontava para um reencontro. Isso não é uma pena (1)?



(1) Eu falava de it Isn’t a Pity e a música, que saiu no solo do George, havia sido composta anos antes, mais precisamente em 1966 e, por pelo menos quatro anos ela foi rejeitada pela banda para sair em disco. Na verdade, acho que os quatro funcionavam como um filtro, como um superego na hora de gravar alguma idéia nova. Por exemplo, para começar, muita música Lennon-McCartney ficou de fora dos primeiros discos por vários motivos. E a gente fica se perguntando o porquê,visto que muitas delas eram boas para os Beatles, como “A World Without Love” ou “I’ll Be On My Way”. Mas aí ou eles haviam cansado da canção ou implicavam com algum verso. Num segundo momento, havia as tentativas de George e coisas do Paul e do John que passavam pelo filtro. Coisas como “It’s Only Love”, “What You’re Doing”, por exemplo, são músicas que eles confessaram serem’filler songs’ e, com exceção dos fãs, não acham nada delas. Mas foram gravadas. Depois de 66, a produção deles aumenta consideravelmente. Há a possibilidade de repassar muita coisa para outros artistas, como “Sour Milk Sea” (que eu não gosto) ou ”Step Inside Love” (que poderia ter saído no Álbum Branco). Mas a verdade é que sobrava material para os discos. Há quem diga que eles tinham material para ocupar o lugar de Revolution 9, mas isso é assunto para outra oportunidade, minha opinião é a favor dela. Mas o episódio da rejeição de It Isn’t a Pity me faz perceber que, de fato, havia um tipo de música para ser do corpus dos Beatles, e outras não, mesmo que muita coisa gravada sob sua chancela tenha sido desmerecida posteriormente por eles ou pelos fãs.  “Child of Nature”, depois “Jealous Guy”, certamente foi cortada porque já havia uma concorrente similar, “Mother Nature Son”. O George crítico ácido do White Album tinha uma assinatura, dentro do espírito de galhofa do disco, e It Isn’t a Pity, se formos ver, tem um tom confessional e triste que não caberia nos Beatles. Não imagino ela nos discos deles. Mas ela coube perfeitamente no espírito do All Things Must Pass. Assim como muita coisa que eles fizeram na época da banda, foi deixada de lado e encontrou espaço perfeito nos trabalhos solo posteriores deles. Ao mesmo tempo, é possível ver que, dentro do crivo dos Beatles, muita coisa abaixo do nívelda banda podia ser “aprovada” justamente porque têm o espírito deles, mesmo que fosse depois desconsiderada por algum deles ou pelos subestimada pelos ouvintes (não vou falar fãs, porque esses, a gente sabe, gosta de tudo e não tem discussão), coisas como “Hey Bulldog”  “The Inner Light” ou “Baby, You’re a Rich Man” (todas geniais, e clássicos, em minha opinião), canções que, inclusive, encontraram seu caminho como lados B de singles. Um detrator delas, Lennon, dizia que muitas vezes eram trechos de esboços de músicas que foram fundidas, e no fim das contas, não tinham muito o que dizer.  Porém, como se sabe, dentro do espírito de uma canção, querer dizer algo não era lá um critério muito importante. Importante seria o que a canção significa a partir do que ela passa a ser, seja lá como for.  E, afinal de contas, debaixo do guarda-chuva dos Beatles, muita coisa dentro do espírito do Álbum Branco não faz sentido algum, a não ser pelo fato de dialogar com todo o nonsense que ronda o disco. 
   

Thursday, September 26, 2019

De volta a Abbey Road

Foto alternativa para a capa do disco

Primeira lembrança que eu tenho do Abbey Road é a versão que eu tinha em cassete, daquelas escrita ESTÉREO assim mesmo. As fitas vinham com qualidade de som melhor que os discos em vinil, na maioria das vezes.

Lembro de ouvir, ouvir, e o som não me entrava na cabeça. Não conseguia memorizar o lado B direito, mas era divertido de ouvir. Parecia algo meio improvisado de ouvir. Mas, naquele tempo, eu não era capaz de inferir nada a respeito do disco, mesmo. Mas sentia que ele tinha algo que me prendia. Gostei de cara de "Something". Essa eu tinha certeza que eu tinha ouvido antes, em algum lugar, de alguma forma. Quando eu comecei a ouvir os Beatles, eu ouvia pela música. Não tinha uma noção orgânica ou de conjunto do conjunto da obra ou do contexto geral e da forma como a evolução da banda se relacionava com outras bandas, outras cenas musicais.

Toda bibliografia era muito escassa e o que existia estava esgotada e fora de alcance. Sem falar que, na minha ótica de fã, eu teria que me descolar dessa fissura, palmilhar outros caminhos musicais, aprender inglês, ter noções de música e, depois, retornar aos discos dos Beatles. Me interessei por eles porque eu gostava de rock dos anos 50 e, por coincidência, eles também. Na verdade, os Beatles me conduziram para o resto do espectro da música. Não teria ouvido jazz, música clássica ou experimental ou progressiva se não fosse por eles. Mas então eu empreendi uma longa jornada que me trouxe de volta a eles. Porém, tentando entender outras coisas em sua música, em outras perspectivas. Não mais o fã chato que sabe quantas tomadas eles levaram para gravar determinada música ou em que dia saiu o disco tal (confesso que ainda sei alguma coisa de fã chato). Por exemplo, hoje eu fico pensando como um cara como John Lennon, com apenas vinte e poucos anos, fosse capaz de escrever uma letra como "In my Life". Isso sempre me pareceu uma epifania de uma vida inteira, não de um jovem que, há apenas alguns anos antes, estava destruindo cabines telefônicas em Hamburgo.

Na verdade, eu era fã sem ser fã, porque gostava mais das trucagens de estúdio e bastidores de gravações. E dos bootlegs que mostravam esses detalhes. Essa engenharia genética de como eles criavam uma canção, da influência de determinada canção, da forma como eles gravaram, de como eles descobriram uma nova tecnologia para gravar e montar uma música e de como essa nova tecnologia criou todo um novo ambiente para a criação musical deles. É claro que, nesse momento, eu volto a ser o fa chato, embora acredite que é por uma boa causa.

Eu fissurava muito na fase iê iê iê deles. Mesmo incipientes, eles eram criativos e prolíficos. Achava incrível a capacidade dos Beatles em fazer um álbum de 14 faixas em tempo recorde, tirando música da cartola como se fossem coelhos, e ainda por cima ter que produzir mais duas faixas pra um single para chegar ao topo das paradas, e cada vez mais sofrendo uma concorrência feroz. Se no começo os Fab disputavam com Kenny Linch, Gene Pitney ou Helen Shapiro, anos depois eles tinham os Byrds, Jefferson Airplane, Hendrix, Who, Cream na cola e tudo o mais.

Como banda, Mark Lewisohn (1) destaca, ao descrever a evolução dos Beatles disco a disco que eles jamais pensavam no segundo disco baseado no anterior. Ou decidiam por um disco sem covers, todo autoral, ou passavm a usar outros instrumentos, ou descobriam uma forma de phasing eletrônico, ou quem sabe tocar uma guitarra ao contrário, ou improvisar um pedal caseiro, no melhor estilo professor Pardal. Ou captar um solo com o microfone quase colado nas cordas e com o boost estouradaço. Creio os Beatles são a banda fetiche nesse aspecto de voyeurizar todas essas manias do quarteto em estúdio. Isso é Les Paul. Eles conheciam ele, sabiam que ele era o Pardal mor. Les Paul era o pai do overdub quando todo mundo gravava no acústico, como os músicos de jazz. Ele influenciou Buddy Holly, ele influenciou os Beatles. E Buddy influenciou os quatro também, no sentido de libertar-se do rockabilly e criar uma forma de rock-canção, mais redonda, mais pop, mas sem perder o foco na guitarra. Boa parte do começo dos Beatles está aqui.

O problema é que, esse expediente, os Beatles trocaram naturalmente o público pela mesa de controle. Com o tempo, eles viraram produtores. Já não pediam ao George Martin o que eles queriam fazer. No White Album os Beatles demitiram o produtor. Claro que sem o elemento parental, a coisa desandou para a briga. O Álbum Branco captou o quarteto de forma singular, tão singular que eles não se importavam com muitas pequenas derrapagens na produção deles que, de certa forma, eram propositais. Ou em certas escolhas importantes, como a de emular Stockhausen em "Revolution 9", faixa que os fãs detestam, mas que eu acho que é importante para mostrar elementos de música eletroacústica e concreta para um grande público. Por mais que os fãs detestem, eu acho uma das faixas mais importantes do disco.

O paroxismo dessas 'férias' do George Martin foram as sessões Get Back que, quando elas terminaram, decidiram engavetar tudo. É possível que tenham sentido nostalgia de um produtor controlando o ímpeto deles. E, como quatro filhos pródigos, pediram ajuda ao seu produtor. Martin com efeito talvez soubesse que isso iria acontecer. Por mais rebeldes e independentes que eles fossem, os Beatles sabiam que precisavam de um produtor. O resto eles já sabiam. Quando os cinco se reuniram, depois de tantas idas e vindas, de tantas loucuras e brigas, agora eles eram uma banda adulta, e que, de forma adulta, iam fazer o seu último rock.

Acho que isso é o que tão admirável em Abbey Road, disco que faz 50 anos hoje. É o álbum onde eles plasmam todo o conhecimento adquirido em todos esse anos e é o seu derradeiro trabalho juntos. Esses dias, eu estava ouvindo o lado B e pensando que, por mais genial que seja, ele sempre vai me bater como uma grande despedida. E é. Porém, quando eu ouço algo como o With the Beatles, é sempre aquela sensação de que são os quatro prontos para conquistar o mundo. É o começo da jornada dos heróis. Seus primeiros trabalhos, embora mais simples, têm essa aura da banda no seu começo, com toda a sua vibração, todo seu ouriço, toda a sua energia, toda o seu ímpeto. No Abbey Road, eles são senhores de sua música, eles são pais daqueles garotos que gravaram "Love Me Do", mas eles estão longe do público, eles não irão gravar um disco para sair em turnê. Eles se reuniram para entregar, consciente ou inconscientemente, seu último trabalho para a EMI.

Se o lado A parece ter esse espírito dos velhos tempos, para mim, e acredito que para muita gente, depois de "Because", começa a bater aquela melancolia. Quanto mais surpreendente e genial o lado fica, faixa a faixa, maior é a sensação de que o tempo está passando, e o fim - literalmente - está próximo.

Diferente dos relançamentos anteriores (Pepper's e White Album) a edição especial do Abbey Road não traz tantos outtakes como os anteriores. Isso se explica pelo fato de que, ao contrário dos citados, os Beatles dessa vez adotaram o regime de discos como Rubber Soul e Help: menos tomadas, menos tempo de estúdio. Enfim, um trabalho mais conciso em estúdio. Além do mais, o Álbum Branco era prolífico em demos, desde o material de Esher até as centenas de variações em mono. No caso do Abbey Road, ele foi o primeiro a ser lançado em estéreo apenas. E além disso, o single é extraído do próprio disco o que simplificou o número de faixas trabalhadas.

Não menos atrativo do que o material alternativo que a nova caixa promete é a nova mixagem de Abbey Road. Pelo aperitivo que apareceu no Youtube, é para você jogar fora o CD original (ainda mais se for aquele que você comprou lá em 1989 no Carrefour). Parece um outro disco. Mas mais do que isso, a nova mixagem, empreendida por Giles Martin, talvez mostre ao ouvinte o Abbey Road como ele deveria ter sido conhecido, com uma tecnologia de reprodução que nos permita escutá-lo fazendo jus à forma como ele foi concebido: com uma mesa TG 123545, que fora instalada em novembro de 69, e que os Beatles não chegaram a aproveitá-la. Aliás, uma das constantes brigas da banda com a EMI era que, desde 68, havia uma mesa de oito canais empacotada e jogada num canto dos estúdios e que eles não podiam usar. A frustração deles era, às vezes, descontada no próprio staff. Agora, eles tinham um produtor de volta e toda a tecnologia possível para gravar o maior trabalho deles.

De certa forma, com um espectro de som de muito maior alcance, essa mesa  jogou o som dos Beatles em outro patamar. Isso podia ser sentido no vinil mas, com a nova mixagem, é possível sentir o som mais claro, mais branco, mais puro, muito além de que se podia sentir, mesmo com aquele CD do Carrefour. Muitos críticos malharam a produção. Como sempre, achavam que era um disco totalmente tributário de truques de estúdio. E também não gostaram, à época, do uso de moog.  O que não impediu que Abbey Road chegasse a 31 milhões de cópias vendidas em junho de 1970.

Mas quem é da antiga, deve se lembrar daquele famoso bootleg do Abbey Road que foi disseminado pelo fã-clube Revolution, nos anos 80. O disco consistia em outtakes de faixas do álbum, em péssima qualidade de registro, como era comum com os piratas da época. Faixas como "Something" continham uma misteriosa parte; "You never give me your money" com o final original, ainda sem o corte do medley, culminando num rock. Outras faixas eram demos dos tempos das sessões Get Back, como "Sun King" O "Her Majesty" aparecia com o acorde final, que foi solapado no disco original que, curiosamente, tem os dois extremos decepados. Esse pirata ainda contava com uma gravação fora de contexto, com George e Paul Simon tocando "Here comes the sun", já nos anos 70. E, por fim, uma gravação fake de "I want you" que, a despeito de ser falsa, é de repente a melhor faixa desse bootleg. Essa gravação é possível encontrá-la no Youtube.

Mark Lewisohn diz sobre o disco que trata-se do melhor disco da banda. De largada, porque a música colocou toda a animosidade entre eles fora da porta dos estúdios e, assim, eles puderam submergir na própria música. John com sua verve e vocação roqueira; Paul com sua perspectiva sinfônica no medley do lado B e suas baladas; George no auge de sua capacidade criativa como músico e compositor; e Ringo tocando maravilhosamente, explorando, a cada canção, todas as possibilidades da bateria, como nunca. Sobre a produção, ele diz que os Beatles chegavam em estúdio concisamente com a base das faixas na cabeça, sendo que os acréscimos posteriores nas mixagens tratavam-se apenas de detalhes que não os levassem à digressões maiores, com maior perda de tempo, fator que, segundo Mark, foi um problema recorrente no White Album.

George Martin acreditava ser Abbey Road uma retomada da "linha evolutiva" do Sgt. Pepper's. Para ele, o disco pôde ser inovador "de forma controlada", ao contrário do Álbum Branco e o Let It Be, diz ele (naturalmente ressentindo-se de ter sido alijado desses projetos). Também salientou seu papel na elaboração do lado B, no sentido de orientar a perspectiva sinfônica da peça como um todo, inclusive, se pensarmos no retorno do tema de "You never give me your money" no final, dando um caráter ligeiramente rapsódico para o medley, certamente foi sugestão de George Martin.

Phil Mc Donald, um dos engenheiros de som dos estúdios na época, relembra que John era contra o medley, e foi quem sugeriu que suas canções todas deviam ficar no lado A e as de Paul no B. Foi atendido, pelo menos em parte. Essa divisão, de certa forma, faz parte da mitologia sobre Abbey Road.



(1) MARK LEWISOHN. The Complete Beatles' Recording Sessions. Hamlyn, Londres, 1989.







Tuesday, February 12, 2019

A Revolução começou pelo rádio



Os Beatles na estreia nos Estados Unidos em 64


Há 55 anos os Beatles apresentaram-se no Ed Sullivan Show para mais de 73 milhões de americanos e mudaram a história da música popular. Muito se fala sobre a importância desta apresentação. Contudo parafraseando Gil Scott Heron, a revolução não começou por assim dizer pela televisão.

Num saboroso artigo para a Huffingpost, Martin Lewis defende que o primeiro responsável pela explosão da Beatlemania na América foi Walter Cronkite. A história por trás de I Want to Hold Your Hand é mais do que conhecida, mas ele destaca o empenho de Brian Epstein a forma como o acaso acabou viralizando os Beatles na rede CBS e mais do que isso destaca o papel de um disk-jockey de Washington e uma ouvinte atenta e curiosa.

Em meados de 63, Epstein conseguira de Ed Sullivan espaço no programa para 64. O apresentador não entendia naturalmente muito de rock. Porém farejava qualquer excentricidade que pudessem animar as noites amenas de domingo da CBS em seu show que existia desde o fim dos anos 40, de feirinhas cantantes e stand ups até ursos amestrados.

Com a promessa da apresentação nas mãos, Epstein "chantageou" os executivos da Capitol subsidiária da EMI nos Estados Unidos a lançar um single da banda. A promessa foi o primeiro catálogo de janeiro. Nesse meio tempo o quarteto lança em 22 de novembro I Want to Hold Your Hand na Inglaterra.

Um mês antes de volta à Inglaterra, Epstein tenta convencer o editor da sucursal da CBS de lá a fazer um mini-documentário sobre seus meninos. O filme é produzido e mandado para Nova Iorque. A matéria sai na manhã do assassinato de John Kennedy. Com a trágica efeméride, a tal reportagem naturalmente não é mais reprisada e vai para a gaveta.

Quando a poeira baixou, dia 10 de dezembro, Cronkite põe o vídeo no ar. Segundo Martin Lewis esse foi o momento em que a América conheceu de fato os Beatles.

No dia seguinte, uma ouvinte da WWDC de Washington Marsha Albert escreveu uma carta para o DJ Carroll James, perguntando: "por que não podemos ter esse tipo de música aqui?" Intrigado, Carroll consultou a direção da emissora. E se a gente arranjasse o disco?

Decidiram então contrabandear o compacto dos Beatles através de um comissário de bordo da BOAC. Dois dias depois, com o compacto em mãos o deejay convidou Marsha para, ela mesma, lançar no éter como se dizia na época a canção, em seu programa de fim de tarde.

A reação dos ouvintes foi avassaladora e de tal monta que o disco precisou ser reproduzido inúmeras vezes. No outro dia, choveram pedidos de um single que sequer havia saído nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, os executivos da Capitol souberam do insperado e assustador vazamento de I Want to Hold Your Hand provocado pela WWDC. Procuraram o departamento jurídico a fim de ameaçar a emissora. Contudo, logo perceberam o erro de cálculo de tal operação: afinal de contas, tudo o que uma gravadora quer é que os seus discos viralizem na programação das rádios, não é isso?

Tiveram logo outra ideia: já que não é possível vencê-los, o jeito é unir-se à eles. Com a data marcada do lançamento para o dia 13 de janeiro de 1964, a subsidiária ianque da EMI prensou promocionais da música e distribuiu por todo o país principalmente nas rádios de Nova Iorque e arredores. Por coincidência, observa Martin Lewis, bem numa época em que os jovens estão de férias e .... ouvindo rádios com seus pequenos receptores com a novidade do transistor.

Em posse do contrato com Sullivan, Brian Epstein havia pedido 40 mil dólares para uma campanha de divulgação algo até então impensável em termos de cifras para os Beatles. Porém, em pouco menos de um mês de exposição, I Want to Hold Your Hand já havia sido mais do que trabalhada nas emissoras da América, e de forma espontânea. Pela demanda, a Capitol vislumbrava vendas na base de 1 milhão de unidades ou mais - também algo até então impensável em termos de cifras para os Beatles, que era ainda uma banda que mal tinha dinheiro para comprar seus instrumentos, fazia turnê de Kombi e não sabia o que era um PA.

Dia 16 de janeiro de 64, três dias depois do lançamento, a Cashbox anunciava que I Want to Hold Your Hand havia subido de  #43 para o #1. Deste dia até a chegada dos Beatles no 7 de fevereiro a publicidade indireta correu solta pela imprensa.

Ou seja, se antes havia a modesta previsão de um tiro na lua algo que precisasse sustentar  o lançamento de um artista remoto num terreno tão árido e exigente como os Estados Unidos, de Cronkite passando pela WWDC, a música viralizou de forma espontânea e avassaladora; isso num tempo onde não existia internet - e numa época em que muitas vezes você ouvia um cantor no rádio por anos sem jamais sequer saber a sua cara - como diz Lewis em sua teoria: se a histórica transmissão do dia 9 vendeu os Beatles para 73 milhões o começo havia se dado bem antes. Ou seja, se houve uma revolução, ela não começou pela tevê: ela começou pelo rádio.





Sunday, November 11, 2018

Helter Skelter





Fazendo uma clipagem do que saiu sobre o relançamento do White Album. Duas coisas me chamaram a atenção.

Uma foi a repercussão de entrevista do Giles Martin tentando refutar a tese que os Beatles estavam separados durante o processo de produção do disco.

A outra é um texto do Rob Sheffild na Rolling Stone desse mês sobre uma epifania que ele teria tido ao ouvir a versão embrionária de "Good Night"

Martin disse que, ao ouvir todo o material, ficou com a impressão de que, a despeito de brigas entre os quatro, que ele entende que ocorreram, o resultado é um trabalho rico, que seria pouco possível num clima de guerra no estúdio.

Sheffild, ao ouvir o outtake da última faixa do álbum, que John Lennon compôs para Ringo, entende que a canção era, na verdade, uma berceuse para seu filho Julian. O processo de separação dele com a primeira esposa e a união com Yoko era público e notório.

Para Rob, John fez a música para o filho, mas sentia-se fragilizado em tocar ou cantar nela. O processo de elaboração do arranjo, diz ele, mostra, como diz Giles, um momento de união da banda, principalmente no momento em que todos fazem vocalizações juntos.

Claro que, num momento de celebração como este, não convém mexer em velhas feridas. Além do mais, a gente sabe que uma união num conjunto de rock não é um mar de rosas.

Mas é interessante voltar a Abbey Road em 68 lendo, por exemplo, o Complete Recording Sessions, do Mark Lewisohn que, ao contrário da maioria dos biógrafos, resolveu passar o dia-a-dia do quarteto a contrapelo.

É curioso notar que havia tanto otimismo quando eles decidiram embarcar para a Índia. Mesmo que musicalmente produtivo - eles compuseram quase a totalidade do repertório dos próximos discos, o corolário não foi bom, a começar pela comida, que provocou a deserção de Ringo.

Ringo que seria o pivô de uma separação da banda no meio da urdidura do Álbum Branco, mas a sua deserção do estúdio foi, na verdade, o cúmulo e um processo lento que, como mostra Lewisohn ao entrevistar o staff do estúdio naqueles tempos.

Na verdade, ele não foi o primeiro. No começo das sessões, o pai de Giles coordenava a banda mas, com o tempo, viu que eles eram indomáveis. Resolveu sair em férias, e deixou instruções para Geoff Emerick que, em pouco tempo, também largou o projeto.

Nesse meio tempo, por causa de demandas dos Beatles proteladas pela EMI, entre elas uma mesa melhor, fez com que eles, segundo Lewisohn acabassem, mesmo que sem querer, descontando no pessoal da produção. Ou seja, se havia briga entre os quatro, havia ali um cúmulo de situações estressantes - além do lançamento do selo Apple, no meio do ano.

Como qualquer baterista, Ringo era o músico mais requisitado (e sobrecarregado) de quase toda banda. Esse foi um fator de disensão entre ele e os quatro (embora, no Anthology, todos acreditassem que cada um deles, respectivamente, estava sendo subestimado pelos demais).

Ou ele era obrigado a trabalhar de maneira incessante ou, na parte de mixagem, ele realmente não tinha o que fazer nos estúdios. Ao mesmo tempo, o uso contínuo e constante de overdubs fragmentava o trabalho em grupos. Não era uma banda em estúdio, como nos velhos tempos mas, sim, grupos de trabalho enxertando tapes o tempo todo.

O próprio Eric Clapton, quando foi fazer sua parte em "While My Guitar Gently Wheeps", estranhou que, ao contrário do Cream, os Beatles passassem tanto tempo enfurnados gravando. Clapton dizia que ele e seu trio ensaiavam constantemente fora,  gastando pouco tempo em estúdio, como nas velhas bandas de jazz, que gravavam elepês sem mixagens ou ensaios, matando a sessão em poucas horas.

O processo de escolha de George em colocá-lo como músico de estúdio foi, também, como forma de fazer com que John e Paul prestasse atenção em suas canções. Como aconteceria novamente, quando ele convidou Billy Preston, a banda resolveu comportar-se bem.

A maioria das faixas mostra quem eram os produtores. Se Martin trabalhou com eles, sua participação data de 23 de agosto, justamente quando Ringo foi comprar cigarros e não voltou. Nesse meio tempo, tiveram que revezar-se em faixas como "Back in USSR". Ele retorna justamente na noite em que a banda apresenta-se no programa David Frost, e grava os promos de "Revolution" e "Hey Jude".

Por outro lado, se havia brigas entre os quatro, esse processo de compartimentação de trabalho protelou o que seriam as sessões do documentário Get Back, que foram a gota d'água do que vinha acontecendo há meses.

Ken Scott, que ficou encarregado de tomar conta dos rapazes com a defeção branca do politiburo da produção, diz que, quando ficou a sós ao ser apresentado à Paul McCartney, ele respondeu: "é você quem vai ficar conosco? Então tudo bem mas, se não quiser ficar, então foda-se".

Com os Beatles no comando, o disco ficou menos "refinado" se comparado às produções de Martin. Na filosofia deles, parecia haver sempre um ponto de não retorno. O próximo disco não poderia ser igual ao anterior.

A própria capa é a ausência de significação ou parece ser a significação pela ausência de algo ou "algos", isso algo que fica em aberto para o ouvinte (quando discos tinham capas e havia arte nelas, enfim).

Com isso, o restante das sessões foi cada vez mais autoral, mas as faixas parecem ser o tempo todo paródias ("Back In USSR") ou auto-paródias ("Glass Onion") humor negro dylanesco ("The Continuing Story of Bungalow Bill", "Happiness is a Warm Gun") ou imitação de outros estilos, como vaudeville ("Martha My Dear", "Honey Pie"), english blues ("Yer Blues", um gênero que passou ao largo da carreira dos Beatles) e hard rock (Helter Skelter"), quando não John imitando Paul em "Good Night" ou o contrário ("Why Don't we Do It on the Road?), talking blues ("Rocky Racoon"), folk ("Blackbird") e experimentalismo com música concreta ,ou seja, um disco liricamente ao avesso de tudo o que eles haviam feito.

 como que um prelúdio à carreira solo dos quatro. John compondo coisas cada vez com a cara dele, como "Yer Blues", "Julia" e "Dear Prudence" e Paul tentando ser o "one man band", George com seu lirismo indiano e Ringo entronado como um crooner.  Suas colaborações aqui pareciam já desenhar o que eles fariam com o fim da banda.

Scott fala que eles reclamavam constantemente do equipamento dos estúdios, o que os fazia requisitar o Trident, que tinha, na época, uma mesa melhor. Em dado momento, John teria descontado a raiva no staff mas, depois, voltou a si e completou: "desculpe, não e como você, é com eles (o pessoal da EMI).

A despeito do clima aparentemente alegre em Esher, quando da gravação dos demos do White Album, parece que ao entrar em Abbey Road, o estresse era realmente constante.

O que não quer dizer que não existissem afetos entre eles, como nas sessões de "Birthday", quando tudo virou celebração, com direito a drogas lícitas, ilícitas e muita loucura ou nas conhecidas fotos do Mad Day Out, a sessão de fotos (de junho de 68) que mostra os Beatles quatro meninos felizes por estarem juntos, como no começo da carreira, talvez pela última vez.

O Mad Day Out parece, na carreira deles,  um exemplo sintomático que, se havia amizade entre eles, havia a certeza que aquela era da inocência estava morrendo e eles não podiam fazer nada contra isso, a não ser, encarar a vida adulta. É possível que isso, no campo das conjecturas, fosse esse motivo inconsciente de cisão, um reencontro que era, na verdade, uma despedida.

Quando eles retornaram para fazer seu último trabalho, tanto os quatro quanto George Martin e Emerick estavam ali como que comissionados do que como um grupo.

Dessa vez, eles não eram a outra banda, a do Sargento Pimenta, mas estavam fantasiados de Beatles para seu canto de cisne.

Claro que é um processo triste que ocorreu na vida de todos eles, de todos os envolvidos no processo. E como disse acima, a celebração do meio século do disco não seria o momento propício para comentar desses 'baixos'. Mas, ao contrário, isso de certa forma nos conforta, pois mostra o quanto eles eram humanos e tão próximos da gente. Que venha outros 50 anos.


PS: o box irá agradar aos fãs em geral porque muita coisa que aparece como outtake era desconhecido até pelos bootlegers mais empedernidos. Outros fãs, mais roxos, irão estranhar mudanças deliberadas em certas faixas do disco original, como os mixes de "Wild Honey Pie" e de "Long, Long, Long". 

Thursday, July 12, 2018

File Under


Criatividade: capa de disco pirata dos Beatles imitando o design dos lançamentos da Capitol

Tava eu mexendo numa papelada e caiu no meu colo um catálogo feito em xerox com discos e vídeos dos Beatles. O catálogo era do misterioso Capitão Gancho, um especialista em pirataria dos fab four.

Lembro que recebi isso numa daquelas festas bacanas que o programa Beatlemania 99.3 fazia em pubs da época, como o Kafka (que ficava na 24 quase esquina Dr. Timóteo) e o Sgt. Pepper's dos tempos da Dona Laura.

Isso foi lá por 89, mais ou menos. Eu, com o dinheiro contado, fui na festa promovida pela falecida Band FM, do inesquecível programa apresentado pelo Kamarão nos domingos à noite.

Na época eu estava descobrindo os Beatles e tinha algumas cópias pirata de alguns filmes dos Beatles, isso muito antes do advento da Internet. Hoje é incrível pensar na sensação de isolamento e de penúria cultural que era todo um manancial de informação que precisava ser descoberto pouco a pouco, algo que atualmente é jogado diante de nossos olhos pela internet.

Claro que, naquele tempo, eu era fanático pela banda e foi toda uma grande descoberta conhecer todo aquele material em vídeos e discos e fitas. Era fanático embora não a ponto de ser um rato de fã clube. Meu fanatismo estava naquele nível de paixão onde não havia espaço para mais nada além dos Beatles.

Alguém me indicou uma fonte que havia numa locadora que era uma ex-sorveteria na Av. São Pedro. Ali, o dono fazia essas cópias de VHS pirata de shows de rock oque, para os anos 80, era algo meio que dava a sensação de câmbio negro. Parece que o melhor que havia para assistir em vídeo-cassete eram vídeos piratas.

Porém, o catálogo do Capitão Gancho era superior: ele tinha um número interminável de itens, além de coisas de carreira solo da banda, mas que não me interessava muito.

O fundamental é que, além de colecionador, ele tinha uma caderneta com centenas de contatos com fãs dos Estados Unidos e Europa. Cedo, na aurora da sede do VHS, ele começou a fazer o tráfico de pirataria. Essas fontes eram fundamentais, e tudo vinha via sedex. Não havia e-mail naquele tempo. E tudo ainda girava em torno de cópias de fitas de áudio e vídeo.

Claro que, para aquele mundo fechado pré-internet, isso era uma porta para o infinito. Havia muito mais do que se podia imaginar além da discografia oficial dos Beatles.

O problema é que, ainda no começo do CD, a pirataria de áudio vivia em função do vinil. E pirataria em vinil era cara e muito rara. Poucos eram os discos feitos no Brasil. Os poucos que eram produzidos sofriam uma restrição enorme, diferente do boom que surgiu com a pirataria oficial do casette nos anos 90.

Assim como o material de áudio e vídeo, as fontes bibliográficas eram escassas. Nos anos 80, Beatles era coisa do passado. O pouco que existia estava esgotado. A gente tinha apenas aqueles pôsteres do Kubrusly da Editora Três e a famosa revista do Marco Antônio Malagolli, do fã-clube Revolution. Essas publicações foram relançadas ao longo do tempo e eu cheguei a tê-las.

A revista do Malagolli, por sinal, era o catecismo da discografia pirata dos Beatles. Hoje, com Wikipedia e outros sites de referência, esse material é obsoleto; porém, era o começo de tudo. A Documento (como se chamava) contava uma bibliografia da banda mas, na segunda parte, que era a mais saborosa, era um resumo do que seria o corpus de bootlegs dos Fab.

O que a gente sabia era que são pelo menos quatro vertentes: o material de sobras de estúdio, o da BBC, a de shows ao vivo e demos e o famoso copião do filme Let It Be, que fora comercializado provavelmente pelo Allan Klein, e que foi a primeira grande fonte de álbuns clássicos dos anos 70 ainda, como o Sweet Apple Trax e o In a Play Anyway.

O interessante e que, no jargão dos pirateiros, como aparece na publicação do Mallagoli, havia já, no final dos anos 80, uma discografia clássica, ou seja, de álbuns clássicos, que eram citados como se fossem discos de carreira, como o Who's Shouting in My Ears, Nothing Is Real, Broadcast e o Yellow Matter Custard.

A maioria desses discos se caracterizava por capas improvisadas, em geral coladas, vinis sem separação de faixas e uma péssima qualidade. Mas eram "quentes", isto é, eram de fato os Beatles, mesmo com gravações que eram cópias de cópias disponibilizadas em qualidade de áudio que exigia que vivêssemos mexendo no equalizador para poder reaproveitar a pobreza do som.

Como disse acima, esses discos eram raríssimos e valisíssimos. O que nos dava a oportunidade de ouvi-los era através desse tipo de transa de cópias de fitas. Então o esquema era encomendar de alguém que fosse para a fronteira para comprar fitas, em geral aquelas Sony ou TDK, que eram as mais usadas.

Como cassete em geral era caro, a opção em geral eram as VAT, vagabundíssimas (viviam arrebentando, nos obrigando a fazer uma operação de reaproveitar bobinas de outras fitas e emendar os tapes com estilete e durex), mas era o jeito de montar uma discoteca. Lógico que o que a gente realmente queria eram os discos.

Ás vezes, havia a chance de comprar um. Mas levaria muito tempo. Fora o problema que essa material simplesmente não parava nas estantes dos sebos. Quando aparecia um que eu quisesse, a solução era pagar um sinal ao doo da loja, e ir pagando aos poucos, para que ele nos segurasse o disco. A briga de colecionadores era uma batalha campal. Muitos deles inclusive já possuíam um esquema com o lojista: quando o comandante da Varig trazia o vinil, ele já tinha endereço certo. Você sequer tinha a chance de ver o disco.


Da mesma forma que eu comecei a pirataria de vídeo em locadora, meus primeiros cassetes eram de sebos. Porém, nos dois casos, o pessoal tiha um conhecimento limitado de pirataria. Gravei um disco duplo, Eight Arms to Hold You (da foto acima), que eram um padrão de bootlegs dos Beatles que eram, em geral miscelâneas de várias fases em discos duplos e sempre com capas bonitas.

Também as gravações eram caras. Por exemplo, se eu quisesse fazer uma seleção de faixas, mesmo que de um disco comum, eles cobravam bem mais caro. O que era inacreditável, porquanto a mão de obra era zero. Nesse começou, eu gravava para ver o que era. Dessas coletâneas, como o Eight Arms, serviam para que se pudesse ter uma ideia do que era o corpus pirata dos Beatles. Os mesmos discos traziam trechos ao vivo, sobras de estúdio, BBC, sempre um pouco de cada coisa.

Era esse tipo de amostra que eu tinha quando eu fui atrás do tal Capitão Gancho. Mesmo colecionador, ele já tinha um esquema montado em casa, dois gravadores integrados de qualidade, alguns álbuns pirata. E ainda teve a ideia de, ainda em 89, de alugar constantemente um segundo VHS (em geral, eram equipamentos caros e carissimamente estragáveis) para cópias de vídeo.

O fascinante era que, justamente por conta dessa gama de contatos, o Capitão Gancho recebia material quase todo dia, toda semana. Nessa época dos anos 80, pareceram aqueles famosos John Barrett Tapes. Esse cara foi o primeiro, de dentro da própria EMI, que disseminou a nata da sobra de estúdio dos Beatles em alta qualidade.

Esse material redundou num disco abortado, chamado Sessions, que seria o proto-Anthology, e uma seria intitulada Ultra Rare Trax, esse praticamente o pré-Anthology, inclusive com faixas que não entraram no projeto da Apple que, depois de muitos arrufos judiciais e outras mumunhas mais, sairia no final dos anos 90.

O fascinante é que os John Barrett Tapes era a prova que a gravadora tinha muita coisa, que a gente sequer sonhava, a ser lançada em ótima qualidade. Mas tudo passava ainda por pendengas judiciais e a crença de que um lançamento desses era pouco viável nos anos 80, quando artistas dos anos 60, a despeito de serem os Beatles, não eram considerados de muito interesse comercial.

Aliás, ainda havia um projeto inicial em marcha, que era o próprio relançamento do catálogo oficial da banda, e que seria o começo. Quando ela finalmente apareceu em CD, não foi sem um grande estardalhaço. Afinal, era oportuno esse relançamento, já que os discos estavam esgotados, mesmo os novos, e as prensagens anteriores foram lacunares e em qualidade sofrível. Pra piorar, era preciso otimizar a discografia oficial que estava esparsa em dezenas de coletâneas que, depois do digital, perdeu a razão de ser.

Mas em 1989 ou 90, não havia no horizonte a possibilidade de vislumbrar um lançamento oficial desse material pirata. E o jeito era gravar fitas. Mas mantendo contato direto com um colecionador que, mesmo não sendo da área da comunicação, recebia fotocópias das revistas como a Dig It e a Beatles Monthly Book, que eram muito mais acuradas a respeito de informações sobre os Beatles do que as nossas publicações.

Esse comércio ativo de colecionadores, que eu achava melhor e mais 'racional' do que o fanatismo dos fãclubistas (que não era tão grande nos anos 80, quase um bando de essênios) tinha esse capital simbólico que eram as fontes discográficas pirata e livros recentes, como o Complete Beatles Recording Sessions, do Mark Lewisohn, que era (e ainda é) o maior especialista nesse setor.

Tanto esse material disseminado em vinil (por uma tal de Drexel Records) pelos anos 80 quanto o livro de Lewisohn mostravam que havia pirataria de qualidade por aí, muito melhor que aquela extração que surgiu a partir dos anos 70. Ao mesmo tempo, a Pyramid (outro selo bizarro, mas com umas capas bem transadíssimas e vinis coloridos) despejava em vinil e em CD a íntegra de tudo o que restara dos programas dos Beatles na BBC, num total de treze ou quatorze álbuns.

Logo depois, esses tapes da EMI ganhavam outras edições como coleções em série mas em formato digital. Um exemplo eram os Unsurpassed Masters (cujas matrizes deviam pertencer aos arquivos de John Barrett): digitalizadas, muitas daquelas faixas tinham qualidade igual ou superior às mixagens remasterizadas da EMI. Chegando por aqui em edições importadas naturalmente, era lógico que poucos teriam condições de comprar esses disquinhos.

Mas eles já eram um divisor de águas nos bootlegs; logo surgiriam outros miniselos que, com o tempo, passavam a limpo tudo aquilo que já havia aparecido em vinil. Para nós, os sem culotes, os despossuídos, restava contar com colecionadores para conseguir uma cópia em fita.

Por exemplo, lembro quando o Capitão Gancho puxou da coleção dele os dois primeiros volumes do Ultra Rare Trax, que era a série mais clássica desses álbuns de sobras de estúdio. Dispostas em ordem aleatória, era uma faixa mais sensacional que a outra. Outakes em estéreo, cruas, como se estivéssemos ouvindo os Beatles gravando, como uma mosca na parede. Quando ele pôs o piratão na eletrola para gravar, eu fiquei chocado com a qualidade de som.

Era o material mais quente possível. Não esqueço que ele gravou os discos no equipamento de som do irmão dele, que era fã do Genesis (nunca me esqueci desse detalhe, havia na estante a coleção completa do Genesis, em formato digital importado na época, nem no Brasil havia todo o catálogo em CD)). A primeira faixa era um false start de I Saw Her Standing There, seguido de uma tomada completa, com erros de contrabaixo do Paul de backing do John. A segunda faixa era um outtake de One After 909. Era inacreditável (tempos depois eu acharia o disco num sebo, era o meu pirata preferido) . Mas o prazer da primeira audição era proustiano, não poderia ser nunca mais ser repetido.

Começo dos anos 90 foi o auge dessa evolução da pirataria em CD. Com o dólar flutuante, nem dando sinal era possível comprá-los. Ao mesmo tempo, apareciam CDs do Who, Hendrix, coisas que a gente não achava nem em vinil por aqui. Acho que foi a época que os sebos mais lucraram, até lá por 1998 ou 99. Fora que muitos colecionadores foram gradativamente trocando o elepê pelo CD, e muita coisa foi desovada nas lojas. Era a chance de comprar discos que nunca mais apareceriam de bandeja (ledo engano, hoje é fácil achar esses relançamentos em 180g por aí).

É lógico que, deslumbrados pela revolução digital, nós queríamos partir para o CD começando pelo nacional, e os disquinhos não eram baratos. Mesmo com o advento deles, o vinil ainda era a mídia mais usada – isso quando comprava-se LP por ser um formato básico, diferente de hoje, quando é apenas um fetiche para quem não viveu a época da bolacha.

Mas estou tervigersando e isso cansa o leitor. Voltando: esse período 90-95 foi o da disseminação desses boots dos Beatles. Uso 1995 como data limite porque foi nesse ano que a Apple finalmente deslanchou o projeto Anthology. É natural que, de posse de todas essas sobras dos Beatles, era necessário pensar um lançamento que prestigiasse não os colecionadores (que, por sinal, não viram muitas novidades nesse novo material) mas todo o público em geral, até quem não era fã incondicional dos Fabs.

Isso explica o “corte” que foi feito ao criar uma série que fizesse uma retrospectiva, não obstante a impossibilidade de disponibilizar tudo como os boots completos) mas que, de certa forma, pegou a essência de todo aquele “corpus” pirata, desde o que julgo ser uma jogada verde, que foi o Live at BBC (que por sua vez era um resumão daquela coleção mamutesca de treze discos em dois CDs) de 1994 até o Anthology.

Quando eles saíram, entre 1995 e 96, foi como se toda uma época desaparecesse: eu já conhecia (em fita) muito daquele catálogo do Capitão Gancho. Por sinal, lembro dele abrindo na minha frente Sedex chegado da Europa com fitas e mais fitas com material explicitado em cartas batidas à máquina, com tapes raríssimos com mixagens diversas de faixas do Álbum Branco (que, como se sabe, pelo fato de ter sido produzido pelos próprios Beatles, possuía uma quantidade considerável de mixes e acetatos diferentes das mixagens oficiais). A gente ouvia aquilo embasbacados; ia muito além do que a gente achava que conhecia (e tinha mais, não muito mais, mas mais).

Primeiro foi o fim do Beatlemania 99, que foi o programa que congregou esses fãs desgarrados, desde aos encontros no Sgt. Pepper's até as sessões daquele Magical Mystery Tour no Sesc (o deslumbramento de assistir ao filme era inenarrável). O programa, que era patrocinado pela EMI, foi morrendo aos poucos, junto com a própria 99.3 que, por fim, virou uma enlatada. 
 
O Anthology também deu uma refreada naquele instinto arqueológico de bootlegs. Primeiro que gravar tudo era pouco viável a longo prazo. Era um passatempo divertido, porém caro (as fitas também eram um investimento complicado). E depois do projeto, pelo menos de minha parte, eu enchi o saco de pirataria. Nessa época, eu já estava ouvindo muitas outras coisas, e ainda por cima aproveitava a própria desvalorização do vinil para comprar clássicos, jazz e outras coisas que nem tinham relação como rock que, paradoxalmente, era um gênero menor na minha discoteca.

98 (vinte anos atrás!) foi também o ano que eu descobri, depois de ler Negroponte, que a Internet era um caminho sem volta. Qual não seria a minha surpresa ao descobrir que, no auge do download desenfreado, pós-rapidshare, lá por 2004, e depois, com o streaming, todo esse material pirata dos Beatles fosse aparecer com força, e em sua totalidade?

Todo? Claro que não. Acho que foi ali que, olhando em retrospectiva, é divertido pensar em toda aquele trajeto arqueológico que foram pegar naqueles boots clássicos e toscos como o File Under (do fã clube Revolution) ou o Beeb 6 e o Quarrymen (que foram pirateados no Brasil que hoje têm realmente um grande valor, não só histórico (e pelo retorno do vinil) mas pela beleza de muitas capas, como as dos piratas da BBC que, seja lá quem foi o autor delas, eram paráfrases dos discos alemães e americanos oficiais (os discos da Capitol por si só valem um próximo post), eram de uma criatividade ímpar.

Discos com quaidade péssima (como o histórico Yellow Matter Custard) mas capas deslumbrantes. E muitos deles têm esse valor simbólico mesmo, já que foram superados pelo CD e mp3, e que compreendem praticamente tudo o que é conhecido do famoso copião do filme Let It Be, disponibilizado numa série digital chamada Thirty Days (ou algo assim).

O que ficou foi provavelmente esse feticho do audiófilo, que a gente levou para outras correntezas, outros gêneros, outros artistas, ouytras discotecas. E tudo passa pelo deslumbre do vinil comprado, da fita gravada, da descoberta. E tudo isso num mundo em que a realidade da Internet era impensável. É possível dizer que hoje tudo é acessível e isso é ótimo.

Contudo, é justamente essa acessibilidade não passa pela experiência daquele tempo. Se eu virasse beatlemaníaco agora e tivesse diante de mim tudo isso que eu descobri, desde as VHS deliciosamente gravadas com o sabor do interdito (“é proibida a reprodução etc”), não havia a experiência da espera, da descoberta, da expectativa. Era um fetiche, sim, mas estava imbricada àquela realidade analógica, pré-internet (rádio, lojas de discos), da qual estávamos todos submetidos.

Se eu fosse começar a coleção hoje? Certo que eu ia ser mais um que ouve tudo e não ouve nada. E ia ficar com a discografia oficial. Hoje não tem mais fita gravada. E todas aquelas gravadoras ilegais que prensavam CDs nos anos 90 não existem mais. Na febre dos blogs de música, muita coisa reapareceu, alguns discos foram relançados – mas ironia do destino, são agora cópias piratas dos piratas. Ainda hoje é possível achar material de uma Yellow Dog (como os Ultra Rare Trax) mas prensados por outras pessoas.

Hoje falando essas coisas, pareço repetir-me, proclamando o óbvio. Mas imagino que tratando-se de lembranças que lá se vão quase três décadas, e que é incrível pensar que quem agora tem a minha idade quando comprou o primeiro disco não tem noção do que era ouvir música naquele tempo – que parece que foi...ontem. Não gostaria de voltar ao passado mas como não ser saudosista?


P.S: que fim levou o Capitão Gancho? Cartas para a redação.