Tuesday, April 19, 2011

Apartamento 1313

Batem a porta. Um homem de meia idade irrompe a sala escura, cruzando com certa dificuldade a distância do quarto até a entrada do apartamento, em direção à porta. Tateia o interruptor de luz enquanto destrava a porta. “Deve ser a vizinha querendo se livrar da santinha”, pensa. Ao abrir, dá de cara com um caveira grave, trajando uma longa mortalha negra e foice enferrujada na mão. A caveira fixa seu olhar cavo no homem, e exclama, como quem tivesse repetido a frase diversas vezes:

— Oi. Eu sou a morte e vim te levar.

Ele leva as mãos ao coração:

— É só o que me faltava!
— O quê?
— Eu devo ter esquecido de tomar o remédio para a isquemia.

— Do que você está falando?

Tentava se lembrar:

— Não, agora me lembro! Não pode ser! Eu tomei os remédios, não poderia morrer assim, nunca morrer assim!

— Não te falta mais nada, não. A tua hora chegou — respondeu o vulto.

— Mas! Mas eu tomei o remédio do coração agorinha, antes de jantar! — e gritando em direção ao quarto, ele pergunta à sua mulher: — Não tomei, Orlanda?

Sua esposa ruge alguma coisa do fundo do aposento:

— Viu? Tomei!

Encara a Morte, e diz, triunfante:

— Viu?

— É mas não adianta que eu vou te levar de qualquer forma. Você não tem nenhum poder contra mim.

— Ai, meu Deus! A minha mulher não vai gostar nada disso! Não, não! Mil vezes não! Logo agora que eu parei de pagar o meu seguro de vida porque tinha que cobrir aquela batida que eu dei na kombi no mês passado! Eu ainda estou pagando aquela velha desgraçada! Por que quem bate atrás sempre é culpado? Por que raios as coisas são sempre assim? Quando a gente menos espera, estas coisas acontecem!

— É.

— E meu filho? Meu único filho? Ele vai me perder justamente na época da sua vida em que ele mais precisa de mim, a senhora não pode fazer isso comigo, não pode fazer isso com ele, não pode fazer isso com a gente! Pense bem, pense! É muita injustiça. A senhora não percebe que está sendo injusta?

— Não — respondeu a Morte.

— E o meu sogro, coitado! Morreu no fim do ano passado, e foi aquele escarcéu no velório dele, a senhora não imagina que coisa! Quanto problema aquele homem ajuntou para a família dele quando ele morreu! Apareceu no cemitério todas as mulheres dele, amantes, filhos! Filhos que ele nem sabia que eram dele!

— Isso acontece.

— Duas delas, de luto do chapéu até os sapatos. E a guerra em busca da pensão começou ali, com todas aquelas viúvas, uma puxando o cabelo das outras, haja água de melissa para acalmar aquelas mulheres histéricas.

— Aí está.

— Veja a senhora! E o trauma daquelas crianças? A senhora faz idéia do desgosto de ver uma família dividida daquela maneira, e naquela hora extrema! Uma filha dele, a do primeiro casamento, sofreu tanto com a morte do velho que dizem que enlouqueceu, tamanho foi o trauma! E ele era saudável, não bebia, tinha sido remador quando jovem.

A Morte o interpelou:

— Não me diga que você...

— Eu o quê?

— Que você mais um filho da puta que tem uns casos por aí? Que vergonha, hein, meu velho? Olha que isso só vai complicar as coisas para você, depois...

O homem tomou conta de si:

— Nãããão! Eu não! Quem, eu?

— É.

— Olha, eu tenho um casinho — olha para o quarto e baixa a voz — mas tá tudo em cima, viu? Eu só preciso, eu só preciso de um pouco de tempo, pelo amor de Deus, se não é por mim, é por eles! Eles não merecem me perder desta maneira, eu sei como é, mas eles não sabem! E você sabe que eles não sabem, e você sabe que eu sei que eles não sabem!

— Paciência.

Olha, eu nem gosto das minhas am...das minhas outras mulheres. Quer dizer, gosto, mas não como a minha primeira. Na verdade, não gosto tanto dela como eu gostava antes, mas a senhora sabe como são os casamentos, o tempo passa, a gente vai se desacostumando com aquela vidinha romântica de antes, mas acho que o que salva o casamento são os filhos. Desde que não sejam muitos — e confidente: — Olhe, a senhora sabe que é assim, sempre foi assim. Todo mundo faz isso, por que eu deveria me culpar, por que eu deveria ser culpado por trair uma pessoa que não me quer mais? Tá me entendendo?

— Paciência.

— Como, paciência??? E quanto às minhas dívidas? Não posso morrer sem pagar as minhas dívidas, não posso morrer sem pagar minhas dívidas! Eu não quitei o carro ainda! E a lavadora de louça que eu dei de aniversário para a Orlanda? Faltam sete prestações!

A Morte tentou convencer:

— Aí, ó. É mais um motivo para partir. Aí você se livra destes problemas terrenos. Mulheres, crianças, dívidas. Dívidas e mais dívidas!

O homem já estava lívido:

— A senhora não entende? — diz o homem, esbugalhado de suor — Morrer assim é passar a perna nos outros!

A Morte era implacável:

— Mas ninguém está preparado para morrer. Quanta gente que morre e não tem tempo de arrumar as malas. E olha que nem precisa arrumar as malas.

— Mas eu vou complicar as coisas para os outros! Vocês precisam me dar mais uma chance, mais uma chance! Eu tenho que me redimir, tenho que saldar as minhas dívidas. Preciso de mais um emprego, preciso pagar o colégio do meu filho!

— Só um?

— Desse casamento, sim.

— Quantos são?

— Casamentos?

— Não. Filhos.

— Três. Um está na Índia.

— Índia? Aquele maldito país que ninguém mata ninguém, e só morrem por causa da monção e acidente de trem? Fazendo o quê?

— Ele é arqueólogo. Mas olha, isso não vem ao caso, o que vem ao caso é que eu não posso morrer deste jeito!

— É meu velho. Mas... — diz a morte, tamborilando as falanges ossudas na madeira da foice — você sabe que é assim que deve ser. Senão, ninguém partiria desta para melhor.

— Ó. Escuta só. Eu pago o meu seguro, vendo o carro, quito o apartamento, e depois que o meu filho menor entrar na faculdade, a senhora pode me levar. Pronto. Está bem assim? Hein?

— Você sabe que eu não posso regatear a sua vida.

— Por favor! Eu lhe pago o que você quiser.

— Me pague com a sua vida, que eu vim buscar.

— Por favor, tudo menos isso!

A Morte se enfureceu:

— Não. Mas Deixa de ser chato, homem! Que coisa! Fazia tempo que eu não levava alguém tão chato! Cacete!

— Tá bem, tá bem, eu paro de ser chato, mas por favor, me dá mais um tempinho só, pelo amor de Deus, BUÁ!



A mulher estranha as alterações de voz do marido à porta, e o interpela do quarto, num mugido:

— Querido, com quem você tá falando?

Caindo em si, ele percebe o escândalo ante aquela cena extrema. Olha para a Morte e se vira para trás, gritando com a voz pausada e firme:

— Não é ninguém, É o vizinho do 1313.

A Morte arregala os olhos cavos. Pergunta ao homem:

— Vizinho do 1313? Mas aqui não é o 1313??

Perplexo, o homem emenda, entre confuso e espantado:

— Não, a senhora pode olhar na porta. Aqui é o 1312.

— Oh! Que distração a minha. Me deram o papel e eu não vi direito. Bati na sua porta achando que estava no apartamento certo. Onde fica o 1313?

— É lá no fundo, do lado do extintor.


E foi embora, sem dizer adeus.

Assustado, o homem fechou rapidamente a porta, fechando as trancas como se escapasse das sete pragas do Egito. Sentiu vontade de chorar, mas não sabia se era terror ou alívio. Apagou a luz da sala, e voltou para a cama, onde a sua mulher fazia palavras cruzadas do jornal. Sem tirar os olhos do papel, ela pergunta:

— O que ele queria?

— O cara da porta? Queria, queria entregar a santinha do prédio. — disfarça o homem, fingindo a calma.
— Ué! Mas hoje não ainda não é o nosso dia! — exclama a mulher.

E ele, num cínico suspiro:

— Graças a Deus.

Thursday, April 14, 2011

As 14 canções brasileiras do século


Ari Barroso


Há um tempo atrás, o Ricardo Cravo Albin lançou um concurso envolvendo 13 notórios conhecedores de música popular brasileira. A tarefa era escolher as 12 canções de MPB de todos os tempos.

A tarefa impossível foi anunciada na época na Academia Brasileira de Letras. Claro que muita coisa teve que ficar de fora, como foi o caso da produção musical dos anos 80 e 90 do século passado. Para facilitar, Albin resolveu aumentar a lista para quatorze.

Muita gente vai estranhar Se Você Jurar, do Ismael Silva na lista, já que ela não é tão conhecida quanto as demais. Ela entra provavelmente mais por sua importância história, a despeito de ter se tornado um sucesso na época de lançamento e ser um dos grandes clássicos do samba de todos os tempos. Se você não a conhece, então você não entende nada de samba, caro leitor.

A mais votada (12 de 13) foi Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. A lista ficou assim. Tentei colocá-las em suas respectivas versões originais:

1. Aquarela do Brasil (Ary Barroso, 1939, 12 votos). Mesmo sendo acusada na época de criação típica do Estado Novo em seu estilo de samba exaltação, Aquarela foi o primeiro sucesso internacional de uma canção daqui. Consta que Walt Disney estava no aeroporto de Belém quando ouviu a música do Ari e resolveu fazer um filme, que viria ser Você já foi à Bahia.



2. Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro, 1937, 9 votos). Pixinguinha a compôs como um choro para flauta em 1917. Ela ganhou versos somente vinte anos depois, quando uma cantora pediu à ela que a transformasse em canção. A cantora, Heloísa Helena, indicou entçao Braguinha para a letra. A primeira gravação porém seria de Orlando Silva.




3. Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1947, 9 votos). Criada em cima de um tema folclórico que o Rei do Baião ouvia na sanfona de seu pai, Asa Branca era meio desacreditada por ele quando mostrou a canção para Humberto Teixeira. O resultado foi um sucesso: além de mostrar Luiz Gonzaga para o Brasil, Asa Branca mostrou o baião para o mundo.



4. Último Desejo (Noel Rosa, 1937, 8 votos). Espécie de canto do cisne de Noel, Último Desejo conta a história da relação entre o Poeta da Vila e Ceci, a "dama do cabaré", Juraci Moraes, que como diz a música, eles se conheceram na boate Apollo numa noite de são João. Quando Aracy gravou o samba, Noel havia morrido poucos dias antes, minado pela tísica galopante que o levou aos 27 anos.



5. O Que Será (À Flor da Pele) (Chico Buarque, 1973, 7 votos). Conhecida inicialmente por causa do filme Dona Flor e seus Dois Maridos, O Que Será, que saiu no disco Meus Caros Amigos, de 1976, representava o ápice criativo de Chico Buarque durante os anos 70. Também possui outras duas letras, que foram registradas posteriormente por Mílton Nascimento e Simone.





6. Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes, 1957, 7 votos). samba-canção divisor de águas na história da MPB, criando um estilo que catalisaria boa parte da produção musical autóctone que mais tarde seria enlatada como MPB. A gravação orignal, no entanto, coube à elizeth Cardoso no disco Canção do Amor Demais, de 57. Porém, a versão de João seria e é a definitiva.




7. Alegria, Alegria (Caetano Veloso, 1967, 6 votos). Considerada por Augusto de Campos como a retomada evolutiva da Bossa Nova, Alegria Alegria era a carga de cavalaria do tropicalismo, que queria deglutir de forma críica e criativa a cultura de massa. Com sua letra modernista em estilo câmara-na-mão, no entanto, ela acabou logrando um terceiro lugar no Festival da Record. Mas em geral esse é o destino das obras-primas.




8. Se Você Jurar (Ismael Silva e Nilton Bastos, 1931, 6 votos). Primeira grande dupla de bambas do samba, os ases da Deixa Falar (depois Estácio) lançaram uma série de sambas antológicos no começo dos anos 30, a maioria para abastecer o repertório de outra dupla, Mário Reis e Francisco Alves. Se Você Jurar é a signature song do niteroiense Ismael Silva, autor de outros clássicos, como Adeus, Antonico, Para me Livrar do Mal e Novo Amor, entre outros.



9. Chão de Estrelas (Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, 1937, 6 votos). Sílvio e o jornalista e poeta Orestes têm juntos uma série de serestas geniais, como Serenata, que era o tema de abertura do programa do Caboclinho na Rádio Nacional ou Arranha Céu, uma canção de letra impressionista e modernista mas com uma melodia de modinha imperial. Mas foi com Chão de Estrelas que eles se tornariam conhecidos em todas as partes. Manuel Bandeira dizia que "tu pisavas nos astros distraída" era um dos mais belos versos em língua portuguesa. Outro poeta, Guilherme de Almeida, seria o criador do título da seresta, que Orestes chamava de "Sonoridade que Acabou".



10. As Rosas não Falam (Cartola, 1975, 6 votos). Cartola estava esquecido do mundo (ele conseguiu algum sucesso nos anos 30 com Divina Dama, gravada por Chico Alves, mas se desiludiu com o mundo do disco e do rádio) quando Stanislaw Ponte Preta o achou lavando carros em Ipanema. Tratou de relançá-lo ao estrelato, já em idade provecta. Nos anos 70, Cartola continuaria ativo e lançaria dois discos geniais, e a sua obra-prima, as Rosas Não Falam.



11. O Abre Alas (Chiquinha Gonzaga, 1899) Compositora prolífica e inteligente, Chiquinha fazia música e vendia através de pregoeiros, ou ela mesma vendia, de porta em porta. Na virada do século, em 1899, o rancho carnavalesco Rosa de Ouro, do Andaraí, lhe pediu um tema para o tríduo momesco de 1900. Chiquinha compôs uma marcha, que acabou virando um gênero musical por excelência dentro do Carnaval brasileiro.




12. O Mar (Dorival Caymmi, 1939, 5 votos). Uma pequena suíte trágica que mostra o contraste da beleza do mar e a história de um pescador que perde a vida nas águas. seria a mais conhecida de seu ciclo de canções praieiras contando crônicas da vida dos pescadores da praia de Itapuã. "Não há nada no mundo que possa ser comparado a esse conjunto de obras de tom camerístico", diz Cravo Albin.



13. Pelo Telefone (Mauro de Almeida e Ernesto dos Santos, 1917, 5 votos). Controversa e polêmica, Pelo Telefone era originalmente uma criação coletiva de sambistas que tocavam nos saraus da Tia Ciata, no centro do Rio. Numa tacada de mestre, um dos comensais daqueles serões, Donga (Ernesto dos Santos), resolveu registrá-la numa época em que ninguém registrava canções ( a primeira entidade destinada a isso foi a SBAT, criada em 1916 por Chiquinha Gonzaga, cansada de ver suas músicas sendo plagiadas). Pelo Telefone seria também o primeiro samba carnavalesco gravado de sucesso (o primeiro se chama Em Casa de Baiana, de 1910). A letra, censurada, seria cantada por todos os foliões cariocas nos festejos de momo de 1917.



14. O Bêbado e o Equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc, 1979, 4 votos) Aldir e João se conheceram no começo dos anos 70. Vivendo à distância, trocavam letras e músicas por correspondência. Criaram um vasto repertório genial, que vai de Kid Cavaquinho a Dois Prá Lá, Dois Prá Cá. Elis Regina, que era anti-bossa novista, a partir dos anos 70 passou a gravar compositores desconhecidos. Foi quando descobriu a dupla. O Bêbado e o Equilibrista se tornaria marcante por ser o hono da abertura política de 1979, celebrando a volta "do irmão do Henfil", Herbert de Souza, do exílio.

Monday, April 11, 2011

Cuesta Abajo


Caminito

Em lingüística existe o estudo de níveis de linguagem, que também é estudado por alunos de ensino secundário — pelo menos se os professores não pularem esse capítulo. Os maiores níveis de fala, o culto e o coloquial, são formados pela cultura inerente, pela formação escolar e recebem influência do grupo social a qual pertencem ou da situação em que a língua é utilizada. O nível culto é aquele que nunca usamos. O coloquial é o usado na conversação pessoal.

Deste, há uma variação, chamada “gíria”. Essa é a forma mais variável de todas, já que uma expressão pode sair de moda como uma roupa. Por exemplo, “sossega, leão”. Não existe nada mais obsoleto, hoje. Não confundir com jargão: essa é uma espécie de gíria técnica de cada profissão.

Existe a gíria dos políticos, dos punks, etc. Muito do léxico da gíria acaba se incorporando ao que chamaríamos de dicionário. É quando a palavra ganha notoriedade além do grupo restrito ou do sincronismo. Um exemplo de gíria muito interessante e que se perpetuou pela música popular, principalmente, é o Lunfardo.

O que é o Lunfardo? Segundo o falecido poeta, tradutor e pesquisador José Lino Grünewald, se trata de um subsistema linguístico que, pasmem, nasceu no meio marginal (a palavra “lunfardo” vem de lunfa, “ladrão”) que viviam na zona pobre da então europeizada Buenos Aires do começo do século XX.

Os sem-culotes, párias da sociedade, egressos do falido mundo rural que Jose Hernandez cantou em Martin Fierro . A Buenos Aires daquele começo de século também era um espaço urbano para onde arribavam estrangeiros de vários países: polacos, turcos, italianos, e franceses.

Com o tempo, surgiu a sociedade dos compadritos, ou seja, dos párias com ares de nobreza. Foi nesse caldeirão cultural que o Lunfardo nasceu.

O Lunfardo é, pois, um filho bastardo mas de parentalidade diversa. Para o também pesquisador, José Clemente, é um gênero metafórico onde a palavra inovadora (neologos) sempre busca se ligar a uma realidade sincrônica através de uma realidade sincrônica: ou seja, procura se conectar a uma vivência anterior conhecida, “de forma a se fazer inteligível”.

Pela imaginação do seu povo, ele também amalgamou elementos de muitos outros idiomas, inclusive o Português. O seu léxico também encontrava cognato no léxico de nosso país — além do argot francês e o slang inglês. De certa maneira, isso explica a popularidade da música portenha no Brasil.

Sendo oriundo de uma raiz marginal, o Lunfardo tem o objetivo de “esconder”, de ser ininteligível aos não-introduzidos.

A despeito desta ininteligibilidade, é muito comum que esta gíria seja utilizada originalmente para falar em encoberto, de modo a obter vantagem contra a Polícia — num jogo de cintura lingüístico típico de malandros, da malandragem. Vingou como um “falar” enigmático.

Frederico Cammarota se referiu à gíria potenha como um sistema fechado similar ao “dizer secreto dos sacerdotes do antigo Egito”. E quem detém a língua, detém o poder. Porém, a marginália de Buenos Aires não chegou a tanto. Contudo, se eles não dominaram a capital argentina, eles dominaram pela canção.

Os poetas, os letristas infiltrariam o falar dos “lunfas” através de suas canções. Foi através deles que ele se incorporou o espanhol falado no Rio da Prata.

José Lino elenca alguns exemplos: mate, significando cabeça; bobo por relógio (trabalha de graça); pelar, tirar dinheiro; mina, mulher, aquela que é explorada como se fosse uma mina de ouro; e para o cafetão, personagem perene das letras de tango, podemos listar: cafiolo, caralisa, cafisho (como em “Mano a Mano”), canfli, canflinero, cafriolo, além de cáften, entre outros.

Foi justamente no tango — originalmente uma música de pobres e que ganhou casaca e palheta com Gardel quando ele cantou “Mi Noche Triste” no sisudo Teatro Empire, no dia 14 de outubro de 1917. Foi Gardel quem tirou o tango da rua, e o transformou numa sólida instituição cultural que ganharia o mundo nos anos seguintes.

O tango deu uma seara ao Lunfardo, e se tornou a crônica daqueles dias. Muitas letras inesquecíveis no vasto território da música portenha são quase verdadeiros tratados de lingüística. Se a Gardel coube o fato de dar elegância e alma ao tango, os seus históricos letristas transformaram o gênero com figura de proa de um movimento que nascera das ruas e falava delas.

O curioso é que o estudante neófito na língua espanhola há de “boiar” no oceano de gírias que se infiltrou no cancioneiro guapo.

Um dos maiores compositores de tango (se não o maior), Enríque Santos Discépolo, enfeixava a gíria em suas canções. Como em “Chorra” (“chorro” é Lunfardo, que significa o ladrão que passa a perna, e a palavra nasceu gíria e hoje é utilizada largamente, como o povo argentino chamou o governo De La Rúa de ladrão ao impedir o saque aos bancos “chorro, donde está nosso ahorro?”), por exemplo:

Y he sabido que’el guerrero
Que murió lleno de honor
Ni murió, ni fue guerrero
Como me engrupiste vós
Está em cana, prontuariado
Como agente ‘e la camorra
Professor de cachiporra
Malandrín e estafador.


“Engrupir”, como no Brasil, significa passar a perna, “cana”, polícia, “engrupir”, adular, “camorra”, bando de marginais (como em italiano), etc. Ou na citada “Mano a Mano”, de Celedonio Flores:

Se dio el juego de remanye cuando vós, pobre percanta,
Gambeteabas la pobreza em la casa de pensón.
Hoy sós toda una bacana, la vida te ríe e canta
Los morlacos del otários los tirás a la marchanta
Como juega el gato maula com el mísero ratón.


“Percanta” é como se chamam as meretrizes em lunfardo. No mesmo sentido, “gambetear” é se esquivar. “Bacana” é o vida mansa; “morlaco” é o dinheiro. O “otário” é o revés (ou vesre, em Lunfardo, que também usa de anagramas para neologismos) do malandro, como se dizia no Brasil, nos tempos da malandragem.

“Marchanta” é golpe. Aliás, “mano a mano” é Lunfardo também, e quer dizer “de igual para igual. São expressões que se universalizaram pela música. Alfredo Le Pera, o parceiro musical de Carlos Gardel, era paulistano e também mestre no jogo de palavras, autor de “Mi Buenos Aires Querido”, “El Dia En Que Me Quieras”, “Amargura” e “Cuesta Abajo”. Mas o maior de todos é, sem dúvida, Enríque Discépolo.

Discépolo foi o cronista maior do tango. Fazendo uma tíbia comparação, eu diria até que ele foi o Chico Buarque da sua geração. Escreveu clássicos como “Yira...Yira”, “Victória”, “Malevaje” (populacho, bando de malevos), “Esta Noche Me Emborracho” e “Uno”, clássico dos clássicos.

Mas o Lunfardo também é poesia. De acordo com José Bacia, até meados dos anos 60 o gênero foi representado por poucos livros de menção, até La Crencha Engrasada, de Carlos de la Pua. Foi o divisor de águas, quando essa modalidade poética foi reconhecida como arte singular.

Em 1962, nasceu a Academia de Lunfardo que, segundo Grünewald, foi quem trouxe criatividade maior na dialética entre arte popular e imperativo estético, com direito a um manual sobre o assunto, Aprenda Lunfa Básico.

A seguir, um breve glossário:

Alpiste: álcool
Bagre: mulher feia
Biaba: assalto (vem do piemontês biava)
Cabrón: corno
Chafe: policial
Currar: iludir
Entregar la rosca: morrer
Escrachado: mal trajado
Farolar: administrar drogas
Forfai: sem dinheiro (oriundo do turfe)
Gamba: nota de cem pesos
Ganzua: pé de cabra (para gatunos)
Garufa: farra
Gil: otário (como em “Cambalache”)
Jerquear: gozar
Macanear: mentir, atochar
Manflora: veado
Matungo: cavalo ruim (como no Brasil)
Mishiadura: pobreza
Nieve: cocaína
Panaro: bunda de mulher
Percanta: concubina (do genovês percanta, princesa, ou alteração fonética da indagação per quanto?, que os imigrantes faziam às meretrizes na rua)
Porra: cabeleira
Orto: bunda
Puente: ladrão de carros
Quieco: bordel
Rechiflado: entrevado, abichornado
Shomer: miserável (do francês chomeur)
Tangata: recital de tango
Timba: carteado
Toquero: policial corrupto
Verano: vergonha
Vivanco: esperto
Yeta: azar
Yuta: cadeia
Zaranda: surra
Zorzal: cantor

Saturday, April 09, 2011

O Artista da Fome


Acima de qualquer suspeita: Celso Roth


A demissão do preclaro Celso Roth do cargo de treinador do Internacional me lembrou de uma história que eu contei (ou devo ter contado) aqui nesse devezenquandário lá por 2005.

A história começava mais ou menos assim (me perdoem por estar puxando pela memória, devo estar negligenciando algo aqui e ali, mas enfim, a história é essa) o pobre diabo até que vinha tentando se lançar na carreira, mas sem sucesso.

Não vingava nem no baixo clero da bola. Era apenas e tão somente um professor de educação física bem falante, pragmático.

Chamavam-no o "papagaio de fraque". Foi quando resolveu procurar um bom pai-de-santo. Já tinha ouvido falar no homem, lhe disseram que era careiro, mas o caboclo dele era forte. Então, o treinador foi ter com ele. O mandingueiro deu uma lista de compras para o homem. Ao todo, pediu que ele comprasse umas velas pretas na flora do Mercado, perfume de alfazema na farmácia, um galo preto mo mercadão, umas fitas azuis no armarinho e charutos na tabacaria.

Feito o acordo, lá foram os dois para uma esquina.

Tempos depois, a carreira do cliente ia de vento em "polpa", como diria a Wanessa Camargo. De cara, ele pegou um time do interior do estado, e conseguiu levar um bando de pernetas às semifinais do regional. Logo, foi solicitado para atuar num clube também do interior, porém um pouco mais conhecido. Virou sensação do milênio! Só faltou matéria na Placar.

As coisas iam bem, só que no afã das vitórias, o nosso herói se esqueceu de pagar o pai-de-santo. Ele foi reclamar com o técnico. Este enrolou, enrolou, até que o outro se enfureceu. Os dois brigaram aos berros, um jurou o outro de morte. O técnico, irritado, decidiu que não ia pagar mais nada.

Crispado de raiva, o homem do sortilégio decidiu se vingar: ia voltar todo o trabalho conta o treinador. Ia ser trabalho sujo, do grosso, pesado. Por essas tantas, ele já era entronizado pela imprensa especializada.

Depois de classificar um inexpressivo clube à beira de fechar as portas para a Série B, foi contratado por outro que, novamente, chegou às portas das finais de outro regional.

Saiu de lá coberto de glórias para disputar uma Copa do Brasil. Em quatro rodadas, ele fez o nome em todo o país.

Foi quando nosso herói sentiu o golpe. A macumba era forte e fez fez efeito, e ele começou a decair. Quando ia se consagrar, caiu do cavalo. Demitiram-no, sem explicação. Foi parar noutro time, nos cafundós do Judas.


Porém, o tal técnico, que era um crente, tinha um não sei quê, um santo forte, ou uma legião de anjos da guarda. Teve tempo de pegar um clube grande.

Um desses clubes grandes que, refestelados no meio de velhos troféus e louros de glórias do passado, acham que a sorte está com eles, aponto de deixar a política de futebol andar ao sabor dos ventos da Fortuna. Por algum motivo, os dirigentes desse clube resolveram apostar no "professor"(como ele já era chamado).

Festejado como o "salvador da pátria" do clube, ele afundou em dois ou três jogos. Os tais dirigentes resolveram metê-lo no cadafalso, e escapar das críticas da torcida. O tal treinador estava fora.

Porém, nosso demissionário herói descobriu que alguma coisa estava acontecendo de bom no meio dessa maré de azar. Ao cair do comando no clube anterior, ele pôde receber meses e meses de salário por conta da recisão de contrato.

Na entressafra entre um emprego e outro, ele pôde fazer o seu marketing: dava entrevistas, era simpático com repórteres, dava palestras um tanto pragmáticas aqui e ali.

Certa feita, até descolou uma vaguinha de comentarista de tevê, numa dessas emissoras da vida. Não tinha levantado taça nenhuma, mas tinha um obscuro vice-campeonazito acolá que lhe investia de uma aura de genialidade e de lenda.

No campo do sobrenatural, era o armagedom do cangerê do pai-de-santo contra as peripécias do treinador, que ganhava de lavada.

Nessa vida de malabarista, o treinador virou um mito da bola. No primeiro semestre, sempre havia um clube interessado em seus serviços, a fim de ganhar algum clássico ou cumprir tabela no regional, com certa dignidade e com a estrela de tão afamado profissional.

Já no segundo semestre, ele era solicitado para a incumbência de salvar algum time da segunda ou da terceira divisão. Nessa tarefa, ele atingiu o grau de mestre: já era pentacampeão em salvar desafortunadas agremiações do inferno da segundona ou da terceirona.

Não ganhava certame algum, mas era requisitado. E se porventura não conseguisse salvar de todo, era demitido e ganhava um troco interessante pela recisão, e ainda tinha copa franca com a torcida, é claro.

Era realista: só cobrava alto por clubes que pudessem pagar. Clubes que gostam de errar no futebol e depois chamar técnicos mágicos para salvar o ano e emendar sonetos de pé quebrado. Ah, e curioso é que times não faltavam para ele.

E o mercado hoje nunca lhe foi tão favorável. Diplomata, simpático, divertido, bem falante e altaneiro, tratava com mesura e cabotinismo a tudo e a todos. Se saía de um clube, cuidava para deixar o caminho aberta para retornar.

E o tal pai-de-santo? Coitado. Cansou de fazer macumba contra o técnico caloteiro e atacá-lo com entidades e caboclos. E o técnico, aliás, hoje nada em dinheiro por conta de contratos de recisão de clubes mal administrados e que torram dinheiro em favor de verdadeiros vigaristas de porta de vestiário.

O "professor" enriquece coma recisão num time qualquer e acaba ganhando o dobro do salário num venturoso novo contrato. Em pouco tempo, empregado ou não, será sempre lembrado, e reinará na capelinha dos argutos de ocasião.

E enquanto está fora do mercado, fatura com a grana da multa recisória enquanto mostra toda a sua cultura e salomônica sabedoria nos microfones do rádio e da tevê, em programas esportivos.

Nosso herói está espantado. Ri a toa. A razão é tão simples: a sorte dele é o "azar" dos outros, e o "azar" dele, na verdade, não é azar. No fim, ele é quem virou uma espécie de macumbeiro do futebol, e quem mistifica e entroniza certos técnicos são os dirigentes medíocres. E não é só coisa do futebol.

Mas aí, quem quiser que bote a carapuça.

O divertido nisso tudo é que o nosso treinador até que poderia pagar ao pobre do macumbeiro em dobro que ele ainda lhe deve para lhe desfazer o tal quebranto. Mas pagar para quê?

Wednesday, April 06, 2011

Ponteio

Há exatos 46 anos, em 1965, Edu Lobo ganhava o Festival da Canção da TV Rio, com Arrastão, defendida pela Elis.

Isso me lembrou um trecho do Noites Tropicais, do Nelson Motta. O livro, que narra em primeira pessoa os bastidores do mundo mundo vasto mundo cultural brasileiro das últimas cinco décadas, ele diz que, depois do sucesso de Arrastão, Edu se montou: gravou três discos e, com o Gianfrancesco Guarnieri, lançou o Arena Canta Zumbi. O auge seria uma mega-produção no Zum-Zum, com o Baden Powell e a Elis (Regina).

Quando iriam começar os ensaios, Edu recebeu um convite para uma turnê na Europa e não pensou duas vezes. Chegou no Rio cinco meses depois.

De volta, o autor de Borandá notou que tudo havia mudado. O novo xodó da mídia agora era o moreno dos olhos d'água Chico Buarque de Holanda, Wilson Simonal levantava multidões, Vandré era o novo ícone da esquerda festiva, Gil e Caetano lançavam seus primeiros trabalhos em disco. Pior: faltava pouco tempo para o encerramento de inscrições do próximo Festival e edu não tenha nada para o certame.

Antes da turnê, porém, ele ouviu a nova canção que Dori Caymmi queria inscrever para a competição. Gostou tanto que o filho de Dorival perguntou se ele não queria pôr letra. Edu chegou a pensar em algo mas achou melhor não se intrometer na parceria de Dori com o próprio Nelson Motta (juntos tinham feito Saveiros).


Contudo, da parceria frustrada, ele ficou com um refrão boiando na mente: "quem me dera agora eu tivesse a viola prá cantar". Resolveu transformar esses versos no refrão de um galope que ele havia esboçado (na linha de protesto entronizada por ele e pelo Vandré de Disparada) e convidou Capinam para fazer a letra. Edu apenas sugeriu o tema, e o poeta baiano fez o resto.


A competição do III Festival da Record de 67 foi o ápice do gênero na década de 60. Tanto que pelo menos os quatro primeiros colocados mereciam o primeiro lugar. A despeito da enorme concorrência, foi justamente a canção de Edu Lobo que ganhou o certame: era Ponteio, defendida por ele, Maria Medalha, Airto Moreira, o Quarteto Novo, orquestrada por ninguém menos que Rogério Duprat.



Ponteio foi a última canção "engajada" a ganhar um festival por aqui. Ao mesmo tempo que o gênero foi se desgastando, o próprio FIC, que virava uma espécie de catalisador político naqueles anos marcados pela ditadura militar, ele foi sendo paulatinamente esvaziado na medida em que os canais ditos de 'participação popular' na época iam se fechando e o público começava a ver que onde se acreditava haver uma forma de mudar a realidade havia apenas música.

O canto do cisne seria a final do FIC de 68, quando o público quis Vandré e os seus dois acordes de "Caminhando" e o júri escolheu a jobiniana Sabiá. quando o Festival da Canção foi capitaneado pela TV Globo, a partir de 69, o FIC já havia se transformado em udigrudi, sob as bênçãos do governo militar - como explica Zuza Homem de Mello, no livro A Era dos Festivais.

Tuesday, April 05, 2011

Caro Flávio


O criador da "A Fonte da Informação"


Morreu o Flávio Alcaraz Gomes e toda uma época desapareceu com ele.

Me lembro do tempo em que eu era rádio-escuta na Prefeitura de Porto Alegre (do tempo em que a Assessoria de Imprensa ficava ali no Paço dos Açorianos, na Praça Montevidéo) e eu fazia a audição da manhã na rádio Guaíba entre 1997 e 1998.


Me lembro de uma enorme polêmica entre ele, os moradores do bairro Santa Teresa com a Prefeitura por causa do projeto de construção do Sambódromo, então previsto para ser construído ao lado do Marinha.

Flávio levou a querela como uma questão pessoal: ele acabou vencendo a queda de braço. A Prefeitura, que já tinha até instalado uma maquete do Sambódromo (ou Pista de Eventos) projetada para ser inaugurada ao lado do ginásio Gigantinho, acabou indo parar no porão do Paço. O Sambódromo foi parar lá no Sarandi.


Claro que eu era guaibeiro desde piá e achava o máximo ganhar soldo para ouvir a Guaíba ao lado da soleira da terceira janela da parte direita do Paço, que dava para a rua Uruguai, onde ficava a salinha do escutas (o nosso colega aqui do Pato Macho e decano do jornalismo gaúcho, Nildo Jr, certamente se lembra).

Quando eu era estagiário da Prefeitura eu ouvia e degravava os Guerilheiros na Guaíba, ali e depois na escuta no porão do Piratini). Ele nos ridicularizava, chamava a gente de "dedo duros" do prefeito, mas era o estilo dele. E, de fato, a gente não passava de insolentes dedo duros.


Era divertido ele com o Baldi no começo do programa, ou convidando algum vereador de oposição para meter pau na Prefeitura, eu degravava mas como não era partidário de nada, apenas um estagiário e estudante de jornalismo tolo e ignaro. Eu degravava as críticas e morria de rir de tudo aquilo. E isso que 1998 foi ano eleitoral, ou seja, eu devo, de longe, ter degravado uma suma teológica de tantas laudas de trechos do Flávio Alcaraz Gomes Repórter.

Sempre depois do Correspondente Renner, o Flávio colocava uma música. Era ou o Strangers In The NIght, com o Sinatra, ou Ultimo Desejo, com a Maria Bethânia (aquela versão do Recital da Noite Barroco), ou Yves Montand, Juliette Grecó (a musa existencialista) ou Charles Trenet (Le Mer), sempre tem um cantor francês, que era o que ele gostava. Aliás, aquela musiquinha do assobio, que era a trilha de abertura dos Guerilheiros na Guaíba ele usava desde os tempos da rádio Farroupilha, quando ele transmitia o programa direto do Presídio Central, onde ele foi tirar férias por alguns anos.


Me lembro de uma vez que ele veio de Paris com um CD do Montand e passou uns dois meses tocando quase todo dia o Yves cantando Les Jardins De Monte-Carlo. Um porre.


No meu último dia de estágio, eu pedi para a moça do fax para que eu mandasse um pedindo uma música que ele não tocava mais, que era I Left my Heart in San Francisco, com o Tony Benett.

Aí eu datilografei o chasque marotamente no verso da lauda da redação da Prefeitura que tinha o timbre e tal. E pedi para ela passar o fax para a redação da Guaíba. Achei que eles fossem ignorar, já que não é do programa (que era jornalístico) atender a pedidos musicais. Mas não é que ele tocou mesmo? Leu a minha carta (na época eu não mexia com Internet, imaginem). Logo depois do Renner. Ele leu a carta do "nosso ouvinte Marcelo", e tocou a música em vinil.



Quando ele começou a ler a carta, eu chamei a moça do fax, e morria de rir de incredulidade, de trás da minha máquina elétrica. Eu tenho a gravação até hoje.

Segundo o pessoal da rádio, eles só mantinham um toca-discos plugado na mesa de áudio do estúdio por causa do Flávio — e do Fernando Veronezi, que apresentava o saudoso Noturno Guaíba.

E ele nem sonhava que quem fez o pedido foi justamente um dos seus mais insolentes e fiéis "dedo duros" da Prefeitura...

Morreu o Flávio Alcaraz Gomes. E toda uma época desapareceu com ele.

Friday, April 01, 2011

Maneca e a fuga de Brizola


Jango e Brizola

Uma das lendas mais curiosas em torno do Golpe de 64 (ou a Redentora, como a batizou o Stanslaw Ponte Preta) é sobre a famosa fuga do ex-governador Leonel Brizola para o Uruguai.

A lenda diz que ele teria escapado dos militares fantasiado de mulher, mas a história contada pelo piloto particular do intrépido cunhado de João Goulart, Maneca Leães, é bem ilustrativa e digna de um esquete do Moscou Contra 007.

A história foi assim: ele e o Jango chegaram em Porto Alegre de Brasília dia 2 de abril de madrugada. O Brizola tentou convencer o Jango à resistir, mas quando viu que estava falando com um cara que se achava psicologicamente deposto, largou.

Ele queria que o Jango pusesse ele como Ministro da Justiça. Largou o presidente e foi para a prefeitura discursar, queria convocar a população e o III Exército e não conseguiu nada.

Aí ele ficou um mês e meio clandestino no RS até se exilar. Antes ele mandou a Neusa e os filhos para o Uruguai. Em Montevideu ela contatou o piloto do Jango. O cara largou a família também lá e foi para São Borja com um teco-teco.

Enquanto isso, o Brizola conseguiu uma farde da Brigada do ex-chefe da Casa Miltar dele, o Átilo Escobar, enquanto estava escondido num quartinho na casa de uma senhora (parente de outro ordenança do tempo do Piratini), no Duquesa, em plena Rua da Praia.

Ele se escondeu num cobertor embaixo do "puta merda" (aquela alça que fica em cima do porta-luvas) do Fusca dela e lá foram eles 100 quilômetros até Pinhal. Isso era 15 de maio de 64.

O piloto do Jango voou de São Borja até até Punta Del Este, enquanto os dois iam para a praia de Fusca. A missão do piloto era ir de Punta até Pinhal, pela beira do mar. Ou seja, subir quase todo o estado pela costa. Não havia um ponto de encontro específico e o Cesna não tinha instrumento de navegação.

O cara foi na base do relógio de pulso voando baixo emplena escuridão, só vendo a espuma das ondas pelo caminho. O relógio porque ele só sabia queo Brizola ia estar a duas horas e meia do ponto de onde ele partiu.

Se ele chegasse cedo ou tarde, podia ser cedo ou tarde demais.

Se algo desse errado, o Átio Escobar seria o plano 2, e teria a missão de atravessar a fronteira com um comboio da Brigada Militar e o Brizola fardado de soldado e de capacete enfiado na cabeça...


Aí então ele reotrnou com o Brizola, que o tempo todo achava que a FAB ia interceptá-los. Pousaram em Sarandi Grande, e depois foram para o Punta. O piloto disse para a mulher, depois: "resolvi o problema do gado do doutor Jango".

Só que não foi preciso. Já que o céu era de brigadeiro, o piloto, voando baixo para não ser percebido, fez o trajeto no RS no limite da plataforma continental. quando deu duas horaae meia ele se aproximou e viu um carro e um jipe, achou estranho mas resolveu pousar, e viu um BM sem capcete, era o Brizola, era umas oito da manhã.

Esse piloto, o Maneca Leães, depois seria quem traria o mesmo Brizola do exílio em 79, do Paraguai para São Borja. Não pôde trazer Jango, que morreu de infarto no exílio, três anos antes. Aliás, o único presidente brasileiro que morreu exilado.

Wednesday, March 30, 2011

Os enredos mentais de Josué Guimarães


Josué


Josué Guimarães foi um escritor singular: antes, porém, foi jornalista por meio século e, assim como sucedeu ao compositor belga Cesar Franck, floresceu a plena madureza de sua arte já em idade avançada. O debut literário viria apenas em 1972. Ou seja, sua fase como autor durou apenas quatorze dos seus sessenta e cinco anos.


É como se todo o período em que Josué militou na imprensa fosse uma espécie de preparação para a literatura. E o mais peculiar nisso é que o jornalismo lhe franqueou o engenho e a arte necessários para a sua técnica de criação literária.

Segundo Nídia Guimarães, sua companheira de muitos anos, ele tinha a obsessão em escrever enredos mentais: se por acaso ele tivesse uma história na cabeça, descrevia tudo aos seus amigos mais chegados.

Enquanto ele contava, ia resolvendo a trama a cada bate-papo; e a cada vez que ele discursava seu fluxo de consciência, mais elaborada a prosa ia ficando. Ao mesmo tempo, ia resolvendo questões de tempo e espaço na história ou criava novos personagens.

De acordo com Nídia, só depois que ele maturava a coisa toda é que ele sentava diante a máquina de escrever e se punha a passar tudo para o papel.

Um exemplo é Camilo Mortágua. A obra, que compreende mais de 300 páginas fora escrito em apenas dois meses; Os Tambores Silenciosos, por sua vez, Guimarães o completou em apenas 28 dias. Já o excepcional e emocionante É Tarde para Saber, uma semana.

Por conta disso, ao contrário da maioria dos escritores, Josué não fazia anotações, originais ou rascunhos. Ao tocante ao seu estilo, com efeito, não há nada e tão anormal nisso: apenas e justamente fruto de seu vício de jornalista.

A celeridade de ser instantâneo ao escrever com um deadline pendendo sobre sua cabeça como a espada de Damocles o fazia metralhar a máquina, sem tempo para voltar atrás. O texto, mesmo assim e por conta disso mesmo, saia escorreito; ao contrário se seu amigo, Erico Verissimo, que trabalhava em cima de originais, sempre em espço três - a fim de correções ou ilustrações, Josué entregava o texto pronto direto para o prelo.

Aliás, por conta de seu trabalho como redator vocacional (ele também trabalho em rádio) e pelo fato de se lançar como autor já em idade provecta, Guimarães nunca se considerou um escritor de verdade. Muito menos de se sustentar como tal, assim como aconteceu a Verissimo, que foi certamente o primeiro a viver estritamente de ganhos com vendas de livros.

Além disso, havia a falta de tempo e a militância política desde o começo. É aquela história: todo jornalista deve ter um livro cravado dentro de si, como o menino dentro do adulto. Por essas e outras, e mais a falsa modéstia, ele levou muito tempo até se convencer de que era realmente um homem de letras.


Um episódio que ilustra bem o processo de criação de Josué foi contado, certa feita, pelo idealizador da LPM, Ivan Pinheiro Machado. Ivan disse que, num domingo de verão de 79, o autor de Dona Anja o convidou para jantar na Churrascaria Santo Antônio, na Dr. Timóteo.

Então Josué disse: "estou com uma história na cabeça, queres ouvir?". Dada a largada, ele começou a desenrolar o enredo a partir da história de um curioso sobrado que ficava na esquina da 24 de Outubro com a Nova Iorque, na Auxiliadora (perto dali).

Ia do geral (o sobrado) para o particular (os personagens). O garçom trouxe o jantar, clientes entravam e saíam, e Josué desembuchava. Pagaram a ceia, saírama caminhar, e a payada seguia. Subiram a Dr. Timóteo, ganharam a 24 e chegaram até o Parcão. Horas depois a catarse terminou: era Camilo Mortágua.

Ivan disse que, com exceção de A Ferro e Fogo, ele foi testemunha dos enredos mentais de Josué, inclusive alguns que não chegaram ao prelo. Um deles se chamaria Fresta na Janela, e seria a história de uma matricarca que morre às vésperas do casamento da filha e retornaria em segredo ao mundo dos vivos para presenciar as bodas.

Pinheiro Machado porém não ouviu o que seria o terceiro volume de A Ferro e Fogo, Tempo de Angústia. Contudo, Dona Nídia, guardou por anos o começo da história, que restou inacabada na quadragésima lauda. Seria a saga dos Muckers. A história dos santarrões do Ferrabrás o fascinava. Com a morte do autor, coube a Luiz Antônio Assis Brasil a tarefa e contá-la, no Videiras de Cristal — aliás, dedicado à Josué.

Lendo o Josué escritor, havia também o Josué político, sendo que o segundo positivamente habitava no segundo. Afinal de contas, sua obra literária é uma reflexão de todo o contexto político dos anos 70. Sua luta e seu combate acabariam justificando a perseguição da ditadura contra ele, que era trabalhista dos tempos de Jango e Brizola e opositor ao governo revolucionário de 64, ele foi perseguido e preso pelo regime, até que optou pelo exílio em Portugal, one escreveu o excelente livro-reportagem, chamado Lisboa Urgente, sobre a Revolução dos Cravos, de 1975.


Existe uma história curiosa dos seus tempos de clandestino, que Nídia contava. Depois do Golpe, Guimarães vendia apólices do Montepio da Família Militar, (MPM) sob o falso nome de Samuel Ortiz (um nome que ele usava como pseudônimo desde a Legalidade).

Um dia, estava ele em Santos como Samuel, o vendedor de apólices, explicando o plano a um grupo de oficiai quando um deles, de repente, ficou a observá-lo de soslaio. Quando o "subversivo" ia saindo, o milico disse: "eu sei quem é você" (Josué era conhecido como diretor da Agência Nacional antes de 64 e amigo pessoal de Jango). Sem saída, nosso herói apenas disse: "bem, então estou em suas mãos". O coronel, de maneira surpreendente, respondeu: "eu não irei denunciá-lo. Estou vendo que o senhor está lutando e trabalhando para sobreviver". E não o entregou.

O episódio foi contado ao Otto Lara Resende, mais tarde seu colega de redação da Folha de São Paulo, que foi quem reproduziu essa passagem, numa de suas últimas colunas antes de morrer, em 1990.

Por conta do contexto da repressão, foi dentro do Realismo Fantástico, subproduto típico daqueles anos políticos, que mostrava de forma arquétpica e singular as cordilheiras desabando sobre as flores (como diz a música da Simone) e a esperança do povo sob a repressão instiucionalizada e a violência policial como norma vigente.

Isso era algo tão explícito, pulsante e evidente em sua obra, mergulhada naquela conjuntura adversa, que É Tarde Para Saber foi recusada pela José Olympio, a sua editora. Coube então à LPM, então nascente (foi o primeiro romance da editora), lançá-lo, com grande sucesso, em meados dos 70...

Porém, ao contrário do outro Josué, o do Velho Testamento (e mais como um Moisés), ele não foi escolhido de Deus para destruir Jericó e chegar à Terra Prometida da democracia brasileira. Josué Guimarães morreu de câncer, em 23 de março de 1986 — há 25 anos atrás.

Saturday, March 26, 2011

É hoje!

Essa música com a Elis Regina é bem rara, saiu por uma coleção de canções do sul lançada pela Marcus Pereira, nos anos 70.



Mas a gente sabe que muitos asçorianos estavam locados no Desterro, e vieram a duras penas para cá, e acabaram ficando num lugar que era considerado a parte mais inóspita da sesmaria do tropeiro Joerônimo de Ornellas, que era então o todo poderoso senhor dos Campos de Viamão.

Os portugueses acabaram se fixando num lugar adverso: era pantanoso e cheio de bugres. Pior, havia aqui tiranossauros, dinossauros eoutros bichos primitivos, além dos Slistacks. Mas como os açorianos chegaram aqui munidos de armas laser, todos os dinossauros foram exterminados, e enfim eles puderam se fixar no Centro. Então construíram o Edifício da GBOEX, o Rua da Praia Shopping e depois eles inventaram o charque, a chimarrita, o Gauchinho Neugbauer, o Esporte Clube São José, a Feira do Livro, o engarrafamento na Ipiranga às seis da tarde e o Studio Pampa.


Parabéns, Porto Alegre!

Thursday, March 24, 2011

Que fim levou Trini Lopez?




Tava sem Internet e sem meus Mp3 nesses dias por conta de um computador queimado, aí comecei a cavocar a minha discoteca, e achei o Trini Lopez no PJ, que eu achei que nem o tivesse mais.

Trini Lopez foi descoberto pelo Don Costa, arranjador do Sinatra na Reprise. Costa tinha assissito a uma performance dele num inferninho em Los Angeles chamado PJ's. Ele quis que o Trini gravasse em disco o pocket show dele, que era composto de covers de canções tradicionais, medleys e versões de músicas de protesto que faziam sucesso na época, como This Land Is Your Land e If I Had a Hammer.

If I Had a Hammer foi um sucesso extraordiário, chegou ao primeiro lugar nas paradas de sucesso de 36 países. Ao mesmo tempo, ele retomaria uma linha que iria desaguar no latin rockpop (depois junto com Herb Alpert, que também valeria um post), muito embora o Trini tenha largado a imagem de crooner de boate para tentar uma carreira de cantor romântico pop.

Por sua veia latina, ele fez muito sucesso no Brasil, especialmente com o Latin album, de 1964, certamente o seu disco mais conhecido, e que eu achei aqui em casa também. Tanto o PJ's quanto o Latin ganharam sequências respectivamente em disco, mas sem o mesmo sucesso dos originais.



Trini ainda vive, recentemente lançou um disco.

Monday, March 21, 2011

O Outono chegou



A gente sempre morre um pouquinho quando o Outono chega.

Thursday, March 17, 2011

A Cadeira de Chico Viola


O Gambrinus (crédito da imagem: Jana Jan's Fotolog)


Esses dias eu estava relendo a biografia definitiva do Noel Rosa, escrita pelo Carlos Didier e o João Máximo pela UNB, há algum tempo. E me lembrei da famosa passagem dos Ases do Samba por Porto Alegre, em 1932.

Um ano antes, Francisco Alves fazia enorme sucesso com Mário Reis (que rivalizaram com outra dupla, Castro Barbosa e Jonjoca). Com a parceria do Poeta da Vila, eles emplacaram Fita Amarela, e com Ismael Silva e Nílton Bastos, se Você Jurar.


Em 32, eles decidiram formar um escrete de bambas: com Ismael, Nonô, Mário, Chico e Noel e Peri Cunha, eles fundaram os Ases do Samba. O sucesso no Rio de janeiro foi gigantesco: juntos, o conjunto fazia uma espécie de teatro de revista em formato pocket, amalgamando números musicais com números falados.

Naquele mesmo ano, Chico Viola, um capitão de indústria da música brasileira avant la lettre, resolveu fazer uma turnê pelo sul do Brasil. Os Ases iam se apresentar em Porto Alegre.

Na capital gaúcha, Chico Alves ficou no antigo Grande Hotel, hoje o edifício do Imperial. a temporada, prevista para durar uma semana, acabou chegando a quase um mês, principalmente pelo lado pândego da turma. Fazendo canjas em bares, os ases descobriram o jovem Lupicínio Rodrigues, então soldado no antigo quartel da André da Rocha (então o Beco do Oitavo): noitadas, bebedeiras e certamente infidelidade...

Lupi apresentou-lhes a boemia da Ilhota e alguns sambas que ele compôs. Mais tarde, o autor de Vingança iria firmar parceria com Chico Viola (na verdade, alves encampou-o, assim como fizara com Ismael e Noel), e despontaria para o estrelato na Capital Federal.

Chico Viola costumava descer o Centro e almoçar no Mercado Público. Ia no Treviso, no fim da Siqueira Campos, ou no Gambrinus que, naquele tempo, ainda era um estabelecimento voltado para a culinária alemã (como o Chalé da Praça XV).

O Treviso fechou nos anos 70, e a cadeira cativa que Francisco Alves (ou a réplica) costumava usar foi doada aos donos do Gambrinus, que fica defronte ao Paço dos Açorianos, mais conhecida como a Prefeitura Velha.

O Gambrinus existe até hoje, e a cadeira está hoje suspensa na entrada, como recordação da passagem do Rei da Voz por Porto Alegre.

Chico e Mário ficavam no Grande Hotel e o Poeta da Vila, por sua vez, ficou numa pensão famélica na Sete de Setembro, próxima à Praça da Alfândega. em pouco tempo, enrabichou-se de uma menina que morava logo em frente.

O idílio não durou muito. No último encontro, debaixo de uma bruta chuva, Noel teria pedido á ela para que partisse de vapor com ele para o Rio. Alguém a chamou para dentro de casa. Ela apenas disse: "até amanhã...". E sumiu na escuridão do longo corredor do cortiço.

E a saudade fez um samba (como diria o Carlinhos Lyra): Até Amanhã, que seria sucesso no Carnaval de 1933, interpretada por João Petra de Barros:

Wednesday, March 16, 2011

Uma Fábula


O Coelho Branco




De repente alguém soltou a notícia:

— Acharam o Compadre Coelho!

Encontraram, porém, o seu cadáver; seu corpo virado de borco, lambido mansamente pelas ondas do mar, em mangas de camisa e de ceroulas. Alguém reparou que os seus olhos estavam brancos, como se tivessem sido acometidos de catarata; e de seu olhar esgazeado parecia vazar luz.

No escritório onde o Compadre Coelho trabalhava, todos se perguntavam, perplexos: "Mas como pode, logo o Compadre Coelho, um sujeito tão cheio de vida, tão engraçado e mulherengo incorrígível...".

Então o Compadre Castor desembuchou: "e ele estava noivo. Noivo! Ia casar!". Isso ninguém ali sabia. sabiam apenas de sua vida pregressa de solteiro: parecia ter uma amásia em cada rua, em cada esquina, em cada janela. Era o conquistador inveterado, um donjuanesco caixeiro-viajante.

Diz-se que foi quando o Compadre Coelho caiu de arrufos por uma linda coelha. Disse o Compadre Castor: "ele me disse, em choque, meu Deus meu Deus, eu estou amando de verdade. Pela primeira vez na vida, eu estou amando! Pela primeira e derradeira vez, amo".

E dizia isso sem dissimulação alguma. Era, pela primeira e única vez na sua vida, sincero da palheta às alparcas. E revelava isso sem medo nenhum. Falava isso como se tal sentimento o libertasse e o jogasse num inefável turbilhão de sensações.
então veio o inevitável. Teve que pedir a mão da moça.

Sustentava aquele pudico namoro como pôde, durante meses, e aquilo era um novo mundo para ele. Compadre Coelho flanava por entre mesas e cadeiras, perdido como uma criança numa loja de departamentos, fulminado de amor.

Foi quando o sogro quis forçar o noivado a todo o custo. E ele, que sequer havia cogitado qualquer compromisso sério, de tão perdido e confuso, agora estava num brete. Seu amor de ópera virou a Noiva de Lammermoor.

Um dia, num bar, estavam ele eo Compadre Castor. Depois de várias garrafas de cerveja, ele contou o seu dilema ao amigo e confidente:

— Compadre, eu amo ela como se ela fosse uma Santa Tereza. Só que quando eu amo uma mulher, esse amor é para sempre, entrendeu? Para sempre! quando eu amo-la, eu sou incapaz de desejá-la.

— Peraí — interpelou o Compadre Castor. — Nem beijá-la você beijou ela?
— Nunca.

Então o Compadre Coelho pegou o amigo pela gravata (ao fundo, um pianeiro desafinava o Duas Contas, do Garoto, em versão de beguine, dando um ar diáfano àquela cena patética) e falou:

- O negócio é o seguinte: eu posso deflorar qualquer uma, posso querer possuir todas as vadias dessa cidade, menos ela. Ela, não!

Preocupoado com seu amigo, o Copmpadre castor mandou ele procurar assistência médica. Sugeriu que ele fosse se consultar com o famoso Dr. Texugo.

O Dr. Texugo ouviu toda a desesperada explanação do paciente. No fim, Compadre Coelho, dispinéico, pediu um diagnóstico.

— E então, Dr. Texugo? É grave? O que eu tenho? O que eu faço? Qual é a cura? Me diga, por favor!

Dr. Texugo olhou longamente para a cara do Compadre Coelho. O silêncio do médico o exasperava. Compadre Coelho estava esperando certamente que o psicólogo fosse diagnosticar uma grave moléstia, talvez a própria lepra, receitar-lhe o degredo em Moçambique, as masmorras, o Inferno pintado pelo Gustave Doré, o diabo!

— Me salve, doutor! — gemia o paciente. — Eu não sei mais o que fazer, doutor! Eu não sei, doutor!!!

E começar a chorar grosso, sem ter pudor sequer de esconder o rosto e as lágrimas. Era o choro dos embriagados das inconfessáveis confissões de botoco de três da manhã. E como é triste o choro de paus d'água de botecos de três da manhã.

— Não tenho nada prá lhe receitar, compadre Coelho. — respondeu o Dr. Texugo, meio chocado. — Você está apenas apaixonado. É assim mesmo, o senhor precisa ter coragem e esperar. O tempo vai lhe dar as respostas, viva agora apenas as perguntas. Não existe nenhuma panacéia que possa servir-lhe de lenitivo. Não existe mágica. Isso pode ser passageiro, só provoca esse tipo de confusão no começo. Com o tempo, op senhor vai aprender com a experiência.


Compadre Coelho saiu doi consultório, aturdido. Chegou à conclusão de que devia amá-la eternamente como um devoto a uma santa, um relicário, um jardim misterioso, uma rosa dentro de uma redoma.

Na última vez em que beberam juntos, Compadre Coelho disse ao Compadre Castor:

— O velho me pôs no cadafalso. É o fim. Terei agora que oficializar o noivado.
O amigo sorriu:
— Você vai casar? Meus parabéns!

Compadre Coleho não disse nada. encheu um copo de Parati e sorveu a bebida como se fosse groselha, numa sede brutal. Suspirou fundo enquanto assimilava a massiva quantidade de destilado no estômago e disse:

— Compadre Castor, me diga: o que eu vou dizer á ela na Lua de Mel? Como vou explicar meu pudor para ela? O que a família dela vai pensar? E a minha? É o fim.

Compadre Castor passou a madrugada tentando consolá-lo, mas foi em vão. Viu no relógio que era tarde e despediu-se do amigo. Compadre Coelho ficou bebendo até amanhecer.

Foi à beira da praia e se sentou. Viu um pescador solitário e distante, ao longe. Quando a barra vermelha do primeiro sol despontou no horizonte, ele tirou o terno, os sapatos e as meias.

Em mangas de camisa e ceroulas, entrou no mar. Deu dois mergulhos para se acostumar com a água gelada. Marchou em direção ao nascente até desaparecer na espuma das águas.



MORAL DA HISTÓRIA: Todo amor é eterno e todo desejo é vil.

Monday, March 14, 2011

As 100 Músicas gaúchas de todos os tempos (2)


Leopoldo Rassier

Aqui vai a minha vista das 100 músicas gaúchas de todos os tempos. A ordem das canções não é arbitrária mas fiz questão de colocar Veterano no topo. O Paulo Coelho compositor de Alto da Bronze foi um pianista e arranjador que trabalhou durante anos nas rádios Farroupilha e Difusora, em Porto Alegre. Pedro Raymundo, todos sabem, era catarinense, mas como Santa Catarina é a nossa eterna República Juliana, então está tudo em casa. O Nando D'Ávila foi um compositor de São Leopoldo, muito talentoso e que morreu muito jovem. Cenair Maicá também desaparercido, foi um excelente cantor e compositor nativista.


Veterano - Leopoldo Rassier
Sopa de Letrinhas - Engenheiros do Hawaii
Prá Viajar no Cosmos - Nei Lisboa
Loucos de Cara - Vitor Ramil
Vitor Ramil - Sapatos em Copacabana
Impressões Digitais - Liverpool
Festa Punk - Replicantes
Vento Negro - José Fogaça
Eu Já Sei - Garotos da Rua



Tão Longe de Mim - Liverpool
Quando o Amor Bater na Porta - Os Brasas
Estrela, Estrela - Vitor Ramil
Coração de Luto - Teixeirinha
Pára Pedro - José Mendes
Por Favor Sucesso - Liverpool
A Marchinha Psicótica de Dr. Soup - Júpiter Maçã
Rockinho - Taranatiriça
Adeus Mariana - Pedro Raymundo
Águias - Nelson Coelho de Castro
Alto da Bronze - Paulo Coelho
Ultramen - Dívida
Xote da Amizade - Saracura
Canto Alegretense - Antônio Augusto e Bagre Fagundes
Não me mande Flores - De Falla
Lobo da Estepe - Cascavelletes
Um Lugar do Caralho - Flávio Basso
Menstruada - Cascavelettes



Bebendo Vinho - Wander Wildner
Não Aperta Aparício - José Mendes
Desgarrados - Leopoldo Rassier
Beatle George - Júpiter Maçã
Oh de Casa - Os Serranos
Obrigado Patrão Velho - Garotos de Ouro
Gauchinha Bem Querer - Conjunto Farroupilha
Eu Sei - Papas da Língua
Blue Haway - Liverpool
Os Homens de Preto - Tradicional
Tango da Independência - Vitor Ramil e Paulo Seben
Mais Uma Canção - Bebeto Alves
Campo Minado - Taranatiriça
Sabe Moço - Leopoldo Rassier
Canto dos Livres - Cenair Maicá
Romance do Pala Velho - Noel Guarany
Payador, Pampa, Guitarra Jayme Caetano Braun e Noel Guarany
Guri - Cesar Passarinho
Olhai os Lirios do Campo - Liverpool
Baile de Candeeiro - Albino Manque
Nuvem Passageira - Hermes Aquino
Jornais - Nenhum de Nós
Bochinchando - Cenair Maicá
Júlio Reny - Não Chores Lola
Oh Deby - TNT


Vingança - Lupicínio Rodrigues
Fronteiras - Raul Elwanger
Que se Pasa - Bebeto Alves
Água Benta - Nando D' Ávila
Deu Prá Ti - Kleiton e Kledir
Gavião - Os Serranos
Pelos - José Cláudio Machado e Porca Véia
Prece ao Negrinho - Gaúcho da Fronteira
Batando Água - Luiz Marenco
Nicotina - Replicantes
Você é tudo o que eu Quero - Garotos da Rua
Maria da Paz - Carlinhos Hartlieb
A Irmã do Dr. Robert - TNT
Roda de Chimarrão - Os Mirins
Chofer de Taxi - Teixirinha
Milonga para as Missões - Renato Borghetti
A Revolta dos Dândis - Engenheiros do Havaii
Purpurina - Jerônimo Jardim
Céu, Sol, Sul - Leonardo
Baiaozinho - Geraldo Flach
Camila, Camila - Nenhum de Nós
Meu Coração Já não Suporta Mais - Garotos da Rua
Nunca mais Voltar - TNT
Gaúcho de Passo Fundo - Teixeirinha
Ela disse-me Assim - Lupicínio Rodrigues
Tordilho Negro - Os Serranos
Esses Moços - Lupicínio Rodrigues
Me Leva prá Casa - Taranatiriça
Amigo Punk - Graforréia Xilarmônica
Felicidade - Lupicínio Rodrigues
Tertúlia - Leonardo



Um Abraço em Brian Jones - Bixo da Seda
Nervos de Aço - Lupicínio Rodrigues
Querência Amada - Teixeirinha
Infinita Highway - Engenheiros do Havaii
Canção da Meia-Noite - Os Almôndegas
Vira Virou - Kleitor e Kledir
Não me Mandem Flores - De Falla
Cachorro Louco - TNT
Surfista Calhorda - Replicantes
Não Podemo se Entregar pros home - Leopoldo Rassier
Bixo da Seda - Bixo da Seda
Aves Daninhas - Lupicínio Rodrigues
Campo Minado - Fughetti Luz
Quando eu Chegar - Bebeto Alves
Quem Há de Dizer - Lupicínio Rodrigues
Sem Rei - Cláudio Vera Cruz
Rasa Calamidade - Nelson Coelho de Castro
Carecas da Jamaica - Nei Lisboa
Piquete do Caveira - Os Almôndegas
Navega Coração - Kleiton e Kledir
Princípio do Nada - Replicantes
Fonte da Saudade - Kleiton e Kledir

O Homerm Nu


Figueroa parou o Gauchão de 73


Abril de 1973. Causa escândalo de proporções consideráveis uma foto publicada na coluna diária do chargista Marco Aurélio, do jornal Zero Hora. Na imagem, o jogador Elias Figueroa, do Internacional, aparecia num vestiário do clube se pesando. Em outra, o zagueiro chileno aparecia passeando pelo recinto só de toalha, nu da cintura para cima. Imagens que reportavem um incidente semelhante, ocorrido com Jaqueline Kennedy, que foi flagrada por paparazzi tomando bano de sol numa ilha grega como veio ao mundo, nuinha, nuinha.

O escândalo ganhou as ruas, numa progressão fulminante. A diretoria colorada decidiu divulgar nota cendenando veementemente a atitude dos editores do jornal em publicar as fotos clandestinas, tiradas (inexplicavelmente) através de alguma basculante da concentração dos Eucaliptos. Pior: o então presidente da Federação Gaúcha de Futebol, (FGF) mandou cancelar todas as rodadas dos campeonatos da entidade no fim de semana seguinte. Ao parar o Gauchão, Hoffmeister conseguiu colocar mais fogo na fogueira. O episódio agora ganhara proporções continentais.

A Loteria Esportiva repudiou o ato da Federação. O jogo Internacional e Aimoré constava na loteca. A entidade também decidiu excluir os clubes gaúchos das próximas apostas. A história agora repercutia nos prtincipais órgãos de imprensa de todo o país. Até a revista Veja pautou entrevista com Marco Aurélio. Em poucos dias, as nádegas de Figueroa se tornaram as mais famosas do Brasil. E a partida foi à sorteio.

O ex-centroavante Claudiomiro, que integrava a equipe do Internacional naquele tempo, se recorda da história. "O cara tava se fardando para o treinamento, e claro que tava todo mundo no vestiário, era muito acanhado, e todo mundo tirava foto, e o cara foi lá e tirou", relembra. "É o tipo de coisa que mudou depois do Beira-Rio, porque aqui não teria esse tipo de coisa". Ele também condena a ousadia do fotógrafo: "eu achei aquela coisa meio ridícula, porque a pessoa tem que ser preservada, hoje tá tudo liberado, mas naquela época não, e até o campeonato parou. O cara tava se vestindo para ir trabalhar, e aí acontece uma coisa dessas...".

Já outro ex-companheiro de Figueroa e hoje treinador Cláudio Duarte, entende que tudo não passou de "armação" e que contaria com a conivência do próprio zagueiro colorado. "Na época que ele chegou, ele era considerado bonito, galã, e todos sabiam que a gente treinava não no Beira-Rio,mas os Eucaliptos. E a janelinha do vestiário tinha vista para tudo¿, diz. Claudião afirma que era tudo "armação do gringo". "O gringo era bom de mídia, declamava Neruda, metido a bonitão, tudo, e na cabeça da gente, ninguém deu bola". Duarte diz que eles conheciam vários fotografos da imprensa de Porto Alegre, e o trânsito livre facilitava esse tipo de "assédio". "Só estava ele, e ele saiu antes. Então, acho que deixaram que deixaram a janela aberta, foi combinado que um ia entrar, e todos nós desconfiávamos disso, não se sabe disso, mas na nossa cabeça, o parecer era esse".

O artífice da brincadeira, Marco Aurélio, explica a história. "A Jacqueline Kennedy Onassis havia sido flagrada nua por paparazzi em uma ilha grega. O escândalo foi total. Eu resolvi tentar o mesmo estardalhaço por aqui", diz. "Combinei com o então fotógrafo de ZH Hipólito Pereira: vamos fazer o mesmo com o Figueroa. Fomos os dois para o Beira-Rio, mas eles estavam nos Eucaliptos. O segurança não nos deixou entrar. Esperamos o final do treino e nos esgueiramos até uma janela basculante do vestiário. Eu dei o pé para o Hipólito subir. E ainda assim ele foi obrigado a erguer a máquina e disparar, nem viu direito o que estava acontecendo no vestiário".

Marco Aurélio revela que Porto Alegre inteira se solidarizou com Figueroa: "Ele ligou para contar que estava recebendo ligações de autoridades, de dirigentes da dupla Gre-Nal, de gente da Igreja, enfim, não houve quem não lhe prestasse apoio naquele momento. Para todos eles, o Figueroa se mostrava indignado com a situação", conta. Porém, o chargista salienta que era amigo do zagueiro chieleno e que ele não o criticou pelas fotos e nunca exigiu os negativos.

- Ele era meu amigo. Nunca se queixou com rancor.

O jornalista explica que a repercussão foi gigantesca: "Concedi dezenas de entrevistas. O Flávio Cavalcanti, a revista Veja e as agências nacionais e internacionais me ligaram, queriam saber como foi possível fazer a foto nua de um dos zagueiros mais famosos do mundo". Contudo, revela que foi ameaçado pelos torcedores do Inter. Ele conta que, em desagravo, o jogador cogitou deixar o clube. "Para eles, eu era o culpado pela decisão do Figueroa de deixar o Inter. Os caras me ameaçaram bater em restaurantes, no trânsito e na rua". Marco também diz que, apesar dos inúmeros pedidos de agências de notícias, o jornal decidiu não ceder o material".

- O Maurício Sirotsky (fundador da RBS) não permitiu a venda. Como prova de que a foto havia sido apenas uma iniciativa jornalística, mandou que entregássemos o filme ao Figueroa.

Se todos condenaram as fotos, houve quem gostasse da interdição do Campeonato Gaúcho. O seu nome era Dino Sani, treinador do Internacional. Disse que a paralisação do certame permitiu que o tempo permitiu que o Departamento Médico recuperasse o exército de jogadores lesionados. O Colorado retomou o Gauchão voando em campo,e conquistou naquele ano o Pentacampeonato. Depois do título, Sani foi procurar Marco Aurélio. Em segredo, lhe confessou:

- Você venceu o campeonato para nós - disse.

E o zagueiro, que quase saiu do clube, começou a gostar da coisa. Para fugir do bulício do episódio do ¿jogador pelado", ele convidou sua esposa, Marcela, para almoçar longe de Porto Alegre, mais precisamente em Novo Hamburgo. Não conseguiu. Todos lhe apontavam o dedo e vinham falar com ele, dizendo: "é o jogador pelado! É o jogador pelado! É o jogador pelado!".

As 100 Músicas gaúchas de todos os tempos


Lupicínio Rodrigues


Nildo Machado, nosso intrépido e valoroso contínuo aqui da redação do Pato Macho e também jornalista nas horas vagas, propôs o seguinte desafio: que listássemos as 100 maiores canções gaúchas de todos os tempos. Aí me mandou a lista dele por correio eletrônico, a fim que nosso linotipista a publicase no jornal.

Só que Carmela é uma ópera, Nildo. Te explica aí cara.

Ainda estou na tarefa de chegar a cem; no entanto, como o nosso contínuo Nildo já nos mandou a lista dele, vejam vacês como ficou.

Quem tiver mais sugestões, que poste nos comentários. Ou não poste nada.

Araújo Viana - Carmela
Bebeto Alves: Notícia Urgente
Lupicinio Rodrigues - Castigo
Felicidade
Nervos de Aço

Esses Moços
Cadeira Vazia
Judiaria
Se Acaso Você Chegasse
Volta
Cevando o Amargo
Teixeirinha - Coração de Luto
Querência Amada
Tordilho Negro
Gaúcho de Passo Fundo
Gildo de Freitas - Eu reconheço que sou um grosso

Antônio e Bagre Fagundes - Canto Alegretense
José Mendes - Não aperta, Aparício
Para, Pedro
Leonardo - Céu, sol, sul, terra e cor
Tertúlia
Mário Barbará - Desgarrados
Barbosa Lessa - Negrinho do Pastoreio
Me dá um mate
Edson Otto - Esquilador
João Batista Machado e Júlio Machado da Silva Filho - Guri
Zé Caradípia - Asa Morena
Engenheiros do Havaí - Infinita Highway
Pra ser sincero
Kleyton e Kledir - Deu pra ti
Maria Fumaça
Vira Virou
Vitor Ramil - Estrela estrela
Joquim
Loucos de Cara
Semeadura
Nenhum de Nós - Camila Camila
Austronauta de Mármore
De Falla - Não me mande flores
It's Fucking Boring to Death


Repelente
TNT - Cachorro Louco
Ana Banana
Entra Nessa
Replicantes - Surfista Calhorda
Boy do subterrâneo
Festa Punk
Hippie-punk-rajneesh
Nicotina
Nei Lisboa - Pra Viajar No Cosmos Não Precisa Gasolina
Berlim, Bonfim
Deixa o bicho
Paisagem Campestre
Verdes Anos
Taranatiriça - Rockinho
Fazê um bolo
Liverpool - Por Favor Sucesso
Os Eles - Silicone
Cinema Mudo
Bandaliera - Campo Minado
Banda de Banda - Xis Galinha
Hermes Aquino - Nuvem Passageira
Bidê ou Balde - Melissa
Garotos da Rua - Tô de saco Cheio
Você é tudo o que eu quero
Sabe o que acontece comigo?
Julio Reny - Amor e morte
Maomé
Não chores, Lola
Graforreia Xilarmônica - Amigo Punk
Jimi Joe - Sandina
Ultramen - Dívida
Peleia
Bico de Luz
Cascaveletes - Banana Split
Sob um céu de blues
Minissaia sem calcinha
Antonio Villeroy - Garganta
Bebeto Aleves - Pegadas
Flávio Bicca Rocha - Horizontes
Armando Amorim Albuquerque e Athos Damasceno Ferreira - Alto da Bronze
Papas da Língua - Blusinha Branca
Garotas do Brasil
Eu sei
Lua Cheia
Luis Vagner - Camisa 10
Guitarreiro
Comunidade Ninjitsu - Detetive
Merda de Bar
Cachorro Grande - Lunático
Sexperienced
Dia Perfeito
Almondegas - Sombra Fresca e Rock no Quintal
Canção da meia-noite

Daisy, My Love
Vento Negro
Haragana
Saracura - Xote da Amizade
Gaúcho da Fronteira - A utilidade do dedo
Nheco Vari Nheco Fum
Gildo Campos e Berenice Azambuja - É Disso Que O Velho Gosta

Saturday, March 12, 2011

O Aragano


Flores da Cunha

Setembro de 1930. A Aliança Liberal, capitaneada pelo intrépido Oswaldo Aranha (e Getúlio Vargas), conspirava subterraneamente contra o Governo Federal que, com a eleição de Júlio Prestes, queria manter a velha política café com leite no Brasil.

Junto com ele, havia também um certo senador Flores da Cunha, seu colega dos tempos de provisórios, em 1923. Pois Flores estava jogando põquer no então afamado Club dos Caçadores (que ficava na Rua Nova, hoje a Andrade Neves). Reza a lenda que, numa daquelas noites de primavera, sentou-se também à mesa de jogo um paulista.

O sujeito, lá de seus trinta anos, no entanto, era matreiro: só entrava nas boas. e vivia reclamando das regras do carteado. Em meia hora, ele já havia granjeado toda a antipatia dos participantes. O mais impaciente de todos era, justamente, o General.

Num ponto do jogo, quem mais apostava às ganhas mesmo eram Flores e o jovem paulista. Foi quando o altaneiro visitante conseguiu uma sequência de cartas. Viu que nenhuma das que o General mostrava combinavam entre si.

Fez menção de pegar as fichas quando Flores o interpelou:

- Quem ganhou fui eu. eu tenho um Aragano.

O paulista fez cara de desentendido. O senador então completou:

- O Aragano acontece justamente quando nenhuma das cartas combina, entendeu? Aqui no Rio Grande do Sul, o aragano mata sequência e perde para full hand.

Mesmo demonstrando contrariedade, o paulista deixou passar - afinal de contas, ele era o forasteiro e ninguém contestou a afirmação do general.

Quatro rodadas depois, eis que ocorre o inverso: o paulista conseguiu um "Aragano", percebeu que o maior jogo dos demais era trinca, e puxou as apostas. Flores novamente o interpelou:

- A trinca venceu.

O forasteiro se exasperou:

- Mas como, se eu tenho um Aragano?

- Fica vacê sabendo - respondeu Flores, de maneira enfática, com o charuto entredentes - acontece que o Aragano vale apenas uma vez por jogo. E ficou olhando nos olhos do paulista, seríssimo.

Silêncio total. Os dois se olhavam fixamente. então Flores explode numa gargalhada. entre baforadas de charuto, larga as cartas na mesa e diz:

- Meu amigo, o Aragano não existe. Esse jogo aqui já foi para o brejo, ninguém perde nem ganha, acabou, melou. Isso aqui é só para lembrar para vocês que, aqui no Brasil, daqui a pouco, quem vai cagar regras nesse país vai ser gaúcho.


E não era chiste. Dia 3 de outubro eclodia a Revolução de 30.

Friday, March 11, 2011

Dois braços

Então caminhávamos juntos; perdidos entre nogueiras e flamboyants no campus da PUC, mas tão próximos dos céus.

Confesso que esperei tanto por aquele dia. Foi um dia qualquer, era apenas o nosso encontro.

Você me arrastou até o Mercado. Tirou fotos de artistas mambembes como uma turista desvairada que via Porto Alegre pela primeira vez e devorava a paisagem com teus olhos de criança.

No ônibus, disse que não imaginava que fosse se apaixonar de novo. Eu dei um suspiro. Eu estava pensando nisso noites a fio. E nos calamos.

De repente, conversávamos como se só existissem duas pessoas: você e eu. Você me perguntou eu estava me atrapalhando com aquela correria toda pela cidade.
Eu encolhi os ombros. Não tinha palavras para descrever o que se desfilava diante dos meus olhos. Você parecia diferente a cada momento. Encantadora como sempre.

Olhamos livros; me lembro de quando você me parou diante de uma vitrine com costumes crianças, e disse que queria ter um filho. E depois me perguntou:"você não gostaria de ter um filho, Marcelo?" Nem me lembro o que eu respondi, fiquei meio perplexo com a pergunta. Mas não era positivamente uma indireta. Não me lembro: disse que sim.

Depois tomamos café no Rodobar antes de você partir. Eu escrevia dedicatórias surrealistas nos livros que você comprou. Tua reação era indescritível. Você lia minhas garatujas, cobria o rosto com o livro aberto e caía na gargalhada. E eu, que estava profundidíssimamente comovido, queria pensar em algo bonito para escrever mas resolvi fazer chiste com a situação, que nem era lá muito formal...

Então você pegou o ônibus e se foi. Peguei um táxi para casa. Cheguei em casa e não sabia o que fazer. supliquei, em tom de brincadeira: "não vá!". Ela disse: "Não posso".

Fiquei uns três dias meio perplexo num quarto escuro procurando o que fazer da vida. queria guardar comigo todas aquelas momentos.

Às vezes, eu acabo tendo de passar por todos aqueles lugares em que estivemos. sinto um misto de alegria e de tristeza; tristeza de tantas saudades. E alegria porque é como eu sentisse a tua presença comigo novamente enquanto o vento passa.

Me lembrei daquele derradeiro abraço de adeus, de dois braços que abraçam como se protegessem. Braços que cruzaram a elevada da rodoviária e a esquina daquela nostálgica quinta-feira, e se foram pela estrada afora, apenas indo para outros braços.

Thursday, March 10, 2011

Cara e Coroa

Cara: Rossini era o maior operista do seu tempo, mas largou o trabalho aos 38 anos porque opera era algo maçante demais..
Coroa: Espiritismo
Cara: Oito minutos de acréscimo, isso é um escândalo!
Coroa: Gauchão Coca-Cola.
Cara: A praia de Capão estava lotada de veranistas hoje, tinha gente até no lustre
Coroa: Milho a cinco reais.
Cara: Vou pendurar o casaco na cadeira no serviço e a gente se encontra no Haiti prá tomar um chope, até lá!
Coroa: Sinecura.
Cara: Meu tio saiu prá veranear e levou tudo: malas, barraca, guarda-sol, isopor,cadeiras, papagaio, mas esqueceu a vovó em casa!
Coroa: Mal de Alzheimer.
Cara: Comprei uma mistura de pinga com limão mas, pelo que eu vi, era apenas uma cachaça ordinária aguada envasada numa garrafa de plástico!
Coroa: Suco prá pedreiro.
Cara: Alô, Ester, sou eu, o Eustáquio. Quero apenas avisar que eu vou chegar um pouco mais tarde porque chegaram uns executivos de fora aqui na empresa e eles vão apresentar um projeto revolucionário para o nosso produto!
Coroa: La Rosa.
Cara: Meu Deus, olha essa coitada dessa Ísis Valverde, que farsesca! Não passa de uma guria comum sem nenhum talento, enfim, totalmente comum.
Coroa: Lambisgóia despeitada.
Cara: Com a derrota napoleônica de 1814, as forças coligadas se reuniram em Viena a fim de reorganizar o mapa político da Europa, alteradoo pelas campanhas francesas.
Coroa: Fisiologismo.
Cara: Minha vida era um palco iluminado, eu vivia vestido de dourado, palhaço das perdidas ilusões...
Coroa: Sílvio Caldas.
Cara: Eu não tenho nenhum vício, mas sou capaz de atravessar sete bairros em plena madrugada para encontrar uma barra de chocolate...
Coroa: Gorda.
Cara: Depois de lançar três discos mais experimentais, nós agora resolvemos voltar às raízes e destilar o puro rock dos velhos tempos.
Coroa: Jabá
Cara: O maluco se impacientou e varreu os ciclistas rua abaixo, como se fossem pinos de boliche...
Coroa: Pateta no trânsito.
Cara: Porto Alegre é uma cidade linda, limpa, hospitaleira e tem o pôr-do-sol mais bonito do mundo.
Coroa: Cidade Viva
Cara: Quero ser casto, mas ainda não
Coroa: Santo Agostinho
Cara: Meu personagem é bem parecido comigo; é forte, impetuosa, sabe o que quer, vai em busca dos seus sonhos e ama muito a vida e a família.
Coroa: Vídeo Show.
Cara: Sábado vamos honrar a camisa colorada e garantir o terceiro lugar nesta importante competição! Todos sabemos qual é o devido lugar do Inter!
Coroa: Celso Roth.

Friday, March 04, 2011

O Homem que Inventou a Marchinha *


Lamartine Babo

Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1931, nove horas da noite. Músicos e cantores tropeçam entre si, todos apertados dentro do estúdio da RCA Victor. O diretor musical havia marcado a gravação de dois discos. Na ordem, gravariam primeiro Carmen Miranda e Murilo Caldas. O acompanhamento seria feito pelo grupo da Guarda Velha, sob a batuta de Pixinguinha. Todos tomam seus lugares diante do microfone. Em dupla, Carmen e Murilo gravam “Isola, Isola” e, sozinho com a Guarda Velha, Murilo Caldas interpreta “Doquinha”, de André Filho.

Após breve pausa, o diretor combina com a Pequena Notável e Caldas a gravação seguinte, que seria interpretada por Castro Barbosa — famoso por ter voz parecida com a de Francisco Alves e por fazer dupla com Jonjoca naquela época. Nesta gravação eles deveriam entrar no coro, juntamente com o compositor, um rapaz magro, feio e engraçado, além de mais três cantores de estúdio, que estavam no local.

Músicos e cantores se posicionam na frente do captador (um cone parecido com o do gramofone, porém maior, para captar todo o som ambiente). Como a gravação era registrada toda ao vivo, sem edição, num acetato em cera, nada poderia sair errado. A função do diretor, por sua vez, era evidenciar as vozes na frente do cone e colocar instrumentos de sopro no fundo do estúdio, para não se sobreporem aos vocais. Cantores na frente, orquestra atrás, o diretor dá o sinal para a técnica, que acena para um atento Pixinginha, que levanta os braços e dá a introdução que o autor havia concebido para “O Teu Cabelo Não Nega”, cuja fanfarra foi criada pelo próprio maestro. Castro Barbosa, com sua voz característica, junto com o coro, entoa, pela primeira vez:

O teu cabelo
Não nega, mulata,
Porque és mulata na cor
Mas como a cor
Não pega, mulata,
Mulata eu quero o teu amor...

Assim nasceu o maior sucesso carnavalesco de todos os tempos, e uma das dez gravações mais importantes de todos os tempos, na história da música popular brasileira. O disco seria lançado no suplemento de janeiro de 1932 da RCA, e se tornaria desde então tema característico das festas de Momo em terras brasileiras. Porém, esta seria apenas uma gota dentro do oceano musical daquele que seria imortalizado pelo inventor da marchinha carnavalesca, o carioca Lamartine Babo (1904-1963).

Contudo, Lamartine levou anos para fazer sucesso da noite para o dia. Nasceu em um ambiente musical, mas teve que sustentar a família na juventude, após a morte do pai, em 1917. Foi office-boy da Light e da Companhia Internacional de Seguros. Sua facilidade em fazer versos e seu desregrado bom-humor lhe abriram as portas da revista Dom Quixote, onde colaborava com poemas e sátiras aos costumes da época. Em 1924, largou o trabalho e descobriu o teatro musicado, que então vivia o seu auge, com paródias e quadros carnavalescos. Em um ano, já era um assíduo colaborador das chamadas revistas musicais.

Mas não seria o teatro de revista o seu caminho. Eduardo Souto, proprietário da Casa Carlos Gomes, financiava batalhas de confetes que antecediam o Carnaval, divulgando assim suas músicas. Entusiasmado, Lamartine quis compor também. A partir de então, criou temas para os ranchos carnavalescos da época, entre eles o Ameno Resedá (exato, aquele mesmo, da música do Ernesto Nazaré). Em 1927, encontramos Lamartine no bloco do Careca, que era tricampeão dos carnavais de 1920, 22 e 24. Ali, ele criou seu primeiro êxito carnavalesco, Os Calças-Largas, que seria a coqueluche do Carnaval de 1928.

As coisas só mudariam na década de 30. Agora o cinema era falado e a música migrou para o espaço das emissoras de rádio, que se expandiam de forma vertiginosa. Não era mais preciso divulgar blocos para lançar música, como os pregoeiros do começo do século, ou vender partitura de porta em porta. A coisa toda nascia com a divulgação de discos. Mais do que isso, havia também a revolução do rádio, que era capaz de criar conceitos e mudar opiniões. O sucesso nascia nos estúdios, e ganhava as ruas numa progressão fulminante. Aqui, cantores e compositores se tornavam notórios da noite para o dia, de uma forma nunca vista até então. A música carnavalesca mantinha um padrão, e compositores que estavam habituados a lançar canções nessa época do ano, desde os tempos do “Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, agora descobriam o imenso filão.

Antes de “O Teu Cabelo Não Nega”, Lamartine Babo já havia ganhado um concurso da revista O Cruzeiro com a marcha “Bota o Feijão No Fogo”. Em 1931, ganhou outro certame, desta vez, promovido pela Casa Edson (a antiga EMI), com “Bonde Errado” e fez sucesso com “Lua Cor-de-Prata”, “Minha Cabrocha” e “O Barbado foi-se”. A partir de 1932, Lamartine orientava o Carnaval com a citada “O Teu Cabelo Não Nega”, “Só Dando Com Uma Pedra Nela” e AEIOU, em parceria com Noel Rosa:

A-E-I-O-U
Dabliú
Dabliú
Na Cartilha da Juju
Juju


Mas a verdade é que o compositor carioca teve que repartir a taça com “O Teu Cabelo Não Nega”. Na verdade, se tratava de uma composição original dos irmãos Valença. Eles eram pernambucanos,e haviam enviado a canção para a Victor, com o nome de “Mulata”. Lamartine apenas adaptou a cantiga regional, deu-lhe a introdução, mudou-lhe o ritmo, e não teve responsabilidade quando o selo dizia “motivo do norte, adaptado por L. Babo”. Os compositores ganharam a questão na Justiça e, desde então, aparecem com seus nomes mencionados ao lado de Lamartine...

Com o tempo, Lamartine Babo se transformava em motivo de expectativa. Quando o Carnaval ia chegar, todos se entreolhavam em bares, cafés, gravadoras e rádios: que será que ele vai apresentar este ano? As respostas eram várias, mudavam no título e no tema, mas eram sempre os mesmos com relação ao acolhimento do público. Por exemplo, em 1933, os foliões cantavam e gritavam:

Linda Morena
Morena
Morena que me faz penar
A lua cheia
Que tanto brilha
Não brilha tanto como o teu olhar


Ou então:

A tua vida
É um segredo
É um romance
E tem enredo!


Lamartine tinha já os seus intérpretes característicos, como a jovem Carmen Miranda, que quanto mais desafinava, mais engraçada deixava a música, e Mário Reis, que ia na contramão dos cantores de dó maior e fazia arrelia com as letras picarescas do compositor. Muitas vezes, dividia o microfone com o próprio Lamartine Babo que, assim como Noel Rosa, tinha um fiapo de voz mas era capaz de compensar com uma interpretação hilária e bastante sua, tanto em gravações próprias ou em companhia de Mário ou Carmen, como em “Moleque Indigesto”:

Esse moleque
É bom rapaz
Tem um defeito
Come demais
Como, come, não deixa resto
Oh, que moleque indigesto!


No mesmo ano, Lamartine aparecia com “Aí, Hein?”

Pensas que eu não sei?
Toma cuidado
Pois um dia
Eu fiz o mesmo
E me estrepei!


Em parceria com Paulo Valença, ele fazia todo mundo rir com “Boa Bola”

Queria bordar teu nome
Na própria gola da camisola
Ao som da Traviata
Numa vitrola
Que boa bola!


Em 1934, fazendo troça com a ópera “Paliacci”, de Leoncavallo, fez a marchinha “Ride Palhaço”, na dupla Mário Reis-Francisco Alves:

Ride, palhaço, lá, lá, lá, lá, lá, lá!
Ah, ah, ah, ah!
Eu sou
O teu pierrô
Colombina
Colombina
Reparte esse amor
Metade pra mim
Metade pro teu arlequim!


Com Ari Barroso, fez “Grau Dez”

A vitória de ser tua, tua, tua
Moreninha prosa
Lá no Céu a própria Lua, Lua, Lua
Não é mais formosa
Rainha da cabeça aos pés
Morena, eu te dou grau dez!


Em contraste, Lamartine quis mostrar o lado melancólico e efêmero do Carnaval, em “Rasguei a Minha Fantasia”, interpretada por Mário Reis:

Rasguei a minha fantasia
O meu palhaço
Cheio de laço e balão
Rasguei a minha fantasia
Guardei os guizos no meu coração


“TUDO CHEIRA A CARNAVAL ” — Em 1935, a coisa não estava muito boa. Sem promoção e sem dinheiro, Lamartine conseguiu um polpudo financiamento de uma fábrica de sabonetes. A forma de fazer propaganda sem ferir as regras da arte foi vender o produto de forma subliminar. Assim nasceu “Senhorita Carnaval”, cuja fanfarra de abertura se tornaria característica nos bailes, a partir de então. O refrão era todo feito em superlativos, e cantada, com todo o acinte, pelo próprio Lamartine, para chorar de rir:

Carioquíssima!
Animadíssima!
Renovadíssima!
Nacionalíssima!
Amabilíssima!
Valiosíssima!
Assanhadíssima!
Luxuosíssima! Há!


Oh, que dama divinal,
Ela se chama senhorita Carnaval!

O sabonete se chamava Carnaval, e cada letra inicial dos superlativos, se somada, uma a uma, dá exatamente “Carnaval”. Talvez tenha sido a primeira propaganda subliminar na história...

Em 1936, Lamartine aparecia com “Marchinha do Grande Galo”

Cocococococoricó
Cocococococoricó
O galo
Tem saudades
Da galinha Carijó


Prolífico, ele fazia paródia com o nonsense e o lúdico da poesia modernista em “AB Surdo”. Na marchinha, completamente sem sentido, o compositor dizia:

Nasci na praia do Zumbi 86
Vai fazer um mês
Vai fazer um mês
Que a minha tia me emprestou Cinco mil Réis
Pra comprar pastéis
Pra comprar pastéis
É futurismo, menina, É futurismo
Isso não é marcha,
Nem aqui, nem lá na China


Noutra feita, Lamartine fez uma versão bem sua para o conhecido tango Yira Yira, de Enrique Discépolo, que passou a se chamar “A Família Orangotango”. O refrão ficou mais ou menos assim:

Um rapagão de traquejo,
Queijo! Queijo!

Lamartine Babo ia além, a cada Carnaval. As marchinhas se acumulavam, muitas delas reapareciam com mais intensidade a cada festa de Momo, outras já nasciam clássicas, e caiam na boca do povo. Muitas restariam na memória, outras, porém, são lembradas por poucos.“Vou cantar a noite inteira/Rancheira/ Vou dançar pela fonética/Estética” (“Babo...seira”); “Só danço valsa nos salões/Tango com bandoneões/Yo me rompo todo assim/ Arlequim, arlequim (De...cadência de pierrô”); “Teus braços/Meu bem/Com tanto sinal/Fazem lembrar a Central/ E lá na Central/Tem teu namorado, menina/ Fugiu com a Leopoldina”.

No Carnaval de 1934, nasceu da impagável pena de Lamartine a sua versão da “História do Brasil” e que, como sempre, era uma janela aberta a prospecções filosóficas sobre o pensamento antropológico do brasileiro sem-culotes que, como dizia aquela epígrafe de um conhecido jornal carioca, questionava que não queria saber quem descobriu o Brasil mas, sim, “quem põe água no leite”. Nesse sentido, e mais tropicalista do que nunca, “Lalá” entendia que Cabral descobriu o Brasil dois meses “depois do Carnaval”. Nada mais sugestivo. De qualquer maneira, tudo começa depois da festa. Inclusive, segundo consta, essa marchinha também fez muito galego sambar lá na terra de Camões:

Quem foi que
inventou o Brasil?
Foi seu Cabral
Foi seu Cabral!
No dia 21 de abril
Dois meses depois
Do Carnaval!

Depois
Ceci amou Peri
Peri beijou Ceci
Ao som
Ao som do Guarani...



Em 1936, a vencedora foi “Mamãe eu Quero”, de Vicente Paiva e Jararaca. No ano seguinte, a ameaça do fascismo e a ditadura do Estado Novo enfraqueceram o espírito carnavalesco, que sempre foi crítico, cáustico e irreverente. Os tempos estavam mudando. Por outro lado, a disputa se tornara desleal, com o advento do “jabá” e a censura do recém-instituído Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). A folia estava perdendo para a censura. O destino de Lamartine foi o rádio, onde trabalhou em programas de humor até 1955, com a morte de seu grande amigo, Héber de Bôscoli.

Claro que, durante todo esse tempo, Lamartine não seria apenas um compositor carnavalesco: fez sucesso com pérolas como a lírica “Serra da Boa Esperança” (que foi grande sucesso cna voz de Francisco Alves), a inesquecível “Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda”, a junina “Chegou a Hora da Fogueira” e a antológica “No Rancho Fundo”, em parceria com Ari Barroso. Mesmo com a qualidade das suas composições de “meio da ano”, Lamartine ficou conhecido pelo seu lado folião. Também se tornou conhecido por ser o autor de quase todos os hinos de times do futebol carioca, entre eles, o do Flamengo, do Fluminense e do seu time do coração, o América.

RESSURREIÇÃO — O seu ostracismo foi inversamente proporcional à profissionalização do Carnaval. Lamartine não podia competir com a crescente indústria da folia, que era capaz de eleger sucessos em detrimento da saudável competição dos tempos da Era do Rádio. Agora, por mais perfeitas que fossem as canções, elas não estavam livres do trabalho de caitituagem, que sempre impediu a divulgação de autores não comprometidos com a indústria carnavalesca ou acostumados com os fins e os meios dos meios de comunicação. Definitivamente afastado das festas de Momo, Lamartine virou membro da União Brasileira dos Compositores (UBC). Voltou em 1959, com uma criação especialmente composta para um rancho carnavalesco. Nostálgico, viria às cargas dois anos depois, com “Ressurreição dos Velhos Carnavais”, que se caracteriza pelo tocante saudosismo de seu poeta: “vem arlequim, que a tua sina/ Era adorar a Colombina/Dos carnavais que não voltam mais”.

Em 1963, o produtor musical Carlos Machado montava um espetáculo no Copacabana Palace com as marchinhas de Lamartine Babo. O compositor chegou a assistir aos ensaios. Estava frustrado porque sua última canção, “Seja lá o que Deus Quiser”, foi abafado pelo jabá das escolas de samba. Agora ele tinha um show completamente seu, em sua homenagem. Ao assistir aos primeiros ensaios, Lamartine se comoveu profundamente. Reviver daquela forma seus velhos sucessos foi demais para ele. Lamartine recém havia se recuperado de um enfarte, em fevereiro daquele ano. Faleceu dia 16 de junho daquele mesmo ano. Um mês depois, as portas do “Copa” exibiam cartazes anunciando o grande show “O Teu Cabelo Não Nega”, que se tornou numa justa homenagem (póstuma) ao homem que inventou a marchinha.

E, neste Carnaval, foliões e orquestras certamente irão relembrar a alegria da música de Lamartine Babo.



* Texto publicado originalmente por este escriba no extinto site Rabisco, em 2004.