Monday, March 14, 2011

O Homerm Nu


Figueroa parou o Gauchão de 73


Abril de 1973. Causa escândalo de proporções consideráveis uma foto publicada na coluna diária do chargista Marco Aurélio, do jornal Zero Hora. Na imagem, o jogador Elias Figueroa, do Internacional, aparecia num vestiário do clube se pesando. Em outra, o zagueiro chileno aparecia passeando pelo recinto só de toalha, nu da cintura para cima. Imagens que reportavem um incidente semelhante, ocorrido com Jaqueline Kennedy, que foi flagrada por paparazzi tomando bano de sol numa ilha grega como veio ao mundo, nuinha, nuinha.

O escândalo ganhou as ruas, numa progressão fulminante. A diretoria colorada decidiu divulgar nota cendenando veementemente a atitude dos editores do jornal em publicar as fotos clandestinas, tiradas (inexplicavelmente) através de alguma basculante da concentração dos Eucaliptos. Pior: o então presidente da Federação Gaúcha de Futebol, (FGF) mandou cancelar todas as rodadas dos campeonatos da entidade no fim de semana seguinte. Ao parar o Gauchão, Hoffmeister conseguiu colocar mais fogo na fogueira. O episódio agora ganhara proporções continentais.

A Loteria Esportiva repudiou o ato da Federação. O jogo Internacional e Aimoré constava na loteca. A entidade também decidiu excluir os clubes gaúchos das próximas apostas. A história agora repercutia nos prtincipais órgãos de imprensa de todo o país. Até a revista Veja pautou entrevista com Marco Aurélio. Em poucos dias, as nádegas de Figueroa se tornaram as mais famosas do Brasil. E a partida foi à sorteio.

O ex-centroavante Claudiomiro, que integrava a equipe do Internacional naquele tempo, se recorda da história. "O cara tava se fardando para o treinamento, e claro que tava todo mundo no vestiário, era muito acanhado, e todo mundo tirava foto, e o cara foi lá e tirou", relembra. "É o tipo de coisa que mudou depois do Beira-Rio, porque aqui não teria esse tipo de coisa". Ele também condena a ousadia do fotógrafo: "eu achei aquela coisa meio ridícula, porque a pessoa tem que ser preservada, hoje tá tudo liberado, mas naquela época não, e até o campeonato parou. O cara tava se vestindo para ir trabalhar, e aí acontece uma coisa dessas...".

Já outro ex-companheiro de Figueroa e hoje treinador Cláudio Duarte, entende que tudo não passou de "armação" e que contaria com a conivência do próprio zagueiro colorado. "Na época que ele chegou, ele era considerado bonito, galã, e todos sabiam que a gente treinava não no Beira-Rio,mas os Eucaliptos. E a janelinha do vestiário tinha vista para tudo¿, diz. Claudião afirma que era tudo "armação do gringo". "O gringo era bom de mídia, declamava Neruda, metido a bonitão, tudo, e na cabeça da gente, ninguém deu bola". Duarte diz que eles conheciam vários fotografos da imprensa de Porto Alegre, e o trânsito livre facilitava esse tipo de "assédio". "Só estava ele, e ele saiu antes. Então, acho que deixaram que deixaram a janela aberta, foi combinado que um ia entrar, e todos nós desconfiávamos disso, não se sabe disso, mas na nossa cabeça, o parecer era esse".

O artífice da brincadeira, Marco Aurélio, explica a história. "A Jacqueline Kennedy Onassis havia sido flagrada nua por paparazzi em uma ilha grega. O escândalo foi total. Eu resolvi tentar o mesmo estardalhaço por aqui", diz. "Combinei com o então fotógrafo de ZH Hipólito Pereira: vamos fazer o mesmo com o Figueroa. Fomos os dois para o Beira-Rio, mas eles estavam nos Eucaliptos. O segurança não nos deixou entrar. Esperamos o final do treino e nos esgueiramos até uma janela basculante do vestiário. Eu dei o pé para o Hipólito subir. E ainda assim ele foi obrigado a erguer a máquina e disparar, nem viu direito o que estava acontecendo no vestiário".

Marco Aurélio revela que Porto Alegre inteira se solidarizou com Figueroa: "Ele ligou para contar que estava recebendo ligações de autoridades, de dirigentes da dupla Gre-Nal, de gente da Igreja, enfim, não houve quem não lhe prestasse apoio naquele momento. Para todos eles, o Figueroa se mostrava indignado com a situação", conta. Porém, o chargista salienta que era amigo do zagueiro chieleno e que ele não o criticou pelas fotos e nunca exigiu os negativos.

- Ele era meu amigo. Nunca se queixou com rancor.

O jornalista explica que a repercussão foi gigantesca: "Concedi dezenas de entrevistas. O Flávio Cavalcanti, a revista Veja e as agências nacionais e internacionais me ligaram, queriam saber como foi possível fazer a foto nua de um dos zagueiros mais famosos do mundo". Contudo, revela que foi ameaçado pelos torcedores do Inter. Ele conta que, em desagravo, o jogador cogitou deixar o clube. "Para eles, eu era o culpado pela decisão do Figueroa de deixar o Inter. Os caras me ameaçaram bater em restaurantes, no trânsito e na rua". Marco também diz que, apesar dos inúmeros pedidos de agências de notícias, o jornal decidiu não ceder o material".

- O Maurício Sirotsky (fundador da RBS) não permitiu a venda. Como prova de que a foto havia sido apenas uma iniciativa jornalística, mandou que entregássemos o filme ao Figueroa.

Se todos condenaram as fotos, houve quem gostasse da interdição do Campeonato Gaúcho. O seu nome era Dino Sani, treinador do Internacional. Disse que a paralisação do certame permitiu que o tempo permitiu que o Departamento Médico recuperasse o exército de jogadores lesionados. O Colorado retomou o Gauchão voando em campo,e conquistou naquele ano o Pentacampeonato. Depois do título, Sani foi procurar Marco Aurélio. Em segredo, lhe confessou:

- Você venceu o campeonato para nós - disse.

E o zagueiro, que quase saiu do clube, começou a gostar da coisa. Para fugir do bulício do episódio do ¿jogador pelado", ele convidou sua esposa, Marcela, para almoçar longe de Porto Alegre, mais precisamente em Novo Hamburgo. Não conseguiu. Todos lhe apontavam o dedo e vinham falar com ele, dizendo: "é o jogador pelado! É o jogador pelado! É o jogador pelado!".

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