Saturday, March 07, 2015

Jornalismo Furão


Pica-pau e seu amigo predador


Foi destaque essa semana (dia 3): A inusitada imagem de um furão agarrado a um pica-pau em pleno voo se tornou "viral" na internet e ganhou inúmeras montagens - chamadas de "meme".

Além dessa, tomou conta da Internet (dia 5) o estado de saúde de Jack Nicholson. De acordo com a notícia, o ator americano, de 77 anos, estaria em “estado avançado” do Mal de Alzheimer e sequer lembrava de seu próprio nome.

Pouco mais de 24 horas depois, soubemos que a notícia sobre Nicholson, cuja fonte era a revista Star, era falsa. Ou melhor, meio verdadeira. A grande repercussão oriunda do episódio foi que, a partir dessa fonte, centenas de portais de informação passaram a endossar a matéria da Star.

Em outras palavas, foi uma enorme e insubmersível "barriga" (jargão jornalistico) pago por inúmeros sites que, por tabela, talvez observando como a (má) notícia (boa notícia é a má notícia, já dizia o meu professor de Introdução do Jornalismo) prometia puxar milhares de cliques de internautas.

Ninguém fez o básico, que seria checar a informação. Em parte talvez porque como se todo mundo estava apregoando isso, pela lógica, só podia ser verdade. Segundo, e talvez justamente por isso, como a tendência hoje é demitir semanalmente jornalistas de carreira em favor de estagiários, que já são a maior parte da mão-de-obra atuante no mercado de trabalho jornalístico, as empresas não tem interesse em ter qualquer tipo de comprometimento com qualidade de informação. A culpa, é lógico, não é dos estagiários.

Ou, pior, no fim, vai ser sempre deles. Hoje é fácil entender por que existem tantos deslizes como a barriga do Jack Nicholson, erros de revisão, digitação e banalização da pauta dos portais na Internet.

Quando algum dono de jornal decidiu que, com o advento da convergência digital, era preciso "reinventar-se", ele optou por demitir profisisonais e terceirizar o gilete-press.

A outra epifania do dono do jornal foi franquear à estudantes a mimetização do jornalismo "Buzzfeed" tão caro à linguagem de redes sociais como o Facebook. Essa "nova cara da notícia tornou-se mais importante do que o conteúdo ou a observação das normas do ofício do redator.

Pior do que um jornal publicar uma barriga é perceber o efeito dominó: o Alzheimer terminal de Jack Nicholson era "bom" demais para não ser verdade. Se não for, azar: qualquer coisa, a culpa foi do Star. A gente só repercutiu.

Mas o affair Jack Nicholson-Star é um episódio.

Se o meu caro leitor jogar no Google "grávida diz site", vai encontrar, na primeira página, uma pá de notícias de portal do tipo: "Mulher de George Clooney pode estar grávida, diz site ...", "Apresentadora Fernanda Gentil está grávida, diz site ...", "Mulher diz estar grávida do Príncipe Harry, diz site ...", "Jessica Biel está grávida do primeiro filho, diz site ...", "Jessica Biel está grávida do primeiro filho, diz site ...", "Jessica Biel está grávida de Justin Timberlake, diz site ...", "Cantora Christina Aguilera está grávida, diz site - Notícias ...", "Zoe Saldana está grávida do primeiro filho, diz site ...", "Miley Cirus está grávida e pode ser internada em clínica de reabilitação, diz site", "Mila Kunis está grávida de Ashton Kutcher, diz site".

Enfim, não vou listar mais. Porém, como se pode ver, a fonte é sempre uma revista, um site ou a imprensa um determinado país. É claro que uma triagem quanto à veracidade de tudo o que é divulgado por agências em geral corre contra o dinamismo da publicação de notícias numa realidade tão dinâmica como a da Internet.

Contudo, o furo cegamente pelo furo, terceirizando a fonte em favor do imediatiismo da informação (e atropelando a checagem da informação) é uma vitória pírrica: uma vitória obtida a um preço muito alto, cujo maior dano é a perda da credibilidade.

O caso do Alzheimer do Jack Nicholson é exemplar. Como no episódio do nosso amigo furão da foto acima, toda a imprensa, não só daqui no Brasil como de quase todo o planeta, resolveu voar de carona com o pica-pau. Como aconteceu com o malfadado predador, o passeio foi breve e não acabou bem. .
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Tuesday, March 03, 2015

Surfista Calhorda



Não sou um grande fã do Cidadão Quem (como deveria), mas confesso que fico sempre tocado quando ouço a música "Pinhal".

Acho que quase todo o verão da minha adolescência foi na praia. Na época, não sei por que, a gente gozava de dois meses inteirinhos de férias. Um deles - dependendo das férias de nossos pais, eu ficava em Pinhal, ou entre Pinhal e Tramandaí.

Na verdade, a pré-adolescência em Pinhal e a pós em Tramandaí. De Pinhal, lembro daquela coqueluche engraçada de roupas características de grife de surf, como a Lightining Bolt e a PCH. Na verdade, lá por 1984, surgiu em Porto Alegre uma moda de camisetas de surf. Todo mundo usava estampas Pychulyn, OP, e por aí vai. Nas festas da SAPP, o que mais dava era camisa de surf e bermudinha de veludo.

Até a música "Surfista Calhorda", que eu abominava na época, era uma gozação em cima do pessoal que usava aquele tipo de indumentária. Na verdade, o calhorda era eu, um antipático bostinha de onze anos que usava OP e sequer tinha uma planonda. Ou, melhor, sempre pegava jacaré com aqueles tocos de planonda - que não serviam prá muita coisa, já que era mais produtivo pegar ondinhas sem elas.

Nosso sonho de pré-adolescente era, com efeito, uma planonda de isopor inteira (e com cordinha), daquelas que vendiam em casas de artesanato. Mas nossos pais nunca tinham dinheiro para isso. Prancha de verdade, então, nem pensar. Havia o expediente do body boarding, mas nós éramos relutantes já que era consenso que tratava-se de "prancha de meninas".

Eu nunca sabia quem era o surfista calhorda. Já era difícil vida de surfista num balneário soturno, perdido (e inóspito naqueles verões) como Pinhal e seu folclórico osso da baleia (já então bastante carcomido. A última vez que o vi nem parecia um osso, parecia mais um enorme galho achatado), tão longe das capitais (ia citar Engenheiros, mas melhor não) do surf. Eu, particularmente, nem era do surf: parecia coisa de gurizada mais velha do que eu naquele tempo.

Mesmo assim, achava que só ter uma prancha prá ficar prá lá e prá cá na areia já era lucro. A música dos Replicantes era para eles. Mas quem embarcou na moda de gaiato fomos nós, os moleques de doze anos. A gente invejava a galera do surf - mesmo os calhordas, os que não entravam na água. Mas a banca de grande surfista era uma canastrice inefável, só para querer sentir-se superior diante dos demais mortais, ainda mais sendo surfista de verdade de Cidreira prá baixo (nós, de Pinhal, tínhamos, por nossa vez, um saudável preconceito com o pessoal de Magistério prá baixo, mas aí é outra história).

Pinhal era muito pequena para minha ambição. Meu sonho era mais para cima. Minha família alugava uma casa por um mês (ou quase isso) e o remédio era radicar-se em Pinhal, com meu walkman e um estoque de Disney Especial e Almanaque Disney (que a gente trocava nas bancas da praia). Hoje é impensável cogitar que uma família ficasse um mês no litoral.

O problema foi o advento do microondas. Depois disso, não havia mamãe que suportasse ficar mais de uma semana longe de um. Enfim, a tecnologia acabou tornando aquela vida selvagem na praia insuportável: sem videocassete (ainda, pessoal tinha medo de levar por causa da maresia, etc), um canal de tevê, livros chatos do Círculo do Livro (que minha avó materna assinava) para ler, semanas inteiras de chuva e sapos e bochechas sujas de rolha queimada de tanto jogar dorminhoco. Mas muita praia. E rádio-escuta amadorística de madrugada.

Hoje, por exemplo, é impensável ficar 30 dias jogando canastra e dorminhoco toda as noites (ou indo em algum bingo de sociedade, já que, naquelas priscas eras, não era uma prática interdita).

Os verões em Tramandaí eram melhores. Nós já eramos maiores. Dava para descolar um carro e se mandar para o centro, paquerar meninas e comer sorvete (naquela época, a gente só comia sorvete, mesmo). Além do mais, praia com cinema e centro comercial já era alguma coisa. Em Pinhal, o auge da nossa vida social era a SAPP e, mesmo assim, só mesmo no Carnaval.

Tramandaí naqueles anos 80 era divertidíssima. Capital do mundo, vibrava em seu cosmopolitismo pré-Mercosul. Só dava argentino. Em geral, tudo classe média baixa, com seus Ford Falcon sedan (em geral modelos antiquíssimos, e caindo aos pedaços) por toda a parte. Argentinos e uruguaios.
E já tinha boates (Pinhal só tinha o bingo).

A noite era melhor. Imbé estava começando: acho que só deslanchou quando apareceu o Sherwood, lá por 93. Antes, porém, o agito no Litoral Norte era uma casa em Atlântida, chamada Stereo Moto (que era do Magro Miguel). Ela existia desde o final dos 70, atingiu o auge no final dos anos 80. Naquele tempo, a gente já tinha autonomia para apreciar a vida noturna em Tramandaí mas, Atlântida, não. Era o nosso limite intransponível. Aquela era a boemia bem vestida do verão.

Naquele final dos anos 80, quem comandava o Stereo era o próprio Mago Miguel. Ele tinha arrendado um programa na Litoral FM (hoje a Jovem Pan). A Litoral era da minha fase Tramandaí. A gente era refém da emissora. Naquele tempo, havia apenas uma FM na praia, e ela só tocava Eurodance. Parece incrível, me lembro quando a gente ia prá Tramandaí e só pegava essa rádio. E era 24 horas de Eurodance. Remix musiquinha do Top Gear...
contudo
A gente passeava de carro, ia na sorveteria, em toda a parte era isso no Verão, rádio na Litoral FM, uma rádio só tocando isso. Lembro que um dia, desenterraram surf music oitocentista (que passou batido por aqui na época), anos depois. Hoje finalmente enterraram esse europop groselha e só toca reggae e arredores.

É impossível, não dá prá imaginar ou pensar (ou aceitar) que pista de dança, música de quiosque e toda e qualquer trilha no litoral gaúcho fosse a grande baba radiofônica eram os discos da PWE, Eurobeat. Parecia jabá. Não dava prá acreditar (hoje dá uma saudadezinha gulity pleasure). Era só o que tocava aqui, Sandra Cretu, Kylie Minogue, Jason Donovan, Bananarama e o Rick Astley, essa era a trilha daquele final dos 80, tudo franqueado pela Litoral FM e a gloriosa Stereo Moto.

A nossa saída era trazer de Porto Alegre fitinhas cassete com rock, qualquer coisa, de Dire Straits a Paralamas. Até que alguém apareceu com fitas dos Waillers. Foi bem na época que o PWE sumiu, ao mesmo tempo, relançaram o evangélico Legend em CD - o reggae passou a ser a música do verão (para sempre) e rádios alternativas da grande Porto Alegre, como a saudosa Felusp, passaram a tocar, do nada, rock australiano como Hoodoo Gurus e coisas do tipo.

De repente, bandas que tinham acabado há anos, como o Men at Work e Australian eram a nova onda: tudo a ver. Eu demorei a aderir, mas entrei de cabeça. Não consigo dissociar aqueles CDs (daí apareceram os portáteis digitais para a nossa alegria) de surf music daqueles verões dos anos 90.

Imagine aquele pessoal da Austrália, como o James Reyne, tentando entender como e por que vinham aqueles cheques de direitos autorais do Brasil anos depois que eles haviam se aposentado da carreira artística, e descobrindo um novo filão, uns bichos grilos do Rio, Floripa ou Porto Alegre querendo ouvir "It's a Mistake".

Foi um renascimento o Ano Bom de 1994. De repente, a Litoral FM foi arrendada pela Pan e, na virada, puseram um caminhão de som tocando "is This Love". Nessa época, a gente já passara dos vinte, saíamos de carro. Foi quando finalmente descobrimos Atlântida (mas ali o Stereo já havia fechado). Ali já iria aparecer o Ibiza e o Planeta. Os 90 já eram outra história.


Nossa base em Imbé era na Morada do Sol, longe de Tramandaí à pé (de Dindinho mais longe ainda, naqueles ônibus pré-históricos), longe do mar, mas estrategicamente perto de tudo. O começo era difícil. Houve uma época em que não havia bolichos pelo litoral. O jeito era buscar refrigerante e cerveja por atacado nas distribuidoras. A gurizada, que não bebia, ia prá carregar casco para os adultos. Era injusto: prá cada dez garrafas de cerveja, uma de refri.

O meu auge deve ter sido quando apareceu o Circo Beach (e o centrinho do Imbé, verão de 96 (lembram?)com o Sherwood, depois o Nukanua, o Capitan (sic) Post (de um colega nosso de faculdade que desbundou e resolveu vender cerveja na praia (ótima ideia) e o Crepe da Barra), Imbé passou a competir com Capão em matéria de público jovem e Tramanda virou uma espécie de reduto do pagode - que estava na primeira para a segunda onda do gênero. Virou uma espécie de praia de gente mais adulta. A gurizada atravessava o rio e ia para a barra do Imbé. No verão de 96, por causa de um frila na praia, fiquei entre Pinhal e Imbé.

Um dia tudo mudou. Família vendeu casa da praia. A gente cresceu, arrumou estágio, emprego, ou ficou pobre. E ficou impossível veranear. No máximo no Revellion. Depois, nunca mais.

Nunca mais voltei à Pinhal. Sei que a casa de palhas não existe mais. O Osso da Baleia também. Meus tios morreram. Mas lembro que na rua deles, que dava esquina com a antiga Prefeitura (com a João Guimarães, até a Interpraias), passando a casa de praia deles, à esquerda de quem vai para a faixa, quase no fim da quadra, havia uma casa branca, e uma garagem. Ali seguido havia uma banda que tocava.

Anos depois, falando daquele tempo, e daquela casa, e de "Pinhal" - a música que provocou esse meu dilúvio proustiano, meu primo me disse que aquela banda era o protótipo da Cidadão Quem. Não poderia assegurar (confio na palavra dele) mas, ouvindo e lendo a letra, com uma saudade inacreditável e insuportável, eu lembro daqueles verões em Pinhal.

Lembro da planonda quebrada na areia, futebol de areia com goleira de chinelo, da foto com o retratista da charrete com o pônei, da fila gigantesca para ligar para casa na agência da CRT na rua da Igreja, da Coca batizada com cachaça nas reuniões-dançantes da SAPP ao som de OMD, New Order, e a groselha sonora da Litoral FM, do galo de brinquedo que indicava o tempo, das solas dos pés torradas pelo asfalto e as pedras quando esquecíamos as havaianas na hora de ir para o mar, da perna e da barriga queimada de mãe d'água, das madrugadas insones esperando ver o sol nascer, da ruazinha alagada e cheia de sapos coaxando de noite depois de uma inesperada semana de mau tempo, do vendedor de puxa-puxa (que sempre pegava no nosso pé no prego e a gente sempre acabava estragando os dentes de leite com aquilo), da casa dos meus tios e daquela garagem. Lembro de uma época não por pura e simples nostalgia, mas com saudade de um tempo em que, diferente de hoje, vivíamos em família e vivíamos em segurança.

Prá quem não conhece a música:




Mesmo que não seja verdade, que a banda da casa branca não seja a garagem do Cidadão Quem, tudo o que diz ali na letra de "Pinhal" nos resume, e faz todo o sentido. Às vezes, eu também volto prá lembrar que a gente cresceu na beira do mar.

Thursday, February 12, 2015

Contra o Próprio Catecismo


Capa do novo disco de Bob Dylan


Dia desses (segunda passada), li uma resenha sobre esse último disco de Bob Dylan, Shadows in the Night. O autor disse que, em seu novo álbum, o cantor e compositor reassassinava Sergei Rachmaninoff, em "Full Moon and Empty Arms", uma das canções do seu recente trabalho. A música em questão é uma paráfrase de um tema do Concerto para Piano No. 2 em Dó Menor, do compositor russo.

Esse artigo (ou post, como os meus seis leitores preferirem) que escrevo aqui não é uma resenha do Shadows in the Night. Ou melhor, é. Mas, de uma forma diferente.

O texto a que me refiro diz que era hábito da música americana dedicar-se à esse tipo de necrofilia de temas clássicos em canções populares à la Tim Pan Alley. E era. Isso fazia parte da indústria do entretenimento da época. Na verdade, isso é uma questão recorrente: quantas músicas que tornaram-se grandes sucessos não são paráfrases de temas clássicos?

A questão de Dylan em Shadows in the Night é crucial. Aqui não o vemos como o bardo, coisa que ele é, e com folga (não sou eu quem digo isso) mas como cantor (coisa que ele não é, e não sou eu quem digo isso). Mas ele, Bob Dylan, mostrou duas coisas ao pessoal do Tim Pan Alley: que um cantor pode fazer as suas próprias canções, assim como um cantor não precisa ser um rouxinol de esporas e penacho, como um Perry Como ou um Johnny Mathis (ambos colegas de Dylan na CBS).

Dylan passou daquela fase em que ele tinha que provar a que veio. Além de não precisar, tem um contrato favorável com sua gravadora onde seu prestígio perante critica e público (e quem o paga) é considerável. Por conta disso ele, hoje, passando os umbrais dos setenta, tem carte blanche gravar o que quiser.

Todo mundo tem a sua vez. Qual não foi o músico que, chegando nos píncaros azulados da carreira, não desejou transcender o seu metiér e fazer algo diferente? Depois de um Rod Stewart, de repente, do alto de sua confissão roqueira, descer do pódio e interpretar "The Way You Look Tonight", tudo é permitido. Na verdade, os críticos e os fãs é que não passam de chatos.

Não existe nada mais terrível do que ser refém do seu próprio catecismo. Carmen Miranda morreu disso. Morreu com um chapéu de bananas na cabeça. Nunca conseguiu sair do seu estereótipo. Dylan, por exemplo, é um sujeito que, como vocês sabem, não tem paciência para ser chamado de menestrel das esquerdas. Nunca se considerou um cantor de protesto. Como a nossa Pequena Notável, ele vai morrer com esse chapéu na cabeça.

Mas vai morrer sendo do contra. Dessa maneira, não é gratuito achar que o compositor de "Blowin' In The Wind" fez algo tão banal e fútil como um disco de Natal (Christmas in The Heart) se não fosse algum tipo de blague. Pegando esse mote, não é gratuito cogitar que Shadows in the Night tenha um fundo falso.

Lógico que não quero insinuar que, nesse fundo falso, Bob Dylan queira trepudiar das músicas que interpreta, muito menos da cara homenagem ao centenário Frank Sinatra - o crooner que transformou o Great American Songbook na trilha sonora do grande sonho ianque.

Uma coisa deve ser levada em consideração é que Dylan leva seu trabalho muito a sério - mesmo quando não parece. Na verdade, seu novo álbum é uma bela homenagem - e o fato dele reassassinar o Concerto para Piano No. 2 é o de menos. Afinal, o Air Supply também fez isso. A questão é que Shadows in the Night é uma singela e pessoalíssima homenagem ao maior cantor de todos os tempos que pisou na Terra. E criticar um trabalho desses, por mais banal e mal interpretado que possa parecer a alguns (ou muitos), não faz sentido criticar isso. É quase um atestado de burrice.

Mas então voltamos ao começo. Dylan não é cantor, vai contra o seu próprio catecismo (como não-cantor e, principalmente, como compositor contra a música pré-fabricada do Tim Pan Alley) as interpretações estão aquém do bel-canto. Mais divertido é pensar que Shadows in the Night é um disco para desagradar tanto os fãs do bardo Dylan quanto aos apreciadores do inefável bel-canto de Sinatra. Muito menos àqueles críticos de música clássica que detestam os pastiches do Tim Pan Alley (com ou sem razão nenhuma).

Na verdade, o disco não tem o objetivo de agradar a ninguém, muito menos a mim. Mas mais divertido que isso, a questão recai sobre os fãs. Dylan é eclético o suficiente para gostar de coisas que seus fãs odeiam. Ponto para o "menestrel". Afinal de contas, é notório que ele nunca foi discotecário, mas conhece todas as músicas do planeta. Quando o fã quer que Dylan seja o menestrel; Dylan canta "Where Are You". Não, canta "Autumn Leaves".

A grande blague de Bob Dylan é provocar esse crossover: unir dois universos diversos. Nunca, jamais, os meus sete leitores imaginariam Dylan interpretando "Autumn Leaves" (e com a steel fazendo o mesmo arranjo do Nelson Riddle). Diferente do que você pensa, Dylan conhece muito bem os discos de Sinatra. Conhece o profundo Sinatra. Não o Sinatra de "New York, New York": mas o Sinatra profundo, o Sinatra que gravou todas as canções possíveis. Isso está em sua memória afetiva.

Mais do que isso - Dylan, à sua maneira, quis compensar suas limitações. É aí que reside seu valor como intérprete: Shadows in the Night pode ser dispensável se comparado às originais de Sinatra.

Quem conhece Frank sabe que ele tinha o lado big band, mas também possuía (como todos nós) o seu lado sombrio. Dylan pegou esse lado sombrio como seu, em versões sintomáticas de torch songs como "I'm a Fool to Want You" e "The Night We Called It a Day", de discos conceituais (para quem não sabe, muito antes do Sgt. Peppers, Frank Sinatra fazia discos conceituais) como "Where Are You" e "Only the Lonely".

Isso mostra que, assim como grande ouvinte que é, Dylan sabe exatamente qual é o melhor de Frank Sinatra. Não o Sinatra farofa de "My Way", mas o Sinatra da fossa, o Sinatra sublime do "In Wee Small Hours", "Mood Indigo", "One For My Baby". "Angel Eyes", "What's New", o Sinatra sombrio, quase gótico, da melhor extração - o Sinatra que a maioria desconhece.

O Dylan crooner já havia posto à prova no seu curioso álbum de 73, aquele que ele é quem mais o detesta. Em Shadows in the Night, ele não está preocupado com isso (dizem que sua vez melhorou nesse disco, eu não concordo, mas ele também não deve estar preocupado com isso).

No conjunto de canções, "Full Moon and Empty Arms" parece estar deslocada. Na verdade, ela é do tempo do Sinatra na Columbia e, ao contrário de outras tantas, nunca fez parte de seu repertório regular (Dylan não iria cantar as que você conhece, por exemplo). A paráfrase de Rachmaninoff, de fato, é lamentável. Mas acreditamos que Dylan tenha esse buquê de canções (como diziam os locutores de outrora) como lembranças felizes de sua paquidérmica memória afetiva. Mesmo que você não as conheça, elas estão inscritas na história da música popular americana do Século XX, música cujo maior intérprete é o centenário Sinatra.

Existem tantos outros casos (o Tim Pan Alley é pródigo nisso) de música popular inspirada em clássicos, como "I'm Always Chasing Rainbows", que é a Fantasia-Improviso do Chopin (em Dó Sustenido Menor, Op. 66), ou "Take My Love", essa gravada pelo Sinatra (nos anos 40, na fase da Capitol ele não regravou nenhuma das duas), que é o Poco Alegreto da Sinfonia nº 3 (Fá Maior, Op 90) do Brahms.




Wednesday, February 11, 2015

A Guerra Fria do Mp3



Meme rindo do Macartismo virual


Deu no Globo: O RapidShare será fechado em 31 de março. De acordo com o site, o conteúdo armazenado na plataforma será "apagado automaticamente".

A empresa não especifica qual é o motivo da decisão, mas é óbvio que vai acabar certamente por conta de processos judiciais e, principalmente, por causa da concorrência de outras páginas especializadas em upload de arquivos de forma virtual.

Um exemplo é o WeTransfer. Sediado em Amasterdã, um serviço online que possibilita aos usuários compartilharem arquivos de até 2 Gb, gratuitamente ou 10 Gb, isso na versão Plus. Num único link com o arquivo zipado, por exemplo, você pode passar todo o BWV do Bach para um amigo.

Processos judiciais à mão cheia também devem ter matado o Rapidshare aos poucos. Não era o único site, mas era o mais visado pelos tubarões da indústria fonográfica em geral.

De certa forma, ele indiretamente matou o Orkut. Lembro-me que, no começo, quando entrei na comunidade Acervo Brega da extinta rede social do Google, a única forma de trocar música por lá era através de comunidade de e-mail, graças ao advento do Gmail. Agora, ao invés de inscrever uma lista interminável de membros para mandar um Mp3, bastava fazer o upload e passar o link num tópico da comunidade.

O Rapidshare mudou o Orkut. A possibilidade de troca de arquivos de música remoldou as comunidades, possibilitando o surgimento da maior delas, a Discografias, que foi a corrida do ouro do download ilegal na Internet.

A Discografias foi o ápice do Rapidshare. A maior parte dos links usados para transferência na comunidade era deles. Depois viria o Megaupload que, além de gratuito, foi um dos primeiros a possibilitar ao usuário o armazenamento virtual gratuito.

Os blogs também mudaram com o Rapidshare e o compartilhamento de música. Até 2003, a ferramente era desacreditada, tida como um diário sentimental e as pessoas logo iriam enjoar da novidade. Com o Rapidshare, proliferaram os blogs musicais.

Curioso é que, em 2010, a indústria fonográfica caiu em cima do Megaupload, e não do Rapidshare. Foi uma espécie de macartismo da Internet. De repente, como no tempo da Guerra Fria, havia os bons e os maus e, bem, os maus a gente sabe quem eram (ou não?).

A Caça às Bruxas virtual cortou cabeças, fechou blogs, acabou com o Megaupload. Mas houve o refluxo. Nesse meio tempo, apareceram os genéricos do Rapidshare. E, junto com a guerra fria do Mp3, o Orkut, que catalizava aquela corrida do ouro do download, também passou a ser visado.

Da mesma forma que o Orkut, o Rapidshare morreu. Foi morrendo aos poucos. Mostraram um caminho, e perderam-se nesse mesmo caminho. Abriram a caixa de pandora. Criaram uma solução que criou um problema. Pagaram o preço por serem precursores de algo que, se formos pensar em matéria de produção e difusão musical, não sabemos como vai acabar.

Tudo o que é sólido... O Rapidshare vai acabar dia 31 de março. Podiam ter deixado para o dia seguinte, o dia dos bobos. Seria uma forma de cair de pé, rindo da cara da turma do macartismo.



Sunday, February 08, 2015

A Graça do Vinil


Bom mesmo é disco velho

Há quem diga que o retorno ao vinil deixou de ser moda e veio para ficar. Os defensoras dessa tese pegam dados, como os da Digital Music News. De acordo com eles, mais de 6 milhões de discos nesse formato foram vendidos nos Estados Unidos em 2014 - uma tendência crescente com relação ao ano anterior em, pelo menos 50%.

Já segundo a Teamrock, artistas e donos de gravadoras em geral acreditam que, a despeito dos números expressivos, tudo não passa de moda. Para isso, alegam que a marca de 1 milhão de vinis vendidos ano passado na Inglaterra se deve, sobretudo, a lançamentos específicos, como o Endless River (2014), último disco do Pink Floyd, por exemplo.

A Nielsen SoundScan, sistema de informação que realiza levantamentos de vendas de música e vídeo na América do Norte, contudo, estima que as vendas de bolachões correspondem a apenas 6% do total da comercialização de música. Esses dados indicam que, para as grandes gravadoras em geral, o propalado sucesso da velha nova mídia não é grande o suficiente para que haja qualquer efeito positivo sobre seus negócios.

Por 6%, muitos executivos sequer levantam da cadeira para dedicar-se ao formato. Tom Corson, responsável pela RCA, revelou que as vendas de vinil são bem vindas, mas o selo sequer possui um departamento específico sobre. "É uma pequena porcentagem dos nossos negócios", diz. "não vai fazer ou salvar o nosso ano".

A matéria da Teamrock cita o empresário da Fall Out Boy, Jonathan Daneil, que compartilha da mesma opinião de Corson. Ele admite que grupos gostam do formato (a própria banda lança bolachões de seus CDs).

"Do nosso ponto-de-vista mercadológico, não significa nada", conclui. Claro que toda esse discussão do vinil - se ele voltou ou não, deveria ser apresentada de forma contextualizada. Prá mim, a graça do vinil passa pelo viés arqueológico.

Quem não tem um gosto muito ortodoxo pode descobrir maravilhas em sebos. Discos que hoje, pelo menos, na minha opinião, são interessantes justamente pela sua irrelevância total.

Lançamentos que foram jogados na lata do lixo da história mas que ainda existem e estão esperando por nós. Discos de coletâneas, de novelas, de artistas esquecidos e suas capas mirabolantes, discos de jazz, clássico, sambão.

Existe pelo menos meio século de história em vinil para que o ser humano possa redescobrir. Á guisa de conclusão, cita a mesma Teamrock, referindo-se à uma curiosa declaração do Neil Young. Ali, ele detona os novos lançamentos de bolachões. O cantor diz que todo lançamento de vinil, hoje, não passa de uma versão masterizada em formato digital.

Claro que note-se aqui a crítica de alguém que sabe a diferença entre um disco original e algo que tenha saído de fábrica hoje. "É CD gravado em vinil", diz. E finaliza: "Nossa sociedade é muito prática e convencional e vinil não é uma coisa convencional".

Quando o CD surgiu por aqui, lá por 1988, aos poucos, o vinil passou a ser uma mídia desinteressante. Mesmo assim, os sebos inflacionavam álbuns mais procurados (não existia Mp3 nem Mercado Livre, então pela raridade em quastão, eles podiam pôr o preço que quisessem, porque havia quem comprasse), rock em geral.

Nessa época, lojas ganharam muito dinheiro com isso. O CD tinha o componente libertador para aqueles que não encontravam certos títulos em vinil, justamente porque ou o disco estava fora de catálogo ou sequer fora lançado no Brasil. Assim, era possível achar algo do Hendrix em formato digital, já que o vinil brasileiro era raridade total.

Mesmo assim, os CDs eram, na sua maioria, importados e solenemente inflacionados pela lei da oferta e da procura. E, com o formato digital, houve a moda de se desfazer dos vinis em favor dos disquinhos.

O problema é que hoje, por incrível que pareça, depois do advento do que seria o paraíso na terra em matéria de mídia de áudio, o compact-disc entrou em decadência e o vinil, naqueles mesmos moldes do cedê no começo, passou a ganhar a mesma aura de excelência.

Ora, para quem, como eu, viu gente jogar discotecas fora para comprar um aparelho de CD, é incrível observar essa atração pelos velhos bolachões.
Pelo que eu vejo, o atrativo são lançamentos de rock de álbuns que sequer saíram no Brasil, como a discografia do Leonard Cohen.Velvet, Mobi Grape, Neil Young, coisas assim.

Porém, é óbvio que ninguém vai relançar o catálogo farofa da CID, por exemplo, com aqueles covers sinistros de Elvis e Glenn Miller, e o Peru da Festa do Costinha, por exemplo.

Enfim, essa volta do vinil é relativa, não é a volta da tecnologia. A despeito da relativa qualidade do seu característico som, a intenção primordial não deveria residir na mimetização da qualidade do som do vinil, mas uma fidelidade do que seria aquilo que foi captado pelos microfones, como se nossa audição fosse "ao vivo".

Condicionar a experiência da audição ao som do vinil é fetiche. O objetivo do formato digital era suplantar qualquer 'entropia' na audição, de forma a que pudéssemos ter uma experiência completa ao ouvir os discos. A verdade é que, trinta anos depois, vemos que muitos daqueles lançamentos em AAD eram extremamente (uso o advérbio porque se faz preciso) falhos. Ruins.

A verdade é que o vinil nunca voltou. A venda expressiva do formato segundo a Digital Music News se refere à ela mesmo, na forma em que isso tem sido proposto como moda. Muito da produção hoje é baseada em lançamentos específicos e em relançamentos de discos clássicos.

É preciso salientar que, ao contrário do que era a realidade da tecnologia e do mercado nos anos 70, por exemplo, a difusão de arquivos de áudio (vamos chamar assim, seja qual for), na época do Mp3, passa à revelia do vinil. Há quarenta anos atrás, tudo passava pelo vinil. Até mesmo gravadoras não especializadas em rock faziam caixa com um catálogo nada ortodoxo: sambão, coletâneas, disco infantil, é por aí vai.

Guardadas as devidas proporções, o catálogo que havia à disposição do público, toda a produção de décadas de música em seus respectivos e variados gêneros, ele não passa pelo vinil, nem vai passar. Isso ficará relevado à colecionadores e pela restrita comercialização de discos usados - esse sim um mercado interessante mas que, naturalmente, não passa por estatísticas de sistemas de medição e de informação de venda de música.

Mais do que isso, a discussão descrita acima refere-se à viabilidade de o formato ser economicamente rentável. Como os números mostram, é, mas não é. O que se pode afirmar, de certa forma, é que eles estão aprendendo a lidar com isso que ainda se discute - se é uma moda passageira ou não, mas que, como pode se notar, é um nicho de mercado.

Se é ou não um modismo, pelo menos podemos afirmar que é um fetiche. E fetiche é um negócio que, com efeito, não sai de moda e nem depende de estatística para provar nada. Poderia-se, no entanto, até acusar a própria indústria fonográfica de mistificação ao tentar vender essa "moda" do vinil mas, ao que parece, nem ela sabe muito bem lidar com isso.

Bandas como o supracitado Fall Out Boy comprazem-se em ver seus álbuns no formato antigo, mas isso pode se explicar, do ponto-de-vista do público consumidor, como viver uma época que eles não conheceram, e desfrutar dos pretensos benefícios do som riscante de uma agulha num bolachão. Muitos fazem isso, inclusive aqui, no Brasil. No entanto, são poucos no sentido de uma reabilitação da mídia vinil.

Eu já fui/sou colecionador e, como testemunha ocular de história, sempre apreciei disco usado. Vi o ocaso de uma época desaparecer com o advento do malfadado compact-disc (no futuro, lembrado como um inefável pesadelo humorístico do final do século XX) e acompanho, não sem um divertido sadismo, a volta do vinil sobre os destroços dos CDs - esses cada vez mais desvalorizados nas lojas de música.

Hoje é possível tirar dos rolos dos tapes analógicos algo próximo do apreciável. Porém, como disse o Neil Young, a gravação constante nesses discos é um AAD passado para o vinil. Porém, não há nada de novo nisso: os discos da Deutsche Grammofon dos anos 80 já eram elepês com áudio digital.

O mesmo aconteceria com o catálogo dos Beatles a partir de 1988, vinil digital. Na verdade, a vanguarda era a digitalização do analógico.

O fim do CD foi um acidente de percurso, o ressurgimento do vinil, outro. Enfim, se parece pejorativo chamar isso de fetiche, vamos usar a expressão do Chris Anderson, sobre o a "Cauda longa"; mercado de nicho.

Thursday, January 22, 2015

No Tempo da Mundial



Propaganda da emissora em 1970


Quando era estudante, fui fazer pesquisa sobre a rádio Guaíba de Porto Alegre. Para ilustrar meu trabalho, fui até aos estúdios a fim de conseguir algum áudio preservado de programas antigos. Qual não foi o balde d'água que eu levei quando soube que não só a Guaíba mas, em geral, nenhuma rádio, pelo menos aqui, no Brasil, tem qualquer preocupação em guardar isso.

Na ocasião, um funcionário (isso foi em 1999) me disse que o pouco que eles tinham (e era disponibilizado no site) havia sido preservado pelo Flávio Alcaraz Gomes, como o áudio da inauguração da Guaíba, em 1957. Tempos depois, achei alguma coisa não muito longe dali, no setor de Imagem e do Som do Museu Hipólito da Costa.

Muitas das fitas do acervo do Museu eram provenientes de doações de ouvintes que, por algum motivo útil, preservaram trechos de programas de rádio, como o Discorama, do Osmar Meletti. Eu mesmo sempre tive o hábito de gravar o broadcasting de emissoras de rádio. Porém, como não tinha interesse em guardar e catalogar, por falta de espaço, acabava apagando e regravando coisas em cima dos cassetes.

O estudo da memória do rádio, ainda mais do rádio brasileiro, que é um rádio de (vá lá) mentalidade terceiro mundista, é algo que se ressente da falta de preservação desse tipo de registro. Como saber como era o tipo de transmissão, o modelo de rádio de tempos passados, se não tivermos pelo menos uma amostragem? Como diria alguém, tudo o que propaga no éter, morre no ar; não fica registrado, como no caso da mídia impressa, por exemplo (o mesmo acontece com a nossa TV).

Naquele tempo eu imaginava que era possível que algum ouvinte de rádio, mesmo que sem interesse "acadêmico", teria guardado material em áudio - justamente a partir da popularização de gravadores portáteis, a partir de meados dos anos 70. Mesmo assim, seria algo improvável, empírico, sem método algum.

Fiquei surpreso quando, há pouco tempo, com o surgimento do Youtube e o consequente desenvolvimento do site com vista a disponibilizar um espaço cada vez menos limitado de streaming, muitos usuários (rádio-escutas amadores ou quase isso) passaram a postar áudio convertido de cassetes gravados e guardados por décadas a fio - na Internet.

Pego como exemplo duas gravações da rádio Mundial do Rio de Janeiro. Adquirida pelo Sistema Globo de Rádio em 1966, teve o seu auge durante os anos 70, sob o comando de Newton Duarte, o disc-jockey Big Boy. Há cerca de dois ou três anos, é possível acessar áudio de trechos de programas da emissora, registrados há mais de trinta anos, e disponíveis em streaming.

No Youtube, entre outros registros, pude encontrar dois arquivos interessantes: amos são trechos do programa Show dos Bairros (que era apresentado por Oduvaldo Silva, de segunda a sexta, das 9 da manhã até o meio-dia) respectivamente gravados em agosto de 1972 e em fevereiro de 1981.



O que é possível depreender desse áudio: a Mundial ainda tinha um o atavismo do rádio do speaker; locução empostada. A despeito de ser um programa popularesco - locução com notícias breves e bloco musical feito por votos de ouvintes, cujo pedido era associado ao seu respectivo bairro ("a música do Arpoador"), o que naturalmente explica o nome do programa.

Outra: a gravação é de agosto de 1972. Era o auge da Mundial. Líder de audiência entre o público jovem, no ano anterior a 860 foi eleita a emissora do ano pela Revista Propaganda. Também era o auge do Regime Militar, é possível, logo de largada, ouvir o spot governamental do Centenário da Independência.

Nos reclames, nota-se que a Mundial fazia parte do esquema da Globo na divulgação do (malfadado e polêmico, como se sabe hoje) VII Festival Internacional da Canção. Não seria à toa que várias músicas na programação são do certame ("22 Andar", Edison e Aloísio e "Diálogo", Cláudia Regina e Tobias), e propaganda massiva do Festival (de citação de participantes até o jabá do disco com as canções, à venda, em elepê).

Quem lembra do Oduvaldo dos anos 80 certamente vai estranhar algo que era notável: apesar da sisudez da locução, provavelmente por conta da direção artística do Big Boy, ele faça uso, como pedras-de-toque, de gíria ("é isso aí, amizade", "uma jóia"), com objetivo nítido de imprimir mais coloquialidade - era a mudança do modelo de rádio popular, cujo paroxismo eram, com efeito, os programas do Big Boy. Ao mesmo tempo, é possível notar como o AM daquele tempo lembra um pouco o que viria a ser o FM nos anos 80.

A programação é basicamente de MPB e pop internacional (Oduvaldo chega a anunciar Eddie Kendricks!), e os blocos de notícias são quase inexistentes. Uma, por exemplo (aos 17:00), refere-se à Chico Buarque, sobre "pregar a MPB à universidades do interior". Na verdade, tratava-se de uma caravana patrocinada pela sua gravadora, a Phonogram.

Não entendo por que a informação saiu pela metade. Ou, de certa forma, pelo contexto, entende-se: era melhor para um canhão como a Mundial que fosse apenas um vitrolão. Numa época de uma outra realidade da indústria fonográfica, o esquema (legal ou ilegal) entre gravadoras e rádios era algo muito rentável.

Por fim, nota-se a propaganda do Baile da Pesada, do Big Boy e depois do Furacão 2000 - basicamente a peça de resistência da Mundial nos anos 70, até o seu desaparecimento, em 1977. O esquema dos bailes pelo subúrbio carioca e interior fluminense continuou, mas, com a morte do Big Boy, toda uma época desapareceu com ele.

Para tanto, basta comparar o vídeo acima com este. Outro broadcast do Show dos Bairros, dez anos depois.



Em 1981, a Mundial já havia perdido muito do seu brilho perante o público do segmento jovem, que ora crescera ou migrava progressivamente para a Frequência Modulada. Aquele tipo de programação também faria o mesmo percurso. Nesse novo contexto, nota-se que o Show dos Bairros já atendia a um segmento bem popular.

Isso se reflete tanto na programação musical, quanto na pauta de notícias, com a precípua finalidade de prestadora de serviços, e outro fator primordial, que é - como podemos "ouvir" na gravação, é o contato com o público. Agora, os ouvintes não são "citados" por seus respectivos bairros, mas agora falam no ar.

A sequência musical reflete essa mudança. A seleção vai do udigrúdi (Abba) sambão (Beth Carvalho, que fazia bastante sucesso naquele tempo) até trilha sonora das novelas da Globo ("Noturno", com Fagner). Aqui, também, nota-se a parada ligeiramente orientada pelos sucessos dos mais vendidos franqueados por lojas de discos do Rio: algo que hoje inexiste no rádio FM, o que dizer do AM?

Segue a propaganda massiva de bailões, contudo, não mais o funk americano dos finados tempos do Big Boy e Ademir, mas samba (fora a propaganda dos bailes de pré-Carnaval) e o funk romântico pós-discoteca, e que é, justamente, o que nós mais lembramos (o auge dos "melôs") - charm típico dos anos 80 e começo dos anos 90, quando a Mundial, tal qual conhecíamos, finalmente acabou.

...................................

A contribuição pode ser pequena ainda (não se sabe o que é possível de se obter colaborativamente, a partir desses usuários), mas demonstra que, a partir desses rádio-escutas, é possível fazer uma base de dados de valor inestimável, não em termos de nostalgia - o que é válido, mas pela inefável contribuição desse material que, dia a dia, está a ser descoberto, para um maior aprofundamento dos estudos da história do rádio no Brasil.




Wednesday, January 21, 2015

Canções do Exílio *



Gonçalves Dias


Composto em 1843, na cidade de Coimbra, Portugal, o poema “Canção do Exílio” é hoje sinônimo de seu criador, o poeta maranhense Antônio de Gonçalves Dias (1823-1864). Seus versos se confundem com o “inconsciente coletivo” de nossa cultura e alguns deles aparecem na segunda parte do Hino Nacional. A importância deste célebre texto é seminal: não existe antologia escolar que não o tenha escolhido ou que não o cite, fato que demonstra o seu papel de referência dentro da tradição literária brasileira. É fruto típico do Romantismo da primeira fase, quando nossa literatura ainda engatinhava. O crítico Agripino Grieco disse: “ninguém lê os poetas, mas raros são os brasileiros que não conhecem a ‘Canção do Exílio’”.

Se o tempo transformou a “Canção do Exílio” num poema emblemático, o tempo cuidou de banalizá-lo pela insistência em sua repetição. Da mesma maneira, autores que vieram após Gonçalves Dias se puseram a recriá-lo ou a conceber sua própria versão do texto. Em 1860, Casimiro de Abreu, representante da segunda fase, também criou a sua canção. No século passado, tivemos Drummond (“Nova Canção do Exílio”), Oswald de Andrade (“Canção de Regresso à Pátria”), Cassiano Ricardo (“Ainda Irei a Portugal”), Murilo Mendes (“Canção do Exílio”), Vinícius de Moraes (“Não Seja Já”) e Torquato Neto (“Marginalia II”), entre outros.

Saindo um pouco da distante admiração ao poema, a “Canção do Exílio” representou a Gonçalves Dias um momento de profunda dor e nostalgia. Em 1838, o maranhense havia partido para Portugal, decidido a se matricular na Universidade de Coimbra. Estava há quase cinco anos distante do Brasil e quase adaptado à flora e à fauna européia. Quase, porque a distância começou a lhe corroer a alma. Certo dia, ao se reportar à balada Mignon, de Goethe, encontrou ali algo como “conheces o país das laranjeiras? Para lá quisera eu ir!”. Retornaria em 1846, ano em que publicaria seu poema em sua obra de estréia, Primeiros Cantos, publicado a partir do ano seguinte.

Sobre a “Canção do Exílio”, eis que, misturando saudade e nacionalismo — duas das características do Romantismo, estilo literário então vigente — de sua pena brotaram os seguintes versos:

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá

Nosso céu tem mais estrelas
Nossas várzeas têm mais flores
Nossos bosques têm mais vida
Nossa vida mais amores


Estabelecendo um paralelismo entre os versos, os dois primeiros compõem o primeiro quarteto, que retorna no terceiro quarteto, representando o tema principal. A sugestão geral do poema é estabelecer diferenças entre a terra natal e o lugar do desterro, tanto físicas (“aves”, “nossos bosques têm mais vida”) quanto psicológicas (“nossa vida mais amores”). Os quartetos se encerram com a repetição dos dois primeiros versos, como uma ladainha.

Em cismar, sozinho à noite,
Mais prazer encontro eu lá
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.


A canção se encaminha para o fim com dois sextetos que desenvolvem e reexpõem o material apresentado na primeira parte do poema:

Minha terra tem primores
Que tais não encontro eu cá
Em cismar, sozinho, à noite
Mais prazer encontro eu lá
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá


E termina com a patética súplica:

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá
Sem que desfrute dos primores
Que não encontro eu cá
Sem que inda aviste as palmeiras
Onde canta o sabiá


Note-se que o sentido de “exílio” é salientada pela repetição de versos-chaves, cuja sugestão é salientada tanto por versos-chaves quanto pelo formato do poema. Oriundo do primeiro Romantismo, Gonçalves Dias ainda mantinha certo sabor clássico em seus versos, que podem ser percebidos pelo modelo utilizado, comedido nos adjetivos, cuidadoso e emblemático nas imagens, aqui ele soube criar uma visão geral da idéia do desterro com um material poético breve porém marcante. Ou seja, ele é mais romântico na temática do que na forma. O seu texto reflete ainda o aproveitamento da disciplina clássica, diferente dos poetas do ultra-romantismo, que abusavam de imagens e da utilização de versos brancos e versificação diversa.

Há quem afirme que essa mesma contenção poética dos versos da “Canção do Exílio” tenha transformado o poema mais em um texto declamatório e de pretensa objetividade do que um instante de profunda meditação. Isso talvez explique a negligência que as pessoas costumam ter com relação à Gonçalves Dias, menos afeito ao ritmo dissoluto e apaixonado dos melhores momentos do Romantismo da segunda fase. Em última análise, à medida em que o texto foi elevado à estatura de um paradigma do Romantismo, a “canção” foi perdendo um pouco da sua aura original, fazendo com que o desavisado leitor não sinta o que o poeta buscou expressar, em sua totalidade.

Talvez quem soube recriar a tradição instaurada por Gonçalves Dias de forma magistral foi o compositor Chico Buarque de Holanda. Em 1967, ele compôs, em parceria com Tom Jobim a canção “Sabiá”, e que seria a campeã do III Festival da Canção, no ano seguinte. Aqui, a idéia de exílio, porém, tinha uma indisfarçável conotação política e Chico se refere a “uma sabiá” e a uma palmeira “que já não há”

Vou
Voltar
Sei que ainda vou
Voltar
Para o meu lugar
Onde eu hei de ouvir
Cantar
Uma sabiá

Vou
Voltar
Sei que ainda vou
Voltar
Vou deitar à sombra
De uma Palmeira
Que já
Não há

Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites
Que eu não queria
E anunciar
O dia.


Porém, Gonçalves Dias, o rapsodo das saudades de sua terra natal, o eterno autor da “Canção do Exílio”, por incrível que pareça, teve um triste fim: como um Moisés, morreu sem chegar à sua Terra Prometida. Vindo da Europa, o navio Ville de Boulogne naufragou ao cruzar a costa brasileira, num 3 de novembro de 1864. O velho poeta, coberto de glórias como o Timbira, desapareceu sem pisar na terra das palmeiras.



* Texto publicado originalmente no extinto site Rabisco, há coisa de dez anos atrás.

Tuesday, January 20, 2015

A Rhapsody in Blue carioca



Tom Jobim


Verão de 1954. Billy Blanco pegou a condução no Centro e descia placidamente a Princesa Isabel quando, ao dobrar a esquina com a Avenida Atlântica, teve uma epifania. Como um trovão, veio {a sua mente os seguintes versos:

Rio de Janeiro, a montanha, o céu e o mar
Rio de Janeiro, que prá sempre eu hei de amar!


Ficou cantarolando os versos, como um mantra, a fim de não esquecer. Em desespero, acabou descendo do ônibus quadras adiante, já em Copacabana, e correu em busca de um telefone. Achou um, num pé sujo na República do Peru. Ligou imediatamente para Tom Jobim, seu recente parceiro musical em "Teresa da Praia" que, em julho daquele ano, seria sucesso na voz de Lúcio Alves e Dick Farney.

Quando Jobim atendeu, Billy pediu que ele decorasse os versos e anotasse a melodia. Com o bulício dentro do bar, temendo que Tom não o ouvisse direito, tapou o outro ouvido e ficou cantando aqueles mesmos versos, o mais alto que pôde:

Rio de Janeiro, a montanha, o céu e o mar
Rio de Janeiro, que prá sempre eu hei de amar!


- Anote aí, Tom, eu já estou indo para aí! - e bateu o telefone.

Na casa do compositor de "Garota de Ipanema", não muito longe dali, na Nascimento e Silva 107, Billy explicou sua epifania. Há anos que ele não realizava aquela percurso e, ao vislumbrar aquela cena vespertina a se descortinar diante de seus olhos, os versos explodiram em sua mente, e ele imaginou uma suíte histórica, um hino de louvor à então Capital Federal. O disco, intitulado Sinfonia do Rio de Janeiro, foi lançado Lançado no começo de 1955 - há sessenta anos atrás.

Tom Jobim pegou o mote como uma canção sobre a cidade. Porém, concebeu aquilo que seria a Sinfonia do Rio de Janeiro justamente como se fosse uma peça erudita, mas não como uma suíte instrumental. Seu modelo inspirador seria Gershwin, mas não o Gershwin de opereta, mas o da Rhapsody in Blue.

Assim como a peça do autor de "Porgy And Bess", Jobim imaginou, a partir da letra desenvolvida por Blanco, algo como se fosse um dia na vida de um carioca. Da Rhapsody in Blue, ele teve a ideia do tema cardinal - no caso da versão "brasileira", o motivo criado por Billy dentro do ônibus. Tanto cantado quanto em versão instrumental, ele percorre todas as partes da "sinfonia". Porém, ao contrário de Gershwin, a pretensão de Jobim é clássica, mas a intenção, não.

Tom e Billy não levaram muito tempo na composição da "sinfonia". Contudo, do papel para o disco, a composição passou por um parto complicadíssimo. Ambos tinham um bom contrato com a gravadora deles, a Sinter. O problema era o formato da música quem questão. Não havia outra forma de lançar aquilo em outro jeito que não fosse em long-play (ainda antes do vinil, naquelas priscas eras, o LP era um disco de 10 polegadas). No entanto, em 1954, o LP ainda engatinhava no Brasil: poucos tinham aparelhos na rotação adequada e, além disso, ainda era uma tecnologia pouco comercial.

Tanto que, na sua maioria, para lançamentos em LP, as gravadoras faziam uso apenas de sucessos de grandes astistas, como se os discos fossem seleções de sucessos de 78 rotações em formato long-playing. Por conta disso, seria um disparate qualquer selo, em 1954, apostar nesse formato para lançar um disco "conceitual" (?) assinado por dois compositores, e com pouco ou nenhum apelo comercial.

Paulo Serrano, diretor da Sinter, gostou da sinfonia, mas deixou-a na gaveta por meses a fio, até que esquecesse por completo daqueles pentagramas. Quem resolveu exumá-la, em fins de 54, foi Braguinha. Diretor artístico da Continental, ele ouviu partes da sinfonia através de Jobim (que, nessa época, era produtor na sua gravadora), e teve interesse em obter as partituras.

Entusiasmado com a possibilidade de lançar a sinfonia de Tom em disco, negociou os direitos da peça com Serrano. Este daria os originais à Continental, desde que João de Barro lhe "emprestasse" Lúcio Alves para a Sinter. O negócio foi fechado e, em dezembro daquele ano, começaram os ensaios e a gravaçãopara a Sinfonia do Rio de Janeiro.

A cartada de Braguinha era montar o disco usando o cast da gravadora: Lúcio Alves, Dick Farney, os Cariocas, Gilberto Milfont, Nora Ney, e grande elenco. A estimativa era que, com eles e mais os arranjos de Radamés Gnattali, o disco iria emplacar. Era o duelo da intenção contra a pretensão.

A pretensão fez com que a primeira parte, "A Montanha, o Céu e o Mar" extrapolasse o tamanho de um lado de disco de 78 r.p.m. Ao longo de quinze minutos, a faixa, que abre com o leitmotiv de Billy Blanco, em coro ("hino ao sol"), interpretado em pianíssimo por Dick Farney. Em seguida, a música sugere uma marcha que é o day in a life no Centro do Rio ("coisas do dia"), Gilberto Milfont canta o trecho "Matei-me no Trabalho", até que a música vai ganhando fumos de batucada, com Dóris Monteiro, Elizeth Cardoso e Emilinha Borba ("zona sul") e, em tempo de samba-canção ("Arpoador"), sugere uma esticada ao fim de tarde para os lados de Copacabana, já em tom idílico. O tema inicial retorna, de forma ligeiramente pastoral, é retomado por Dick Farney (noites no Rio"), depois por Nora Ney ("O Morro").

Prá não ficar na Zona Sul, a sinfonia sobe e desce o morro (Gilberto Milfont), até o finale, com Dick Farney e o retorno do Hino ao Sol, até a coda, em grande estilo. As demais faixas do disco, são versçoes instrumentais de temas recorrentes (o leitmotiv divertidamente percorre todas as faixas restantes, também) na primeira parte da Sinfonia, todos de Tom Jobim, com o Quinteto Continental (Chiquinho no acordeão, Zé Menezes na guitarra, Vidal no contrabaixo, Luciano Perrone na percussão e Gnattali no piano).

O disco, como era de se esperar, era tão bom que foi um fracasso comercial. Pior do que isso, nenhuma das canções fez sucesso. Nem o grande sucesso de Dick e Lúcio com "Teresa da Praia" conseguiu catapultar o disco.

Já em formato vinil, o disco foi relançado algumas vezes. Porém, ele está fora de catálogo há anos e permaneceria no ostracismo musical por décadas a fio, até ser relembrado no livro Chega de Saudade, de Ruy Castro, no começo dos anos 90. Só seria resgatado do completo esquecimento com o advento da Internet. A primeira parte da Sinfonia, por exemplo, pode ser acessada no Youtube:






Friday, January 16, 2015

Vamos voltar à Pilantragem?



Wilson Simonal

Confesso que li o livro-tese Simonal Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga, do historiador Gustavo Alonso, e fiquei assoberbado com o resultado do trabalho empreendido por ele.

Mais do que uma biografia, o que a obra não é, o que me surpreendeu foi a coragem do autor em questionar o mito da resistência ao regime militar brasileiro nos anos 70. No caso específico de Wilson Simonal, como ele se tornou um bode expiatório de uma esquerda que, não podendo contestar frontalmente o governo, optou por bater em seus baluartes.

Sem querer vitimizar o cantor, Alonso contextualiza todo o panorama musical da época e demonstra como o tempo serviu para decantar uma imagem de resistência cultural ao regime que, no fim das contas, serviu para criar arquétipos de heróis e vilões, não se importando com suas consequências.

Também mostra que, não apenas Simonal mas, todo e qualquer artista que não estivese em qualquer trincheira de "resistência" era taxado de "colaboracionista". Muito pagaram na época simplesmente por não serem engajados - ou por serem castiçamente nacionalistas (eis o pecado mortal) naqueles anos de repressão.

Alonso com efeito tem influência de Paulo César Araújo, um dos primeiros autores a tentar reabilitar toda a produção musical do período que, com o tempo, ao não ser alinhado ao pensamento de resistência, foi rotulada de desengajada, alienada, como se não tivesse qualquer valor estético. No caso de Araújo, ele ressalta a forma como a música chamada de "brega" foi rotulada de produção inferior e consequentemente marginalizada do panteão da MPB.

Alonso pega o mote e, mesmo que não desenvolva a fundo, por sua vez, quer reabilitar a "pilantragem", movimento deflagrado por Simonal, a partir dos seus discos "Alegria, Alegria", nos anos 60. Pode parecer um disparate, mas o debate é interessante. A questão é que o autor tenta entender por que o Tropicalismo ganhou fumos de arte conceitual e a Pilantragem não.

Em depoimentos, como do próprio Simonal, à época, ele entende tudo como "a mesma coisa". Outros, como Sérgio Cabral (citado no livro), acha que a Pilantragem é uma grande besteira. Fato é que, desde o começo, a tropicália foi assessorada por uma expertise sem precedentes - muito antes que alguém decidisse levar esse tipo de assunto ao status de tese - como os Campos Brothers ou Décio Pignatari. Eles é que popularizariam a frase "linha evolutiva da MPB" sendo o Tropicalismo a síntese da problemática da música nativa em tempos de Indústria Cultural.

Creio que, além de Simonal Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga, a análise da Pilantragem renderia mais um livro, muito embora não creia que a tese de Alonso seja aceita. Acho, ao contrário do Cabral, que a Pilantragem foi um episódio estético-musical importante nos anos 60, mas não penso que tropicália e pilantragem sejam a mesma coisa, muito embora ache que, da maneira sintética, a Pilantragem soube se comunicar com o público de forma excepcional.

Aliás, anes de mais nada, Simonal era um grande entretainer, como jamais houve e jamais existirá, em todos os tempos. Mas como movimento, mesmo com toda a má vontade que existe com relação à qualquer coisa que envolvesse Carlos Imperial (nesse sentido, ele será eternamente subestimado), se existe um cérebro por detrás disos, ele é o seu criador.

O que difere os dois movimentos é que o Tropicalismo se valia totalmente pelo carnavalesco, pela paródia, pela intertextualidade, isso é o que atraiu Pignatari e companhia. A Pilantragem era um fenômeno de massa. A tropicália certamente queria deglutir ou parafrasear Simonal mas, pelo seu caráter paródico, ela estivesse mais na linha da metalinguística da pororoca cultural da época do que um gênero musical comercialmente consolidado, como a Pilantragem.

No fim, a Tropicália parece que foi banida por carnavalizar o elemento político (a estampa de Hélio Oticica na Boate Sucata, em 68) e a Pilantragem, por parte de Simonal, ao tentar defender esse mesmo elemento político (canções como "Brasil, eu fico" ou "País Tropical"). Restou aos tropicalistas o exílio político e à Simonal, a crítica das "patrulhas" e o exílio musical.

Simonal acertou quando, em entrevista ao Pasquim, em 69, disse que a Pilantragem estava próxima da produção de gente como Chris Montez e Herb Alpert. Isso numa época em que ou se era contra ou a favor, ou se era pelo imperialismo da guitarra ou pelo nativismo da queixada de burro, um outro entretainer como Sérgio Mendes abandonara o hard bop da Bossa do tempo do Beco das Garrafas para fazer música brasileira prá gringo ouvir. Se formos analisar, não como movimento estético, mas como fenômeno musical, a Pilantragem está no Brasil 66. E, de forma sintomática, não era gratuito que Sérgio Mendes fosse artista da A&M, do próprio Herb Alpert.

Simonal tinha restrições quanto à americanização das crooners do Brasil 66. Porém, o som de ambos se complementa. Simonal potencialmente era um artista de projeção internacional. Poderia ter feito com Mendes nos Estados Unidos o que fez no Maracanazinho. O problema, provavelmente,foi de foco.

A fórmula era simples: pegar toda a modernidade do samba de Bossa Nova e misturar com pop: transformar Day Tripper em sambalanço e vender milhões. Porém, um pop brasileiro com um resultado original, ao contrário do que Imperial fazia com a Jovem Guarda. "Vem Quente que estou Fervendo" é pilantragem. "O Bom" era pilantragem. Só que, como pastiche de iê iê iê, parecia mais do mesmo. Como pilantragem (não apenas por conta da temática, mas nos arranjos a la Cesar Camargo Mariano) soaria como algo "moderno".

Inclusive, apesar dos ruy castros, é possível entender a Pilantragem como o movimento que Gustavo Alonso entende, nem que seja para defender gente como Simonal, Erlon Chaves ou Sergio Mendes da acusação de estelionato musical contra o inefável cânone da Bossa Nova.








Tuesday, December 23, 2014

Outros Dezembros




A Rua da Praia



Eu nunca tinha ido na Fnac aqui antes. Me disseram que era uma livraria. Eu tinha que comprar presente e me vi obrigado a entrar num shopping em véspera de Natal. Pois eu fui lá segunda e fiquei impressionado; achei que fosse uma livraria, como me mentiram, mas me senti no Lojão Oba-Oba, nos altos do Mercado Público.

Loja ruim, só vende bugigangas eletrônicas, livros em pilhas, cestas, gente trêfega transitando feito formigas hipsters doidaças ligadas em benzedrina, um lugar cheiro de gente que te desumaniza, desumaniza os clientes, desumaniza os funcionários, mas ninguém liga. Essa sádica resilência resume bem o espírito de Natal, um altruísmo meio idiota em homenagear aqueles que nem merecem tanto (isso é outra história, prefiro deixar as indiretas para o Facebook, que é o lugar mais apropriado). Enfim, achei uma bela droga.

Mas isso me provocou um efeito curioso. O fantasma do Natal passado roçou minha fronte. De repente, fui raptado à outros dezembros. Me lembrou do tempo das Lojas Americanas da Andradas lá pelos anos 80. Naquele tempo, as Americanas eram, com efeito, o paraíso das gadosas. Minha avó usava muito esse termo, que achava tratar-se de um divertido eufemismo, mais do que um arcaísmo quase obsceno em seu uso e costume.

Naquelas priscas eras, não havia venda pela Internet, Então, essas lojas de departamentos eram gigantescas. A melhor devia ser a que tivesse tudo, e as Lojas Americanas se propuseram a tal artes de Marcúrio, tanto que ela era a maior da cidade, com quatro andares. Você não ia no Centro senão para ir nas Americanas.

O legal das Americanas naquele tempo era isso, um atacadão de quatro andares, com uma baita lancheria nos fundos do piso da Andrade Neves. Isso no o tempo em que o chic no footing da Rua da Praia era conhecer a primeira escada rolante da cidade, imagina, a gente ia nas Americanas para provar aquele sundae proustiano de três andares. Olhava todos os produtos, andava por todos os corredores da loja, mas só tinha o dinheiro contado do sorvete. A Americana nova (como a gente chamava, já que tinha a velha, quase na esquina da Borges) era o frenesi de andar na Rua da Praia no final dos 70 e pelos anos 80 afora.

O calçadão já não tinha aquela poesia de aquarela da commedia del arte das crônicas do Nilo Ruschel, mas reservava lugar para seus derradeiros tipos folclóricos, como o ex-bancário conhecido pelo nome de "gurizada medonha", que era o seu pregão ao vender bilhetes de loteria. Não havia mais nada de bonito no calçadão, mas não era insuportável como hoje, onde metade da flanêrie da esquina da Uruguai se resume a panfleteiros (e a intrépida turma do shake emagrecedor instantãneo).

Porto Alegre era uma cidade provinciana. A rigor todas são. O problema é quando são e querem bancar o status de cosmopolitas, coisa que a capital do estado aqui não é e nunca vai ser. Por exemplo. O programa do porto-alegrense nos 80 era 1) fazer piquenique para ver os aviões decolarem e pousarem no Salgado Filho velho; 2) andar na escada rolante das Lojas Americanas.

A história recente deste triste burgo açoriano pode ser resumido em antes da escada rolante das Lojas Americanas e depois da escada rolante das Lojas Americanas. Aquilo foi um acontecimento socio-antropológico-cultural na vida do habitante da capital dos gaúchos. Era um frenesi, a Era do jazz aplicado ao capitalismo de consumo onde as flappers eram, como dizia minha avó, as gadosas. Ou, empregadinhas, como se diz, de forma corrente (sem preconceitos, embora houvesse 100% de preconceito nisso).

Não havia shopping. A vida era na calçada. Hoje existe um movimento de "ocupação" de espaços urbanos, provavelmente por conta de um atavismo que assiste a cada cidadão, justamente porque nós esvaziamos a calçada. Parece bobagem, mas (nem filosofávamos muito nisso, tão distraídos que estávamos em nossa triste juventude) Juntava a grana da mesada (semanada, no tempo do overnight), mas a grande aventura era o Centro. Chegar até lá só para provar o sundae do Rib's no Largo dos Medeiros (ainda diz isso? Ninguém mais usa esse nome, embora seja oficial) ou das Americanas. A desculpa era sempre alguma fita de cinema (também de calçada (não rende outro post porque é assunto batido, desculpem)).

O porém e que o Rib's (que hoje só existe na memória e na marca de mostarda do tipo "gás lacrimogêneo") da Andradas era povão. Era prá A La Minuta. Não era fast-food como são os fast-foods. Acabou sendo distorcido como um restaurante popular chic, que você almoçava apressado comendo numa mesinha embutida, com a cara virada para a parede.

E não tinha shopping, o Iguatemi é de 82. Havia o João Pessoa, mas ninguém nunca levou ele a sério. O point da azaração antes disso, por incrível que pareça, era a Galeria Malcon, Imagina. Afinal, ficava na parte (um pouco) mais elegante da Andradas, que era entre a Marechal e a Dr. Flores. E tinha a Krahe, naquela altura da Andradas (perto da Ajax) que também tinha uma lanchonete dentro. A moda era loja com snack bar dentro. Aliás, foi concebido como uma mímese de um snack ianque, mesmo. Parecia original e exótico naquelas priscas eras, algo que hoje está arraigado no modelo instituído de lanchonete, inspirada nas suas respectivas matrizes estrangeiras.

A ideia era excelente. Até porque não era só eu que frequentava lojas só com o dinheiro contado do sorvete. Uma lanchonete era a desculpa para chamar clientes. A Renner da Dr. Flores também tinha uma lanchonete no subsolo (antes do incêndio tinha um restaurante no último andar, também). Hoje, se você reparar, isso não faria o menor sentido.

Naquele tempo, estávamos longe do advento dos fast foods na cidade. Alguém chegava de fora e dizia: "bicho, eu fui no Mc Donald's!". Alguém que dissesse que esteve no Rio ou São Paulo e contasse que esteve num Mc Donald's era automaticamente guindado à estatura de uma celebridade, sendo capaz, inclusive, de influenciar opiniões de grupos sociais diversos, principalmente os mais provincianos (brincadeira).

Lembra da Sloper? Só tinha coisa de mulher. Minha mãe me levava amarrado, eu era piá, imagine, uma criança numa loja que não vende brinquedo. Loja de departamentos sem seção de brinquedos é um saco (convenhamos). Quantos filhos foram torturados por suas respectivas mães ao terem que acompanhá-las em suas incursões pelas dependências da Sloper? Ficar horas lá dentro emburrados enquanto elas ficavam experimentando roupa ou maquiagem? Ou aguentá-las em estado catatônico diante da vitrina da Sloper?

Voltando, o chic era ir no Rib's da Indepê, lá na praça Júlio de Castilhos, ou no Joe's, na Ramiro, mas que era e sempre foi um snack meio careiro. O Rib's do Moinhos era mais para frequentar aos finais de semana, quando o titio ou o papai nos levava para passear de carro pela cidade. A gente sempre terminava o domingo no Rib's da praça Júlio. Inclusive, ninguém mais chama a Independência de Indepê, isso é do tempo da Cantina, da Tia Dulce e do Butikin, da Mariam Makeba, do Rui Sommer, do Laurício e do Scala na zaga do Internacional (a ser desenvolvido, fica para o próximo post). Este já está ficando saudosista e, por tanto, ligeiramente chato.






Friday, November 21, 2014

Jornalismo Meme


Portal classificou rapaz da foto de "chinês maluco"


Não sei se vocês têm reparado mas, nos últimos tempos, com a consolidação do jornalismo na internet como plataforma vital para o futuro da área, a web acabou transformando a matéria-prima de uma publicação, que é a notícia, em um bem de consumo esdrúxulo e de informação zero.

É o jornaiismo de portal, mimetizado pela imprensa, cujo mote é o fato insólito, o fait-divers. A notícia que apela para as emoções do leitor. Sites como o G1 têm se especializado em encher a timeline de quem tem a dignidade de segui-los em notícias do tipo "Cachorro adota ninhada de gatos". Ou "Gato salva criança de ataque de pitbull". Ou "Casal em lua-de-mel é surpreendido por 'visita' de guepardo em carro".

A nota sensacionalista do fait-divers sempre foi pauta. Mas com a imprensa pela web e a facilidade de atingir cada vez mais leitores de forma instantânea fez com que se perdesse qualquer critério de informação útil. É uma tendência: é a pauta típica da nova função no jornalismo, o produtor de conteúdo.

Ele não faz nada mais do que uma clipagem de notícias (com ou sem gilete-press, já que muitos jornais hoje preferem contratar agências do que contratar profissionais). O objetivo é viralizar a informação viral. É o jornalismo meme.

O caso mais recente do jornalismo meme foi a insólita proposta do jovem chinês que pediu a mão da namorada em casamento - proposta que foi recusada, mesmo com a oferta de 99 telefones celulares. Ao longo do dia 11 deste mês, quase toda a imprensa brasileira deu destaque para algo que é mais comum do que parece.

Todo mundo leva fora na vida, mas o caso da China foi manchete em todos os portais, já que a filosofia do jornalismo meme é simples: não podemos perder cliques no Facebook para a concorrência. No fim, todos publicaram a mesma nota, com a mesma foto, e ninguém soube apurar todo o lead da notícia. Até hoje, ninguém soube me dizer qual é o nome do casal.

Matéria publicada pelo R7 chamou o rapaz da proposta de "chinês maluco" no título. Até entendo que 99 telefones não é lá um dote negócio muito romântico. Mas lembrei-me do Manual de Redação (da Folha?) onde, com uma certa dose de humor, o texto falava para evitarmos fazer qualquer referência a habitantes de outros países de forma pejorativa (e todos em geral, ainda mais num título). Mas quem lê manuais de redação hoje em dia?

Se vocês procurarem no Google, vão encontrar várias páginas dando destaque ao caso do malfadado e intrépido rapaz. Todas as informações vieram das redes socais, ninguém apurou nada (nem poderia e nem deveria, afinal, é notícia hoje é diversão) Mas todos publicaram. Como se chama isso?

Jornalismo meme. Se viraliza, é bom. Se é bom, viraliza o jornal.

Hoje e de agora em diante, não existe mais lugar para um repórter como o Carlos Wagner, ou José Hamilton Ribeiro, por exemplo. Um executivo de empresa vai explicar: jornalismo investigativo é caro e não dá retorno. Um repórter de verdade não publicaria uma matéria baseada numa foto tirada da internet. Hoje, ao ler notícia de portal, eu estou trocando faisão por mortadela.

Lembrei do Wagner porque, no mesmo dia que soube dessa história, descobri que o repórter "puta velha" de tantos anos militando por aí, se aposentou.

Os dois fatos não tem muita relação, mas parece sintomático ver que, em seu desespero, a imprensa está demitindo a torto e a direito prá salvar o barco, desmantelando sucursais pelo país afora e livrando-se do seu capital cultural, os velhos repórteres e está municiando "produtores de conteúdo" que ficam o dia inteiro na frente do computador replicando informação, um tipo e uma qualidade de informação. que é a água da salsicha da imprensa.



Wednesday, November 19, 2014

Porto Alegre Contra o Agente do IBGE*



Existe um pequeníssimo beco na esquina da Protásio Alves com o muro do Sesc Campestre, na altura do bairro Bom Jesus com Jardim Carvalho, em Porto Alegre. A ruazinha, de chão batido, vai se afunilando, afunilando, afunilando, afunilando, afunilando, afunilando à medida em que avançamos e termina num emaranhado de casas e um varal com um repertório de roupas secando ao sol, franqueando (desculpem o excesso de gerúndios) uma nota ligeiramente pastoral ao ambiente. O logradouro parece não ter saída; porém, à esquerda de quem adentra, há uma pequena servidão, que passa por um terreno baldio – uma charneca.

Mais adiante, chegamos à rua Souza Lobo, já na Vila Jardim. Ao pegarmos essa via, à esquerda, descobrimos um acesso à direita, quase um símile da servidão anterior, e que nos conduz até outro beco longo que, cerca de duas quadras depois, na frente do posto de saúde do bairro, vira uma ampla e urbanizada avenida.

Com o auxílio de informações de moradores do local – um assentamento urbano – descobrimos que tanto o beco da esquina da Protásio quanto o acesso, que termina no posto são, na verdade, a mesma rua: Ernesto Pellanda, cujo CEP é 91320-220.
Para alguém acostumado a singrar pelas regiões urbanizadas da cidade, andar por um assentamento urbano desses pode parecer um verdadeiro safári; no entanto, para um agente de pesquisas como os temporários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, esta é uma rotina diária.

— A gente não vai precisar usar esse colete, né?

Um rapaz do meu lado, na sala da monitoria se assustou ao ver a secretária descer do almoxarifado sorridente com uma sacola cheia de coletes azuis, como aqueles que os agentes usavam no último Censo, o de 2010. A pergunta valia para mim: achei que, pelo que haviam me dito, nós íamos fazer listagem de endereços. Pensei instantaneamente no tele-listas.

Claro. Eu não sabia do que se tratava mas, na minha vã inocência, pensava que era um serviço meramente burocrático como, por exemplo, confirmar endereços por computador e telefone. Ledo engano. O que nós iríamos fazer naquele primeiro dia, e durante os próximos dois anos, era trabalho de campo.

A pergunta do meu novo colega abria uma janela ao infinito. Quando fazemos a prova do IBGE, não temos a mínima ideia do trabalho a ser feito. Nossa chefe, que desceu do segundo andar para falar com o novo grupo, que passava os olhos no manual, de cara jogou um balde de água fria: “vocês tem uma imagem errada do serviço público. Vocês não vão pendurar o paletó na cadeira, mas vão bater perna o dia todo”.

A conversa com a nossa nova chefe me lembrou o começo do Papillion, quando os condenados ouvem o discurso do chefe da milícia na Ilha do Diabo. Só faltou a guilhotina com a melancia (melancia?). Nem tanto. O fato é que, quem não é acostumado, têm um pouco de resistência ou vergonha de andar pela rua de uniforme. Eu não via nada de mais, pois já havia trabalhado como auxiliar de cozinha no meu emprego anterior. Mas houve muita gente contra à nova indumentária.

O trabalho de listagem era simples: trata-se de recontar e confirmar um catálogo de endereços dentro de uma circunscrição geográfica. Um mapa em escala reduzida nos é dado. Este mapa representa um setor censitário: uma pequena área que é de interesse de pesquisa. Assim, a área é geograficamente delimitada, e pode ter desde tamanho de uma quadra, até a dimensão equivalente a um bairro.

Com o mapa vem uma lista de endereços, que deve ser conferida e confirmada à risca de ponta a ponta, segundo uma ordem por faces de quadras. O agente percorre um percurso já pronto; os endereços são confirmados quadra a quadra, sempre em sentido horário. Mas é claro que nem sempre uma quadra faz jus ao nome.

Num setor chamado 10 (urbanizado), é como registrar os endereços de uma região como a da Cidade Baixa, por exemplo. Eu parto de um ponto inicial, numa esquina de quadra, e vou listando o número de domicílios, prédio a prédio, indicando a especialidade de cada um — se é um domicílio habitado, se é casa, prédio de apartamentos, comércio, etc.

O que deve ser levado em consideração são os domicílios ocupados: apenas estes entram nas pesquisas, como a Pesquisa de Emprego (PME), que sai na imprensa em geral todo fim de mês.

Descobrimos que esse trabalho preliminar é árduo. Porém, ele tem justamente o objetivo de facilitar o principal, já na fase de pesquisa.

Portanto, temos que marcar quando determinado imóvel é vago, de uso ocasional, demolido, fundido ou transformado em estabelecimento: uma falha de registro pode redundar numa gigantesca falha estatística, prejudicando a amostragem. Para isso, só vale o domicílio ocupado. Checamos nome do morador, telefone (se possível). Terminado todo o setor, tudo é digitalizado e mandado para o departamento de informática.
Logo depois que a listagem termina, a sede nos retorna o material com a indicação dos domicílios selecionados para a pesquisa domiciliar. E aqui que começa a corrida do ouro.

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Eu recebi o setor da Ernesto Pellanda, na Vila Jardim. Olhei o mapa e não entendi bulhufas (não havia feito a listagem dele).
Prá começar: nunca tinha andado por Porto Alegre. Digo: tive que rever meus conceitos a respeito de andar pela cidade. Se você se acha um conhecedor de sua cidade, precisa trabalhar de agente de pesquisa. Além de ser mandado para os lugares mais inóspitos e exóticos possíveis, a gente acaba enxergando a realidade urbana com olhos curiosos, de turista.

Em segundo lugar, não conhecia aquele bairro. Em terceiro lugar, descobri que existe uma outra especialidade de setor, o 11, chamado “subnormal”.

Ou seja, assentamento urbano. O “onze” era o caos. Quadras disformes, área com características de rural — como Belém Velho ou Lajeado, ou invasões em bairros afastados, como Mário Quintana ou a Lomba do Pinheiro (que varia do normal para o subnormal).
De repente, a cidade vira um mundo e você tem que decifrá-lo, cobrir todas as distâncias. Cada novo setor é um lugar diferente, com gente diferente.

Como era de se esperar, no começo eu estava mais perdido que carteiro. Avistei inclusive um passando por mim. Pedi informações. Me disse que havia sido admitido no último concurso, e também estava perdido. Dois neófitos numa tarde de outono. Era como num safári. Eu morava em Porto Alegre e não conhecia Porto Alegre.

Estava em território estranho, no meio de casas irregulares, ruelas insuspeitas de chão batido, gente coabitando domicílios de forma surpreendente: dez a quinze pessoas improvisadas em barracões. Eu tinha que, com a listagem, achar determinada casa escolhida para a pesquisa.

Por mais ordenada que ela fosse, quase nunca batia com a realidade de campo. Um agente sozinho, sem mapa, está mais perdido que cachorro que caiu de caminhão de mudança.

Descobri que aquele amontoado de construções na Ernesto Pellanda surgiram logo depois da inauguração do Sesc, há uns trinta anos atrás. A área estava em vias de urbanização, e aquele trecho foi todo invadido. Aquela pequena servidão surgiu ao natural, para que os moradores da parte de baixo da rua não tivessem que se deslocar até a Saturnino de Brito para pegar ônibus, por exemplo.

Pego esse exemplo porque, em setores do tipo subnormal são muitos em cidades como Porto Alegre.

O porto-alegrense está muito acostumado a olhar para o Centro, para o rio. A cidade que existe às suas costas, além dos morros, é quase uma abstração. Conhecer a cidade sob essa nova ótica é quase como começar do zero.

O problema é que, dentro do setor, há um rodízio de casas selecionadas para a pesquisa sazonal. Findo o período, outras daquela mesma área entram nela. Os domicílios escolhidos são fruto de uma seleção aleatória, porquanto não é possível escolher nenhuma casa; do contrário, estaríamos induzindo a pesquisa.

É importante salientar isso porque, ao contrário do que a maioria da população pensa, o IBGE não faz apenas o Censo e existe uma metodologia a ser observada, um modo de fazer por trás daquele agente de colete que aparece de repente batendo palmas na casa das pessoas. Para eles somos apenas mais um na paisagem deles: agente de pesquisa, agente de saúde, pedinte, gás.
Já nessa altura, descubro que o trabalho é difícil, muito difícil. Mas tenho que agarrar com as unhas. Desistir, jamais. A vida tá difícil sem emprego.

Putz! O mapa não bate com a realidade de campo. As casas de favela não têm numeração ordenada. Ou não têm. Ou tem até três números diferentes: do departamento de água, da energia elétrica e a da Prefeitura. Ou então, no caso de invasões de áreas particulares, como a Vila Jardim Marabá, no Teresópolis, todas as casas — umas quatrocentas — pertencem a um mesmo número. Pobre daquele carteiro...

Mais: uma favela pode ter até mais de vinte quadras numa área ampla e de terreno irregular, como no Pinheiro. Ou, pior: o beco que você procura, na verdade, é uma grade de ferro, que dá para um acesso onde só passa uma pessoa, e que dá numa colônia de papeleiros, onde as casas, improvisadas num terreno exíguo, podem, daqui a uma semana, estar em cinzas. Ou lavadas por uma enxurrada, como eu vi, certa feita, numa manhã de chuva na Vila dos Herdeiros.

Tive que aprender meio que na marra a entender todas essas contingências do trabalho de campo em áreas irregulares: interpretar o mapa corretamente, conhecer terreno, falar com gente de posto de saúde, de associação de bairro, traficantes (até santas senhoras, que jamais teriam caras de “traficantes”, mas que não estavam com uma sacolinha azul na calçada fazendo trottoir à toa). Enfim, todo um trabalho de diplomacia para que seja possível realizar a pesquisa nesse tipo de região da cidade.

Claro que nem sempre isso dava certo. O mapa podia atrapalhar, ao invés de ajudar. As pessoas podiam se recusar a dar entrevistas – e isso é muito comum. Porém, mais comum em bairros nobres, como Petrópolis, Bela Vista e Moinhos de Vento.

Como a pesquisa é rotativa, nós recebemos um setor por semana. Hoje eu posso estar cobrindo uma parte de São João, semana que vem, na Vila Minuano, no Sarandi, na outra no Cristal e, na última, pegar a (putz!) Cidade Baixa.

Cidade Baixa é bom só prá quem mora perto ou prá quem gosta de cerveja. Eu morava perto e não queria fazer de jeito nenhum. Centro também. O problema é que, com o tempo, a gente pega o perfil do morador. Por incrível que pareça, o pesadelo não muda. Muda a lista de entrevistados, mas eles são todos iguais. O perfil é sempre o mesmo.

O que existe é a exceção para fazer a regra: alguém que te recebe com tapete vermelho, cafezinho (uma senhorinha, lá nos prédios antigos do IAPI, nos jogou a chave lá do terceiro andar)

Sem generalizações. Contudo, o pessoal desses bairros nobres não gostam de dar informações. Às vezes com efeito eles têm consciência do trabalho do agente de pesquisas de um órgão do governo federal.

Mas têm medo de dar informações como trabalho e renda — principalmente renda. Muito me diziam: “ah, eu já faço o Imposto de Renda”, ou “eu não sei se vocês vão cruzar dados com os da Fazenda para saber se eu estou declarando minha renda corretamente”. Ou “vocês já sabem tudo sobre mim”? E não passavam a informação. Eu tinha que fazer relatório. Aí é com a supervisão;

Às vezes, o morador desconfiava. Ligava, não acreditava. Então aparecia do nada na agência. O quê? O IBGE não faz só o Censo? Essa pesquisa existe, mesmo? Ou ligava e marcava de fazer na sede. E a gente ia pruma salinha, oferecia cafezinho, água, fazia sala, tudo.

Esse é um tabu da pesquisa. Fica-se de mãos atadas, já que o a agente é temporário, de até dois anos (ou menos, prá quem desiste ou “é desistido”). Tabu porque a população em geral, ilustrada ou não, e eu descobri que isso independe de status quo, desconhece o trabalho de estatística do governo.

E, vamos e venhamos: claro que, em última análise, eles não têm culpa de não conhecerem o grau de relevância de prestarem informações de cunho estatístico. Não sabem que são esses dados que permitem a realização de políticas sociais — como a construção de um posto de saúde ou uma escola.

Para a maioria da população, isso é conversa para boi dormir. Ou politizam e ideologizam a questão. O máximo que eu podia fazer era, dentro do meu limite, já que não éramos versados em economia, saber convencer cada um da importância do trabalho, que eu sei que é chato, que irritante, que é intrusivo.

Ainda mais num bairro como a supracitada Cidade Baixa, por exemplo. Ali, muita gente mora sozinha, trabalha longe e só chega em casa à noite. Às vezes, esses moradores têm vida noturna; se moram sozinhas, nem sempre param em casa, e viajam ou dedicam o fim-de-semana ao lazer.

Para um agente de pesquisa, em bairro nobre não é como em favela. No Moinhos de Vento, o dia é inútil. Só encontramos em casa a empregada ou o cachorrinho. O que podemos fazer é deixar recado. Na maioria das vezes, não se obtém retorno nenhum. Quando achamos o morador, depois de ficar plantado na frente da casa o dia todo, ele nos diz: “recebei teu recado, guri, ia te ligar, e esqueci”.

Certa vez, me caiu fazer entrevistas num lugar difícil: a Bela Vista. Fui bater numa apartamento. A senhora não estava. Fiquei rondando a manhã toda, e nada. De tarde, a mesma coisa. Voltei no dia seguinte, e nada. De repente, sai uma senhora:

- Olá, procurando alguém?

- A dona do 302.

- Hum, acho que ela trabalha o dia todo, ela tem um comércio no centro - me explicou. - Acho que tu só pega ela em casa de noite. Aliás, a maioria do pessoal aqui do prédio tu só pega eles de noite, mesmo. De dia, tá todo mundo trabalhando.

Não voltei mais de dia ali. Fui realizando entrevistas em outros locais, mas voltei de noite, lá pelas oito. Aí havia um porteiro. Perguntei:

- A dona do 302?

- Não está.

- Será que ela demora muito? - perguntei, já em desalento.

- Creio que sim. Ela acabou de sair com o cachorrinho.

Cinco minutos depois, aparece numa senhora baixinha, de meia idade, loira, de cabelos curtos e óculos retrô, sendo conduzida por um poodle em surto, como se tentasse se desvencilhar da coleira, latindo para tudo e para todos.

Fiz a entrevista na calçada, mesmo. Ela disse que tinha uma loja. Eu: "aham". Ela viu o meu colete e disse: "você é do Ibge? Minha loja fica do lado de uma agência do Ibge na Duque de Caxias. Eu: "Hã???". Ela: "sim, minha loja fica do lado daquela agência ali da Duque, a chefe de vocês sempre vai na minha loja". Não pude conter o espanto.

Eu passei a semana atrás dela na casa dela e ela estava o tempo todo do lado do Ibge. Depois, no mês seguinte, eu falava para os outros, que iriam dar prosseguimento à pesquisa: "Ela mora na Silva Jardim, mas você escolhe ou fica o dia todo lá no portão e vai aqui do lado e entrevista ela em 10 minutos...". Ela dizia: "eu vejo vocês todo dia entrando e saindo do prédio com aquele colete azul".

Tudo ficava bem quando acabava bem. Contudo, ma vez, na Santa Cecília, faltou um domicílio da lista num edifício. Era uma família de três pessoas — pai, mãe e filha. A matriarca estava em casa, mas tinha receio de me receber. Fiquei fazendo um meio-campo com o porteiro (muita gente fina e já me conhecia de outras passadas por ali) até que ela decidiu dar-me uma chance.

Ela me disse que ligou antes para a filha, e ela a proibiu de me deixar entrar. Falou mais alto o seu coração materno. Minutos depois, entre em casa a moça. Enfurecida, ela não me cumprimenta e repreende a mãe:

— Tu não devias ter deixado ele entrar!

Eu expliquei que era uma pesquisa do IBGE e que apenas queria avaliar como a população força o mercado de trabalho. A matriarca me respondeu:

— Mas eu não trabalho mais, não preciso da entrevista.

— Minha senhora — repliquei, ajeitando os óculos — é o seguinte: nessas pesquisas de taxe de desemprego, a população entrevistada se divide em ocupada e não-ocupada, a que força o mercado em busca de trabalho ou não. Mesmo a não-ocupada têm um tipo de renda, isso entra para o computo da média de renda da população naquele período onde é feita a avaliação.

— Mas a gente não é obrigada a responder isso! — vociferou a filha, muito irritada. — Onde é que tá escrito que a gente é obrigado a responder?
Eu falei que havia uma lei de obrigatoriedade, sim. Porém, eu nunca iria usar esse argumento, já que eu podia, de maneira cordial e diplomática, convencer as pessoas a conceder a entrevista normalmente.

Continuei o chasque com a senhora. Notei que a filha, andando prá lá e prá cá sem destino entre mesas e cadeiras, como que sem saber o que fazer, foi para outro aposento, provavelmente olhar na internet — deve ter procurado o número da lei de obrigatoriedade que, se ela procurou, estava lá.

Minutos depois, ela voltou e fez uma cara de criança batida.

Eu, já meio nervoso, cheíssimo de dedos, me sentindo como o Ulisses na embaixada a Aquilies na Ilíada, insisti:

— Moça, falta apenas pegar os seus dados.

A mãe tentou ajudar:

— Só falta você, filha.

Sentada no sofá, vencida, olhando para a parede, ela resmungou:

— Fazer o quê, se eu vou ter que responder?

— Sua mãe me passou alguns dados, não tem problema - expliquei.

— Não, tá bom, eu vou responder. Mas eu não vou dar nenhum número de documento!

— Não precisa, é apenas uma entrevista, a gente só pede documento quando algum morador não sabe alguma data de nascimento, coisas assim, tempo de serviço de algum morador da casa, essas coisas — expliquei.

Finda a entrevista, falei que eu já havia estado no condomínio duas outras vezes, e citei as pessoas que havia entrevistado, entre elas o síndico. Falei que entreguei-lhe toda a minha documentação profissional. E falei de uma senhora, que elas conheciam.

A simpática matriarca me disse que aquela senhora não havia gostado da pesquisa. Achou muito intrusiva. Me lembrei do caso. E expliquei às duas.
— Sim, da dona fulana. Ela estava com uma vizinha. Lembro-me que ela estava tomando chá e comendo pão de queijo e que não me convidou prá sentar, nem me ofereceu pão de queijo.

As duas sorriram. Continuei:

— Quando eu pedi a renda, a tal vizinha, que não tinha nada a ver com a conversa, começou a questionar as perguntas que eu fazia. Me disse: “Sabe o que eu acho? Eu acho que o IBGE tá querendo se meter muito na vida das pessoas”. Respondi: “essas pesquisas são bem antigas e portanto são praticamente são as mesmas há mais de trinta anos”. Acho que essa moradora, que não tinha nada a ver com a entrevista, resolveu fazer a minha
caveira no prédio, acho que foi isso.

As duas riram. Mas eu estava com os nervos em frangalhos. Na saída, a filha olhou prá mim e disse:

— Puxa, me desculpe, garoto, desculpe (etc)

Acho que meu nervosismo mal dissimulado as desarmou. Pior que até consegui uma coisa que é muito difícil — ainda mais em situações assim, que é reverter uma recusa, ainda mais na minha cara.

Notei que, assim que fui embora, a mãe ficou meio exasperada com a (compreensível, é lógico) atitude da filha. Afinal, nunca se sabe. Mas essa patuscada era apenas uma mísera entrevista num universo de bilhões e bilhões, como diria o Carl Segan.

Nunca se sabe. Não tiro a razão delas; gente sabe que tem muito malfeitor que usa uniforme de polícia, companhia de energia, de tevê a cabo, para conseguir alguma vantagem. Quem paga o preço são os verdadeiros. Na entrevista, eu sempre digo:

— Quando o agente de pesquisa anda por bairro nobre, as pessoas acham que é bandido disfarçado. Quando anda em bairro pobre, eles acham que é a polícia disfarçada.

Os entrevistados sempre riem com essa. Mas não deixa de ser uma verdade. Sempre que eu estou na favela com o colete, algum moleque grita em surdina, quando passamos em algum beco:

— Olha a chuva.

Estava em dupla fazendo listagem na Vila Cruzeiro. Eu estava meio tenso. De portas e janelas, as pessoas nos olhavam de soslaio. O colega me disse:

— Olhe para todos e dê bom dia.

Ele sorria e dava tchauzinho prá todo mundo, como político em tempo de eleição. Eu me divertia. Logo depois, já havia aderido. A gente batia palmas e dizia: “olá, vizinha!”. E as pessoas apareciam.

Com o tempo, eu já sabia que favela era produtivo. A gente corria todos os riscos, mas podia correr em qualquer lugar. Assalto, tiroteio, essas coisas. Às vezes, era a polícia militar quem nos advertia:

— Acho melhor vocês partirem, já passou do meio-dia. De tarde, a casa via cair aqui, meu querido.

Nossa chefe já havia nos dito. Nada de ir para favela a campo sexta-feira de tarde. Eu nunca fui. Em locais como a Nazaré, a Tuca ou a Maria da Conceição, a gente sempre dava um jeito de regatear de ir de grupo e de carro oficial pela parte da manhã.

A primeira vez que eu fui na Nazaré — na Sertório, entre o hipermercado e o Salgado Filho, fiquem com uma sensação de desolação. A mesma que eu via no olhar dos novatos, quando vinham de um lugar assim. Era outra cidade, outra vida. Uma vila de papeleiros, mal organizada, mal traçada, uma cidadela de ruelas e becos sem saída. Todos compartilhavam o mesmo sentimento de alívio em sair dali findo o trabalho.

Eu, de alguma forma, como um espectador de touradas, como diria o Heminguay, fui perdendo a sensação de exotismo da primeira vez e, a cada partida à campo, tinha a mesma sede de ver as tripas ensanguentadas dos cavalos no chão da arena. Não me exasperava mais aquele tipo de ambiente, que choca e que a maioria das pessoas que vivem em Porto Alegre não conhece.

Mas a despeito de toda a tristeza de ver aquelas sub-habitações, um emaranhado de “gatos”, lama, cachorros tentando pegar as nossas canelas (“nunca, jamais dê as costas para um cão quando cruzar um beco”, já me dizia um veterano), éramos bem recebidos em favelas.

Tirando a violência, que existe, noto que as pessoas das favelas são muito cordiais, são pessoas do seu bairro. Já as de regiões de alto poder aquisitivo são muito esquivas, desconfiadas, quase misantropas, fechadas em suas casas gradeadas, como se mais ameaçadas do que quem convive diariamente com tráfico na rua e com a polícia por todo o lado a qualquer hora do dia.

Essas pessoas realmente vivem uma distância social muito grande. É um choque vislumbrar isso como espectador diferenciado. Não vivem as mesmas realidades na mesma cidade, e nunca vão viver.

Entrevistei uma auxiliar de limpeza (encostada há pelo menos sete meses pelo INSS, porém sem receber contribuição) que mora com sete filhos num casebre atrás do supermercado Zanella, na Lomba do Pinheiro. Ela vive de um famélico Bolsa-Familia prá sete bocas.

Ela jamais vai entrar num hipermercado chique na Bela Vista, onde é gerente morador na Boa Vista, em frente à praça Japão. Ele jamais vai andar com o carrão importado dele na rua de chão batido onde ela mora. Duas pessoas cujas respectivas realidades jamais irão se encontrar.

Então eu conseguia jogar dessa maneira. Todo setor censitário tem o seu lado complicado. Fora os limites geográficos dos mapas de papel que eu carregava, era a mesma cidade.

Assentamentos urbanos, de fato, são uma tourada, de acordar cedo e pegar o touro à unha, como na marchinha. A compensação era a de matar a semana numa visita apenas. Eu até podia aproveitar o tempo de sobra para ajudar os outros de carro — algo raro, em se tratando desse tipo de pesquisa, onde tudo funciona na base do “cada um por si”.

O saldo, em geral, fora os sustos, tiroteios, cara feia, recusas de moradores e sobrecarga de trabalho, era 100%. Em um ano, eu havia compreendido todas essas questões, muito embora sempre uma nova região, um novo bairro, é sempre uma descoberta.

Eu, que não ia muito além da Porto Alegre central descobri a minha cidade. Ao mesmo tempo, fiquei espantado em ver como existem tantas cidades dentro da nossa capital. A Restinga, por exemplo, é uma região autônoma. A parada 16 da Lomba, à primeira vista, parece outro município.

Pessoal que mora nos arrabaldes se refere quase sempre ao Centro de “Porto Alegre”. “Ah, eu tive que ir em Porto Alegre fazer uma consulta”. A senhora que me disse isso morava na Vila 1º de Maio, naquela encosta atrás da casa do Teixeirinha.

A estrada que sobe chama-se das “enfermeiras” porque, há muito tempo atrás, as funcionárias do hospital Divina Providência alugavam peças por ali, isso — me contava um morador do local (depois soube que as enfermeiras eram, na verdade, do Hospital Parque Belém do tempo do Oscar Pereira, mas essa é uma outra história) — no tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça e o disco “Coração de Luto” tocava em todas as rádios.

Passado o susto, a gente aprende todos os caminhos da cidades. As distâncias vão diminuindo, mas é quando você descobre que Porto Alegre é um mundo. Um não: vários mundos, várias cidadelas compartilhando o mesmo céu, o mesmo rio.

Fui conhecendo cada torrão da capital, mês a mês. Eu vivia isso com o mesmo deslumbramento de um turista. De fato, se esquecermos um pouco a correria, as pressões de entrega de produção de entrevistas, olhando pelo lado positivo, é um turismo interessante. Nós acabamos fazendo parte da cidade e ela passa a ser um pouco nossa também.

Houve dias em que nós corríamos atrás de entrevistas que faltavam para fechar o mês. Conseguimos, no meu tempo, formar um grupo informal que era como os músicos de Bremen: juntos, ninguém podia conosco. Esquadrinhávamos Porto Alegre. Agora, ela era nossa, nada mais do que nossa.

Percorríamos todos os setores com entrevistas abertas (não-realizadas) e, às vezes, andávamos por toda a cidade, do Parque dos Maias até Lajeado, do Lami até o bairro Farrapos, pouco antes da Arena.

Ainda dava tempo de guardar o chapa branca na garagem do Instituto no fim da tarde no finalzinho de expediente, camiseta suada e com sensação dos três pontos ganhos depois da partida.

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Eis que, um dia, eu recebi um setor do meu oitavo trimestre. A pesquisa-piloto é a Pnad Contínua. Pude me dar ao luxo de escolher, e peguei a Vila Jardim. Dois anos depois, voltei à famosa Ernesto Pellanda.

Tudo parecia igual, exceto uma farmácia, que havia fechado e uma carrocinha que apareceu, no outro lado da rua. Eu não tinha feito a listagem para essa vez, e foi muito difícil achar as casas pelos endereços e com o novo mapa.

Com engenho e arte, eu fui encontrando todas elas — menos uma, que foi contada errada, e tivemos que excluí-la da pesquisa como “domicílio não encontrado”. Sobraram treze, que eu fiz em três dias.

Quando voltei à agência, no Centro, depus meu colete. Já era o quinto ou sexto. Eles não duram muito. De azul-escuros, contra o sol, ficam azul-piscina. Azar; antes eles do que a nossa camiseta. Com o tempo, acabei me viciando em usar calças de carteiro e botas.

A verdade é que o agente de pesquisa caminha muito, e de sol a sol. E diferente dos Correios, a gente não recebe nada além do colete. Eu acabei me acostumando a andar com eles, já que é possível forrá-los com todo o que for possível, como colete de fotógrafo.
Até quando eu estava sem ele tinha o cacoete de buscar a caneta no bolso superior esquerdo...

Descarreguei as entrevistas que estavam no meu PDA (esqueci de dizer o que é isso. Trata-se de uma espécie de smartphone emborrachado de azul com o logo do IBGE, com um programa específico e um lápis touch screen, onde as entrevistas são armazenadas, substituindo os formulários de papel).

Como fazia quase todo fim de tarde, joguei colete e boné no caixote da sala da pesquisa, peguei mochila, pus o casaco, passei pelo guarda da entrada e dei o último adeus.

Quando ganhei a Duque de Caxias e desci as escadarias do viaduto Otávio Rocha, observei o rush do fim de tarde, olhei para o Morro Santa Teresa ao fundo e me dei conta que a minha aventura havia acabado.


* Texto selecionado para o livro "Histórias de Trabalho - 2014", da Editora da Cidade, lançado na Feira do Livro. Publico atendendo a pedidos (não muitos).