Showing posts with label Literatura Brasileira. Show all posts
Showing posts with label Literatura Brasileira. Show all posts

Sunday, December 16, 2018

Olhai os Lírios do Campo, 80 anos


Erico Verissimo

2018 marca os oitenta anos do Olhai os Lirios do Campo, do Erico Verissimo. O livro foi um sucesso em seu lançamento, e tornou-se desde então um dos mais vendidos em toda a sua carreira literária. Nas suas memórias, ele nunca soube entender muito bem a razão do sucesso do volume. Ao mesmo tempo, com o tempo, passou a ser um crítico da escritura da obra, achando-a por demais, ingênua ou até inverossímil na caracterização do protagonista, Eugênio.

Interessante observar a popularidade que esse livro teve. Erico ganhou um bom dinheirinho com a venda dos direitos para a adaptação em filme ( Mirad los Lírios del Campo, filme dirigido por Ernesto Arancibia, roteirizado por Tulio Demicheli e Mariano Perla) e pôde até saldas velhas dívidas do tempo de farmacêutico em Cruz Alta. Ele conta, em suas memórias, que uma leitora estava inconsolável ao saber que, na verdade, Olívia nunca existiu. Outro senhor, ao encontrar Verissimo em Portugal, em 59, revelou que seu filho virou médico depois de ler o livro.  

Acho que muito do sucesso e do afeto por parte dos leitores deve-se pela forma como ele abordou os personagens principais. Eugênio que era um médico que tinha um trauma da origem pobre, e que conheceu uma colega de medicina que é uma espécie de eterno feminino na história, a Olívia. Ela morre no começo e isso gera um anticlímax. A personagem principal morre na metade do livro!

Eles se amaram mas ele quis casar uma moça do café-society porto-alegrense, que vive ente saraus e  clubes de leitura. Enfim, se casa pelo dinheiro, pela fama, vira um títere nas mãos do sogro.  Mas ela permanece na vida dela como lembrança.

Ela morre mas essa ausência dela se transforma numa presença dela sob a forma de legado que faz com que ele desista daquela vida fútil, daquela busca pela fama e pelo dinheiro (clichê que depois o Erico iria criticar, no prefácio dos 30 anos da publicação do livro) e, como um franciscano, ele vira um médico popular.

Ele muda a visão de mundo dele, torna-se um médico humanitário, e essa mudança também ocorre quando ele descobre que Olívia tele uma filha com ele.  E a Olívia é uma personagem que, depois de morta, permanece sob a forma de memória.

Esse é o grande wit do Erico, esse eterno feminino de como ela, através das cartas dela que ele encontra, e das lembranças das conversas que tiveram juntos, aí ocorre esse processo de individuação do protagonista.  Olívia é um ser beatífico.

No fim, ele diz que foi ou que conheceu Fausto, Hamlet e Pigmalião. Aí a gente nota a genética do texto: Eugênio é Fausto porque vendeu-se pela glória e o dinheiro. É Hamlet porque ele ele é um ser indeciso, é uma pessoa que protela o que ele deve fazer, tomar as rédeas da própria existência. E Pigmalião porque, ao se casar com a ricaça. ele aceita ser um My Fair Lady às avessas, um pobre que vira rico ao bel prazer da esposa. Essas são as referências explícitas. Mas há as apócrifas. 

Ao mesmo tempo, eu vejo, nesse eterno feminino, o mito da Beatrice do Dante. Ele, como o poeta, teve que descer para obter a purificação, e a jornada de ambos é de purificação. Eugênio tem essa epifania quando ele cai no inferno da vida de médico dos pobres, e ele o desfile de horrores, isso é bem mostrado no livro. E como Dante tem Virgílio, Eugênio tem o Dr. Seixas.

Ele é um cara lúcido mas ele não é capaz de atingir esse estágio de individuação que Eugênio consegue.  E ele consegue por causa da Olívia morta, como Beatriz, que Dante conheceu, ele a reconheceu no Purgatório, e que lhe conduz até o último círculo do céu.

E é uma viagem de profecia, porque Dante acreditava que era preciso que os homens se convertessem, e Eugênio, a partir de Olívia, postula justamente o versículo do Novo Testamento que dá nome ao livro. Essa é a mensagem que ele quer passar agora como um homem despido daquela vaidade e orgulho que, vamos dizer assim, o afastou da 'verdade' e de Olívia.

Olívia, como Beatriz, é a transitividade absoluta para Deus. Eugênio não acredita em Deus diante de tanta desgraça. Olívia faz com que, ao olhar a vida, ele veja Deus (tema de Deus é recorrente na obra do Erico, por sinal, um agnóstico).  Olívia e Beatriz são dois caminhos para o encontro de uma compreensão superior.

Dante julgava que seria possível chegar a Deus pelo intelecto, mas só através do amor é que ele é capaz dessa ascensão. O que a razão não era capaz de atingir, o amor era, Beatriz era o caminho para atingir o inatingível. E é esse último céu o que move o sol e as estrelas. Esse signo do firmamento (no Erico como signo de contemplação) e o sol (como de renovação, do novo dia) é recorrente.

Mas em Dante, esse encontro se dá num plano divino (daí Divina Comédia) enquanto em Eugênio ele se dá pela descoberta das cartas, e pelo plano da mnemosine, da memória, a musa grega que luta contra o esquecimento.

E no livro do Erico existe esse embate constante entre esquecimento e memória, de como as coisas passam e as pessoas esquecem, como Felipe Lobo inaugura o Megatério e sequer lembra da filha morta. Ao mesmo tempo, Eugênio vê que Olívia vai ser fatalmente esquecida por todos. Tem um personagem, um médico russo que, ao morrer, diante de Eugênio, quer doar o dinheiro para um hospital para a construção de um setor para que esse setor ganhasse o nome dele como benemérito.

É um exemplo dessa luta contra o esquecimento. Ao mesmo tempo que, depois de morta, Olívia permanece em Eugênio como uma presença ausente, mas que não é motivo de remorso, mas de exemplo, de um espírito beatífico que vai estar ao seu lado nas belas lembranças e nos olhos da filha deles. Acho que é por esses motivos e tantos outros que o livro chegou aos 80 anos mais vivo do que  nunca. 

Thursday, July 19, 2018

A Escolha de Sílvia


Tem uma cena d' O Arquipélago (1) em que Sílvia, a moça pobre e filha de criação de Rodrigo Cambará, tem um conflito enorme com sua mãe, que é costureira. Esta critica a forma como a filha idealiza a memória do pai, que desapareceu.

Rejeitada pela mãe, que tem para com ela uma relação ambígua, ela transfere seu afeto para o novo pai. Com o lar fendido, ela sonha em ser aceita pelo pessoal do Sobrado. A realidade com a mãe é terrível. Sílvia é constantemente frustrada em sua idealização do pai, como se essa fosse uma forma de sua mãe a aliciar para si, jogando-a contra à memória dele, tão cara à menina.

De certa maneira, quando eu li o Solo de Clarineta (2), qual não foi a minha surpresa quando vi uma cena parecida com essa, porém se passando entre Dona Bega, a mãe de Erico, e o escritor. De fato, em dado momento, os pais dele se separam. Sebastião vai embora. A matriarca da família, com a máquina de costura e o chapiliniano manequim, sustenta a casa. É uma situação quase de livro do Dickens. Quando seu pai pega o trem para nunca mais voltar, Erico decide ficar com mãe. Ela, surpresa, diz: "pensei que você fosse ficar com ele".

O mesmo sentimento de culpa aparece em Sílvia. A mãe faz toda uma chantagem emocional, mas existe amor naquele empenho em sustentar o que sobrou da família. Por isso que a costureira não entende o desvelo da moça por um homem infiel e que as abandonou. Erico também fica entre dois corações. Ele não pediu para que seus pais se separassem, mas a realidade e implacável. O fantasma do seu pai irá o assombrar pelo resto da vida.

A necessidade de sustentar aquela família separada marca a sua vida e a sua primeira literatura. Os primeiros livros do Erico vivem à sombra dessa tragédia familiar - a imperiosa necessidade de começar do nada, em terras estranhas. Curioso que, voltando ao Solo de Clarineta, ali Verissimo fala que reconhece o fato de que transformou a mãe de Floriano, seu alter-ego, numa figura nula, se comparada à outras personagens femininas da trilogia.

Segundo ele, havia consciente ou inconscientemente um temor de que Flora ficasse parecida demais com D. Bega. Porém, sua mãe 'aparece' de certa forma na mãe de Sílvia, aquela mãe desesperada, que precisa sustentar o que restou daeuele lar perdido (e que Erico transformará simbolicamente como a sua grande busca) e que, mesmo de forma transtornada, quer ser aceita pela filha. Essa faceta do amor materno Erico transpôs para esta personagem secundária, e não para Flora.

Por sua vez, no Sobrado, Flora está na sombra de Maria Valéria. Esta, impositiva, assume uma papel quase masculino, quase andrógino (ou totalmente andrógino) desde ao ombrear Licurgo em O Continente até ao controlar, a manu militari, a vida do sobrado.

Sílvia porém quer ser aceita por Rodrigo e quer fazer parte dos Cambará. Para ele, ela é Alicinha, a filha que perdeu muito jovem. Rodrigo quer integrá-la e casá-la com Jango, seu filho mais novo. Ela fica dividida: naquele momento, desde a malfadada "noite de ano bom", busca ser correspondida por Floriano, o filho mais velho. Este, porém, na questão dos afetos, é um caso a ser estudado.

Floriano sempre me pareceu quase um personagem de tese. Ele parece estar tão ligado ao mundo intelectual de Erico, principalmente pelo fato de ser um escritor, por sua vez, em busca de aceitação. é considerado pela crítica como superficial e burguês pelo irmão. Quando retorna à Santa Fé, resolve colocar sua literatura no divã cujo analista é Tio Bicho.

Nesse momento, ele põe todas as suas expectativas e sua obra em revista. Tio Bicho acredita que ele precisa abraçar as raízes, escrever seus livros com os pés no chão. De certa forma, novamente percebemos Erico na encruzilhada da vida.

Verissimo também estava num processo de mudança de ótica e de ética em sua obra e, de certa forma, O Tempo e o Vento representou a mudança, desde aquela primeira fase, de Clarissa até O Resto é Silêncio até O Arquipélago, que abre a sua segunda fase "política", que vai até Incidente em Antares.

Floriano precisa passar pelo movimento dialógico com Tio Bicho, que é uma espécie de Tirésias, que profetiza e, a despeito de "cego", ele enxerga aquilo que falta para que o filho de rodrigo supere esse impasse. Um desses obstáculos era enfrentar e matar simbolicamente o pai. desde um funesto episódio, ocorrido em 30, os dois se separaram.

O pai não sabe o que o filho sente a respeito dele, e a recíproca é a mesma. É preciso enfrentar esses fantasmas, superar essa divisão, e esse é o ponto crucial na história, já no fim. Quando ambos ajustam as contas, Rodrigo pode morrer em paz e Floriano pode espantar seus esqueletos e paranoias do armário mental e seguir seu caminho, agora ele é o pai de si mesmo.

Mas se Floriano 'se resolve' como filho e escritor, a relação com Silvia é curiosa. Ela o ama incondicionalmente, mas frustra-se com sua indecisão. Ao mesmo tempo, ao contrário do pai, que é um emocional, e chora de amor até pelas amantes, o alter-ego de Erico tem uma certa rigidez afetiva que afasta Sílvia.

Ele parece pragmático demais, e amoroso de menos. A relação dele com Mandy (sua namorada americana) é tão superficialzada que é difícil saber onde começa a intenção do autor na construção do personagem ou se, como ocorre com Flora, é uma 'falha' da caracterização de Floriano. Afinal, por que existe tão pouco amor nele? De onde vem essa falta de paixão?  Mesmo assim, dentro do espírito de praticidade típica dos Cambarás, seu pretendente oficial, Jango, é outro que, como Licurgo, não demonstra amor nenhum pela futura esposa.

Sílvia sabe que Jango é a promessa de integrar-se definitivamente ao Sobrado. Quanto mais o tempo passa, ela sente que está perdendo Floriano Este, porém, só realmente demonstra interesse por ela quando é tarde demais.

Nesse meio tempo, quando há um hiato entre os dois, ela escreve um diário que de certa maneira, é o expediente extremo que Silvia lança mão de forma a elaborar essa perda e enterrar esse amor. O diário vira uma história dentro da história, e é um grande wit de Verissimo dentro do livro.

Como se fosse uma vocação de ser uma mulher do sobrado, renúncia das renúncias, ela finalmente aceita Jango como marido e abraça o amor a Deus e a religião como forma de sublimar aquele amor perdido. Mais tarde, Silvia empresta o diário à Floriano, que o utiliza como subsídio para o livro que irá escrever - e que descobriremos no último parágrafo, o livro é a própria trilogia que acabamos de ler.

Floriano conta o ocorrido a Tio Bicho que, à sua maneira, depreende do episódio que, claro, Erico aqui fala por ele, Sílvia sublima o amor proibido pela religião. É uma situação amarga e, de certa forma, pouco explorada pelos exegetas do O Tempo  e o Vento. Por que raios Verissimo optou por um final infeliz? Porém, por outro lado, nós ficamos a pensar: e se ele tivesse concebido um final feliz?

Floriano talvez, da forma como foi concebido, tão sem amor e tão apaixonado pela sua literatura, não seria capaz de conciliar as duas coisas?

No fim das contas, assim como Jango, da mesma forma que, segundo Luzia, como a maioria dos homens do continente, amava mais os cavalos do que as suas respectivas esposas, estava mais preocupado com os carrapatos da vacaria do Angico do que com a felicidade de Sílvia. E Floriano, apesar de ser um homem cosmopolita, intelectual, apenas trocou a lida campeira pela vida literária - são os dois lados da mesma moeda.

A escolha de Sílvia, para nós, pode ser inconsolavelmente triste. Sua renúncia, por seu turno, é tão difícil como a das mulheres que vieram antes dela. É uma escolha sincera, mas a promessa de ser a próxima na linha sucessória do sobrado implica num caminho triste e solitário.

Ela poderia renunciar a essa renúncia, e ser esposa de Floriano no mundo urbano e intelectual da Capital Federal. Mas, se o atavismo da moça do interior falou mais alto, ou a necessidade de ser a dona do Sobrado, e a promessa dada a Rodrigo em casar-se com Jango, enfim, toda uma série de fatores que fizesse a sua escolha.

Regina Zilberman tem um ensaio (3) admirável sobre o Tempo e o Vento fazendo uma comparação do percurso familiar dos Terra-Cambará com a tragédia dos atridas da Oresteia do Ésquilo, e da forma como a sublimação das paixões intestinas na realidade moderna da pólis interrompe a trajetoria sangrenta e mítica. Pegando o mote esquiliano, minha hipótese é a de que Sílvia e Floriano fariam parte desse pacto. Para que a 'maldição' não se perpetue, é preciso que essas paixões sejam simbolicamente refreadas.

É notável como, além de restaram separados para sempre, é como se, assim como ocorre com Orestes e Electra, eles permanecerão como personagens "celibatários". Floriano vai solitariamente cuidar de Flora no Rio e escrever as suas cosmogonias urbano-campeiras; Silvia, embora casada e com um filho à caminho, será, até o fim dos tempos, a castelâ solitária. Assim como ocorrerá aos filhos de Agaménon, separados para sempre.

No tocante ao caso de Orestes e Electra, como lembra Zilberman, para interromper o ciclo de desforras, era preciso interromper a causa principal, a libido. Ao cotejar Ésquilo com Erico, ela salienta que, quando os Cambarás tomam o poder em Santa Fé o elemento familiar torna-se secundário em favor do político (quando Licurgo derrota os maragatos e finalmente toma o poder no município, com a vitória de Júlio de Castilhos, em 1895).

Como ela observa ao analisar as personagens femininas, a característica essencial desses episódios (Ana Terra, Bibiana) é demonstrar o papel delas em esforçar-se para perenizar a família e a sucessão, garantida à custa da "castração sexual (...) e da dedicação obsessiva aos filhos" (p.156). Ou, parafraseando Regina Zilberman, sob a capa da ruptura, vemos o eterno retorno do mítico.

Por fim, quando chegamos ao Arquipélago, o familiar volta à tona.  Se O Continente (e O Retrato) representam essa mudança do mítico-familiar para o político-histórico, na última parte da trilogia, vemos um refluxo, onde o eixo dramático gira, com efeito, justamente em torno de Floriano e Sílvia, (muito embora noves fora, mais numa perspectiva psicológica do que propriamente mítica). E poderíamos inferir, à titulo de conclusão, que o trágico aqui ocorre, paradoxalmente, na ausência do trágico ou na sublimação deste.   


BIBLIOGRAFIA

(1) VERISSIMO, Erico. O Arquipélago. Globo, 1962.
(2) VERISSIMO, Erico. Solo de Clarineta. Globo, 1973.
(3) ZILBERMAN, Regina. Saga Familiar e História Política. In: O Tempo e o Vento: história, invenção e metamorfose. EDUPUCRS, 2001.

Tuesday, April 10, 2018

O Último Morador do Sobrado


Sobrado dos Verissimo, em Cruz Alta

Esses dias eu reli as duas últimas partes do Arquipélago, do Erico Verissimo. e fiquei imaginando: o que teria acontecido aos personagens do romance a partir dali?


Então pensei numa história - que acabei abortando, de inventar uma história de um repórter quem, movido por pura curiosidade, depois de encontrar uma nota dando conta de que o sobrado de santa Fé havia sido tombado finalmente, no final dos anos 90, com a morte de Sílvia Cambará, a última moradora do casarão.

enviado à Santa Fé, ele descreve a cidade como se encontra hoje. Não muito diferente das cidades do interior do Rio Grande. Na verdade, acho que o Erico quis dar à Santa Fé, assim como em Antares, fumos de pequena metrópole, algo que é difícil de conceber, ainda mais naquela região serrana do estado. Para tanto, basta ver a cidade que tem duplicidade com a dos personagens de O Tempo e o Vento: Cruz Alta. Apesar dos pesares, ainda é uma cidade pequena, cuja inanição permitiu que muito do casario permanecesse, principalmente naquela região próxima à antiga estação de trem, com suas ruas fatigadas e sobrados de telhados avoengos.

O repórter chega à Santa Fé. Descobre que o Clube Comercial, o Schintzler e a Casa Sol ainda existem, porém sob nova direção. O cinema é agora uma igreja evangélica. O busto de Lauro caré, da praça, foi levado com todo o bronze. Já a herma de d. Revocata ainda está lá, contudo sem o óculos, que foi arrancado, por pura diabrura de algum moleque.

Ao deparar-se diante do sobrado, ele percebe que o prédio está bem preservado, porém fechado há tempos, desde a morte de d. Sílvia. Como acontecera com as outras moradoras do casarão, D. Bibiana e D. Maria Valéria, Sílvia viveu muito tempo. Conversando com vizinhos, descobriu que o atual responsável pelo prédio é um filho dela, um certo Licurgo, que mora na antiga fazendo de seu Babalo. Marcam um encontro no dia seguinte, ali mesmo.

O repórter fica admirado ao entrar no casarão: tudo está preservado. Tombado, o prédio iria destinar-se a ser museu — explica o único filho de Sílvia. No entanto, não há verba estatal. Enquanto a situação fica em compasso de espera, o sobrado dorme seu sono secular de móveis cobertos por lençóis — inclusive o hierático retrato do dr. Rodrigo Cambará, que parece um fantasma de tempos passados.

Que fim levou os Terra Cambará, pergunta o repórter. "Papai morreu campereando, caiu do cavalo", revela Licurgo. segundo ele, isso foi quando ele ainda era criança. "Mal conheci papai", diz. Licurgo conta que Irmão Toríbio foi para Santa Maria, onde virou professor marista, viveu lá por muitos anos, onde morreu. Tio Bicho adoeceu e foi para Porto Alegre. Dali em diante, não se sabe o que aconteceu. dizem que foi parar no São Pedro.

E Floriano? "Foi para o Rio com D. Flora. Depois que ela morreu, ele assumiu a direção do Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos, em Washington, onde passou o resto da vida". O filho de Jango conta que, porém, ele esteve em santa Fé no final dos anos 50, especialmente para escrever a continuação daquele livro sobre a história da família. "Foi a última vez que mamãe e tio Floriano se encontraram", revela.

Depois da morte de Jango, Sílvia ficou sozinha. Acabou tornando-se a última senhora do sobrado. O neto do dr. Rodrigo explica que, com o tempo, era difícil para uma pessoa só dar conta do sobrado inteiro. "Depois da morte do vô Rodrigo, a família foi se desintegrando", revela. "Parece que o Sobrado, que foi um esteio da família, tinha a vocação de um útero vazio. D. Bibiana tanto sonhou com uma família que enchesse o sobrado, mas esse prédio parece ter a vocação do abandono", entende.

Ele conta que, na verdade, ele passou a viver e cuidar do Angico, até que se viram obrigados a vender as terras. "Lembra da quele menino que era bom em matemática, que mamãe menciona no diário do livro do Tio Floriano, de quando ela dava aulas aos moleques do Angico?". Respondi que não. "Pois ele cresceu, virou doutor e fixou rico, acabou comprando o Angico" diz. Licurgo explica que sacrificar a estância foi a forma de preservar o resto. Ele herdou as terras do seu Aderbal, mas Sílvia não quis arredar pé do Sobrado.

D. Sílvia viveu os últimos anos como Hiroo Onoda, aquele soldado japonês que, finda a guerra, continuou lutando. Porém, o seu combate era a preservação do Sobrado. Ela sabia que, como D. Bibiana, a sobrevivência do prédio dependia dela. "Certamente que, se não fosse por ela, o sobrado já havia sido demolido e transformado num estacionamento ou coisa parecida", diz o último morador do Sobrado. "Ela me dizia que D. Maria Valéria lhe contara da história daquele terreno, e do esforço sobre-humano que D. Bibiana empreendeu para que o casarão ficasse com os cambarás".

"Falando nisso, e D. Maria Valéria?", quis saber. "Ela viveu mais um ano depois da morte do vê Rodrigo", disse Licurgo. "Curiosamente, ela e o seu José Lírio, o Liroca, morreram no mesmo dia, curioso, não?". De fato, por essa nem o Erico Verissimo imaginaria...



Tuesday, January 16, 2018

Machado de Assis e a cultura do favor no século XIX


Machado de Assis


O presente artigo busca analisar a cultura do clientelismo no Brasil oitocentista sob a ótica do escritor fluminense Machado de Assis, mais precisamente num livro de transição em sua obra, Iaiá Garcia, de 1878. Para tanto, iremos basear nosso ensaio na análise já clássica de Roberto Schwartz, em Ao Vencedor as Batatas (1988).

No estudo citado, o autor observa que, num momento fundador, nosso ficção enxergou as peculiaridades da vida familiar brasileira sob a ótica do pitoresco e da busca da identidade nacional, cujo resultado foi positivo. O grande representante dessa fase foi José de Alencar.

Numa geração posterior, Machado de Assis retoma o complexto temático, porém sem a “névoa protetora da cor local e a autocongratulação patriótica”. Aqui, a família brasileira passa a ser encarada, segundo Schwartz, em A Viravolta Machadiana (2012) sob o prisma do dependente instruído, que fazia parte dela e constituía um problema. O impasse estava dado, com o desequilíbrio dado por entre as classes. Se, num primeiro plano, há a narrativa romanesca, num segundo plano, vemos a nu a relação entre dependente e família de posses, sob o signo opressivo da proteção, que a qualquer momento pode ser retirada.

Burguês e escravocrata, lembra o autor, o Brasil dava forma mercantil aos bens materiais, mas não desenvolvia o trabalho assalariado, aonde uma problemática especial, de classe, à qual aludem os romances, principalmente os de sua primeira fase, de Ressurreição (1872) a Iaiá Garcia. Assentado na cultura escravista, diz Schwartz, o país fazia com que homens livres e pobres, nem proprietários, nem proletários, vivessem um tipo particular de privação ou semiexclusão (2012, p.259).

Na crônica do chamado mal-estar dos dependentes, diz o autor, Machado de Assis mostra um quadro de personagens “do subsolo” lutando por sua dignidade pessoal, “travada no âmbito das famílias proprietárias. No centro da intriga, existem heroínas pobres, inteligentes e lindas — além de muito suscetíveis — [que] faziam frente à injustiça de que eram vítimas.

Dessa forma, na ótica do Bruxo do Cosme Velho, a intriga sentimental deveria humanizar essa sociedade ‘incivil’: o enfrentamento das heroínas com os abusos de autoridade de seus padrinhos, femininos ou masculinos, se dá sob um signo diferente em cada um dos quatro romances [da primeira fase], o que aliás ilustra o ânimo experimentador e sistemático da literatura machadiana (p. 265).



2. Iaiá Garcia

No romance, D. Valéria chama Luís Garcia, protegido do falecido Comendador (marido de Valéria) viúvo e pai de Iaiá, homem que certamente deve favores a ela. Pede à ele que tire Estela, a agregada da sua casa, da cabeça de Jorge, seu filho, e o convença a partir para a campanha do Paraguai. Em paga, D, Valéria daria a Luís a mão da própria Estela, fato que o rapaz perplexo descobre ao retornar da guerra, anos depois.

Jorge acaba entrando na vida dos Garcia ao, como doutor, ajudar Luís à morte e sua família. Com o convívio, acaba apaixonando-se por Iaiá, filha adotiva de sua antiga paixão. O complicado e inesperado triângulo amoroso separa as duas, Estela e Iaiá, que decide romper com Jorge, alegando que sua madrasta ainda o ama.

Estela por fim arruma um emprego de professora e parte, e então Jorge e Iaiá vivem felizes para sempre. Um ano depois, ao visitar o mausoléu de Luís Garcia, Iaiá encontra uma coroa de orquídeas de Estela, prova de fidelidade ao seu falecido pai.


3. Patriarcalismo e a Cultura do Favor


De acordo com Luiz Felipe de Alencastro (1987), o desejo em manter o escravismo no Brasil permitiu uma solução negociada entre a elite do centro e os respetivos grupos regionais do país. Isso também viabilizaria a articulação dos setores dominantes na consolidação de um estado forte. Porém, a imposição desse projeto provocaria um choque entre esses politiburos regionais e a Coroa. Durante o período regencial, vários conflitos eclodiram, como a Balaiada, a Cabanagem e a Revolução Farroupilha, por exemplo.

Com o fim das revoltas, o tom foi de conciliação com o Rio de Janeiro, conciliação cujo fórum seriam as assembleias provinciais. Surgidas a partir de 1834, elas emprestavam um relativo grau de autonomia a esses respectivos grupos. Contudo, no fim, como observa o autor, canalizava tanto disputas quanto interesses para dentro da máquina do Estado. Ou seja, de forma paradoxal, à medida que desejavam resistir à mediação do Império, eles cada vez mais dependiam do governo central no sentido de atendimento de seus interesses.

Essa conciliação ocorria nas assembleias mas também na Câmara dos Deputados. As revoltas regenciais também serviram de antídoto ao problema das disputas locais: a partir de agora, o governo central era um avalista da ordem interna.

Por sua vez, para a Corte, era preciso ampliar o grau de centralização do regime e a neutralização dos potentados locais. Ao inspirar-se, do ponto de vista formal, no modelo dos estados europeus, o Império buscava "civilizar" a população e ordenar a sociedade brasileira.

Na ótica de Maria Odila da Silva Dias (1980), esse projeto "iluminista" seria o principal argumento a favor de um governo autoritário, com poder de cooptar essas elites locais e garantir uma unidade nacional. Isso passava pela criação de uma rede estatal visando substituir a justiça privada pela pública e uma dominação mediada pelas instituições públicas em detrimento da dominação privada.

Mesmo empunhando a bandeira liberal com uma mão, o estado não podia escapar das contingências da ordem escravista. Numa sociedade como aquela, não havia a menor possibilidade de simplesmente transplantar o modelo liberal europeu para o Brasil. Assim, o modelo de estado adotado aqui ganhou um novo conteúdo.

A partir desse impasse, as novas instituições do Império criaram um mecanismo que, segundo Roberto Schwarz, iria reger a vida ideológica brasileira: o favor.

A sociedade escravista não conhecia a figura do profissional liberal. Naquele tempo, os homens livres não tinham acesso à vida social e bens senão por intermédio de um senhor de posses.

A relação de favor era cifrada no sentimento de igualdade e superioridade porque ambos eram livres, embora numa sociedade escravista. Como eles eram iguais, esse jogo era permitido; pelo compadrismo, podiam trocar favores. De acordo com Maria Sylvia de Carvalho Franco (1976), o favor foi a mola mestra desse paradigma de dominação no Brasil, a partir da segunda metade do Século XIX.

Segundo a autora, ao perpassar a administração pública, o favor introduziu o clientelismo como elemento a mediar o jogo político. Da ótica institucional, isso representou uma 'síntese' que tentava amalgamar um modelo moderno à cultura do favor. Para ela, a burocracia realizou

as formas e as teorias do estado burguês pela mediação do clientelismo, vinculando autoridade oficial e influência social na montagem de eficiente de um instrumento centralizador autoritário, explorado pela classe dominante em vista dos seus objetivos, identificados com os interesses nacionais (p.63).

Dessa forma, sob o signo do clientelismo, a política do favor foi entronizado na esfera do jogo político, emprestando novas cores à administração em geral ao mesmo tempo em que lançava mão de um modelo capitalista. Sobre o tema, Sérgio Buarque de Hollanda (1979) entende que foi através desse sistema que a elite conseguiu legitimar-se sob a égide de um estado sem qualquer base popular e sem apoio de um setor significativo numericamente. Para ele, a representatividade do governo central era apenas "aparente", legitimada por eleições fraudadas e falseadas. Era preciso então retirar do nada os eleitores e elegíveis e, para tanto, recorreu-se a uma farta distribuição de empregos públicos (p.22).

Segundo Sérgio Buarque (1985), isso começa em 1831, quando os portugueses deixam o poder e, a partir daí, homens livres e pobres foram progressivamente guindados ao poder, mas tornando-se meros funcionários públicos habilitados a serem "eleitores e elegíveis" (p.85). Isso causou uma perversão da noção de representabilidade, criando-se um sistema sui generis em que, para salvar-se a fachada parlamentarista, o governo há de depender, pelo menos teoricamente, da vontade dos representantes da nação, mas onde estes vão depender, por sua vez, da vontade do governo (HOLLANDA, op cit, p.23). Desta forma, preservava-se um sistema atávico cujo corolário foi a consolidação de um país de sinecuras.

Como se sabe, a monarquia brasileira viveu sob o sistema parlamentarista. A partir de 1837, dois partidos se revezavam, o Liberal e o Conservador.

Através de fraude, sempre que um novo ministério era nomeado, se este não tivesse maioria, ele era dissolvido e novas eleições seriam realizadas. Por causa da fraude eleitoral, o governo sempre contava com a maioria na Câmara. Assim, o grupo no poder conseguiu manter a estrutura escravista e permitiu acomodar a ordem "privada" dos tempos da colônia num estado moderno e capitalista.


3. Iaiá Garcia, Patriarcalismo e a cultura do favor

Segundo Roberto Schwartz, a ousadia da obra de Machado de Assis começou, por assim dizer, de forma tímida, limitada ao âmbito familiar, onde ele analisava as perspectivas e iniquidades do paternalismo à brasileira (SCHWARTZ, 2012, p. 248). Nesse sentido, podemos dizer que sua literatura está eivada de uma fauna de personagens que, dentro do âmbito do espaço familiar, representam de forma inefável tanto a estrutura quanto a cultura do favorecimento a partir dessa ótica singular.

Um exemplo típico é José Dias, de Dom Casmurro (1900). Ao lermos o romance fora do contexto, podemos não entender por que uma figura externa à família de D. Glória possui um papel tão proeminente dentro da família de Bentinho.

Ora, é justamente porque ele está inserido dentro da cultura do século XIX. Ou seja, José Dias pode parecer estranho aos olhos de hoje mas, dentro de um contexto de um Brasil capitalista e escravocrata como o que Machado de Assis narra em seu livro, o personagem seria apenas mais um. A própria estrutura familiar da casa de D. Glória não é incomum — uma matrona que cuida de bens, como imóveis, e vive cercada de uma parentela que gravita em torno dela.

É nesses limites conformistas, traçados pela ideologia do decoro familiar e a relação “conservadora” (como veremos adiante) entre parentes, favorecidos e um patriarca (ou matriarca, viúva e patusca, como no caso mais do que recorrente em Machado) que podemos observar, ainda a partir da primeira fase da obra do Bruxo do Cosme Velho, o quanto ele foi um anatomista da realidade social brasileira daquele período. Para tanto, vamos pegar como exemplo um romance que encerra a chamada fase romântica do autor, Iaiá Garcia (1878).


Assim como em Dom Casmurro, Iaiá Garcia tem o seu José Dias: O agregado Antunes. Escrevente, ele foi homem de confiança do falecido desembargador, marido de D. Valéria. É mestre na palavra. Como o Fígaro de Baumarchais, é o factorum da casa; dá recados, confidente em situações sentimentais, ajuda nas compras de casa, ceia com os familiares (exceto quanto há visitantes) e é apreciador de charutos alheios. Sua filha Estela é ajudante da viúva do desembargador, e ele sonha com o dia que ela se case com o filho de D. Valéria (no entanto, para a tristeza dele, o rapaz não é correspondido e sequer a matrona cogita que seu único filho case-se com uma moça “de baixo” como ela, e faz de tudo para afastá-los). Consola-se freqüentando o Tribunal, tem comportamento sabujamente subalterno, mas convive com os grandes, e detesta os de sua extração.

Jorge corteja a moça. A mãe dele resolve comissionar Luís Garcia (contínuo do Caixa, provavelmente indicado pelo falecido desembargador) para que o rapaz a esqueça. No fim, ele é rejeitado por ela, a mãe o manda para a Guerra do Paraguai e ele heroicamente alista-se. Quando retorna, tempos depois, descobre perplexo que nesse meio tempo, D. Valéria costurou o casório entre os dois “favorecidos”, Estela e Luís Garcia.

Schwartz, ao falar do livro em Ao Vencedor as Batatas (1988), salienta que ele é ao mesmo tempo síntese do que machado propunha nos primeiros romances (Ressureição, A Mão e a Luva e Helena) porém sistematizando a ciranda do favor, livre de recursos romanescos, como ocorrera antes. Para ele, a ideologia desta obra os limites que vigoravam nos livros anteriores. “Esta é a versão negativa da vantagem, enquanto ausência de desvantagem. Entretanto, na ausência daqueles limites, novos aspectos da matéria assumirão a função formal, e o resultado é a realidade melhor “observada”, isto é, melhor recriada (p.119).

De forma arbitrária, Valéria acena para o casamento entre Estela e Luís, que seria vantajoso para ambos, e para a filha daquele, Iaiá, que ganhará um dote. Ela gosta dela pelo que ele não tem a dar, isto é, um idílio. O que importa, segundo Schwartz, é o acordo: dado que a fortuna e as distinções sociais estão na dependência do favor, e portanto das quimeras da gente rica, o melhor é abafar as esperanças e ambições (p.125).

Ou seja, como bem observa Schwartz, a “humilhação” não reside propriamente nas relações de favor, mas nas ilusões que a acompanham: um regime onde quem busca algum tipo de distinção, reconhecimento ou ascensão é tido como “desfrutável”. Essa, poderíamos dizer, é a hibris do favorecido. À ele não é permitido mais do que lhe cabe.

Caso notório é o de Capitu. Uma moça pobre, filha de um favorecido de D. Glória, que aspira a ascensão social casando-se com o filho desta, Bentinho. O corolário, no entanto, para ela, é funesto. Ao contrário da heroína de Dom Casmurro, Estela não tem ilusões ao que concerne à sua situação inferior. Resignada, não cede aos arroubos do filho de D. Valéria. Da mesma forma, a situação inferior em que ela e Luís Garcia se encontram não significam situação limite com que faça com que eles busquem revoltar-se.

Ao mesmo tempo, a resolução de D. Valéria em afastar de seu filho o desejo de casar-se com Estela, o que romanticamente parece um anticlímax logo na largada do livro, demostra, na figura de Estela, justamente a sua fortaleza como personagem. O fato consuma-se quando, entre duas “xícaras de chá”, Jorge, já de volta da Guerra, demonstra interesse na filha adotada de Estela (à essa altura, já unida à Luís, por obra e graça da mãe dele, a protetora de ambos), Iaiá.

Roberto Schwartz salienta que, com isso, o leitor tem ideia da crueza com que o autor visa, ao relatar as humilhações próprias ao paternalismo. E terá noção do grau de arbitrariedade a que se vê entregue o dependente, sobretudo se for mulher (1988, p.130). Enfim, se a vida de Jorge é a de uma “evolução sentimental”, a de Estela, a agregada, é o “leque de acidentes que lhe reserva o amor de um moço rico” (idem, ibidem). De forma anti-romântica, continua o ensaísta, a distância social prevalece contra o amor, mas isso por convicção da própria valia, e não por tradicionalismo.

No campo opressivo que é dela, a personagem experimenta uma obediência sem baixeza, salienta Schwartz, que corresponde aos obséquios “frios de Luís Garcia”. O que realmente a constrangia era a corte de Jorge. Ao contrário de Capitu, podemos observar aqui, se o amor de um jovem rico pode suprimir as distâncias sociais, para Estela isso não o valoriza.

Ao contrário, apenas alimenta esperanças indignas — no caso de Dom Casmurro, após a morte de Escobar, quando o prédio emocional de Bentinho ruiu, todo o seu ódio foi catalizado contra a mulher que, com “olhos de cigana dissimulada”, usurpou um lugar que não lhe deveria pertencer. Logo, para muitos críticos, o “ciúme” de Bentinho passa necessariamente por um corrosivo preconceito de classe.

Estela, ao contrário de Capitu, não tinha nem ambições nem esperanças com relação a esse consórcio, ou perfazer o folhetinesco fait-divers de um casamento ultra-romântico, como “O princeso e a plebéia”. Diferentemente de uma trágica Desdêmona de Dom Casmurro, a resignada personagem de iaiá Garcia sabe qual é o limite de sua hibris.

Ao mesmo tempo, assevera o autor, tanto a dignidade de Luís quanto de Estela se constrói como resposta à arbitrariedade de seus protetores, e especialmente a seu aspecto mais veleitário, que é onde se concentra o caráter pessoal e degradante da subordinação (p.131). A solução da heroína consiste em dividir-se em duas: dá ao paternalismo o que é dele, mas lhe recusa o amor (p.132).

Ou seja, no fim das contas, a melhor solução é conservadora: o imobilismo. Quer dizer, é melhor que, numa situação como esta, cada um saiba qual é o seu lugar. Não porque a diferença social seja justa ou a tradição explique, diz Schwartz, mas porque os mediadores do movimento, o obséquio e o desejo de subir, são, segundo o ensaísta, ainda fatores mais degradantes (idem, ibidem).

Ele salienta que, a despeito do fato de que os agregados saibam que sua consciência de situação seja aguda, isso não se transforma em consciência de classe. “Nesta linha”, diz o autor, no entanto, “a dívida de gratidão parece pesar mais do que a inferioridade social.

A ideologia de classe que Machado de Assis nos passa ao falar desses personagens agregados é a de que todos movem-se sob o signo da racionalidade, ou melhor, de uma racionalidade particular. Essa razão consiste em não investir a esperança nas fantasias de seus protetores, nem nas próprias: é uma ideologia de desencanto e resignação. Eles não vivem a salvo do jugo e da prepotência, mas ficam a salvo da dependência interior. E, de certa forma, como também irá demonstrar Machado, essa diferença de classe conta com a cumplicidade do dependente com sua situação — como é o caso de Antunes, pai de Estela.

Agregado de um conselheiro de Império, ele jacta-se de sua condição (como a do mordomo de Brás Cubas, que sempre aparecia à janela para mostrar onde ele servia). Ele internalizou esse processo. A diferença, em Iaiá Garcia, está justamente na figura de Estela se comparada com a de seu pai: ela não irá elaborar sua condição desta forma e, no fim, buscará uma solução capitalista, ainda que à margem do capitalismo: virar professora no interior de São Paulo. Ela tem o seu foro íntimo, salienta Schwartz, e não são as preferências de sua protetora que definem as suas demandas (p.138).

Jorge, por sua vez, é um tipo exemplar. Filho abastado de mãe rica, tem como horizonte intelectual Recife ou Coimbra, desposar a filha de algum senador (enquanto corteja moças pobres, como fará Brás Cubas, que “nasce” aqui) e assim engrenar carreira política na Corte. Vivia vida mundana, desocupado “como convém à ordem escravista”, agora, diz o ensaísta, com especial destaque para a combinação de autoridade e responsabilidade (p.140).

Se traçarmos um paralelo com um Dickens, por exemplo, Jorge, o jovem abastado brasileiro, é o anti-David Copperfield. Não trabalha, não começou do nada, não tem nada do que orgulhar-se. Estela e Luís Garcia, num país onde não poderiam ser força produtiva, como muitos, vivem às custas da idle class da Corte, algo idiverso da realidade da Inglaterra vitoriana. Diz Schwartz: quando encontrava uma solução possível para o realismo brasileiro, Machado abandonava a fórmula consagrada do realismo europeu e com ela o domínio da racionalidade convencional (p.141).

Enquanto envereda por uma forma peculiar de realismo — na periferia do Capitalismo, como diria o ensaísta, Machado, em Iaiá Garcia, elabora um enredo cuja descontinuidade e senso difuso transcenda e até frustre o que seria o projeto de um romance para moças.

O argumento de Schwartz é curioso se pensarmos que, antes de a fortuna crítica do escritor fluminense separar de forma simplista as duas fases do autor de “Esaú e Jacó” em romântica e realista, seus primeiros quatro romances contenham elementos onde o conflito de classes entre proprietários e agregados seja tão recorrente.

Contudo, como diz o autor, o que era ensaiado no começo ganha cores mais fortes em Iaiá Garcia, onde o conflito em si ganha estatuto de tese e se presta menos à mecânica da fabulação em si, como em Helena, por exemplo. Como entende o autor, a supressão metódica do movimento romanesco é fruto de observação local e é um avanço realista de Machado, que no entanto o aproxima da autocrítica formal característica da literatura de vanguarda, em que se explicitam pressupostos gerais da ordem burguesa. Um exemplo mais da convergência entre atraso social e formas artísticas avançadas (p.144).


4. Conclusões

Segundo análise de Roberto Schwartz, como extrato de tese, nestes romances “românticos”, Machado esboçava uma combinatória entre as posições sociais enquanto realidade prática e o campo social enquanto valor imaginário, combinatória cuja regra são as compensações simbólicas (1988, p.134). Dessa forma, a desigualdade social não se demonstra como antagonismo mas de coesão (e ou complementação), porquanto essa duplicação imaginária dispõe aos favorecidos os fumos de ‘superioridade’ que são, com efeito, os elementos que ele necessita.

Porém, no caso de Estela, a sua trajetória não é na resolução da própria situação dentro do sistema. Sufocada pela relação familiar desgastada, sua solução heroica (ou deus-ex-machina à Machado) é o trabalho assalariado, já historicamente nos estertores do Império (muito embora ele não faça menção à palavra “salário”).

O trabalho, observa o autor, se insurge como alternativa ao paternalismo — no entanto, o trabalho livre, mas livre da Corte. Luís Garcia, que era funcionário público, ainda estava preso às malhas da ciranda do favor. Para ele, a ideologia de Luís Garcia e Estela, é antes civilizatória do que crítica.

Mas, nessa mesma ideologia, assevera o ensaísta, o mérito intelectual e moral em Iaiá Garcia reside justamente nos dependentes (p.134). No entanto, se o começo do livro parece prometer um enfrentamento de classes, essa promessa não se cumpre. Se a contradição ideológica é central no começo, posteriormente ela passa ao largo do romance: a mola dos acontecimentos estava nos desmandos de Dona Valéria (como ocorrerá em Dom Casmurro com Dona Glória) e não nos antagonismos ou questiúnculas de direito.

E aqui, para ele, Machado de Assis ainda analisa o arbitrário paternalista na perspectiva dos dependentes ou, por outra, na ‘neutralidade’ do narrador em terceira pessoa, ele acaba expondo o problema pela ótica do mais fraco. Nos seus romances realistas, a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), ele passa a expor essa mesma situação, contudo, na ótica dos donos do poder, usando a licença poética do memorialismo para encarar o arbitrário com a intimidade de quem se confessa praticante, e já não tem o que temer (p. 161).

Em Iaiá Garcia, a nota histórica pode ser uma espécie de ensaio de aprendizado de classe, que se liga a uma dualidade de funções que é uma condição sem volta. O chefe da camorra também é proprietário, para quem essa ordem de obrigações, como diz o autor, é relativa.

A dinâmica do envolvimento paternalista, segundo ele, mostra ser apenas metade da situação, cujo outro aspecto, ditado pela propriedade, pertence a uma órbita diversa, à qual as razões do dependente não dizem nada, e a que este, além disso, não tem acesso independente, o que consubstancia a fratura social (p.269).

É a partir de Memórias Póstumas que essas contradições viram a forma da nova literatura de Machado. Após fazer a crônica do anacronismo social brasileiro, é a partir da versão do proprietário à brasileira, europeizado e caboclo, cordial à brasileira e liberal à moda européia, filho do iluminismo e escravocrata na terra da palmeira, ele se torna o molde da nova prosa.

Brás Cubas, em suas memórias, é como se fosse o Jorge de Iaiá Garcia, porém ao expressionistamente ao contrário, passando sua vida em retrospectiva, e sem medo de contar suas pusilaminidades. Vende a imagem de um Sterne mas é na verdade um farsante e mostra, sem puder nenhum, a forma como deu cabo de sua vida, tanto exaltando um adultério como mote romântico e suas torpezas, gloriosas frustrações e relações com mulheres ao longo da vida — uma vida inútil, perdida, mas defendida galhardamente até rir do leitor ao gabar-se de não deixar descendência num mundo onde tudo irá para debaixo da terra.

Já a Capitu de Dom Casmurro, também personagem de um livro de memórias (ou seja, Machado abdica da neutralidade do narrador moralista (e ligado á causa dos dependentes) e comportado para mergulhar na mente doentia do proprietário), é Estela ao contrário: ao invés de resignar-se ao limite de sua situação de classe, ela dobra a tudo e a todos em busca de ascensão social. Quando Bentinho tem essa epifania, acusa a esposa de adultério, sendo juiz e advogado de acusação.

Nos dois casos, é como se tivéssemos o mesmo horizonte social do patriarcalismo e do favor, porém, aqui ocorre o que Schwartz entende como “viraviolta”, ou seja, quando Machado sai da ótica do mais fraco para mostrar, num retrato sem retoques, a visão distorcida do Brasil pela visão dos de cima.

Essa é, por último, a grande perplexidade da Comédia Humana de ponta-cabeça nessa viravolta machadiana: livre, o narrador, dono de seus meios e principalmente da tradição, vai reiterar em pensamentos e em conduta os atrasos de nossa formação social, em vez de se superar (2012, p.275). Antes, a simpatia do escritor ia para a heroína injustiçada, e que fazia jus ao formato de folhetim. Do lado dos opressores proprietários, era preciso caracterizar o lado negativo destes. Pois foi por meio dessa progressão lógica livro a livro que, de acordo com Schwartz, deu-se a fórmula que iria caracterizar a obra de Machado e fazer dele um grande escritor.



Referências Bibliográficas


ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Fardo dos Bacharéis. In Revista Novos Estudos CEBRAP. São Paulo, 19:68-72, dez/1987, p. 69.

DIAS, Maria Odila da Silva. Ideologia Liberal e construção do estado do Brasil. In: Anais do Museu Paulista, São Paulo, XXX:211-325, 1980, p. 217.

FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. As Ideias estão no lugar. In; Cadernos debate, São Paulo, 1976.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Prefácio. Jeanne Berrance de Castro - A Milícia Cidadã. 2º edição, São Paulo, Nacional, 1979.
................................................ Do Império à República. In: História da Civilização Brasileira, 4º ed, São Paulo, Difel, 1985, Tomo II. Volume IV.

SCHWARTZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas. Duas Cidades, 1988.

………………………. Martinha versus Lucrécia – ensaios e entrevistas. Companhia das Letras, 2012.

Monday, July 11, 2016

Memórias Involuntárias


Erico Verissimo


Tentei lembrar de um episódio, que aconteceu com o maestro Bruno Walter, quando ele foi exilado durante a Anschluss, em 1939. Ele estava ensaiando com a Filarmônica de Viena uma sinfonia do Guastav Mahler, quando foi preso. A cena ficou congelada na memória do velho mestre de tal arte que, anos depois, sempre que ele passava pelo mesmo trecho da música em que foi preso, ele não conseguia segurar as lágrimas.

Não consigo confirmar se o tal maestro em questão é mesmo o Bruno Walter. Porém, enquanto eu embalde pesquisava para confirmar de fonte segura (wikipédia (?))certeza tenho que a filha dele, Lotte, foi presa pelos nazistas e, por conseguinte, solta logo depois por intermédio dele), lembrei de um outro caso, que aconteceu com o Erico Verissimo.

No fim de 61, enquanto concluía o último volume da Trilogia O Tempo e o Vento (1), ele entrou num processo de criação que, á medida em que tornou-se catártico, já que, no final da história, ele criava um acerto de contas entre Floriano e o doutor Rodrigo Cambará. Depois de uma relação difícil durante toda a vida, pai e filho confrontam-se e aparam todas as arestas, num final surpreendente.

Como é sabido, muita coisa do Tempo e o Vento — e principalmente do O Arquipélago está cifrado na própria história de Erico, onde podemos encontrar traços de tios, tias, avós e avôs nos personagens do livro (Babalo, o simpático pai de Flora, por exemplo, é quase um decalque de seu avô materno), todo o processo criativo da terceira parte da obra exigiu-lhe um esforço emocional gigantesco.

Como podemos ver nas suas memórias, especialmente no segundo tomo do Solo de Clarineta (2), quando ele se perde na produção textual, e sequer toma consciência de que estava sofrendo um sorrateiro estado de insulto cardíaco.

Com o livro ainda inconcluso, e depois de alguma consulta médica, ele decidiu retomar o trabalho, mesmo contra as indicações se seu cardiologista, Eduardo Faraco. Eis que, num dia, de noite, ele liga sua capelinha na rádio da Universidade, quando o locutor anunciava o Concerto para Violoncelo e Orquestra, do Dvorak.

Naquele momento, Erico começa a sentir-se cada vez mais indisposto. "Por alguns segundos, ainda procurei prestar atenção à música, tentando provar a mim mesmo, na minha aversão á normalidade, que tudo estava bem ou, pelo menos, não estava muito mal. Por fim, apaguei o rádio.O violoncelo ainda ficou gemendo obsessivamente o tema do concerto dentro de mim, na cabeça e no peito, ao ritmo desordenado de meu sangue em pânico

A última coisa que ele se lembrou foi de ver Mafalda perplexa com sua cara de peixe fora d'água, correndo para o telefone. de repente, deram-lhe sedativos, e ele ficou numa vigília parva, sem conseguir entender o que as vozes ao redor dele diziam. Já internado, recebeu a visita de seu primo, Franklin Verissimo, que também era doutor. Foi quando Verissimo começou a recobrar a consciência. faraco orientou D. Bega e Mafalda para que não dessem a entender que seu estado era relativamente grave. Porém, sua mãe disse aos repórteres: "o Tibicuera não se entrega assim no mais!". Ele de fato não queria se entregar; além do mais — sabia — precisava terminar o Arquipélago.

Faraco foi ter com ele:

— Como te sentes, índio?

— Bem, e tu?

Sentado no catre improvisado á guisa de cama de hospital, em sua casa do Petrópolis, Erico perguntou se, agora que já estava relativamente estabelecido, poderia retomar a produção do livro. "Se podes trabalhar? eu te diria que deves. Mas, devagar; nada de exageros". Foi quando mafalda pôs ao seu lado as quase 2 mil páginas originais da terceira parte da trilogia. "Retomei contato com as minhas personagens. Achei que estavam ainda vivas, como eu".


Eis que, enquanto voltava a escrever, do seu rádio saiu aquela mesma voz anunciando justamente o Concerto para Violoncelo e Orquestra, em si Menor, Op. 104, do compositor tcheco Antonín Dvorák.

"Meu primeiro ímpeto foi o de desligar o aparelho, pois aquela música me evocava um momento de dor, angústia e perigo", diz Verissimo, no Solo de Clarineta. "Contive-me, porém, e ouvi o concerto até o fim. Tinha que me habituar a conviver tão pacificamente quanto possível com todas as memórias daqueles últimos meses, por mais desagradáveis que fossem".

Com a experiência, Erico resolveu mudar a história: ao invés de edema pulmonar, como havia antes concebido, Rodrigo Cambará passaria pelo mesmo traume de Verissimo no livro: um enfarto.

Quando o livro ficou finalmente pronto, em julho de 62, ele deu um exemplar ao médico: "ao querido amigo Faraco, sem cuja oportuna colaboração eu jamais teria podido terminar este livro".


Porém, como ele mesmo conta, quando costumava escrever, o autor de Clarissa preferia os discos de Barroco. em especial, um deles, e que foi a sua trilha sonora para, depois de sobreviver ao insulto cardíaco, ter que, a despeito de muita pena, matar o pai de Floriano, no último capítulo. A música era a sinfonia do segundo movimento da Cantata de Páscoa, do Bach.



1) Erico Verissimo. O Arquipélago. Editora do Globo, 1962
2) A lembrança dessa história está no segundo volume (póstumo, organizado por Flávio Loureiro Chaves) do Solo de Clarineta, que saiu em 1976.

Thursday, November 26, 2015

O Sobrado em Transe


Erico Verissimo



No último dia 18, a Associação Cultural Acervo Literário de Erico Verissimo desenvolveu o seminário “O Sobrado em O Tempo e o Vento: ascensão e queda dos Terra Cambará”. A atividade contemplava uma palestra com três professores (e membros da ALEV), Maria da Glória Bordini, Márcia Ivana e Antônio Sanseverino (todos das Letras da UFRGS) a respeito do papel do Sobrado em O Tempo e o Vento (1949) (1).

A proposta é bem interessante, pois possibilita uma leitura ampla da obra-prima do escritor cruzaltense — além daquilo que foi mitificado pelas releituras que o livro sofreu (não sei se é a palavra certa) nos últimos sessenta anos. Releituras, estas, que não permitem, de certa forma, que se entenda a proposta de Erico em sua trilogia.

A leitura que os três realizam tem como perspectiva o Sobrado do ponto de vista da "consolidação do poder dos Terra Cambará e de sua decadência, como microcosmo da constituição da territorialidade do Rio Grande do Sul – de início amparada nas virtudes tradicionais da honra e da bravura e depois corroída pela ambição e corrupção de seus próceres".

O que parece — aos desavisados! — muitas vezes uma obra de exaltação à bravura e à história rio-grandenses, no ponto de vista da formação do Continente na figura de uma certa família Terra-Cambará, o que há mesmo é esse movimento de ascensão e queda, onde muitas vezes a adaptação só dá conta de uma parte que, falsamente, acaba valendo pelo todo. Como não existe um proêmio e uma musa para que o vate possa delimitar o tema, essas adaptações caem no equívoco fácil da simplificação e da mitificação.


O que vou ensejar aqui é o resultado das minhas leituras do livro mais as opiniões do seminário, naturalmente amparado aqui e ali com alguma matriz bibliográfica.

O que Erico apresenta, num quadro geral, aquém e além de adaptações (e daquilo que as pessoas em geral acabam depreendendo como o fulcro do O Tempo e o Vento) é uma contínua dualidade, contradição e ambiguidade moral no âmago dos protagonistas. Pedro Missioneiro é oprimido, luta por sua liberdade mas a sua violência é igual à daqueles a quem busca sobrepujar. Essa violência, como diz a Maria da Glória Bordini, os insere no quadro do poder que, de 1745 a 1895, está na mão de caudilhos que, com mão de ferro, controlam a peonada. Essa é, de certa forma, a matriz que irá explicar todo o processo político no Rio Grande (e no Prata) nos próximos duzentos anos.

O Continente

Nessa perspectiva dual, vemos que os personagens têm o seu respectivo fundo falso. O tão decantado Capitão Rodrigo luta pela liberdade no plano político mas, no pessoal, não é tão digno de simpatia; Bolívar é incapaz de defender um escravo amigo seu. A culpa o corrói a alma, ao mesmo tempo em que é dominado pela mãe (Bibiana) que, por sua vez, faz de tudo para destruir a nora, e vice-versa.

No segundo tomo de O Continente, Bibiana lembra vagamente a Cremilde do segundo tomo de A Canção dos Nibelungos (3). De personagem secundária, a heroína de Erico torna-se a protagonista de uma vingança tanto àqueles que mataram seu esposo quanto à Luzia. O primeiro passo da fria e calculista megera Bibiana foi casar seu filho com a herdeira do Sobrado de Agnaldo Silva. este, por sua vez, havia tomado as terras de Pedro Terra por dívidas, acabrunhando o velho e matando-o. Ora, logo, as terras do Sobrado eram dela.

O segundo passo da Cremilda de Santa Fé é, pois, impedir a qualquer custo que Luzia case-se novamente e tira o jovem Licurgo de suas mãos. Nisso, inicia-se um tenso jogo psicológico entre sogra e nora. Nessa guerra (título ambíguo do capítulo, que se refere também à Guerra do Paraguai) é difícil torcer para qualquer uma das duas. Para ficar com o neto do Capitão, elas dissimulam e disputam o jogo mais baixo possível.

Vence Bibiana, vence o Sobrado. Agora, contemplamos a formação de Licurgo como uma segunda geração de caudilhos: aqueles que vão instrumentalizar-se pelo poder político à moda moderna, "iluminista", semi-ilustrada (ainda para esses cantões do continente), à medida em que o republicanismo se insurge no Estado. Torna-se positivista e castilhista. Luta pela liberdade (como seu avô) e, como seu avô, entrega-se às suas ambiguidades morais. Afinal, ele tem uma amásia lá pelos lados do Angico (a estância dos Cambará) e, com o tempo, toda a cidade sabe — inclusive sua esposa, Alice.


Nessa perspectiva de asenção e queda, como se vê, nos episódios familiares dos Terra-Cambará, é quase como se na gênese dessa construção da realidade estivesse a sua própria ruína: nos subcapítulos do Sobrado, vemos o poder de Licurgo sendo contestado, como um Agamênon gaúcho, diante de sua prima, Maria Valéria, que demonstra ter mais brios do que muitos ordenanças do neto de Bibiana. Em meio ao sítio ao Sobrado, ele mal consegue administrar a famélica situação dos seus comandados, todos perdidos e entrincheirados dentro da mansão, cercada por maragatos sob o comendo dos amarais, seus vetustos inimigos políticos.


O Retrato

Em O Retrato (1951), vemos um exemplo singular dessa ambiguidade moral dos Cambará, agora cifrado na imagem de Rodrigo Cambará. Filho de Licurgo, ele é o caudilho moderno, da geração de Oswaldo Aranha, de Getúlio Vargas e de Flores da Cunha. Doutor, ilustrado, francófano, sua personalidade é delineada pelo povo de Santa Fé no capítulo que abre o segundo livro da trilogia, "Rosa-dos-Ventos". Todos t~em uma opinião a respeito de Rodrigo. Muitas são as vozes, muitas são as sentenças: entre elas, ele é um canalha, um malfeitor, ele é um benfeitor, um homem honrado e um político dissoluto e um putanheiro.

A partir dali, o livro divide-se em duas partes principais — "Chantecler" e "A Sombra do Anjo" — que mostram a trajetória do protagonista, desde a sua caracterização de jovem doutor, dândi, o seu engajamento e desejo do mudar o poder político local contra a repressão borgista em Santa Fé até a grande tragédia de sua vida. Depois de "fazer mal" a uma jovem violonista (Toni Weber) de uma trupe mambembe, ela comete suicídio — ao mesmo tempo que a morte coincide (e, de certas forma, é abafado) com o assassinato de Pinheiro Machado, em setembro de 1915.

Refugiado no Angico, Rodrigo corrói-se em culpa. Sua dor é verdadeira. Porém, não sabemos se ela é suficiente para expiar sua culpa. Até porque, veremos adiante que mesmo que Rodrigo tenha empatia e consciência suficientes paras analisar o que ele fez, isso vai acabar tonando-se uma constante em sua vida pessoal e política. O filho de Licurgo (ao contrário deste que, por sua vez, não guardamos qualquer simpatia) encarnará essa dualidade entre a revérie e a culpa abissal em vários episódios de sua vida.


O Arquipélago


O último capítulo de O Retrato, "Uma Vela para o Negrinho", é uma antecipação ao Arquipélago (1962), da mesma maneira como o primeiro (Rosa-dos-Ventos) é uma espécie de prolepse do livro seguinte. Nele vemos Floriano Cambará, filho de Rodrigo, que mal conhecemos, cantando a sua ária de apresentação. Ele reaparecerá adulto, nos capítulos "Reunião de Família" e como um jovem em formação nos capítulos que, à moda de O Continente, servem de flashbacks dos episódios de família de O Arquipélago (1962).

Rodrigo Cambará, filho de um ex-castilhista, luta pelo poder em Santa Fé. Mesmo anti-borgista, é melindrado pelo senador Pinheiro Machado com vistas à uma possível deputação pelo PRR em nível estadual. Mesmo contra Hermes e Pinheiro, após a morte deste, envereda-se pela política justamente pelo partido de Borges. A oposição era ainda muito liliputiana e, além do mais, era toda ela maragata. Isso seria de um problema intransponível à Licurgo que, por seu turno, jamais pensaria que, um dia, ele iria cair nessa esparrela e ter algo com comum com seus antípodas federalistas: ser inimigo de Borges.

Quando estoura a Revolução de 23, Rodrigo e seu irmão (e, meio a contragosto, seu pai) bandeiam-se para o lado dos rebeldes. Verissimo sempre foi discreto em cenas de guerra em O Tempo e o Vento mas, no capítulo "Lenço Encarnado", ele dá contornos épicos à bazófia que se instaurou na Campanha gaúcha, onde os veteranos maragatos queriam agora a intervenção federal contra os desmandos de Borges. Vem o fim da guerra, Toríbio parte com a Coluna.

Os subcapítulos "Reunião de Família" aludem ao tempo presente na narração de O Arquipélago, entremeando os capítulos do livro, da mesma forma como "O Sobrado" têm o mesmo papel em O Continente. Além da similitude com a forma, Erico mostra um outro problema familiar: se em "O Sobrado", vemos o grupo familiar em transe, porém todos como que impostos pela mão mítica e terrível de Licurgo, em "Reunião de Família" nós encontramos Rodrigo no fim da vida, em meio a uma crise cardíaca, tentando unir in extremis aquela família agora diluída e dividida. Ao contrário de Licurgo, o gongo não irá salvá-lo. O destino escapa à suas mãos.

O poder que nosso herói tem agora, tanto no plano político quanto familiar é fictício, quase uma mera delegação. Ele tem, com efeito, a procuração da experiência da vida. Por mais execrável que seja ou possa parecer, Rodrigo quer manter a família unida, mais do que tudo. Nisso, pelo menos ele dá a entender, o decano dos Terra-Cambarás é sincero.

No entanto, como vemos, na sucessão de episódios, desde 23, Rodrigo é um poço de contradições. Devastado agora pela morte da filha, Alicinha, não quer mais clinicar. Quando não sabe mais o que fazer da vida, se insurge a Aliança Liberal. Logo, filia-se às primeiras fileiras junto com Vargas (de quem, a princípio, considera um pusilânime no meio do movimento) e Oswaldo Aranha. Com a Revolução de 30, Rodrigo parte às cegas para a aventura dos gaúchos na Capital Federal.

Nisso decorrerá uma ruptura de Rodrigo com seu irmão, Toríbio. Este, apesar de ser um apolítico, é lúcido o suficiente para saber dos desmandos do governo Vargas. Mais tarde, às vésperas do golpe de 37, em plena noite de Ano Novo ("Noite de Ano Bom"), acusa o irmão de ser um comensal do Presidente, um chefete plenipotenciário de araque com fumos de cacique político, mas apenas um cambão de Getúlio, como tantos outros, e que foi para o Rio viver das benesses do poder e ficar rico às custas de um cartório, e viver a vida no café society do Cassino da Urca. Em dezembro daquele ano, Rodrigo tenta, de todas as formas e argumentos, justificar o Estado Novo.

Toríbio, como um Aquiles, briga feio com seu irmão, manda o Ano Novo às favas e arrasta Floriano para um cabaré. Este, por sua vez, seria testemunha da morte insólita do tio, perplexamente esfaqueado por um garoto no meio da festa. Morreu só sem tempo para poder reconciliar-se com Rodrigo.


Alguém falou em Floriano? Pois ele aparece, lá no final de O Retrato para ser caracterizado plenamente apenas a partir de O Arquipélago. Agora, temos uma quarta geração dos Cambará que, na figura dele, contesta o poder do pai (como não poderia deixar de ser) ao mesmo tempo que, à sombra dele, tenta juntar todos os pedaços de vida mal resolvidos: sua relação com o pai e com os irmãos, seu amor por Sílvia, uma enteada da família que acabaria por casar-se com Jango, irmão mais novo de Floriano).


Encruzilhada



Floriano é o jovem que vê o Sobrado, busca entender a essência dele, a história da sua família. Ele é quem tenta, como Édipo, ser o detetive de si mesmo, e de tudo o que se passa por ali. Para tanto, ele tem o seu Tirésias (pegando impiedosamente o mote da professora Márcia Ivana no seminário), que é Roque Bandeira. Talvez os melhores momentos de O Arquipélago estejam com eles. Como dois filósofos peripatéticos, eles parecem ser a consciência apolíneo-dionisíaca na história. Num plano, eles analisam a própria situação a respeito daquilo que os acerca. Por outro, Bandeira, mais conhecido como o Tio Bicho) desempenha esse papel de profeta, ou melhor, de preceptor, diante de Floriano que, pegando o mote de Érico, está nessa encruzilhada.

Tio Bicho é aquele que vai empreender a maiêutica sobre Floriano. De certa forma, nesse plano, é como se, ao mesmo tempo em que O Arquipélago é um desdobramento e conclusão da personalidade de Rodrigo, ele também pode funcionar como um romance de formação de Floriano, questionando-se como escritor, como filho, como irmão. Essa aventura ele empreende no embate com seus iguais, sempre entremeados pela análise ferina de Bandeira, quase um personagem queirosiano.

É no momento em que ele encerra o diálogo com Tio Bicho é que Floriano já está prestes a fazer um "ajuste de contas" com Rodrigo. O pai, entrevado, à beira da morte, o filho, o procura, como se lhe questionasse, como se lhe pedisse conselho, como se lhe pedisse perdão. No fim, ambos saem engrandecidos desse encontro. Tio Bicho pode partir, pois já desempenhou seu papel 'pedagógico'. Rodrigo já pode morrer, pois está em paz com todos os traumas e mal-entendidos com Floriano — seu filho mais velho e o mais parecido com ele.

Floriano está preparado? Poderíamos dizer que, analisando sob essa perspectiva de ascensão e queda, o que existe de contraditório do ponto de vista de gerações é que, do começo até o fim, é como se o clã dos Terra-Cambará vivesse essa dualidade e essa contradição intestina através dos tempos por carência de uma consciência, de uma empatia, de uma visão existencial que seus descendentes, por algum motivo, não possuíam, e isso serviria como uma maldição. Assim como Sílvia, no capítulo "Diário de Sílvia", onde ela ganha a primeira pessoa para colocar-se numa posição onde, pela primeira vez na trilogia, uma mulher do clã parece ganhar voz própria.

Da mesma forma, Floriano "obtém" essa voz própria. A análise com Tio Bicho e o último diálogo com Rodrigo foram catárticos para ele. Ele e Sílvia, por conseguinte, são os descendentes do clã que libertam-se dessa "maldição", assumem juntos — cada um a sua maneira — a sua voz própria e, como Electra e Orestes, libertam Santa Fé da maldição dos Atridas.

Por isso, Floriano está preparado. No final no livro, nas últimas linhas, ele entra na mansão dos Cambará às escuras, plena madrugada. Caminha pé ante pé e diz: "o Sobrado está vivo!". Sobe até a água-furtada, coloca o papel na máquina de escrever e começa: "era uma noite de lua cheia, as estrelas cintilavam, sobre a cidade de Santa Fé..."




(1) Érico Verissimo, O Tempo e o Vento. Globo, 1949/76.
(2) Maria da Glória Bordini,Regina Zilberman. O tempo e o vento: história, invenção e metamorfose. EDIPUCRS, 2003.
(3) Anônimo. A Canção dos Nibelungos; Colação Ghandara, Martins Fontes, 1996. Na história, Cremilda é mulher de Sigfried e este é morto por traição por Hagen, vassalo de Brunilda. Após a morte de Sigfried, Cremilda tenta reaver o tesouro perdido e assassinar todos os responsáveis pela morte de seu esposo.

Wednesday, January 21, 2015

Canções do Exílio *



Gonçalves Dias


Composto em 1843, na cidade de Coimbra, Portugal, o poema “Canção do Exílio” é hoje sinônimo de seu criador, o poeta maranhense Antônio de Gonçalves Dias (1823-1864). Seus versos se confundem com o “inconsciente coletivo” de nossa cultura e alguns deles aparecem na segunda parte do Hino Nacional. A importância deste célebre texto é seminal: não existe antologia escolar que não o tenha escolhido ou que não o cite, fato que demonstra o seu papel de referência dentro da tradição literária brasileira. É fruto típico do Romantismo da primeira fase, quando nossa literatura ainda engatinhava. O crítico Agripino Grieco disse: “ninguém lê os poetas, mas raros são os brasileiros que não conhecem a ‘Canção do Exílio’”.

Se o tempo transformou a “Canção do Exílio” num poema emblemático, o tempo cuidou de banalizá-lo pela insistência em sua repetição. Da mesma maneira, autores que vieram após Gonçalves Dias se puseram a recriá-lo ou a conceber sua própria versão do texto. Em 1860, Casimiro de Abreu, representante da segunda fase, também criou a sua canção. No século passado, tivemos Drummond (“Nova Canção do Exílio”), Oswald de Andrade (“Canção de Regresso à Pátria”), Cassiano Ricardo (“Ainda Irei a Portugal”), Murilo Mendes (“Canção do Exílio”), Vinícius de Moraes (“Não Seja Já”) e Torquato Neto (“Marginalia II”), entre outros.

Saindo um pouco da distante admiração ao poema, a “Canção do Exílio” representou a Gonçalves Dias um momento de profunda dor e nostalgia. Em 1838, o maranhense havia partido para Portugal, decidido a se matricular na Universidade de Coimbra. Estava há quase cinco anos distante do Brasil e quase adaptado à flora e à fauna européia. Quase, porque a distância começou a lhe corroer a alma. Certo dia, ao se reportar à balada Mignon, de Goethe, encontrou ali algo como “conheces o país das laranjeiras? Para lá quisera eu ir!”. Retornaria em 1846, ano em que publicaria seu poema em sua obra de estréia, Primeiros Cantos, publicado a partir do ano seguinte.

Sobre a “Canção do Exílio”, eis que, misturando saudade e nacionalismo — duas das características do Romantismo, estilo literário então vigente — de sua pena brotaram os seguintes versos:

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá

Nosso céu tem mais estrelas
Nossas várzeas têm mais flores
Nossos bosques têm mais vida
Nossa vida mais amores


Estabelecendo um paralelismo entre os versos, os dois primeiros compõem o primeiro quarteto, que retorna no terceiro quarteto, representando o tema principal. A sugestão geral do poema é estabelecer diferenças entre a terra natal e o lugar do desterro, tanto físicas (“aves”, “nossos bosques têm mais vida”) quanto psicológicas (“nossa vida mais amores”). Os quartetos se encerram com a repetição dos dois primeiros versos, como uma ladainha.

Em cismar, sozinho à noite,
Mais prazer encontro eu lá
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.


A canção se encaminha para o fim com dois sextetos que desenvolvem e reexpõem o material apresentado na primeira parte do poema:

Minha terra tem primores
Que tais não encontro eu cá
Em cismar, sozinho, à noite
Mais prazer encontro eu lá
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá


E termina com a patética súplica:

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá
Sem que desfrute dos primores
Que não encontro eu cá
Sem que inda aviste as palmeiras
Onde canta o sabiá


Note-se que o sentido de “exílio” é salientada pela repetição de versos-chaves, cuja sugestão é salientada tanto por versos-chaves quanto pelo formato do poema. Oriundo do primeiro Romantismo, Gonçalves Dias ainda mantinha certo sabor clássico em seus versos, que podem ser percebidos pelo modelo utilizado, comedido nos adjetivos, cuidadoso e emblemático nas imagens, aqui ele soube criar uma visão geral da idéia do desterro com um material poético breve porém marcante. Ou seja, ele é mais romântico na temática do que na forma. O seu texto reflete ainda o aproveitamento da disciplina clássica, diferente dos poetas do ultra-romantismo, que abusavam de imagens e da utilização de versos brancos e versificação diversa.

Há quem afirme que essa mesma contenção poética dos versos da “Canção do Exílio” tenha transformado o poema mais em um texto declamatório e de pretensa objetividade do que um instante de profunda meditação. Isso talvez explique a negligência que as pessoas costumam ter com relação à Gonçalves Dias, menos afeito ao ritmo dissoluto e apaixonado dos melhores momentos do Romantismo da segunda fase. Em última análise, à medida em que o texto foi elevado à estatura de um paradigma do Romantismo, a “canção” foi perdendo um pouco da sua aura original, fazendo com que o desavisado leitor não sinta o que o poeta buscou expressar, em sua totalidade.

Talvez quem soube recriar a tradição instaurada por Gonçalves Dias de forma magistral foi o compositor Chico Buarque de Holanda. Em 1967, ele compôs, em parceria com Tom Jobim a canção “Sabiá”, e que seria a campeã do III Festival da Canção, no ano seguinte. Aqui, a idéia de exílio, porém, tinha uma indisfarçável conotação política e Chico se refere a “uma sabiá” e a uma palmeira “que já não há”

Vou
Voltar
Sei que ainda vou
Voltar
Para o meu lugar
Onde eu hei de ouvir
Cantar
Uma sabiá

Vou
Voltar
Sei que ainda vou
Voltar
Vou deitar à sombra
De uma Palmeira
Que já
Não há

Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites
Que eu não queria
E anunciar
O dia.


Porém, Gonçalves Dias, o rapsodo das saudades de sua terra natal, o eterno autor da “Canção do Exílio”, por incrível que pareça, teve um triste fim: como um Moisés, morreu sem chegar à sua Terra Prometida. Vindo da Europa, o navio Ville de Boulogne naufragou ao cruzar a costa brasileira, num 3 de novembro de 1864. O velho poeta, coberto de glórias como o Timbira, desapareceu sem pisar na terra das palmeiras.



* Texto publicado originalmente no extinto site Rabisco, há coisa de dez anos atrás.

Tuesday, August 19, 2014

A Odisseia de Dyonélio


Dyonélio Machado

Em Os Ratos, obra-prima do escritor gaúcho Dyonélio Machado (1) (publicado em 1935) Naziazeno precisa arrumar cinquenta e três mil réis para poder saldar a dívida com o leiteiro, alimentar o filho recém-nascido e, de quebra, pagar o conserto do salto do sapato de sua senhora.

Li o livro algumas vezes e, sempre que o releio, imagino com ele a Porto Alegre que ele ambientou em suas história, a Porto Alegre de 1935.

Dyonélio parece narrar a odisseia quixotesca de seu herói suburbano como com uma "câmera-na-mão" (algo que Erico Verissimo faria, anos mais tarde, em Noite), eu posso fantasiar a cidade naquele dia fatídico.

Mesmo que ele não mencione a capital de forma ostensiva, além de moldura para o romance, ela é quase uma personagem coadjuvante - como Josué Guimarães em Camilo Mortágua (que, aliás, foi motivo de um antigo post meu por aqui).

Às vésperas do Estado Novo, em 35, Porto Alegre era ainda uma cidade liliputiana de 272 mil habitantes, cujo comércio ficava concentrado na rua da Praia; a maioria dos bares ficavam na volta da praça Quinze e Mercado Público que, ao contrário de hoje, mantinha parte de seus estabelecimentos abertos 24 horas ao dia.

Naquele tempo, o umbigo da cidade era o Largo dos Medeiros, entroncamento da General Câmara com Rua da Praia. É que a quase totalidade de escritórios comerciais, tabelionatos e bancas de advogados ficavam na Ladeira.

Quando a tarde caía, todo esse pessoal ia parar nas mesas dos cafés do Largo (Schramm, Central, Café América), que ficavam entre Andradas e Sete de Setembro. O Shramm inclusive tinha um mezanino e um segundo andar, onde funcionava um café-cantante.

No Largo, aquela populacha admirável era, quase sempre, formada de uma variada plêidade: dsdee funcionários públicos, assessores políticos, tabeliães, advogados (muitos rábulas), pequenos comerciantes, muita gente de rádio, repórteres(todos os jornais ficavam a poucas quadras do Largo, como o Diário de Notícias)se misturavam com rufiões, apostadores (naquele tempo, o turfe era mais popular que o futebol numa Porto Alegre que tentava imitar Buenos Aires).

Quando a noite chegava, o público se dispersava, ou indo para os lados do Mercado para algum rega-bofes no Clube do Comércio (para os abastados) Chalé, no Gambrinus ou no Treviso (no tempo em que se bebia chope) ou rumava para os bas-fonds do high-life, como o que ainda sobrara do malfadado Clube dos Caçadores, na Rua Nova (hoje a Andrade Neves) ou para o baixo meretrício - Pantaleão Telles ou Cabo Rocha.


Essa é a flora e a fauna de Os Ratos. O título, aliás, tem um quê de prosopopéia. Naziazeno e seus compadres tentam arrumar o tal dinheiro como um bando de animais famintos, apalpando e farejando a cidade inteira em busca de algum morlaco: vendendo, comprando, pedindo emprestado.

Podemos traçar Naziazeno em sua odisseia urbana. No capítulo 3, ele pega o bonde para o Centro. Pelo trajeto (que passa por uma praça), imagino que ele venha dos lados da antiga margem (hoje Gen. Salustiano, no borco da península.

Nos bares do Mercado, procura Duque, agiota cujo "escritório" são as mesas dos cafés. Oito e meia, ele vê a torre da Prefeitura.

Não acha Duque, procura certo "diretor" em algum prédio do serviço público municipal. Vê um cargueiro alemão no Cais. Do Paço, enxerga o alto da Igreja das Dores (até então, a maior construção do Centro).

No capítulo 5, volta ao Mercado sem achar nenhum contato.
Dyonéio diz: "é a segunda vez que consulta o relógio da Prefeitura (...) esse relógio, lá no alto, parece-lhe uma cara redonda e impassível".

No 6, encontra Alcides, um amigo que o aconselha a jogar. Rumam do Mercado para o Café Nacional, no Largo. Já no 7, distraído, vai para os lados das Dores, passar por um briquebraque (cujo nome não menciona - mas certamente trata-se do Ao Belchior (o dono era o português Joaquim da Cunha que, durante muito tempo, manteve um comércio onde hoje fica o prédio do antigo Cine Cacique). Vê uma antiga espada na vitrine.

No retorno, ao meio-dia, encontra o tal contato, um diretor da antiga Secretaria de Obras Públicas, que nega-lhe um empréstimo. Reencontra Alcides no Centro, que propõe que vá cobrar um cliente (um "corretor da Rua Quinze", ou seja, da hoje José Montaury. Na época da escritura do livro, el ahavia sido recém aberta com a construção do Viaduto da Borges de Medeiros, cuja artéria ligava, pela primeira vez, o Mercado com a Ponte de Pedra, como uma perimetral) seu; de quebra, teria o dinheiro.

Naziazeno terá que encontrar o homem em casa, numa certa "Coronel Carvalho" (p.57). Hoje, ela é a atual André Puente, paralela à Independência. Naquele tempo, o bairro era afamado (como dizia minha avó) pelos palacetes de grandes patriarcas de gado que aportaram na capital.

Já a Coronel Carvalho, como diz Sérgio da Costa Franco, num famoso livro de referência sobre Porto Alegre (2) ao contrário de hoje, era um beco que coomprendia a última quadra, na altura da hoje Ramiro Barcelos. Anos depois é que ela seria finalmente aberta em direção ao bairro Floresta até a Santo Antônio.

Nosso herói foi ter com o homem, que disse não saber da cobrança, que isso era com outro sócio do esquema. Depois de subir toda a Independência, Naziazeno volta de mãos vazias para o Largo em busca de Alcides.

Não o acha. Procura então o tal sócio e vai cobrá-lo num banco "da rua Sete" (de Setembro). É possível que, pela descrição de Machado, trate-se do antigo Banco Nacional de Comércio, na esquina da Ladeira mas, mais possível(mente) a antiga Caixa, cuja porta ficava para a Sete, na frente da Delegacia Fiscal (o Margs), prédio erguido em estilo eclético pelo arquiteto alemão Theo Wiederspahn no começo do século passado, já demolido.

O homem estava em viagem. Naziazeno volta a buscar Alcides. Finalmente o encontra, no fim do capítulo 10. Seu amigo recomenda procurar um certo Sr. Conti, nos altos da Ladeira com a Ponte (Riachuelo) "pouco antes da Biblioteca" (p.71).

Como diz Sérgio da Costa Franco, pela sua vizinhança no antigo Foro e no Tribunal, na Praça da Matriz, desde o século XIX, a Ladeira era a mais procurada para escritórios e cartórios desde o tempo do Ouvidor, "pista de carreira de advogados que galopam entre o alto e o baixo Foro, passarela de magistrados, escrivães, requerentes e meirinhos".

No caminho, Dyonélio narra: "na primeira esquina, na intersessão de uma travessa conhecida como centro da jogatina, dos cabares e das pensões chiques" (p.74). Ora, como se sabe, a travessa não citada é a Andrade Neves do tempo que chamava-se Rua Nova.

Como diz Sérgio da Costa Franco, até os anos 40, ela era um beco sem saída aberto pela Ladeira. "centro da boemia, de pensões alegres e cabarés, entre os quais, o Clube dos Caçadores" (que ficava onde hoje fica um estacionamento atrás do Centro Cultural Erico Verissimo) , só foi aberta nos anos 40, com o prolongamento das obras da avenida Salgado Filho, aberta para escoar o fluxo cada vez maior de bondes para a zona central da cidade.

(um parêntese: só o Clube dos Caçadores merecia um livro sobre, principalmente por toda a história social e política a qual o insigne lugar esteve vinculado, no primeiro quartel do século 20. A despeito da fama, o Caçadores não agenciava prostituição de alta roda. Apenas cedia o espaço para encontros. O capítulo O Deputado, do primeiro tomo do Arquipélago, do Erico Verissimo, ambienta o deputado Rodrigo Cambará numa de suas estrepolias nos Caçadores, pouco antes da Revolução de 23)

Naziazeno não acha o tal advogado, mas pecha com um amigo dândi. Ele o ataca e consegue cinco mil réis emprestado "até amanhã". Mesmo com fome, dirige-se a uma tabacaria "ao lado do Nacional" (no Largo) e resolve torrar o dinheiro no jogo.

Depois de torrar a grana, no Capítulo 14, desce até "pavilhões compridos" na área do Porto na tarde vazia das ruas do Centro. Sabe-se que havia muitos desses pavilhões onde hoje fica a Siqueira Campos na altura do Majestic (Casa de Cultura Mário Quintana desde 1991). Noutro escritório, regateia outro empréstimo, que lhe é negado.

Contudo, na página 99, Dyonélio faz referência à "docas em construção". Logo, é possível imaginar que trate-se do outro lado do cais onde, à época, era realizada a continuação das obras para os lados da Avenida Júlio de Castilhos. Ou seja, toda a extensão entre o rio e a Mauá correspondem a um aterro que estava sendo realizado naquele momento dafeitura de Os Ratos. Num trecho, o autor nos descreve o ocaso em Porto Alegre:

"A cidade se recorta sobre avermelhada que tem o céu para os lados onde está se escondendo o sol. O semicírculo do horizonte que Naziazeno abraça com o olhar está pesado de vapores. O rio, que reflete a batalha das cores escuras e claras lá do céu , tem um movimento lento e espesso de óleo. Bem à direita, lá longe, quase sobre as ilhas baixas, as sombras dos grandes navios ancorados no largo cavam buracos pretos na água grossa"

No começo do 15, Naziazeno vê uma certa casa "Azevedo". Segundo Sérgio da Costa Franco, esse estabelecimento pertencia ao Comendador Azevedo, um dos fundadores do Banco Nacional de Comércio e grande comerciante da cidade.

Na página 102, Dyonélio descreve uma cena na rua Santa Catarina. Hoje ela é a Dr. Flores. Naquele tempo, ela terminava na Voluntários da Pátria, na margem do rio, antes do aterro do cais Marcílio Dias - o que leva a crer que ele foi para os lados da Viação Férrea e não do Majestic.

"Através da praça e dos arbustos lá do fundo" (p.103) diz o autor, referindo-se com efeito para a Otávio Rocha, já que arremata a vista do antigo Hotel Sperb, na subida para a Andradas.

No 20, nosso herói retorna de mãos vazias ao Mercado, onde encontra Alcides e Duque. Ambos citam um agiota (Rocco) na rua Paissandu, hoje a Caldas Júnior, a próxima parada de Naziazeno. No retorno para os lados da Alfândega, passa pela vitrina do Ao Belchior e vê novamente as torres das Dores.

O homem não empresta, logo a triste embaixada de roedores sociopatas vai ter com um certo Fernandes, para os lados da rua Clara (João Manoel). Nada de dinheiro. Voltam. Por sugestão de Duque, Alcides decide especular reempenhando um anel de doutor (que não é dele obviamente).

Capítulo 18 (até o 21, o melhor do livro): a casa de penhor, como não podia deixar de ser, ficava na Ladeira. Já noite, o trio pega a peça e parte para outro penhor, para outro lado, dos lados da rua do Rosário (Vigário José Inácio).

Mesmo regateando, não conseguem empenhar o anel. Só com um certo Mondina, que lhes adiantaria o dinheiro mediante recibo de empenhar o anel e devolver-lhe a quantia: finalmente conseguem efetuar a transação.

Dyonélio descreve o ambiente num café (no Largo?)

"São quase oito horas (...). Pequenos grupos de homens vêm aparecendo nas portas, vêm entrando devagar. Outra fase na vida da cidade se inicia. A noite refrescou. (...) na mesa ao lado deles lê tranquliamente um jornal".


Notas:

(1) Os Ratos, Dyonélio Machado. Ed. Planeta, 2004
(2) Porto Alegre: Guia Histórico. Ed da UFRGS, 1988

Thursday, May 08, 2014

A Charneca e o Jardim


Machado de Assis



Estava relendo Iaiá Garcia (o motivo deste post meio maluco) Sempre tentei entender duas coisas sobre Machado de Assis.

Uma é por que ele é sempre considerado como um autor de ensino médio? “Que que eu vou querer com Machado de Assis? Isso é lá do tempo do meu 2º Grau”, dizia um amigo.

A outra é: por que um autor como Raymundo Faoro, autor do clássico Os Donos do Poder escreveria um ensaio sobre “um autor considerado de ensino Médio” (1)?

O que posso compreender das duas questões que botei aqui em cima é: Machado é leitura obrigatória na escola. Contudo, ele não é um escritor para jovens.

Como se sabe, o autor fluminense não publicava folhetim para jovens. Esse gênero jornalístico – típico da imprensa do Século XIX – era consumido por santas senhoras e senhores. E como todo jornalista, ele escrevia para o público desta ou daquela gazeta.

Mas Machado publicou todos seus folhetins em livro. Com o tempo, eles foram ganhando uma fortuna crítica. Foi através de gente como Faoro e muitos outros, que descobriu-se que sua obra transcende a leitura fugaz; foi através dessa gente que descobrimos que o “Bruxo do Cosme Velho” era mais do que um crítico de costumes. Na verdade, ele usou a literatura para fazer um radiograma de Brasil que, de lá prá cá, é praticamente o mesmo.

Um exemplo dessas possíveis leituras diversas de sua obra é Iaiá Garcia.


Publicado originalmente em o Cruzeiro, em 1878 e, mais tarde, em volume, pela Garnier, à primeira vista, Iaiá Garcia (2) é um romance romântico sobre a nobreza da renúncia de um amor.

Parece uma comédia de enganos: Jorge se apaixona por Estela, uma moça humilde, a mãe tenta dissuadi-lo e o faz pegar em armas e ir para a Guerra do Paraguai. No front, ele sonha com ela, até descobrir que o senhor Luís Garcia, confidente de seus arrufos, desposa a tal moçoila.

Garcia tem uma filha, Iaiá. Estela vira madrasta da menina, e sabemos que o consórcio se deu por causa da garota: ele não queria casar, não queria casar, mas as duas pareciam nascidas uma para a outra.

Jorge engole o despeito de ver seu confidente desposar a rapariga e seu amor jogado no ralo. No entanto, seu Garcia tem saúde fraca. Quer que Jorge vela por sua pequena família. Iaiá, agora moça, não gosta do major. Ele frequenta a casa deles. Ainda gosta da sua madrasta de forma quase ausente. O relacionamento entre os dois é impossível.

Elas não conhecem o pacto entre Luís e Jorge, e não entendem o porquê do moço visitá-los amiúde. Nesse meio tempo, outro homem, Procópio, conhece Iaiá e se apaixona por ela.

A antipatia entre a enteada de Estela e Jorge desaparecem. Na ausência daquele, os laços entre o filho de Dona Valéria e a pequena se estreitam até o paroxismo da paixão correspondida.

Procópio, como um duplo de Luís, transforma Jorge em confidente de seus amores por Iaiá, ante de partir a negócios numa longa viagem ao sul. Também fica sabendo da paixão frustrado do amigo pela Sra. Garcia.

Mas o amor fala mais alto: Jorge e Iaiá acenam para um casamento próximo. Quando volta, Procópio, agora como um duplo de Jorge, sabe do engodo: o seu confidente roubou-lhe a rapariga. O que fazer? Revela à garota o passado entre Estela e o major.

Nesse meio tempo, Luís morre. Num acesso de ciúmes, envenenada pela revelação, Iaiá, num rompante de ciúmes, acaba com o noivado e deixa todos perplexos. Agora, pateticamente enteada e madrasta viram antagonistas.

Segue-se um rebu entre as duas, só contornado por Estela, que diz que sim, eles tinham algo no passado. Contudo, hoje, não sente nada por Jorge. Era um amor do passado. Ou, num gesto extremo de nobreza, renuncia àquele amor.

Da mesma forma, temos um símile da situação do começo do livro. Antes, Jorge teve uma chance e foi levado a perder e aceitou. Agora, era ela quem teria a chance de, sabendo do grande amor de Jorge, por conta de um diálogo epistolar do tempo em que o rapaz lutava no Paraguai, ela poderia unir-se ao seu verdadeiro amor.
Ou seja, o desfecho poderia ser como o que Manuel Antônio de Almeida encontrou para o seu Memórias de um Sargento de Milícias: tipicamente romântico. Mas não era o que Machado de Assis tinha em mente.


------


Num artigo, intitulado "A Novidade das Memórias Póstumas", Roberto Schwartz (3) vira o santo de cabeça para baixo.
Sua tese é a seguinte: no Brasil de Machado, havia duas classes, os "capitalistas" e os escravos. A misturinha desse sanduíche são as pessoas livres e pobres, os sem-culotes do Império.

Naquele tempo não existia mercado de trabalho, porque o trabalho era escravo. A forma que eles teriam de sobreviver era na base do favor, a proteção de um bem-nascido. Sem isso, você não era ninguém.

Prá explicar: um personagem que vocês conhecem (no universo machadiano), José Dias (de Dom Casmurro, naturalmente), um reles agregado. De charlatão, ele vira um arauto de uma viúva rica. No começo contra o casamento de Bentinho com Capitu, virou a casaca porque sabia que ia futuramente viver de favor do filho de D. Vitória.

----

Schwartz explica que essa cultura brasileira meramente clientelista do "favor" está por trás dos quatro romances "românticos" de Machado de Assis - mais especificamente em Iaiá Garcia.

Segundo ele, nas relações de favor a realização passa pelo consentimento, pela captação do consentimento de uma pessoa proprietária”. Porém, existe uma certa “cumplicidade sistemática” do narrador a respeito do status quo. Assim, o estranhamento do enredo reside no fato de que vemos esse jogo de favores operar normalmente; por parte do autor, não existe nenhuma pretensão de denunciar isso abertamente.

A “denúncia” se dá no sentido de que Machado vai além do material romântico dos antecessores, Macedo e Alencar, que não mostravam claramente essa engrenagem. É essa a “primeira denúncia”, que opera em sua fase romântica

Para ele, no entanto, ao viver do favor, o sem-culotes tem que ser ladino, dançar conforme a música, e, na sua expressão (espero não estar descaracterizando o pensamento dele), engolir sapos. Ou seja, não se trata de malandragem: é a luta pela sobrevivência (ideia que vai ser retomada pelo autor mais tarde)

Nesse sentido, a sem-culotes de Iaiá Garcia é Estela. Ela é filha de um burocrata de terceira categoria. Jorge se apaixona por ela e, sendo rico, acha que pode cortejá-la sem nenhum porém. Porém, existe uma gama de relações "de favor".

O pai dela e Luís Garcia são o que hoje se poderia chamar de contínuo de sinecura. Estão onde estão porque alguém os colocou lá. Jorge faz uso de sua autoridade social para obter Estela. D. Valéria consegue mandá-lo para a guerra, e empurrá-la para Garcia.

Aqui é Estela quem aproveita a chance de subir na vida. O casamento é de favor e só acontece porque ela, usando de engenho e arte, "seduz" Luís ao demonstrar afeição parental por Iaiá. Ela engole o sapo empurrado goela abaixo empurrado pela imperativa e imperiosa mãe de Jorge.

O sapo lhe cai mal, mas lhe cai bem. Ela tem um casamento de sonho para quem pode, de comum acordo com o noivo, virar uma governanta de luxo. Estela pode ter analisado friamente: Jorge vai me largar na primeira esquina (como Félix, no começo de Ressureição, lembra?).

Ela age pelos seus instintos. Muito mais tarde ela vai saber que o amor do rapaz era profundo e verdadeiro. Mas, aqui, ela sabe que esse casamento lhe dará a sobrevivência. Essa revelação vai aparecer quando Luís finalmente morre e Iaiá e Estela se desentendem.

-----

Pegando o mote do Schwartz, relendo o fim do livro, podemos entender que Machado foi tão pessimista, irônico e cínico quanto seria em sua fase realista. Estela faz e recebe favores, de forma fria. Por que? Porque ela quer ser limpinha, embora ache o processo meio degradante, o que ela poderia fazer? Apenas agir friamente. Ou dissimular: pega o irredutível viúvo pelo seu calcanhar-de-Aquiles, a filha dele.

Na fórmula romântica, Machado sublima essa cruel equação, que causa um acerta náusea: pobres serviçais e proprietários onipotentes. Ainda está dentro do "esquema". Ele iria inverter isso na fase realista, quando caricatura os protagonistas de Memórias e Dom Casmurro - mostrando um retrato devastador da classe proprietária, a partir do ponto-de-vista deles, Brás Cubas e Bentinho.

Em Dom Casmurro, a "moça do favor" é a famélica Capitu. É ela quem, ardilosa e pacientemente, puxando um fio, consegue seduzir Bentinho a largar a batina e casar com ela.

Capitu é uma espécie de My Fair Lady às avessas: ela é quem tem a ambição de se tornar uma bela dama, não é vítima de um sortilégio ou aposta. Ela toma a iniciativa para salvar-se, e dá o golpe no baú; é ela quem faz o filho de D. Vitória sair do Seminário. Ele estava totalmente passivo com relação a isso. Por Bentinho, ele teria ficado lá.

Ele se dá conta do embuste quando Escobar morre. Sua razão de viver acabou. Ao invés de viver feliz para sempre na igreja com seu querido Escobar, Bentinho largou a batina por um casamento infeliz – Mas que beneficiou Capitu. Ele se sente enganado pelo embuste da My Fair Lady sem-culote e desconta todo o seu ódio senhorial àquela moça pobre que subiu na vida às costas dele, um proprietário. Seu objetivo agora é esmagá-la.

Da mesma forma, assim podemos entender o ódio rancoroso de Iaiá Garcia com Estela, quando seu pai morre. A morte de Luís acaba com o contrato de favor, e escandaliza Iaiá ao ver-se no meio de um singularíssimo (como diria Augusto dos Anjos) triângulo amoroso e percebe que sua madrasta pode roubar-lhe Jorge.

No fim, Capitu e Estela vão para o degredo: A esposa de Bentinho parte para a Europa e Estela, por ironia do destino, se torna educadora no interior de São Paulo (Machado podia literalmente matá-la de culpa, deixando-se morrer por um golpe de ar, por exemplo. Porém, já havia feito o mesmo com Helena).

No entanto, em Iaiá Garcia, há o desfecho romântico. Em Dom Casmurro, é claro que não, de forma alguma. Machado quer mostrar a brutalidade pela voz do proprietário.

Não existe aquela relação (até certa forma) consentida entre proprietários e favorecidos dos quatro primeiros romances do autor. Aqui, Machado quer mostrar, em primeira pessoa (como em Brás Cubas), o proprietário enfiando a botina na cara dos pobres sem-culotes.


---

O próprio nome do romance ironicamente desvia o foco: toda a história gira em torno de Estela, tudo acontece por causa dela. Iaiá Garcia é a sua antagonista. Mas como estamos num romance romântico, o título deve referir-se à heroína romântica. Não a sem-culotes.

O fim de Iaiá Garcia é uma flor de cinismo. No capítulo XVI, Estela tenta convencer sua enteada que não quer Jorge, dizendo "não há nada eterno neste mundo, nada, nada. As mais lindas paixões morrem com o tempo." E concluí, cinicamente: "um homem sacrifica o repouso (...) e essa paixão violenta e extraordinária acaba às portas de um simples namoro, entre duas xícaras de chá".

Amor eterno entre duas xícaras de chá. Iaiá pergunta se Estela nunca o amou. Sua resposta é o momento crucial da história, é o credo de Estela, a ária do terceiro ato, e que faz com que tenhamos que entender a mola mestra do romance (os grifos são meus. Desculpem a longa citação):


Havia entre nós um fosso largo, muito largo, disse Estela. Eu era humilde e obscura, ele distinto e considerado; diferença que podia desaparecer, se a
natureza me houvesse dado outro coração. Medi toda a distância que nos separava e tratei simplesmente de evitá-lo. Foi então que ele embarcou;
interiormente aprovei-o. Talvez lhe não neguei um pouco de compaixão silenciosa, mas nada mais. Casamento, entre nós, era impossível, ainda que todos
trabalhassem para ele; era impossível, sim, porque o consideraria uma espécie de favor, e eu tenho um grande respeito a minha própria condição. Meu pai já me achava, em pequena, uns arremessos de orgulho. Como querias tu que, com tal sentimento, pudesse desposar um homem, socialmente superior a mim? Era
preciso dar-me outra índole. Todas as felicidades do casamento achei-as ao pé de teu pai. Não nos casamos por amor; foi escolha da razão, e por isso acertada. Não tínhamos ilusões; pudemos ser felizes sem desencanto. Teu pai não tinha os mesmos sentimentos que eu; era mais tímido que orgulhoso. Qualquer que fosse a razão do seu desapego ao mundo, bastava que o tivesse, para me fazer feliz; vivemos assim alguns anos de inteiro isolamento, sem conhecer o amargor, que é o que fica no fundo da vida, sem necessidade da dissimulação... Minto; tive necessidade de fingir, desde que aquele homem aqui apareceu; era necessário. Um dia teu pai mostrou-me essa carta e referiu-me a paixão encoberta que aí se conta; podes imaginar se ouvi tranqüila. Mas fora desse acontecimento, que outro podia perturbar minha alma? Não vi
nenhuma porta abrir-se-me por obséquio, nenhuma mão apertou a minha por simples condescendência. Não conheci a polidez humilhante, nem afabilidade sem calor. Meu nome não serviu de pasto à natural curiosidade dos amigos de meu marido. Quem é ela? Donde veio? Ninguém me perguntou donde vinha, não é
verdade? Perguntaste-me quem era eu?
Não; amaste-me como tinhas amado tua mãe, e eu amei-te, como se foras minha filha. E para isto bastou-nos estender os
braços; não foi preciso descer nem subir.
— Não foi, bradou Iaiá comovida, apertando-lhe as mãos.
— Já vês quem eu era e sou; uma espécie de animal feroz, que prefere a charneca ao jardim. Não me senti lisonjeada com a paixão que inspirei; rejeitei, talvez, um marido digno das ambições de qualquer mulher. Era isto o que querias saber? Pois aí tens a minha história, a história dessa carta, que já agora podemos rasgar...

Qual seria o “outro coração”? O coração passional, romântico que, em se tratando de uma sem-culotes, foi a desgraça de Cecília, em Ressureição, abandonada por Félix. Não quis nada com ele porque seria “um favor”, mas um favor além da sua capacidade de “humilhar-se”, era preciso “outra índole”, muito embora preferisse a charneca ao jardim.


O casamento com Luís lhe era, pois, tangível, porquanto ambos eram socialmente cognatos. Ela sabia que um homem “socialmente superior” não ia trata-la de igual para igual. Ela não ia ser doida de ceder aos caprichos da parte proprietária. Estela é a anti-Cecília, a anti-Eugênia, Jorge pode ser um proto-Brás Cubas. Estela conhece esse jogo: não vai cair nele. Sua virtude é a sua frieza sentimental. Essa é a grande “renúncia” do livro – que chega ao paroxismo de jurar, mesmo sabendo do verdadeiro coração profundo de Jorge, que não o ama, não o quer, não tem atração por ele, prefere virar uma “assalariada” (como o fez Machado) a envolver-se com o rapaz, já que, dessa vez, sua atitude iria soar, de certa forma, "imoral".

Schwartz é quem observa: “Tanto Luís Garcia como Estela têm um lado de peixe-morto que eles alcançaram a duras penas, e que é a arma que eles conseguiram para não serem degradados”. Como diz o poeta, quem mora entre feras tem a necessidade de ser fera.

E é isso o que literalmente diz o pai de Estela, quando descobre que ela quer partir, e fica horrorizado e perplexo em saber que ele era apaixonado por ela e, mesmo assim, renuncia ao amor:

— Tu chegaste a amá-lo! exclamou ele. Não o aborrecias? Amaram-se? E só agora
sei... Bem digo eu; tu és uma fera.



E, perplexo, com a maior cara-de-pau, conclui:


- Não tens, nunca tiveste pena de minha
velhice... Ele é tão bom! tão digno! E se morresse por tua causa? não terias
remorso? não te havia de doer o coração quando soubesses que um moço tão
bem-nascido, que gostava de ti... Sim, ele gostava muito de ti; e tu também... e
só hoje!


Ora, "não tem pena da minha velhice?". Ora, o pai está preocupado com a felicidade da filha, que ele considera "orgulhosa" e que "nunca fez nada de certo"? Fica a pergunta prá vocês, caros leitores (uns 23) (não me devolvam).

Como bem diz Roberto Schwartz, a moral da história do Machado pré-realista (ou "realista") é mostrar essas regras de conduta, de forma a que os personagens saibam viver sem degradarem-se, ou “civilizar a relação para que ela não seja tão degradante”. Aqui, o autor não critica o clientelismo; o direito dos proprietários não é posto em dúvida.

O caráter desumano e opressor não mostra a sua cara. Machado precisou virar o santo, e criar um proprietário defunto que não tivesse língua presa ao contar as suas sórdidas vicissitudes. Esse é o delírio de Brás Cubas, o livro que iria ser o Machado de Assis, o nosso Raymundo Faoro do ensino médio.



Notas:

(1) FAORO, Raymundo. A pirâmide e o trapézio. São Paulo: Ed. Globo, 2001.
(2) ASSIS, Machado. Obras completas em 4v. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008.
(3) SCHWARZ, Roberto. Machado de Assis: um debate. In: Novos estudos n.29, março de 1991, p.59-82