Tuesday, March 03, 2015

Surfista Calhorda



Não sou um grande fã do Cidadão Quem (como deveria), mas confesso que fico sempre tocado quando ouço a música "Pinhal".

Acho que quase todo o verão da minha adolescência foi na praia. Na época, não sei por que, a gente gozava de dois meses inteirinhos de férias. Um deles - dependendo das férias de nossos pais, eu ficava em Pinhal, ou entre Pinhal e Tramandaí.

Na verdade, a pré-adolescência em Pinhal e a pós em Tramandaí. De Pinhal, lembro daquela coqueluche engraçada de roupas características de grife de surf, como a Lightining Bolt e a PCH. Na verdade, lá por 1984, surgiu em Porto Alegre uma moda de camisetas de surf. Todo mundo usava estampas Pychulyn, OP, e por aí vai. Nas festas da SAPP, o que mais dava era camisa de surf e bermudinha de veludo.

Até a música "Surfista Calhorda", que eu abominava na época, era uma gozação em cima do pessoal que usava aquele tipo de indumentária. Na verdade, o calhorda era eu, um antipático bostinha de onze anos que usava OP e sequer tinha uma planonda. Ou, melhor, sempre pegava jacaré com aqueles tocos de planonda - que não serviam prá muita coisa, já que era mais produtivo pegar ondinhas sem elas.

Nosso sonho de pré-adolescente era, com efeito, uma planonda de isopor inteira (e com cordinha), daquelas que vendiam em casas de artesanato. Mas nossos pais nunca tinham dinheiro para isso. Prancha de verdade, então, nem pensar. Havia o expediente do body boarding, mas nós éramos relutantes já que era consenso que tratava-se de "prancha de meninas".

Eu nunca sabia quem era o surfista calhorda. Já era difícil vida de surfista num balneário soturno, perdido (e inóspito naqueles verões) como Pinhal e seu folclórico osso da baleia (já então bastante carcomido. A última vez que o vi nem parecia um osso, parecia mais um enorme galho achatado), tão longe das capitais (ia citar Engenheiros, mas melhor não) do surf. Eu, particularmente, nem era do surf: parecia coisa de gurizada mais velha do que eu naquele tempo.

Mesmo assim, achava que só ter uma prancha prá ficar prá lá e prá cá na areia já era lucro. A música dos Replicantes era para eles. Mas quem embarcou na moda de gaiato fomos nós, os moleques de doze anos. A gente invejava a galera do surf - mesmo os calhordas, os que não entravam na água. Mas a banca de grande surfista era uma canastrice inefável, só para querer sentir-se superior diante dos demais mortais, ainda mais sendo surfista de verdade de Cidreira prá baixo (nós, de Pinhal, tínhamos, por nossa vez, um saudável preconceito com o pessoal de Magistério prá baixo, mas aí é outra história).

Pinhal era muito pequena para minha ambição. Meu sonho era mais para cima. Minha família alugava uma casa por um mês (ou quase isso) e o remédio era radicar-se em Pinhal, com meu walkman e um estoque de Disney Especial e Almanaque Disney (que a gente trocava nas bancas da praia). Hoje é impensável cogitar que uma família ficasse um mês no litoral.

O problema foi o advento do microondas. Depois disso, não havia mamãe que suportasse ficar mais de uma semana longe de um. Enfim, a tecnologia acabou tornando aquela vida selvagem na praia insuportável: sem videocassete (ainda, pessoal tinha medo de levar por causa da maresia, etc), um canal de tevê, livros chatos do Círculo do Livro (que minha avó materna assinava) para ler, semanas inteiras de chuva e sapos e bochechas sujas de rolha queimada de tanto jogar dorminhoco. Mas muita praia. E rádio-escuta amadorística de madrugada.

Hoje, por exemplo, é impensável ficar 30 dias jogando canastra e dorminhoco toda as noites (ou indo em algum bingo de sociedade, já que, naquelas priscas eras, não era uma prática interdita).

Os verões em Tramandaí eram melhores. Nós já eramos maiores. Dava para descolar um carro e se mandar para o centro, paquerar meninas e comer sorvete (naquela época, a gente só comia sorvete, mesmo). Além do mais, praia com cinema e centro comercial já era alguma coisa. Em Pinhal, o auge da nossa vida social era a SAPP e, mesmo assim, só mesmo no Carnaval.

Tramandaí naqueles anos 80 era divertidíssima. Capital do mundo, vibrava em seu cosmopolitismo pré-Mercosul. Só dava argentino. Em geral, tudo classe média baixa, com seus Ford Falcon sedan (em geral modelos antiquíssimos, e caindo aos pedaços) por toda a parte. Argentinos e uruguaios.
E já tinha boates (Pinhal só tinha o bingo).

A noite era melhor. Imbé estava começando: acho que só deslanchou quando apareceu o Sherwood, lá por 93. Antes, porém, o agito no Litoral Norte era uma casa em Atlântida, chamada Stereo Moto (que era do Magro Miguel). Ela existia desde o final dos 70, atingiu o auge no final dos anos 80. Naquele tempo, a gente já tinha autonomia para apreciar a vida noturna em Tramandaí mas, Atlântida, não. Era o nosso limite intransponível. Aquela era a boemia bem vestida do verão.

Naquele final dos anos 80, quem comandava o Stereo era o próprio Mago Miguel. Ele tinha arrendado um programa na Litoral FM (hoje a Jovem Pan). A Litoral era da minha fase Tramandaí. A gente era refém da emissora. Naquele tempo, havia apenas uma FM na praia, e ela só tocava Eurodance. Parece incrível, me lembro quando a gente ia prá Tramandaí e só pegava essa rádio. E era 24 horas de Eurodance. Remix musiquinha do Top Gear...
contudo
A gente passeava de carro, ia na sorveteria, em toda a parte era isso no Verão, rádio na Litoral FM, uma rádio só tocando isso. Lembro que um dia, desenterraram surf music oitocentista (que passou batido por aqui na época), anos depois. Hoje finalmente enterraram esse europop groselha e só toca reggae e arredores.

É impossível, não dá prá imaginar ou pensar (ou aceitar) que pista de dança, música de quiosque e toda e qualquer trilha no litoral gaúcho fosse a grande baba radiofônica eram os discos da PWE, Eurobeat. Parecia jabá. Não dava prá acreditar (hoje dá uma saudadezinha gulity pleasure). Era só o que tocava aqui, Sandra Cretu, Kylie Minogue, Jason Donovan, Bananarama e o Rick Astley, essa era a trilha daquele final dos 80, tudo franqueado pela Litoral FM e a gloriosa Stereo Moto.

A nossa saída era trazer de Porto Alegre fitinhas cassete com rock, qualquer coisa, de Dire Straits a Paralamas. Até que alguém apareceu com fitas dos Waillers. Foi bem na época que o PWE sumiu, ao mesmo tempo, relançaram o evangélico Legend em CD - o reggae passou a ser a música do verão (para sempre) e rádios alternativas da grande Porto Alegre, como a saudosa Felusp, passaram a tocar, do nada, rock australiano como Hoodoo Gurus e coisas do tipo.

De repente, bandas que tinham acabado há anos, como o Men at Work e Australian eram a nova onda: tudo a ver. Eu demorei a aderir, mas entrei de cabeça. Não consigo dissociar aqueles CDs (daí apareceram os portáteis digitais para a nossa alegria) de surf music daqueles verões dos anos 90.

Imagine aquele pessoal da Austrália, como o James Reyne, tentando entender como e por que vinham aqueles cheques de direitos autorais do Brasil anos depois que eles haviam se aposentado da carreira artística, e descobrindo um novo filão, uns bichos grilos do Rio, Floripa ou Porto Alegre querendo ouvir "It's a Mistake".

Foi um renascimento o Ano Bom de 1994. De repente, a Litoral FM foi arrendada pela Pan e, na virada, puseram um caminhão de som tocando "is This Love". Nessa época, a gente já passara dos vinte, saíamos de carro. Foi quando finalmente descobrimos Atlântida (mas ali o Stereo já havia fechado). Ali já iria aparecer o Ibiza e o Planeta. Os 90 já eram outra história.


Nossa base em Imbé era na Morada do Sol, longe de Tramandaí à pé (de Dindinho mais longe ainda, naqueles ônibus pré-históricos), longe do mar, mas estrategicamente perto de tudo. O começo era difícil. Houve uma época em que não havia bolichos pelo litoral. O jeito era buscar refrigerante e cerveja por atacado nas distribuidoras. A gurizada, que não bebia, ia prá carregar casco para os adultos. Era injusto: prá cada dez garrafas de cerveja, uma de refri.

O meu auge deve ter sido quando apareceu o Circo Beach (e o centrinho do Imbé, verão de 96 (lembram?)com o Sherwood, depois o Nukanua, o Capitan (sic) Post (de um colega nosso de faculdade que desbundou e resolveu vender cerveja na praia (ótima ideia) e o Crepe da Barra), Imbé passou a competir com Capão em matéria de público jovem e Tramanda virou uma espécie de reduto do pagode - que estava na primeira para a segunda onda do gênero. Virou uma espécie de praia de gente mais adulta. A gurizada atravessava o rio e ia para a barra do Imbé. No verão de 96, por causa de um frila na praia, fiquei entre Pinhal e Imbé.

Um dia tudo mudou. Família vendeu casa da praia. A gente cresceu, arrumou estágio, emprego, ou ficou pobre. E ficou impossível veranear. No máximo no Revellion. Depois, nunca mais.

Nunca mais voltei à Pinhal. Sei que a casa de palhas não existe mais. O Osso da Baleia também. Meus tios morreram. Mas lembro que na rua deles, que dava esquina com a antiga Prefeitura (com a João Guimarães, até a Interpraias), passando a casa de praia deles, à esquerda de quem vai para a faixa, quase no fim da quadra, havia uma casa branca, e uma garagem. Ali seguido havia uma banda que tocava.

Anos depois, falando daquele tempo, e daquela casa, e de "Pinhal" - a música que provocou esse meu dilúvio proustiano, meu primo me disse que aquela banda era o protótipo da Cidadão Quem. Não poderia assegurar (confio na palavra dele) mas, ouvindo e lendo a letra, com uma saudade inacreditável e insuportável, eu lembro daqueles verões em Pinhal.

Lembro da planonda quebrada na areia, futebol de areia com goleira de chinelo, da foto com o retratista da charrete com o pônei, da fila gigantesca para ligar para casa na agência da CRT na rua da Igreja, da Coca batizada com cachaça nas reuniões-dançantes da SAPP ao som de OMD, New Order, e a groselha sonora da Litoral FM, do galo de brinquedo que indicava o tempo, das solas dos pés torradas pelo asfalto e as pedras quando esquecíamos as havaianas na hora de ir para o mar, da perna e da barriga queimada de mãe d'água, das madrugadas insones esperando ver o sol nascer, da ruazinha alagada e cheia de sapos coaxando de noite depois de uma inesperada semana de mau tempo, do vendedor de puxa-puxa (que sempre pegava no nosso pé no prego e a gente sempre acabava estragando os dentes de leite com aquilo), da casa dos meus tios e daquela garagem. Lembro de uma época não por pura e simples nostalgia, mas com saudade de um tempo em que, diferente de hoje, vivíamos em família e vivíamos em segurança.

Prá quem não conhece a música:




Mesmo que não seja verdade, que a banda da casa branca não seja a garagem do Cidadão Quem, tudo o que diz ali na letra de "Pinhal" nos resume, e faz todo o sentido. Às vezes, eu também volto prá lembrar que a gente cresceu na beira do mar.

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