Monday, May 19, 2014

Touradas no Maracanã


Braguinha


Maracanã, Campeonato Mundial de Futebol, dia 13 de julho de 1950. Estádio lotado ou, como diria Nelson Rodrigues, com “gente até no lustre”. Naquela tarde, a Seleção enfrentava a Espanha. Quando Chico tinha acabado de meter o quarto gol na cidadela adversária (aos onze do 2º tempo), quem estava nas arquibancadas pôde assistir a uma cena inesquecível.

Alguém começou a puxar a marchinha “Touradas em Madri”. Numa progressão fulminante, todas as 200 mil almas começaram a cantar junto:

Eu fui às touradas em Madri
E quase não volto mais aqui
Pra ver Peri beijar Ceci.
Eu conheci uma espanhola
Natural da Catalunha;
Queria que eu tocasse castanhola
E pegasse touro à unha.
Caramba! Caracoles! Sou do samba,
Não me amoles.
Pro Brasil eu vou fugir!
Isto é conversa mole para boi dormir!



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Lançada para o Carnaval de 1938, “Touradas Em Madri” foi injustiçada naquele ano. Na noite de sexta-feira, dia 25 de fevereiro, ou seja, na véspera dos festejos de Momo, a Prefeitura do então Distrito Federal realizou o tradicional concurso de marchinhas.

Gravada originalmente por Almirante na Odeon, no dia 28 de novembro de 1937, o disco foi lançado (junto com "Yes, Nós Temos Bananas") no suplemento de novidades carnavalescas do selo em janeiro do ano seguinte (como acontecia com todas as marchinhas concorrentes ao Carnaval).



O resultado perpretado pelo júri foi o seguinte: em primeiro lugar, “Touradas em Madri”, de autoria de Alberto Ribeiro e João de Barro. Em segundo, “As Pastorinhas”, também de Braguinha, porém em parceria com Noel Rosa, seguidos por “Sereia” (Alvarenga e Ranchinho). A vitória, contudo, durou até segunda, quando os jornais anunciaram a anulação do certame.

O motivo era o não comparecimento do presidente da Comissão anunciada no edital na data aprazada da apuração. Segundo Zuza Homem de Mello (1), a tal anulação não passou de pura marmelada: os demais perdedores haviam entrado com ação contra a escolha do júri.

A alegação era a de que “Touradas em Madri” na verdade não era “música brasileira” mas, sim, uma estilização de passodoble, ou seja, um ritmo não-autóctone. Para eles, de acordo com o edital, isso resultaria na virtual eliminação do tema.

Assim, na tarde do dia 28, ocorria nova eleição. As vitoriosas, desta vez, foram “As Pastorinhas”, “O Cantar do Galo” (Benedito Lacerda e Darcy de Oliveira) e “Ali Babá” ((Roberto Roberti e Arlindo Marques Júnior).

Em seu depoimento para o seu fascículo História da Música Popular Brasileira, da Abril, Braguinha comenta que inscrevera “As Pastorinhas” pela desfeita com “Touradas”. No entanto, a coisa foi mais longe: houve uma guerra, capitaneada por Mário Lago perante ao público, naturalmente pressionando o júri para que aquela vencesse.

Outro foi um entrevero entre Nássara e João de Barro. Por puro despeito — pelo fato da sua marchinha “Periquito Verde” ter sido desconsiderada pelos jurados — o autor de “A-la-la-ô” debochou de Braguinha, dizendo que quem havia vencido o certame era o espírito de Noel Rosa, o célebre co-autor de “As Pastorinhas”. Os dois se engalfinharam, no calor da hora, sendo apartados incontinente por Ari Barroso se a turma do deixa-disso.

Para ver como o tempo cuida de colocar tudo nos devidos lugares, “Touradas em Madri”, além de várias outras criações de Braguinha, seria eternizado pelos próximos carnavais.
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Naquela tarde, todos no estádio cantavam “Touradas em Madri” — menos um sujeito, presente nas cadeiras cativas. Ao contrário, ele estava com a cara afundada nas mãos, imagem típica do desespero.

— Ensinem esse espanhol a cantar! — gritou um gaiato, ao ver o tal sujeito a chorar copiosamente.

O Maracanã continuava cantando. O torcedor se impacientou e gritou mais alto, para que o pobre diabo ouvisse:

— Olha como esse cara tá quieto, só pode ser espanhol...coitado.

Mais um gol, e o coro recomeça:

Eu fui às touradas em Madri — parará-tim-bum, bum, bum!

Quando o jogo termina e a torcida festeja a vitória final — um sonoro e inapelável seis a um, aquele homem inconsolável pôde, então, se recompor e se levantar. O nome do torcedor “espanhol” era Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, vulgo João de Barro, o autor da execrada “Touradas em Madri”. E, doze anos depois, já entronizada como clássico, ela seria lembrada por um Maracanã lotado — e pelo resto do Brasil — para sempre.



(1) Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. A Canção do Tempo, 85 anos de músicas brasileiras, Volume 1: 1910-1957


Thursday, May 08, 2014

A Charneca e o Jardim


Machado de Assis



Estava relendo Iaiá Garcia (o motivo deste post meio maluco) Sempre tentei entender duas coisas sobre Machado de Assis.

Uma é por que ele é sempre considerado como um autor de ensino médio? “Que que eu vou querer com Machado de Assis? Isso é lá do tempo do meu 2º Grau”, dizia um amigo.

A outra é: por que um autor como Raymundo Faoro, autor do clássico Os Donos do Poder escreveria um ensaio sobre “um autor considerado de ensino Médio” (1)?

O que posso compreender das duas questões que botei aqui em cima é: Machado é leitura obrigatória na escola. Contudo, ele não é um escritor para jovens.

Como se sabe, o autor fluminense não publicava folhetim para jovens. Esse gênero jornalístico – típico da imprensa do Século XIX – era consumido por santas senhoras e senhores. E como todo jornalista, ele escrevia para o público desta ou daquela gazeta.

Mas Machado publicou todos seus folhetins em livro. Com o tempo, eles foram ganhando uma fortuna crítica. Foi através de gente como Faoro e muitos outros, que descobriu-se que sua obra transcende a leitura fugaz; foi através dessa gente que descobrimos que o “Bruxo do Cosme Velho” era mais do que um crítico de costumes. Na verdade, ele usou a literatura para fazer um radiograma de Brasil que, de lá prá cá, é praticamente o mesmo.

Um exemplo dessas possíveis leituras diversas de sua obra é Iaiá Garcia.


Publicado originalmente em o Cruzeiro, em 1878 e, mais tarde, em volume, pela Garnier, à primeira vista, Iaiá Garcia (2) é um romance romântico sobre a nobreza da renúncia de um amor.

Parece uma comédia de enganos: Jorge se apaixona por Estela, uma moça humilde, a mãe tenta dissuadi-lo e o faz pegar em armas e ir para a Guerra do Paraguai. No front, ele sonha com ela, até descobrir que o senhor Luís Garcia, confidente de seus arrufos, desposa a tal moçoila.

Garcia tem uma filha, Iaiá. Estela vira madrasta da menina, e sabemos que o consórcio se deu por causa da garota: ele não queria casar, não queria casar, mas as duas pareciam nascidas uma para a outra.

Jorge engole o despeito de ver seu confidente desposar a rapariga e seu amor jogado no ralo. No entanto, seu Garcia tem saúde fraca. Quer que Jorge vela por sua pequena família. Iaiá, agora moça, não gosta do major. Ele frequenta a casa deles. Ainda gosta da sua madrasta de forma quase ausente. O relacionamento entre os dois é impossível.

Elas não conhecem o pacto entre Luís e Jorge, e não entendem o porquê do moço visitá-los amiúde. Nesse meio tempo, outro homem, Procópio, conhece Iaiá e se apaixona por ela.

A antipatia entre a enteada de Estela e Jorge desaparecem. Na ausência daquele, os laços entre o filho de Dona Valéria e a pequena se estreitam até o paroxismo da paixão correspondida.

Procópio, como um duplo de Luís, transforma Jorge em confidente de seus amores por Iaiá, ante de partir a negócios numa longa viagem ao sul. Também fica sabendo da paixão frustrado do amigo pela Sra. Garcia.

Mas o amor fala mais alto: Jorge e Iaiá acenam para um casamento próximo. Quando volta, Procópio, agora como um duplo de Jorge, sabe do engodo: o seu confidente roubou-lhe a rapariga. O que fazer? Revela à garota o passado entre Estela e o major.

Nesse meio tempo, Luís morre. Num acesso de ciúmes, envenenada pela revelação, Iaiá, num rompante de ciúmes, acaba com o noivado e deixa todos perplexos. Agora, pateticamente enteada e madrasta viram antagonistas.

Segue-se um rebu entre as duas, só contornado por Estela, que diz que sim, eles tinham algo no passado. Contudo, hoje, não sente nada por Jorge. Era um amor do passado. Ou, num gesto extremo de nobreza, renuncia àquele amor.

Da mesma forma, temos um símile da situação do começo do livro. Antes, Jorge teve uma chance e foi levado a perder e aceitou. Agora, era ela quem teria a chance de, sabendo do grande amor de Jorge, por conta de um diálogo epistolar do tempo em que o rapaz lutava no Paraguai, ela poderia unir-se ao seu verdadeiro amor.
Ou seja, o desfecho poderia ser como o que Manuel Antônio de Almeida encontrou para o seu Memórias de um Sargento de Milícias: tipicamente romântico. Mas não era o que Machado de Assis tinha em mente.


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Num artigo, intitulado "A Novidade das Memórias Póstumas", Roberto Schwartz (3) vira o santo de cabeça para baixo.
Sua tese é a seguinte: no Brasil de Machado, havia duas classes, os "capitalistas" e os escravos. A misturinha desse sanduíche são as pessoas livres e pobres, os sem-culotes do Império.

Naquele tempo não existia mercado de trabalho, porque o trabalho era escravo. A forma que eles teriam de sobreviver era na base do favor, a proteção de um bem-nascido. Sem isso, você não era ninguém.

Prá explicar: um personagem que vocês conhecem (no universo machadiano), José Dias (de Dom Casmurro, naturalmente), um reles agregado. De charlatão, ele vira um arauto de uma viúva rica. No começo contra o casamento de Bentinho com Capitu, virou a casaca porque sabia que ia futuramente viver de favor do filho de D. Vitória.

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Schwartz explica que essa cultura brasileira meramente clientelista do "favor" está por trás dos quatro romances "românticos" de Machado de Assis - mais especificamente em Iaiá Garcia.

Segundo ele, nas relações de favor a realização passa pelo consentimento, pela captação do consentimento de uma pessoa proprietária”. Porém, existe uma certa “cumplicidade sistemática” do narrador a respeito do status quo. Assim, o estranhamento do enredo reside no fato de que vemos esse jogo de favores operar normalmente; por parte do autor, não existe nenhuma pretensão de denunciar isso abertamente.

A “denúncia” se dá no sentido de que Machado vai além do material romântico dos antecessores, Macedo e Alencar, que não mostravam claramente essa engrenagem. É essa a “primeira denúncia”, que opera em sua fase romântica

Para ele, no entanto, ao viver do favor, o sem-culotes tem que ser ladino, dançar conforme a música, e, na sua expressão (espero não estar descaracterizando o pensamento dele), engolir sapos. Ou seja, não se trata de malandragem: é a luta pela sobrevivência (ideia que vai ser retomada pelo autor mais tarde)

Nesse sentido, a sem-culotes de Iaiá Garcia é Estela. Ela é filha de um burocrata de terceira categoria. Jorge se apaixona por ela e, sendo rico, acha que pode cortejá-la sem nenhum porém. Porém, existe uma gama de relações "de favor".

O pai dela e Luís Garcia são o que hoje se poderia chamar de contínuo de sinecura. Estão onde estão porque alguém os colocou lá. Jorge faz uso de sua autoridade social para obter Estela. D. Valéria consegue mandá-lo para a guerra, e empurrá-la para Garcia.

Aqui é Estela quem aproveita a chance de subir na vida. O casamento é de favor e só acontece porque ela, usando de engenho e arte, "seduz" Luís ao demonstrar afeição parental por Iaiá. Ela engole o sapo empurrado goela abaixo empurrado pela imperativa e imperiosa mãe de Jorge.

O sapo lhe cai mal, mas lhe cai bem. Ela tem um casamento de sonho para quem pode, de comum acordo com o noivo, virar uma governanta de luxo. Estela pode ter analisado friamente: Jorge vai me largar na primeira esquina (como Félix, no começo de Ressureição, lembra?).

Ela age pelos seus instintos. Muito mais tarde ela vai saber que o amor do rapaz era profundo e verdadeiro. Mas, aqui, ela sabe que esse casamento lhe dará a sobrevivência. Essa revelação vai aparecer quando Luís finalmente morre e Iaiá e Estela se desentendem.

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Pegando o mote do Schwartz, relendo o fim do livro, podemos entender que Machado foi tão pessimista, irônico e cínico quanto seria em sua fase realista. Estela faz e recebe favores, de forma fria. Por que? Porque ela quer ser limpinha, embora ache o processo meio degradante, o que ela poderia fazer? Apenas agir friamente. Ou dissimular: pega o irredutível viúvo pelo seu calcanhar-de-Aquiles, a filha dele.

Na fórmula romântica, Machado sublima essa cruel equação, que causa um acerta náusea: pobres serviçais e proprietários onipotentes. Ainda está dentro do "esquema". Ele iria inverter isso na fase realista, quando caricatura os protagonistas de Memórias e Dom Casmurro - mostrando um retrato devastador da classe proprietária, a partir do ponto-de-vista deles, Brás Cubas e Bentinho.

Em Dom Casmurro, a "moça do favor" é a famélica Capitu. É ela quem, ardilosa e pacientemente, puxando um fio, consegue seduzir Bentinho a largar a batina e casar com ela.

Capitu é uma espécie de My Fair Lady às avessas: ela é quem tem a ambição de se tornar uma bela dama, não é vítima de um sortilégio ou aposta. Ela toma a iniciativa para salvar-se, e dá o golpe no baú; é ela quem faz o filho de D. Vitória sair do Seminário. Ele estava totalmente passivo com relação a isso. Por Bentinho, ele teria ficado lá.

Ele se dá conta do embuste quando Escobar morre. Sua razão de viver acabou. Ao invés de viver feliz para sempre na igreja com seu querido Escobar, Bentinho largou a batina por um casamento infeliz – Mas que beneficiou Capitu. Ele se sente enganado pelo embuste da My Fair Lady sem-culote e desconta todo o seu ódio senhorial àquela moça pobre que subiu na vida às costas dele, um proprietário. Seu objetivo agora é esmagá-la.

Da mesma forma, assim podemos entender o ódio rancoroso de Iaiá Garcia com Estela, quando seu pai morre. A morte de Luís acaba com o contrato de favor, e escandaliza Iaiá ao ver-se no meio de um singularíssimo (como diria Augusto dos Anjos) triângulo amoroso e percebe que sua madrasta pode roubar-lhe Jorge.

No fim, Capitu e Estela vão para o degredo: A esposa de Bentinho parte para a Europa e Estela, por ironia do destino, se torna educadora no interior de São Paulo (Machado podia literalmente matá-la de culpa, deixando-se morrer por um golpe de ar, por exemplo. Porém, já havia feito o mesmo com Helena).

No entanto, em Iaiá Garcia, há o desfecho romântico. Em Dom Casmurro, é claro que não, de forma alguma. Machado quer mostrar a brutalidade pela voz do proprietário.

Não existe aquela relação (até certa forma) consentida entre proprietários e favorecidos dos quatro primeiros romances do autor. Aqui, Machado quer mostrar, em primeira pessoa (como em Brás Cubas), o proprietário enfiando a botina na cara dos pobres sem-culotes.


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O próprio nome do romance ironicamente desvia o foco: toda a história gira em torno de Estela, tudo acontece por causa dela. Iaiá Garcia é a sua antagonista. Mas como estamos num romance romântico, o título deve referir-se à heroína romântica. Não a sem-culotes.

O fim de Iaiá Garcia é uma flor de cinismo. No capítulo XVI, Estela tenta convencer sua enteada que não quer Jorge, dizendo "não há nada eterno neste mundo, nada, nada. As mais lindas paixões morrem com o tempo." E concluí, cinicamente: "um homem sacrifica o repouso (...) e essa paixão violenta e extraordinária acaba às portas de um simples namoro, entre duas xícaras de chá".

Amor eterno entre duas xícaras de chá. Iaiá pergunta se Estela nunca o amou. Sua resposta é o momento crucial da história, é o credo de Estela, a ária do terceiro ato, e que faz com que tenhamos que entender a mola mestra do romance (os grifos são meus. Desculpem a longa citação):


Havia entre nós um fosso largo, muito largo, disse Estela. Eu era humilde e obscura, ele distinto e considerado; diferença que podia desaparecer, se a
natureza me houvesse dado outro coração. Medi toda a distância que nos separava e tratei simplesmente de evitá-lo. Foi então que ele embarcou;
interiormente aprovei-o. Talvez lhe não neguei um pouco de compaixão silenciosa, mas nada mais. Casamento, entre nós, era impossível, ainda que todos
trabalhassem para ele; era impossível, sim, porque o consideraria uma espécie de favor, e eu tenho um grande respeito a minha própria condição. Meu pai já me achava, em pequena, uns arremessos de orgulho. Como querias tu que, com tal sentimento, pudesse desposar um homem, socialmente superior a mim? Era
preciso dar-me outra índole. Todas as felicidades do casamento achei-as ao pé de teu pai. Não nos casamos por amor; foi escolha da razão, e por isso acertada. Não tínhamos ilusões; pudemos ser felizes sem desencanto. Teu pai não tinha os mesmos sentimentos que eu; era mais tímido que orgulhoso. Qualquer que fosse a razão do seu desapego ao mundo, bastava que o tivesse, para me fazer feliz; vivemos assim alguns anos de inteiro isolamento, sem conhecer o amargor, que é o que fica no fundo da vida, sem necessidade da dissimulação... Minto; tive necessidade de fingir, desde que aquele homem aqui apareceu; era necessário. Um dia teu pai mostrou-me essa carta e referiu-me a paixão encoberta que aí se conta; podes imaginar se ouvi tranqüila. Mas fora desse acontecimento, que outro podia perturbar minha alma? Não vi
nenhuma porta abrir-se-me por obséquio, nenhuma mão apertou a minha por simples condescendência. Não conheci a polidez humilhante, nem afabilidade sem calor. Meu nome não serviu de pasto à natural curiosidade dos amigos de meu marido. Quem é ela? Donde veio? Ninguém me perguntou donde vinha, não é
verdade? Perguntaste-me quem era eu?
Não; amaste-me como tinhas amado tua mãe, e eu amei-te, como se foras minha filha. E para isto bastou-nos estender os
braços; não foi preciso descer nem subir.
— Não foi, bradou Iaiá comovida, apertando-lhe as mãos.
— Já vês quem eu era e sou; uma espécie de animal feroz, que prefere a charneca ao jardim. Não me senti lisonjeada com a paixão que inspirei; rejeitei, talvez, um marido digno das ambições de qualquer mulher. Era isto o que querias saber? Pois aí tens a minha história, a história dessa carta, que já agora podemos rasgar...

Qual seria o “outro coração”? O coração passional, romântico que, em se tratando de uma sem-culotes, foi a desgraça de Cecília, em Ressureição, abandonada por Félix. Não quis nada com ele porque seria “um favor”, mas um favor além da sua capacidade de “humilhar-se”, era preciso “outra índole”, muito embora preferisse a charneca ao jardim.


O casamento com Luís lhe era, pois, tangível, porquanto ambos eram socialmente cognatos. Ela sabia que um homem “socialmente superior” não ia trata-la de igual para igual. Ela não ia ser doida de ceder aos caprichos da parte proprietária. Estela é a anti-Cecília, a anti-Eugênia, Jorge pode ser um proto-Brás Cubas. Estela conhece esse jogo: não vai cair nele. Sua virtude é a sua frieza sentimental. Essa é a grande “renúncia” do livro – que chega ao paroxismo de jurar, mesmo sabendo do verdadeiro coração profundo de Jorge, que não o ama, não o quer, não tem atração por ele, prefere virar uma “assalariada” (como o fez Machado) a envolver-se com o rapaz, já que, dessa vez, sua atitude iria soar, de certa forma, "imoral".

Schwartz é quem observa: “Tanto Luís Garcia como Estela têm um lado de peixe-morto que eles alcançaram a duras penas, e que é a arma que eles conseguiram para não serem degradados”. Como diz o poeta, quem mora entre feras tem a necessidade de ser fera.

E é isso o que literalmente diz o pai de Estela, quando descobre que ela quer partir, e fica horrorizado e perplexo em saber que ele era apaixonado por ela e, mesmo assim, renuncia ao amor:

— Tu chegaste a amá-lo! exclamou ele. Não o aborrecias? Amaram-se? E só agora
sei... Bem digo eu; tu és uma fera.



E, perplexo, com a maior cara-de-pau, conclui:


- Não tens, nunca tiveste pena de minha
velhice... Ele é tão bom! tão digno! E se morresse por tua causa? não terias
remorso? não te havia de doer o coração quando soubesses que um moço tão
bem-nascido, que gostava de ti... Sim, ele gostava muito de ti; e tu também... e
só hoje!


Ora, "não tem pena da minha velhice?". Ora, o pai está preocupado com a felicidade da filha, que ele considera "orgulhosa" e que "nunca fez nada de certo"? Fica a pergunta prá vocês, caros leitores (uns 23) (não me devolvam).

Como bem diz Roberto Schwartz, a moral da história do Machado pré-realista (ou "realista") é mostrar essas regras de conduta, de forma a que os personagens saibam viver sem degradarem-se, ou “civilizar a relação para que ela não seja tão degradante”. Aqui, o autor não critica o clientelismo; o direito dos proprietários não é posto em dúvida.

O caráter desumano e opressor não mostra a sua cara. Machado precisou virar o santo, e criar um proprietário defunto que não tivesse língua presa ao contar as suas sórdidas vicissitudes. Esse é o delírio de Brás Cubas, o livro que iria ser o Machado de Assis, o nosso Raymundo Faoro do ensino médio.



Notas:

(1) FAORO, Raymundo. A pirâmide e o trapézio. São Paulo: Ed. Globo, 2001.
(2) ASSIS, Machado. Obras completas em 4v. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008.
(3) SCHWARZ, Roberto. Machado de Assis: um debate. In: Novos estudos n.29, março de 1991, p.59-82


Wednesday, April 09, 2014

O Dia em que o Correio encarou a guarda


A traição da "cortesã"

Segundo Carlos Reverbel (1), que foi redator, repórter e editor do Correio do Povo ao longo de quarenta e seis anos - de 1934 até 1980, o matutino, fundado em 1895 por Cardas Júnior, a despeito de ter surgido sob a égide de uma linha editorial neutra - diferente da maioria da imprensa porto-alegrense de então, de caráter eminentemente polítco-ideológico, sempre foi apreciado e respeitado pelas altas esferas dos governos militares pós 1964. Segundo ele, mesmo os presidentes que não eram gaúchos tinham alguma relação com o Rio Grande do Sul. "Breno Caldas tinha acesso fácil a todos eles, que também tinham interesse em ficar de bem com o Correio", disse.

Não bastasse isso, como lembra Walter Galvani em seu panegírico (2) sobre a Caldas Júnior, a Folha da Tarde, tida como a "puta velha" do Dr. Breno, a partir de 1964, tinha em sua direção Ediberto Degrazia - ex sub-chefe da Casa Civil do Governo Ildo Meneghetti, um dos próceres que defenderam a queda do presidente João Goulart.

O curioso é que, da antiga Companhia Jornalística Caldas Júnior, os jornais que gozavam de maior "liberalidade" eram primeiro a Folha da Tarde, depois um pasquim que nascera da costela desta publicação, a Folha da Manhã. Esta, por sua vez, era tão "prafrentex" que encontrava resistência de fontes e de leitores. Tanto é que repórteres tinham que se dizer ligados ao Correio - a cortesã do poder - e não a Folhinha, que era sutilmente renegada até pelo seu patrão, Dr. Breno. Mesmo assim, ela fez história, e ainda merece uma biografia em livro (a Folha e o Correio já ganharam as suas).

Contudo, o Correio do Povo teve um problema com a censura, em pleno regime. A história foi a seguinte: o governo negava que houvesse censura à imprensa. No entanto, Rui Mesquita, então diretor do Estadão, mandou um telex ao Ministro da Justiça do Governo Garrastazu, Alfredo Buzaid arrazoando uma ordem apócrifa que havia chegado às redações proibindo qualquer referência à "abertura política ou redemocratização".

O tal memorando foi parar na redação do Correio, trazido por censores. O libelo do editor-chefe do Estadão dizia: "sinto vergonha pelo Brasil, degradado a uma condição de república de Uganda qualquer por um governo que acaba, de forma incrível, de decretar o ostracismo dos próprios companheiros de revolução". À guisa de conclusão, Mesquita disse: "Todos os que estão no poder hoje baixarão um dia. E então, senhor Ministro, como aconteceu na Alemanha, na Itália ou na Rússia, o Brasil ficará sabendo da verdadeira história desse período (...)".

O Correio resolveu dar uma gauchada, e publicou o telex apócrifo e o arrazoado de Rui Mesquita. A história foi parar na Capital Federal. As ordens lá de cima eram as de apreender aquela edição, do dia 20 de setembro de 1972.

Breno Caldas fez menção de resistir; alguns funcionários da casa, num rompante heróico de capa-e-espada, chegaram a se armar. Porém, quando o grosso do pelotão de choque cercou o vetusto Edifício Hudson, capitularam. A milícia cercava o prédio, da Sete até a Rua da Praia. O delegado da Polícia Federal foi ter com Caldas, no escritório do homem.

A matéria estava no noticiário da página 8, como cabeça de página. Irredutível, Breno disse que não ia refazer a edição, ou seja, não ia sacar a matéria, intitulada "LÍDERES DO GOVERNO NEGAM QUE MINISTRO DA JUSTIÇA QUEIRA CENSURAR A IMPRENSA".

- Então o seu jornal vai ser apreendido - advertiu o milico.

- Faça o que o senhor quiser. - respondeu o dono do Correio.

Toda a edição que havia rodado lá pelas 4 da manhã estava sendo transportada para os caminhões verde-oliva, cujo destino era a sede da PF, na Zona Norte de Porto Alegre.

Mas de fato toda a edição daquele dia foi aprendida? Não. Uma intrépida funcionária do departamento de Arquivo de Jornais da empresa, Francisca Espinosa, bancou a Antígona do Correio do Povo. Driblou os guardas e pegou um maço de exemplares. Como ela conhecia muito bem o prédio por dentro, conseguiu furtar o material debaixo dos bigodes da guarda sem ser descoberta. Desceu até o setor de impressão e saiu por uma passagem que só ela conhecia, até chegar no terceiro andar.

Prá quem quiser, no setor de Arquivo, está lá, intactos, os 20 exemplares salvos da censura naquele aziago 20 de setembro de 1972.

Desse dia em diante, o velho Correião não teve problemas extremos como esse. Contudo, como se sabe, quem estava com a cabeça à prêmio era, justamente, a filha rebelde da CJCJ, a Folha da Manhã - segundo Reverbel um jornal "avançado para a época, muito bem feito por uma geração brilhante de jovens jornalistas que começavam a sair das faculdades de comunicação".

De acordo com ele, no entanto, a ousadia da Folha da Manhã era a tendência "à esquerda" (como se fosse a única redação cheia de "comunistas" no Brasil. À bocca chiusa, muitos donos de jornal confessavam preferir os repórteres de esquerda pois, segundo eles, eram os mais produtivos). O problema é que esse pretenso esquerdismo da Folhinha não incomodava diretamente os militares; para Reverbel, os maiores incomodados eram os leitores do Correio.

- Não foi o governo militar que rejeitou a Folha da Manhã, mas sim os assinantes do Correio, que ameaçavam cancelar as suas assinaturas se a Caldas Júnior continuasse mantendo um jornal como aquele - explicou.

Três anos depois da gauchada do 20 de setembro de 1972, os militares pediram a cabeça de toda a cimeira da redação do jornal - entre eles, Luís Fernando Verissimo e Ruy Carlos Ostermann.

Ainda assim, a filha maldita e renegada da Caldas Júnior iria durar mais cinco anos, até 1980, quando Breno finalmente atendeu à demanda dos assinantes do Correio e pôs fim à aventura da Folhinha.



(1) Carlos Reverbel, Arca de Blau, Artes & Ofícios, Porto Alegre, 1993.
(2) Walter Galvani, Um Século de Poder - Os Bastidores da Caldas Júnior, Mercado Aberto, Porto Alegre, 1994.

Friday, April 04, 2014

A gente era feliz (e não sabia)


Pois esses dias, numa plácida tarde-noite de chuva, tive que pegar um táxi para ir até um endereço na Saturnino de Brito, lá prá quem desce para a Avenida dos Prazeres. Como estava no Moinhos de Vento, peguei o carro de praça na altura da Eudoro Berlink. Chovia pequeno e logo escureceu. O trânsito engarrafava. Fazia um friozinho de fim de outubro (não era fim de outubro).

Íamos parando, de semáforo em semáforo, depois Anita, Carlos Gomes e Nilo Peçanha. Mais engarrafamento na Nilo, na saída dos colegiais do Anchieta. Tudo parado. O rádio estava ligado em algum vitrolão, se não me engano, na Antena 1. Eis que, de repente, começa a tocar It's a Mistake, do Men At Work. Nisso, estávamos parados na altura da General Store.

Ouço Men At Work e, naquela chuva oblíqua, com o nariz esmagado no vitro do taxi, olhando as luzes noturnas da Nilo naquela altura, de repente, de repente voltei no tempo. E voltei ao tempo das homéricas baladas de Porto Alegre nos anos 90.

Na época, ninguém ia na Cidade Baixa. Havia uma noite que começava no Lei Seca, primeiro quando era na Bordini, depois subiu para a Plínio, e perto do Fim de Século, que ficava na Silva Jardim. A gente descia a D. Pedro II e tinha o Santa Mônica. Ou descia a Carlos Gomes e tinha uma noite começando quase lá passando o Anchieta, comçava num pub perto do posto e descia até o último grito da moda, que era o Dado Bier.

Era superestimado e com razão, até que a gente finalmente arrumou grana e beca para entrar lá (falando em beca, nada a ver com o assunto, mas lembro-me que, na época, eu era grunge. Sempre que um amigo me apresentava a um amigo comum, esse amigo comum me perguntava se eu fazia Elétrica na UFRGS. WTF?).

Havia alguns bares na Protásio, na volta do Barranco. Perto do Ratão, havia o Território da Paz, que tinha promoção de chope. Era uma ótima pedida prá passar a noite ouvindo Burning Spear e sair de lá trocando as pernas.

Mais embaixo, bem na frente do Barranco, funcionava o Mapa da Cidade. Ali ia muita gente da PUC. O Mapa era muito legal, pena que eu fui poucas vezes lá.
Coincidiu justamente na época em que eu entrei na Faculdade, em 1994. E, do lado do Porto de Elis (que, naquela altura, não era mais o avoengo 'Porto' clássico, dos anos 80) tinha uma casa de samba, o Zimbro's.
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O Zimbro's eu fui só uma vez, uma amiga me convidou prá ir no aniversário de uma na verdade, tinha vertido libações (tomado várias) no Maza (o antigo Maza, não esse atual aí não) depois da aula e ela me achou quando eu tava na parada para ir para casa. Na verdade, tudo não passou de ardil dessa minha amiga, já que a aniversariante em questão era uma guria que eu paquerava e todas amigas dela sabiam. Então ela quis me pôr nessa reta e justamente nos cumpleanos dela.

Cheguei lá pronto, se é que me entendem. Me lembro de mim, bêbado, indo então conversar com a menina. Eu estava com uma garrafa cheia de Polar na mão (com a tampa fechada, veja só, o meu estadinho). Sei que, no meio da conversa, deixo cair a garrafa no chão. Ela caiu feericamente de pé, mas não rachou. A moça fez menção de rir e virou da lado. Mesmo desconcertado, salvei a cerveja: a garrafa felizmente não explodiu. Mas eu, naquele, estado, naquela hora da madrugada, já estava honestamente de porre e, graças ao deus Gambrinus, achando tudo muito engraçado.

Mas bom mesmo era o Lei Seca. A gente ia prá lá, para cá, mas sempre acabava no Lei Seca. Lembro-me que, na finaleira, sempre o DJ rolava um Taj Mahal prá galera pular igual pipoca. Imagine: isso nos tempos em que éramos todos jovens, e tínhamos fôlego e saúde para varar a madrugada tomando cerveja, até o sol raiar, e ainda por cima ir para a PUC com a mesma roupa de véspera, para a aula de Cultura Religiosa I. Todos com cara de paisagem oito da manhã, no Prédio 7, para as prédicas do professor, acerca de hinduísmo e Lao Tsé.

....

(Aliás, falando em Cidade Baixa, ela ainda tava começando os trabalhos. Não tinha a vida noturna que tem hoje. Tinha o antigo Marinho (o de hoje, na Sarmento, não conta, nem com a roda de violão), o Cult Bar, do lado do DEP, hoje é um boteco gourmet metido a pé-sujo, isto é, boteco da forma mais cínica, impossível, bem coisa desse cínico começo de centúria).

Lembro-me que, na verdade, a noite, ainda mais ali na região da José do Patrocínio, era algo muito simplório, quase um gueto. A República e adjacências não havia se tornado ainda a Haight-Ashbury do socialismo-sandália que é hoje.

A peça de resistência, no entanto, era, como sempre, o Opinião. Naquele tempo, 1994 ou 1995, era um barzinho pequeno. A gente conhece o Opinião grande na esquina, mas era um pub muito pequenino, com o palco de costas para a calçada. Logo depois, ele seria reformado. Lembro-me que, quando rolaram os primeiros shows da Hard Working Band (curtia eles coverizando Natural Woman) ali, já era o novo espaço, o que a gente vai hoje.

Mas a Cidade Baixa acabou virando uma boa pedida (no fim das contas), justamente porque éramos (e somos e sempre seremos) uns pelados. É que fazer a balada na rota Lei Seca-Plutão-Nilo Peçanha-Crocodilus era ou prá quem tinha carro ou conseguia descolar carona. E a Cidade Baixa é a melhor balada a pé do planeta.
Mas na minha lembrança, hoje, é uma balada histórica. Hoje, essa região da Nilo-Iguatemi foi devidamente tomada pela especulação imobiliária. Naquele tempo, era uma área devoluta, ainda quase toda projetada.

O sítio da cervejaria do Dado Bier era, então, um mato sem cachorro. Tinha nada ali. Só o barracão da IAPI (hoje é uma concessionária).

Muita vez eu com uma galera na hora da larica no Plutão eu sem patavina só olhando os outros comendo xis e eu seco de cerveja por dentro (só pelo derradeiro gole de cerveja ainda, ali pelas cinco da matina), louco para chegar em casa, me atirar na cama e esperar que o sono vencesse a fome...



Sempre que eu passo por ali, de noite, com uma chuvinha rala no vidro do carro, ainda por cima se for ao som de algo como Reckless, do Australian Crawl, por exemplo, eu me lembro daquelas baladas anos 90 quando, como diria peremptoriamente o Mauro Borba, a gente era feliz e não sabia.

Na volta, retornei pela Nilo. Dessa vez, pedi ao taxista que me deixasse na altura do General Store. Queria tomar uma cerveja ali, com chuva e tudo. Depois eu que voltasse de T7. Azar. Estava muito nostálgico.

Thursday, April 03, 2014

Uma conversa bem meia-boca

A língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo, até para nós. 
O português praticado no Brasil ...
*Na recepção dum salão de convenções, em Fortaleza*
- Por favor, gostaria de fazer minha inscrição para o Congresso.
- Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?
- Sou de Maputo, Moçambique.
- Da África, né?
- Sim, sim, da África.
- Aqui está cheio de africanos, vindos de toda parte do mundo. O mundo está cheio de africanos.
- É verdade. Mas se pensar bem, veremos que todos somos africanos, pois a África é o berço antropológico da humanidade...
- Pronto, tem uma palestra agora na sala meia oito.
- Desculpe, qual sala?
- Meia oito.
- Podes escrever?
- Não sabe o que é meia oito? Sessenta e oito, assim, veja: 68.
- Ah, entendi, *meia* é *seis*.
- Isso mesmo, meia é seis. Mas não vá embora, só mais uma informação: A organização do Congresso está cobrando uma pequena taxa para quem quiser ficar com o material: DVD, apostilas, etc., gostaria de encomendar?
- Quanto tenho que pagar?
- Dez reais. Mas estrangeiros e estudantes pagam *meia*.
- Hmmm! que bom. Ai está: *seis* reais.
- Não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?
- Pago meia? Só cinco? *Meia* é *cinco*?
- Isso, meia é cinco.
- Tá bom, *meia* é *cinco*.
- Cuidado para não se atrasar, a palestra começa às nove e meia.
- Então já começou há quinze minutos, são nove e vinte.
- Não, ainda faltam dez minutos. Como falei, só começa às nove e meia.
- Pensei que fosse as 9:05, pois *meia* não é *cinco*? Você pode escrever aqui a hora que começa?
- Nove e meia, assim, veja: 9:30
- Ah, entendi, *meia* é *trinta*.
- Isso, mesmo, nove e trinta. Mais uma coisa senhor, tenho aqui um folder de um hotel que está fazendo um preço especial para os congressistas, o senhor já está hospedado?
- Sim, já estou na casa de um amigo.
- Em que bairro?
- No Trinta Bocas.
- Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria no Seis Bocas?
- Isso mesmo, no bairro *Meia* Boca.
- Não é meia boca, é um bairro nobre.
- Então deve ser *cinco* bocas.
- Não, Seis Bocas, entende, Seis Bocas. Chamam assim porque há um encontro de seis ruas, por isso seis bocas. Entendeu?
- Acabou?
- Não. Senhor é proibido entrar no evento de sandálias. Coloque uma meia e um sapato...
O africano enfartou...

(não sei quem é o autor)

Tuesday, April 01, 2014

As Flores e o Canhão


Vandré no Festival de 1968: aclamado pelas vaias à Sabiá

Quando voltou do exílio, em 1973, Geraldo Vandré foi preso ao desembarcar do voo doméstico que o trazia de uma forçada turnê entre a Europa e a América do Sul. A alegação é que ele era o autor de “Prá Não Dizer Que Não Falei de Flores”. Além disso, ele teria dado declarações contra o governo nacional no exterior.

É irônico pensar hoje que, de certa forma, toda a fama da música que o compositor paraibano inscreveu no Festival da Canção de 1968 foi causada, em grande parte, por causa de toda a história da censura que esta sofreu, a partir do seu lançamento, logo após o certame. A canção foi banida por uma década mas não foi esquecida. E, ao que parece, o banimento a promoveu - prova-dos-nove de que a censura é, foi e sempre será um afrodisíaco irresistível.

Ela poderia ter quase caído no esquecimento, como "Margarida", de Guarabira. Que, com efeito, foi a campeã do II Festival Internacional da Canção Popular. Não. “Prá Não Dizer Que Não Falei de Flores”, além de vice, virou símbolo de uma geração que caminhava para o cadafalso.

O compacto, editado pela Som Maior, trazia as duas versões: a de estúdio, mais contida, embora com um arranjo de violões muito bonito e expressivo.

No lado B, porém, escutamos a versão mais emblemática de “Caminhando”. Gravada ao vivo em pleno Maracanazinho lotado, no calor da hora do Festival, ela é, a um só tempo, o registro de uma época – época essa em que as liberdades sociais e políticas foram sendo tolhidas com o AI - 5, no rastilho do fatal corolário do Golpe de 1964 - deflagrado há exatos 50 anos, num glorioso 1° de abril) o ambiente daqueles certames havia catalisado toda a pressão social daqueles idos de 68, quando parecia que tudo ia mudar.

No palco, de forma surpreendente, Vandré capitulava. O homem que brigou com meio mundo e travou uma cruzada pessoal e solitária com uma canção de dois acordes aceitou a decisão do júri. Mais: ofereceu a outra face, elogiando os autores de Sabiá – Tom Jobim e Chico Buarque de Hollanda – e dando adeus à inocência diante de uma plateia ensurdecedora que vaiava a decisão do júri.

Ato reflexo, começa a tocar, de forma dramática. A platéia exulta ao fim de cada estrofe (como quando ele diz "morrer pela pátria e viver sem razão").



Você pode não gostar nem de Vandré, nem da música, mas é impossível ficar incólume à maneira como o público vai, aos poucos, passando do silêncio à catarse, até quando, no fim, entoam juntos o refrão. Vandré, possivelmente admirado, chega a errar um acorde. Ninguém percebeu, mas está no disco.

O compositor, mais conhecido por “Disparada” do que com “Porta-Estandarte” ou “Rancho da Rosa Encarnada”, “Aroeira” ou “Ventania”, escreveu um pequena marselhesa agreste. De quebra, de forma conativa, incitava o ouvinte a luta.

De certa forma, a canção foi emblemática também como o fim de um ciclo. A partir dali, o ambiente de festival sofreria um esvaziamento, total perda de sentido, uma crise de identidade. A MPB se exilava. Era o começo da tempestade.

Um militar, o general Luís de Oliveira, então Secretário da Segurança do antigo Estado da Guanabara, chegou então a declarar ao falecido Correio da Manhã que os indecisos cordões de “Prá Não Dizer Que Não Falei de Flores” eram de uma música “ofensiva à soberania nacional e um achincalhe às Forças Armadas”. Talvez essa seja a melhor crítica à segunda colocada do FIC – dada a torpeza de sentimentos em tal afirmativa. Quem não gostaria de ouvir essa tal música que ameaçou a soberania de um país?

É de se pensar em como as canções têm esse poder – se não o de querer mudar o mundo ou as pessoas (Vandré, de forma enigmática, dizia que não era compositor de protesto), o de fazer muitos acreditarem que ela seja capaz de tal façanha.

Mas eles tinham medo de uma canção. e promoveram uma perseguição absurda, coisa de tiranos contra um mero artista, uma pessoa que estava apenas realizando seu pleno exercício de liberdade de criação. Como ele disse no palco: "a nossa função é de fazer canções" (enquanto o Maracanazinho, com gente até no lustre (como diria Nelson Rodrigues) gritava em coro "é marmelada, é marmelada").

Uma canção realmente tem o poder de mudar o mundo? Pelo menos a ponto de ser uma ameaça à soberania nacional? Por menos que isso, por exemplo, meses após o retorno de Vandré ao Brasil, Victor Jara seria eliminado fisicamente por causa de suas músicas. O ódio dos generais chilenos era tamanho que destruíram inclusive os masters de seus discos. Em suma: queriam apagá-lo da história.

Não conseguiram. E Vandré sobreviveu à censura - inclusive ao próprio ostracismo (e ao auto-ostracismo quando este declarou, no fim dos anos 70, que Vandré era um personagem de um certo Geraldo Pedroso de Araújo Dias) por causa de sua música.

O fascículo da História da Música Popular Brasileira dedicada a Vandré (publicada em 1978, pela Abril) não trazia “Prá Não Dizer Que Não Falei de Flores”. A música era proibida (o fascículo, se a contivesse, poderia atentar à soberania).

Muitos foram os casos de canções censuradas no Brasil. Muitas nasceram mortas na ditadura (o que dizer de canções que não puderam nascer?). “Prá Não Dizer Que Não Falei de Flores” sobreviveu ao exílio, à censura, à indiferença do seu próprio autor. É um caso de se estudar. E, de certa forma, a censura a fortaleceu. Renasceria na voz de Simone (numa versão em ritmo de chacarera) naquele disco ao vivo, dez anos depois da versão original.

…..

Mudando de assunto (e ficando no mesmo) me lembro de um episódio, que não me recordo de onde li ou ouvi: era um jovem casal. Ele, esquerdista roxo, enragé de primeira ordem, adepto da luta armada, queria “Prá Não Dizer Que Não Falei de Flores”. Sua namorada, no entanto, preferia “Sabiá”.

Ele brigou com ela porque ele achava o tema de Jobim e Chico “alienada”. Um dia, ele caiu na ilegalidade. Conseguiu fugir da perseguição política e exilou-se. Dez anos depois, ele voltou.

No saguão do aeroporto, eles se reencontram. Ele, mudado, com uma barba de vinte dias, a roupa amarfinhada, como de quem tivesse carregado o mundo nas costas durante todo aquele tempo.

Depois das juras de amor, ele olhou nos olhos dela e disse:

- Você tinha razão, Sábia é a mais bonita.

….....................

Vandré nunca mais a promoveu. O tempo passou, mas ela nunca perdeu sua magia. Muitos reclamam que Vandé nunca mais gravou nada. Não precisaria. “Prá Não Dizer Que Não Falei de Flores” é mais expressiva que dez mil variações sobre “Aroeira” que, por sua vez, soava quase como uma variação de “Disparada”.

Sua discografia hoje se resume a alguns discos esgotados (quando ele ainda era o romântico cantor a la Sérgio Ricardo (quando este também era apenas um cantor romântico) e o emblemático elepê Canto Geral, e outro álbum, gravado na França, nos anos 70. “Prá Não Dizer Que Não Falei de Flores” estará sempre associada àquela metáfora das cordilheiras desabando sobre as flores, flores que todos acreditavam que podiam vencer o canhão.

Tuesday, March 18, 2014

Sara

Sara é uma ilustre desconhecida para mim. Ela vem a ser uma parente de uma parente de uma parente, sendo que, no meio dessa genealogia toda, algum sangue se perdeu com o passar dos tempos. E se eu mal tenho contato com meus parentes, imagine com parentes de parentes de parentes de parentes.

Íamos a um casamento. O lugar do enlace e da festa eu não conheço. Sei que fica num distrito da cidade, quase limite com Ana Rech. É um daqueles lugares típicos, que ainda possui um certo atavismo do tempo dos colonizadores italianos. Como aqueles lugares onde os vovôs jogam truco em salão paroquial, jogam bolão e conversam estrepirosamente em dialeto.

É engraçado: eu sempre vinha passar o verão aqui quando eu era menino, isso no tempo em que a gente ficava um mês inteiro veraneando.

Aprendi a andar por toda a cidade, todos os lugares, conheço o trajeto da casa de minha tia até o Centro. No entanto, não decorei o nome dos bairros e, pior, não sei andar de ônibus a parte alguma.

Cheguei em casa de minha tia e ela estava num animado chá com suas amigas. Eram todas da sua idade, já beirando os setenta anos. Me ofereceu chá, mas eu recusei: queria mesmo era bebericar o vinho da pequena adega do meu tio, no porão da casa.

Porém, ele não estava lá. E minha tia não deixa eu mexer lá no porão e meu tio muito menos, porque ele é ciumento com a adega dele. É uma adega ordinária; porém, ele gosta de beber vinho em todas as refeições, como são muitos na Serra.

Depois, perguntei por todo mundo. Todos estão bem. Minha tia disse que Sara estava no andar de cima, se arrumando, e ia ficar pronta logo. Isso queria dizer pelo menos uma hora e meia.

Pedi licença para sair para ir no bolicho ao lado. Voltei com uma garrafa de vinho debaixo do casaco. Fui para a sala da tevê e fiquei estirado naqueles sofás-cama vintage de loja de departamentos vendo um jogo de futebol.


.....


Ah, me esqueci de dizer: minha tia apareceu com uma gata persa muito bonita, preta e sempre com uma cara de enfezada. Um pouco mais tarde, depois que o serão de minha tia terminou, enquanto ela arrumava a sala de jantar, eu perguntei:

- Titia, já que vamos ter que esperar até que Sara fique pronta, você poderia me contar a história dessa gata persa aí, não é?

- Com muita honra e gosto - disse ela

Então, falou.

- Há algum tempo, tu não eras nascido ainda, eu vivia na colônia do meu tio, um comerciante de vinhos perto de Garibaldi.

Um dia, ele me contou uma história que aconteceu com seu irmão, Dom Virgílio. Ele era rico e próspero; no entanto, ele e a esposa. D. Lavínia, não conseguiam ter filhos. Depois de muito tempo, ele resolveu pegar uma das mucamas e ela lhe deu um filho, Jacopo.

Anos depois, o garoto já era adolescente, e Dom Virgílio teve que resolveu uns negócios na Europa. Quando voltou deu falta do filho.

- Ele conheceu uma cocottte, ficou maluco por ela e foi embora - disse D. Lavínia.

Ninguém sabia disso - disse-me minha tia - mas D. Lavínia era uma mulher muito má e invejosa e foi iniciada, desde a infância, na feitiçaria e na arte dos encantamentos. Pela ciência da sua magia, ela transformou Jacopo num boi barroso, que ficou perdido no meio dos outros animais, bucolicamente a pastar e a servir de animal de carga.

D. Virgílio não soube notícias de seu filho, e ficou prostrado. Nunca mais soube notícias de Jacopo. Ele ficou sofrendo por um ano. Uma dia, o burro quebrou uma das patas dianteiras. A solução era sacrificá-lo.

Quando D. Virgílio se aproximou para degolar o animal, este, de forma surpreendente, se atirou aos pés do homem. Como sucedera aos cavalos de Pátroclo, os olhos do boi vertiam lágrimas.

Impressionado com o que vira, o homem decidiu não matá-lo. No entanto, da varanda da casa, D. Lavínia falou:

- É absolutamente imperioso que matem o boi. Não temos condições de sustentar e cuidar desse animal moribundo!

No entanto, meu tio teve pena do bichinho. E pediu que o caseiro levasse o boi barroso e cuidasse bem dele.

Dias depois, o mesmo caseiro veio ter com o patrão:

- D. Virgílio, preciso contar um segredo para o senhor. Sente-se, primeiro.

Então o agregado contou a verdade: a filha do caseiro havia aprendido feitiçaria com uma velha que viveu com eles há tempos atrás. "A garota me disse que o boi barroso, na verdade, era seu filho e que a madrasta o havia enfeitiçado", revelou o sujeito.

Espavorido, titio seguiu o homem até o pequeno curral, ao lado do modesto chalé do caseiro. Ao ver D. Virgílio, o animal teve a mesma reação de antes. Perplexo, ele olhou para Santuzza, a filha do caseiro:

- Então é verdade?
- Sim, senhor.
- Santuzza, se tu quebrar o feitiço, toda esta colônia é sua.
D. Virgílio - disse ela, olhando com seus enormes olhos castanhos ao patrão - eu só peço duas coisas: o amor de Jacopo e poder enfeitiçar quem eu quiser.

Titio concordou. Ela pegou um panelão, cozinhou umas ervas, embebeu toda aquela beberragem no boi barroso e disse: "se és um animal, que tu permaneças animal. Mas se és um ser humano, volte a ser um ser humano".

O bicho se contorceu no curral, até se transformar em Jacopo. D. Virgílio se atirou aos pés do rapaz, soluçando.

Em seguida, Santuzza deixou seu pai e titio e foi até o sobrado de D. Virgílio, onde estava D. Lavínia. Esta, ao vê-la, diante dos frontões da casa, gritou:

- Fora daqui, sua cadela! Nós combinamos que não iríamos se confrontar nunca!

- E eu alguma vez jurei algo para você, sua vaca? - respondeu Santuzza.

- Então tome o que eu tenho guardado para você!

D. Lavínia se transformou num leão, que saltou sobre a menina. Santuzza, num átimo, puxou um fio de cabelo seu e assoprou, transformando-o numa espada, que golpeou o animal, decepando-o em dois pedaços, que viraram texugos, e saíram aos pulos e gritos.

De repente, no topo de uma árvore, os texugos se uniram numa acrobacia mortal, virando uma gigantesca águia, que partiu em rasante em direção de Santuzza, que virou outra águia. As duas ficaram farfalando estrepitosamenbte as asas, guinchando e se bicando furiosamente no ar, até que uma delas alçou voo até a rosa-dos-ventos do sobrado e sumiram no céu, até desceram noutro rasante, até perfurarem o chão, abrindo uma fenda.

D. Virgílio e o caseiro apenas olhavam a cena, perplexos – dizia titia. Da fenda, saiu uma onça, tendo um lobo gigantesco em seu encalço. O lobo subjulgou a onça, que se transformou numa cobra com asas, que saiu voando; o lobo então virou um bugio dantesco.

O bugio pôs se a cagar, girando o enorme rabo viril e espartanamente como uma hélice, disparando suas fezes encantadas como uma feérica metralhadora, em direção da cobra voadora. Com destreza, ela escapou incólume da bateria anti-aérea, se transformando num corvo branco kamikaze que, com toda a pertinácia do mundo, contra-atacou em direção ao bugio.

Antes que pudesse esboçar reação, o macaco foi golpeado em cheio pela destra do corvo, se rasgando em dezenas de pedaços. O corvo, então, pôs-se no encalço dos pedaços do bugio, até devorar tudo. Porém, alguns pedaços foram rolando até um manatial. Os restos do bugio viraram uma enorme garoupa, e pulou dentro do manatial bufante.

O corvo deu outro rasante, se transformando, contudo, num pirarucu, mergulhando também no manatial.

- Meu Deus - gemeu titio.

- Desse manatial elas não escapam mais - respondeu o caseiro. - Já vi esse filme.

Vinte minutos depois, as águas pararam de borbulhar. Ambos ficaram olhando o manatial, como duas estátuas de sal.

Eis que, de repente, as duas saíram em forma humana da profundezas num salto monstro, até caírem de pé diante da vila de titio. Como um combate impossível, as duas trocavem raios e trovões, berrando palavras mágicas. Temendo pela própria pele, as duas testemunhas fugiram para um abrigo.

Santuzza disparou um raio em D. Lavínia que, com os olhos latejados em vermelho, soltou fogo pelo nariz, aniquilando o raio; a filha do caseiro escapou da onda de fogo, que foi parar no galinheiro, matando todas as galinhas e o galo também.

Novo embate. Porém, dessa vez eram tantos raios disparados que entre as duas mulheres formou-se um círculo de fogo, queimando toda a vegetação do local. Dez minutos depois, via-se cinzas pelo chão e Santuzza desmaiada.

D. Virgílio chegou perto da menina. Pegou em seu pulso. Ela estava viva! O caseiro, então, a abraçou e a pegou no colo:

- Santuzza! Deus seja louvado! - E puseram-se a berrar, a estapear o rosto, a chorar e a gemer.

Porém, mesmo virada em cinzas, a bruxa má lançou uma maldição. D. Lavínia vociferou que quando Santuzza completasse 18 anos, ela iria se transformar numa gata persa.

Ninguém ali acreditou nessa história. E os anos se passaram, a menina cresceu e todos se esqueceram da tal maldição. Até que, na festa de 18 anos de Santuzza, a maldição aconteceu. De repente, do nada, ela se metamorfoseou nessa gatinha persa que eu tenho aqui no colo.


Eu fiquei olhando para as duas, entre perplexo e confuso. Olhava nos olhos da gata, tentando tirar alguma coisas do olhar do animal. E algo me dizia que a gata me olhava de um jeito como se dissesse “acredite” e eu pensando no que eu poderia fazer para quebrar o encanto.

Nesse meio tempo apareceu Sara, muito bonita como uma modelo de Botero, com um vestido longo, parecia uma menina maquiada tentando parecer aparentar idade maior do que a dela.

Minha tia nos apresentou e ligou para o táxi. Ìamos pegar mais umas duas pessoas e partir para Ana Rech.

Quando descíamos a escada da casa, eu resolvi perguntar:

- Me diga uma coisa, de onde saiu aquela gata persa da tia?

- D. Lavínia deixou com ela semana passada, elas são muito amigas, titia e ela, desde crianças - explicou Sara. - Como D. Lavínia ia viajar num pacote turístico de cidades santas na Itália, não tinha com quem deixar a Santuzza com ninguém. E deixou com a titia.

- Ah – respondi, depois de um breve silêncio. Então continuei:

- É que...é que ela me disse uma história de uma maldição, de um desenlace entre duas gênias e a maldição, que na verdade essa gata persa é....

- Ah, esquece isso, guri – riu Sara. - Titia vive lendo livros. Livros! Sempre pede livros emprestada. Tá sempre embarafustada com algum livro na frente dela. Acho que ela está é ficando maluca de tanto ler livros. Então ela fica delirando essas coisas.

Novo silêncio – desta vez interrompido por Sara:

- Mas não vá espalhar que a titia está ficando senil, né.

- Prometo não contar para ninguém – respondi, enquanto chegava o táxi.


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Friday, February 14, 2014

A onomatopeia da máquina de lavar roupas

Sou um cara que tem dificuldades em entender como funcionam as onomatopeias. Onomatopeia é aquela palavra que corresponde a um som, seja de um objeto, seja de um animal. Na língua inglesa, a onomatopeia é capaz de transformar um som em verbo ou em substantivo, como “bater à porta”, que virá “knock at the door” ou beat, que significa batida.

Quem não lembra de ter visto a velha série do Batman na TV com seus “Pow”, “Soc” ou “Bam”? Ou os quadrinhos com “Cabum”, “Ploft”, “Zum” e “Zap”? Certa vez entrevistei o maior goleador que o Internacional já teve, o Carlitos. Era um sujeito muito simpático e que gostava de contar suas façanhas dentro de campo, no auge do Rolo Compressor. Mas o mais curioso é que ele narrava suas histórias com os respectivos sons. Era mais ou menos assim que ele fazia seus relatos: “Eu era muito rápido, um azougue. Quando partia na corrida, ninguém me buscava. Era lançar a bola, zupt, e eu voava baixo, zum, pegava e bola e puft. Mais um gol do Colorado”.

Mas que som faz a máquina de lavar roupas? Em qualquer revista em quadrinhos, que são especialistas no uso de onomatopeia para ilustrar suas cenas, as máquinas lava-roupas fazem “Chug-chug”. Não me parece ser esse o som que ela faz. A minha, por exemplo, acho que “fala” cada dia uma palavra ou frase diferente. Outro dia ela dizia: “vaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorreraicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrervaicorrer”. Parecia que a máquina reforçava o pedido da minha mulher, que quer que eu perca a barriga.

Porém, a maior aconteceu na semana passada. Estava eu lá a colocar roupas na máquina com a quantidade necessária de sabão e amaciante. Ligo a máquina e vou preparar o almoço. Sim, lá em casa eu lavo roupa e faço comida. São reflexos da profissão e dos tempos modernos. Bem, estava a cortar cebolas, refogá-las e preparar a carne quando começou a máquina com seus sons estranhos. “joganalotojoganalotojoganalotojoganalotojoganalotojoganalotojoganaloto”

Não tive dúvidas e na hora de ir para o trabalho passei na loteca e joguei na Mega-Sena, que estava acumulada. Fiz daquelas apostas mais caras, com sete números, teimosinha e no escuro. Gastei uns R$ 50,00. Nessas horas tem que acreditar na sorte.

Maldita onomatopeia! Joguei dinheiro fora, pois apostei no jogo errado. Na hora de conferir, vi que os números que costumo apostar saíram todos, mas na Loto e não na Mega-Sena. Perdi uns R$ 200 mil, por não dar atenção à máquina de lavar. Quando comento que escuto o que a minha máquina tem a dizer, me chamam de maluco. Será?

Wednesday, January 22, 2014

O Tricampeonato de Lupicínio


Lupicínio Rodrigues


Lupicínio Rodrigues é mormente lembrado como a figura maior do samba-canção do tipo "dor-de-cotovelo".

No entanto, o cancionista porto-alegrense, cujo centenário de nascimento é lembrado este ano, começou como compositor carnavalesco.

Nos primórdios, como em outras capitais, o Carnaval era pura arrelia, capitaneada por blocos que se encontravam na rua, numa pororoca de gente. Aqui, por exemplo, tínhamos vários: "Tigres", "Os Batutas", "Os Divertidos e os Atravessados", "Os Turunas", "Os Prediletos", "Os Vampiros", o "Chora na Esquina", entre outros.

Como diz Nilo Ruschel, no seu livro Rua da Praia, havia uma rivalidade enorme entre estas agremiações, algo assemelhado ao que veríamos, anos mais tarde, no futebol.

- Os blocos arrastavam multidões ao som da música, e a rua se enchia de vozes cantando, de povo pulando atrás dos estandartes - escreve Ruschel. - No meio, viam mulheres com crianças de colo e pela mão, olhos inflamados de bevenecimento, gargantas estalando de tanto cantar.

A grande rivalidade, contudo, ficava entre os Batutas e os Tigres. Enquanto estes tinham em suas hostes o maestro Pena, da banda da Brigada Militar, aqueles possuíam Otávio Dutra como o verdadeiro batuta.

Lupicínio, que era da Ilhota (região alagadiça que se situava onde hoje está o Teatro Renascença, em Porto Alegre. Naquele tempo, o Arroio Dilúvio passava por onde foi construída a radial que leva o nome de avenida Erico Verissimo), conhecia o pessoal do Bloco dos Tesouras, cuja base era perto dali, no Areal da Baronesa; no entanto, ele se filiou aos Prediletos. Foi lá que o autor de "Brasa", "Ela Disse-Me Assim, "Cadeira Vazia" e "Nervos de Aço" se lançaria da Praça Garibaldi para a posteridade.

Aliás, quando foi cronista por um breve período, na extinta Última Hora, em 1964, Lupi também descreveu as festas momescas daquele tempo:

- Quando esses cordões se encontravam, nem sempre terminava tudo bem - diz. - Se eram amigos, chocavam-se os estandartes como se fossem beijos, abriam-se alas como se diz em gíria e cruzavam-se os cordões, um por dentro do outro; quando eram adversários, como foram sempre os Tigres e os Batutas, se provocavam entre si com lanternas representando um tigre engolindo uma batuta ou um mestre-domador batendo a batuta na cabeça de um tigre.

No afã de um bloco querer tocar mais alto que o outro, não era incomum que ambos acabassem de fantasia e tudo na delegacia de polícia da Duque para um chá de banco.

Pois foi no Carnaval de 1933 que Lupicínio inscreveu uma marchinha homônima num concurso. "Carnaval" acabou vencendo o certame.

Tempos depois, incorporado pelo serviço militar, o compositor foi parar em Santa Maria. Já cabo, Lupi resolveu concorrer a outro concurso carnavalesco com a mesma marchinha. Venceu pela segunda vez, quando o bloco santamariense "Rancho Sul" defendeu "Carnaval". Era a glória.

A música, porém, não chegou a ser gravada e, como o rádio comercial ainda engatinhava por aqui, "Carnaval" caiu em relativo esquecimento.

Três anos depois, em 1936, Lupicínio concorreu novamente; dessa vez, num certame promovido pela rádio Gaúcha. Junto com Otávio Dutra, dos Batutas. A marchinha, intitulada "Bem Velhinho", foi defendida pelo regional de Nelson Lucena, ao contrário dos demais concorrentes, que lançaram mão de músicos de bloco.

A despeito da singeleza do arranjo e, talvez por isso mesmo, "Bem Velhinho" ganhou o concurso. O prêmio foi um rádio portátil.

Dez anos depois de seu primeiro sucesso carnavalesco, Lupi, já compositor veterano - e de volta à Porto Alegre, foi convidado pelo Município para atuar na comissão julgadora de um concurso momesco.

Um dos blocos que concorriam, o "Nós, os Democratas", apareceu com uma marchinha característica cujos versos eram:

Carnaval,
Foste criado por Deus prá brincar
Vais embora e não queres me levar,
Me diz onde vais, meu Carnaval!

A cantar vou prá não chorar,
Nem mostrar minha dor
Pois sei que vais me deixar,
Tão cedo não vais voltar.


Lupicínio ria por dentro. Era "Carnaval", a sua marchinha, só que com outro nome e outro autor. E os Democratas conseguiram plagiar descaradamente o próprio autor que, por sua vez, estava justamente na banca julgadora!

Ele, porém, não comentou nada. Levantou-se e, esportivamente, foi cumprimentar o campeão. Quando abraçou o "compositor", Lupi disse:

- Parabéns, meu filho. é a terceira vez que esta música recebe um primeiro lugar...







Thursday, January 16, 2014

A praça mais triste do mundo


Figura escultórica da Edgar Schneider (foto: Lucas Pedruzzi/Panoramio)



Em seu provincianismo, Porto Alegre se jacta de ter a chamada "rua mais bonita do mundo". Não sei como foi realizada tal eleição e, na verdade, tampouco me interessa; o fato é que nosso burgo açoriano ostenta esse título (tô brincando, eu sei), e todos os porto-alegrenses orgulham-se disso, como se a bucólica Gonçalo de Carvalho, encravada no limite dos bairros Independência e Floresta, fosse mais bela que a estrada de Salerno a Almaffi ou um trecho da Via Appia.

No entanto, se a capital do Rio Grande possui tal ilustre logradouro, eu digo que ela também possui em seus domínios a praça que eu denomino como a "mais triste do mundo". É a praça Edgar Schneider, e fica no limite ente o Cais Mauá e Marcílio Dias.

Ela fica no Centro Histórico (?). Contudo, é imperioso dizer que dez entre dez habitantes da cidade a desconhece e, por conseguinte, dez entre dez jamais pôs aos pés ali. Outra parcela igual da flanèrie que vai e vem no metrô de superfície (que, por sinal, separou definitivamente a cidade do rio, num dos maiores crimes lesa-patrimônio de todos os tempos) já a deve ter visto, porém nunca atinou de conceber que se trata, sim, de uma praça.

A Edgar Schneider não tem rolê, não tem associação de amigos, não tem turista para fotografar, poetas para cantar sua beleza, não foi decretada Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental, não possui publicações na internet, textos e imagens sobre ela. Nenhum blog (!) a cita, não aparece na imprensa, não recebe visita de retratistas de celular e curiosos de plantão.

O local foi inaugurado em 1962, ano da conclusão do Porto de Porto Alegre, que começou em 1911, no governo Carlos Barbosa, se estendendo - com a construção de silos, armazéns e aterros até o começo dos anos 60. O logradouro foi idealizado no berço cujo pátio pertencia ao antigo Frigorífico do Porto, hoje desativado. aquele ponto da Avenida Mauá - que compreendia toda o arruamento de ponta a ponta, do arrimo da margem esquerda até as docas.

Naquele tempo, passava um trenzinho na Mauá (os trilhos ainda estão lá) que vinha da Zona Norte até a Estação Idelfonso Pinto, que ficava na esquina da Mauá com a Uruguai, na beira do Guaíba. Dali, o comboio partia até um entroncamento com a Ferrovia do Riacho, ao sul da península, e que ligava o Centro com a Tristeza.

Pois no tempo em que havia vida no porto e que pessoas circulavam pela orla do Guaíba na região central de Porto Alegre (meu avô dizia que era do tempo em que se comprava peixe direto dos barcos de pesca, antes de chegar no Mercado Público que, por sinal, foi construído onde está justamente por seu vital conûbio com o Guaíba e o comércio), a praça surgiu. A homenagem se dá ao ex-reitor da UFRGS, Edgar Schneider. A praça ganhou à época um belo ajardinamento. Ao centro, duas figuras escultóricas, construídas por Alfred Adloff, famoso arquiteto na capital no tempo em que ainda vigorava o ecletismo por aqui.

A Edgar Schneider morreu pela primeira vez com um projeto, intitulado Sistema da Proteção Contra Cheias. Capitaneado pelo antigo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), um muro de três metros de altura e quase 3 quilômetros de comprimento foi erguido entre o Gasômetro e a Rodoviária. Idealizado para proteger os prédios públicos da região central de enchentes (o Jacuí desemboca na Volta da Cadeia) como a de 1941, o Muro (separou o Cais da cidade).

A segunda morte da praça se deu em 1985, com a inauguração do Trensurb. Se antes o muro era o limite, e os mais otimistas acreditavam que, no futuro, poderíamos alcançar o Guaíba novamente, os trilhos do novo metrô de superfície enterraram essa possibilidade.

A terceira morte se deu, naturalmente, com a própria morte do Cais Mauá, em 1997, quando o Departamento Estadual de Portos Rios e Canais virou a Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH) e praticamente toda a atividade portuária foi transferida para o Cais Marcílio Dias. Na mesma época, o Cais Mauá se tornou área alfandegária e de fronteira. Em consequência disso, todo o tráfego tanto de autos como de transeuntes (eu era um deles) foi rigorosamente restrito.

O Muro causou o grande dano na cidade, pois, que foi a amputação e o exílio forçado do livre acesso do porto-alegrense com o seu rio (se o ilustre leitor procurar pelas fotos da cidade antiga, retratadas pelo Virgílio Calegari, verá que a orla do Guaíba era mais movimentada que o laguinho da Redenção nas tardes de domingo). Além disso, havia uma certo relacionamento vital com o Porto; até os anos 70, existia um estacionamento em oblíquo na avenida Mauá. No momento em que esse passeio acabou, por conta do muro, toda essa região comercial da avenida morreu. A Edgar Schneider, que era um espaço integrado ao Centro que, de certa maneira, servia como refúgio à loucura da cidade. Hoje vemos o estrago: basta correr a vista quando se está num ônibus e prestes a desembarcar no Terminal Parobé. Ninguém passa por ali, só existem prédios de pé direito alto e com fundo demolido que servem de estacionamentos caça-níqueis.

Saudosismo? Num país de primeiro mundo, teríamos um cais e gente circulando por ali, desde sempre.

Isolada, a praça não teve mais atenção, muito menos manutenção. Foi descaracterizando-se, até virar um simulacro de ruína. A figuras escultóricas, duas ninfas de braços vazados, parecem carregar séculos em suas costas. Quem passa por ali hoje encontra uma paisagem fraturada, parada e perdida no tempo.

Por mais paradoxal que seja, de certa forma, o isolamento da Edgar Schneider, tem um ponto positivo. Como sabemos, nos últimos 40 anos (a idade do Muro), assistimos à destruição e ao esvaziamento das praças do Centro (e a consequente ocupação delas por moradores de rua), mas o esquecido logradouro do cais guardou a sua integridade, posta à prova apenas e tão somente pelo tempo. O único caso de vandalismo que conheço dela é o descaso e o esquecimento.

Tempo esse que cuidou que ela fosse, quase meio século depois, contemplada na virtual revitalização de todo o Caus Mauá, cuja obra começa finalmente esta semana. De acordo com o Piratini, o contrato de arrendamento entre governo do Estado e a empresa Porto Cais Mauá será de 25 anos, com um repasse anual de R$ 3 milhões ou 1,7% da receita operacional, valor que será destinado à SPH para ser aplicado em benfeitorias portuárias.

O projeto inclui todo o entorno da Praça Edgar Schneider e o antigo frigorífico. Se tudo der certo, a praça mais triste do mundo vai, graças aos deuses, perder o título.




Thursday, January 02, 2014

Anunciação






E José, despertando do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu sua mulher
Mateus, 1;24


Então eu sonhei que tu voltavas; tu eras aquela menina florida deusa dos olhos volúveis pousada na mão das ondas que eu conheci num dia de sol nascendo de uma concha como numa pintura renascentista e desde que te vi, deixei meus olhos sozinhos na soleira da tua porta. Tu dormias em tua alcova e eu tinha medo de te procurar, eu sabia que tu não gostavas de mim, tu que me dizia que eu era velho demais para você mas eu te acolhi com todo o amor de mortal, mas eu te amava e, no entanto era feliz. Eu tinha a eternidade ao meu lado, mas me sentia um tolo e ridículo e um velho apaixonado nos umbrais da morte, eu ia confessar meu sonho para ti e tu ias rir da minha cara, tu que não sabes ainda o que é amar como eu te amo. Eu te amo e tu sabes mas tu acha que eu não sei o que é amar e acho que nem tu sabes o que é amar. Eu posso não ser inteligente e esperto e talvez eu até diga para ti que eu sou meio tosco mas eu sei o que é amar. Porque o que eu sinto por você, todos os dias, todas as noites, todas as horas vazias, todos os dias perdidos da minha solidão, eu sempre penso em ti e isso só pode ser amor. No sonho, tu me conduzia pela rua - como naquela vez, lembra? - e eu fazia todas as tuas vontades, tu tão airosa e pueril e boba e linda como uma menina grande de vinte e poucos anos e te comprei até aquela camiseta com uma estampa do Che Guevara e tu me levaste na Banca 15 porque tu não conhecias ainda o sorvete da Banca 15 e eu sabia que tudo aquilo para ti era banal e fútil como uma tarde de dia de semana mas para mim você era o caminho, a verdade e a vida ou seja lá o que quer que seja. Mas eu sabia que não era para sempre e sabia que quando fôssemos embora daquela cidade todo o nosso caminho seria sagrado e tu serias bem-aventurada em todas as gerações, mas eu também sabia que era o fim e que tu irias me esquecer e tu iria voltar para o teu rincão e para os teus amigos bonitos e simpáticos e inteligentes e ia arrumar um namorado, ia noivar e ia se casar e eu ia ficar em meu catre sozinho sozinho olhando a distante estrela de Belém e imaginando se tu ainda pensarias em mim e nas palavras bonitas que eu te escrevi e nas canções que eu compus para ti e do meu jeito tolo, trêfego e triste de ser, pensava se tu ainda lembras de mim, que sobe no alto do monte e contempla a noite imaginando que aquela luzinha distante no horizonte noturno é você, lá na distância fria do horizonte, talvez ninando o seu filhinho pequeno em seu colo enquanto olhas pela janela, seu bambino que já deve ter esgotado todo o estoque de fraldas que você ganhou no chá, imagino que você é jovem, o menino vai crescer, você vai mudar, vai voltar para mim e eu estarei sempre a te esperar. Por que você quis ter esse filho, meu amor? Eu não posso competir com ele. Te espero mas já percebi, já vi que acabou. Sem que se mova o meu espanto na noite ancorada da minha solidão, mesmo sendo inútil, vou querer saber porque tudo o que eu quis de mais vivo me disse não. Tudo aqui parece secundário, na vida secundária de uma pessoa secundária de alguém que viveu um dia com você e que esteve em seus braços, eu beijando os teus lábios e os teus peitos que você agora dá de mamar, penso em você sorrindo e penso que estou envelhecendo e que você está envelhecendo e que tudo está envelhecendo e eu ficando cada vez mais assustado com o fato de que o tempo passou e prá você eu sou apenas uma vaquinha de presépio em sua vida, pego a longa e cansativa estrada de novo e vejo da janela do ônibus você com seu filho nos braços, um menino gentil, esperto, rosado e gordo, como os anjos e os cupidos que a arte nos representa em seus painéis, olhe como é bela essa criança que me insulta com seu sorriso banguela, enfim, adeus; vou-me embora, meu amor. Por que as coisas são assim, não é? A verdade é que posso dizer que, sem saber, me encontrei em você completamente e isso me enriqueceu. O que tinha de ser. O Purgatório não é uma porta que se abre para o Céu? Enfim, vou te deixar e te esquecer para sempre, porque eu não tenho nada a ver com a sua vida.

Wednesday, December 18, 2013

Uma Fada no Front


O jovem Braga

Muita gente não sabe, mas Rubem Braga, foi, durante quatro meses, redator do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre.

Mais do que isso, o certamente maior cronista brasileiro (sempre levando em consideração que essas duas palavras, se não nasceram juntas, andam de mãos dadas) de todos os tempos manteve, nesse mesmo período de tempo, uma crônica diária na Folha da Tarde.

Quando o jovem escritor desceu do Lóide Brasileiro no Cais do Porto, nos primeiros dias de 1939, ele já tinha uma imensa folha corrida de serviços prestados à causa jornalística, em jornal do Rio, São Paulo, Minas e Pernambuco.

Sempre coerente em suas convicções políticas - de esquerda, embora não militante, Braga sempre fazia o arquétipico papel do defensor dos fracos e oprimidos, sempre estando do lado do mais fraco na hora de destilar sua verve no papel – não sem mesmo destilar, quando reclama ou cobra dos superiores, um pouco do seu simpático mau-humor.

Suas posições políticas no entanto, paquidermicamente incomodavam muita gente - ainda mais quando virou redator do semanário Diretrizes, de Samuel Wainer. Já sob a égide do Estado Novo, Braga era alvo da polícia secreta de Getúlio Vargas. Foi acossado pela ditadura que ele resolveu exilar-se no sul.

Mais precisamente em nosso curioso burgo açoriano, como diria Carlos Reverbel que foi quem recebeu nosso herói no cais.

(um parêntese: imagine você morar numa cidade onde os viajantes chegavam de paquete ou navio, e você ia recepcioná-los no cais. Imagine, Porto Alegre foi uma cidade legal)

Ao chegar no entanto, a polícia gaúcha havia recebido ordens de Filinto Miller para meter nosso intrépido cronista no xilindró.

Com a ajuda do dono do Correio, Breno Caldas perante o interventor do Estado, Cordeiro de Farias, o jornalista foi solto. Já em liberdade, Caldas convidou-o para integrar o quadro da extinta Companhia Jornalística Caldas Júnior.

O exílio de Rubem em Porto Alegre, uma quadra de relativo conforto em meio aos atribulados anos políticos do autor, durou quatro meses e 91 crônicas (publicadas na recém inaugurada Folha da Tarde). Uma rescolta desse material foi publicado, em 1994, num volume intitulado Uma Fada No Front*.

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Livro pouco conhecido, se comparado à maioria da obra do jornalista capixaba, ele tem uma peculiaridade: ao serem publicadas seriadamente, respectivamente datadas e em ordem de publicação, elas fogem à linguagem perene das conhecidas coletâneas do autor de O Conde e o Passarinho.

Aqui, a produção do velho Braga está inserido num contexto cronológico e local, já que o cronista glosa o mote das ruas da cidade de uma Porto Alegre bucólica e provinciana que se urbanizava, se industrializava e crescia para o céu (como mancheteia a primeira edição da Folha, de 1936), no final dos anos 30 e começo dos 40.

Mais do que isso, o material de Uma Fada no Front, quem sabe pela primeira vez, mostra Rubem Braga como cronista diário, e não como num conjunto homogêneo de crônicas cujo contexto reside na sua própria estética particular.

No livro, podemos ver a prosa de Rubem singrando uma sequência de fatos, travando conhecimento dos pequenos dramas e demandas do burgo açoriano de seu amigo, Carlos Reverbel e encontramos seu inconfundível estilo em textos que, a rigor, a não ser pelo valor histórico, não seriam destacados para uma coletânea.

Por coincidência, Braga chega às vésperas da Segunda Guerra Mundial, e o reflexo na comunidade tanto de Porto Alegre quanto do Vale dos Sinos é visível em textos como “Coloninho” “Fora do Barulho” “Guerra” e “Arianismo”. Ao mesmo tempo, ele explora esse paradoxo, amalgamando a vida do cotidiano com as notícias do front europeu, sempre com o apelo à paz, em sua nota humanista.

(mais um parêntese: cabe ressaltar que a Folha da Tarde, à época, sob influência da imprensa portenha, foi o primeiro a usar teletipos por aqui**, ou seja, havia uma espécie de comprometimento maior por parte do material factual em detrimento do meramente político, que era a tônica da imprensa porto-alegrense até o Estado Novo)

Contudo, a mais bela crônica do livro é, justamente, “Uma Fada no Front”, que reproduzo aqui:

Desta vez a primavera chegou no começo de setembro às ruas de Porto Alegre. Aí anda florindo pelas ruas batidas de sol, em marchas e cantos. É doce afastar os olhos das negras notícias que os jornais trazem da Velha Europa, é doce desligar o rádio de ondas curtas cheio de palavras de ódio e de mortes e simplesmente sair pela rua, pela nossa rua brasileira onde desfilam meninos, rapazes e moças. Em um escuro minuto do mundo estamos vivendo nesta cidade uma bela e mansa alvorada humana. Há uma ingenuidade matinal nessa festa de gente moça de uma terra moça. É um prazer puro ficar numa beira de calçada vendo esse desfile de rapazes e meninos de todas as raças, de lindas moças que avançam tão felizes no ritmo de sua marcha como se a marcha fosse uma dança simples e sincera. 

Ora, no meio dessas festas de Semana da Pátria eu quero pedir ao homem da rua de Porto Alegre que deixe um momento de acompanhar com os olhos o alegre desfile para contemplar com respeito e amizade essa figura modesta de mulher que faz e renova todo o milagre anti-geográfico da união nacional: a professora pública. Agora que tanta festa se faz com archotes e piras em simbolismos gregos eu quero lembrar essa figura humilde que, silenciosamente, em cada canto perdido do Brasil, vai passando, através dos tempos, para as mãos das gerações que amanhecem, todo o fogo e toda a luz do sentimento brasileiro. É uma fada burocrática, uma fada cotidiana, sempre mal-remunerada, uma fada que se integra na banalidade de nossa paisagem da classe média. Por isso mesmo nem a notamos. É, entretanto, uma fada – e é, hoje, sobretudo no Rio Grande do Sul, uma fada no front.

Trata-se de um front sentimental; mas não são os fronts sentimentais que marcam as linhas dos outros. Não se trata, sesse país de muitas terras e pouca gente, de conquistar terras, mas conquistar gentes; e gente só se conquista pelo coração. É gente de nossa terra que essa lutadora está conquistando para a nossa terra. Quando a sua mão passa, ternamente, pela cabeça áspera de um pretinho ou na cabecinha macia de um menino louro, ela está semeando compreensão para as nossas colheitas de ideal. 

Não está ensinando geografia, nem leitura, nem aritmética; está ensinando Brasil.
Recebida, tantas vezes, com prevenção em uma ou outra zona colonial, ela tem de ser, muitas vezes, dentro do Brasil, uma espécie de consulesa do Brasil. 

E Roma não perderia o seu império se o seu império tivesse sido confiado, ao invés de a rudes cônsules guerreiros, a essas suabilíssimas consulesas. E que mesmo quando não seja um prodígio de consulesas. É que mesmo quando não seja um prodígio de cultura pedagógica ou de Inteligência, ela tem, para se orientar, o instinto fundamental de água mansa, de ave lépida, de suave sombra, de árvore boa, de praia preguiçosa e de animal generoso: o instinto d ternura da mulher brasileira. 

Ternura há em todo o mundo e em todo o mundo há mulheres cheias de ternura. Mas cada ternura tem o seu jeito; e é o jeito da ternura brasileira que a fada burocrata vai ensinando.

Pais e mães de meninos do Rio Grande: ajudem essa missionária do Brasil. Aqueles dentre vocês que não são brasileiros, não tenham medo de que seus filhos se tornem brasileiros. Isso não os afastará de vocês, porque ser brasileiro não afasta um homem de nenhum outro homem do mundo. Ser brasileiro é apenas o jeito da gente do Brasil ser humana. Não pensem que, aprendendo a amar esse Brasil tão grande, seus filhos não terão mais espaço no peito para amar também a terra de vocês. Terão sim. Quem aprende a amar uma terra tão grande não sente necessidade em amar, de uma vez, a terra inteira.

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À despeito da pauta sempre vinculada às notícias da Folha, como doação de verba à obras de caridade, construções da Prefeitura, cartas de leitoras aspirantes à poetas, a crônica “Um Clube” alude à fundação da primeira Escola Superior de Jornalismo, no Rio. Não sem ironia, Braga diz que teria “muito a aprender” no curso, porém, entendia que a sobrecarga de trabalho em jornal não lhe franquearia tempo para estudar.

- Não aprendi a fazer muita coisa em jornal e pelo fato simples de que estava trabalhando – diz.

E arremata:

-- Mas o pior é que esses doutores terão como lente os “rábulas” atuais”...

Noutra crônica, ele comenta a respeito do clássico “Um Rio Imita o Reno”, do Viana Moog (que fora editorialista do Correio por breve tempo) achando-o romance de tese demais. Noutra, ele questiona Erico Verissimo, se é possível viver só de literatura. Braga diz que não, e que o autor de “Caminhos Cruzados” é apenas exceção.

(parêntese: é fato, naquele momento exato, Verissimo gozava de extrema popularidade, após o lançamento de “Olhai os Lírios do Campo”, que esgotava sucessivas edições, e compelia os ávidos leitores à outras obras do autor que, por sua vez, até então, à muito custo desencalhavam da gráfica da Globo)

A crônica mais divertida, no entanto, em minha opinião, é “Belém Velho”. Nela, o Braga descreve o dia na fazenda que foi a sua vigileatura pelo arrabalde de Porto Alegre, no bairro de mesmo nome:

- Eu me demorei a contemplar um bode branco que meditava na brisa serena que lhe beijava a barriga – revela.

Rubem diz que o convite partiu do escritor e colaborador do Correio do Povo, Telmo Vergara. Descreve a paisagem do bairro desde a vista do telhado do Hospital Belém que, naquele tempo, era um sanatório, tendo à frente do Dr. Oscar Pereira:

- Vimos de longe Itapuã – revela. – a paisagem é tão ampla e linda que dá ao mesmo tempo vontade de viver e de saltar para a morte, no suave abismo que o vento ondeia.

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Uma Fada no Front saiu originalmente em 1994, mas logo esgotou. Não chegou a ter distribuição nacional, porquanto a Artes e Ofícios é uma editora radicada no sul. Porém, em 2002, a Record o relançou, com o subtítulo "Um episódio em Porto Alegre". Edição esta que está em catálogo e vale muito a pena ler.





NOTAS:
  

* BRAGA, Rubem, Uma Fada no Front. Artes e Ofícios, Porto Alegre,  1994

** RUDIGER. Francisco. Tendências do Jornalismo. EDUFRGS, Porto Alegre, 2002.