Friday, April 04, 2014

A gente era feliz (e não sabia)


Pois esses dias, numa plácida tarde-noite de chuva, tive que pegar um táxi para ir até um endereço na Saturnino de Brito, lá prá quem desce para a Avenida dos Prazeres. Como estava no Moinhos de Vento, peguei o carro de praça na altura da Eudoro Berlink. Chovia pequeno e logo escureceu. O trânsito engarrafava. Fazia um friozinho de fim de outubro (não era fim de outubro).

Íamos parando, de semáforo em semáforo, depois Anita, Carlos Gomes e Nilo Peçanha. Mais engarrafamento na Nilo, na saída dos colegiais do Anchieta. Tudo parado. O rádio estava ligado em algum vitrolão, se não me engano, na Antena 1. Eis que, de repente, começa a tocar It's a Mistake, do Men At Work. Nisso, estávamos parados na altura da General Store.

Ouço Men At Work e, naquela chuva oblíqua, com o nariz esmagado no vitro do taxi, olhando as luzes noturnas da Nilo naquela altura, de repente, de repente voltei no tempo. E voltei ao tempo das homéricas baladas de Porto Alegre nos anos 90.

Na época, ninguém ia na Cidade Baixa. Havia uma noite que começava no Lei Seca, primeiro quando era na Bordini, depois subiu para a Plínio, e perto do Fim de Século, que ficava na Silva Jardim. A gente descia a D. Pedro II e tinha o Santa Mônica. Ou descia a Carlos Gomes e tinha uma noite começando quase lá passando o Anchieta, comçava num pub perto do posto e descia até o último grito da moda, que era o Dado Bier.

Era superestimado e com razão, até que a gente finalmente arrumou grana e beca para entrar lá (falando em beca, nada a ver com o assunto, mas lembro-me que, na época, eu era grunge. Sempre que um amigo me apresentava a um amigo comum, esse amigo comum me perguntava se eu fazia Elétrica na UFRGS. WTF?).

Havia alguns bares na Protásio, na volta do Barranco. Perto do Ratão, havia o Território da Paz, que tinha promoção de chope. Era uma ótima pedida prá passar a noite ouvindo Burning Spear e sair de lá trocando as pernas.

Mais embaixo, bem na frente do Barranco, funcionava o Mapa da Cidade. Ali ia muita gente da PUC. O Mapa era muito legal, pena que eu fui poucas vezes lá.
Coincidiu justamente na época em que eu entrei na Faculdade, em 1994. E, do lado do Porto de Elis (que, naquela altura, não era mais o avoengo 'Porto' clássico, dos anos 80) tinha uma casa de samba, o Zimbro's.
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O Zimbro's eu fui só uma vez, uma amiga me convidou prá ir no aniversário de uma na verdade, tinha vertido libações (tomado várias) no Maza (o antigo Maza, não esse atual aí não) depois da aula e ela me achou quando eu tava na parada para ir para casa. Na verdade, tudo não passou de ardil dessa minha amiga, já que a aniversariante em questão era uma guria que eu paquerava e todas amigas dela sabiam. Então ela quis me pôr nessa reta e justamente nos cumpleanos dela.

Cheguei lá pronto, se é que me entendem. Me lembro de mim, bêbado, indo então conversar com a menina. Eu estava com uma garrafa cheia de Polar na mão (com a tampa fechada, veja só, o meu estadinho). Sei que, no meio da conversa, deixo cair a garrafa no chão. Ela caiu feericamente de pé, mas não rachou. A moça fez menção de rir e virou da lado. Mesmo desconcertado, salvei a cerveja: a garrafa felizmente não explodiu. Mas eu, naquele, estado, naquela hora da madrugada, já estava honestamente de porre e, graças ao deus Gambrinus, achando tudo muito engraçado.

Mas bom mesmo era o Lei Seca. A gente ia prá lá, para cá, mas sempre acabava no Lei Seca. Lembro-me que, na finaleira, sempre o DJ rolava um Taj Mahal prá galera pular igual pipoca. Imagine: isso nos tempos em que éramos todos jovens, e tínhamos fôlego e saúde para varar a madrugada tomando cerveja, até o sol raiar, e ainda por cima ir para a PUC com a mesma roupa de véspera, para a aula de Cultura Religiosa I. Todos com cara de paisagem oito da manhã, no Prédio 7, para as prédicas do professor, acerca de hinduísmo e Lao Tsé.

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(Aliás, falando em Cidade Baixa, ela ainda tava começando os trabalhos. Não tinha a vida noturna que tem hoje. Tinha o antigo Marinho (o de hoje, na Sarmento, não conta, nem com a roda de violão), o Cult Bar, do lado do DEP, hoje é um boteco gourmet metido a pé-sujo, isto é, boteco da forma mais cínica, impossível, bem coisa desse cínico começo de centúria).

Lembro-me que, na verdade, a noite, ainda mais ali na região da José do Patrocínio, era algo muito simplório, quase um gueto. A República e adjacências não havia se tornado ainda a Haight-Ashbury do socialismo-sandália que é hoje.

A peça de resistência, no entanto, era, como sempre, o Opinião. Naquele tempo, 1994 ou 1995, era um barzinho pequeno. A gente conhece o Opinião grande na esquina, mas era um pub muito pequenino, com o palco de costas para a calçada. Logo depois, ele seria reformado. Lembro-me que, quando rolaram os primeiros shows da Hard Working Band (curtia eles coverizando Natural Woman) ali, já era o novo espaço, o que a gente vai hoje.

Mas a Cidade Baixa acabou virando uma boa pedida (no fim das contas), justamente porque éramos (e somos e sempre seremos) uns pelados. É que fazer a balada na rota Lei Seca-Plutão-Nilo Peçanha-Crocodilus era ou prá quem tinha carro ou conseguia descolar carona. E a Cidade Baixa é a melhor balada a pé do planeta.
Mas na minha lembrança, hoje, é uma balada histórica. Hoje, essa região da Nilo-Iguatemi foi devidamente tomada pela especulação imobiliária. Naquele tempo, era uma área devoluta, ainda quase toda projetada.

O sítio da cervejaria do Dado Bier era, então, um mato sem cachorro. Tinha nada ali. Só o barracão da IAPI (hoje é uma concessionária).

Muita vez eu com uma galera na hora da larica no Plutão eu sem patavina só olhando os outros comendo xis e eu seco de cerveja por dentro (só pelo derradeiro gole de cerveja ainda, ali pelas cinco da matina), louco para chegar em casa, me atirar na cama e esperar que o sono vencesse a fome...



Sempre que eu passo por ali, de noite, com uma chuvinha rala no vidro do carro, ainda por cima se for ao som de algo como Reckless, do Australian Crawl, por exemplo, eu me lembro daquelas baladas anos 90 quando, como diria peremptoriamente o Mauro Borba, a gente era feliz e não sabia.

Na volta, retornei pela Nilo. Dessa vez, pedi ao taxista que me deixasse na altura do General Store. Queria tomar uma cerveja ali, com chuva e tudo. Depois eu que voltasse de T7. Azar. Estava muito nostálgico.

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