Thursday, January 16, 2014

A praça mais triste do mundo


Figura escultórica da Edgar Schneider (foto: Lucas Pedruzzi/Panoramio)



Em seu provincianismo, Porto Alegre se jacta de ter a chamada "rua mais bonita do mundo". Não sei como foi realizada tal eleição e, na verdade, tampouco me interessa; o fato é que nosso burgo açoriano ostenta esse título (tô brincando, eu sei), e todos os porto-alegrenses orgulham-se disso, como se a bucólica Gonçalo de Carvalho, encravada no limite dos bairros Independência e Floresta, fosse mais bela que a estrada de Salerno a Almaffi ou um trecho da Via Appia.

No entanto, se a capital do Rio Grande possui tal ilustre logradouro, eu digo que ela também possui em seus domínios a praça que eu denomino como a "mais triste do mundo". É a praça Edgar Schneider, e fica no limite ente o Cais Mauá e Marcílio Dias.

Ela fica no Centro Histórico (?). Contudo, é imperioso dizer que dez entre dez habitantes da cidade a desconhece e, por conseguinte, dez entre dez jamais pôs aos pés ali. Outra parcela igual da flanèrie que vai e vem no metrô de superfície (que, por sinal, separou definitivamente a cidade do rio, num dos maiores crimes lesa-patrimônio de todos os tempos) já a deve ter visto, porém nunca atinou de conceber que se trata, sim, de uma praça.

A Edgar Schneider não tem rolê, não tem associação de amigos, não tem turista para fotografar, poetas para cantar sua beleza, não foi decretada Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental, não possui publicações na internet, textos e imagens sobre ela. Nenhum blog (!) a cita, não aparece na imprensa, não recebe visita de retratistas de celular e curiosos de plantão.

O local foi inaugurado em 1962, ano da conclusão do Porto de Porto Alegre, que começou em 1911, no governo Carlos Barbosa, se estendendo - com a construção de silos, armazéns e aterros até o começo dos anos 60. O logradouro foi idealizado no berço cujo pátio pertencia ao antigo Frigorífico do Porto, hoje desativado. aquele ponto da Avenida Mauá - que compreendia toda o arruamento de ponta a ponta, do arrimo da margem esquerda até as docas.

Naquele tempo, passava um trenzinho na Mauá (os trilhos ainda estão lá) que vinha da Zona Norte até a Estação Idelfonso Pinto, que ficava na esquina da Mauá com a Uruguai, na beira do Guaíba. Dali, o comboio partia até um entroncamento com a Ferrovia do Riacho, ao sul da península, e que ligava o Centro com a Tristeza.

Pois no tempo em que havia vida no porto e que pessoas circulavam pela orla do Guaíba na região central de Porto Alegre (meu avô dizia que era do tempo em que se comprava peixe direto dos barcos de pesca, antes de chegar no Mercado Público que, por sinal, foi construído onde está justamente por seu vital conûbio com o Guaíba e o comércio), a praça surgiu. A homenagem se dá ao ex-reitor da UFRGS, Edgar Schneider. A praça ganhou à época um belo ajardinamento. Ao centro, duas figuras escultóricas, construídas por Alfred Adloff, famoso arquiteto na capital no tempo em que ainda vigorava o ecletismo por aqui.

A Edgar Schneider morreu pela primeira vez com um projeto, intitulado Sistema da Proteção Contra Cheias. Capitaneado pelo antigo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), um muro de três metros de altura e quase 3 quilômetros de comprimento foi erguido entre o Gasômetro e a Rodoviária. Idealizado para proteger os prédios públicos da região central de enchentes (o Jacuí desemboca na Volta da Cadeia) como a de 1941, o Muro (separou o Cais da cidade).

A segunda morte da praça se deu em 1985, com a inauguração do Trensurb. Se antes o muro era o limite, e os mais otimistas acreditavam que, no futuro, poderíamos alcançar o Guaíba novamente, os trilhos do novo metrô de superfície enterraram essa possibilidade.

A terceira morte se deu, naturalmente, com a própria morte do Cais Mauá, em 1997, quando o Departamento Estadual de Portos Rios e Canais virou a Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH) e praticamente toda a atividade portuária foi transferida para o Cais Marcílio Dias. Na mesma época, o Cais Mauá se tornou área alfandegária e de fronteira. Em consequência disso, todo o tráfego tanto de autos como de transeuntes (eu era um deles) foi rigorosamente restrito.

O Muro causou o grande dano na cidade, pois, que foi a amputação e o exílio forçado do livre acesso do porto-alegrense com o seu rio (se o ilustre leitor procurar pelas fotos da cidade antiga, retratadas pelo Virgílio Calegari, verá que a orla do Guaíba era mais movimentada que o laguinho da Redenção nas tardes de domingo). Além disso, havia uma certo relacionamento vital com o Porto; até os anos 70, existia um estacionamento em oblíquo na avenida Mauá. No momento em que esse passeio acabou, por conta do muro, toda essa região comercial da avenida morreu. A Edgar Schneider, que era um espaço integrado ao Centro que, de certa maneira, servia como refúgio à loucura da cidade. Hoje vemos o estrago: basta correr a vista quando se está num ônibus e prestes a desembarcar no Terminal Parobé. Ninguém passa por ali, só existem prédios de pé direito alto e com fundo demolido que servem de estacionamentos caça-níqueis.

Saudosismo? Num país de primeiro mundo, teríamos um cais e gente circulando por ali, desde sempre.

Isolada, a praça não teve mais atenção, muito menos manutenção. Foi descaracterizando-se, até virar um simulacro de ruína. A figuras escultóricas, duas ninfas de braços vazados, parecem carregar séculos em suas costas. Quem passa por ali hoje encontra uma paisagem fraturada, parada e perdida no tempo.

Por mais paradoxal que seja, de certa forma, o isolamento da Edgar Schneider, tem um ponto positivo. Como sabemos, nos últimos 40 anos (a idade do Muro), assistimos à destruição e ao esvaziamento das praças do Centro (e a consequente ocupação delas por moradores de rua), mas o esquecido logradouro do cais guardou a sua integridade, posta à prova apenas e tão somente pelo tempo. O único caso de vandalismo que conheço dela é o descaso e o esquecimento.

Tempo esse que cuidou que ela fosse, quase meio século depois, contemplada na virtual revitalização de todo o Caus Mauá, cuja obra começa finalmente esta semana. De acordo com o Piratini, o contrato de arrendamento entre governo do Estado e a empresa Porto Cais Mauá será de 25 anos, com um repasse anual de R$ 3 milhões ou 1,7% da receita operacional, valor que será destinado à SPH para ser aplicado em benfeitorias portuárias.

O projeto inclui todo o entorno da Praça Edgar Schneider e o antigo frigorífico. Se tudo der certo, a praça mais triste do mundo vai, graças aos deuses, perder o título.




1 comment:

Elvis Scherer said...

Eu queria bater fotos ali. Sempre passo de trem e olho pra praça. Tem acesso até lá?