Wednesday, June 06, 2018

Os 40 anos do Paralelo 30 *



Capa do disco original, selo Pentagrama, de 1978


Quando um amigo meu havia me dito que havia achado uma cópia do elepê Paralelo 30(foto) lacrado num balaio do Palácio Musical, a preço de banana, eu não acreditei> disco, lançado em 1978, devia ter sobrado em algum lote que hibernou em algum estoque que foi comprado pela loja: o vinil estava intacto. Esse álbum é um elo perdido na história da música porto-alegrense dos anos 70 e é um testemunho de uma época que musicalmente foi muito produtiva, porém muito pouco registrada. 

Pesquisando sobre a história do rock na cidade, eu descobri o Liverpool, lá do fim dos anos 60, e garimpei a biografia do Carlinhos Hartlieb, escrita pelo Jimi Neto e Rossyr Bernyr e lançada pela Tchê, nos anos 80. O problema era, naqueles tempos, eu achar algum disco que me contasse a história da música urbana da capital que, com o surgimento do movimento do rock gaúcho, anos depois, legou aquelas manifestações musicais ao esquecimento.

Hartlieb foi um agitador cultural e compositor prolífico, e criador das Rodas de Som, no Teatro de Arena e idealizador de uma série de pocket shows, que agregavam arte cênica e música, como M’boitatá, Voltas. Interessante era ver que, na ebulição criativa daqueles verdes sanos, havia a formação de uma imagem musical peculiar, que misturava tanto a música pop dos Beatles com música latina e regional, porém sem arroubos de regionalismo, mas mais ou menos no sentido de um folk sulino, urbano, eclético e sofisticado.

O corolário desse 'movimento' é álbum Paralelo 30. A idéia foi do jornalista Juarez Fonseca — em colaboração com Geraldo Flach, de juntar quatro dos músicos mais proeminentes da época e, numa tentativa audaciosa, lançá-los para o mercado. era um momento especial, porque seria o primeiro registro fonográfico daquilo que acontecia em Porto Alegre, em meados dos 70 e uma forma de fazer aquilo explodir.

Como diz Fonseca no encarte do elepê, "Paralelo 30 é um disco gaúcho, mas não é um disco gauchista. Ele mostra tendências que coexistem aqui, em Porto Alegre, e que são resultado de muitas influências, inclusive a recente influência da consciência da terra, do que se vê e faz no lugar". 

Contudo, o que talvez haja de peculiar além desse conceito incluso na musicalidade dos seis compositores, Carlinhos Hartlieb, Raul Ellwanger, Nando D’Ávila, Nelson Coelho de Castro, Bebeto Alves e Cláudio Vera Cruz é que esse espírito fez com que um disco coletivo, que contaria com compositores de estilos particularíssimos se fundissem, de tal arte que, mesmo que gravando respectivamente suas duas canções à parte, Paralelo 30 parece um disco coeso, como se o quarteto fosse uma banda imaginária, que resolveu fazer uma espécie de 'White Album' gaúcho. 

E a tese da "coesão do LP não é gratuita, já que muitos dos quatro tocaram e cantaram nas faixas de seus colegas.

O disco nasceu quando Juarez apresentou o projeto à extinta gravadora Isaec. O selo tinha recém adquirido uma mesa de som de última geração e Flach topou a empreitada. As gravações se realizaram no começo de 1978 e o álbum foi lançado no fim do ano, pela Pentagrama, uma pesudosubsidiária da gravadora.

Mais do que um item de colecionador, Paralelo 30 prá mim virou um disco especial, porque ele me caiu em mãos no momento certo e eu ouvi ele um bilhão de vezes. Além de ser um daqueles discos essenciais, é como se eu conseguisse visualizar essa estética do pop porto-alegrense da época. 

Quando eu ouço "Sem Rei" eu me lembro da foto que o Leonid Strelaiev tirou do Cláudio Vera Cruz atravessando a Comendador Coruja com o violão no saco, tendo a saudosa Cervejaria da Brahma ao fundo (quem é de Porto Alegre deve estar imaginando a cena). E é um daqueles discos que a gente gosta de todas as faixas, e só consegue ouvir do começo ao fim. 

Não saberia destacar qual é a mais bonita, se a toada "Água Benta", do Nando D'Ávila, a andina "Maria da Paz", com direito a bumbo legüero e flautas, o quasi-tango De Banquetes E De Jantares e a milonga Que Se Pasa?, do Bebeto Alves, o xote Fronteiras, do Raul Ellvanger ("faz bem tempo me larguei/mundo velho sem porteira/foi cruzando fronteira/que eu aprendi a viver). 

Resumindo, em termo, é uma inefável referência de uma musicalidade que é se transformou num paradigma que o tempo não apagou. Muito do que se fez ou e concebeu, em matéria de música urbana aqui na cidade tem sólidas raízes. Pela sua excelência, originalidade, nunca saiu de cena e, 40 anos depois, já mostro que nunca vai sair de moda, por conta de sua qualidade singular, por star fundeado no imaginário da música urbana porto-alegrense dos anos 70 e seu espírito de resistência cultural e, com efeito, pelo seu caráter universal.


PS: esse texto foi publicado originalmente num blog de música em 2009. O texto ficou boiando por lá por quase uma década até que, há alguns anos, um amigo comum tanto do Bebeto quanto do Juarez Fonseca mostrou o texto para eles, que me acharam nas redes sociais e retribuíram a minha humilde homenagem com a amizade deles. O Paralelo é um marco para mim porque foi a partir dali que eu fui realmente querer pesquisar a fundo a história da MPG, na época, ainda com muito poucas referências bibliográficas a respeito. Mas hoje, pelo menos, as coisas estão mudando. 



Monday, May 14, 2018

Miserere Nóbis



Capa do disco 

                               


Esse ano o álbum Tropicália comemora 50 anos, e o movimento também chega ao seu cinquentenário. Mas lembro quando Caetano e Gil lançaram o disco que revisitava os 25 anos, em 1993. Naquela época, a maioria das pessoas pouco lembrava do que fora o Tropicalismo. O álbum há décadas estava fora de catálogo e o famoso livro do Augusto de Campos, Balanço da Bossa (1978), da editora Perspectiva, se não encontrava-se esgotado, era disputado a tapas e pescoções nos sebos.

O Balanço era um dos poucos ensaios escritos sobre a efeméride, que nasceu debaixo de ruídos de guitarras no auge da era dos Festivais, ainda em 1967, quando Gil defendeu (surpreendentemente quase a contragosto, como se soube depois) “Domingo no Parque” e Caetano Veloso “Alegria, Alegria” (segundo ele, na verdade uma tentativa de paródia frustrada de “A Banda”, como ele revela no Verdade Tropical (1997)).

Nessa mesma época, a Editora da Universidade havia publicado o livro Antropofagia e Tropicalismo (1993), que nos ajudou a conhecer um pouco mais, dentro de uma perspectiva teórica, a respeito dos pontos de contato entre os manifestos de 22 e 68.

O que se depreendia é que, esse período entre as duas antropofagias correspondeu diacronicamente à aplicação das proposições do modernismo no Brasil e a consequente revisão crítica do seu prospecto, a posteriori, num novo contexto, como diz Favretto (1979) onde o país entrava na realidade da indústria cultural. Essa, talvez, seja a ideia por trás da letra de Torquato Neto em “Geléia Geral”, faixa do disco, e que funciona como um manifesto musical do Tropicalismo.

Escrevo essas poucas linhas sobre o assunto aproveitando o ensejo dos 50 anos do lançamento do álbum que, junto com o livro da EdUFRGS, o disco dos 25 anos, reaparecia nas lojas em formado digital, pela Philips (depois Polygram).

Imbuído de curiosidade — a própria Bossa Nova, hoje tão cultuada, tinha sido também recém redescoberta no começo dos anos 90, com a publicação do livro Chega de Saudade, de Ruy Castro (1990) (que, por sua vez, rechaça veementemente a relação umbilical entre os dois movimentos, ao contrário do que postulava Augusto de Campos e Décio Pignatari), havia eu adquirido aqueles fascículos da Abril Cultural sobre a História da MPB (também escritos por Campos e Décio) e que muito falavam a respeito da tal “linha evolutiva” da Música Popular Brasileira e seus desdobramentos.

Hoje, a bibliografia sobre o assunto e farta, variada, e a produção acadêmica a respeito do tema também é considerável, sem contar que o Panis et Circensis virou leitura obrigatória do Concurso Vestibular da UFRGS, o que mostra que, pelo menos nesse caso, existe, além do reconhecimento da importância cultural e estética do álbum, há ainda o fator de que, mesmo que existem vozes contrárias, a canção brasileira também pode ser objeto de estudo.

Isso mostra como o tempo passou e, mesmo assim, o assunto passou da total “irrelevância” por parte da incúria e do desinteresse público ao reconhecimento acadêmico e, com o advento da Internet, o disco têm encontrado cada vez mais espaço para debates.

Debates que, pelo menos da minha parte, é um milagre que eu tenha chegado até esta linha falando sobre Tropicalismo. Desde o começo dos anos 90 até aqui, eu li tanto sobre o assunto (lembro de fazer um trabalho sobre o assunto na cadeira de Cultura Brasileira na Famecos, lá por 1996) que literalmente enchi o saco.

Mas acho relevante ainda comentar pelo menos duas coisas. Uma é ressaltar a crítica de Roberto Schwarz (1978), onde ele defende que, dentro de todo o refluxo que foram os movimentos de esquerda no pós Golpe de 1964, o Tropicalismo resultou em malogro, sendo apenas um mero tiro pela culatra reacionário, como que navegando nas mesmas águas irrefutáveis da cultura de massa. Mesmo que muitos discordem de Schwarz, sua análise é bastante curiosa e recomendo a leitura.

A outra questão é que, além das querelas políticas daqueles tempos, nas águas da semiótica e da história da música (áreas que Schwarz não analisa e explica por que), é possível notar que a herança do movimento reside, justamente, no fato de que o Tropicalismo tentava, de sua maneira, sair daquele maquineísmo e  descompasso que vivia a música no Brasil naquele tempo dos festivais. Pois era quando existia uma guerra quente entre engajados e alienados onde, na falta de outra esfera democrática em plena repressão, acabaram transformando palco  numa beligerantemente absurda arena política, e o debate sobre música caiu num corrosiva trincheira política, com sanguinolentas cargas de cavalaria vindo de todos os lados, cujo paroxismo foi a incrível vaia que Tom Jobim e Chico Buarque sofreram no Festival Internacional da Canção de 1968.

A verdade é que os engajados não eram tão revolucionários e os alienados (ou acusados de) não eram tão alienados assim. E o Tropicalismo, de certa forma, tentando atualizar o desatualizadíssimo cenário musical brasileiro com relação ao estrangeiro (ao abraçar o rock americano e inglês no momento em que este abraçava a avant-garde stockhausens, cages e outros movimentos, como a contracultura, que só iria aportar por aqui nos anos 70, de outras correntezas), buscava uma síntese daquilo que era a pós-Bossa Nova, a música de festival e o iê iê iê (boi), de mostrar como a luta contra a guitarra era um movimento engraçadamente ludista, e que, se formos observar, foi a partir dali que a MPB nasceria, com toda a licença a dor & a delícia de ser o que quisesse.

Tanto que, a partir dali, com ou sem relação direta dos tropicalistas, a Canção mudou: a MPB dos anos 70, em todas as suas vertentes e manifestações, mesmo que negando o Tropicalismo, é filho daquele disco. Daquele momento em diante, a MPB estava livre para adotar a guitarra e assemelhados, reelaborar gêneros antigos, como o samba-canção, que entrou em 'desuso' com o advento da Bossa Nova.

Essa síntese da canção explicaria, por exemplo, o surgimento do Clube da Esquina, de Belchior ou até mesmo de Cazuza, por exemplo. Depois do Panis, você podia, (como diria Caetano citando Gil, entrar e sair de todas as estruturas) Quem sai dessa análise de “linha evolutiva” e de cotejamentos entre 22 e 68 é o Luiz Tatit que, na sua teoria de mistura, parece debruçar-se mais na questão das influências na forma da canção do que em pragmatismos e possíveis pontos de contato entre Modernismo e Tropicalismo, tópico que foi exaustivamente analisado nos primeiros ensaios sobre o tema, desde o Balanço da Bossa, onde gente como Augusto de Campos estava mais afeito a macluhanismos e teoria da informação. 

Contudo, mesmo assim, o Balanço é um item indispensável para se poder pensar a Tropicália — de preferência tomando um grapete e escutando (se possível em vinil) o disco Panis et Circensis. Aliás, o Diego Grando tem um pequeno volume (2015) que analisa a bolacha muito melhor do que eu, então fico por aqui e passo a bola para quem sabe.


BIBLIOGRAFIA:


CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa e outras bossas. 3.ed., São Paulo, Ed. Perspectiva, 1978. (Col. Debates nº 3).

CASTRO, Ruy. Chega de saudade. Companhia das Letras, 1990.

FAVARETTO, Celso F. Tropicália: Alegoria, Alegria. São Paulo, Kairós, 1979.

GRANDO, Diego. Tropicália, Guia de Interpretação. Século XXI, 2015.

MALTZ, Bina TEIXEIRA, Jerônimo e FERREIRA, Sérgio. Antropofagia E Tropicalismo. Coleção: Síntese Universitária; 38, EdUFRGS, 1993.

SCHWARZ, Roberto. Cultura e política, 1964-69. In: O pai de família e outros ensaios. Rio de Janeiro. Paz e Terra 1978. p 61-92).

VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. Companhia das Letras, São Paulo, 1997. 


Monday, May 07, 2018

No tempo da Eldopop





Há um bom tempo eu tenho ajuntado bibliografia sobre história do rádio no Brasil, mais especificamente em FM.

Sobre isso observo que é ponto pacífico que o começo da frequência modulada se deu com o advento do modelo adotado pela rádio Cidade a partir de 1977.

De acordo com a maioria dos compêndios sobre o assunto, antes disso, o FM era apenas utilizado como música ambiente, como no caso da rádio Imprensa do Rio de Janeiro. Segundo André Guerreiro (1), por exemplo, até 1976, foi a única emissora que transmitia em FM, nesse estado.

Segundo o autor, a partir da experiência da Cidade, outras emissoras passaram a inspirar-se nesse modelo, como a Transamérica e a Joven Pan.

Esse histórico, à guisa de introdução à história do FM no Brasil, por sinal, é constantemente citado em várias monografias sobre o tema. Ou seja, sempre se repete essa mesma história: FM experimental música ambiente até 77.

Só para ver como às vezes a arqueologia pode mudar totalmente a visão que nós temos de mundo, puxando a brasa para o assunto rádio, de uns tempos para cá, apareceram no Youtube vídeos com gravações feitas em cassete da extinta Eldorado FM, do Sistema Globo, que existiu de 72 a 78.

A respeito da Eldorado, não existe uma pesquisa a fundo a respeito da aventura dessa emissora na história da radiodifusão no Brasil. Pelo menos é o que aponta a insidiosa repetição da mesma cantilena a respeito da história do FM no Brasil.

A partir dos registros dessa arqueologia radiofônica, que existe hoje não por conta dos arquivos do sistema Globo, mas sim por causa dos seus inúmeros ouvintes ao longo de quase uma década nos anos 70, podemos ter uma ideia do que foi a Eldorado.

Mais do que uma mera emissora de "música ambiente", ela foi a ponte entre o que havia de moderno ocorrendo no rock internacional dos anos 70 - que era apresentado aos ouvintes brasileiros em primeira mão muito antes dos discos saírem por aqui (2).



Além disso, a Eldorado copiava o modelo das rádios americanas que, naquela época, especializavam-se no modelo Album Oriented Rock (AOR) (3), ou seja, tocavam discos na íntegra, em geral, de rock progressivo.

Mais do que isso, a Eldorado tinha programação fixa, e com locução. O diretor da Eldopop, o DJ Big Boy apresentava, durante a segunda fase da rádio programas semanais, entrevistando bandas brasileiras, como O Terço e o Vímana. 

Mas o melhor era um programa semanal, veiculado aos domingos, às 17h, dedicado à música eletroacústica. Como a maior parte da programação da Eldorado era constituída de rock estrangeiro, havia a história, comentada por Carlos Townsend (4) no documentário sobre  Big Boy, de que a Eldopop era, por assim dizer - e é curioso de imaginar já que era uma coisa bem de época e que falava muito sobre aqueles verdes anos, uma espécie de trilha sonora para usuários de baratos recreativos e outros baratos afins, algo que estava dentro do imaginário da contracultura típica daqueles tempos de desbunde carioca.

Talvez para não ficar com a imagem de rádio de "doidões" ou com uma playlist totalmente dedicada a música estrangeira (com exceção do limite imposto de tocar produção nacional, o que era naturalmente cumprido), a Eldorado (por ter liberdade de sustentar uma playlist totalmente aberta)
pôde dedicar-se, já que ainda estava em estágio experimental, isto é, apenas com a obrigação de "ir para o ar", num determinado momento de sua história a apresentar um programa semanal de música eletroacústica, algo que nem uma rádio como a MEC ou as universitárias fariam ou fazem hoje.

Com a produção de Sérgio Araújo, Rodolfo Caesar (5), Vanderlei Gonçalves e J.C Barbedo, esse programa é/foi, talvez, uma efeméride sem precedentes na história do rádio por aqui. Com programas tipo documentário, toda semana a Eldopop contava a história da música eletroacústica, desde o começo, passando pela história de instrumentos, como o theremin e o sintetizador.

Mas mais interessante era notar que, além de manter uma programação que era quase que uma resistência ao mainstream do AM, a Eldorado divulgava músicos estrangeiros, como Iannis Xenakis, Pierre Boeswillwald e Bernard Parmegiani, do célebre Groupe de Recherches Musicales, fundado pelo pai da musique concrete, Pierre Shaffer, por exemplo. Além disso, os programas apresentavam a produção recente desses músicos, como o hoje conhecido De Natura Sonorum, de Parmegiani (pronuncia-se "parmegianí"), de 1975. 

O que quero dizer aqui é que, graças a estas gravações, hoje divulgadas na Internet, podemos ter uma noção do que foi a Eldopop, uma emissora que, diferentemente do que vemos nos compêndios sobre história do rádio, possuía programas fixos, apresentava mais do que mera música ambiente e, além de fazer a cabeça de muitos desbundados do rio de Janeiro dos anos 70, fez a de muita gente que foi despontar no FM nos anos 80.

A Eldorado que, por honra e glória de Big Boy, também foi uma das experiências radiofônicas que contribuiram para a entrada da música internacional no Brasil, principalmente do rock progressivo, a música da época, teve o seu ápice em junho de 77, quando o Genesis excursionou no Brasil, em shows memoráveis em São Paulo, Porto Alegre e Rio. Quando a banda de Phil Collins esteve no Maracanazinho, a  Eldopop transmitiu a apresentação (junto com a Mundial AM).

Porém, como um Moisés que não chegou à Terra Prometida, Big Boy, que foi a pessoa por trás dessa difusão cultural e, de certa forma, a pessoa que viabilizou a vinda do conjunto britânico ao Brasil, já não estava entre nós. Pouco mais de um ano depois, a Eldorado era extinta.

Esse é um esboço do que foi a Eldopop nos anos 70, uma história que pode parecer pequena e embrionária se comparada a de toda a trajetória do FM no Brasil, mais grande o suficiente para constar nos manuais de história do rádio em nosso país.


Notas:

(1) https://radiobrasilagf.wordpress.com/2015/06/11/o-surgimento-e-a-evolucao-da-radio-fm-3/ acessado em 7/5/1018

(2) Se é que saíam, já que a nossa incipiente indústria cultural não se interessava pelo fenômeno do rock, o que mostrava o descompasso entre o gosto musical do que se produzia em música jovem nos Estados Unidos e no Brasil, onde, nos anos 70, o gênero era considerado - e propagado pelas vinhetas como "underground".

(3) Big Boy de certa forma importou para o Brasil um modelo que já era comum quando a própria FM americana, também em formato experimental, a partir dos anos 60, rejeitava o single e tocava álbuns, em muitos casos, inteiros, cum uma playlist tanto eclética quanto totalmente aberto, indo de, por exemplo, Coltrane até Iron Butterfly, discos que jamais tocatiam nas AMs, estes sim, baseadas em paradas de sucesso e com a playlist fechada.

(4) Big Boy Show https://www.youtube.com/watch?v=5qq_z4ClEzI acessado em 7/5/2018.

(5) Caesar também estudou no Groupe de Recherches Musicales com Pierre Schaeffer.

Sunday, May 06, 2018

A Salvação do Rock


Leio matéria do UOL sobre o Greta Van Fleet, anunciando a banda como a salvação ou, entre aspas, a "salvação".

Isso nos leva a pensar em duas coisas. Primeiro, a ideia corrente de que o rock esteja morto ou, entre aspas, "morto".

Vou dar a minha opinião apenas, justamente a fim de dizer que não quero estabelecer verdade nenhuma. Acho que os estilos não morrem. Aliás, alguns dizem que alguns gêneros são, na verdade, movimentos, como Tinhorão refere-se à Bossa Nova, por exemplo. Nesse caso, não poderia morrer porquanto, segundo ele, ela nunca teria existido).

Os gêneros não morrem. Claro que penso naqueles que nasceram sob a égide da indústria cultural, como o jazz e o rock.

O jazz teve uma fase de massificação no final dos anos 30 e pelos anos 40 afora. A sua recepção era totalmente de jovens. Foi quando o gênero, numa posterior, saiu dos guetos de Chicago e Nova York e foi enquadrado pela indústria fonográfica como swing e ganhou os meios de comunicação, tornando-se a música que melhor plasmava o imaginário das bobbysockers. No período pré-guerra, band-leaders apresentavam-se em programas de rádio em onda curta para quase todos os Estados Unidos. Foi o primeiro grande fenômeno de massa de um estilo de música popular na aurora da indústria cultural.

O swing chegou a sobreviver anos após a 2ª Guerra mas, como ocorrera com seus ouvintes, foi envelhecendo. No final dos anos 50, ele sobrevivia quase que novamente em redutos, agora Las Vegas, onde gente como Louis Prima e Frank Sinatra.

Mas o jazz morreu? O jazz se reinventou pela estrada afora, com a carona dos beatniks, com o cool jazz, jazz fusion e a mistura com o outro estilo que quase o desbancou da história, o rock.

O rock passou por um processo parecido ao jazz. Uma música segregada que passou pelo mesmo processo de enquadramento e embranquecimento por parte das gravadoras com vistas a buscar o público jovem. Assim como ocorrera com o jazz, o estilo ganhou foros de sofisticação, tornou-se música "adulta", isto é, mais para se ouvir do que para dançar - não que ela não pudesse corresponder às duas coisas. Mas, nos anos 70, ouvia-se rock quase da mesma maneira que ouvia-se o bebop nos anos 50 (embora o progressivo fosse, de forma manifesta, mais escapista do que queria ser o bop e seus seguidores).

Porém, ao contrário do jazz, o rock passou por pelo menos três gerações emplacando nas paradas. Nesse meio tempo, ele ganhou uma insidiosa aura de guia da juventude ou de música que conseguia andar pela calçada da fama do establishment mesmo sendo incorentemente ou coerentemente anti.

Por conta disso, é possível entender esse imaginário de que o rock desempenha uma função social e que espera-se dele que desponte em seu horizonte um novo messias, vamos dizer assim, um sebastianismo roqueiro. Pelo resto da vida, vamos esperar pela vinda do encoberto, do band-leader que irá levantar multidões num show de arena, como um Freddie Mercury, por exemplo. Esse é o santificado imaginário do rock.

Mas eu acho que, imaginários à parte, o rock de carne e osso passa pelo mesmo processo de seu ancestralóide, o jazz. Assim, eu volto à questão. O rock está morto? Não. Mesmo que, para provar isso, eu cite as centenas de artistas que encontraram sobrevida depois dos 70, do Who, até Ozzy e os Zombies. Que público é esse que os descobre, que os reverencia? Por que o legado deles é tão expressivo e tão duradouro, mesmo que, em determinadas fases, e tantas vezes, decretou-se o fim do rock? Quantas vezes você desejou a aposentadora dos Stones e depois foi a um show deles?

Se o rock morreu? Ele provavelmente segue o seu curso natural. A verdade é que existe um descompasso entre o que os jovens escutam hoje o rock. É difícil para um roqueiro admitir que o seu culto é pura nostalgia. E a indústria do disco também sabe disso. Tanto que ela o vende como produto segmentado, como nessas ondas de vinil 180g. que, queira ou não queira, é pura indústria da nostalgia.

Nostalgia até do tempo que o rock era coisa do demônio, lembram? Uma pessoa empunhando uma guitarra era um anjo caído; hoje, qualquer moleque toca guitarra em casa como quem brinca de autorama...

O que não quer dizer que eles estejam errados. A verdade é que o rock é um gênero que nasceu com o disco. É como se fosse uma grande estufa no tempo e no espaço, onde tudo nasceu dentro desse contexto e dessa recepção. O rock cumpriu a sua função como gênero dentro dessa redoma. Porém, muita coisa se perdeu com o tempo, mas foi sendo redescoberta com o advento da internet.

A internet permite que façamos o caminho contrário. A internet possibilita que seja possível uma arqueologia do rock. Através dela, hoje, podemos conhecer coisas que sequer saibamos que existia e isso pode influenciar esse mesmo imaginário dentro do rock.

Hoje é possível conhecer muito mais de música antiga, como a ars nova, até o ocaso da polifonia e toda a produção que sobreviveu em partituras, desde a Escola de Notre Dame até Palestrina, ou toda a obra de Vivaldi que, por sinal, transcende a música "de câmara".

Da mesma maneira, existe uma produção de meio século de rock que ainda está sendo desencavada. Esse processo de arqueologia musical pode mudar todo o curso do estudo que fazemos de história da música e da arte

Acho que, por isso, o rock não morreu, ele deixou o mainstream mesmo que paradoxalmente aparecendo, seja na figura de um veterano (que nunca irá lançar um clássico) ou de uma novidade que, como diria Pound, é uma imitação. O resto são diluidores. É uma teoria. Mas não há problema nisso. O resto é mistificação e pretensão.

Por último, fica a questão, se o rock precisa ser salvo. Creio que, para um gênero que sempre foi pintado de vermelho e com chifrinhos, como o Brasinha, nem ficaria bem. 

Monday, April 30, 2018

Hung Up on a Dream




— Bom esse disco, hein?

Esse era Al Kooper, o líder do Blood, Sweat And Tears, depois de escutar um acetato do último disco dos Zombies, o Odessey And Oracle.

O que ele não sabia é que quem estava naquela base do sangue, suor e lágrimas mesmo era a turma do Colin Blunstone. Eles estouraram em 1964 num concurso promovido pela London Evening News, que lhes permitiu assinar contrato com a Decca naquele mesmo ano.

No entanto, a concorrência massiva com de bandas britânicas que, com efeito, faziam praticamente o mesmo som, a pressão comercial em bater uma concorrência desleal — num momento em que o grau de sobrevivência de um conjunto de rock residia na sua capacida de em elaborar single de sucesso e a necessidade de fazer sucesso na América faz com que os Zombies fossem paulatinamente subestimados.

Isso a despeito da banda ter sido capaz de lançar compactos de qualidade, como She’s Not There e Tell Her No, a tentativa da gravadora em vendê-los como os Beatles da vez — com Begin Here, na verdade uma coletânea de compactos, dentro da cultura fonográfica da época — acabou resultando em frustração. Os Zombies não foram bem nas paradas já num momento em que a Invasão Britânica parecia dar mostras de que estava sendo superada até por si mesmo.

Dois anos depois, quando a estética musical do rock havia mudado de cena — mais precisamente para a Costa Oeste americana, a British Invasion começava a ficar datada. A falta de perspectiva comercial somada ao retorno inexpressivo em matérias de venda de discos faz com que a Decca se desinteressasse por Rod Argent e companhia.

Em 1967, com seus dias contados, os Zombies assinaram contrato com a CBS. O objetivo era, pela primeira vez, criar um álbum que consistisse apenas de canções inéditas. Por sua vez, o desafio era colocá-los a toda prova como uma banda capaz de realizar um trabalho impecável. O problema? O quinteto iria, de maneira paradoxal, dar o melhor de si numa situação extrema, explorando todo o seu talento num um trabalho independente.

Para tanto, alugou os estúdios da EMI em Abbey Road (seriam os primeiros a realizarem sessões no local sem serem músicos da Parlophone até então) e se dedicaram a compor o que seria o seu “Canto do Cisne” — com a devoção triste de um quinteto de cordas tocando enquanto o transatlântico afunda...

O incrível foi que os Zombies chegaram em Abbey Road e conseguram — mesmo que batendo pé — que os engenheiros de som esperassem antes de recolher o vasto equipamento utilizado pelos Beatles nos estúdios. Vale lembrar que, além do Pepper’s, o local fervilhava com a gravação do Pipes, do Pink Floyd e o SF Sorrow, dos Pretty Things.

Em parte inspirados pelo momento sublime, em parte dispostos a darem o seu melhor, o quinteto colheu a mais bela rescolta de canções que poderiam colher. A despeito da situação falimentar dos Zombies, eles puderam dar um tempo para seus problemas e gravar um álbum como se estivessem no seu auge. Esse carrossel de paradoxos é que transformou o Odessey And Oracle num momento inefável na carreira da banda.

Do ponto de vista musical, o disco entra de cabeça no tipo de pop barroco que floresceu no rock britânico a partir de meados dos anos 60, explorando elementos eruditos, de jazz, vaudeville e de trabalhos corais — principalmente por intermédio de Argent, um pianista de influência erudita. Isso se torna evidante em passagens de harpiscórdio em Care Of Cell 44 (que também não deixa de pagar tributo à psicodelia dos Beatles em Penny Lane ao ao rococó pop de Brian Wilson do Pet Sounds) ou em órgão, como em Beechwood Park.

Contudo, ao contrário de muitas bandas da época, que tendiam a realizar experimentos com Leslie speakers, tape loops, gravações ao contrário, sobreprosições de faixas em overdubs gravados em timbres distintos, música concreta (coisa que os Beatles, os Stones ou o Pink Floyd fariam — quase como precursores do space rock) o trabalho dos Zombies é essencialmente calcado nos arranjos de extremo bom gosto Bem ao estilo Collin-Blunstone, as canções tem a concisão pop no entanto elaboradas com extremo bom gosto, em arranjos complexos e, ao mesmo tempo, acessíveis.

A primeira parte foi registrada em Abbey Road. Depois de uma interrupção, onde estenderam a produção no Olympic, os Zombies voltaram à EMI para terminar o disco. Naquele ponto, os Zombies já estavam desiludidos com a repercussão indiferente do público depois do lançamento do single Care of Cell 44/Friends Of Mine; com a sensação de que seria mais uma quimera, o Odessey foi concluído numa progressão fulminante.

Já no apagar das luzes, Argent apareceu com algo totalmente diferente do que vinha sendo gravado desde então: Time of the Season. Ao contrário das canções do álbum, Time... parecia mais experimental, mais agressiva, com um teclado que a transformava num liquidificador lisérgico. Porém, naquela altura do campeonato, nem a nova música os empolgou. Blunstone não queria fazer os vocais. Depois de muita insistência, ele topou.

Odessey And Oracle foi lançado em abril de 1968. Toda a beleza do disco, que ia dos arranjos originalíssimos às letras inspiradíssimas, que versavam desde a passagem inexorável do tempo (A Rose for Emily), ao verão, a amizade (Beechwood Park), ao onírico (a apaixonada fantasia de Hung Up On a Dream, uma belíssima canção que roda junto com os versos, numa repetição circular das suas estrofes), ao lirismo ingênuo do primeiro amor (I Want Her She wants Me, This Will Be Our Year), o bucolismo de Brief Candles e a dramaticidade cênico-fantasmagórica de Butche’s Tale — que desaguam na pororoca psicodélica de Time Of The Season, que cria um contraste e uma profundidade sonora perfeita às composições mais suaves do disco.

Em Odessey, os Zombies se tornaram o perfeito exemplo de que talento não é suficiente. Como eles, muitas outras bandas experimentaram o fracesso no ápice de suas qualidades musicais. Esse (outro) paradoxo, quase um estereótipo no mundo do rock — eles não foram os primeiros e não seriam os últimos a serem incomreendidos — faltava um empurrãozinho...

— Vocês não querem lançar o Odessey nos Estados Unidos? — perguntou Kooper.


A proposta era irrecusável. Havia apenas dois problemas quase incontornáveis. O primeiro é que eles teriam que custear o trabalho de mixagem em estéreo, já que o álbum havia sido lançado na Inglaterra apenas em mono. O segundo: as sessões do disco haviam exaurido todo o estímulo do quinteto em continuar. Argent já havia criado uma nova banda. Mesmo assim, eles resolveram levar a cabo sugestão de Al.
Torraram dinheiro que eles não tinham para fazer, também de forma independente, já que o contrato deles com a CBS britânica já havia acabado. Kooper levou os masters para a América.

Como se costuma dizer, se o final foi triste, é porque não era o final ainda. O verdadeiro final sempre deverá ser feliz. E esse foi o do Odessey And Oracle. Kooper leva todos os méritos: ele insistiu para que o todo poderoso da Columbia ianque, Clive Davis, o lançasse.

Mesmo que o disco saísse por uma obscura subsidiária da CBS, a Date Records. O primeiro single foi Butcher’s Tale (a gravadora apostou na temática pacifista na letra). Mas o faro de Al estava certo; Time of The Season era a pièce de resistance do vinil. Quando saiu em compacto nos Estados Unidos — um ano depois do lançamento britânico, ela foi catapultada ao topo das paradas.

Contudo, a verdadeira pátria de Odessey And Oracle seria a posteridade. O tempo cuidou de apontá-lo como um dos pináculos do pop rock dos anos 60: um trabalho à altura dos melhores momentos dos Beatles e dos Beach Boys. Passados mais de quarenta anos, a obra-prima dos Zombies soa cada vez melhor.



Tuesday, April 10, 2018

O Último Morador do Sobrado


Sobrado dos Verissimo, em Cruz Alta

Esses dias eu reli as duas últimas partes do Arquipélago, do Erico Verissimo. e fiquei imaginando: o que teria acontecido aos personagens do romance a partir dali?


Então pensei numa história - que acabei abortando, de inventar uma história de um repórter quem, movido por pura curiosidade, depois de encontrar uma nota dando conta de que o sobrado de santa Fé havia sido tombado finalmente, no final dos anos 90, com a morte de Sílvia Cambará, a última moradora do casarão.

enviado à Santa Fé, ele descreve a cidade como se encontra hoje. Não muito diferente das cidades do interior do Rio Grande. Na verdade, acho que o Erico quis dar à Santa Fé, assim como em Antares, fumos de pequena metrópole, algo que é difícil de conceber, ainda mais naquela região serrana do estado. Para tanto, basta ver a cidade que tem duplicidade com a dos personagens de O Tempo e o Vento: Cruz Alta. Apesar dos pesares, ainda é uma cidade pequena, cuja inanição permitiu que muito do casario permanecesse, principalmente naquela região próxima à antiga estação de trem, com suas ruas fatigadas e sobrados de telhados avoengos.

O repórter chega à Santa Fé. Descobre que o Clube Comercial, o Schintzler e a Casa Sol ainda existem, porém sob nova direção. O cinema é agora uma igreja evangélica. O busto de Lauro caré, da praça, foi levado com todo o bronze. Já a herma de d. Revocata ainda está lá, contudo sem o óculos, que foi arrancado, por pura diabrura de algum moleque.

Ao deparar-se diante do sobrado, ele percebe que o prédio está bem preservado, porém fechado há tempos, desde a morte de d. Sílvia. Como acontecera com as outras moradoras do casarão, D. Bibiana e D. Maria Valéria, Sílvia viveu muito tempo. Conversando com vizinhos, descobriu que o atual responsável pelo prédio é um filho dela, um certo Licurgo, que mora na antiga fazendo de seu Babalo. Marcam um encontro no dia seguinte, ali mesmo.

O repórter fica admirado ao entrar no casarão: tudo está preservado. Tombado, o prédio iria destinar-se a ser museu — explica o único filho de Sílvia. No entanto, não há verba estatal. Enquanto a situação fica em compasso de espera, o sobrado dorme seu sono secular de móveis cobertos por lençóis — inclusive o hierático retrato do dr. Rodrigo Cambará, que parece um fantasma de tempos passados.

Que fim levou os Terra Cambará, pergunta o repórter. "Papai morreu campereando, caiu do cavalo", revela Licurgo. segundo ele, isso foi quando ele ainda era criança. "Mal conheci papai", diz. Licurgo conta que Irmão Toríbio foi para Santa Maria, onde virou professor marista, viveu lá por muitos anos, onde morreu. Tio Bicho adoeceu e foi para Porto Alegre. Dali em diante, não se sabe o que aconteceu. dizem que foi parar no São Pedro.

E Floriano? "Foi para o Rio com D. Flora. Depois que ela morreu, ele assumiu a direção do Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos, em Washington, onde passou o resto da vida". O filho de Jango conta que, porém, ele esteve em santa Fé no final dos anos 50, especialmente para escrever a continuação daquele livro sobre a história da família. "Foi a última vez que mamãe e tio Floriano se encontraram", revela.

Depois da morte de Jango, Sílvia ficou sozinha. Acabou tornando-se a última senhora do sobrado. O neto do dr. Rodrigo explica que, com o tempo, era difícil para uma pessoa só dar conta do sobrado inteiro. "Depois da morte do vô Rodrigo, a família foi se desintegrando", revela. "Parece que o Sobrado, que foi um esteio da família, tinha a vocação de um útero vazio. D. Bibiana tanto sonhou com uma família que enchesse o sobrado, mas esse prédio parece ter a vocação do abandono", entende.

Ele conta que, na verdade, ele passou a viver e cuidar do Angico, até que se viram obrigados a vender as terras. "Lembra da quele menino que era bom em matemática, que mamãe menciona no diário do livro do Tio Floriano, de quando ela dava aulas aos moleques do Angico?". Respondi que não. "Pois ele cresceu, virou doutor e fixou rico, acabou comprando o Angico" diz. Licurgo explica que sacrificar a estância foi a forma de preservar o resto. Ele herdou as terras do seu Aderbal, mas Sílvia não quis arredar pé do Sobrado.

D. Sílvia viveu os últimos anos como Hiroo Onoda, aquele soldado japonês que, finda a guerra, continuou lutando. Porém, o seu combate era a preservação do Sobrado. Ela sabia que, como D. Bibiana, a sobrevivência do prédio dependia dela. "Certamente que, se não fosse por ela, o sobrado já havia sido demolido e transformado num estacionamento ou coisa parecida", diz o último morador do Sobrado. "Ela me dizia que D. Maria Valéria lhe contara da história daquele terreno, e do esforço sobre-humano que D. Bibiana empreendeu para que o casarão ficasse com os cambarás".

"Falando nisso, e D. Maria Valéria?", quis saber. "Ela viveu mais um ano depois da morte do vê Rodrigo", disse Licurgo. "Curiosamente, ela e o seu José Lírio, o Liroca, morreram no mesmo dia, curioso, não?". De fato, por essa nem o Erico Verissimo imaginaria...



Thursday, February 08, 2018

A tragédia grega e o reconhecimento nas Electras



Irene Papas interpretando Electra, no filme de Mihalis Kakogiannis


O objetivo deste trabalho é cotejar as diferentes versões do mito de Electra nos olhares diversos dos três tregediógrafos que nos legaram as respectivas peças, a saber: Ésquilo (Coéforas), Eurípedes (Electra) e Sófocles (idem).

A respeito da tragédia, como observa Lígia Militz da Costa e Maria Rítzel Remédios (1988) drama teve origem na Grécia e caracteriza-se por apoiar-se na identificação que se estabelece entre o público espectador e o problema apresentado na ação encenada.

Outra característica fundamental da tragédia é a ambiguidade resultante entre o ethos e o daimon, porquanto nesse gênero, o herói trágico quer guiar-se por seu próprio caráter mas está subordinado ao gênio mau (deimon).

Na Poética, Aristóteles sistematizou o gênero dramático. Aqui, o estagirita define a arte dramática como imitação e a tragédia como a mímeses de uma ação de caráter elevado (...) suscitando o terror e a piedade (1966, p. 74).

Desta forma, a tragédia é, a um só tempo, formada por diversas partes 'qualitativas' que identificam-se com os traços distintivos da mímese trágica: os meios (a fala e a melopeia), modos (o espetáculo) e o objeto (o mito, a fala e o pensamento). A tragédia não pode existir sem a ação, sem o mito, portanto. E duas partes que integram o mito — a peripécia e o reconhecimento, são admitidos como meios de fascinação na tragédia (1988, p.10).

Ora, de acordo com Aristóteles, a unicidade da ação e do mito depende com efeito da organização interna das partes diversas que o compõem, que são arranjadas conforme o critério de verossimilhança. A ação imitada deve formar um todo uno e coeso a ponto de, havendo deslocamento ou supressão de qualquer um de seus componentes, [é possível que haja] alteração ou confusão da ordem no todo (1988, p.10).

Na Poética, Aristóteles também dá atenção à caracterização do herói trágico. Segundo ele, este mostra-se vinculado aos parâmetros de felicidade e infelicidade, virtude e vício, bondade e mediocridade. O ideal de herói representado é o que está numa ordem intermediária, goza de reputação e fortuna, mas pode cair no erro quando impulsionado pela desdita (op. cit, p.10).


O Reconhecimento

As três partes do mito, segundo Lígia Militz (1992, p.24), peripécia, reconhecimento e catástrofe, são definidas por Aristóteles. Enquanto a primeira é uma espécie de refluxo da narrativa (porém dentro dos critérios de verossimilhança e da necessidade), a segunda é a passagem do não-conhecimento ao conhecimento, ação que ocorre com o fim de revelar uma aliança ou hostilidade entre personagens do drama, ação que, de acordo com a autora, culmina num estado de felicidade ou infelicidade (p.25).

Para Militz segundo Aristóteles, o reconhecimento que o corre junto com a peripécia é o que determina, a partir do conjunto da forma, os sentimentos de terror ou piedade (p.26). Por fim, diz Militz, a par de outras formas de reconhecimento, temos a catástrofe, como ação que resulta em destruição ou dor, corolário violento, a exemplo das mortes ocorridas em cena (1992, 26). Já Ribeiro (2010) citando Elizabeth Belfiore, explica que o reconhecimento "deve resultar numa ação que muda a direção da peça e contribui para o seu movimento contínuo (RIBEIRO, p. 252).

Em Ésquilo (Coéforas, 458 a.C), é Orestes quem primeiro reconhece Electra e logo é reconhecido. Em Eurípedes (Electra, 415 a.C) ele a reconhece, mas joga com a possibilidade de revelar-se. Já em Sófocles (Electra, 415 a.C), o reconhecimento ocorre quando um velho criado nota uma cicatriz que remete a um antigo episódio familiar de ambos.

Ribeiro cita Aristóteles para classificar os respectivos reconhecimentos em Sófocles e Eurípedes os mais comuns e menos artísticos. Segundo ela, o estagirita prefere o modelo concebido por Ésquilo, segundo o autor, de caráter silogístico e exemplar, ao contrário de outros expedientes considerados mais comuns na elaboração do reconhecimento.

Entende-se por herói trágico o que, consciente ou inconscientemente, transgride uma lei aceita pela comunidade e sancionada pelos deuses (1988, p.20). O herói trágico deve pertencer à aristocracia ou ser filho de um rei, por exemplo. Contudo, o que notabiliza o seu caráter trágico é a sua atuação na desgraça, no caminho entre a falha trágica e a punição.

No mito dos Atridas, tanto Electra quanto Orestes são aristocratas, transgridem as leis e cometem o crime (assassinato de Clitemnestra). A solução final do filho de Agamênon passa por sua irmã que, sozinha, não seria capaz de efetuar a vingança. Porém, o plano passa primeiramente pelo reconhecimento de ambos, que ocorre em cada uma das três peças analisadas — em Ésquilo, Sófocles e Eurípedes.



Ésquilo


Nas Coéforas, Orestes reconhece Electra quando ouve uma das suplicantes diante do túmulo dizer: "como pronunciar palavras propícias?". Como Ésquilo não menciona outra irmã (Crisótemis) e seu nome não é falado, ele a reconhece pelo discurso dela.

Oculto, ele vê que ela reconhece traços de Orestes nas libações no túmulo de Agamênon. A mecha de cabelo remeteria diretamente ao filho do Atrida, cuja relíquia só poderia pertencer ao seu irmão.

A cena, segundo Ribeiro, deve ser observada pelo fato de que ela não ocorre em qualquer lugar, ocorre diante do mausoléu do heroi grego e num momento extremo de súplica por parte de Electra que, naquele momento, vê signos de que suas preces foram atendidas.

A similitude das pegadas dos irmãos, por sua vez, de acordo com Jacques Jouanna (apud RIBEIRO, p.256), pode remeter a um tipo de reconhecimento análogo, que ocorre no Livro IV da Odisseia, quando Helena nota semelhança entre Telêmaco e Ulisses, tanto na forma dos pés quanto nacor dos cabelos. Segundo ele, Ésquilo não estaria lançando mão de uma ideia diversa ao usar esse expediente.

"A forma dos pés era uma forma pelo menos igual aos outros para discernir a semelhança física entre membros da mesma família. Por conta disso, o autor entende que o reconhecimento pelo formato dos membros, comum no período homérico, ainda seria válido no clássico (op. cit, p. 256).

Em seguida, ocorre o que seria a segunda etapa do reconhecimento, que é a peça de roupa. É nesse ponto, como observa Ribeiro, que Aristóteles entende o silogismo na forma como Ésquilo resolve o reconhecimento: alguém chegou que me é semelhante; mas ninguém se assemelha a mim a não ser Orestes; logo, quem veio foi Orestes (Poética, 1455a 5).

Sófocles


Na versão sofocleana, Orestes (junto com seu preceptor) já está em Argos e tem todo o plano de vingança decidido: carrega uma urna, como forma de entrar no palácio dos Atridas.

Ao chegar lá, reconhece Electra como uma suplicante mas precisa ter certeza de que é ela. O preceptor quer que ele apresse-se em depor as oferendas no mausoléu do pai. Ou seja, não poderia evitar de contar de sua morte a ela, que sofre seu pathos por quase toda a peça. Ribeiro salienta que, mesmo que o espectador saiba da trama antes que ela descubra, não furta-se a compadecer-se do sofrimento da heroína (RIBEIRO, p.257).

Aristóteles (XIV, 1453b) observa que o mito deve ser composto de tal maneira que, quem ouvir as coisas que vão acontecendo, mesmo que nada veja, só pelos sucessos trema e se apiede, como experimentará quem ouça contar a história de Édipo. Querer produzir essas emoções só pelo espetáculo é processo alheio à arte e que mais depende da coregia.

Em Electra, o reconhecimento no entanto dá-se através de Crosótemis, que nota as libações no túmulo de Agamêmon. Sua certeza é a de que cacho de cabelos só pode ser de Orestes.

Electra, que já ouvira a narrativa da "morte" do irmão, por piedade, quer acreditar que foram apenas relíquias deixadas pelo preceptor. Dado o divertido engano, ela não se dá conta que repudia a prova fatal da presença do filho de Agamênon ao mesmo tempo em que segura a urna com a prova falsa. Ao mesmo tempo, Orestes tem certeza de que está diante da irmã ("Tua mãe não te amava como eu", etc.) embora possa ser difícil de acreditar, ao vê-la na condição em que se encontra, mais velha e em andrajos.

Electra acredita aparentemente quando Orestes se apresenta. Contudo, Sófocles usa um outro sinal — um anel que, segundo ribeiro, serve mais como reforço do que prova cabal de identidade (p.258). Se compararmos com Ésquilo, os signos no mausoléu (como o cacho) e o reconhecimento de Crisótemis são episódios 'menores' ou secundários, com relação às Coéforas.


Eurípedes



Na versão de Eurípedes, encontramos Electra em “núpcias hórridas” com um campônio, solução salomônica para que Egisto enfraquecesse a prole de Clitemnestra e tirasse de Electra o status de cidadã, e assim refreasse seus temores contra a possibilidade de que ela venha dar a luz a um nobre que possa enfim fatalmente vingá-lo. Ao encontrá-la, Orestes fica chocado em ver a irmã morando numa choupana e carregando água num vaso. Como percebe Ribeiro, Electra sofre um duro teste e o reconhecimento é protelado ao máximo: se ela fica sabendo que o irmão está vivo, tem a desvantagem de ter o reconhecimento postergado (p. 262).

Ou seja, se em Sófocles temos Electra sofrendo com a certeza da perda do irmão, em Eurípedes, como diz a autora, posterga o reconhecimento por parte dela, fazendo com que surjam diversas oportunidades propícias para tal. E quando ele atinge o ponto crucial, “deixa a nossa perspectiva frustrada” (idem, ibidem). E de forma diversa da versão sofocleana, Eurípedes faz com que o “velho” amigo da família seja o algoz da informação de que houve libações no mausoléu de Agamênon — e não Crisótemis, que não aparece nesta versão.

Contudo, ao lhe ser revelada a efeméride, ela descarta as pistas uma a uma: um nobre como Orestes não iria chegar às escondidas, e os signos encontrados no túmulo não possuem qualquer prova cabal de que são dele, fazendo aqui o intertexto com Ésquilo. No fim, é o velho que o ‘reconhece’ para ela, mostrando o corte no rosto de Orestes (“repara nele: tem o que mais queres”). Porém, ela só esmorece após o reconhecimento definitivo.

Pietro Pucci, segundo Ribeiro. Pare ele, Eurípedes está lidando com um tema mais caro a ela do que a Ésquilo — a relação entre verdade e evidência: “ela já está certa por algum padrão de análise racional de evidência, e já está errada. Eurípedes aqui reflete seu tema familiar, a impotência da razão humana” (idem). Por fim, Gilberte Ronnett (apud RIBEIRO) entende que os acréscimos esquilanos só podem ser entendidos como forma de o poeta equiparar a sua peça à clássica Electra e atender aos convencionalismos das cenas de reconhecimento (p. 263). porém, ao contrário de Sófocles e Ésquilo, aqui isso ocorre à revelia de Orestes.


Conclusões


Márcia Cristina observa, no entanto, que a etapa do reconhecimento nas Coéforas é peça fundamental para o desenrolar da peça, quando tal expediente significa a mudança “peripecial” da má para a boa sorte. Em Sófocles, o plano de vingança já fora concebido e, em Eurípedes, como uma Lady Macbeth, ela desempanha a função vital do cumprimento do matricídio, papel que em Ésquilo coube ao coro.

Em matéria de estílo e técnica, Lígia Militz e Maria Ritzel salientam a relação entre a versão de Sófocles em Ésquilo. Também entendem que Electra têm ascendência sob os atos do irmão. Ela não participa do crime mas é seu agente racional. Desta forma, Sófocles encontraria-se na figura trágica de Electra e na sua agonia por ver que a vingança custa a ocorrer. A diferença entre ambos nessas peças centra-se na personagem principal, eixo da tragédia. Em Ésquilo é Orestes e em Sófocles Electra.

Ante a destruição progressiva da família, Sófocles procura uma solução conciliadora omitindo os deuses trabalhando a caracterização da irmã de Orestes; figura humana em desgraça, Electra vive uma situação repugnante pela fixação na figura paterna, tornando-se, desse modo, reflexo da desordem e do caos (1988, p.19).

Do ponto de vista religioso, as autoras salientam que Eurípedes diferencia-se de seus pares pela sua visão antropológica de mundo: “[seus heróis] são mais humanos que os de Ésquilo e Sófocles, pois eles odeiam, vingam-se, duvidam; arrependem-se de sua ação, apresentando, portanto, sentimentos próximos ao homem comum” (idem, ibidem).

A crítica corrente, salientam as autoras, também observa como este autor valoriza personagens marginalizados socialmente, como o escravo e o camponês. Contudo, ao que concerne à Electra, em Eurípedes, sofre imposições masculinas, obrigando a casar-se duas vezes. Ou seja, mesmo que o tragediógrafo buscasse apresentá-la como livre em suas ações, ela está presa nos limites da sociedade patriarcal em que vive e que ajuda a restaurar (p.20).

Já a figura dramática de Electra em Eurípedes lembra a de Sófocles, onde a força da personagem parece residir em sua amargura perene, que começa com a morte do pai e termina na forma como é tratada. Nela prevalece o ódio sobre o amor e seu desejo de vingança não é desinteressado: apesar de insubmissa, aceita seu destino (o casamento imposto) a fim de que o poder permaneça na casa dos Atridas.

A respeito da atuação dos heróis, é possível perceber diferenças entre os três autores. Se em Ésquilo o clímax da história reside imperiosamente na vingança, nas duas electras, o elemento fundamental está primeiro na salvação da heroína e, num segundo momento, em seu triunfo. Se nas Coéforas, Orestes é o enviado de Apolo (ou de Zeus, em última análise), nas outras peças, ele é aquele que liberta Electra da situação degradante em que se encontra.

Por fim, Militz e Ritzel observam que as electras aproximam-se pelo objetivo de marcar de forma profunda o caráter da heroína que, ao lado de seu irmão, consegue finalmente livrar-se dos sofrimentos por que fora oprimida (idem, ibidem).


Referências Bibliográficas



ARISTÓTELES, Poética. Porto Alegre, Globo, 1966.

COSTA, Lígia Militz, REMEDIOS, Maria Luíza Ritzel. A Tragédia, Estrutura e História. Ática, São Paulo, 1988.

RIBEIRO, M. C. L. Electra e Orestes: reconhecimento e espaço na tragédia grega. Revista do Museu de Arqueologia e Etnografia, 20: 251-176. São Paulo, 2010.

Thursday, January 25, 2018

Carmen: a vida em disco


A Pequena Notável

Carmen Miranda hoje é lembrada principalmente como ícone do cinema e musa do tropicalismo. Porém, algo que chama a atenção, ao transcendermos os epetos da nossa Pequena Notável é que sua imagem de artista de teatro e cinema, de certa forma, acabou eclipsando um elemento fundamental na sua carreira: seu legado como sambista e intérprete, com uma carreira consolidada com centenas de discos gravados em quase uma década.

No entanto, se olharmos em retrospectiva, iremos lembrar de temas como “South American Way”, “Bambu, Bambu” ou “Chica Chica Boom Chic”, músicas que tornaram-se signature songs para ela, mas que são meros produtos da indústria do cinema e ligados ao seu estereótipo de baiana do tutti frutto hat. Carmen, pelo menos publicamente, não dava bola para essa estereotipação: para ela, isso era comum no mundo do cinema - nem John Wayne escaparia.

Mas a verdade é que, muito antes da Broadway e de Hollywood, Carmen teve papel fundamental na pavimentação da canção brasileira. A respeito disso, Ruy Castro (1) diz que, a partir dos anos 30, ela estava fazendo uma revolução, tornando a música popular adulta, urbana, maliciosa e estimulando os compositores a explorar esses caminhos.

Comparando a Brazillian Bombshell à cantora mais popular daquele tempo, Aracy Côrtes, ele entende que a intérprete, a partir de Carmen, deixava de ser a “soprano olímpica”, para quem a letra era apenas uma “pista de corrida tendo os agudos como obstáculos, ou a moçoila ingênua e infantilizada que cantava versos matutos ou piegas”. Para ele, a cantora agora era uma mulher que tomava liberdades com o ritmo, adiantando-se ou atrasando-se em relação a ele, ditando o próprio ritmo, escandindo sílabas, enfim, “tornando-se dona da canção”.

Ao mesmo tempo, diferentemente de Aracy, Carmen passava longe da Praça Tiradentes e das revistas, que marcaram a produção musical até o começo dos anos 30. Ao contrário, desde o princípio, ela foi uma cantora do rádio – surgiu com o começo das transmissões comerciais no Brasil e foi a primeira intérprete de renome a ter um salário fixo, na Mayrink Veiga. Até então, ou, até mesmo depois, era comum que artistas 'do éter' ganhassem por empreitada, recebendo apenas cachês.

Como artista da Victor, ela seria a artista preferida de compositores de sua geração, como Custódio Mesquita, Ary, Assis Valente, André Filho ou Synval Silva. Ao seu lado, havia apenas Aracy de Almeida, que tornaria-se intérprete oficial de Noel Rosa e sua irmã, Aurora. Das duas, só Aurora a ombreava em matéria de produção de discos. Em média, elas lançavam um 78 rotações de três em três semanas (os long-plays só surgiriam quando Carmen já estava radicada nos Estados Unidos, no final dos anos 40).

Como cantora de Noel, Aracy de Almeida iria para o lado do samba-canção: “X do Problema”, “Último Desejo” ou “Triste Cuíca”. Havia um abismo temético entre a lírica do Poeta da Vila e o estilo mais carnavalesco de Carmen. É notória a frase de Noel (“isso é samba ou o que a Carmen Miranda canta?”). Carmen notabilizou-se por músicas mais tematizadas, marcinhas de Carnaval, área muito pouco explorada por Noel. Ele mesmo dizia que achava ser a Pequena Notável mais uma cantora de Carnaval do que uma sambista.

Talvez esse rótulo, se somado à sua imagem antes de performer (já em Hollywood) do que de cantora propriamente dita possa ter, com efeito, diminuído sua importância como cantora popular, mesmo sendo figura de proa no meio artístico, disputada pelas duas gravadoras mais importantes da época (Victor e Odeon) justamente num importante período de consolidação da canção brasileira no país. Diferenças à parte, porém, Ruy Castro salienta que Aracy foi a primeira cantora a surgir depois de Carmen, e só iria começar a arranhar a supremacia de Miranda com “Tenha Pena de Mim” (Cyro de Souza e Babaú), em fins de 1937 e o testamento de Noel, “Último Desejo”, do mesmo ano.
Até aquele ano, Carmen era a dona de canções como “Goodbye”, “Minha Embaixada Chegou”, “Tic-Tac do Meu Coração”, “Moleque Indigesto”, “Uva de Caminhão”, “Alô Alô Carnaval”, “Adeus Batucada”, “Querido Adão”, “Meu Balão Subiu”, “Como Vaes Você”, “No Tabuleiro da Baiana”, “Me dá, Me dá”, “Eu Dei”, “Camisa Listada”, “Maria Boa”, “Primavera no Rio”, “Taí”, “Boneca de Piche”, “Na Baixa do Sapateiro” e tantas outras.

Em dez anos, ela gravou 281 músicas entre marchas, choros, rumbas, emboladas e outros quetais, um recorde entre as cantoras brasileiras até então. Fizera dupla com vários cantores, de Mário Reis a Carlos Galhardo, consagrou tantos compositores, como Assis Valente, Dorival Caymmi e Synval Silva e gravou com regionais de Benedito Lacerda e Pixinguinha.

Porém, como salienta Ruy, sua carreira musical de verdade foram os discos que ela gravou no Brasil.

E por que? Quando ela virou estrela da Broadway e depois do cinema, sua produção musical, de 1940 a 1955 foi resumida a pouco mais de cinquenta fonogramas, todos lançados pela Decca americana. A explicação é a de que empresários e produtores de Miranda nos Estados Unidos queriam que seus fãs fossem ao cinema para ouvi-la. Não queriam que discos prensados e em profusão concorressem com as entradas. O que parece absurdo, já que cantores como Bing Crosby não tinham sua produção ofuscada pelos filmes.

Claro que noves fora era preciso entender que Crosby já era um artista consagrado do microfone, se compararmos com Carmen que, quando surgiu, em 39, era uma performer estritamente de palco. Junto com isso, a sua própria imagem de “comediante” a afastava de parecer ou tentar parecer ser (ou a aventuirar-se a) uma carreira como cantora, como uma Jo Statfford ou uma Dinah Shore. Com o correr dos anos, Carmen estaria cada vez mais presa ao estereótipo de latina. Os poucos discos que foram lançados por ela na América eram os standards de seus filmes, como “When I Love, I Love”, “Asi, Asi”, “A Weekend In Havana” (em geral, rumbas que eram transpostas em tempo de samba pelo Bando da Lua, com versões em Português de Aloyisio de Oliveira) e algumas poucas novidades brasileiras, como “Caroom' Pa Pa” (Baião, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, em seu ultimo disco, de 1950) ou “Arca de Noé” (Nássara e Sá Roris).

Mesmo assim, ela era ciente dessa estandartização, como se a sua música no exterior tivesse sido pasteurizada pelo mesmo technicolor que plasmava em suas produções cinematográficas. Carmen sabia que “aquilo que ela cantava” (parafraseando Noel, que não viveu para vê-la em Hollywood) lá fora não era o samba de sua terra: “eles [os temas que ela cantava nos filmes] fazem parte da minha interpretação e só servem para dar uma ideia do que é samba, que a dança nacional do Brasil”. Em 1940, contudo, um álbum de 78 rotações foi lançado pela Decca com o nome The South American Way, contendo os sucessos de Carmen ainda no começo.

Ela ainda gravaria suas derradeiras faixas pela Odeon quando retornou ao Brasil, em 1940, com “Voltei pro Morro” e a emblemática “Disseram que Voltei Americanizada”. No entanto, elas não entrariam para o seu repertório nos Estados Unidos. Na verdade, foram suas últimas sessões como cantora de sambas, e ela não sabia disso. Dali sairiam ainda “O Dengo que a Nega Tem”, de Caymmi, ou “Rescenceamento”, de Assis Valente. Como diz Ruy Castro: “os poucos discos que ela ainda gravaria nos Estados Unidos não fariam muita diferença para ela ou pra ninguém. A rigor, e por mais duro que isso possa parecer, era o fim da Carmen cantora – sufocada pela personalidade colorida que também cantava e, às vezes, até representava”.

Com o advento de long-play, algumas coletâneas de Carmen foram lançadas, algumas pela Camden (nos anos 60), divisão da RCA, com fonogramas do começo da carreira de Carmen no Brasil. Porém, nunca houve um lançamento proeminente com todos os fonogramas, pelo menos pelas suas gravadoras originais, Odeon e Victor, até 1996, quando a EMI lançou uma caixa (hoje já esgotada) com as 126 músicas que ela registrou lá entre 1935 e 40. Mais tarde, a BMG, detentora das gravações da Victor, pôs na praça uma outra compilação, no entanto sem cobrir toda a obra de Carmen. Muita coisa saiu pela Revivendo, mas, em 2018, não existe uma edição de toda a sua obra – 281 faixas no Brasil e 32 nos Estados Unidos, além do material que só aparece em seus filmes – como “Paducah”, com Benny Goodman.


(1) Ruy Castro. Carmen Miranda, Uma Biografia. Companhia das Letras, 2007.

Tuesday, January 16, 2018

Machado de Assis e a cultura do favor no século XIX


Machado de Assis


O presente artigo busca analisar a cultura do clientelismo no Brasil oitocentista sob a ótica do escritor fluminense Machado de Assis, mais precisamente num livro de transição em sua obra, Iaiá Garcia, de 1878. Para tanto, iremos basear nosso ensaio na análise já clássica de Roberto Schwartz, em Ao Vencedor as Batatas (1988).

No estudo citado, o autor observa que, num momento fundador, nosso ficção enxergou as peculiaridades da vida familiar brasileira sob a ótica do pitoresco e da busca da identidade nacional, cujo resultado foi positivo. O grande representante dessa fase foi José de Alencar.

Numa geração posterior, Machado de Assis retoma o complexto temático, porém sem a “névoa protetora da cor local e a autocongratulação patriótica”. Aqui, a família brasileira passa a ser encarada, segundo Schwartz, em A Viravolta Machadiana (2012) sob o prisma do dependente instruído, que fazia parte dela e constituía um problema. O impasse estava dado, com o desequilíbrio dado por entre as classes. Se, num primeiro plano, há a narrativa romanesca, num segundo plano, vemos a nu a relação entre dependente e família de posses, sob o signo opressivo da proteção, que a qualquer momento pode ser retirada.

Burguês e escravocrata, lembra o autor, o Brasil dava forma mercantil aos bens materiais, mas não desenvolvia o trabalho assalariado, aonde uma problemática especial, de classe, à qual aludem os romances, principalmente os de sua primeira fase, de Ressurreição (1872) a Iaiá Garcia. Assentado na cultura escravista, diz Schwartz, o país fazia com que homens livres e pobres, nem proprietários, nem proletários, vivessem um tipo particular de privação ou semiexclusão (2012, p.259).

Na crônica do chamado mal-estar dos dependentes, diz o autor, Machado de Assis mostra um quadro de personagens “do subsolo” lutando por sua dignidade pessoal, “travada no âmbito das famílias proprietárias. No centro da intriga, existem heroínas pobres, inteligentes e lindas — além de muito suscetíveis — [que] faziam frente à injustiça de que eram vítimas.

Dessa forma, na ótica do Bruxo do Cosme Velho, a intriga sentimental deveria humanizar essa sociedade ‘incivil’: o enfrentamento das heroínas com os abusos de autoridade de seus padrinhos, femininos ou masculinos, se dá sob um signo diferente em cada um dos quatro romances [da primeira fase], o que aliás ilustra o ânimo experimentador e sistemático da literatura machadiana (p. 265).



2. Iaiá Garcia

No romance, D. Valéria chama Luís Garcia, protegido do falecido Comendador (marido de Valéria) viúvo e pai de Iaiá, homem que certamente deve favores a ela. Pede à ele que tire Estela, a agregada da sua casa, da cabeça de Jorge, seu filho, e o convença a partir para a campanha do Paraguai. Em paga, D, Valéria daria a Luís a mão da própria Estela, fato que o rapaz perplexo descobre ao retornar da guerra, anos depois.

Jorge acaba entrando na vida dos Garcia ao, como doutor, ajudar Luís à morte e sua família. Com o convívio, acaba apaixonando-se por Iaiá, filha adotiva de sua antiga paixão. O complicado e inesperado triângulo amoroso separa as duas, Estela e Iaiá, que decide romper com Jorge, alegando que sua madrasta ainda o ama.

Estela por fim arruma um emprego de professora e parte, e então Jorge e Iaiá vivem felizes para sempre. Um ano depois, ao visitar o mausoléu de Luís Garcia, Iaiá encontra uma coroa de orquídeas de Estela, prova de fidelidade ao seu falecido pai.


3. Patriarcalismo e a Cultura do Favor


De acordo com Luiz Felipe de Alencastro (1987), o desejo em manter o escravismo no Brasil permitiu uma solução negociada entre a elite do centro e os respetivos grupos regionais do país. Isso também viabilizaria a articulação dos setores dominantes na consolidação de um estado forte. Porém, a imposição desse projeto provocaria um choque entre esses politiburos regionais e a Coroa. Durante o período regencial, vários conflitos eclodiram, como a Balaiada, a Cabanagem e a Revolução Farroupilha, por exemplo.

Com o fim das revoltas, o tom foi de conciliação com o Rio de Janeiro, conciliação cujo fórum seriam as assembleias provinciais. Surgidas a partir de 1834, elas emprestavam um relativo grau de autonomia a esses respectivos grupos. Contudo, no fim, como observa o autor, canalizava tanto disputas quanto interesses para dentro da máquina do Estado. Ou seja, de forma paradoxal, à medida que desejavam resistir à mediação do Império, eles cada vez mais dependiam do governo central no sentido de atendimento de seus interesses.

Essa conciliação ocorria nas assembleias mas também na Câmara dos Deputados. As revoltas regenciais também serviram de antídoto ao problema das disputas locais: a partir de agora, o governo central era um avalista da ordem interna.

Por sua vez, para a Corte, era preciso ampliar o grau de centralização do regime e a neutralização dos potentados locais. Ao inspirar-se, do ponto de vista formal, no modelo dos estados europeus, o Império buscava "civilizar" a população e ordenar a sociedade brasileira.

Na ótica de Maria Odila da Silva Dias (1980), esse projeto "iluminista" seria o principal argumento a favor de um governo autoritário, com poder de cooptar essas elites locais e garantir uma unidade nacional. Isso passava pela criação de uma rede estatal visando substituir a justiça privada pela pública e uma dominação mediada pelas instituições públicas em detrimento da dominação privada.

Mesmo empunhando a bandeira liberal com uma mão, o estado não podia escapar das contingências da ordem escravista. Numa sociedade como aquela, não havia a menor possibilidade de simplesmente transplantar o modelo liberal europeu para o Brasil. Assim, o modelo de estado adotado aqui ganhou um novo conteúdo.

A partir desse impasse, as novas instituições do Império criaram um mecanismo que, segundo Roberto Schwarz, iria reger a vida ideológica brasileira: o favor.

A sociedade escravista não conhecia a figura do profissional liberal. Naquele tempo, os homens livres não tinham acesso à vida social e bens senão por intermédio de um senhor de posses.

A relação de favor era cifrada no sentimento de igualdade e superioridade porque ambos eram livres, embora numa sociedade escravista. Como eles eram iguais, esse jogo era permitido; pelo compadrismo, podiam trocar favores. De acordo com Maria Sylvia de Carvalho Franco (1976), o favor foi a mola mestra desse paradigma de dominação no Brasil, a partir da segunda metade do Século XIX.

Segundo a autora, ao perpassar a administração pública, o favor introduziu o clientelismo como elemento a mediar o jogo político. Da ótica institucional, isso representou uma 'síntese' que tentava amalgamar um modelo moderno à cultura do favor. Para ela, a burocracia realizou

as formas e as teorias do estado burguês pela mediação do clientelismo, vinculando autoridade oficial e influência social na montagem de eficiente de um instrumento centralizador autoritário, explorado pela classe dominante em vista dos seus objetivos, identificados com os interesses nacionais (p.63).

Dessa forma, sob o signo do clientelismo, a política do favor foi entronizado na esfera do jogo político, emprestando novas cores à administração em geral ao mesmo tempo em que lançava mão de um modelo capitalista. Sobre o tema, Sérgio Buarque de Hollanda (1979) entende que foi através desse sistema que a elite conseguiu legitimar-se sob a égide de um estado sem qualquer base popular e sem apoio de um setor significativo numericamente. Para ele, a representatividade do governo central era apenas "aparente", legitimada por eleições fraudadas e falseadas. Era preciso então retirar do nada os eleitores e elegíveis e, para tanto, recorreu-se a uma farta distribuição de empregos públicos (p.22).

Segundo Sérgio Buarque (1985), isso começa em 1831, quando os portugueses deixam o poder e, a partir daí, homens livres e pobres foram progressivamente guindados ao poder, mas tornando-se meros funcionários públicos habilitados a serem "eleitores e elegíveis" (p.85). Isso causou uma perversão da noção de representabilidade, criando-se um sistema sui generis em que, para salvar-se a fachada parlamentarista, o governo há de depender, pelo menos teoricamente, da vontade dos representantes da nação, mas onde estes vão depender, por sua vez, da vontade do governo (HOLLANDA, op cit, p.23). Desta forma, preservava-se um sistema atávico cujo corolário foi a consolidação de um país de sinecuras.

Como se sabe, a monarquia brasileira viveu sob o sistema parlamentarista. A partir de 1837, dois partidos se revezavam, o Liberal e o Conservador.

Através de fraude, sempre que um novo ministério era nomeado, se este não tivesse maioria, ele era dissolvido e novas eleições seriam realizadas. Por causa da fraude eleitoral, o governo sempre contava com a maioria na Câmara. Assim, o grupo no poder conseguiu manter a estrutura escravista e permitiu acomodar a ordem "privada" dos tempos da colônia num estado moderno e capitalista.


3. Iaiá Garcia, Patriarcalismo e a cultura do favor

Segundo Roberto Schwartz, a ousadia da obra de Machado de Assis começou, por assim dizer, de forma tímida, limitada ao âmbito familiar, onde ele analisava as perspectivas e iniquidades do paternalismo à brasileira (SCHWARTZ, 2012, p. 248). Nesse sentido, podemos dizer que sua literatura está eivada de uma fauna de personagens que, dentro do âmbito do espaço familiar, representam de forma inefável tanto a estrutura quanto a cultura do favorecimento a partir dessa ótica singular.

Um exemplo típico é José Dias, de Dom Casmurro (1900). Ao lermos o romance fora do contexto, podemos não entender por que uma figura externa à família de D. Glória possui um papel tão proeminente dentro da família de Bentinho.

Ora, é justamente porque ele está inserido dentro da cultura do século XIX. Ou seja, José Dias pode parecer estranho aos olhos de hoje mas, dentro de um contexto de um Brasil capitalista e escravocrata como o que Machado de Assis narra em seu livro, o personagem seria apenas mais um. A própria estrutura familiar da casa de D. Glória não é incomum — uma matrona que cuida de bens, como imóveis, e vive cercada de uma parentela que gravita em torno dela.

É nesses limites conformistas, traçados pela ideologia do decoro familiar e a relação “conservadora” (como veremos adiante) entre parentes, favorecidos e um patriarca (ou matriarca, viúva e patusca, como no caso mais do que recorrente em Machado) que podemos observar, ainda a partir da primeira fase da obra do Bruxo do Cosme Velho, o quanto ele foi um anatomista da realidade social brasileira daquele período. Para tanto, vamos pegar como exemplo um romance que encerra a chamada fase romântica do autor, Iaiá Garcia (1878).


Assim como em Dom Casmurro, Iaiá Garcia tem o seu José Dias: O agregado Antunes. Escrevente, ele foi homem de confiança do falecido desembargador, marido de D. Valéria. É mestre na palavra. Como o Fígaro de Baumarchais, é o factorum da casa; dá recados, confidente em situações sentimentais, ajuda nas compras de casa, ceia com os familiares (exceto quanto há visitantes) e é apreciador de charutos alheios. Sua filha Estela é ajudante da viúva do desembargador, e ele sonha com o dia que ela se case com o filho de D. Valéria (no entanto, para a tristeza dele, o rapaz não é correspondido e sequer a matrona cogita que seu único filho case-se com uma moça “de baixo” como ela, e faz de tudo para afastá-los). Consola-se freqüentando o Tribunal, tem comportamento sabujamente subalterno, mas convive com os grandes, e detesta os de sua extração.

Jorge corteja a moça. A mãe dele resolve comissionar Luís Garcia (contínuo do Caixa, provavelmente indicado pelo falecido desembargador) para que o rapaz a esqueça. No fim, ele é rejeitado por ela, a mãe o manda para a Guerra do Paraguai e ele heroicamente alista-se. Quando retorna, tempos depois, descobre perplexo que nesse meio tempo, D. Valéria costurou o casório entre os dois “favorecidos”, Estela e Luís Garcia.

Schwartz, ao falar do livro em Ao Vencedor as Batatas (1988), salienta que ele é ao mesmo tempo síntese do que machado propunha nos primeiros romances (Ressureição, A Mão e a Luva e Helena) porém sistematizando a ciranda do favor, livre de recursos romanescos, como ocorrera antes. Para ele, a ideologia desta obra os limites que vigoravam nos livros anteriores. “Esta é a versão negativa da vantagem, enquanto ausência de desvantagem. Entretanto, na ausência daqueles limites, novos aspectos da matéria assumirão a função formal, e o resultado é a realidade melhor “observada”, isto é, melhor recriada (p.119).

De forma arbitrária, Valéria acena para o casamento entre Estela e Luís, que seria vantajoso para ambos, e para a filha daquele, Iaiá, que ganhará um dote. Ela gosta dela pelo que ele não tem a dar, isto é, um idílio. O que importa, segundo Schwartz, é o acordo: dado que a fortuna e as distinções sociais estão na dependência do favor, e portanto das quimeras da gente rica, o melhor é abafar as esperanças e ambições (p.125).

Ou seja, como bem observa Schwartz, a “humilhação” não reside propriamente nas relações de favor, mas nas ilusões que a acompanham: um regime onde quem busca algum tipo de distinção, reconhecimento ou ascensão é tido como “desfrutável”. Essa, poderíamos dizer, é a hibris do favorecido. À ele não é permitido mais do que lhe cabe.

Caso notório é o de Capitu. Uma moça pobre, filha de um favorecido de D. Glória, que aspira a ascensão social casando-se com o filho desta, Bentinho. O corolário, no entanto, para ela, é funesto. Ao contrário da heroína de Dom Casmurro, Estela não tem ilusões ao que concerne à sua situação inferior. Resignada, não cede aos arroubos do filho de D. Valéria. Da mesma forma, a situação inferior em que ela e Luís Garcia se encontram não significam situação limite com que faça com que eles busquem revoltar-se.

Ao mesmo tempo, a resolução de D. Valéria em afastar de seu filho o desejo de casar-se com Estela, o que romanticamente parece um anticlímax logo na largada do livro, demostra, na figura de Estela, justamente a sua fortaleza como personagem. O fato consuma-se quando, entre duas “xícaras de chá”, Jorge, já de volta da Guerra, demonstra interesse na filha adotada de Estela (à essa altura, já unida à Luís, por obra e graça da mãe dele, a protetora de ambos), Iaiá.

Roberto Schwartz salienta que, com isso, o leitor tem ideia da crueza com que o autor visa, ao relatar as humilhações próprias ao paternalismo. E terá noção do grau de arbitrariedade a que se vê entregue o dependente, sobretudo se for mulher (1988, p.130). Enfim, se a vida de Jorge é a de uma “evolução sentimental”, a de Estela, a agregada, é o “leque de acidentes que lhe reserva o amor de um moço rico” (idem, ibidem). De forma anti-romântica, continua o ensaísta, a distância social prevalece contra o amor, mas isso por convicção da própria valia, e não por tradicionalismo.

No campo opressivo que é dela, a personagem experimenta uma obediência sem baixeza, salienta Schwartz, que corresponde aos obséquios “frios de Luís Garcia”. O que realmente a constrangia era a corte de Jorge. Ao contrário de Capitu, podemos observar aqui, se o amor de um jovem rico pode suprimir as distâncias sociais, para Estela isso não o valoriza.

Ao contrário, apenas alimenta esperanças indignas — no caso de Dom Casmurro, após a morte de Escobar, quando o prédio emocional de Bentinho ruiu, todo o seu ódio foi catalizado contra a mulher que, com “olhos de cigana dissimulada”, usurpou um lugar que não lhe deveria pertencer. Logo, para muitos críticos, o “ciúme” de Bentinho passa necessariamente por um corrosivo preconceito de classe.

Estela, ao contrário de Capitu, não tinha nem ambições nem esperanças com relação a esse consórcio, ou perfazer o folhetinesco fait-divers de um casamento ultra-romântico, como “O princeso e a plebéia”. Diferentemente de uma trágica Desdêmona de Dom Casmurro, a resignada personagem de iaiá Garcia sabe qual é o limite de sua hibris.

Ao mesmo tempo, assevera o autor, tanto a dignidade de Luís quanto de Estela se constrói como resposta à arbitrariedade de seus protetores, e especialmente a seu aspecto mais veleitário, que é onde se concentra o caráter pessoal e degradante da subordinação (p.131). A solução da heroína consiste em dividir-se em duas: dá ao paternalismo o que é dele, mas lhe recusa o amor (p.132).

Ou seja, no fim das contas, a melhor solução é conservadora: o imobilismo. Quer dizer, é melhor que, numa situação como esta, cada um saiba qual é o seu lugar. Não porque a diferença social seja justa ou a tradição explique, diz Schwartz, mas porque os mediadores do movimento, o obséquio e o desejo de subir, são, segundo o ensaísta, ainda fatores mais degradantes (idem, ibidem).

Ele salienta que, a despeito do fato de que os agregados saibam que sua consciência de situação seja aguda, isso não se transforma em consciência de classe. “Nesta linha”, diz o autor, no entanto, “a dívida de gratidão parece pesar mais do que a inferioridade social.

A ideologia de classe que Machado de Assis nos passa ao falar desses personagens agregados é a de que todos movem-se sob o signo da racionalidade, ou melhor, de uma racionalidade particular. Essa razão consiste em não investir a esperança nas fantasias de seus protetores, nem nas próprias: é uma ideologia de desencanto e resignação. Eles não vivem a salvo do jugo e da prepotência, mas ficam a salvo da dependência interior. E, de certa forma, como também irá demonstrar Machado, essa diferença de classe conta com a cumplicidade do dependente com sua situação — como é o caso de Antunes, pai de Estela.

Agregado de um conselheiro de Império, ele jacta-se de sua condição (como a do mordomo de Brás Cubas, que sempre aparecia à janela para mostrar onde ele servia). Ele internalizou esse processo. A diferença, em Iaiá Garcia, está justamente na figura de Estela se comparada com a de seu pai: ela não irá elaborar sua condição desta forma e, no fim, buscará uma solução capitalista, ainda que à margem do capitalismo: virar professora no interior de São Paulo. Ela tem o seu foro íntimo, salienta Schwartz, e não são as preferências de sua protetora que definem as suas demandas (p.138).

Jorge, por sua vez, é um tipo exemplar. Filho abastado de mãe rica, tem como horizonte intelectual Recife ou Coimbra, desposar a filha de algum senador (enquanto corteja moças pobres, como fará Brás Cubas, que “nasce” aqui) e assim engrenar carreira política na Corte. Vivia vida mundana, desocupado “como convém à ordem escravista”, agora, diz o ensaísta, com especial destaque para a combinação de autoridade e responsabilidade (p.140).

Se traçarmos um paralelo com um Dickens, por exemplo, Jorge, o jovem abastado brasileiro, é o anti-David Copperfield. Não trabalha, não começou do nada, não tem nada do que orgulhar-se. Estela e Luís Garcia, num país onde não poderiam ser força produtiva, como muitos, vivem às custas da idle class da Corte, algo idiverso da realidade da Inglaterra vitoriana. Diz Schwartz: quando encontrava uma solução possível para o realismo brasileiro, Machado abandonava a fórmula consagrada do realismo europeu e com ela o domínio da racionalidade convencional (p.141).

Enquanto envereda por uma forma peculiar de realismo — na periferia do Capitalismo, como diria o ensaísta, Machado, em Iaiá Garcia, elabora um enredo cuja descontinuidade e senso difuso transcenda e até frustre o que seria o projeto de um romance para moças.

O argumento de Schwartz é curioso se pensarmos que, antes de a fortuna crítica do escritor fluminense separar de forma simplista as duas fases do autor de “Esaú e Jacó” em romântica e realista, seus primeiros quatro romances contenham elementos onde o conflito de classes entre proprietários e agregados seja tão recorrente.

Contudo, como diz o autor, o que era ensaiado no começo ganha cores mais fortes em Iaiá Garcia, onde o conflito em si ganha estatuto de tese e se presta menos à mecânica da fabulação em si, como em Helena, por exemplo. Como entende o autor, a supressão metódica do movimento romanesco é fruto de observação local e é um avanço realista de Machado, que no entanto o aproxima da autocrítica formal característica da literatura de vanguarda, em que se explicitam pressupostos gerais da ordem burguesa. Um exemplo mais da convergência entre atraso social e formas artísticas avançadas (p.144).


4. Conclusões

Segundo análise de Roberto Schwartz, como extrato de tese, nestes romances “românticos”, Machado esboçava uma combinatória entre as posições sociais enquanto realidade prática e o campo social enquanto valor imaginário, combinatória cuja regra são as compensações simbólicas (1988, p.134). Dessa forma, a desigualdade social não se demonstra como antagonismo mas de coesão (e ou complementação), porquanto essa duplicação imaginária dispõe aos favorecidos os fumos de ‘superioridade’ que são, com efeito, os elementos que ele necessita.

Porém, no caso de Estela, a sua trajetória não é na resolução da própria situação dentro do sistema. Sufocada pela relação familiar desgastada, sua solução heroica (ou deus-ex-machina à Machado) é o trabalho assalariado, já historicamente nos estertores do Império (muito embora ele não faça menção à palavra “salário”).

O trabalho, observa o autor, se insurge como alternativa ao paternalismo — no entanto, o trabalho livre, mas livre da Corte. Luís Garcia, que era funcionário público, ainda estava preso às malhas da ciranda do favor. Para ele, a ideologia de Luís Garcia e Estela, é antes civilizatória do que crítica.

Mas, nessa mesma ideologia, assevera o ensaísta, o mérito intelectual e moral em Iaiá Garcia reside justamente nos dependentes (p.134). No entanto, se o começo do livro parece prometer um enfrentamento de classes, essa promessa não se cumpre. Se a contradição ideológica é central no começo, posteriormente ela passa ao largo do romance: a mola dos acontecimentos estava nos desmandos de Dona Valéria (como ocorrerá em Dom Casmurro com Dona Glória) e não nos antagonismos ou questiúnculas de direito.

E aqui, para ele, Machado de Assis ainda analisa o arbitrário paternalista na perspectiva dos dependentes ou, por outra, na ‘neutralidade’ do narrador em terceira pessoa, ele acaba expondo o problema pela ótica do mais fraco. Nos seus romances realistas, a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), ele passa a expor essa mesma situação, contudo, na ótica dos donos do poder, usando a licença poética do memorialismo para encarar o arbitrário com a intimidade de quem se confessa praticante, e já não tem o que temer (p. 161).

Em Iaiá Garcia, a nota histórica pode ser uma espécie de ensaio de aprendizado de classe, que se liga a uma dualidade de funções que é uma condição sem volta. O chefe da camorra também é proprietário, para quem essa ordem de obrigações, como diz o autor, é relativa.

A dinâmica do envolvimento paternalista, segundo ele, mostra ser apenas metade da situação, cujo outro aspecto, ditado pela propriedade, pertence a uma órbita diversa, à qual as razões do dependente não dizem nada, e a que este, além disso, não tem acesso independente, o que consubstancia a fratura social (p.269).

É a partir de Memórias Póstumas que essas contradições viram a forma da nova literatura de Machado. Após fazer a crônica do anacronismo social brasileiro, é a partir da versão do proprietário à brasileira, europeizado e caboclo, cordial à brasileira e liberal à moda européia, filho do iluminismo e escravocrata na terra da palmeira, ele se torna o molde da nova prosa.

Brás Cubas, em suas memórias, é como se fosse o Jorge de Iaiá Garcia, porém ao expressionistamente ao contrário, passando sua vida em retrospectiva, e sem medo de contar suas pusilaminidades. Vende a imagem de um Sterne mas é na verdade um farsante e mostra, sem puder nenhum, a forma como deu cabo de sua vida, tanto exaltando um adultério como mote romântico e suas torpezas, gloriosas frustrações e relações com mulheres ao longo da vida — uma vida inútil, perdida, mas defendida galhardamente até rir do leitor ao gabar-se de não deixar descendência num mundo onde tudo irá para debaixo da terra.

Já a Capitu de Dom Casmurro, também personagem de um livro de memórias (ou seja, Machado abdica da neutralidade do narrador moralista (e ligado á causa dos dependentes) e comportado para mergulhar na mente doentia do proprietário), é Estela ao contrário: ao invés de resignar-se ao limite de sua situação de classe, ela dobra a tudo e a todos em busca de ascensão social. Quando Bentinho tem essa epifania, acusa a esposa de adultério, sendo juiz e advogado de acusação.

Nos dois casos, é como se tivéssemos o mesmo horizonte social do patriarcalismo e do favor, porém, aqui ocorre o que Schwartz entende como “viraviolta”, ou seja, quando Machado sai da ótica do mais fraco para mostrar, num retrato sem retoques, a visão distorcida do Brasil pela visão dos de cima.

Essa é, por último, a grande perplexidade da Comédia Humana de ponta-cabeça nessa viravolta machadiana: livre, o narrador, dono de seus meios e principalmente da tradição, vai reiterar em pensamentos e em conduta os atrasos de nossa formação social, em vez de se superar (2012, p.275). Antes, a simpatia do escritor ia para a heroína injustiçada, e que fazia jus ao formato de folhetim. Do lado dos opressores proprietários, era preciso caracterizar o lado negativo destes. Pois foi por meio dessa progressão lógica livro a livro que, de acordo com Schwartz, deu-se a fórmula que iria caracterizar a obra de Machado e fazer dele um grande escritor.



Referências Bibliográficas


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HOLANDA, Sérgio Buarque de. Prefácio. Jeanne Berrance de Castro - A Milícia Cidadã. 2º edição, São Paulo, Nacional, 1979.
................................................ Do Império à República. In: História da Civilização Brasileira, 4º ed, São Paulo, Difel, 1985, Tomo II. Volume IV.

SCHWARTZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas. Duas Cidades, 1988.

………………………. Martinha versus Lucrécia – ensaios e entrevistas. Companhia das Letras, 2012.