Thursday, October 10, 2013

Contracapa para Verdi


O compositor na época de Rigoletto



Certa vez, Giuseppe Verdi disse que a posteridade iria esquecer sua obra. Para o compositor, no máximo, iriam lembrar-se de algum coral, de alguma ária ou algum trecho orquestral.

Em parte ele tinha razão: dezenas de peças de sua autoria vivem na memória musical de todo mundo até hoje, mesmo que a maioria dos ouvintes sequer aprecie o canto lírico. Um exemplo é a ária "La Donna É Mobile", da ópera Rigoletto, que foi popularizada pelos maiores tenores do século passado e, volta e meia, é usado pela publicidade em geral.

Pois a maioria das pessoas que conhece essa ária hoje certamente não conhece a sua história e muito menos o que representou Verdi para a política e a cultura italiana no século XIX.

Apesar de ser herói nacional italiano hoje, quando o teatro La Fenice encomendou-lhe uma nova ópera, no começo de 1850, Verdi era um artista jovem de uma Itália que ainda não existia: estava repartida em vários estados, muitos deles subjulgados à estados estrangeiros. Essa situação adversa fez com que o sentimento irredentista aflorase.

Naquele tempo, Veneza sofria censura dos austríacos que, por conta do Congresso de Viena, dominavam Vêneto e a Lombardia desde 1815). Alguns movimentos revolucionários se insurgiam contra o Império, mas a filosofia política do Ressorgimento ainda engatinhava.

Por conta disso, toda a produção cultural das regiões dominadas pela Áustria passavam pela censura do Império. Mesmo que a Itália ainda fosse uma colcha de retalhos, essa produção cultural unia os seus povos pela literatura: livros, peças, tudo ganhava conotação política.

Na música, isso não seria diferente: quando Verdi compôs Nabucco, em 1842, a situação adversa do hebreus diante do cativeiro babilônico era, na verdade, uma mensagem cifrada; uma metáfora do domínio estrangeiro na península. Com o tempo, os censores austríacos passaram a fiscalizar toda a produção cultural dos estados subjulgados.


Ora, quando Verdi escolheu O Rei se Diverte, de Victor, Hugo para transformá-la em argumento para a sua mais novo ópera, ele sabia que a peça tinha todos os ingredientes para desagradar tanto a igreja quanto aos governantes austríacos, que dominavam a cidade naquele tempo.

A peça, que foi censurada na França) era um retrato sem retoques de uma corte falida, viciada, corrompida, cortesãs dissolutas e nobres pervertidos. No centro, havia Treboulet, um bobo-da-corte amoral que ridicularizava a tudo e a todos, e era mais feio por dentro que por fora. Semeia vento, aponta gente inocente para enganar, esposas para roubar. No fim, ele seria vítima do próprio veneno que inoculava.

Para driblar a censura, Verdi confiou o libreto (o texto da ópera) para Francesco Piave, que tirou o "rei" da peça, cujo tempo foi recuado para o século XVI. Francisco I da história original virou o Duque de Mântua, e Treboulet se tornou Rigoletto. Piave havia dado à ópera o nome de La Maledizione, mas Verdi demoveu seu libretista desse título: a Igreja iria proibir qualquer nome que fizesse menções à superstições e sortilégios.

Experiente, sabendo da encrenca que poderia se meter com um argumento explosivo, Verdi primeiro sublimou tudo o que escandalizara crítica e público em Victor Hugo. Num segundo momento, passou a trabalhar a música de forma a pôr as partes vocais em primeiro plano.

Hoje isso passa batido, mas o compositor queria fazer literatura de rés do chão, muito antes do realismo de Puccini e Leoncavalo: um realista antes do realismo. Afinal, a Itália dividida da época exigia algo além de idealizações e de mitologias. Ao mesmo tempo, queria fazer arte vocal, de gosto popular, ou seja, fazer concessões ao público naquilo que deveria ser acessível: nada de wagnerianismos. "Ópera é ópera", escreveu, certa feita.

Já para os momentos sombrios da história, Verdi colocava música alegre e ligeira. Aliás, fez isso o tempo todo, como se travestisse uma ópera-bufa (gênero que ele se debruçara apenas duas vezes em toda a sua careira) em fumos de tragédia.

Rigoletto estreou na Quaresma de 1851, no dia 11 de março da quele ano. "La Donna È Mobile", onde o Duque zomba do lado volúvel da alma feminina, ganhou ares de canção popular. De quebra, se tornaria o primeiro sucesso mundial de Verdi.

Se formos pensar nesse lado, Verdi tinha razão e sabia o porquê: suas árias, e isso ele aprendeu com Rossini, precisavam conquistar o coração do público. Mas, por outra, em parte, ele errou feio; mesmo depois de 200 anos de seu nascimento, em 10 de outubro de 1813, em Busseto, Itália, praticamente todas as suas ópera s estão no repertório das grandes orquestras em todo o planeta.

Sunday, October 06, 2013

Leco Alves - Os Anjos Dizem Amém (1999)


O Leco Alves era meu primo. Sempre fomos muitos ligados, até porque a diferença de idade era de um pouco mais de um ano. Nos criamos em uma família muito musical, na qual um tio-avô, o Lelo (Telêmaco Machado), era um boêmio inveterado. Lelo passeava de bar em bar na noite porto-alegrense com sua viola a tiracolo. Em família, os tios Dinho (Carlos Alfredo), Cabeça (Renato) e Banana (José Roberto) sempre tocavam músicas em seu violão. As tias Neiva e Noedi eram as principais cantoras, mas todos cantavam e participavam fazendo percussão de alguma forma, fosse na geladeira, numa panela ou até mesmo transformando uma garrafa de Fanta em reco-reco. Foi nesse meio que o Leco aprendeu a gostar de música, assim como eu, mas foi quando ele entrou para o CLJ (Curso de Liderança Juvenil), na Igreja Sagrada Família, é que ele resolveu aprender a tocar violão.



No início, o Leco parecia o Juca Chaves cantando, com uma voz miúda e um tanto tímido. Mas as "apresentações" na igreja, durante a missa, foram liberando o Leco das travas musicais. Fez cursos de canto e em determinado dia decidiu que seria músico. Sempre teve o apoio da família, principalmente dos pais, Neíta e Adair, seu primeiro público. Aos poucos, nas reuniões de família, desbancou os tios e acabou incentivando que outros primos tocassem violão. 


De uma hora para outra, Leco começou a cantar em bares, fazer apresentações em teatros, tocar nas rádios e, quando se deu conta, Porto Alegre ficou pequena para seu talento crescente. O Rio de Janeiro foi a cidade escolhida por ele para alcançar a fama. Ao chegar à Cidade Maravilhosa foi logo comparado a Nei Matogrosso pelo seu timbre de voz, repertório e até por seus trejeitos no palco. Mas quis o destino que ele não completasse a trilha que tinha planejado. Em uma tempestade de verão que assolou o Rio em Janeiro de 1998, Leco faleceu quando uma árvore caiu sobre o orelhão onde telefonava para avisar que chegaria tarde ao show marcado em Niterói, já que as barcas não estavam funcionando por causa da tormenta. Abaixo, segue um resumo da carreira, que retirei do Blog do Gringgo.


DISCO 1
01. Eu e meu violão (Leco Alves)
02. Os anjos dizem amém (Leco Alves)
03. Você passou (Leco Alves)
04. Coração com muros / Quién fuera (Silvio Rodrigues, versão: Leco Alves)
05. Beaucoup plus (Leco Alves, versão: Crika Amorim)
06. The best (Leco Alves)
07. Tudo em "p" (Jorge Nóbrega e Ângelo Delatre)
08. Sou Rio (Leco Alves)
09. Um gato (Adriana Calcanhoto)
10. Platinum blonde (Jussi Campello)
11. Objeto baby (Eduardo Dusek)
12. Sem camisa (Eduardo Dusek e Luis Carlos Góes)
13. Gás lacrimogênio (Cláudio Goldmann)
14. Serventês (Arthur de Faria, Peire Cardenal e Augusto de Campos), com Cida Moreira
15. Balada por Monk (Antonio Villeroy)
16. Frevo mulher (Zé Ramalho)


DISCO 2
01. Pacto (Leco Alves)
02. Copacabana (Jusi Campello)
03. De frente pro mar (Leco Alves)
04. Saudades de mim (Leco Alves)
05. Feito um picolé no sol (Nico Nicolayewsky)
06. O vento do desejo (Leco Alves)
07. Os dias (Leco Alves)
08. Delicadinho (Leco Alves)
09. Menino Deus (Caetano Veloso)
10. Máscara (Leco Alves), com Ju Cassou
11. Quando eu me apaixonar (Leco Alves)
12. Quando você não me procura (Leco Alves e João Pinheiro), com Ju Cassou
13. Façamos amor também (Cole Porter, versão: Carlos Renó), com Ju Cassou
14. O último dia (Celso Fonseca e Billy Brandão)



Convidadas: Cida Moreira e Ju Cassou
Participações: Marcelo Delacroix, Frank Solari, Simone Rasslan, Giovanni Berti, Rogério Piva, Arthur de Faria e Nico Nicolayewsky.

Compositor. Cantor. Instrumentista. Dono de um raro registro vocal de contratenor, iniciou sua carreira artística em 1986, cantando no bar Opinião (Porto Alegre, RS). No ano seguinte, apresentou-se no Teatro Mágico e no Orange Bar (Porto Alegre, RS). Ainda em 1987, apresentou-se, como convidado de Adriana Calcanhoto, Muni e Luciana Costa, no show "Enquanto seu lobo não vem", na reabertura do bar Porto de Elis (Porto Alegre, RS). Em 1989, realizou o show "Porque o sol dava nos trilhos", no Teatro de Câmara de Porto Alegre, que o colocou entre as Revelações do Ano. Apresentou, também no bar Porto de Elis, o show voz e violão "Alguém cantando". Em 1990, realizou, também no Porto de Elis, o show "Caetanear o que há de bom", interpretando músicas de Caetano Veloso. Apresentou-se, ainda, com "Primavera de pragas" no Teatro de Câmara de Porto Alegre, além de ter atuado nos projetos "Encontros insólitos" e "Compor canta Porto Alegre". Em 1992, foi contemplado na categoria de Melhor Cantor com o Prêmio Açorianos de Música, espécie de Prêmio Sharp gaúcho, conferido pela Secretaria Municipal da Cultura da Prefeitura de Porto Alegre, por seu show "Paixões a granel", realizado no Teatro Renascença, em que interpretou canções de cabaré. Ainda nesse ano, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde apresentou seu show "Passos de ilusão", realizado na casa noturna People, marcando sua estréia na cidade. Nessa época, começou sua carreira de compositor. Em 1993, esteve em Porto Alegre participando do projeto "Fim de tarde", realizado na Sala Radamés Gnatalli, do Auditório Araújo Vianna, além de apresentar-se no Publicitá Café. De volta ao Rio de Janeiro, continuou seu circuito de shows em casas noturnas como Mistura Fina, Le Streghe e Au Bar (RJ), entre outras, tendo voltado a Porto Alegre, em 1995, para apresentar o show "Dez punhais". Engajado em movimentos contra a discriminação dos portadores do vírus da Aids, atuava com sua música em eventos promovidos por entidades que lutam contra a doença. Faleceu em 1998, pouco antes de completar 32 anos de idade, vítima de um acidente provocado pela queda de uma árvore que desabou sobre ele em um dia de temporal no Rio de Janeiro, quando se dirigia para uma apresentação no Bay Market, em Niterói (RJ). Em 1999, ocorreu o lançamento póstumo de seu CD duplo "Os anjos dizem amém", trabalho que reuniu músicas próprias e de outros compositores, gravadas em estúdios de Porto Alegre e do Rio de Janeiro, assim como gravações ao vivo de shows realizados em casas de espetáculos cariocas. O lançamento do disco foi realizado na Casa de Cultura Laura Alvim (RJ).

Monday, August 26, 2013

Retrato Sem Retoque


Bob Dylan


Menos de um ano do lançamento de Tempest, a Sony põe no mercado o título mais recente da série Bootleg Series do Bob Dylan. Another Self Portrait é o quadragésimo-quinto álbum de carreira do compositor norte-americano e, como o próprio nome diz, é um apanhado de sobras de estúdio gravadas entre 1969 e 1971 - um dos períodos mais prolíficos em matéria de produção musical do autor de Blowin' in The Wind.

Na verdade, é de se pensar que, compreendendo a proximidade das sessões de gravação de Nashville Skyline, New Morning e a de setembro de 1971, com Happy Traum, a fim de gravar o lado 4 do Greatest Hits 2, tudo parece fazer parte de um mesmo contexto. Dylan gravou dezenas de canções, segundo ele, para compensar o fato de que muitos achavam-no descansado demais depois do acidente de moto que interrompeu sua carreira nos palcos, em 1966.

Tirando a sessão de 71, todo o resto foi produzido por Bob Johnston, o sujeito que melhor soube traduzir o que o compositor tinha em mente quando ele entrava em estúdio. Isso desde quando, contra a determinação de Al Grossman, ele levou Dylan para gravar com músicos de Nashvile para deslanchar o Blonde on Blonde. A partir dali, nasceram o John Wesley Harding e o Nashville Skyline.

Deste último, havia sobrado muito material - incluindo o encontro de Bob com Johnny Cash que, por sinal, ainda permanece inédito oficialmente. No começo de 1970, agora em Nova Iorque, ele grava muita coisa para o que seria o disco New Morning. O material produzido não era satisfatório; contudo, devido à pressão da gravadora (ainda mais por conta do lançamento de discos pirata de tapes do próprio Dylan aparecendo no mercado negro), e dada a quantidade de canções gravadas e mixadas, surgiu a idéia de lançar Self Portrait.

O álbum, que veio à lume em meados de 1970, era um camoniano monstrengo, a começar pela capa - uma pintura feita às pressas pelo próprio Dylan. A concepção era a de um disco conceitual, (ou a paródia de, ou a paródia da paródia de) na tentativa de, a partir das faixas dispostas, emprestar a elas um certo contexto.

Self Portrait dividiu a crítica e o público pela inconsistência e insidioso ecletismo das músicas ou a escolha de covers como Let it Be Me e Blue Moon. Isso embora haja momentos interessantíssimos, como a sua versão para I Forgot You More, das Davis Sisters ou a bela Wigwam.

Dylan partiu em defesa do seu rebento, assim como a CBS, alegando que ele estava sendo crucificado apenas por causa dele. "se fosse os Everly Brothers ou Elvis, haveria bem menos gente chocada com isso", justificou na época.

No fim, New Morning saiu em outubro daquele mesmo ano, e foi mais bem recebido do que seu antecessor. Muitos, aliás, até alegando que esta, sim, estaria dentro da "linha evolutiva" que Dylan vinha pavimentando desde o Highway 61 Revisited. Os detratores acharam que este disco fora lançado para pôr "panos quentes" à bazófia em torno de Self Portrait. Dylan novamente se explicou, alegando que o lançamento de New Morning já estava previamente agendado.

Pois este disco, o Another Self Portrait, é uma espécie de crônica daqueles dias em forma de música. Ele também mostra que havia tanto material gravado quanto alguma certa dificuldade em dar vazão à ele. Comparando e confrontando as sobras do Botleg Series com os respectivos álbuns oficiais da época, é possível chegar a várias conjecturas.
Uma é que o Nashville Skyline poderia ser um disco maior. A outra é que as primeiras sessões do New Morning não foram tão improdutivas como se pensa. E outra é que, como aconteceria em outros momentos na carreira dele, Dylan tinha um coelho na cartola e acabou tirando outro.

Da mesma forma como ele gravou quase que duas vezes o Blood on the Tracks, o New Morning que se insurge no Another Self Portrait se mostra diverso daquele que se conhece. Por exemplo, a versão que ficou de fora de If Dogs Run Free é menos beatnik que a oficial. Time Passes Slowly soa menos improvisada que a original. E algumas faixas, como Alberta, Spanish is the Loving Tongue (ainda mais se comparada com o arranjo habanera do elepê de 73) e Days of 49 ficam melhores em versão stripped, isto é, sem uma banda inteira junto.

Como se pode acompanhar desde o primeiro Bootge Series, muita coisa muito boa ficou de fora daqueles discos, como uma ótima gravação de Only a Hobo (da sessão de 71, com Traum no mandolim), Ministrel Boy,outra sobra dos mitológicos Basement Tapes e Thristy Boots e These Hands, entre outros. Vendo a quantidade de material excelente e o que foi lançado no Self Portrait, é certo que era possível, na época, produzir algo mais "consistente" no lugar do disco duplo de 1970.

Claro que essa é apenas uma teoria, mas a impressão que fica é que o material apócrifo tinha uma linguagem mais próxima do Dylan convencional. No momento de selecionar as canções, ele fez a sua escolha. Em muitos casos é claro que foi na mosca, como em If Not For You - cuja versão do Another não se compara ao arranjo comercial da que todos conhecem.

Tudo isso sem contar com a apresentação completa de Bob Dylan com a The Band na Ilha de Wight, em 31 de agosto de 1969. Outra material que, não se sabe o porquê, levou tanto tempo para aparecer em formato oficial> O show, que dura pouco mais de uma hora, tem momentos muito bons, como ele ao violão entoando Wild Mountain Theme, uma versão adorável de I'll Be Your Baby Tonight e Minstrel Boy com a The Band, dando uma vaga idéia do que foi a alquimia musical em Woodstock, naquela casa cor-de-rosa...


Bob Dylan - The Bootleg Series Vol. 10 – Another Self Portrait (1969–1971)
Lançamento Columbia Sony

Saturday, June 08, 2013

Trinta Anos Esta Noite


O compacto


Primeiro compacto que eu comprei na vida não era de alguma grande banda de classic rock. Foi o do Ritche, tinha Menina Veneno e Voo de Coração - há exatos 30 anos.

O curioso nisso tudo é que ele se tornou rapidamente um sucesso gigantesco de vendas, bem no começo do BRock, mas que teve uma carreira mainstream meio efêmera.

Lembro de ter o disco nas minhas coisas por muito tempo e confesso dizer que eu passei a nutrir um insidioso desprezo por ele. Posso até dizer que eu tinha vergonha de possuir o álbum e, certa feita, não pensei duas vezes quando uma tia me pediu emprestado: "não precisa devolver!", foi o que eu disse.

Nunca fui nostálgico - pelo menos com relação ao rock brasileiro produzido na década de 80.
Por isso, não sei explicar por que motivos eu passei a, em plena era digital, passei a coletar material sobre aquelas bandas (algumas, com efeito, naturalmente continuam na ativa) e, de repente, me despertou o interesse pelo tal disco do Ritchie, mas por uma razão curiosa: sempre entendi que a veneração ao cantor inglês (da terra do Frampton, diga-se d epassagem) radicalizado no Brasil, a partir de 1972, tinha a ver com um perfil de cantor ´pop brasileiro que eu chamaria insdicriminadamente de brega.

Na verdade, sempre entendi o Ritche do Voo de Coração como algo vinculado àquilo que passava nas tardes de sábado no Chacrinha. Era uma veneração de macacas de auditório. Não parecia que existia uma ligação entre ele e o rock que foi produzido naquela época (1983).

Eu, por essas estranhas associações, o entendia como um Carlos Alexandre com um visual moderno e look de artista estrangeiro. Mas, na verdade, nada daquilo me enganava.



Mesmo assim eu assumo que era fã do Ritchie. Não tinha como não ser, pelo menos naquele tempo. Ele pôs todo o disco nas paradas. Clipes e programas sobre ele eram produzidos na TV. Depois do compacto, que eu ganhei no meio do ano, finalmente pus as garras no disco.

Olhando em retrospectiva, hoje, eu noto que minha associação dele com o intérprete de Feiticeira era um tanto exagerada. Mas não há como culpar ninguém; todos eram reféns da produção comercial dos barões da indústria cultural dos anos 80. E, de fato, Ritchie era roqueiro progressivo, com carreira de músico em bandas como o Vímana, que ninguém ouviu (e nem o faz hoje, mesmo com o advento da Internet). Eu não conhecia a trajetória do cara por detrás de uma canção como Menina Veneno.

O curioso é que o primeiro disco dele pode ser incluído na história do rock brasileiro. A começar pela produção e os músicos de estúdio: Mayrton Bahia, Liminha (que ele conheceu com os Mutantes, ainda em Londres), Lobão, Zé Luiz (da Blitz) e Steve Hackett.
A história da produção do primeiro álbum é curiosa. Com essa turma, ele havia gravado uma demo na Warner, que foi parar nas mãos de um executivo da CBS, que queria alguém para concorrer com a já supracitada Blitz. O conteúdo entusiasmou os produtores da gravadora.

O primeiro compacto do disco saiu em fevereiro de 1983. Estourou primeiro no Nordeste, com alguma divulgação, No entanto, para o lançamento do disco, em junho, foi realizada uma campanha publicitária em torno de "A Vida tem Dessas Coisas". Em pouco tempo, o álbum de estréia do ex-Vímana atingia a marca de 700 mil cópias vendidas.

E, de fato, todas as músicas eram legais. De Casanova (que teve clipe produzido pelo Fantástico), Voo de Coração, Casanova, Menina Veneno e Pelo Interfone e Tudo Que Quero, que tem uma melodia genial. E eu sempre viajava quando ele falava, em Voo de Coração, "escrevendo memórias num velho computador", numa época em que os microcomputadores tinham uma tecnologia de cauculadora de bolso Dismac, movida à vela. Se computador de mesa era ainda um luxo, imagine um "velho computador"...

Durante pelo um ano, não s falava em outra coisa a não ser em Ritchie.

Nem o maior cantor da CBS, Roberto Carlos. Sobre isso, Arthur Dapieve conta uma história - espalhada por Tim Maia, de que o cantor foi defenestrado do selo pelo compositor de Detalhes. Em 1983, Roberto vendeu muito menos do que Ritchie que, ainda por cima, amealhou o Troféu Imprensa de melhor cantor do ano. Lembrando que quem sempre ganhava esse prêmio era Roberto Carlos.

Não se sabe a história real, mas a verdade é que o furacão em torno de Ritchie não chegou no segundo disco. Talvez por conta do fato de que era quase impossível superar a marca atingida com o disco de estréia. Ou quem sabe por causa da superexposição do artista. Fato é que, de A Vida Continua em diante, que vendeu pouco mais de 100 mil cópias, nada foi como antes.
Se sentindo abandonado pela CBS, ele pediu a rescisão do contrato com o selo, que ainda previa a gravação de mais um bolachão. No entanto, a gravadora não se importou com o prejuízo. Isso fez com que muitos passassem a acreditar na lenda da puxada de tapete do Rei em Ritchie.



O cantor inglês seguiu a carreira, embora eu já não a acompanhasse. Como eu disse antes, a pecha de cantor das empregadas high-tech engessou a imagem de Ritchie. Suas músicas tocavam em rádios populares, embora ele mesmo fosse capaz de encher o Canecão em três noites seguidas, como o fez.

Creio que o tempo cuidou de assentar as coisas. Mesmo sem a visibilidade de antes, conhecendo o contexto histórico de sua carreira como músico, é possível notar que ele tem uma ligação com o rock e suas vertentes ao longo do tempo. Ou seja, mesmo que estereotipado, Ritchie não virou um Carlos Alexandre. E seu primeiro disco, Voo de Coração trinta anos depois, pode ser considerado um clássico do rock brasileiro.

Até acho vou pedir meu disco do Ritchie de volta para a minha tia.

Vargas e a Gravata Colorada


Getúlio Vargas

O amigo leitor sabe o que é a gravata colorada? Para quem não conhece o termo gauchesco, é como se chamava a degola por aqui, mais ou menos nos tempos da Revolução Federalista, de 1893.

No levante farroupilha houve degolas, mas na Federalista, esse terrível expediente foi largamente utilizado. O historiador Décio Freitas diz que ela foi a mais cruenta de todas as guerras civis no continente sul-americano. Os quase três anos de luta deixaram um saldo de 10 mil mortos.

Um episódio foi exemplares: em Hulha Negra´, a vinte quilômetros de Bagé, mais de 300 homens rendidos foram degolados friamente numa mangueira. O chamado Massacre do Boi Preto lançou o mito do coronel maragato Adão Latorre. Com uma adaga de quinze centímetros, ele foi o executor. Entre as vítimas, estavam o oficial chimango Manoel Pedroso - acusado de ter mandado matar a família de Latorre em Bagé, meses antes.

Quatro meses depois, os Legalistas devolveram o banho de sangue, matando, à base de faca 370 maragatos, capturados numa emboscada, em Palmeira das Missões.

A guerra deixou marcas e um rastro de ódio que levou anos para se apagar, e respingou na outra revolução, a de 23, dos maragatos partidários de Assis Brasil, contra os desmandos do chimango Borges de Medeiros.

Na época, vivia se a era dos coronéis provisórios. Sesmeiros em geral, eles controlavam pequenas comunidades e tinham em séquito de centauros à sua disposição que, na maioria das vezes, lutavam por seus chefes políticos respectivamente, que se dividiam filosoficamente entre os governistas e os oposicionistas, ou seja, entre chimangos e maragatos. Era o atavismo de 93.

Na refrega de 23, mesmo em menor escala, a degola ainda campereava pelos pampas. O famoso coronel provisório Vazulmiro Dutra, de Palmeira das Missões, tinha os pés-no-chão sob sua chefia. Chimango, ele sempre foi acusado por assisistas de ser degolador. Ele, por sua vez, não se importava com a pecha que acabou ganhando. Pior: Dutra inclusive gostava de ser chamado como tal.

Pois numa das viagens do então presidente do Brasil, Getúlio Vargas (isso durante o Estado Novo), alguns coronéis e pecuaristas resolveram homenagear o ditador com um grande churrascada no Country Club. Nessas idas e vindas um tanto fisiológicas, uma década depois, o chefete agora fora nomeado delegado regional do Instituto Nacional do Mate.

Por coincidência, o coronel estava ao lado de Vargas na imponente mesa quando trouxeram o espeto com a costela para servir o presidente. Aproveitando a ocasião, Vazulmiro puxou da cintura um facão enorme, oferecendo-se para servi-lo. Getúlio, ao ver de quem se tratava, fitou o coronel com uma cara marota - que entendeu perfeitamente a brincadeira. E respondeu, entre risos gerais:

- Calma dr. Getúlio, essa faca o senhor não precisa se preocupar não foi usada ainda.










Thursday, June 06, 2013

Morte e Vida Gauchesca


Simões Lopes Neto




Uma colega de trabalho me pediu se eu não tinha o Contos Gauchescos, do Simões Lopes Neto, para emprestar ao filho dela. Eu não apenas cedi a obra para ele como ofereci-lhe o meu já calejado exemplar.

Mesmo que o garoto tenha que ler as páginas do autor de Casos do Romualdo porque ele é sugerido para o Vestibular da UFRGS, é incrível encontrar gente nova conhecendo um autor que remanesceu esquecido por vários anos. Não sei se vocês conhecem a história. Pois bem.

Carlos Reverbel era secretário de redação da revista Província de São Pedro. Editada pela Globo, em 1945, ela foi o pontapé inicial no grande projeto intelectual ao jornalista de Quaraí. Grande pesquisador e memorialista, a partir daquele momento, ele decidiu se debruçar diante de um escritor morto e esquecido, como um Bach dos pampas: o pelotense Simões Lopes Neto.

Junto com Erico Verissimo e Henrique Bertaso, eles decidiram republicar os seus Contos Gauchescos, que havia sido lançado originalmente em 1912, e cujos direitos pertenciam à obscura Enchenique de Pelotas. A editora, por sua vez, havia conseguido os tais direitos da viúva de Lopes e por uma quantia ínfima. A Globo comprou os originais, entregando à Maurício Rosenblatt e a Aurélio Buarque de Hollanda de adicionar uma fortuna crítica e um glossário.

A publicação d'Os Contos, que foram antes reeditados numa edição canhestra, em 1928, ficou tão obscura quanto a primeira. Tanto que a maioria dos estudos regionalistas sobre literatura ficavam, em sua maioria, restritos ainda à obra de Alcides Maya. Mais tarde, depois de amplas negociações com a mulher de Lopes, Reverbel conseguiu os originais dos Casos do Romualdo, também editada pela Globo.

No livro Um Certo Henrique Bertaso, Verissimo conta que o editor da Globo teve um belo gesto: devolveu à viúva de Simões os direitos autorais sobre essa edição do "seu ilustre marido".

Falando na Globo, é interessante ver que, justamente naquele momento da redescoberta do autor pelotense em nossas letras, havia um movimento (que não era orquestrado como tal, mas era algo do tipo), como bem observa Flávio Loureiro Chaves no artigo "As Buscas de Reverbel".

Segundo ele, em 1945, além do Província de São Pedro, o Rio Grande viva um momento "de atualização de atualização da vida cultural: Cyro Martins lançara o ciclo narrativo do Gaúcho à Pé, João Pinto da Silva apresentava a primeira visão histórica da literatura gaúcha. "Augusto Meyer abria uma perspectiva transdisciplinar nos ensaios reunidos em Prosa dos Pagos", Darcy Azambuja concluía a coletânea de contos intitulada No Galpão. E, em 1949, a Globo lançava o primeiro volume da trilogia O Tempo e o Vento.

Falando em Erico, é notável perceber o quanto o personagem Fandango, de O Continente, tem sua persona inspirada no vate que cantam as estradas reais dos Contos de Simões Lopes Neto. Blau, como Fandango, parece ser o gaúcho típico que introduz uma forma peciliar de rapsodo dos pampas: à margem dos acontecimentos, mas sempre com uma ponta de sabedoria em seus ditos. Ora ele é quem conta; ora ele é o personagem. Fandango, com seu estilo de gaúcho largado, com o seu saber empírico de homem do campo e figura coadjuvante em o Continente, não existiria sem Blau Nunes.

À guisa de pósfácio, na edição da Globo de 1945 escreveu o esboço de uma biografia, mais tarde laçada em separado em Um Capitão da Guarda Nacional, de 1981. Ali estava o grande gesto de Carlos Reverbel - e da Globo. Numa curiosa incursão editorial, umas das grandes aventuras típicas de Bertaso e Erico no comando da Globo, que se criou a grande glória póstuma do escritor pelotense, num momento histórico no curso de nossa literatura no ramo regionalista, e isso muito antes do achado de Grande Sertão: Veredas.

Tuesday, March 26, 2013

A Guerra de Porto Alegre


O Mapa da cidade


Estava lendo os jornais de hoje e estava agora olhando um conhecido mapa de Porto Alegre dos tempos do Dr. Ross e do Rum Creosotado e é curioso ver que a cidade no croqui tinha como limite sul a Venâncio Aires que ia apenas da Lima e Silva até a João Pessoa, com uma estrada até o arraial do Menino Deus. Ao leste, a capital morria na Indepéndência; o resto, como se sabe, ficava como se fosse uma cidadela intramuros.

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E isso é sintomático: acho que Porto Alegre ainda carrega esse atavismo da cidade que vive à margem do rio, e psicologicamente intramuros (isso sem contar o Muro da Mauá, que rigorosamente nos privou do contato com o Guaíba na região "central". Uso aspas na palavra porque acho que, quanto mais a gente a usa, mais a gente demonstra esse atavismo centralista.

Porto Alegre é o centro e, como se fala em Moinhos de Vento, Bonfim e demais bairros superestimados em tempo de aniversário de Porto ALegre, é a cidade olhando para o Centro. Acho que Porto Alegre e sua gente vive essa doença fértil. É uma cidade neurastênica e sem horizontes. Na verdade eles existem e todos sabem que eles existam, mas as pessoas acham que vêem mas estão olhando para um simulacro.

Imagine que Belém Velho existe como um arraial desde 1830. Agora, imagine o que representava uma viagem do antigo limite da cidade até lá. Digo isso porque, dia desses, a gente estava entrevistando uma senhora que tem um cabelereiro lá na Estrada São Francisco e ela soltou o ato falho: "ah, de vez em quando eu vou à Porto Alegre comprar mantimentos para o salão". Estranho que, na Vila 1º de Maio, na Cascata, uma moça falou, esses dias: "bah, aqui choveu horrores. Mas lá em Porto Alegre até estourou aquele cano".

Tava pensando porque ontem eu fiz um trajeto que foi do Centro até o loteamento Timbaúva, no limite de Alvorada. Lá, desde a Baltazar até o fim da Estrada Antônio Severino, é tomado por invasões. Semana passada eu fiz o grajeto de ônibus e levei duas horas. Depois, fomos até o bairro Lageado, na estrada da Extrema, antes descendo por Ipanema, Juca, Edgar Pires de Castro, Restinga, Lami, Estrada da Extrema, depois Costa Gama, Afonso Lourenço Mariante, São Francisco, João de Oliveira Remião, Bento, Ipiranga até o colégio Protásio Alves, onde desci.

No fim a gente rodou Porto Alegre de ponta a ponta. Fora quando fazemos mapeamento cruzado em outras áreas, e conhecemos principalmente vilas e favelas da cidade, como a Nararé, Vila Pinto, Chácara da Fumaça, corremos da polícia e dos bandidos na Maria da Conceição, Vila dos Sargentos e atrás dos morros da cidade. E quem vive no intramuros não sabe, mas Porto Alegre tem muitas favelas, e diga-se de passagem, muita gente mora, vive, nasce e morre nelas, e o Centro é apenas uma abstração que eles vêem na TV.

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Com o tempo, você começa a perder os parâmetros do que é Porto Alegre, que é uma cidade sem fim, acaba convivendo com a gente e com os modos desse pessoal dos arrabaldes. No fim da Estrada das Quirinas, existia um conjunto de chalés, que é a única área urbanizada no entroncamento norte do Lageado, e que é setor de pesquisa. Tirando as casas de beira de estrada (de chão), é tudo chácara. A gente faz pesquisa e volta prá casa com a viatura cheira de frutas, abóbora, losna, ovo de codorna.
Fora que a primeira vez que a gente sai dos limites da "cidade", se sente em outro lugar. Cadê o Santa Teresa, o Morro Santana, o Morro da Embratel? A Restinga é outra cidade. Eu imagino, no futuro (só na minha cabeça),


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Então finalmente aconteceu. Aquele 26 de março não seria como os outros em Porto Alegre. Uma senha deflagrada por um exército nacionalista voluntário decretou a independência da Vila Cruzeiro, tomando o Postão de assalto e fixando uma bandeira na Moab Caldas. A Vila, agora transformada em Comuna, se fixa mantendo limites entre o Santa Teresa e o Alto Teresópolis, abocanhando também o Barra Shopping Sul. Cedo, outros movimentos separatistas latentes eclodiriam por toda Porto Alegre nos meses seguintes. Para evitar a fuga de populares, os cruzeiristas (nçao confundir com os torcedores do clube, que se mudou para Alvorada) ergueram, da noite para o dia, um muro no meio da Moab Caldas, que se chamaria Tronco Mauer (Muro da Tronco), impedindo as obras da Copa.

Em quatro dias, havia uma multidão de repórteres fazendo uma inédita cobertura internacional do que seria conhecido como a Guerra de Porto Alegre. Um processo irredentista sem precedentes na capital dos gaúchos.

Cada região vai procurar a sua respectiva nacionalidade, ou irá se unir de acordo com aspiração nacionalista.
A Restinga vai se independizar, e vai virar o Estado Maior da Restinga. A Pitinga vai ser reivindicada pelo Império Lomba-Pinheirístico, que irá do Beco do David na Agronomia até a Parada 30, e será governada pela Dinastia Remião. A Restinga vai também reivindicar a Pitinha alegando semelhança linguística.

Ao mesmo tempo, o Lami vai se tornar protetorado de Porto Alegre - esta, por sua vez, alegando o espaço vital até Viamão pelos sudetos de Itapuã, muito embora a população local quira a independência, alegando interesses ultramarinos. Porto Alegre vai declarar guerra à Restinga e vencerá, com apoio federal e banho de sangue.
Belém Velho ira se transformar num feudo típico da ALta Idade Média, com elementos de capitalismo e trabalho servil e economia baseada na agricultura: os donos de chácaras serão a nobreza, os servos os camponeses e o claro o pároco a capela do Belém Novo. Também será formada uma guarda medieval municipal, a fim de evitar as invasões bárbaras do Império Lomba-Pinheirístico ao norte e da Iugocavalhada ao leste. O burgo principal será a praça da capela, na Marechal Tito, onde você poderá trocar uma abóbora por uma dúzia de ovos, por exemplo.

Aproveitando o vazio político, a PUCRS vai se independizar também, criando os Estados Pontifícios Maristas. Os estudantes irão fechar a Ipiranga em protesto mas serão duramente massacrados pela Guarda do Irmão Clotet e será instaurado o regime do Terror, com direito as guilhotina no pórtico da Universidade.

Para se ver livres de insurreições, agentes do IBGE e do IPTU do prefeito, bairros de classe média-alta se concentrarão em conjuntos de entidades políticas diversas, porém de interesses mútuos. As maiores irão capitanear as demais como estados-satélite. Um exemplo: a Iugocavalhada, que alinhará Tristeza e Camaquã.

Junto com o Moinhos de Vento, bairros nobres ao noite deste se transformarão num vasto estado imperialista e niilista, resultante das nobrezas aristocráticas de cada um deles, por conta de uma nova Carta, que conterá um resumo jurídico do movimento das nacionalidades-chic, delimitadas no Tratado de Sheraton.

O Moinhos irá anexar a parte alta da Floresta alegando interesse pela fauna e flora do Ricaldone e o Zaffari da Cristóvão e as aulas de culinária da Rosaura Fraga.


Para se auto-sustentar, o Império novo vai criar um sistema rotativo para o governo, para os bairros-estados (Auxiliadora, Mont Serrat, Bela Vista e Boa Vista) não ficarem insatisfeitas, que consistirá na indicação do presidente a cada período ser feito por cada bairro.

Existirão as republiquetas aristocráticas: Petrópolis, a sede administrativa será no Barranco e a Câmara de Vereadores na Caverna do Ratão.

Teresópolis terá a sede administrativa no Tênis Clue e também encampará a Pampa, no Alto Teresópolis (reivindicada por conta de uma suposta unidade bairrística), que se tornaria a rede estatal da nova cidade-estado. Contudo, a anexação da Tristeza por parte de Teresópolis (buscando uma saída para o mar, digo, Guaíba, definindo como como "espaço vital" na figura dos sudetos do Cristal fez com que a Glória (na verdade, uma espécie de Vichy de Teresópolis) decretasse guerra à Tristeza, que duraria por semanas em batalhas de posição até a assinatura de um armistício onde o Cristal permaneceria sob domínio da Tristeza mediante indenização á Glória e a promessa da construção de uma estrada, a Transgloriosa, ligando o Nonoai até a Wenceslau, já que a Faixa Preta também foi tomada pelos cruzeirenses.


Navegantes e o restante da Floresta, como se sabe, fazem parte da Grande São Geraldo, cuja sede será no Gondoleiros. Uma república de terceiro mundo, de características pós suburbanas e com direito a golpes de estado e governos fantoches e o primeiro-mandatário desfilando pela Roosvelt de farda e quepe.

O Partenon, como o nome sugere, vai virar uma cidade-estado um tanto conflagrada e corporativista estilo D'Anuzzio, porém um estado com duas nacionalidades em seu Estatutoi de Autonomia: a Maria Degolada e o Morro da Cruz. A proclamação dos direitos de nacionalidade surgiu com a Renascença Partenônica, que foi o início das reivindicações, dadas as peculiaridades diversas entre São José e a Maria da Conceição, na verdade, bairros dentro do Partenon, sustentado mormente pela suas respectivas economias, baseadas no trabalho corporativo (sem aspas) e do comércio informal.

Leopoldina será reivindicada pela República Popular da Rubem Berta e pelo Município de Alvorada, e o bairro Mário QUintana vai ser uma espécie de Caxemira gaúcha, disputado por ambos, com direito a guerras de guerrilha e muita lavagem étnica.
As reduções suburbanas na Afonso Lourenço depois do Lixão até a Estrada Costa Gama ficarão em disputa entre o Imério Lomba-Pinheirístico e a Cascata. Disputa essa que nunca vai ter fim, pois ela é formada por refugiados do Belém Velho, ou seja, é de todos e de ninguém.

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E Porto Alegre? Vai voltar a ser como era no Império. Pequena e lúgubre como uma aldeia, onde todo mundo se conhece e idealizando uma feira de livros. Vai ficar com só com a Cidade Baixa (até a Venâncio) e, com efeito, vai reerguer seus muros na altura da Santa Casa, tristes e cinzentos como a da Mauá e as linhas de ônibus se limitarão aos circulares. Aliás, a passagem vai subir 50% todo mês mas ninguém vai precisar pagar, já que só os isentos andarão de transporte público. Quem viver, verá.

Friday, March 15, 2013

Necrofilia


Hendrix

O disco People, Hell and Angels, lançamento póstumo de Jimi Hendrix, lançado no último dia 5, subiu ao topo das paradas da Billboard em apenas uma semana. O álbum chegou a segunda posição, chegando a 72 mil cópias. Desempenho excelente para um artista desaparecido há mais de quarenta anos.

O problema reside nessa peculiaridade. Hendrix hoje rende, aos detentores dos direitos sobre o espólio do guitarrista morto em 1970, mais do que rendia ao seu vampiresco empresário, também falecido, Michael Jeffrey. Ou seja, a família do autor de Purple Haze ganha muito mais do que qualquer picareta que se montou nas costas do guitarrista de Seattle em todos os tempos. Isso porque, segundo o ex-produtor do músico, Eddie Kramer, há mais discos na fila a serem lançados pela Legacy, que detém os direitos de comercialização da obra de Jimi.

Hendrix tinha controle e autonomia em tudo o que ele fazia em estúdio. Quando morreu, havia deixado horas e horas de ensaios, esboços e improvisos em tape - desde pré-produção, ensaios aleatórios e sessões de gravação, como a do que seria o seu quarto disco, First Rays of New Rising Sun. Parte disso saiu oficialmente como Cry of Love.

O resto, depois da morte do músico, capitaneado por um produtor, Alan Douglas, saiu espremido em doses homeopáticas em álbuns editados ao longo dos anos 70, em seleções com capas de mau gosto e mixagem idem, a fim de satisfazer à súcia dos seus empedernidos fãs. Os discos saíam como novidade, sem nenhum contexto aparente, como se Hendrix estivesse vivo.

Em 1997, décadas depois que a discografia hendrixiana estava esgotada e fora de catálogo, a família do músico conseguiu pôr as mãos na obra de Jimi para relançamento. Foi quando começou o reembalsamamento do trabalho do guitarrista norte-americano. Embora lançada de forma coerente, em edições críticas e coordenadas pelo próprio Eddie Kramer, a picaretagem continua.

Se formos ver, o material de três dos últimos discos de estúdio lançados em CD, South Saturn Delta, Valleys of Neptune e People Hells And Angels é composto de sobras de estúdio que, musicalmente, não vão a parte nenhuma. Isso sem falar de músicas que aparecem com nomes diversos mas, na primeira audição, nos damos conta de que são as mesmas de sempre.

Para vocês verem: Lullaby for The Summer é Ezy Rider; Crash Landing é Freedom. O outtake de Little Wing é Angel instrumental; Hey Gypsy Boy é Hey Baby (New Rising Sun); Mr. Bad Luck e Look Over Yonder e Easy Blues e My Friend. É tudo sobra do último disco dele, porém relançado pela Legacy de forma menos obtusa. Mas não menos oportunista. As tais faixas inéditas são versões alternativas do First Rays

A despeito de toda a produção, a excelência desse impressionante desempenho reside no talento do próprio Hendrix, já que tudo o que ele fazia virava ouro. Mas o melhor do músico Jimi Hendrix está nos seus discos oficiais.

Thursday, February 14, 2013

Música & Lugares

Ainda de volta com a série, para animar o blog: Going Back to Big Sur, canção do compositor e cantor Johnny Rivers de 1968, lançada no disco Realization. O álbum, pós aquela fase dos inferninhos da Sunset Strip que o guindaram à parada de sucessos - e diverso da linha musical dos primeiros discos, aqui o encontramos em meio ao desbunde do flower-power, deixando a música ligeira em favor de um blend mais psicodélico. Desse mesmo disco sairia o grande sucesso de Rivers "Summer Rain".

Todavia, a música em questão é Going Back To Big Sur. A letra fala de um local além da Baixa Califórnia, onde a costa é recortada por gigantescos desfiladeiros de falésias, que assomam o cenário profundo. Mostra também mostra um pouco da vida de quem quer ficar longe da cidade grande, num lugar tão belo quanto inóspito. Citado por Jack Kerouac em livro homônimo (o escritor viveu um mês na casa de férias do seu amigo, Lawrence Ferlinghetti para embalde tentar se livrar da bebida), o lugar virou uma vivenda campestre para outros hippies também desbundados a viver em contato com a natureza selvagem de Big Sur.


Vista aérea do Bixby Canion, onde as pontes driblam as escarpas



Não perca os demais posts da série, nos arquivos do blog :)

Monday, February 11, 2013

Prá não dizer que não falei do livro


Verdade Tropical, de 1997

Li com nada menos que quinze anos de atraso o livro Verdade Tropical, do Caetano Veloso.

Ou seja, depois de tanto tempo, creio que não exista muito a acrescentar ou discutir sobre o assunto MPB e Tropicalismo, isso sem contar com as inúmeras publicações e teses a respeito dos dois assuntos.

Mas, ocorre que ao mesmo tempo em que eu avançava no livro, achei no Youtube uma entrevista exclusiva do repórter Geneton Neto com o Geraldo Vandré.

Na tal entrevista, Vandré explica que abandonou o showbiz ao retornar do exílio. Explica que foi porque a Indústria Cultural (bem, ele não falou exatamente nesses termos) havia massificado a música brasileira, e ele não se via à vontade para retomar sua carreira de cantor.

No livro do Caetano, o que mais assombra ao leitor que desconece o contexto histórico-musical da segunda metade dos anos 60 é a divisão sectária que havia entre músicos que defendiam um nacionalismo musical explicitamente autóctone (hoje quem daria bola para isso?). Na mesma medida, eles defendiam esse ideário na mídia, mais precisamente em programas de tevê, no teatro participativo e de esquerda e, principalmente, nos festivais.

Vandré, que começou como intérprete de baladas como Samba em Prelúdio (com Ana Lúcia), no ambiente de festival decidiu tomar a cabo um projeto de fazer música de protesto (rótulo que, na entrevista ao repórter, ele não endossa). Ou seja, para ele, quando escolheu Jair Rodrigues para defender Disparada, ele queria que ela, com efeito, fosse uma Marselhesa. E foi.

Fato é que nem foi apenas Caetano quem notara que, naquela conjuntura adversa (estávamos em pleno governo militar, instaurado a partir de 1964), os festivais (Excelsior, depois Record e Globo) viraram palco de manifestações de protesto ao regime). Vendo com os olhos da época, aquela posição extremista de defesa do nacionalismo da MPB contra tudo o que fosse considerado estrangeiro, colonizado ou qualquer adjetivo que o velha hoje soa tão estúpida quanto ingênua - mas que era defendida com unha e dentes pelos aiatolás da MPB.

A situação chegou ao seu paroxismo quando a própria tevê, na figura de Paulo Machado de Carvalho, então diretor da Excelsior, queria fazer cartaz em cima dessa rivalidade, com vistas a aumentar a audiência de sua emissora por conta dessa polêmica.

Primeiro, foi a guerra da MPB com a Jovem Guarda. Essa, capitaneada pelo programa homônimo, apresentado por Roberto Carlos, era rival direto primeiro do Fino da Bossa e, depois, da Frente Ùnica da MPB.

Para se ter uma idéia da coisa, se alguém aparecesse nas hostes jovem guardistas não poderia colocar os pés novamente no palco do Fino. Foi o caso de gente insuspeita como Jorge Ben - defendido por Caetano por ser o verdadeiro músico de vanguarda no sentido de "linha evolutiva" (expressão cunhada por Augusto de Campos para o Tropicalismo e citada por Caetano ao longo do livro) da MPB.

Pode parecer brincadeira, mas esse tipo de disensão era levada às últimas consequências. É aí que entram os tropicalistas.

Ao misturarem a cultura popular sem excluir a cultura de massas (Chacrinha, Roberto Carlos, Carmen Miranda, samba-canção e demais ritmos que form fadados ao índex pelos aiatolás da bossa nova) e signos e referências "alienígenas" como o rock, mesmo que tratando de forma crítica e criativa esses temas em sua ideologia, os tropicalistas foram rejeitados primeiro pelo público engajado, depois pela MPB participante, pelas esquerdas (já que os tropicalistas, segundo Caetano, eram a "esquerda da esquerda") e, por fim, pelos militares.

A despeito de tudo, Caetano e Gil conseguiram conquistar espaço na mídia, venderam o tropicalismo, granjearam inimigos e viraram bola da vez: agora o mote para dar ibope era Caetano versus Chico.

É aí que o Vandré volta à baila. Para Caetano Veloso, o rival em questão de sua pessoa era, justamnte, o autor de Fica Mal Com Deus. A diferença era que a múdia (leia-se também Paulo Machado de Carvalho) achava que pôr ele e Chico no mesmo ringue dava mais audiência. O compositor baiano, no entanto, tinha uma teoria: Depois de Chico, e depois de Disparada e Aroeira, Vandré queria ser o número 1. Sua ambição gigantesca o colocou acima de tudo e de todos. Para ele, sua vida (na visão de Caetano, não nessas mesma palavras) dependia do festival de 1968. Ali ele depositara todas as suas fichas.

Gil e Caetano entraram no FIC para transformar tudo num happening. O primeiro foi desclassificado por sua pastichização de Hendrix em Questão de Ordem. Caetano fez um discurso contra a pretensa burrice da platéia, que havia politizado da forma mais tacanha o festival. Insultou o júri e implorou para ser desclassificado.

A batalha final se deu entre, quem diria, Chico (com Tom Jobim) e Vandré. O público, em hordas, queria Vandré, mas o júri preferiu Chico.

Esse episódio foi comentado por Nelson Rodrigues em suas crônicas do Globo da forma mais peculir possível. Nelson assistiu perplexo à capitulação de Vandré depois do resultado, pedindo que o público respeitasse, se não a escolha dos jurados, a importância de Chico e Tom para e MPB e blá,blá-blá. Nelson, que não topava nem Caetano nem Vandré pela arte deles, achou que Caetano desmascarou a hipocrisia da platéia em seu discurso furibundo no TUCA (não há dúvidas que o escritor pernambucano se identificou com o gesto de Veloso na sua lide como o pobre diabo pregando no deserto em favor de suas peças interditas).

Na mesma medida, com efeito, achou que Vandré, como o Moisés da esquerda festiva, se falsificou ao infinito ao não defender sua canção. Ao contrário, pediu que a platéia aceitasse o estado das coisas (Tom chorava ao lado de Cylene e Cynara, ao recdeber o prêmio, dada a vaia esmagadora e estúpida do Maracanazinho). Ainda mais quando Vandré bradou: "a vida não se resume a festivais".

Volto ao livro Verdade Tropical. Ali, Caetano narra um episódio em que Vandré destratou Gal quando ela mostrou Baby a ele, taxando a música de "uma merda". A declaração mostra duas coisas: Vandré havia perdido a noção do certo e do errado em sua escalada em defesa do seu nacionalismo musical. Geraldo Vandré esqueceu até sua parceria com Gil em Rancho da Rosa Encarnada. Agora, Gil era inimigo seu.

Outra: a verdadeira briga era dele contra Caetano, e não contra Chico. Caetano achava que Chico não era nem contra e nem a favor do Tropicalismo, ao passo que Vandré via o movimento como uma ameaça à soberania nacional.

O problema é que os militares também achavam isso. No fim das contas, quem foi preso foi Caetano e não Vandré. Os happenings e declarações tropicalistas causaram muito mais espécia ao governo militar do que a letra de Prá não dizer que não falei das flores. No fim, foram ambos exilados: Vandré para a França e Caetano para a Inglaterra.

Mas fiquei com a imagem de Vandré na tevê, na entrevista. Parecia óbvio que o desencanto dele era e é muito maior do que a tal "massificação" da MPB. Afinal, o compositor paraibano parece ser o único que pensa dessa maneira. No fim, acho que, na verdade, desde aquela fatídica final do FIC de 1968, ele está ainda tentando falar não para a platéia, e tentando aceitar essa sua verdade: "a vida não se resume a festivais".

Wednesday, November 21, 2012

50 anos de Bossa Nova no Carnegie Hall


O Cartaz

A  Bossa Nova se apresentou nos Estados Unidos com uma trupe brasileira há exatos 50 anos. A histórica apresentação ocorreu por conta de uma parceria entre o Itamarati e a Audio Fidelity, na figura de Sidney Frey.

Tudo começou em setembro, quando o executivo da gravadora desembarcou no Rio de Janeiro querendo levar Tom Jobim e João Gilberto para uma apresentação no famoso auditório da rua 57. Claro que o exexutivo da Fidelity não estava querendo divulgar a música brasleira na América. Na verdade, Frey queria editar as músicas no Tim Pan Alley e, claro, transformar a gravação em disco, para vender igual xuxu.


Além disso, ele já era um iniciado no gênero: conhecia toda a turma do Beco das Garrafas, de Sérgio Mendes até Roberto Menescal e Oscar Castro Neves. Numa coletiva no Copacabana Palace, anunciou que alugara o Carnegie para um show dia 21 de novembro e iria fazer uma lista de possíveis artistas.


Matéria do JB do dia 22 de novembro de 62

Como a escolha ia ser difícil, até porque até quem não tinha nada a ver com a bossa ia querer se candidatar, Frey contou com a ajuda de  Mário Dias Costa, chefe da Divisão Cultural do Itamaraty. Costa, assim como o homem da Audio Fidelity, queria pelo menos manter o nível das estrelas que deveriam se apresentar.

Aloyisio de Oliveira, por sua vez, por isso mesmo, bancou o Velho do Restelo: tinha medo que o concerto estragasse tanto a imagem da nossa música no estrangeiro quando afundar promissoras carreiras no exterior. Ele queria que o o show ocorresse em outra data e apenas com Tom e João. Oliveira até tentou, mas não conseguiu demover ninguém disso. Ao contrário, muitos sentiram que essa manobra era para tentar separar o primeiro do segundo escalão. No fim, foi a licença para que fosse quem quisesse - e pudesse.



Disco lançado pela Audio Fidelity

Já que ia quem quisesse, quem achava que ia o concerto ia virar vexame nacional acabou tirando o pé. Por isso, gente como Sylvia Telles, Maurício Einhorn e o Tamba Trio não foram.

Parte da trupe foi subvencionada pelo Itamarati. Outros, como Caetano Zama e Agostinho dos Santos, foram respectivamente patrocinados pela Di Giorgio e a RGE, selo do cantor.

Sérgio Mendes batou pé e queria ou abrir ou fechar o show. Abriu porque Frey naturalmente queria João Gilberto para fechar o concerto, que ocorreu naquela noite chuvosa do dia 21 de novembro de 1962. A Bandeirantes de São Paulo, com Walter Silva como correspondente, transmitiu tudo para o Brasil.

Muita controvérsia encheu páginas e páginas de jornal. Foi um sucesso ou um fracasso? Para alguns, havia gente talentosa mas muito inexperiente. Ao mesmo tempo, era o debut de Tom na América e era quem mais tinha a ganhar ou a perder naquela noite.  Stan Getz havia vendido 1 milhão de compactos de Desafinado. Pois foi justamente o ponto alto do concerto, pau a pau com Agostinho dos Santos, que virara celebridade nos Estados Unidos como o intérprete de Manhã de Carnaval, que cantou naquela noite, axompanhado de Luiz Bonfá.

A apresentação de Jobim - que, curiosamente, acabou ficando de fora do disco, foi impecável. Já outros mementos hoje geram boas risadas, como Roberto Menescal desafinando ao vivo o seu próprio Barquinho, em pleno Carnegie Hall lotado - tudo minuciosamente registrado em disco.

No palco, passaram Sérgio Mendes e seu Sexteto, Carmen Costa e Bola Sete, Sérgio Ricardo, Ana Lúcia, Oscar Castro Neves, Agostinho dos Santos, Luiz Bonfá, Roberto Menescal, Carlos Lyra, Caetano Zamma, Chico "Fim de Noite" Feitosa, Normando Santos, João Gilberto e Tom Jobim.


E muita gente se fez por lá depois daquele 21 de novembro: Oscar Castro Neves ia seguir carreira internacional, como Sérgio Mendes, por exemplo. Tom, por sua vez, conseguiu editar músicas suas nos Estados Unidos. De forma prudente, guardou Garota de Ipanema para um momento oportuno. João Gilberto foi contratado pela Verve. Um ano depois, Jobim, João e Getz iriam transformar Garota de Ipanema no momento número 2 da Bossa Nova na América. Mas isso é outra história...


Sunday, September 23, 2012

O Campeonato de Trova


Darcy Fagundes (de frente)

Nos anos 50, a antiga rádio Farroupilha apresentava o dominical noturno Grande Rodeio Coringa, líder de audiência onde quer que a voz marcante de Darcy Faguntes chegasse, como ele mesmo dizia, "à audiência espalhada por todo o Rio Grande e o sul de Santa Catarina".

Num daqueles domingos, o programa era transmitido diretamente da praça principal de São Leopoldo. A ocasião era especial: tratava-se da semi-final do campeonato estadual de trova.

Darcy então apresentou os duelistas. Um, de Santiago, e o outro, de São Jenôrimo. Com o sotaque carregado lá de Uruguaiana, Fagundes bradou:

- Toca a sanfona de uma vez, Osvaldinho! A gente quer aqui ver uma peleia e da braba!

Dada a largada, a gaita deu aquela introdução característica de trova, e deu-se a peleja. Contudo, ao invés da desdita, o público via que os dois participantes estavam meio travados, não indo além de mesuras chochas e sem provocações. Darcy interviu:

- Espere aí. Isso aqui tpa mais triste que carrancho em tronqueira. Tô achando que esses dois chirus aí tão meio envergonhados. A gente sabe que eles são do interior e é a primeira vez que eles chegam numa cidade grande como São Leopoldo e, de repente, eles ficaram meio tímidos em declamar para esse público gigantesco.

E, olhando para a dupla, com cara de paisagem, ele concluiu:

- O que esse pessoal aqui e o povo do Rio Grande e de Santa Catarina quer aqui é ouvir vocês se carneando, se pegando mesmo. Eles não querem esse jogo de gentilezas, querem guerra de foice, querem carga de cavalaria na coxilha! Vamos começar de novo, toca a gaita, Osvaldinho!


Os dois então continuaram. Agora acabaram as mesuras. Era um festival de farpas de todos os lados. Tua cidade só tem fresco, tua terra não tem gado, teu jeito é meio maricas. Eis que, na sua vez, o representante de São Jerônimo tascou:


Índio lá de Santiago
Hoje te boto os freio
Trepo em riba do teu lombo
Adespôs de te botá os arreio,
Te dou com o mango nas anca
E te deixou de cu vermeio!


Nesse momento a Farroupilha saiu do ar. Os ouvintes ouviam apenas um instrumental tipo a Copélia do Delibes de cortina. Até que, minutoa depois, vota a transmissão de São Leopoldo. Era a voz de um apalermado Darcy:

- Eu queria pedir desculpas aos nossos ouvintes, é que o índio de São Jerônimo é grosso demais. Meu amigo (falando para o trovador), comoo senhor me fala uma coisa assim?O senhor não vê que há autoridades cicis, militares e eclesiásticas na nossa audiência? E esse povo aqui, como eles ficam?

O índio grosso lá de São Jerônimo ouvia aquilo de cabeça baixa, consternado, pensando, "como eu pude?"

Darcy depois se diririu à audiência.


- Mas não se preocupem, já falei com os índios, e eles disseram que agora eles vão se comportar. E que continue a trova. Toca a sanfona, Osvaldo!

Lá foi o músico tocando os acordes característicos do desafio. Era agora a vez do participante de Santiago responder. Como acontece em toda trova, o mote da resposta é, necessariamente, o último verso do trovador anterior.


- Me deixa de cu vermeio....


A rádio saiu permanentemente do ar.



Sunday, September 09, 2012

Flor de Obsessão


Nelson Rodrigues


Manuel Bandeira: "Nelson Rodrigues é, de longe, o maior poeta dramático que já apareceu em nossa literatura"
 Paulo Francis: "Nelson Rodrigues é uma das pessoas mais ignorantes que eu conheço. Só lê jornais e, assim mesmo, com ênfase nas seções de Polícia e Esportes"
 Carlos Lacerda: "O tarado Nelson Rodrigues"
 Décio Pignatari: "O Papa do Tropicalismo. E não poderia deixar de ser".
 Nelson Rodrigues: "Todos os presidentes, inclusive depois de 1964, me massacraram. A censura usa um tratamento discriminatório contra mim".
 Nelson Rodrigues morreu em 1980. Sua obra literária permaneceu no ostracismo das edições esgotadas por muito tempo. Foi esquecido e considerado como cronista menor. Não era citado em cursinhos pré-vestibulares. Mesmo tendo feito parte da grande revolução do jornalismo esportivo a partir do lançamento do Jornal dos Sports, pelo seu irmão, Mário Filho, ele não era referência. Serviu-se a isso o fato de que seu teatro desagradável para muitos o afastou do grande público.
Para o povo que lia a Última Hora, ele era um tarado que devia dormir num caixão, sob a luz castiça de círios. Seu promíscuo namoro com o presidente Médici e a sua patrulha contra o que ele chamava de "esquerda festiva" o transformou em foco de perseguição pelas patrulhas ideológicas dos anos 70. Nelson era um esquecido do grande público até que Ruy Castro lançou, no começo dos anos 90, a biografia O Anjo Pornográfico. Me lembro que foi o primeiro que me mandaram ler na faculdade, na cadeira de Teoria da Informação, na Famecos-PUCRS, lá pelos idos de 1994. Pálido de espanto, como no soneto, então descobri o Brasil pelo Nelson Rodrigues.
A mesma editora que lançara a tal biografia (leiam, eu recomendo) editou boa parte da sua literatura, boa parte extraída de compêndios extraídos de jornais e semanários, aos quais colaborou como escritor e jornalista, por toda a sua vida. Eis o que eu queria dizer: depois de tanto tempo, a verdade é que Nelson Rodrigues é ainda a boa-nova. Todo estudante de jornalismo deve ler os seus livros: novelas, peças, contos, crônicas e confissões. Aliás, tudo o que um estudante de jornalismo deve fazer é ler, e ler o tempo todo e sempre, e mais.
 Paulo Mendes Campos: "Nelson Rodrigues não é e não quer ser ensaísta: é um poeta, e o preconceito e a superstição constituem o fermento das tragédias; E também o fermento da vida, se quiserem; pois o mundo perde sempre um pouco de sua potencialidade trágica quando um preconceito é destruído. Se admitirmos, por hipótese, um mundo mentalmente asséptico, varrido de todos os preconceitos, estaríamos certos de que o drama e a tragédia desapareceriam dos palcos".
 Antônio Callado: "Nelson Rodrigues cultivava um humor sóbrio, e suas tiradas, de um cômico pesaroso, quase embaraçavam às vezes o interlocutor, que não sabia se deveria rir ou consolar Nelson, batendo-lhe no ombro, como quem formula suas condolêncdias." Nelson Rodrigues: "Sou romântico como um pierrô suburbano. Diga-se de passagem, sou um suburbano. Tenho a alma do subúrbio. Deodoro, Vaz Lobo, um estilo de vida, apaixonante".
 Nelson Rodrigues: "Sou o autor mais interditado do Brasil". Sem saída, após a apoteose de Vestido de Noiva, Nelson passou a ser censurado como dramaturgo na medida em que penetrava na sua fase mítica de suas peças, como Álbum de Família e Senhora dos Afogados. Sem saída, usava dessa desdita algo de promocional. Concorrendo com isso, Rodrigues gozou de enorme popularidade criando folhetins curtos em forma de conto, que eram o carro chefe da então recém-criada Última Hora. O melhor de sua verve jornalística, já que seu lado dramaturgo já estava entronizado em nossa literatura, está nas crônicas que ele escreveu no Globo e no Correio da Manhã. Esse foi o Nelson que eu mais li e que, minha opinião, concorre lado a lado com suas peças. Passei todo o curso de minha faculdade lendo estes livros e, sem escolha, fiz minha monografia sobre essas crônicas. A banca ria de mim: outro TCC sobre Nelson Rodrigues? Pois é... 100 anos de Nelson Rodrigues. Quem venham outros 100 anos.

Friday, July 27, 2012

Jazz da Geração Beat


Charlie Parker


Em 2003, a Import Generic lançou um CD, intitulado Jazz of the Beat Generation. Era a música que eles ouviam e que eram citadas nos livros do Jack, de On The Road até Lonesome Traveller. A trilha, além de faixas como Hey Ba-Ba-Re-Bop, In A Little Spanish Town, Salt Peanuts (Dizzy Gilespie) e Scrapple From The Apple (Charlie Parker), continha trechos declamados de textos do Jack, em gravações feitas por ele mesmo, para a Verve, nos anos 50. Por conta do que se viu depois, houve uma associação fácil da literatura beat com a música dos anos 60, o que, no fim das contas, é um ligeiro anacronismo. O verdadeiro rock dos beats era o Jazz, e esse CD dá conta disso, o problema é que os ouvintes modernos que se identificam com a prosa kerouaquiana não gostam ou não se interessam por jazz que, se na época era um tipo de gênero popular, hoje é quase uma arte para iniciados, ainda mais quando falamos do Be Bop, que, ao contrário do swing, não era uma música de se dançar mas, sim, uma música de se ouvir. Até mesmo traçando um paralelo entre as duas gerações, assim como o rock virou cultura e entrou no imaginário social da juventude a partir dos anos 50, o Swing foi a forma como o jazz atingiu as grandes massas, com a gênese e consolidação de um formato comercial e popular, ainda mais franqueado por emirroras de rádio (basta lembrar que, nos anos 40, o rádio tinha a importância que a televisão tem hoje) cujo sinal éter afora atingiam toda a América. Logo surgiram as grandes orquestras e os seus respectivos crooners, cuja música era cultivada por toda a juventude americana da época. Porém, ao invés das fãs ululantes do tempo da Beatlemania, eram as chamadas Bobbysockers, apelido que vinha das meias que elas usavam para dançar. Era a época de gerentes de orquestra como Benny Goodman e Tommy Doorsey que, a despeito de tocaram para um público massivamente branco, sempre pegavam ou copiavam ou aprendiam com o jazz negro, segregado e destinado aos nightclubs, aos guetos e que só podiam se integrar com os músicos brancos depois da meia-noite, quando os frequentadores eram outros mas a música era a mesma, e senão até melhor, mais pura. O Be Bop nasceu como uma ruptura: o swing acabou saindo de cena quase que rapidamente, com o fim da Guerra. Os músicos negros do Bop, tinham uma consciência de classe maior, eram politizados e achavam que o Swing eram uma forma domesticada do jazz feita apenas para vender, ou para agradar os brancos. Ao mesmo tempo, o Bop, como dissemos anteriormente, não era feita para dançar, mas para escutar, e escutar de forma relaxada e atenta, turbinada por aditivos legais ou ilegais.O Bop era um protesto e um grito estético da voz negra, tudo ao mesmo tempo. Por conta disso, as drogas recreativas logo passaram a andar irmanadas tanto com os músicos de Bop quanto aos apreciadores do estilo. E a forma de abstração dessa mesma música era transformada quase como parte de um culto secular, feito para singrar os paraísos artificiais e reais em meio a salas enfumaçadas, mesas de madeira molhadas de cerveja, em ambientes fechados e rarefeitos - esse era o santificado barato do Bop. E esse era o tempo sagrado dos Beats. Os pubs de Nova Iorque, como o Birdland, eram os santuarios daquela gente da noite, que flanava em meio a trabalhadores desempregados, andrajos, misantropos, apostadores e perdedores, músicos, bebedores inveterados, poetas, mais ou menos aquilo que Kerouac descreve de forma magistral no texto Cenas de Nova Iorque. Mas a incubadora do Be Bop, - além da mítica big band de Billy Eckstine - foi o Minton's Playhouse. Fundado por Henry Minton no coração do Harlem. Henry era uma figura proeminente no bairro negro de Nova Iorque, e acabou sendo uma espécie de ligação entre o jazz revolucionário de Louis Armstrong e a iconoclastia militante de Bird e Diz, ao mesmo temo em que fazia uma espécie de filantropia entre os músicos descamisados, franqueando-lhes palco e comida, muitas vezes. A partir do começo dos anos 40, o Playhouse seria o começo da vertiginosa aventura de Charlie Parker e Gillespie, em jam sessions que acabaram definindo todos os paradigmas do Be Bop. Um dos iniciantes que presenciaram a gênese do Bop, Miles Davis, comentou sobre aquelas noites selvagens: - Nas noites de segunda, no Minton, Bird e Dizzy apareciam para tocarm e então apareciam centenas de principiantes tentando alguma coisa ali, então você podia chegar, sentar e assisti-los. Mas a maioria dos músicos nem queriam tocar com eles; queriam mesmo era ficar junto com o público para ouvir e aprender com eles - disse Davis. O Minton foi a maternidade de gente insuspeita como Miles, Fats Navarro, Dexter Gordon, Art Blakey ou Max Roach, cujo pai bastardo foi Charlie Christian, membro da orquestra de Benny Goodman que realizou os primeiros experimentos fora dos padrões do Swing, dentro do Minton's, elaborando um fraseado frenético e sincopado, baseado na liberdade de criação e no improviso. Kerouac conhecia pouco de jazz em Lowell, até que um amigo, Seymour Wise, o leva para o Harlem, quando ele entra em contato a começa a apreciar a arte negra por si mesmo. Ali, ele passa a ouvir a orquestra de Count Basie, com seu estilo econômico em escrever para grandes orquestras, sempre misturando o rigor do ritmo com o picaresco do humor musical que sempre o dignificou. Da orquestra de Basie se destaca o mítico Lester Young, pai de todas as inovações que viriam a partir do ocaso do swing, junto com Coleman Hawkins, o criador do protobop. Ainda em Lowell, ele conhece pessoalmente o baterista Gene Krupa. Nessa época, Jack arranja um emprego de freelancer na revista de música Record, de Horace Mann, onde escreve sobre o conde Basie e chega a entrevistar Glenn Milrt. Kerouac nem sente, mas no fim das contas, esse encontro seria decisivo e iria ser o norte de seu gosto musical pelas décadas seguintes, impregnando-o de ânimo mesmo nos momentos mais tristes de sua solidão compulsória até o seu próprio estilo literário. Jack é apenas um pinto calçudo de dezoito anos e a liberdade criativa dos músicos de jazz o impressiona - algo análogo à liberdade que sentiríamos ao nos indentificar com as grandes estrelas do rock - aquele era o grande barato daqueles dias: todas as promessas de redenção e as lições de liberdade estavam calcadas na literatura do jazz. A beleza estética daquela arte musical se sobrepunha ao ambiente insalubre de suas vidas, era o elemento espiritual, a doença fácil que os absorvia e lhes dava a vida. Nessa época, aliás, o jazz está em todas as partes, nos cartazes, nos avisos, nos letreiros, nas rádios, nas revistas. A partir dali, ele passa a viver no ambiente da boemia mal vestida do Times Square: as ruas, os cinemas, as perambulações, os bares suarentos e fumacentos, os vagabundos, nada passa incólume à visão aguçada do cotidiano em Kerouac. Com Whitman, ele aprende que a América é um poema de cabeça para baixo e a trilha sonora dessa poema é o jazz. Já no fim da guerra, o Swing é passado. Grandes bandleaders, como Woody Herman reduzem seus combos a octetos. O jazz se torna, com efeito, um gênero artesanal e em miniatura, próprio para uma arquitetura de pequenos espaços. Nessa época, Kerouac passa a frequentar o Minton's, o corredor onde, depois da meia-noite, músicos já de folga, varrem a madrugada em meio a intermináveis jams. Allen Gisberg testemunha, junto com Jack, o nascimento do Bop no Minton's. Na primeira fase em Nova Iorque, Jack pôde se dedicar ao dolce far niente com sua futura esposa, Edie Parker. Com Wise, ele vê a gestação do Bop na rua 52, assistindo os primeiros passos de Charlie Parker, então um mero desconhecido vindo de Kansas City. Também segue os passos de Thelonious Monk. O Five Spot, na Quinta Avenida com a Bowery, às vezes apresenta Thelonious Monk no piano e a rapaziada aparece por lá. Quem conhece o dono pode sentar de graça em uma mesa com uma cerveja, quem não conhece pode entrar sorrateiramente e ficar próximo do ventilador, escutando. Nos fins de semana, está sempre lotado. Monk medita em abstração mortífera, clonk, faz uma declaração, o pé enorme batendo delicadamente no chão, cabeça virada para o lado, escutando, e então entra o piano. Conhecem Billie Holiday e seu consorte casual, Pres Lester Young; assisti aos primeiros solos de Dizzie Gilespie no Three Deuces, também na 52. Lester Young tocou lá pouco antes de morrer e entre um número e outro se sentava na cozinha, nos fundos. Meu amigo Allen Ginsberg foi lá, se ajoelhou e perguntou o que ele faria caso uma bomba atômica caísse em Nova Iorque. Lester respondeu que pelo menos quebraria a vitrine da Tiffany’s e apanharia algumas joias. Também disse: “o que você está fazendo aqui ajoelhado?” Kerouac não percebe, no começo, mas uma revolução está a caminho. A música de antanho hoje pode soar como algo para iniciados, e era, mas era algo vital, contemporâneo, quando o jazz era um gênero de proa, tipicamente urbano, uma música de descamisados – vendedores de rua, velhos beberrões de macacão, caminhoneiros anônimos, respeitáveis punguistas solitários e adolescentes alarifes sacudindo os bolsos vazios pela rua, turfistas, proxenetas, vendedores de jornal, ambulantes, mambembes, homens de negócios, detetives rábulas, prostitutas, intelectuais de algibeira... No verão de 44 ele retornaria à Big Apple, depois de passar um tempo em Grosse Pointe, no Michigan. Com o Be Bop sendo forjado nas noites do Village, Jack conhece Jerry Newmann, dono de uma loja de discos de jazz de vanguarda. Jerry era mais que um iniciado no Bop: havia gravado várias jams no Minton, em 1941, quando ainda era um estudante da Universidade de Columbia. Segundo o biógrafo do escritor, através de Wise, ele começou a discernir sobre a importância de Parker e o papel preponderante do sax tenor em geral "na expressão de emoções da música afro-americana", que ele repara através do sopro, da "escansão permanente, da pulsação rítmica evocando os próprios ritmos, a metáfora do batimento primordial do coração e dos ritmos da vida, a metáfora do batimento primordial do coração e do sexo, o beat essencial". Kerouac iria internalizar esse código e, finalmente, mimetizá-lo em seus textos. Como explica Buin: "sente confusamente que sua língua que está por vir será submetida ao imperativo da forma livre, improvisada, improvável, e ele dirá mais tarde, a forma improvável". Eram os primeiros passos do jazz poet. Ele se identifica com o perfil de anjo caído dos jazzman, seu modus vivendi, seus sonhos, suas desventuras, sua libido libertadora, sua genialidade incompreendida, suas noites insones de viagens e loucura infrene. O arquétipo idealizado por Jack é, com efeito, Bird. Nascido em Kansas City, em 1920, Bird, ou Charlie Parker, foi sem dúvida o maior saxofonista de jazz de todos os tempos. Ele desenvolveria um amplo estudo dentro da harmonia do jazz durante o Be Bop, influenciando centenas de músicos, inclusive fora do âmbito do gênero. Ao mesmo tempo, muitas das gravações de Charlie demonstram uma técnica virtuosística peculiar e revolucionária, amalgamando estilos diversos em linhas melódicas complexas, indo do blues e à música latina até o clássico, que ele apreciava, incluindo Bach. Para aqueles que o conheceram, como Kerouac, Parker era mais do que um simples músico de palco, mas sim, um intelectual. Aliás, havia um conteúdo político nesse contexto do Bop, porém não propriamente militante, mais pela questão da defesa da própria identidade negra. Na verdade, em parte poderia haver um certo ressentimento em parte da ostensiva segregação nos Estados Unidos, e por outra, pelo fato de que alguns intelectuais negros achavam que alguns artistas acabavam sendo “domesticados” pela tradição do tempo dos ministrels, involuntariamente perfazendo o estereótipo Jim Crow. Para (alguns) defensores dessa ponto de vista, por exemplo, gente insuspeita como Louis Armstrong acabavam fazendo um tipo de música para agradar brancos. A tese, aliás, é injusta; Satchmo viveu mais do que qualquer músico de modern jazz o sofrimento do racismo. Foi justamente a estúpida segregação de público que faz com que ele e Bix Biderbecke nunca pudessem se conhecer ou tocar juntos. Desse fato, aliás, Bix, que se não fosse por sua morte prematura, teria sido um dos maiores trompetistas de todos tempos (e o é, mesmo assim) se ressentiu até a morte. Kerouac vivenciou o começo do Bop e, em seu período de transição como escritor, quando, vivendo de forma miserável em matéria de dinheiro mas prolífica na forma em que, nos dez anos de anonimato - de 1947 até o lançamento de On The Road, ele redigiu a maior parte daquilo que mais tarde ele chamaria de Lenda de Duluoz ( a lenda dele mesmo), ou seja, a reelaboração de toda a sua vida com Neal Cassady e o "bando", ele acompanhou também todo o movimento do jazz do bop para o cool. Nos anos 50, Jack conhece Elvin Jones, baterista que, mais tarde, faria parte do mítico quarteto de Coltrane, a partir dos anos 60, em clássicos como o disco com Trane e Johnny Hartmann, My Favourite Things e o antológico A Love Supreme. O Five Spot é mal iluminado, tem garçons estranhos e boa música sempre. Às vezes, John Coltrane ainunda a casa inteira com as notas ásperas de seu grande sax tenor. Nos fins de semana, grupos de gente elegante da parte alta da cidade lotam a casa e conversam sem parar – ninguém liga. Nesse momento de criação de sua prosa espontânea, Parker ainda o assombra; da mímese do improviso e da liberdade de Bird ao sax, Kerouac gerou Desolation Angels. Certa vez, ele escreveu para Allen Ginsberg: "durante a noite, descobri uma nova maneira de cantar que é melhor do que Sarah Vaughn, mesmo que eu não tenha a mesma voz, sou inacreditavelmente profético no que se refere ao jazz". Parker morre em 55, o jazz sai dos salões fumarentos de Nova Iorque e uma nova cena se insurge, na Costa Oeste. Mesmo sabendo fazer scats de vários solos de Charlie, ele acabou aderindo à música de Miles Davis, Gil Evans e Lee Konitz, saxofonista de Miles no Birth of The Cool. E Garry Muligan, que, junto com Stan Getz e Dave Bruebeck, expoentes do jazz branco típico do cool. O Birdland sai de cena e o novo ponto dos hipsters e da boemia bem vestida do Village é o Village Vanguard, na 178 7th Avenue South. Ao invés de Diz, Getz; de Bird, Coltrane e de Monk (ou George Shearing, ídolos de Sal e Dean em On The Road), Bill Evans. Não que Jack tenha esquecido os mestres do Bop mas, como observa Yves Buin, essa mudança indica mais a simpatia que ele sente por esse segmento da arte afro-americana que reflete a parte de si mesmo compartilhada com os brancos marginais e criadores de sensibilidades inéditas trabalhando no mundo do disco e dos concertos e que, a exemplo de Mulligan e Baker, verão a hora da estrela com músicos chegar junto com a dele como escritor. E de fato, a partir de 1955, Kerouac começa a entrar no circuito, primeiro assinando alguns artigos esparsos em revistas, ao mesmo tempo em que Ginsberg, ao lançar seu Howl, se refere ao texto de Kerouac como "prosa bop" - a primeira vez em que se plubiciza a pretensa relação da música com a literatura beat. Em março de 1959, ele gravaria um disco falado, com Reading by Jack Kerouac on the Beat Generation. Parte dessas gravações, sempre com um piano no background, dando a sugestão essencial, fazem parte do CD referido no começo desse ensaio. Em Nova Iorque, Kerouac vira assíduo frequentador da loja de discos de Jerry Newmann, e ouve tudo o que pode sobre o cool. Newmann, que é dono de um pequeno selo, chamado Esoteric, pensa em gravá-lo lendo passagens de seus textos. A época em que Kerouac publica o texto Cenas de Nova Iorque (cujas citações do texto estão aqui em itálico) ele comentá, à guisa de conclusão, a diferença dos tempos em que o Bop floresceu e foi fenecendo, já no final dos anos 50. Quando ele se torna o rapsodo dos oakies, imigrantes e vagabundos erráticos e românticos das estradas de ferro de On The Road, a mesma trilha sonora daqueles dias selvagens saía de cena. O livro que integra o texto também traz O Vagabundo Americano em Extinção. Ali, Jack fala que, ao contrário do fim da segunda Guerra, nos estertores dos anos 50, já não era possível pegar carona como antigamente. Ou seja, traçando um paralelo com o jazz que ele personificou em seus escritos, ele já enxergava tudo aquilo como o fim de uma era. Sobre o jazz no Village, ele comenta: Os clubes noturnos do Greenwich Village conhecidos por Half Note, Village Vanguard, Café Bohemia e Village Gate também apresentam jazz (Lee Konitz, J. J Johnson, Miles Davis), mas é preciso ter muita grana e não é só isso, é que a noite atmosfera comercial está matando o jazz, o jazz está matando a si mesmo ali, porque o jazz pertence às cervejarias batatas, alegres e abertas a todos, como no início. No lançamento do livro On the Road, Jack foi convidado a participar do programa de tevê de Steve Allen, então na NBC. Enquanto Kerouac lia o final da obra, Steve arranhava o piano de cauda, emoldurando a trilha exata para aquele tipo de leitura. Por mais que o escritor fosse massacrado por críticos e por amigos – pela forma como ele reelaborava o jazz na forma escrita, ao mesmo tempo em que amalgamava puro experimentalismo (em obras como Visons Of Cody), talvez ele seja o exemplo mais excelso dessa transmigração artística dentro do próprio gênero que ele criou e exportou, ao passo que sua literatura acabou sendo um vade mecum de toda a literatura alternativa a partir de então. Partindo de uma experiência particular e íntima, ele deu vida àqueles vagabundos sem nome, desde os okies migrantes até os canhestros músicos de jazz – muitos deles anônimos como toda a flanerie que circundava pela Times Square e que ele, como cronista dos espaços e das pessoas – como ele sempre foi. Mas o jazz, como se disse, deixou de ser um tipo de música da vida e da noite americana como experiência profunda e fenômeno particular de uma época e de um lugar, acabou se tornando algo como uma arte para iniciados, o tempo cuidou de, assim como a forma como a geração beat se disseminou por todas as partes e pela língua afora como o latim, a contracultura, de certa forma, acabou ‘anacronizando’ tudo, fazendo como que a nova geração incluísse o rock nesse processo, já que o próprio estilo acabou entronizando toda a contracultura a partir dos anos 60 – um fato natural Por isso que, inerente à leitura e até agora, com o lançamento do filme baseado em On the Road, é oportuno lembrar, à guisa de conclusão, que aquela história, como experiência vívida, pertence a um tempo e a um lugar, e teve uma trilha sonora: o jazz.

Monday, June 18, 2012

A Testemunha

Me contaram uma história muito engraçada esses dias.

Um senhor já de meia idade estava apressado para pegar o ônibus na rodoviária para Itaqui, para as bodas da filha. Ele estava parado na gare quando, de repente, vem um homem soltando fogo nas ventas em direção a uma moçoila que, ao lado dele, esperava a porta do carro abrir.

O homenzarrão chegou na frente da chinoca e bradou:

- Sua vaca, você não vai me escapar assim!

E desferiu-lhe um soco. A mulher, bufando de raiva como um bode, montou no sujeito como se montasse num porco, dendo cocadas violentas na cabeça dele, até que ambos desabaram, engalfinhados e fora de si.

Apareceu a turma do deixa-disso, entre eles o nosso herói que, como testemunha ocular, foi parar na delegacia com os dois brigões.

Lá estavam os três diante do delegado. Irado, o casal continuava batendo boca violentamente. Na hora do depoimento, o homenzarrão disse que a mulher foi com começou, cravando as suas unhas nas costas dele.

Contrariado, a testemunha ocular meteu a colher torta:

- É mentira, delegado, eu vi tudo, quem começou tudo foi ele.

- CALE ESSA BOCA DE MERDA! - atalhou o delegado.

- Mas doutor, eu vi tudo desde o come...

- CALE ESSA BOCA DE MERDA!

Ele afundou na sua cadeira, lívido de espanto. Ficou mais lívido quando ouve a versão de mulher que, em dado momento, fulmina nosso herói com o dedo e vocifera:

- Se esse palhaço não tivesse se metido na nossa discussão, a gente não estava aqui nessa situação.

- Mas o que foi que eu fiz? - gemeu.

- Você nos colocou nessa situação, seu palhaço.

- Mas foi ele quem começou, não foi, seu guarda? - tentou apelar ao brigadiano que os trouxe ao distrito.

- CALE ESSA BOCA DE MERDA! - fulminou o delegado.

- É mentira - pigarreou o homenzarrão, de olhos vidrados. - Só por causa de uma brigunha de merda que ela fez escândalo, pegou o primeiro táxi e disse que ia voltar para a saia da mamãe em Butiá. Não seja assim comigo, sua vaca, eu te amo.

Nisso ela começou a chorar. E eles se abraçaram languidamente. Perplexo, se tivesse um buraco diante de deus pés, nosso herói teria prontamente se atirado fosso adentro.

O delegado então salomonicamente falou:

- Vocês dois, tenham juízo e parem de fazer besteira em público.

Os dois pombinhos então deixaram o distrito alegres e felizes, de mãos dadas - não sem antes a mulher olhar para trás, em direção à nossa testemunha ocular e mostrar-lhe a língua, como uma criança.

Atônito, ele tentava ainda se justificar:

- Mas seu delegado, eu só quis ajudar...


- CALA ESSA BOCA DE MERDA E SUMA DAQUI ANTES QUE EU TE PRENDA POR DESACATO A AUTORIDADE!

Quando ele desceu as escadarias da delegacia, ela a pura e excelsa imagem do desespero. Além do pito, nosso herói ainda perdeu a viagem para Itaqui naquela noite. Mesmo que pegasse o próximo ônibus, ia chegar só no outro dia, depois do casamento e da festa. não teve outra saída: foi para casa dormir.


.........

Acordou cedo no dia seguinte. Antes de pegar o táxi para a rodoviária, porém, ele resolveu tomar um café no bar ao lado do prédio. Quando estava no meio da xícara, brincando distraidamente com a colherzinha no pires sujo de café que transbordara, ouviu o anûncio:

- Isso é um assalto!

O bandido foi direto ao caixa que, com a arma apontada para o seu nariz, esvaziava toda a féria numa sacola. Como único freguês, nosso herói foi o próximo. Com o cano encostado na orelha ouviu o pedido:

- A carteira e o relôgio, seu trouxa.

Ato reflexo, o facínora fugiu da lanchonete, dando tiros para o ar, como um Tom Mix, para sumir rua afora, dentro de um carro sem placas. Numa progressão fulminante, apareceu o populacho, formando um cordão na calçada.

Uma patrulhinha apareceu, tentando dar conta do episódio. No recinto, o caixa, um atendente e nosso herói. Um popular aponta o dedo para ele e diz, olho rútilo e lábio trêmulo:


- Ele viu tudo, seu guarda, pergunte a ele, seu guarda!


Os brigadianos avançaram diante de noso aturdido herói:

- O senhor viu a cara do assaltante da lanchonete? - esbravejaram, ávidos e sequiosos de uma elucidativa resposta.

Ele, entre patético, aturdido, estupefato, distraído e debochado, respondeu:


- Assaltante? Que assaltante?

Wednesday, May 16, 2012

A primeira vez que eu encontrei o blues

Tive a oportunidade de ver pela primeira vez um show de blues ao vivo. Já tinha assistido o Eric Clapton no Gigantinho nos anos 80, mas era um show de rock. Ontem vi Buddy Guy e escrevi uma nota que foi publicada no Correio do Povo Online. Transcrevo ela aqui com um adicional: o público gaúcho é mal-educado. Durante o show, vários foram os que iam ao bar buscar cerveja e depois saíam novamente para tirar a água do joelho. De resto, um grande espetáculo.
A vitalidade não é a de um senhor de quase 76 anos (faz aniversário em 30 de julho). Parece um cara de quarenta e poucos. E quem escuta a sua guitarra berrar, diz que Buddy Guy seque chegou nos 30 anos. O show da noite desta terça-feira, no teatro do Bourbon Country, teve apenas oito músicas inteiras, alguns solos e brincadeiras com grandes sucessos. Durou aproximadamente uma hora e meia, não teve bis e ninguém reclamou. Pelo contrário, só ouvi elogios rasgados ao mestre de blues, fonte inspiradora de Jimi Hendrix e Eric Clapton.
O show começou com “Nobody understand me but my guitar”, do album Can't Quit the Blues (2006). Em seguida, o cara das camisas de petit pois soltou o hit de Muddy Watters, seu ídolo, “Hochie Coochie Man”. Foi o suficiente para quebrar o gelo, se é que em algum momento esteve frio o show. O público cantou junto. Buddy fazia solos infindáveis de guitarra. Fez duelo de sons com o excelente pianista Marty Sammon e com o guitarrista Ric “Jaz Guitar” Hall. Tim Austin, baterista, Orlando Wright, baixista, completam a excelente banda do bluseiro americano. Na sequência, Buddy Guy tocou outro clássico de Muddy Watters: “She’s 19 years old”. Quando os primeiros acordes de “Fever”, de Peggy Lee, foram tocados, a galera foi ao delírio. Buddy comandava o público com solos de guitarra em volume baixo seguido de rasgadas exibições de sua habilidade.
Ele também homenageou Albert King, Jimi Hendrix e Eric Clapton. Fez um pequeno solo de “I miss you” do Rolling Stones. Desceu do palco e caminhou no meio do público, que não soube respeitar o ídolo e tratou de cercá-lo, impossibilitando quem estava mais longe de apreciar o espetáculo. Quando voltou ao palco para tocar “Someone else is steppin’ in”, Buddy reclamou das rádios. “Eu não sei por que as rádios não tocam mais blues hoje em dia”, comentou. Tocou “Sunshine your love”, do Cream com a mão esquerda, usando um paninho, esfregando a guitarra nas costas, com uma baqueta, tudo o que podia fazer. Por fim, homenageou o seu maior parceiro, Junior Wells, com “First time i meet the blues”. Encerrou o show e ficou dando autógrafos no palco e jogando palhetas para o público. Foi o suficiente para entrar na minha lista de shows inesquecíveis. Deixo aqui uma pérola que ele não cantou no show. Todas as fotos são de Tarsila Pereira.