Friday, October 22, 2010

Teté e o telefone


Larri e Bodinho


Meados da década de 50. semana de Gre-nal.

Os jogadores do Inter estavam concentrados nos Eucalíptos desde quarta. O técnico, Teté, o Marechal das Vitórias controlava seus pupilos: chegava até a procurar obsessivamente macumba em alguma esquina do estádio para ver se não tenha nenhuma amarração, como um sherlock do batuque.

Mais: ninguém podia falar ao telefone. Vai que alguma mala preta falante resolva combinar algo com algum.

Na sexta de tarde, o telefone tocou. Do outro lado da linha, o sujeito, que se recusava a dar o nome, queria porque queria falar com o La Paz (Florindo, Oreco, Chinesinho, Bodinho, Larri, etc), o goleiro.

— Meu amigo, o La Paz não pode atender, meu amigo — respondeu Teté — só passo recado, o que você quer falar com ele? Diz aí que eu transmito o recado.

— Mas eu preciso falar pessoalmente com ele — gemeu o sujeito do outro lado.

— É, mas não dá. disse o treinador. e bateu o telefone.

Duas horas depois, o telefone toca. É a mesma voz, o cara queria falar com o La Paz.

— Mas quem raios é o senhor, o que o senhor quer tanto falar com ele — indignou-se Teté.

— È...bem...eu sou um amigo. É que, olha só, este é um assunto particular, sócom ele mesmo...

— E o telefone não parava. O sujeito talvez quisesse que outra pessoa que não Teté atendese e ele conseguisse falar com o La Paz. Chamadas caiam por toda a noite de sexta e o sábado. quando atendia, era sempre a mesma coisa, e o sujeito não queria se identificar de jeito nenhum.

Domingo de manhã: a mesma coisa. Dirigentes do Inter estavam começando a trocar olhares significativos. O que estava acontecendo?

— Mas eu preciso falar como La Paz! Eu preciso falar com ele! — dizia o angustiado interlocutor de Teté.

— Eu dou o recado — respondeu Teté, com uma paciência insuportável.

— Poxa, mas tem que ser com ele mesmo. É particular! Olha só, é o Teté, né? seu Teté, não tem como o senhor me fazer esse favor e arrumar um jeitinho? Pelo amor de Deus, seu Teté, faça isso por mim! Por favor! Olha só, eu, ele nem tem que sair dos Eucaliptos, é só ir até o portão da Silveiro, eu falo bem rápido com ele e aí o La Paz pode voltar para a concentração, não tem problema nenhum!

Meio-dia, toca o telefone. Teté inexpugnavelmente bloqueia o sujeito.

Vencido, ele diz:

— Tá bom.... Mas o senhor me promete que vai dar o recado para ele, seu Teté?

— Prometo. Fala aí, rapaz.


— Então....então diz prá ele que já tá tudo acertado, conforme o combinado, viu? Tá tudo OK. Tchau!

Monday, October 18, 2010

A Velha Contrabandista


Oi amgs



Essa história é meio Luma de Oliveira, é OLD but GOLD.

Todo dia a velhinha passava pelos guardas da fronteira com uma mochila enorme, montada numa lambreta. Sorria, acenava para eles e passava,feliz da vida.

Passou um mês, o guarda, macaco velho, começou a desconfiar. Essa velha tem esquema, só pode. "Não é porque é velha que é santa", pensava.

Um dia, ele parou a velha. "Boa tarde, o que o que tem na mochila?" Ela: "areia". Ele: "deixa ver". Ela "OK'. Ela abriu a mochila e — surpresa — só tinha areia.

E lá foi ela, sorridente. O guarda ficou perplexo: porra, em 30 anos dessa indústria vital eu nunca vi isso. Todo dia o fiscal achava areia...

Um dia, ele foi sincero:

— Olha vovó, eu tenho que ser sincerocom a senhora. Eu sou fiscal de alfândega há trinta anos, manjo o esquema e tenho certeza que a senhora é contrabandista!

— Mas só tem areia na mochila — murmurava a santa senhora.

O fiscal, mais angustiado que barata de ponta cabeça, propôs:

— Olha vovó, eu lhe deixo passar. Não apreendo nem dou parte, não conto nada a ninguém, mas a senhora TEM, PELO AMOR DE DELS que me dizer qual é a muamba que a senhora passa!

A velha olhou para os lados. Perguntou:

— O senhor promete que não me deda, formosinho guarda?

Ele, crispado de curiosidade e emoção: "Sim, Juro"! Ela: "jura mesmo"?

Então a velha sorriu seu sorriso de batom torto e disse:

— É lambreta AOPKSPAOSKOPAKOPKSPAOSKOPAK Õ/

Friday, October 15, 2010

A Última loucura de Kerouac


Hit the road, JK

Eu acredito que não fui o único, mas confesso que fiquei profundidissimamente (como diria Augusto dos Anjos) perturbado depois de ler o incensado On The Road, porque eu me projetei ao infinito no idealismo dos personagens, e uma forma livre de viver, integrada ao ambiente e sempre em movimento, vendo gente e mais gente, é algo incomensurável, é a vida que sopra no seu rosto.

Curioso é que depois eu li a biografia dele (a escrita pelo Yves Buin), e ele era uma pessoa diferente do Sal Paradise: parece que quando ele finalmente conseguiu a notoriedade que ele tanto perseguiu, ele virou nada mais, nada menos do que um cadáver adiado (como diria Pessoa). Não havia lido nada de novo dele, depois que sua obra foi finalmente recolocada em catálogo, embora não tivesse mais tanto interesse pela literatura beat como antes.

Claro que, pelo exercício da escrita, ou como fetiche de escrever, eu sempre releia trechos e trechos (& trechos & trechos & trechos & mais trechos) do Kerouac – até porque o exercício da releitura é algo interessante e ligeiramente subestimado pela imensa maioria dos leitores – mas não era bem isso o que eu estava prestes a dizer.

Li tudo o que me caiu em mãos até o Big Sur (LPM Editores, 192 páginas). Este livro é o testamento final (de vida e literário, já que a partir dali, seus textos foram perdendo todo o vigor de outrora) do Kerouac real, não é o jovem idealista a la Rousseau, alguém entronizado num santo vagabundo, em alguém transcendente. Era um bêbado chato e decadente de meia idade como qualquer um, que não conseguiu, mesmo depois do sucesso, encontrar uma finalidade para a vida. E também confesso que, conhecendo o idealismo ardente de sua obra máxima, como leitor de Ti Jean, foi doloroso ler isso.

Jack poderia se estabilizar como qualquer pessoa normal, ele tinha nome, poderia arranjar um emprego permanente de correspondente para qualquer jornal, mas a instabilidade emocional e a sensação de que a virtude foi morar nos puídos aposentos de sua proustiana memória o venceu.

Era alguém que entregou a vida em sua obra máxima, isso fora o fato de que a doença dele fez com que ele se tornasse uma pessoa perdida, reclusa, anti-social, dependente.Enfim, não existe felicidade no Big Sur, é o On The Road de cabeça para baixo, nada de glamour, nada de feliz, nenhuma paz, enfim, além de noitadas e bebedeiras.



A vida essencialmente calcada no desregramento que eu achava que era a essência da literatura beat não foi o que eu achei na aventura de Sal e Dean, por isso que eu idealizei e me projetei de verdade no livro. Aquilo não aspira uma eterna juventude; pelo contrário, aquilo é exatamente o que eu via de negativo, infelizmente relacionado ao Kerouac real. Buin escreveu que o discurso final do livro era quase uma descrição clínica de um delírium tremens — e de fato, talvez seja oexemplo mais notório de algo do tipo na literatura.

Quem realmente sabe que ele era uma esponja que absorvia quantidades colossais de vinho licorado, sabe perfeitamente que, naquele estágio da vida, aquele consumo ia enlouquecer qualquer cidadão. Por isso eu fiquei com a impressão de Big Sur como alguém que chegou no limite para o fim. Basta ver aquele trecho em que ele tenta carona e não consegue, tenta realizar uma marcha a pé da barraca do Lawrence Ferlingheti nos despenhadeiros do sul da Califórnia e não consegue, sendo obrigado a fazer algo que ele raramente fazia nas suas antigas viagens, pegar um ônibus...

Aliás, o próprio Cassady, que no On The Road é praticamente a espinha dorsal de qualquer movimento dentro do livro, que é uma ode ao velho santo vagabundo Dean, no Big Sur é uma figura apagada, ele e Jack não demonstram mais nenhuma afinidade, não amigos pela memória, contudo não demonstravam qualquer vitalidade, qualquer intimidade entre si.

Porém, pela qualidade literária que ainda restava na mente do Jack, é possível vislumbrar ecos de sua escrita meticulosa e fluída,e a capacidade em caracterizar personagens e descrever ambientes. Ou seja, o valor literário permanece porque a mente do Kerouac ainda funcionava O discurso final do livro é exuberante,mas é algo sombrio e lancinante, de alguém que como poucos, soube escrever como um Proust sobre a sua loucura final.

Thursday, October 14, 2010

O Jogo do Século


O Rolo Compressor

Uma vez eu estava esperando o ônibus para Porto Alegre, vindo do interior. No café, eu vi um gaucho todo altaneiro contando causos para o pessoal do balcão - na verdade, verdadeiras atochadas: era uma história mais absurda do que a outra.

Aliás, isso aqui é muito comum - a prática de atochar, ou "queimar campo", ou contar histórias inverossímeis em primeira pessoa, por puro histrionismo - uma espécie de mentira muito bem contada. E não tem balcão de rodoviária do interior que não tenha o seu atochador de plantão.

Um atochador, nessas rodoviárias da vida, certa feita um coronelão me (nos) contava (atochava) que houve uma seca terrível em Bagé, e a gadaria dele via aquele mato amarelado e não queria pastar. Eis que ele ouviu pelo rádio que a Polícia Federal ia leiloar material que ela havia retido na fronteira com a Argentina.

Entre eles, havia um contrabando de óculos Ray-Ban — e era daqueles esverdeados. Ele não pensou duas vezes. Mandou um ordenança dele lá em Livramento arrematar o lote. Depois, o coronel mandou que um peão 'instalasse' os Ray-Ban nas vacas. "Elas passaram e ver o mato todo verde, e voltaram a pastar", disse.

Um sujeito tava fantasiado de gaúcho com um sacolão de roupas e uma mala de garupa, bicando um copo de café preto. E dizia que era atirador. E falava da vez em que ele ia tentar acertar a cabeça de uma sucuri que vinha em sua direção:

- Pues escuitem, uma vez se sucedeu assim: eu levantei a minha winchester com todo o cuidado do mundo, fiz a pontaria, descansei bem devagarinho o dedo no gatilho da arma...

No meio da conversa, tocou o celular dele. ele pediu um momento, e foi para um canto chasquear. Dez minutos depois, lá estava o gaúcho de volta:

— Onde é que eu tava, mesmo? — perguntou, coçando o chapéu.

— O senhor ia apertar o gatilho da Winchester — respondi.

Ele:

— Mas bah, tchê! pues eu nunca errei uma — exclamou. — Quando eu dei o tiro naquela saracura fiadaputa, foi pena prá tudo quanto é lado!


....

Mas a mais pitoresca foi essa. Um atochador de rodoviária lá em Passo Fundo disse que o pai (tio oui avô, não me lembro bem) dele tinha sido presidente de futebol de um clube de lá.

Ele contou da vez que o famoso Rolo Compressor do Internacional dos anos 40 foi jogar em Passo Fundo. Como aquela equipe do Tesourinha e do Carlitos era conhecido por todas as partes como o maior time de todos os tempos - e que era capaz de aplicar goleadas mitológicas em qualquer escrete do planeta. Pios quando o colorado aceitou o convite para um amistoso lá no Planalto Médio, o presidente procurou a banda de música da cidade.

Ele chamou o maestro da banda e disse: "Passo Fundo vai assistir ao jogo do século no domingo, então queremos que o senhor toque para nós durante toda a partida, o senhor estaria interessado?."

O maestro aceitou, mas — segundo o sujeito — pediu um valor exorbitante pelo serviço. Como não havia outra banda, ele tentou regatear com os músicos. Então ficou decidido que a banda iria tocar apenas na abertura e quando ocorresse gol.

Aí ele contou:

— E então eles toparam. E o Rolo chegou. Contra todas as previsões, porém, o Inter pegou a bola e então não largou mais, ia de pé em pé e inapelavelmente direto para as metas do nosso goleiro. Tava uma hora que já tava uns sessenta a zero para eles. O Carlitos pegou a bola sozinho, o Carlitos era atarracado e baixinho, mas o chute daquele cara era uma bala de canhão! Tava uma hora que ele ficou pela milésima vez na cara do golo e o keeper saiu correndo do meio dos arcos cagado de medo da pontaria mortífera do Carlitos, e o Carlitos disse: "porra, home, tu é homem ou tu é um rato?". O keeper respondeu "que nada, quem, toma cinquenta, toma cinquenta e um - e tomou um balaço. Então começou a chover tanto gol, mas tanto gol, mas tanto gol, mas tanto gol que, a aí, no fim do jogo, as clarinetas estavam rachadas, os bumbos e tambores furados! Os metais de sopro estavam em brasa; para resfriá-los, tiveram que pular o muro e fazer fila, a fim de trazer água em baldes, direto de uma casa vizinha. O coitado do sujeito da corneta, então? O pobre diabo criou papada de tanto assoprar, o maestro ficou de braço duro de tanta cãibra e viveram que levar o cara da tuba direto para um balão de oxigênio. O mais engraçado foi o que aconteceu com o tocador de pratos: pegou resfriado de tanto vento que apanhou.

Wednesday, October 13, 2010

A Culpa Original


"Comerás o teu pão..."


E disse o Senhor: “Maldita a tua terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos. Passarás oito anos estudando um monte de coisas das quais nunca tirarás proveito por conta da profissão que seguirás farás um segundo grau Monteiro Lobato para conseguir concorrer a um vestibular de merda concorrido de 20 vagas por candidato depois ficarás boiando num curso que escolheste e te arrependerás dele mas por pressão da família já que todos os teus irmãos e primos seguirão tenência na vida & terão carro do ano e terão uma vida estável com casa própria e casa na praia e serão sócios do Clube do Comércio e tu maldito que tu serás vergonha da família solteiro & pobre por conta de tua maldita vocação nunca jamais terás concluirás a duras penas graças a um crédito educativo pelo qual jamais terá condições de pagar irás colar grau e ficarás sem saber o que fazer da vida sem condições de fazer uma pós tendo água batendo nas barbas não terás dinheiro nem para uma rodade de chope como s amigos no Dona Neuza nem xis com batata frita do Cavanhas ou happy-hour no Pedrini nem ROLLET na Cidade Baixa nem almoço de negócios no Dado Grill nem putaria no Carmen's Club & tendo que arranjar um curso Senac de qualquer coisa para poder arrumar um emprego qualquer via CDL ou SINE de estoquista ou balconista ou vendedor ou atendente de telemarketing da NET porque tentarás arranjar uma vaga em algum concurso qualquer de Ensino Médio já que concursos de curso superior são de 4782 candidatos por vaga e você a essa altura do campeonato já terás esquecido tudo o que estudou no primeiro grau e no Monteiro Lobato e pobre e endividado não terás cabeça nem dinheiro para encarar uma apostila da Caixa Federal ou do Tribunal até que de tanto vagar como um gauche na vida até que mais por insistência do que por força de vontade tu maldito arranjarás um emprego fuleiro qualquer de auxiliar de limpeza na Petiskeira do Iguatemi ou vendedor ganhando aproximadamente R$ 499 por mês tirando o vale-transporte e o vale-refeição trabalhando de segunda a domingo exceto feriados porém tendo direito a um dia de folga para teres direito a morares numa vila a mais de 50 quilômetros do centro da cidade numa rua que atende por um número com direito a uma tevê com rede aberta porque a NET não chega lá e direito a um gato de luz e outro de orelhão”. E expulsou-o: e colocou ao oriente do Éden querubins armados de espadas flamejantes a fim de guardar para sempre o caminho da Árvore da Vida.

Tuesday, October 12, 2010

Essas crianças....


Debret

Falando em Dia das Crianças, eu me lembrei hoje de uma história que a minha avó materna me contou (aliás, devota de Nossa Senhora Aparecida) há muito tempo, e que aconteceu no tempo em que ela vivia na Estância da Quinta, lá no Alegrete — isso há priscas eras...escutem.


Ela foi visitar uma amiga comum de sua irmã, em outra estância, a Tia Iaiá. Essa amiga foi com um menino de uns oito, nove anos, que era amiguinho do filho dessa senhora. Eles iam passar a tarde de sábado lá, num bucólico sarau vespertino lá...


Quando eles chegarm lá, a Tia Iaiá estava fazendo goiabada na enorme cozinha. Absorto na tarefa de sua mãe, o seu menino (uns nove anos, também) perguntou que paçoca era aquela que ela estava enlatando.

— Isso é veneno para ratos — disse a mãe — se você abrir, vai se intoxicar, moleque. Isso mata, hein? Nem chegue perto, senão tu vais ver o que é bom para a tosse.

Claro que ao dizer que o tal "produto" era perigoso, Tia Iaiá estava espertamente (à maneira dela) se precavendo de que o filho da puta do moleque mantesse distância e não comesse tudo. E guardou as latas na dispensa da cozinha — aquelas de armário embutido, onde cabem duas pessoas dentro, e com folga.

Imagina.

Então chegaram as visitas. enquanto as senhoras fofocavam na sala de estar trincando suas chávenas de chá, os dois garotos, entediados, resolveram abrir uma enciclopédia, que estava na estanta da sala. No livro, eles então acharam várias daquelas gravuras do Debret, o famoso pintor da Missão Francesa, que fez aqueles desenhos do Brasil do começo do Século XIX.

Mas a gravura que mais os impressionou foi a de um grupo de escravos que iam sendo tocados estrada afora, com os calcanhares presos por uma corrente. Ficaram bestas de tão maravilhados de ver aquele monte de gente andando com o pé direito amarrado um no outro, como se fossem animais, com um sujeito de chapéu, bigodões e botas descendo o chicote no lombo deles.

Foi quando o garoto da Tia Iaiá teve a brilhante idéia: e se eles pegassem um rolo de barbante e fizesse com os pintinhos do galinheiro a mesma coisa?

E lá foram os dois moleques. Pegaram dez deles, puxaram o barbante e foram amarrando a corda nos tornozelos dos pobres bichos. Quando o décimo ficou atado ao liame, eles pegaram a pequena tropa e puseram os coitadinhos para caminhar no meio do quintal.

Enquanto os pequenos animais iam tentando caminhar em marcha numa mesma direção, trôpegos e confusos, os dois moleques rolavam de rir da cena. Riam feito dois fedelhos desprezíveis sádicos ante àquela cena dantesca.

Mas algo estava por vir.

No meio das gargalhadas, enquanto os pintinhos tentavam chegar ao galinheiro, um gavião que, no alto de uma árvore do quintal assistia friamente a tudo, deu um rasante estilo Red Baron e agarrou o primeiro da fila. Alçou voo e, condoreiramente, deu meia volta, se postou no galho mais alto da árvore.

Então começou a devorá-los, um por um — ajudado, é claro, pelo barbante.

Perplexos, os dois garotos entraram em parafuso. Estavam metidos numa bela encrenca. O gavião dizimou a prole da galinha da Tia Iaiá. Agora quem ia sentir o amargo sabor do chicote eram aqueles dois fedelhos desprezíveis.

Passou-se uma hora. As impávidas senhoras coneçaram a estranhar: aqueles dois moleques do barulho estavam quietos demais. O que havia acontecido com eles?

Levantaram suas respectivas ancas gordas do canapé e saíram casa a fora atrás da dupla. Nada deles. Começaram então a buscá-los nos locais mais improváveis. Foi quando Tia Iaiá resolveu abrir a dispensa.

Abriu as portas e lá estavam nossos heróis, ao lado das duas latas de goiabada já quase no fim, de barriga para cima, com ar mareado...

— Mas que porra é essa? — quis saber a ilustre senhora.


— Foi quando seu filho, num último suspiro de vida, replicou:


— O gavião comeu todos os pintinhos e nós decidimos cometer suicídio. Desculpa, mamãe.

Monday, October 11, 2010

A Violinista


Quartier Latin

A Cris é a mais linda flor do meu jardim. Ela é uma força da natureza: relampeja, sopra, chove, arde.

Alta, insinuante e tinha (tem) uma bunda linda. É recatada e discreta, mas sabe se insinuar. Detesta a solidão, mas vive cercada do seu clã dos Verdurin: ela é a minha musa proustiana, é o prólogo, o meio e o fim dos meus pobres devaneios. Linda, louca e inatingível. E superior a tudo e a todos. e desesperadamente linda.

Se irrita fácil, rejeita sem nenhum puder mas não gosta de se sentir rejeitada. Ela pode te esquecer por meses, mas ai de quem esquecer dela! Às vezes me dava um olhar. Eu via o tempo parar e vivia eternamente aquele momento fugaz.

Com seus quatorze anos ela parecia uma moça de vinte e quatro. Com vinte e quatro ela tem todas as galas de uma garota de vinte e oito; com trinta e um, ela vai ser a mulher mais linda do mundo, mas no entanto voltará a ter toda a pureza dos treze, na infinita pureza de um primeiro amor.

Ela é uma espécie de Ava Gardner da roça, mas já singrou seu Allstar branco pelo Quartier-Latin...

Não contei como isso aconteceu.

Ela era uma menina como todas as outras, misteriosa e perdida em si mesmo, e que não precisava ocupar a adolescência preocupada como eleitorado. Ela aprendeu música, gostava de dançar e aprendeu espanhol através de letras de tango. Foi uma surpresa para todos (eu, inclusive e tudo o que aconteceu depois, até hoje), quando ela resolveu aprender violino.

Ficava insuportáveis horas a fio decifrando os capricci do Paganini. Manejava o arco com a destreza de uma amazona – só Deus sabe como ela aprendera tanto em tão pouco tempo. Foi quando ela disse que queria ir à Paris para estudar num conservatório.

Todos tentaram convencê-la a desistir da idéia. Quanto mais insistiam, mais aquilo fermentava em sua pequena cabeça louquinha. Quando Cris bota uma idéia na cabeça, nem os deuses conseguem demovê-la. Ela é do tipo que faz as malas duas semanas antes de viajar. Eu achava graça naquilo, como se ela forçasse a Primavera a florescer mais cedo, por seu puro e simples capricho de desejar algo.

Custou tempo, mas ela conseguiu o dinheiro. Disse que ia se virar quando chegar lá (me esqueci de dizer que ela sabia francês, acho que aprendeu na Aliança ou no Julinho. Ou nos dois).

Então ela foi para Paris. Ficou quatro anos lá. Nesse meio tempo, quase não chegou a se comunicar conosco. De repente, sem qualquer aviso, ela voltou.

Ela chegou toda de preto, como uma George Sand e com um xale, também preto, por debaixo do pélago dos seus longos cabelos negros. Estava mudada, era uma mulher de verdade. Era a Ava Gardner mais linda que a Ava Gardner, porém com uma discreta indecifrável elegância. Também havia abandonado seus Allstar brancos. Trouxe também um menino.

- Este é meu filho, Enrico.

E, voltando-se para o menino, ela disse:

- Conheça a vovó e o vovô, Enrico.

Ele pôs os olhos gulosos nas órbitas dos velhos (coisa de criança), que choravam de alegria e perplexidade.

E deixando os três a só, foi rever o seu vetusto e pequeno quarto, nos fundos do corredor. Sem dizer palavra abriu as janelas e, espanou a poeira dos seus aposentos e entrou na vida. Aquela menina cheia de poesia não existe mais.




Violino. Aqui, ó!

Saturday, October 09, 2010

John e o leão-de-chácara


John fanfarrão

John Lennon tava saindo lá do Cavern Club com a guitarra depois de um show, quase de manhã. Passou pelo leão-de-chácara — isso lá por 61.

Olhou de soslaio para o sujeito, metido num casacão estilo Otto Von Bismarck. Ele meteu a mão no bolso do cara e disse: "toma aí, chucrute (kraut), isso aqui é para tu tomar um uísque depois do expediente". E foi embora.

Comovido, o porteiro sorriu e bateu continência para o guitarista dos Beatles, que ganhou a rua e sumiu na névoa da manhã. Então ele meteu a mão no bolso e achou três pedrinhas de gelo.

Tuesday, October 05, 2010

O Câmera do Leão


Walmor Bergesch, fundador da TV Gaúcha. Ao lado, uma das famosas câmeras do Canal 5


Outro dia, um operador de áudio me contou uma história muito engraçada, lá dos tempos dos primórdios da televisão aqui no Rio Grande do Sul.

Foi assim: uma vez, a TV Gaúcha fez um teleteatro da Paixão, era O Manto Sagrado - foram, ao todo, três capítulos de uma hora cada, isso em 1963, quando a TV Gaúcha não era da hoje RBS.

A novidade era que, dessa vez, eles iam, pioneirísticamente, fazer externas, loucura de um famoso diretor da época, o Nelson Vaccari. Por exemplo, a filmagem passada na história na ilha de Creta foi feita aqui na Ilha do Presídio. A atriz tinha que saltar de uma altura de quase dez metros (tinha uma equipe de resgate, claro) e não sabia nadar, imagine. Tiveram que fazer seguro de vida para ela, era a Rosa Maria, então esposa do radialista Pedro Amaro.

Até a Elis Regina fez uma ponta como uma hebréia, cantando, a cena foi filmada na praia de Ipanema (a de Porto Alegre, lógico).


Mas as histórias de bastidores são folclóricas.

Um ator que fazia o Demetrius foi manejar um arco e flecha e quase matou o cinegrafista. Para a cena da orgia de Herodes, eles puseram uma equipe de prostitutas. Eles haviam recrutado menininhas inocentes que, sob o olhar zeloso das mães, não podiam mostrar pernocas, decotes, nada. Então foram chamar umas garotas lá no Beco do Oitavo. Quase acabou em putaria.


Contudo, a melhor foi uma cena em que os cristãos são cruelmente atirados às feras, num circo em Roma. Era o ápice. Tipo, uma liliputiana tevê do extremo sul do Brasil querendo dar uma de Cecil B de Mille. Eles gravaram tudo no antigo campo do Cruzeiro de Porto Alegre, na rua Natal.

E fizeram todo o cenário de época comme il faut, cobrindo os alambrados para fazer de conta que era uma muralha de pedra, colocaram a multidão, devidamente fantasiada. Também destacaram uma tropa da Brigada Militar para servir de legionários. O 'povo' ficava naquela arquibancada que ainda existe, hoje na subida do cemitério João 23.

Mas faltava o leão, né. Aí acharam um, num circo do interior. Botaram ele camuflado atrás das "pedras" dentro da jaula, e soltaram no "circo romano" vazio com um cameraman instalado num buraco no chão, pra filmar o leão "atacando" os cristãos em contra-plongée (num ângulo de baixo para cima), com o objetivo de imprimir mais veracidade à cena...

O câmera ficava escondidinho num buraco camuflado com madeira e serragem por cima, com um furo no forro só para a lente captar a cena e o leão. Foi quando soltaram o nosso intrépido rei das selvas que, ao invés de passar batido por cima do cameraman, ele escorregou e caiu de cara justamente no buraco.

Tipo, o leão ficou enterrado no buraco com a bunda de fora. Foi um cagaço geral na equipe, o camera simplesmente se borrou todo e desmaiou. Não foi devorado pelo bicho acho que por falta de espaço. E não ia conseguir sair sozinho.

Aí a equipe foi puxar o animal pelo rabo. Quando ele saiu, ele ficou putíssimo da cara, saiu correndo e, no auge do seu leonino estresse, foi atrás de todo mundo, deu uma patada violenta numa escada, desmontou a escada, depois foi tentar entrar na jaula e errou o buraco da "mureta de pedra" e desmanchou o alambrado do estádio.

Prá quê.

Porra, imagine, o público ali viu o bicho e saiu correndo, eles bateram todos os recordes de salto em altura, em distância, salto com vara, pentatlo moderno, imagina, os caras escalando aquela mureta de merda de tão íngreme.

Depois ele voltou para o campo, e só um diretor e mais um "legionário" conseguiram acalmar a fera já ronrronante, de barriga para cima, com duas "lanças" de cabo de vassoura.

Esse camera depois foi trabalhar na Globo, essa história foi bastante difundida por anos e o rapaz na câmera, o James, ganhou para sempre o apelido de "o câmera do leão".

Saturday, October 02, 2010

Boca de Urna

Bem amigos, já que o homem é um animal político, como diria a bicha estagirita do Aristóteles e que o pior analfabeto é o analfabeto político, como diria Pepino, o Breve, este humilde redator que, com efeito, não é nenhum filho de chocadeira, SIM, tem candidato para esta eleição e - pasmem - vai abrir o seu voto.

Sem maiores delongas, chega de intermediários, no dia 3 de outubro, vote 99: CECÍLIA MEIRELES NA CABEÇA.


Uma fábula


Oi amgs

Era uma vez um jumento falante, orelhudo e ligeiramente cinza. Ele puxava pelas ruas uma carroça de carretos. Um dia, um homem viu o jumento rezingando:

"Ai de mim, ai de mim, mas que droga de vida que eu vivo, faça chuva ou faça sol, eu puxando carretos". O homem ficou surpreso, e perguntou:

"Meu amigo jumento, se você pode falar, por que você não se rebela, não fala que você está sendo explorado dessa maneira lamentável e lastimável, meu amigo jumento?".

O jumento respondeu: "meu amigo ser humano, se esse celerado do meu dono descobre que eu falo ele ainda vai me mandar gritar OLHA O CARRETOOOOO".


MORAL DA HISTÓRIA: Não tem moral nenhuma, vão dormir todos vocês

Saturday, September 25, 2010

500 REAIS


A Ponte de Azenha


Patrício, não me avexo de uma heresia;
mas era Deus que estava
no luzimento daquelas estrelas

Simões Lopes Neto





É aquela história que a minha vó já dizia
: se você quer que alguém faça alguma coisa, por Tutatis, peça para quem tem bicho-carpinteiro, hypocrite lecteur, mon semblable, mon fere; para maturango, não peças nada - jamais. Escute.

Minha história é a seguinte. Meu chefe mandou me confiou um envelope pardo com R$ 500 para que eu depositasse na conta da empresa. Problema é que me pediram para comprar uma passagem para Itaqui, na Rodoviária. Tudo isso numa sexta-feira véspera de feriadão (era Semana Farroupilha).

Eu, como sempre, com panfletos, chaves, troco de todo o tipo nos bolsos, saí correndo, mala de garupa às costas e tudo (sempre que me vêem de mala de garupa, me perguntam se eu sou de Uruguaiana, não sei o porquê, mas azar)

Fui primeiro na Rodoviária. Uma fila enorme, muita gente. Comprei as passagens. Depois, tive que ir numa lotérica e, antes, parei numa lanchonete para beber algo. Bebi uma, duas, três cervejas. Já estava quase no clima do feriado.

Quando era quase quatro da tarde, eu entrei na agência. Revirei a mala, bolsos, e nada. Cadê os R$ 500? Olhava para os clientes para lá e para cá, alheios à minha confusão de idéias. E eu revirava de tudo o que é jeito os meus bolsos. Mala de garupa, Mala de garupa, bolsos, bolsos da jaqueta de brim. Nada.

Perdi os R$ 500. Só tinha o troco das passagens e mais um dinheiro que eu carregava sempre comigo. Tudo passou pelo meu pensamento lívido como aquele fim de tarde: todo o trajeto. Fila, Rodoviária, loja, ônibus, lotérica, Rodoviária, lotérica, fila. Onde eu esqueci aquilo, meu Deus?

Meu Deus. Certo é que, onde quer que fosse, eu havia perdido tudo para sempre. Era dinheiro, apenas dinheiro e nada mais do que dinheiro. Quem achou desapareceu na poeira do tempo, por mãos excusas e inocentes. Eu estava ficando pálido de desespero.

- Você está bem, meu filho? – Perguntou uma velhinha.

- Eu fiz besteira, minha senhora, fiz besteira, eu perdi dinheiro do meu chefe – balbuciei. Preferia antes que o diacho me levasse com suas botas, mas agora, o que vai ser de mim?

Fiquei com aquela sensação de quem quebrou algo e fica imaginando que, há poucos minutos antes, estava tudo bem na santa paz de Deus. Fiquei também pensando como a vida, num pequeno movimento, faz tudo cair por terra como um castelo de cartas. Não, eu também tinha parte nisso, e muita.

Eu fui displicente em guardar aquele valor (fiquei vagando em meus pensamentos). Eu fui negligente e irresponsávele não percebi que isso podia acontecer, mesmo sabendo que já fiz coisa do tipo antes. Me odiei por me permitir cometer novamente tamanho ato pueril, ainda mais guardando algo que alguém havia confiado em mim. Pior: quem vai acreditar que eu perdi? Vão achar que eu roubei & menti que perdi para ficar com os R$ 500...

Eu andava na rua à parte, eu não fazia parte da euforia da multidão. Pássaros psicodélicos de 150 kg voando, camundongos de chumbo e girafas coloridas viadutos vomitando carros, brigadianos disfarçados de cavaleiros da Távola vendendo cachorros-quentes para hippies imundos na rua, a Dama do Lago singrando as águas solitárias do Guaíba, as ondinas wagnerianas nuas a correr pelo Cais na cidade dourada da liberdade e as suas santas irmandades aguardando o Fim enquanto entrelaçavam seus cabelos dourados diante da Fonte do Porto sob o manto de esmeralda de um exército de gafanhotos que consumiam o bulício e a loucura da tarde enquanto o Guaíba ria pelos cotovelos e o vento uivava pelo alto dos edifícios de rocha pura e a Mboiotatá devorava olhos de luz pelo Largo da Conceição afora, etc.

Subi toda a Conceição enquanto via as pessoas felizes. Desci o Rosário até o Bonfim, cruzei com um bando de tropeiros que levava a sua cavalhada para o Acampamento Farroupilha, cruzei a João Pessoa e fui descendo a Azenha quando começoua chover forte. Em duas quadras, só minhas cuecas estavam ainda secas. A água havia entrado em meu Allstar furado. Toda a desgraça da minha vida aziaga chovia com aquela chuva sdobre mim. Não me sentia em lágrimas, tamanha era a choradeira que caía do Céu.

Iam me acusar de roubo! Ladrão! É exatamente isso o que eu sou, um ladrão barato, um batedor de carteiras do Polícia em Ação que se vende por nada e que põe toda a sua virtude fora por uma ninharia! Não, por Deus! Eu perdi o maldito dinheiro, meu Deus! Isso não! Não posso ser réu de juízo por algo que eu não fiz! Mas quem vai diabos vai acreditar em mim? Em quem eu posso confiar, agora? Onde eu vou conseguir dinheiro para repor isso, meu Deus?

Pensei em morrer ou me matar. Cheguei debaixo das palmeiras imperiais da Azenha e fiquei olhando a fúria das águas lamacentas quase a transbordar furiosamente em seu curso no Dilúvio...

Subi na ponte. Ningém podia me ver ou reconhecer, a chuva transformou a paisagem noturna em luzes de faróis e carros apressados correndo de volta para casa. Fiquei parado na mureta da Ponte da Azenha, ali onde os farroupilhas outrora invadiram a cidade, mas agora debaixo de uma chuva torrencial. O Dilúvio agora serpenteava hectolitros de lama, galhos de árvores, cadáveres de cachorros e estofados. Eu ia dar um salto ornamental para o fim do meu sofrimento.


Então bradei:

Pereça o dia em que nasci.

E a noite em que foi dito: uma criança masculina foi concebida! Que esse dia semude em trevas! Que Deus nas alturas não se incomode mais com ele! Que as trevas e a obscuridade se apoderem dele, que as nuvens o envolvam, que eclipses o apavorem, que a sombra o domine! Que esse dia não seja contado entre os dias do ano, nem seja lembrado entre os meses. E que seja estéril essa noite para todo o sempre, Amém.


Então eu me lembrei dela. Seus cabelos castanhos, sua pele ebúrnea, sua verruguinha na bochecha direita, sua voz pueril, do seu riso engraçado quando eu falo as minhas besteiras, doseu cálido olhar suave quando me olha, do seu Allstar branco, da sua adorável teimosia, do óculos dela colado com fita isolante Scotch, do seu sorriso que sempre me faz sorrir em minha alma profunda. Eu tenho que vê-la novamente, MAS ANTES TRNHO QUE acabar com todo esse drama tolo que eu me meti.

Um vira-latas (branco com as patas e o olho esquerdo carimbado de preto) me viu pendurado e, dado o insólito da situação, me fitou do rés-do chão da calçada abanando o rabo lentamente, com a cara pingando chuva.

Deus existe. Ele certamente estava naquele momento em que eu desci da ponte. Ele fez aquele vira-latas me sentir um tolo ali na ponte. Minha mala de garupa agora era um filete de pano encarcado no ombro.

Voltei para casa em fúria comigo mesmo: a culpa é minha, eu vou contar a verdade, e vou dizer que vou arrumar o dinheiro de volta, e com juros. Se isso aconteceu, foi para que eu aprendesse e não repetisse tamanha negligência nunca mais na minha vida. Ia, sei lá, arrumar um emprego de telemarketing nem que seja por dois malditos meses, para juntar a grana, depois assino a rascisão e dou baixa na carteira, ou, sei lá, continuo, azar. Havia uma solução. Sempre vai existir uma solução.

Cheguei em casa noite escura num estado de penúria. Meu pai me olhou sem me ver, e disse: “a janta está pronta”.

Entro no quarto escuro, tiro os tênis ensopados, abro as cortinas e acendo o abajur. Na minha escrivaninha, o envelope de papel pardo. Surpreso, abro o envelope. Lá estão os R$ 500.

Fiquei rindo como um tolo. Meu pai aparece de soslaio no marco da porta: “aconteceu alguma coisa?”.


- Graças a Deus não aconteceu nada - respondi.

Tuesday, September 21, 2010

TEATRO PATO MACHO

Capitalismo Selvagem

Tragédia em um ato
Personagens: empregador e o candidato
Época - atemporal


ATO ÚNICO:


Cantidato: Bom dia, eu vim responder a uma proposta de oferta de emprego.

Empregador: Muito bem, sente-se.

Candidato: (se senta)

Empregador: (com firmeza) Muito bem, estou vendo que você é dependente, mora de favor e está desempregado há mais de sete meses. Qual é a sua renda?

Candidato: nove salários mínimos, senhor.

Empregador: Onde você mora? Bairro, etc?

Candidato: Moro na Boa Vista, mais precisamente na praça Província de Shiga, senhor.

Empregador: Muito bem. Você tem carro?

Candidato: (com um sorriso surpreso) Sim, dois. Um Jaguar e um Lambourghini branco.

Empregador: Casa ou apartamento?

Candidato: Cobertura, senhor.

Empregador: Qual é a sua formação, tem curso superior, qual?

Candidato: (boceja) Coimbra, Cambridge e Oxford, senhor. Ciências da Comunicação, Sociologia e Filosofia, respectivamente.

Empregador: Você viaja com frequência? se viaja, para onde costuma viajar?

Candidato: (com ar de desdém, polindo as unhas das mãos) Viajo pouco, senhor, mas no último verão, eu estiquei um passeio até minha mansão de 44 quartos em Vilefranche-Sur-Mer, na Riviera Francesa...

Empregador: (tira os olhos do currículo do candidato e, com a rabeta dos olhos, fixa a vista na cara dele) Espere aí, você está me fazendo de bobo, é?

Candidato: Mas foi o senhor quem começou!


(Cai o pano bem rápido)

Saturday, September 18, 2010

Cidade Baixa Blues

Dinheiro não é tudo. Mas para sair com um amigo, de noite, sem grana, ou seja, sob o mecenato de um amigo, é complicado. Ainda mais se você souber que ele é um galanteador nato e, na verdade, não é bem amigo de verdade.

É aquele tipo de amigo que te procura para não sair sozinho, ou para não ficar sozinho num boteco da moda caso não ache nenhum parceiro no meio do pessoal. Claro que, sendo um galanteador nato e tenho grana, ele logo logo consegue puxar conversa com um trio de meninas que, com efeito, não estão ali a trabalho.

Tinha um chapa meu que um dia me achou na rua, e me pediu o Messenger. A gente trocou uma conversa ou duas e, dias depois, ele marcou uma balada ali na João Alfredo. Jantamos num restaurante ali perto e depois zarpamos para um bar em frente, que todos conhecem. Rolou conversa com umas minas, a gente achou uns conhecidos, o show começou e estava tudo bem.

Só que ao contrário dele, eu não tinha como oferecer cerveja para nenhuma delas. O cara achou mais um parceiro e como elas eram três, havia alguma relativa possibilidade de todos se darem bem.

Mas naturalmente eu me conheço e, nessas situações em que você fica na obriga, ou elas são lindas demais para você ou você é feio demais para elas, ou quase todas elas.

Fora que não havia como conversar com aquela música toda e eu, sem beber nada ou, por outra, simplesmente bebericando um copo de chope há pelo menos duas horas e meia para dar a entender que eu estava bebendo, eu sabia que a noite dependia de dinheiro. E eu era apenas um pajem de merda naquela noite triste.

A tendência era piorar, e foi o que aconteceu. O bar lotou, as meninas foram para outro canto do bar de tão entediadas, enquanto o meu amigo estava quase conseguindo um esquema com uma delas. Eu pensei rápido: é lógico, ele pega a mina, me deixa um troco para a consumação mínima e vai embora.

Numa progressão fulminante, ele apareceu. Disse: “bah, Marcelão, tu vai me desculpar, mas eu vou ter que sair. Aqui tá a grana da consumação”. Ele ainda estava lá dentro conversando com a garota quando eu discretamente peguei o porteiro e ganhei a rua. Devia ser ainda umas onze e vinte da noite.

Podia de repente esticar a noite, subir a República e tomar um engradado de Polar e depois voltar para casa para dormir o sono dos justos. Pior é que como convite surgiu no fim da tarde, pelo telefone, não pude colocar a minha melhor roupa. E não tinha dinheiro.

Wednesday, September 15, 2010

No MSN

Ela: oi
Eu: (estranhando um contato depois de cinco meses) oi
Ela: tudo bem?
Eu: saudades
Ela: tava doente,fui no médico e agora estou melhor
Ela: hoje foi um dia cheio, acordei, peguei o ônibus, fui para uma reunião de pauta com o pessoal da emissora, depois comi uma barrinha de cereal e tive que atravessar a cidade toda porque tinha que me reunir com a minha orientadora,discutir oanteprojeto, depois pegar uns livros na biblioteca, depois tive aeróbica, depois fui pagar algumas contas e depois ainda tive aula até as dez e quinze
Eu: (comovido)puxa, eu estava morrendo de saudades tuas
Ela: não tô entendendo o rumo dessa conversa
Eu só quis dizer que queria ter a oportunidade de dizer que eu estava morto de saudades...
Ela: sei lá
Ela: me esqueça
Ela: você fica me pressionando
Eu O.o
Ela: só queria saber se você estava bem
Ela: me esquece
Ela: agora vou dormir
Ela: estou cansada
Ela: sou uma pessoa muito ocupada

Friday, September 10, 2010

Sic Transit

Atendente psicótica do telemarketing do Itaú vamos fazer um Pic aqui em casa sua linda?

O senhor está interessado?
Então, o senhor está interessado?
Por que o senhor não está interessado?
O senhor tem que estar interessado, veja as vantagens (observem a função fática da linguagem)
Mas, afinal de contas, depois de toda a explicação do plano, o senhor não entende que isto será uma vantagem para o senhor?
Mas o senhor não acha que por apenas (não lembro o valor) debitado em sua conta, o senhor pode ter a chance de investir em algo que pode ser favorável para o senhor a sua família (que família)?

Wednesday, September 08, 2010

Meu Diário

Sonhei hoje que eu cheguei nos Céus e me atendeu o São Pedro com uma prancheta Umbro, estilo Joel Santana. São Pedro vai me fazer uma dinâmica de grupo. "É deixa ver, Marcelo, né, venha por aqui, tem mais sete candidatos". Ele dizendo: gentem, tenho 3 vagas aqui, uma para imadiato e duas de espera, no Purgatório. Eu esfreguei as mãos e pensei: "um purgatoriozinho já tá mais do que bom"

Certo momento, "Quem sabe de cor aí Romanos 8:35?". Aí vai aparecer um maldito beato e recita, na ponta da língua: "Quem vai nos separar do amor de Cristo?". Eu: "caralho". Outra, Lucas 19,10: "outro na salinha: "porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que havia se perdido". Bom, me fudi.

No fim, São Pedro disse: "os escolhidos a gente liga, tá legal, gente? Eu, perplexo: "porra, até aqui eu me fodo com essa merda". Aí fui para o Inferno de Dante.

Chego lá, um homem de barbas longas, vestes negras, e túnica,olhar sombrio e inquisidor e tez impassível me atende. Arrisco: "você é que o Dante?". Ele diz: "não, eu sou o Velho Barreiro". Aí eu ri: peraí, cara, isso é um sonho né? Tá na hora de acordar.

Tuesday, August 31, 2010

Eu & a Cyd Charisse


Cyd



Minha cadela Frida amanheceu doente, hoje. Ela estava estranha demais, a ponto de sequer me sorrir latindo com o rabo. Levei ela correndo no veterinário; na verdade, força de expressão, é uma veterinária. Uma morena de lábios provocantes e pernas longas, enfim, quase uma Cyd Charisse.

Ela tratou minha cadela com todo o amor e carinho. Ficou horas conversandocom ela, como se fosse capz de curar aquele pobre animal com sua voz doce e amigável. Depois, afagou a Frida, e explicou a ela (e a mim, mas à ela, principalmente) qual seria o procedimento a ser tomado. E eu fiquei ali segurando a Frida pela crina enquanto o soro corria veias afora. Depois, Cyd Charisse fez de tudo para que a vacina não fosse dolorosa: acariciava o pequeno dorso da minha pobre schnauzer,para que obicinhno entendesse que a aplicação era para o seu bem.

Em seguida, a Cyd liberou a Frida. Agora de tarde, ela quis saber como a Frida estava, e portanto me igou. Disse que ela estava bem, e então a Cyd recomendou várias coisas, naturalmente muitíssimo (como diria Augusto dos Anjos) preocupada para que a Frida convalecesse a contento e ficasse radiante e disposta novamente para correr e brincar, como é típico de um schnauzer.

Muito emocionado (estava meio emocionado por outras questões, essas que não tem nada a ver com o caso, enfim, eu me despedi), e desliguei. Mas mais tarde, ligeiramente perplexo, eu fiquei comparado o modus operandi da Cyd e a forma com que a gente é tratada por médicos em geral — em geral com uma íngreme frieza hospitalar para conosco e tal, daqueles tipo atendente do Beco dos Livros, que pergunta e responde sem ao menos olhar na nossa cara de espanto. Enfim. Depois de tudo isso, eu cheguei a uma conclusão conclusiva: da próxima vez que eu ficar doente, vou me consultar com a Cyd Charisse.

Tuesday, August 24, 2010

A morte e a morte de D. Vicente Scherer

Outro dia eu cometi um ato falho, estava falando dos desafetos do Nelson Rodrigues e,entre eles estavam o pensador católico Gustavo Corção, o fundador da AGIR Editora (e também pensador católico), Tristão de Atahíde e o Dom Hélder Câmara.

Não é o que eu iria dizer, ou por outra, ocorre que, ao citar D. Hélder, eu falei Dom Vicente Scherer. Ninguém sabia de quem eu estava falando, até que eu me dei conta que citava por engano o antigo Arcebispo de Porto Alegre (de 1947 até 1981) porque eu descobri que ele havia sido pároco na igreja São Geraldo (bairro operário da cidade), onde meus pais se casaram e este que voz escreve foi levado intrépida e galhardamente à pia batismal.

Mas depois me dei conta que o D. Vicente é uma figura hoje pouco lembrada (e pouco biografada), mas que, mesmo não sendo daqui (ele era de Bom Princípio), foi um dos mais ilustres e folclóricos personagens desta paisagem urbana. Claro que apenas peguei a deixa do meu execrável ato falho paraacrescentar um fato que tem mais a ver com o lado folclórico dele, e que muita gente acha que é lenda urbana.

A história é a seguinte. O Dom Vicente tinha um programa na Difusora toda terça, chamada A Voz do Pastor (ele assinava um artigo de fundo semanal com o mesmo nome na imprensa porto-alegrense, que seguiu no Correio do Povo mesmo depois da sua morte, em 1996, mas redigida obviamente pelo seu sucessor, e não por Dom Vicente in excelsis, vocês entenderam).

Como eu ia dizendo, o Dom Vicente falava nos microfones da Difusora toda semana e, de tanto ouvir a sua vóz fina e anasalada ("mistéeerios gozóooozos"), em pouco tempo, quase toda Porto Alegre sabia imitá-lo. Não era raro apareceram trotes de toda a espécie, sempre "protagonizados" pelo nosso "arcebispo" ao passo que a vítima, com efeito, temendo estar falando com o próprio Dom Vicente, ficava com medo de revidar. Ou não.

Ou não porque, certa feita, no fim dos anos 50, num domingo sonolento de sol, final de tarde, um pouco antes das seis, uma voz de mulher ligou para a então recém fundada rádio Guaíba.

— Pronto, boa tarde — disse a senhora — Eu sou a Madre Heloísa e estou ligando aqui da Cúria Metropolitana para informar, com grande tristeza, que o nosso querido arcebispo, Dom Vicente Scherer, acabou de falecer. Se por acaso os senhores desejarem mais detalhes, por obséquio, liguem para o Cônego Pedro Abelardo, número 5923.

Atônito e sob o impacto de receber aquela hercúlea bomba no colo, o redator de plantão foi confirmar o trágico sinistro (perdoem o pleonasmo. ou não). Atendeu o tal Cônego Pedro Abelardo, muito consternado:

— Sim, é vrdade — respondeu o clérigo. — Estamos muito consternados com tamanha infausta. Ele prostrou o seu deradeiro suspiro...

Num átimo de minutos, a Guaíba irrompia o éter com uma edição extraordinária do Corrspondente Renner (saudoso, diga-se de passagem) enquanto os sinos da Cetedral dobravam (a rigor, eram seis da tarde e eles sempre tocam às seis da tarde — ou não).


Uma hora depois, descobriu-se que era um trote, e que o Dom Vicente estava vivão. O então chefe da redação da emissora, Flávio Alcaraz Gomes, e o diretor da Guaíba, Arlindo Pasqualini irromperam do seu dia de folga para acompanharam o desenrolar dos acontecimentos quando ficaram também duplamente surpreeendidos com a tremenda bariga deflagrada pelo Correspondente.

Pasqualini queria triturar o pobre redator que caiu na pegadinha (embora tenha recebido confirmação embora fria, de qualquer forma, indesculpável, mas eram outros tempos românticos e floridos e dourados & isso hoje não acontece mais não é mesmo gnt). Como ia sobrar — e devia sobrar — para alguém, esse alguém foi o repórter.

Nesse meio tempo, durante a noite de domingo e a segunda inteira, a central de telefones da Guaíba foi infestada por trotes de gente ligando para tirar sarro da barrigada da emissora e, com efeito, imitando o jeito de falar de Dom Vicente...


Mas nosso herói não levou aquilo a sério como Pasqualini, que tinha a credibilidade do jornalismo da rádio a zelar. mas como um valor mais alto se "alevanta", como diria Camões, o nosso arcebispo soube da demissão do redator e, numa sublime missão de paz, decidiu ligar para a Guaíba para falar com o "capitão". Scherer queria que eles voltassem atrás, o perdoassem, em nome dos céus, e o reintegrassem à redação.

Dom Vicente liga para a Guaíba. Alguém atende. Ele fala:

— Alóooo, aqui quem fala é o Dom Vicéénte Scherer, eu queria rogaáar ao doutoóóór Pasqualini para que ele voltasse atrás e...

— Ora, vá à merda!

E desligou.

No dia segunte, surpresa: o Dom Vicente apareceu pessoalmente na sede da Caldas Júnior, para tratar do caso. Da entrada até a porta da Guaíba, no segundo andar, foi uma procissão de beija mãos e de "louvado seja Nosso senhor Jesus" até que Pasqualini o recepciona. Os dois se abraçam, o diretor beija a mão de Dom Vicente, que sorri para Pasqualini e dispara:

— Quer dizer que além de me matarem vocééés me ressusitam e ainda me mandam à merda, não é?

Friday, August 20, 2010

Uma taça e um sonho




Meu amigo Parsifal me mandou isso, ontem. Ele é colorado fanático, e tem mais ou menos a minha idade.

Ele me disse: "cara, me lembro quando o Inter foi campeão do Supercampeonato de 2002. Era o primeiro título desde, sei lá, acho que 1998",disse. Aí me falou que saiu com a camisa do clube na rua e ouviu de dois gremistas, na rua (minto, na fila da Biblioteca da PUCRS, ele disse). "Só porque ganharam esse campeonatinho tiraram a camisa do armário".

Quase se botou no autor do gracejo. Mas se segurou. Depois foi o drama do Brasileiro daquele ano, e falou daquele São Caetano e Inter, na última rodada: o Inter precisava de 3 pontos para a vaga na Libertadores e levou 5 em São Caetano do Sul.

O cara adoeceu, tava com o complexo de Vira-Latas incubado. Depois, a duras penas, veio aquele jogo contra o Boca, em 2004. Um desastre em Buenos Aires, a ilusão da reação no jogo de volta. Goleiro do Inter sofreu um gol sintomático, de clube que tem sapo enterrado. Bola bate nas costas dele e entra. Azar de perdedor. Me disse que sempre que saía na rua, um gremista amigo dele inticava: "ão ao ao, só ganha gauchão!".

disse que a saída do jogo era um misto de orgulho por disputar uma parelha numa partida de caráter internacional e de frustração. Ele disse que sacudiu um amigo na frente do Celeiro de Ases, sentpu no meio-fio e chorou lágrimas de esquicho.

"Porra, cara, essa é a nossa diferença deles! Quando a gente tava em baixa, eles aproveitaram e chegaram no topo. Quando eles estão em baixa, o nosso time não sabe aproveitar! É o time do quase mesmo, droga!". E as lágrimas caíam para os lados, como um filme mudo. Era a imagem do palhaço da ópera.

Veio 2005 e e Campeonato Roubrasileiro. E a anulação dos jogos. "pora, mas como pode?", ele dizia, crispado de espanto. Fim do ano, ele, putíssimo, berava: "porra, cara, roubam a gente daquela maneira e essa direção de merda fica comemorando os 30 anos de 75. mas o que é isso? Prêmio de consolação era uma Libertadores. Mas era tanta injustiça que o limão ia virar limonada.

Ia porque o Inter era favorito e perdeu o Gauchão mais ganho de todos os tempos e em casa. Veio a Libertadores e o resto todos sabem. Mas, como dizia o Sinatra, o melhor ainda estava para vir.

Problema era o complexo de vira-latas — diz ele mas, como qualquer torcedor, ele entende que até é uma hipótese plausível. O xis da questão era entender como o clube conseguiu superar o doloroso estigma de ser o time "do quase" e de viver do passado só para elaborar tudo como um ciclo que acabou. É um problema de muitos times, independente da torcida. Nelson Rodrigues tecia inúmeras tesas sobre isso, principalmente quando ninguém imaginava que fosse possível colocar o futebol no divã. O sapo era psicológico.

Mas o engraçado foi ver o cara ontem. Tava todo de vermelho, com uma lata de cerveja, e vivendo numa espécie de transe, de mundo paralelo. Parecia que tinha visto a face de Deus na sarça de fogo e havia descido do monte com as tábuas da Lei. E a sua cabeleira tinha um quê de bíblico, de Moisés de Cecil B. de Mille.

Ele nem acredita. Ninguém acredita, mas tanto faz. só sei que largou o psiquiatra. E o Internacional definitivamente também. É aquela coisa; se a história tem um fim, ela tem que terminar com uma taça e uma volta olímpica. a explicação que fique para os deuses do futebol. "Se a bola bate nas costas do goleiro hoje, ela sai prá escanteio", ri o meu amigo Parsifal. Ele bebia a cerveja com uma sede brutal e ria pelos cotovelos feito um fauno,feito a Laranja Irritante. A cerveja saía pelo nariz dele.


Ah, ele disse que achou o cara que tirava onde dele. O Parsifal olhou para o sujeito de alto a baixo, bateu no distintivo da camiseta e bradou: "ão, ao, ao, só ganha gauchão!!!!!".