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Sunday, February 16, 2020

Californa Dreamin'


Cartaz do documentário

Assisti finalmente esses dias ao documentário Echo In The Canyon, que conta a história de uma cena musical que aconteceu na Costa Leste dos estados Unidos, mais precisamente em Los Angeles, durante os anos 60. Dirigido por Andrew Slater, e produzido e apresentado por Jackob Dylan, o filme, que está no site Netflix, me lembrou outro documentário, mais ou menos no mesmo estilo, o Wrecking Crew, produzido pelo Denny Tedesco, filho do Tommy Tedesco, que integrou o grupo de músicos baseado na capital da California, e que conta a trajetória desses homens e mulheres que,  trabalhando nos bastidores da indústria musical norte-americana, foram responsáveis por tocar e arranjar talvez a melhor parte se não do pop rock ianque da época, pelo menos o melhor da música de cinema e dos grandes clássicos do que se chamou o ‘California Sound’.

Se o documentário de Tedesco fala dos músicos que, mesmo que de maneira informal, estavam na medula dos grandes sucessos do pop dos anos 1960, o de Slater, de forma dialógica, conta a outra parte da história, inclusive contando com depoimentos de fontes em comum, como Lou Adler, Brian Wilson e Roger McGinn.

O que eles têm em comum é que, sob o impacto da Invasão britânica, o mercado da música estadunidense mudou de forma a moldar-se a um outro tipo de padrão de entretenimento e de produção e consumo de músicas. Ao mesmo tempo, a indústria musical se desloca da Costa Oeste (concentrados na Broadway e o chamado Brill Bulding, uma continuação do Tim Pan Alley) para a Califórnia. A cena musical, a partir de 1965, se concentrará em Los Angeles e arredores.

Um exemplo de como essa cena mudou está no depoimento de Michelle Phillips: tanto ela quando Mama Cass e John Sabastian (e outros) até 64 estavam disputando um espaço em Nova Iorque, à moda dos músicos folk que tentavam carreira nos bares do Village. O fato é que o fenômeno da Beatlemania alteraria totalmente os padrões: Cass  e Phillips, que tocavam em grupos folk como os Mugwumps, mudaram para o rock. Parte da turma (com Zal Yanovsky) iria formar o Lovin’ Spoonful – uma versão pop rock de uma jugband enquanto Michelle e Mama (com Donny Doherty) iria formar o The Mamas and the Papas (como eles contam de forma bem-humorada na canção “Creek Alley”).

Da mesma forma, garotos como McGinn e David Crosby, que tentavam a sorte como um duo folk no Village, sob o impacto dos Beatles, resolvem virar uma banda de rock.  Curioso notar como a ideia de um conjunto de rock compondo suas próprias canções e tocando seus próprios instrumentos era uma concepção que jamais passaria pela cabeça dos tubarões da indústria fonográfica, embora o pessoal do folk, à moda de Bob Dylan, estavam criando suas próprias músicas. Talvez seja por isso que o mercado da Costa Leste fosse refratário a essas mudanças (eles ainda pensavam em termos de neil sedakas e Frank avalons, e o verdadeiro lugar ao sol dessa nova cena musical seria, com efeito, a ensolarada Costa Oeste. Até Barry McGuire se deu conta, depois de tanto tempo, que seu lugar não Village.

Aliás, sintomático pensar que ele foi o primeiro a gravar ‘California Dreamin’. Composta por John Phillips, e gravada com uma banda formada pelo pessoal do Wrecking Crew, a música é interessante por ser uma espécie de prospecto do que era o ‘California Sound’. Um pop ensolarado, com vocais bastante trabalhados em estúdio, como nos discos dos Beach Boys que, por sua vez, com Jan e Dean (e os Beau Brummels, em San Francisco) como os pioneiros desse subgênero. 

‘California Dreamin’’se tornaria a canção de apresentação dos Mamas, um retrato de um grupo de jovens que descobriu que a terra prometida era a sua própria terra (o retorno e as novas boas vindas depois de meses em Nova Iorque) e ao mesmo tempo, nas entrelinhas, uma música de protesto contra a convocação obrigatória para a Guerra do Vietnã (“You know the preacher likes the cold/He knows I’m gonna stay”). O movimento para o Oeste era tão lógico que até mesmo o famoso DJ televisivo Dick Clark, a partir de 1965, passou a transmitir  seu programa a partir de Los Angeles. 

Clark, que era um genial expedicionário do pop, e sabia do seu papel como agente divulgador das novas tendências do rock, fez a escolha certa ao perceber de onde o vento soprava:  logo, ele deixava os do wops dos tempos do Brill Buliding para apresentar as novidades da cena musical do oeste: Doors, Buffalo Springfield, Byrds, Jefferson Airplane, Association, Turtles, etc.

A própria história Buffalo Springfield, que aparece no documentário Echo In The Canyon, tem muito da formação dessa cena musical e do êxodo de jovens músicos para a California. Depois de tentarem a sorte no Meio Oeste e em Nova Iorque, Neil Young foi encontrar Stephen Stills nas ruas de L.A depois que este perdeu a chance de tornar-se um dos Monkees em favor de Peter Tork. 

Curiosamente, Tork, morto em 2019, seria um dos grandes anfitriões de artistas alienígenas em sua casa em Laurel Canyon. O bairro, outrora uma reserva indígena, nos anos 60 se transformaria na Meca dos artistas de Hollywood e, mais precisamente, a base de operações desses garotos que, em pouco tempo (e por um breve período) seriam a tropa de frente do que melhor se faria em termos de pop nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, eles formariam um grupo coeso que, a despeito de pequenas questiúnculas competitivas (Byrds X Bufallo Springfield), andariam juntos durante o final daquela década. Mais do que isso: eles formariam a base (junto com Adler e outros) que, a partir de experiências anteriores em festivais de música, iriam conceber o Festival de Monterey. ocorrido em meados de 1967, no auge do movimento flower-power, o certame (não competitivo) seria uma das grandes efemérides da década, e que estaria para sempre vinculado ao imaginário da contracultura dos anos 60.   

Imaginário talvez seja a palavra certa para explicar o que foi esse “movimento” baseado na música produzida na Califorinia naqueles tempos e que entronizou o ‘California Sound’. Talvez o mérito de ‘Echo In the Canyon’ resida justamente em fazer um rescaldo do legado daquela música. Para tanto, Jakob Dylan serve como elemento aglutinador que, ao mesmo tempo, faz a ponte com artistas sessentistas, com a primeira geração posterior (Tom Petty, com aparece com Jakob logo no começo do documentário tocando a Rickenbaker 12 cordas de Roger McGinn) e a geração atual (Fiona Apple, Beck, Norah Jones).  Durante o documentário, a ‘ala jovem’ se reúne e discute as canções e os discos que a turma da ‘California Sound’ legou, do If You Believe In Your Eyes and Ears, primeiro disco do Mamas and the Papas, o Pet Sounds (praticamente uma parceria entre os Beach Boys e o Wrecking Crew). 

Olhando em retrospectiva, é curioso recordar de depoimentos como os de Carol Kaye e Hal Blaine (do Crew) no sentido de que, como músicos comissionados, eles não se preocupavam em destacar seus nomes nos créditos dos álbuns ou sequer cogitavam que aquilo que eles fizessem tivesse excelência o suficiente para se perpetuarem como produto estético. É importante lembrar que estamos falando de discos que foram lançados, em sua maioria, há mais de meio século. Mesmo assim, ainda no formato vinil (como aparecem no documentário, um clima de saborosa nostalgia), aquela música, como boa parte do melhor que se fez naqueles anos, parece não ter envelhecido, ou melhor, envelheceu da melhor forma possível.

E, mais do que isso, mostra que, depois de décadas e décadas e após tantas mudanças de gêneros e de tendências na história do pop, aquelas canções cabem de forma perfeita nas vozes de artistas de hoje. Acho que esse é o grande mérito de ‘Echo In the Canyon’; mais do que nostalgia,  é a demonstração de uma produção artística que passa incólume ao teste do tempo. Se não, basta escutar a trilha do documentário. 

Ao mesmo tempo em que os covers nos aparecem nas vozes de Norah, Dylan e outros, elas aparecem frescas, como se tivessem sido compostas agora. E, da mesma forma, é incrível perceber o olhar da escolha das canções. Todas elas têm uma história dentro do ‘California Sound’. Desde a versão de “Goin’ Back”, que os Byrds gravaram no Notorious Byrd Brothers (para muitos o melhor trabalho do quinteto) até o duo entre Norah e Jakob em “Never My Love”, do Association, um dos momentos mais bonitos de ‘Echo In the Canyon’. Isso sem falar de outros covers, uns inusitados, como “You Showed Me”, uma canção pouco conhecida do começo da carreira dos Byrds, até “Questions”, do último álbum do Bufallo Springfield.

‘Echo In the Canyon’ não é um documentário meticuloso à moda Ken Burns; ao contrário, é ligeiramente superficial e conta muita coisa que a maioria das pessoas (aqui não, mas lá com certeza) conhecem já de longa data. No entanto, o seu grande valor reside em dar voz justamente aos protagonistas do que foi esse movimento que não foi um movimento propriamente dito, mas que representou um importante momento na história do pop contemporâneo.  


Friday, November 27, 2015

Bonfim de Ponta a Ponta


Cartaz do documentário "Filme Sobre um Bom Fim"


Antes de assistir ao "Filme Sobre um Bom Fim" eu havia lido o Esquina Maldita (1), do Paulo César Teixeira duas vezes. Por coincidência, após a primeira sessão do documentário na Sala redenção, na noite terça passada, fui coincidentemente apresentado à uma das entrevistadas da película, a Polaca, plena Lancheria do Parque. No meio da conversa, perguntei se ela havia lido o livro, e ela respondeu que não.

Pois desse encontro que eu resolvi juntar as duas pontas. A despeito de ter sido lançado há pouco mais de três anos, a obra do Paulo César — que é um dos primeiros depoimentos do filme, perfeitamente ambientado numa das mesas do Marius ainda é pouco conhecida. Minha impressão é justamente a de que o filme parece começar quando o livro termina.

Teixeira praticamente fez um belo documentário sobre a cena cultural que ocorreu no Bonfim a partir da Esquina Maldita. Aquela cena surgiu no final dos anos 60, na esquina das ruas Sarmento Leite e Qswaldo Aranha justamente porque, naquele tempo, todos os cursos de Humanas da UFRGS ficavam no Campus Centro.

Por causa disso, todo o movimento jovem culturalmente engajado passava pelos bares da região. Aquela foi a primeira cena "jovem" daquela região, porém antes do túnel — pegando o mote de um (também pouco difundido) livro do Juremir Machado da Silva que tenta, como eu aqui, juntar as pontas do Bonfim (2).

O Esquina Maldita trata primeiro da forma, o surgimento de bares como o Alaska e o Copa 70 para, num segundo momento, lidar com o conteúdo, os personagens daqueles dias políticos, suas histórias e seus dramas. Na verdade, ao contrário do que foi o movimento oitocentista, o Bonfim da Esquina Maldita tem os seus momentos de idealismo, mas é uma história triste.

Naquele momento, nasciam os festivais universitários de música e de teatro e os primeiros movimentos políticos estudantis na capital. Porém, o clima de repressão era cada vez maior. A polícia dava batidas surpresa nos bares da esquina. Se havia um clima de liberação sexual ali, ele era restrito. Como se sabe, era impensável, no começo dos anos 70, uma aglomeração de pessoas como as que eram comuns no Escaler, quinze anos depois.

Fora que muitos dos que romperam com o PCB e realmente partiram para a luta armada, não voltariam. No livro, vemos inúmeras histórias políticas daqueles que acreditavam, como ocorrera em Cura, era possível derrubar o regime através de guerra de guerrilhas. em pouco tempo, aquela esperança e aquela utopia transformou a Esquina numa espécie de reduto do desbunde porto-alegrense.

Assim como vemos no documentário do Boca Migotto, existia uma resistência à repressão. Porém, ali, ela não era apenas política, mas cultural também. O provincianismo e o bairrismo, que são questionados pelas vozes do documentário, nos anos 70, faziam as regras. O livro do Paulo César Teixeira consegue captar esses momentos felizes em que aquela juventude, à sua maneira e mesmo sendo cerceada em todos os campos, estava plantando muito do que vemos hoje, nos movimentos pelos Direitos Civis — e isso explica a atualidade de um ícone da Esquina, a Nêga Lu que, não gratuitamente, ganhou uma biografia este ano, publicada pelo mesmo Teixeira.

O provincianismo e a ditadura cultural dos anos 70 era forte o suficiente para explicar aquilo que não aconteceu ali, mas que foi florescer e explodir com toda a força "depois do túnel" (da Conceição, da construção da elevada e geograficamente também), a partir do show Deu Pra Ti, de Nei Lisboa e do Augusto Licks (1979), que desaguaria na produção cinematográfica do Giba Assis Brasil e do Nelson Nadotti.

Aliás, o leitmotiv tanto do filme quanto do documentário é, justamente, aquele traveling que junta as duas pontas do Bonfim, da Sarmento até o Trianon. O meio do caminho é justamente o Ocidente que, por sinal, é quase que o elo que une as duas pontas do Bonfim.

A Esquina Maldita teve a sua história resgatada mas, se houve um saldo positivo, foi o de abrir caminho para os anos 80. Antes do túnel, muita coisa ficou represada. Os espaços culturais eram, praticamente, espaços de resistência. Se houve um elemento que desse forma àquele substrato cultural setentista, ele foi a resistência. Com a abertura política, esse elemento latente da Esquina, aos poucos saiu do gueto e foi situar-se à esquerda do espectro ideológico partidário. Contudo, o seu palco, agora era outro.

A cena havia mudado. Talvez isso explique por que o movimento oitentista no Bonfim foi, com efeito, um movimento estético. pelo menos, pegando como eixo o documentário, houve o surgimento de um sem número de espaços culturais. A prática de fazer cultura, a explosão do rock como um fenômeno de massa (e não como coisa de magro trique-trique rolimã e tomador de panca dos 70), o surgimento das emissoras de rádio em frequência modulada (a Bandeirantes FM e, depois a Ipanema) criaram o palco natural para que todo esse movimento surgisse.

Agora, o Bonfim, pelo menos por uma década, deixou de ser um gueto (com os negros e com os judeus primeiramente, depois com os estudantes da esquina Maldita) para tornar-se uma arena cultural. O fim da ditadura viabilizaria as aglomerações de público; as novas tecnologias (3), como o vídeo, permitiram que as pessoas tivessem acesso ao que vinha de fora. As FMs, por sua vez, iriam tribalizar esse público. Como diz o Egisto a folhas tantas, no documentário: o Bonfim não era mais o bairro dos seus moradores, mas um catalisador de todos aqueles que sintonizavam com essas boas vibrações.

No meio do filme, aparece Claudinho Pereira lendo o seu livro de memórias (4). Ali ele cita, para lá de en passant, algo que passou quase batido: o Fedor. Ou Shitink, ou Serafim, o estabelecimento tem um subcapítulo de outro livro (5) do Juremir (que é uma das vozes do documentário) e é uma das histórias que limitaram-se a rasantes no filme do Boca Migotto. Aliás, a autobiografia do Claudinho conta uma história curiosa: havia um acordo "logístico" entre o Fedor e o Zé do Passaporte (outro que passou batido) para que o primeiro só vendesse bebidas, o segundo lanches; dessa forma, um não entrava no negócio do outro e, de quebra, se complementavam: você bebia até cair no Serafim, e depois ia matar a larica no Zé...

O Serafim pegou fogo e virou aquele prédio (da esquina da Fernandes com Oswaldo) da matéria de arquivo do Peninha no Prá Começo de Conversa. A versão oficial é a de que a causa do sinistro foi o forno de uma pizzaria, que ficava nos fundos do Fedor. A não-oficial, amplamente difundida pelo saudoso Sampaulo, é a de que uma empada do Serafim explodiu, em pleno balcão. Dentro muitos ex-frequentadores (entre eles, Moacyr Scliar), essa era a causa mais provável.

Mas a repressão também batia no outro lado do túnel: o Fedor também também tinha problemas com a polícia, tanto pela venda de drogas nos arredores quanto ao carteado do Fluminense, clube que ficava no andar de cima do estabelecimento — e que também virou cinzas.

O livro Noite dos Cabarés tem a ver com o eixo "boêmio" do filme, e que salta aos olhos aos espectadores de hoje e que, naturalmente, não vivenciaram o que foi o Bonfim dos anos 80. Do Lola (João Telles) até a Fernandes, havia, contando o Mercado, pelo menos sete botecos. Isso sem contar o Escaler e os que nasciam e desapareciam à roda do HPS e do Maomé. Porém, no novo contexto da pós-modernidade, segundo Juremir, aquela discussão política bizantina dos tempos da Esquina transformou-se em hedonismo puro ou, usando um eufemismo eficiente, mero papo de boteco.

Os freaks bebem e dormem nas calçadas. Sentados nos degraus, consomem Valium e exibem sua miséria. No Bar João, eles lembram Janis Joplin e dizem que "toda política é suja". Bebem cachaça e execram os grupos que os sucederam. Tido como local de violência, o Bonfim não pode escondê-la. Mas luta para evitar a neurose da classe média. Sua guerra, antes de tudo, é visual(p.73).

O livro, no entanto, entra num eixo naturalmente não explorado pelo documentário que é, de certa formam, um corte antropológico na tipologia e análise das diversas tribos que compunham as tribos jovens do Bonfim. Intelectuais modernos na Lancheria, new romantics e a boemia bem vestida no Ocidente, freaks e rockers no João e pela Oswaldo afora. De certa forma, houve a mudança, da primeira geração, compulsoriamente reprimida e desbundada até talvez por falta de opção pelas saturnais a céu aberto do que foi os anos Berlim-Bonfim da segunda metade dos anos 80.

O fim daquilo, de certa forma, pode ser explicado por uma certa estagnação daquela ciclo. Tudo aquilo estava ligado ao contexto da abertura democrática e, com o tempo, deixou de ser novidade. O que é possível vislumbrar em perspectiva é, pegando as duas pontas da Oswaldo, como um travelling histórico um pouco maior do que o da abertura do Deu Prá Ti. A Esquina Maldita, por seu turno, foi o princípio de algo que estava manifesto e que evoluiu num tempo e espaço. Uma das leituras possíveis dentro do espectro do tema — que foi tratado de forma sublime no documentário.

É possível contestar a validade daquele movimento. De repente, todos estavam fazendo história, e não sabiam; ou, por outra, achavam que estavam escrevendo a sua trajetória para a eternidade, e que eram apenas uma versão farofa e terceiro mundista da Rive Gauche ou do Village, como disse o Peninha. na verdade, isso é o que menos importa aqui.

O que interessa é que essa história aconteceu. Hoje, ao desavisado e maravilhado espectador do "Filme Sobre um Bom Fim", pode parecer inacreditável que a região entre o Araújo Vianna e a volta do Mercado do bairro lotasse de gente até no lustre (na ponta de cá do Bonfim) — da mesma forma que uma malfadada utopia estudantil e meninória (como diria o Carlos Reverbel) existiu na Esquina Maldita (na ponta de lá). Talvez a mais acachapante das tantas belas imagens do documentário seja a do areal da frente do Escaler (hoje uma cafeteria, como os arautos da lei e da ordem preferiram) apinhado de gente, num domingo de tarde — aquilo aconteceu em Porto Alegre.




(1) Esquina Maldita. Libretos, 2012.
(2) Antes do Túnel - uma História Pessoal do Bom Fim. Editora da Cidade, 2007.
(3) Mauro Borba, Prezados Ouvintes. Artes e Ofícios, 1996. ele cita, no livro, exemplos como home vídeos com shows do Cure — numa época em que não existia Youtube e poucos possuíam vídeo-cassetes. Fora o sem- número de casos em que tanto lançamentos internacionais como as da Vanguarda Paulistana chegavam á Porto Alegre através de fitas-cassete, então ainda difíceis de se conseguir
(4) Na Ponta da Agulha. Editora da Cidade, 2012.
(5) A Noite dos Cabarés, Mercado Aberto, 1991.

Sunday, May 17, 2015

Something in the Way


Poster do filme


Quando assisti ao documentário Kurt Cobain, Montage of Heck, exibido pela HBO no começo desse mês, na verdade, não achei tão avassalador como parte da crítica entendeu. Até porque, de certa forma, como o próprio líder do Nirvana dizia, ao execrar solicitações de entrevistas, que tudo estava nas letras das suas músicas.

O filme é interessante pela coragem dos pais de Cobain, principalmente Don, seu pai, em colaborar com Montage of Heck, seu relacionamento com sua primeira namorada, Tracy, e seus vídeos caseiros com Courtney Love.

Uma parte da trajetória de Kurt me remeteu à autobiografia de Eric Clapton. Assim como o guitarrista do Cream, ele também teve um episódio de rejeição por parte dos seus pais. Mas mais do que isso, ele talvez nunca tenha sido capaz de elaborar a separação dos pais. Esse episódio iria assombrá-lo pelo resto da vida.

Por conta dessa rejeição, Eric, que transformou a escritura de sua biografia uma espécie de análise, deixou claro o quanto essa rejeição protelou que ele tomasse conta de sua vida, e de como isso o tornou num alcoólatra, e de como isso quase o levou à morte.

Cobain, por sua vez, tornou-se introspectivo, irascível, instável, ele sublimava toda essa frustração em desenhos - que vemos pela primeira vez em Montage of Heck, e em sua música. Visões dessa rejeição nós vemos nas letras de canções como "Something in the Way" ou na primeira faixa do In Utero, "Serve the Servants". Além da rejeição dos pais, seu pai, Don, segundo ele, o humilhava. Isso também acarretou problemas que ele carregou pelo resto dos dias ("I tried hard to have a father/But instead I had a Dad).

Tanto que, numa entrevista do documentário, Cobain explica que queria muito casar-se com Courtney e criar sua filha, Frances, porque desejava restituir o lar perdido na infância. Isso parecia ser uma questão de vida e de morte para ele. Porém, Kurt achava que já não tinha nem capacidade psíquica e nem física para vislumbrar um futuro que, para ele, parecia "assustador".

Desde a adolescência, o líder do Nirvana sofria de problemas estomacais. Porém, como achava que aquela dor era parte de sua inspiração, ele protelou qualquer tratamento efetivo. Ao mesmo tempo, Cobain diz que decidiu resolver isso tomando remédios. Foi quando descobriu a heroína, já morando com Tracy.

Alguém pergunta se ele seria capaz de criá-la, a despeito de todos os rumores - vindo da imprensa, se eles seriam capazes de criar uma criança em "situação de risco" - dado o fato de que tanto Courtney quanto ele consumiam quantidades gigantescas de drogas durante a gravidez de Love. Cobain revela que seria capa de dar toda a ternura que seu pai não lhe deu. Mais: diria que isse seria o fator principal para que ele abandonasse a carreira.

Outra parte da sua trajetória me lembrou do repórter da Rolling Stone, David Fricke (que fez uma das últimas entrevistas com ele), que associou a vida de Kurt com a de John Lennon ("você pode achar que é sacrilégio, mas está tudo ali"). A fronda de Cobain e Courtney contra a imprensa no auge da carreira do Nirvana parece um repeteco da "The Ballad of John and Yoko". Para eles, não passavam de dois malucos drogados onde ela havia lhe subido à cabeça.

Nos vídeos caseiros - que compõem boa parte do documentário, eles fazem pouco caso da forma como eram retratados pela imprensa. No entanto, o clichê lhes cai bem aos olhos dos fãs. Todavia, Montage of Heck quer mostrar que o amor de ambos era verdadeiro e que, em última análise, Cobain era um homem inteligente, mas não era um herói, um bandleader, e nem queria ser. Morreu sem ter feito dez por cento do que gostaria de ter feito como artista.

Por isso, Montage of Heck não quer ser um grande documentário sobre o Nirvana. Mas mostra que sua morte não é fruto de uma conspiração, ou de um assassinato cultural, impetrado pela mídia. E o filme é um testemunho de um personagem mais trágico do que dionisíaco, o pop star dilacerado pelas próprias entranhas.