Thursday, February 25, 2016

Naquele tempo dos Mamonas


O famoso logo


Parece mentira que faz duas décadas daquele fenômeno meteórico dos Mamonas Assassinas.

Lembro da primeira vez que eu ouvi eles. Foi em julho de 1995, quando me mandaram de São Paulo uma fita cassete com o primeiro disco da banda. Um primo meu enviou-me via parentes (em primeira mão!), dizendo que ele não parava de rir daquele disco. Claro que, naquela época, aqui no sul, e nem no Brasil, ninguém conhecia eles direito.

Acho que a fita apareceu por aqui quando o conjunto começou a aparecer lá, pela na 89 FM. Aqui, no auge das rádios musicais, você não precisava ter o disco; todas elas tocavam acho que todas, eu digo, todas as músicas. Quando os Mamonas finalmente estouraram no país, eu já tinha o disco na cabeça.

No auge do sucesso, o público dividiu-se. Muitos eram contra, por vários motivos. Era puro besteirol, moda passageira. O que me impressionou ouvindo o álbum foi que eles tocavam de verdade e tocavam bem. Contudo, o tipo de música, mesmo arrancando boas risadas, tinha esse limitador: não dava para levar a sério. Mas tudo muito bem produzido, muito bem tocado.

Porém, depois é que a gente foi conhecer eles e, mesmo com sérias restrições, eles tinham carisma engraçadamente irresistível.

O curioso é que, em fins daquele ano, eu trabalhava/estagiava num jornal de bairro. Para 1996, o pessoal encarregado da publicidade conseguiu parceria com a produção do primeiro Planeta Atlântida. Com a verba, deu para criar uma edição especial de uma publicação semanal, um efêmero jornaleco chamado Interpraias (a gente distribuía por todo o litoral, embora a tiragem fosse pequena, mas isso é uma outra história).

Foi um verão muito louco. A gente se dividia entre o jornal nos dias de semana e pegava a estrada aos fins de semana desde dezembro, catando pautas e tirando fotos para o famoso Interpraias.

Até que chegou o Planeta Atlântida. Nós chegamos de carro lá, lá pelas quatro da tarde de sexta, no primeiro dia de shows. Íamos também distribuir os exemplares no barral da festa, no sábado e domingo. Então o pessoal resolveu dormir e tirar o carro do corpo.

Um dos nossos colegas, à titulo de blague, escreveu um artigo desancando os Mamonas Assassinas e exaltando a Rita Lee, que ia tocar no sábado, com os Titãs. Eu li o texto, e comentei: bicho, se você pensar bem, o que os Mutantes faziam no começo da carreira não tá lá muito longe disso". Eu falei isso só para ver a reação dele; porém, ele coçou a cabeça é disse: "bem, de certa forma...".

Na data aprazada, nós ganhamos os crachás. Mas o pessoal preferiu descansar da viagem e chegar no festival na hora do Kid Abelha (a noite fecharia com os Paralamas, na época do Vamo batê Lata, um baita show). Os Mamonas iriam abrir a noite de shows. Não me prestei a convidar ninguém para vê-los. E eu fui.

No fim, eu fui o único da equipe que assistiu ao show dos Mamonas Assassinas.

E, de fato, a banda era sucesso entre as crianças. O público ainda era pequeno, e muitos papais e mamães com seus filhos vendo o conjunto. Achei o show muito bom. Eles tocaram todo o disco, muito bem tocado, muito bem ensaiado. Mas, olhando em retrospectiva, tudo era muito estranho.

Parecia um show de circo bizarro. Apesar da fama crescente, eles pareciam uma coisa que ainda estava prestes a ser digerida pelas pessoas. Mas, pela presença de palco, eu achava algo encantador naqueles garotos esbanjando simpatia e tocando alto e pesado para aquela plateia de crianças e adultos (que não podiam segurar o riso em alguns momentos).

Depois do Festival, eu passei o resto de fevereiro no litoral e, bem no fim do mês, passei uma semana em Caxias do Sul. Sem que eu soubesse, eles eram atrações num show gratuito os pavilhões da Festa da Uva de 1996. Eu fui à Festa, contudo não me interessei em vê-los de novo. Afinal de contas, o show ia ser a mesma coisa, porém com mais gente e as mesmas músicas. Além disso, certamente que a gente ia ver os Mamonas Assassinas pelo resto da vida.

Lembro que eu saí de noite no centro (no dia do show de Caxias) e encontrei num bar um pessoal que veio da extinta Birreria, que ficava na esquina da Marquês do Herval com os 18 do Forte. Disseram que, depois do show, viram alguns membros dos Mamonas Assassinas no bar. Porém (segundo ele), o pessoal deu pouca importância para eles.

Na madrugada de domingo, eu dormia na casa de minha tia em Caxias quando, no meio da madrugada toca o telefone. Era meu irmão ou minha mãe, contando do acidente. todo mundo acordou. Estávamos perplexos. Não dormimos mais. Diante de mim, a edição da extinta Folha de Hoje de quinta ou sexta anterior, com eles na capa, sobre a apresentação da Festa da Uva.

O que me espantava era a progressão fulminante dos acontecimentos. Ninguém era capaz de assimilar nada. O desenlace fez com que todos os eventos anteriores ganhassem um outro sentido.

Hoje eu fico pensando que, se eles tivessem permanecido, iriam desaparecer em pouco tempo. A fórmula foi totalmente explorada no primeiro disco. O paradoxo de tudo foi que os Mamonas Assassinas tiveram que fazer essa concessão musical para que atingissem o sucesso. Talvez eles mesmo, com o tempo, se cansassem desse sub-gênero de rock. Afinal de contas, por trás de toda a bobagem, eles eram músicos de verdade.


Com o tempo, eu perdi aquela fita. E nunca mais ouvi o disco deles. Mas não esqueci de nada.



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