Li um livro, chamado A Ausência Que Seremos, do Hector Abad, que saiu ano passado, pela Companhia das Letras.
O livro é fantástico. Metade história recente da Colômbia, metade autobiografia e metade a biografia do pai dele, médico sanitarista, metade um romance de formação do próprio autor e sua paixão pela sua família.
O Pai do Héctor, de mesmo nome, foi chamado o apóstolo dos Direitos Humanos na Colômbia, com projetos na área da saúde que mudaram a vida da população. Parte da história ele fala como o país foi sanguinariamente dividida, primeiro entre liberais e conservadores, depois pela Guerra Fria.
Por último, quando Deus e todo mundo abandonou parte do povo para que a turma do Narcotráfico tomasse conta de tudo. O Héctor Abad pai era tido como revolucionário e comunista, e foi morto por matadores de aluguel, em 1987. Na verdade, ele queria curar o povo com tratamento epidemológico e rede de esgotos, não com remédios e ele era contra apostura apostólica de como os médicos se postavam como fariseus curandeiros da população, ele dizia que a povo não estava doente, ela tinha fome. É um livro genial, e ao mesmo tempo, fala da relação dele com relação ao pai, que é quase como a Proust com relação à mãe dele.
O perfil do Abad pai é entremeado pela disensão entre o seu lado socialista ateu e a sua família, pai e filho, com a cultura mergulhada nos dogmas e no misticismo cristão, que mais se confundiam com a ´própria cultura e o atavismo familiar de ambos.
Numa entrevista à Folha, o escritor explica a questão: "pai era filho de seu tempo, de sua história. (...) Mesmo que você seja ateu, crescemos nessa cultura que domina e permeia tudo".
Héctor conta que seu pai mudou de atitude quando sua filha morreu com apenas 16 anos. Aquilo mudou a postura dele com relação ao mundo. Ele se tornou quase que suicidamente engajado em sua causa, e a partir dali, se tornou um militante da liberdade, dos Direitos Humanos e da liberdade de opinião tanto na Univsersidade onde trabalhava quanto na sociedade colombiana tacanha e narcotizada pela demagogia política e a violência crudelíssima, até sua escalada, no fim dos anos 80.
Fora isso, fica a doce imagem de um pai que, como exemplo, foi o maior pai do mundo. E mais: antes de ser um avatar, um mártir, uma personalidade, ele era um homem comum, frágil, agregador e amoroso com sua família.
A Ausência que Seremos é um livro lírico e trágico, mas lúcido e exemplar, uma das melhores leituras minhas dos últimos tempos. Comecei a ler anteontem e, depois de algumas páginas, não consegui largá-lo até a última linha, um dia depois.
Tava ouvindo a Whiter Shade of Pale, do Procol Harum, e me lembrei de uma história, na biografia do Roberto Carlos, Roberto Carlos em Detalhes, que fala que a canção do disco O Inimitável, de autoria do Paulo César Barros e do Getúlio Côrtes, é inspirada nela.
O Carlos André Moreira, da Zero Hora viu meu quiz no Facebook e acertou. Perguntei se alguém sabia qual e a a canção do Roberto que foi inspirada pelo Procol Harum.
E o Carlos André ainda se deu ao trabalho de postar o trecho do livro que fala da história toda. Eis:
"Uma das grandes canções do repertório de Roberto Carlos é O tempo vai apagar, outra faixa do álbum O inimitável, creditada a Getúlio Cortes e Paulo César Barros. "Passei anos ouvindo as pessoas me elogiarem por uma música que não é minha. Essa obra-prima é do Renato, o mérito é dele. Eu não fiz nada nessa composição", afirmou Paulo César ao autor. De fato, O tempo vai apagar é uma composição de Renato Barros em parceria com Getúlio Cortes. E a canção nasceu de uma forma curiosa.
No início de 1968, Renato estava a bordo de seu Impala ouvindo no toca-fita a balada A whiter shade of pale, grande sucesso de Procol Harum. Mas havia um problema em um dos canais do som do carro e ele não ouvia o vocalista da banda, apenas a base instrumental da canção. Mesmo assim, estava tão bonito que Renato continuou iuvindo enquanto dirigia o carro. E logo começava a cantarolar uma nova melodia em cima daquela harmonia da canção de Procol Harum. E assim nasceu O tempo vai apagar, que depois Renato Barros concluiu, com uma letra em parceria com Getúlio Cortes.
Foi Getúlio quem mostrou a canção para Roberto Carlos, numa tarde, no estúdio da CBS. Mas o cantor não demonstrou o menor entusiasmo pela canção, e quando isso acontece ele não grava de jeito nenhum. "Cantei desafinado pra caramba, defendi a música muito mal mesmo", reconhece Getúlio Cortes. Roberto Carlos já ia saindo do estúdio quando Lafayette, normalmente uma pessoa calada, decidiu interceder pela composição. "Roberto, preste mais atenção nessa música, ela é linda, tem um estilo barroco. Olha só." E Lafayette tocou a melodia no órgão, criando bonitos acordes. Diante disso, a coisa mudou de figura e Roberto Carlos se empolgou com O tempo vai apagar. "Pô, Getúlio, essa música é bonita mesmo. Mas como é que eu ia saber? Você cantou mal pra caramba", brincou. Depois a canção ainda ganhou de Lafayette uma bela introdução no seu órgão Hammond, que não deixa dúvida da influência de A whiter shade of pale.",
De tempos em tempos Holywood produz filmes que se tornam cult movies. Tem um que está passando quase diariamente nos canais HBO e que vale a pena ser visto, revisto e curtido. Trata-se de "Cadillac Records". O filme retrata os anos de ouro da Chess Records, selo independente de Chicago que produziu os melhores discos de blues da história. O selo foi responsável pelo surgimento de grandes talentos, como Muddy Waters, Holin' Wolf, Little Walter, Chuck Berry, Etta James, entre outros.
Todas as interpretações são maravilhosas, mas a de Mos Def (Chuck Berry) e Beyoncé Knowles (Etta James) matam a pau. Por sinal, acho que é a melhor coisa que a Beyoncé já fez. Ela canta maravilhosamente as músicas de Etta. É impressionante que a Beyoncé jamais tenha gravado um disco de blues, já que canta o blues como se Etta James fosse. Mos Def incorporou o espírito Chuck Berry ao fazer o filme e imitou o passo de pato e demais trejeitos do roqueiro. Outro destaque é o desconhecido Columbus Short, que fez o Little Walter, que parecia o próprio músico. A vida de Little Walter é cheia de altos e baixos. O cara, além de ser feio, teve a cara toda arrebentada de tanto que apanhou e se meteu em brigas. Mas ele foi o primeiro gaitista a tocar com amplificação e a usar as distorções do som amplificado a seu favor. Algo que Jimi Hendrix acabou fazendo com a guitarra. Não sei como esta produção de 2008 não fez uma carreira melhor no cinema. Vou deixar para vocês o trailer, a Beyoncé cantando "All I Could Do Is Cry" e "At Last"
Um elemento que era típico das cidades no tempo em que o trânsito era composto basicamente de muares, equinos e demais mamíferos hipomorfos, da ordem dos ungulados, eram os frades de pedra.
Pois eles ficavam sempre em esquinas ou em frente à estabelecimentos de toda a ordem, com a única e exclusive finalidade de servir de local de ammaração dos animais de transporte aqui epigrafados.
Hoje as ruas são dos carros, ônibus, motos e demais veículos de três ou quatro rodas. Porém, como quase que um atavismo dos tempos de outrora, pelo menos aqui, em Porto Alegre, alguns ainda resistem.
Um deles se encontra em frente ao lago da Redenção. Mas outro, que fica diante do histórico prédio da Faculdade de Engenharia da UFRGS, ainda pode servir de amarração a qualquer bípede ou quadrúpede.
Muitos que ali passam provavelmente não sabem do que se trata aquele objeto que parece um monumento fálico de pedra ou argamassa armada. É um frade-de-pedra.
Fiz todo esse preâmbulo porque sempre que eu passo ali na frente da Praça Argentina e vejo ele (o frade), me lembro de uma história que, de tão antiga, eu não saberia dizer se é real ou apenas uma anedóta atribuída a uma determinada pessoa - no caso, ou o Doutor e Deputado Armando Câmara, ou o Patrono da Faculdade de Medicina da nossa valorisa Federal, dr. Sarmento Leite.
Costa que, a priscas eras, algum carroceiro, ao transitar pelo antigo caminho da Azenha, que ia do Centro até os lados da antiga Cascata (hoje a Avenida João Pessoa), resolveu deixar seu jumento pastando nos campso verdejantes que ora existiam diante da (então) Faculdade Livre de Direito.
O pobre homem amarrara o muar num frade-de-pedra, e deixou o animal ali, solerte, a devorar lenta e pastosamente a paisagem. Eis que, nos esgar de buscar mais relva, o bicho acabou se desvencilhando das amarras, e foi pastando, pastando, pastando - porém, entre distraída e pachorramente, marchou a passo miúdo rumo à entrada do prédio da Faculdade de Direito (ou de Medicina, que foi construído contiguamente àquele e existe até hoje, junto com este).
E lá foi o jumento, pastando rumo à entrada do prédio. Eis que, ao descer as escadas, um deles, Câmara ou Sarmento Leite, ao deparar-se com aquela cena plástica, do burrico defronte á faculdade, entre perplexo e pálido de espanto, sem tirar os olhos do animal, bradou:
- Bedel, bedel! Tite já este animal daqui, senão daqui a cinco anos ele veste toga e cola grau!
Terminei de ler e recomendo o livro Elvis Presley - a Vida na Música.
Escrito por Ernst Jorgensen, especialista no que se refere à obra do
Rei do Rock e também responsável pela recuperação do catálogo do
cantor norte-americano nos últimos anos.
Como diz o título, a obra se refere apenas à parte de sua vida
dedicada às sessões de gravação entre 1955, do seu primeiro acetato
até janeiro de 1977.
Mesmo para quem não conhece muita coisa sobre Presley, o livro vale a
pena para mostrar como era, e como é, o mundo do disco. No caso de
Elvis, é interessante notar que, a despeito de sua tenra juventude
quando ele começou no disco, ele já possuía um enorme potencial e
cultura musical.
A questão é que, quando ele entra na indústria do disco e passa a ser
comandado a manu militari pelo Colonel Tom Parker, o Rei acaba virando
uma espécie de cobaia num corredor polonês onde de um lado havia o
mundo das grandes editoras musicais e de outro, o estabilishiment, que
a muito custo conseguiu aceitar o rock no começo dos anos 50.
O livro de Ernst Jorgensen também mostra como havia um cuidado enorme
em se produzir para ele compactos de sucesso e, ao contrário do que a
coletânea de números 1 possa indicar, mesmo com todo o marketing da
RCA e do seu nome no disco, nem sempre ele conseguia um primeiro lugar
e, mesmo que todos os seus discos sempre vendessem bem, havia uma
cobrança enorme em cima dele em busca de sucesso.
Parker tratou de criar um banco de canções gravadas previamente por
ele para preencher o mercado durente o tempo em que Presley serviu ao
exército. Depois que o mercado do rock mudou, no começo dos anos 60,
sua música também acabou mudando. A sua volta gerou um dos seus álbuns
mais celebrados, o Is Back.
Porém, depois de um feixe de números 1,
Elvis começou a ficar à sombra de um fenômeno crucial, que foi o
surgimento dos cantores-compositores.
Correndo pelo outro lado, Parker tinha uma política ligeiramente
ortodoxa: ele montou uma editora musical que se encarregava de
arregimentar compositores de porta de escritório para fazerem canções
para que ele e Elvis registrassem-nas como suas - pelo menos quando a
arrecadação de direitos autorais. Consta que Presley não gravou "I
will Always Love You", de Dolly Parton, porque ela não quis ceder à
esta política.
a partir dos anos 60, Parker viu que o futuro de Elvis não estava na
RCA, mas sim no cinema. Por conta disso, toda a equipe musical se
mudou para Holywood, onde Presley gravou uma séria gigantesca de
trilhas para filmes.
Nesse período, a Hill & Range, a editora do Colonel Parker, funcionou
a pleno vapor em busca de compositores para escreverem juntos canções
pop de ocasião para preencher as películas do Rei. Fora algumas
exeções, já que os filmes não tinham roteiros de grande profundidade,
o grande problema é que as trilhas que Elvis gravava seguiam no mesmo
estilo.
Ou seja, no fim das contas, ele perdeu um grande tempo de sua
carreira musical, e isso fica evidente do livro Ernst Jorgensen,
gravando coisas que não tinham nada a ver com ele.
Elvis mesmo dizia, com relação a uma que outra música: "não é boa nem
ruim, é apernas medíocre". E observando sessões de gravação caseiras
de Presley, nota-se que ele tinha um conhecimento musical considerável
e espontâneo em farejar canções que, de fato, tinham muito a ver com
ele, coisas que seu pai Vernon ouvir, spirituals e muita m úsica
gospel, e country antigo, das Davis Sisters até Hank Wlliams.
Mas como para o Colonel Parker, para Presley gravar esse material era preciso
que a sua editora musical tivesse 100% do lucro das vendas, Elvis
ficou quase uma década refém de compositores de escritório.
Isso só mudou quando ele gravou o famoso Comeback Special para a NBC,
em 1968, e ao mesmo tempo lançou o clássico From Elvis To Memphis, que
indicou uma mudança no material trabalhado para a pré-produção dos
álbuns, uma nova banda de apoio, o fim progressivo das participações
em filmes. Presley voltou ao topo das paradas com canções como
Suspicious Minds e The Wonder Of You e passou a ter uma favorável
margem de negociação na hora de escolher o repertório.
A partir dali ele se reinventaria (ou seria reinventado). O foco a
partir dali não era mais os filmes, mas o retorno aos palcos a partir
de Las Vegas. No entanto, era questão de tempo para que o cantor
acabasse ss tornando cativo da maquina de entortar gente que era a
indústria fonográfica. Ao mesmo tempo, era percebível que, apesar do
público fiel, o mercado queria porque queria que ele continuasse na
crista da onda. Ele estava, mas isso não se refletiva nas vendas de
duscos: seu público olhava para trás e se identificava mais com o que
ele cantava nos palcos do que no que ele tinha de novo para mostrar.
Isso sem levar em conta que musicalmente Presley estava no seu auge
como cantor, e gravando coisas muito mais interessantes do que ele
fazia nos anos 60, indo de Gordon Lightfoot e Kris Kristofferson até
James Taylor. Contra isso ia a política da RCA e o ímpeto
capitalísticamente desenfreado do Colonel Parker, que insistia em
jogar no mercado discos anacrônicos que misturavam material antigo e
sobras de estúdio aos borbotões, em selos de promoção, como a Camden.
Essa questão só não era o principal motivo de fruistração de Elvis
porque o maior deles era o fim do seu relacionamento com Priscilla
Presley, que influenciaria tanto em seu estado anímico quanto no seu
repertório. E junto com o problema de ter que conseguir um compacto de
sucesso a qualquer custo - envolvendo toda a burocracia em volta dele,
havia o conflito de um intérprete que, a rigor, não teria que mostrar
nada a ninguém, mas no entanto, sofria uma cobrança enorme a cada
disco e era posto no circo dos leões pelos palcos de Las Vegas, apenas
porque seu empresário sabia que os shows davam mais dinheiro do que os
discos.
Também é preciso levar em consideração o que o Colonel Parker
considerava como arte: aquilo que desse dinheiro. Ou seja, nada de
filme cabeça ou álbum conceitual. Conceitual para ele era um punhado
de canções de sessões aleatórias e um poster de uma foto contemporânea
de seu pupilo de encarte.
Fora o problema de que os fãs não iriam digerir o novo trabalho de
Elvis, cuja editora musical esperemia os cérebros de compositores como
Mark James (o autor de Suspicious Minds) para sucessos novos em folha,
como pastel de feira.
O resultado foram discos como Raised On Rock e Fool - hoje
considerados clássicos - mas que, na época, foram incompreendidos.
Junto com a pressão de um novo sucesso, o divórcio e a sua saúde
instável.
Elvis na Stax
No meio desse turbilhão, e logo após a apoteose da apresentação
histórica no Havaí, em 1973, a RCA marcara outra sessão de gravações
do que seria o álbum Raised On Rock.
A solução salomônica e caseira foi agendá-la em Memphis, ao invés de
ir até Los Angeles. Afinal de contas, os estúdios da Stax ficam a
cinco minutos de Graceland.
Jorgensen diz que quando Presley se apresentou na Stax, ele parecia
animicamente alterado, acompanhado de um instrutor de caratê,
modalidade que era a sua paixão desde os tempos de exército.
Elvis encheu o estúdio de cantores e cantoras, para criar o clima
gospel nos backings. As primeiras sessõers saíram arrastadas. Na
segunda, alguém sumiu com o microfone principal do cantor. Na
terceira, os seus músicos de estúdio tiveram que se ausentar por
problemas de agenda. Elvis então foi servido pelos instrumentistas da
Stax, Donald Dunn e Al Jackson ("The Human Timekeeper" ), ambos
membros dos míticos MG's.
O problema maior ficou na parte de produção: a infra-estrutura da Stax
era diferente da comumente usada no American Studios, já que a mesa
gravava vocal e instrumentos por pistas, enquanto elvis trabalhava
quase sempre com todos tocando ao vivo. O engenheiro da RCA, Al
Patchucki, por sua vez, não estava preparado para isso.
A gravação ao vivo ali pista por pista iria exigir que todo mundo
usasse fones de ouvido, enquanto o ideal seria que cada um ouvisse
respectivamente o que os demais estão executando. "O sistema de
monitoramento da Stax não permitia que isso acontecesse", diz Ernst.
"De modo que cantores e banda não foram capazes de ouvir uns aos
outros enquanto gravavam".
Dado a todos os contratemos, contando com o perfil ciclotímico de
Presley àquela altura, em três sessões, eles haviam gravado menos da
metade que fora demandado pela gravadora. O jeito foi gravar o resto
sem elvis, apenas com uma voz guia, para que o cantor enfim
registrasse a sua voz, mas em outra ocasião e em outro estúdio, dessa
vez na casa do próprio Elvis em Palm Springs.
O mais interessante no livro de Ernst Jorgensen, no entanto, é o desvelo
que ele trata a parte profissional de Elvis Presley, ou seja, tratando apenas
do que se refere à sua carreira musical e em estúdio, destacando a passagem
de grandes colaboradores em suas sessões de gravação, a forma como ele e
sua banda produziam e cresciam em estúdio devido ao enorme talento e
sensibilidade intelectual do Rei.
Pena é que, como podemos ver nas páginas e histórias de Elvis - Vida na Música,
seu talento tivesse sido dispersado por conta de demandas meramente
mercadológicas ou pelos desmandos de seu empresário, Colonel Tom Parker, que tem também
seus pontos positivos no êxito da carreira de Presley, principalmente
no começo. Mas que, a longo prazo, acabou se tornando um fardo do qual Elvis não
pôde mais se desvencilhar.
Dia desses, me deparei com um livro que trazia uma coleção de cartas que a esposa do governador do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos, guardara como lembrança de seu amado esposo.
As cartas restaram como espólio de Dona Honorina, que deixou entre seus pertences após sua trágica morte, em 3 de janeiro de 1905.
Para quem conhece o célebre Patricarca do Rio Grande como um homem rígido e tão relacionado à sua vida política como líder republicano e chefe de estado num dos momentos mais tensos da história do Rio Grande do Sul: a Revolução de 1893. Por conta disso, não deixa de surpreender a forma afetuosa e carinhosa de como ele se dirigia à ela. E mais: a extrema qualidade do texto dele.
"Não avalias, meu idolatrado amor, que devorante saudade tem me consumido desde o dia de nossa separação! À medida que avança o tempo se me comprime mais e mais o meu dilacerado coração! És o meu sol, és minha vida! Por isso, longe de ti, sinto extinto o calor vivificante, julgo-me definhar de íntima melancolia. É assim mesmo, querida! Se eu fosse deixar falar o coração, esta folha de papel seria mais que muito insuficiente para significar vivamente o que vai por ele. Poucos dias nos separam: apesar disso, parece que eles assumem proporções de séculos! Tal é a ansiedade em que me acho por ver-te!"
Castilhos teve dois amores: uma foi a irmã de João Daudt Filho, amor que lhe consumiu cinco anos. A segunda paixão, fulminante, foi uma jovem pelotense, D. Honorina, por quem ele iria se casar.
Cedo ele acabou por influenciá-la por seu estilo persuasivo de intelectual e de homem de letras. Por longo tempo enquanto noivos, estabeleceram uma gigantesca troca de correspondências. Como o Patriarca escrevia pelos cotovelos, quase não admitia respostas lacônicas de sua amada:
"Para reparares a injustiça que me fizeste, sabes o que peçowe Que te tornes rebelde ao teu laconismo, e me escrevas extensamente como eu faço sempre. Aceitas o acordo? Espero. Conta-me a tua vida externa e interna, isto é, o que fazes e o que pensas. Desejo tanto saber os pensamentos que te ocupam o espírito, se são uniformes ou diversos, se se referem a mim ou não! Entretanto, tu te mostras tão rebelde às francas expansões do coração com quem sempre o abre inteiro dos teus olhos, como sempre fez o teu Júlio".
Um dia, Castilhos enviou uma carta à Honoria com uma foto dele. E disse:
"Não notes nem examine muito atentamente essa caricatura fiel, cujos traços são tão medíocres e antiestéticos. Ao contrário, te persuadirás mais uma vez de que não andaste inspirada e abandonaste o critério artístico ao veres em mim a encarnação do teu ideal. Corre ligeiramente os teus incomparáveis olhos sobre essa caricatura mas, por favor! Não a analises! Deixa que continua a viver a tua abençoada ilusão!".
Quando ela lhe enviou a sua foto, ele respondeu:
"Experimentei ontem a confortante satisfação de receber a tua preciosíssima de quarotze,a qual me acompanhou a visita que me fizeste por meio de teu retrato que,se bem melhor que os outros que conheço, revela-me, todavia, a radical impotência da máquina para transmitir a fotografia a intensidade da expressão da tua beleza. Embora imporfeito, tenho sentido um grande gozo íntimo e casta alegria da alma ao contemplá-lo, comovido em repetidas vezes!".
Com o tempo, ele acabou doutrinando D. Honorina também pelo lado intelectual. E a dedicação dela por Castilhos era total. A biografia de amos não toca muito no assunto mas, além disso, pelo que comentam alguns estudiosos da vida do Patriarca, D Honorina tinha depressão.
Ele morreu durante uma cirurgia de câncer de traquéia. De certa forma, há quem afirma que ele morreu pelas próprias mãos, já que Castilhos pereceu numa mesa de operação improvisada dentro de sua casa, assistido por três médicos amigos dele.
Ocorria que, por conta da Constituição castilhista, médicos com formação regular tinham os mesmos direitos e prerrogativas que os leigos de diferentes graus de conhecimento. Não havia exigência de diploma ou de outros documentos comprobatórios de aptidão para o exercício profissional. Ou seja, de acordo com a Carta, até um chofer de praça podia operá-lo.
D. Honorina guardou luto até a morte. Guardou consigo todas as cartas que ele lhe mandara. Lia e relia cada uma delas. Três anos depois da morte de Castilhos, ela cometeu suicídio. Foi encontrada num pequeno aposento no fundo do velho casarão onde hoje fica o Museu Júlio de Castilhos. Ao lado do corpo, familiares encontraram um feixe de papéis avulsos: eram as cartas.
Tiveram sete filhos ao todo e viveram felizes. Para sempre.