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Monday, March 30, 2020

O Último Carnaval



O Carnaval de 1919


“Além disso, sobreveio a morte de inúmeras pessoas que, certamente, se tivessem merecido ajuda, teriam sobrevivido. Em decorrência da escassez de serviços no momento azado, que os doentes precisavam mas não alcançavam, e também em vista da violência da peste, era tão grande o número dos que faleciam, de dia e de noite, na cidade, que provocava estupefação escutar, e ainda mais ver, o que ocorria. Porque por força das circunstâncias, muitas coisas que contrariavam os costumes básicos de qualquer cidadão, começaram a existir entre os que permaneciam vivos”.

“O tratamento dado às pessoas mais pobres, e à maioria da gente da classe média, era ainda da maior miséria. Em sua maioria, tal gente era retida em suas próprias casas, ou por esperança, ou por pobreza. Ficando, deste modo, nas proximidades dos doentes e dos mortos, os que sobreviviam ficavam doentes aos milhares por dia; como não eram medicados, nem recebiam ajuda de espécie alguma, morriam todos quase sem redenção. Muitos eram os que findavam seus dias na rua, de dia ou de noite. Inúmeros outros, mesmo morrendo em suas residências, levavam os seus vizinhos a não se manifestarem, mais por causa do mau cheiro dos próprios corpos em decomposição, do que por outro motivo. De pessoas assim de outras, que faleciam em toda parte, as casas estavam cheias”.

“Tão grande era o número de mortos que, escasseando os caixões, os cadáveres eram postos em cima de simples tábuas. Não foi um só o caixão a receber dois ou três mortos simultaneamente. Também não sucedeu uma vez apenas que esposa e marido, ou dois e três irmãos, ou pai e filho,  foram encerrados no mesmo féretro. Muitíssimos destes fatos podiam ser narrados. E infinitas vezes se viu que, indo dois clérigos, com uma cruz por alguém, atrás do primeiro se colocaram dois ou três ou quatro caixões, carregados por seus respectivos portadores; assim sendo, onde supunham os padres ter um morto para enterrar, havia sete ou oito; com freqüência, até mais. Tais mortos excedentes eram, por esta razão, homenageados com alguma lágrima, às vezes, ou alguma vela, ou alguma companhia”.

A descrição acima, feita por Boccacio, no começo do clássico Decamerão, faz um retrato sem retoques do que foi a Peste Negra na Europa, mais precisamente em Florença, no século XIV. Na narrativa, a peste é o ponto de partida para que um grupo de jovens fuja da cidade, e isolado da epidemia, decida enfim contar histórias para passar o tempo.

As cenas da peste, descritas por uma testemunha ocular da história, no entanto, não estão longe do cotidiano do que se vê no auge de uma pandemia. Tanto que essas descrições poderiam se encaixar perfeitamente no que foi a Gripe Espanhola de 1918 quando atingiu o Rio de Janeiro em 1918, como descreve Ruy Castro em Metrópole à Beira-Mar. Aliás, assim como Bocaccio, ele abre o livro, que conta a história dos anos 1920 na Capital Federal, com o apocalipse que tomou conta da cidade por dois anos.

No fim da guerra, o Brasil enviou conselheiros militares para a França. A embarcação parou em Dakar.  Sem desconfiar, eles ficaram expostos a uma gripe que havia chegado à Europa no final do conflito, por intermédio das tropas norte-americanas. Em pouco tempo, quase toda a tripulação fora contaminada e quase duzentos morreram pouco depois de entrarem em contato com o vírus.

Ninguém tinha a menor ideia do que era aquilo. Num espaço de dois anos, a pandemia, que entraria para a história com o nome de Gripe Espanhola iria matar cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo.  O vírus apareceu nos estertores da Primeira Guerra, quando não havia maiores perspectivas com relação a vencedores e vencidos: havia, sim, apenas o desejo do fim daquele longo e traumático conflito.

A medicina não soube à época do que se tratava. O certo, e que se soube muito tempo depois é que, a despeito do nome, ela não surgiu em terras ibéricas. Na verdade, muitos outros países a contraíram mas a Espanha, que estava neutra na guerra, foi o primeiro país a publicizar de fato os primeiros casos, que atingiram grande parte de sua população, incluindo o rei Alfonso. O que se sabe hoje é que ela veio dos Estados Unidos. E que não era uma gripezinha qualquer.  Ela começou a se disseminar no começo de 1918 pela Europa, até espalhar-se pelo resto do mundo e Brasil de setembro em diante.

Ela ia de uma singela dor de cabeça até um quadro de um piriri e cansaço extremo e dificuldade de respiração, cuja conseqüência era cianose dos extremos do corpo, tosse, tosse, tosse, hemoptise e morte.  Matou desde o sociólogo Max Weber até o presidente do Brasil, Rodrigues Alves.

Conta a história que a Espanhola chegou sorrateira e discreta, a bordo da embarcação Demerara, que havia fundeado em Dakar antes de aportar no Rio.  Boa parte da tripulação, marinheiros, por exemplo, entraram em contato com cariocas a partir de arredores do cais e nos mafuás da vida. A cidade não estava preparada para uma pandemia desconhecida como aquela. Em semanas, pessoas começavam a apresentar os sintomas citados acima, indo a óbito em questão de horas.

A fim de conter o contágio, as pessoas recorriam a remédios caseiros, de sopa de galinha e benzeduras a cachaça com limão. No começo diz Ruy Castro, as pessoas brincavam com a epidemia, dizendo que se tratava de alguma arma secreta provocada pelos alemães, que teriam colocado algum veneno de efeito retardado nas salsichas que eram exportadas para cá.

Importante lembrar que cidades como o Rio, assim como Recife, Santos, Salvador e Porto Alegre eram, naquele tempo, essencialmente portuárias: tudo passava pelo cais, de produtos até passageiros em massa. 

Delas, o Rio seria a urbe mais atingida pela Espanhola, com gente morrendo aos magotes, como Bocaccio descreve no primeiro capítulo do Decamerão. O precário sistema hospitalar da época não dava conta. Não havia leitos para todos; as pessoas morriam em questão de horas, a maioria durante um improvável atendimento: muitos em estágio terminal, já vomitando sangue e com os dedos das mãos e pés enegrecidos, no estágio avançado da doença. Em dado momento, não havia mais remédios, nem razão de ministrá-los a pessoas que estavam à beira-morte.

Não havia qualquer possibilidade de logística para velórios e enterros. Não havia caixão ou covas suficientes. Esquifes eram improvisados. Cadáveres ficavam pacientemente deitados à frente das casas, à espera de que ambulâncias os levassem. Corpos eram atirados em caçambas como se fossem lixo, muitos ainda moribundos, eram carregados com os mortos – às vezes, como diz Pedro Nava em suas memórias, citadas por Ruy Castro, crianças ainda vivas eram carregadas com suas respectivas mães mortas. 

Muitos deles eram sacrificados na hora pelos padioleiros. Em campas improvisadas, eram finalmente cremados e inumados de qualquer maneira, em valas comuns e sem identificação nenhuma.  Nesse meio tempo, era comum amigos do alheio roubarem pertences dos defuntos, de dentes de ouro até jóias.

Em dado momento, nem o decoro do luto fazia sentido; eram tantos os vitimados que já não havia quem vendesse víveres nos armazéns. De repente, não havia mais víveres. Os poucos secos e molhados que tinham coragem de abrir eram atacados por horas de pessoas, em geral infectadas, que apelavam para o saque de produtos de primeira necessidade. Com a escassez, os produtos custavam cada vez mais caro: um honesto e preclaro ovo custava o equivalente a uma galinha viva.

Os poucos jornais que circulavam avisavam seus parcos leitores a evitarem aglomerações e ou transporte público, estabelecimentos, escolas e fábricas. O centro do Rio se transformou numa cidade fantasma, com exceção das igrejas, onde muitos iam rezar como se fosse pela derradeira vez. Logo, policiais eram obrigados a fazer sentinela, de forma a que tais estabelecimentos pudessem funcionar. 

Em menos de um ano de Espanhola, mais da metade dos cariocas haviam contraído o vírus. Até o final do ano, quando boa parte da população passou a desenvolver resistência à gripe. “Assim como surgira, a gripe fora embora”, diz Castro. “Não por alguma poção ou magia, mas porque as pessoas haviam ficado imunes”. 

Segundo ele, se poucas semanas antes, a população estava à beira-morte, agora se encontrava às vésperas do tríduo momesco de 1919. “Quem sobreviveu não perderia por nada aquele Carnaval”, diz. Os festejos seriam as exéquias daquele período negro na história da Capital Federal. De repente, a então vazia avenida Rio Branco passou a se encher de foliões se perdiam no entrudo na batalha de lança-perfume, enquanto davam passagem às bandas de música da polícia e dos bombeiros. A Light dera passe livre para a população, que encheu o centro com ranchos carnavalescos, desfiles de corsos e a chegança de blocos, como o Cordão da Bola Preta. Mas, mesmo que existisse o medo de que aquela maldita gripe voltasse, ninguém parecia se importar. E se fosse o último Carnaval da história da humanidade?


Referências

Boccacio, Decamerão. Tradução de Torrieri Guimarães, Abril, 1979
Ruy Castro, Metrópole à Beira-Mar. Companhia das Letras, 2019. 


Wednesday, February 26, 2020

O Forte e a Marchinha

A marcha ao cadafalso: os 18 do Forte

Aproveitando esse clima de Carnaval, vou contar uma historinha.



Depois de tomar posse, em 1923, o presidente Arthur Bernardes, entre muitas outras atitudes discricionárias – entre elas baixar uma lei que previa censura aos jornais e enquadramento do movimento operário no Brasil,impondo, inclusive, pena de deportação aos anarquistas espanhóis e italianos e um governo sob estado de sítio (com a anuência do Águia de Haia, Ruy Barbosa), mandar mater e prender centenas de pessos, ele proibiu a execução pública da divertida marchinha “Ai seu Mé”, de autoria de Freire Júnior e que, por sinal, não aparece com seu nome no selo do disco. Todos cantavam a música. As crianças adoravam a sabiam de cor. 

A marchinha carnavalesca, grande sucesso do Carnaval de 1922, junto com “Eu quero é beliscá” tem uma história fantástica por trás. Pra começar, hoje não se ouvem mais marchinhas. Mas era muito comum que elas, que começaram a ganhar vulto a partir do famoso “Pelo Telefone”, de 1917 e teriam seu auge nos anos 30 e 40, com temas escritos por Lamartine Babo e Braguinha, entre outros, fizessem muita crítica de costumes e, principalmente, sátira política.

Esse é o caso de “Ai, seu Mé. Lançada no começo de 1922, virou sucesso porque, com uma letra tão ostensiva quanto sutil, fazia crítica direta a Arthur Bernardes, então candidato do governo ao Catete. Bernardes, meses antes, mais precisamente em outubro do ano anterior, havia se envolvido numa grande patuscada, quando cartas falsas atribuídas à ele, que foram publicadas pelo Correio da Manhã.

As cartas atacavam diretamente o marechal Hermes da Fonseca. Na época, ele era um dos candidatos preferidos pelos oficiais das Forças Armadas para candidato de oposição, pela chapa oposicionista ‘Reação Republicana’. Como presidente do Clube Militar, ele promovia banquetes no local a fim de angariar fundos para a campanha.

As cartas davam a entender que Arthur Bernardes estava irritado com a atitude de Hermes, e o teria chamado de “sargentão sem compostura” à Epitácio Pessoa,  numa das cartas, depois descobertas que eram totalmente apócrifas.  Ao mesmo tempo, pedia que o presidente fizesse alguma coisa “àquela canalha”.

O grande problema é que, se as relações entre Epitácio e as Forças Armadas já estavam estremecidas. Afinal, numa atitude que não se via desde o Segundo Reinado, Pessoa nomeou civis para as pastas militares – Afonso Pena na Marinha e Pandiá Calógeras, que nunca tinha participado nem de um tiro ao alvo em mafuá, no então chamado Ministério da Guerra. Para os militares, isso era um acinte, um absurdo, um ultraje.

Agora, de forma intempestiva, o seu candidato chamava Hermes, um luminar do Exército, amado por todos os jovens tenentes como um símbolo de resistência antes aquele estado das coisas, um governo que traiu os ideais da República em favor do clientelismo e da corrupção e violência o chamava, da maneira mais surrealista possível, de “sargentão sem compostura”.

Até que descobrissem a autoria das cartas falsas, o Correio fez ampla cobertura do corolário dos acontecimentos, e o resto da imprensa carioca, inclusive as revistas, como o Malho, publicavam charges a respeito do assunto. E, como se pode imaginar, a última coisa que a imprensa queria saber era se elas eram falsas ou não.  Afinal, porcausa do escândalo, muitos jornais vendiam exemplares aos milheiros. O fato ocorreu em outubro de 1921. Até o ano seguinte, muita água correu e não foi para apagar o rastilho de pólvora.

Então, no calor dos acontecimentos, Freire Júnior escreveu a cálida e brincalhona marchinha, que deu para Bahiano, então um dos mais famosos cantores do país, dos tempos da aurora da fonografia no Brasil. A letra é esta:

Zé-povo quer a goiabada campista
Rolinha, desista, abaixe essa crista
Embora se faça uma bernarda a cacete
Não vais ao Catete!
Não vais ao Catete!

Ai, seu Mé!
Ai Mé Mé!

Lá no Palácio das Águias, olé
Não hás de pôr o pé
O queijo de Minas está bichado, seu Zé
Não sei porque é, não sei porque é
Prefira bastante apimentado, Iaiá
O bom vatapá, o bom vatapá

O primeiro verso é referência a Nilo Peçanha, o candidato da ‘Reação...’, que era natural de Campos, Rio de Janeiro, a terra da “Goiabada Campista”. O embora se faça uma bernarda a cacete, não vais ao Catete”. A rima, genial, combina de forma genial com a expressão “bernarda” (motim) com o duplo sentido de falar do sobrenome do candidato governista. Depois, fala que o “queijo de Minas está bichado”, outra referência a Bernardes, que era mineiro.  

A relação com vatapá pode fazer referência a um tipo de comida muito popular no Rio, ou seja,prefira vatapá ao queijo mineiro. Ou seja, a marchinha é eivada de referências à Bernardes, fechando com o refrão, “Seu Mé”, seu apelido, porque ele era considerado “cara de cabrito”. Lá no Palácio das Águias, o outro nome para o Palácio do Catete.

A canção, junto com o episódio das cartas falsas serviram para causar um grande estrago na candidatura governista, vencedora de largada, num país de eleições "de cabresto", abertos, sem partidos populares e sem comícios. E o sucesso da marchinha mostrou que o “Zé  povo” (pelo menos quem não podia votar, já que as eleições eram patrioticamente viciadas, como se sabe). 

De qualquer forma, as duas coisas galvanizaram um ódio enorme (e popular) à Arthur Bernardes – tanto que, quando ele foi em campanha ao Rio, foi vaiado o tempo todo e em toda a parte. Até quem não gostava inticava com Seu Mé. E o pobre diabo naturalmente era obrigado “Ai seu Mé” até durante os sonhos. Mesmo que muitos não votassem, sua imagem ficou bastante prejudicada, e esse descontentamento, com a música, ganhou as ruas durante o tríduo momesco e caiu na boca do povo.

As cartas e “Ai seu Mé” e a cisão entre os militares e o Catete levaram ao famoso e dramático levante de 1922. Marcado para o dia 5 de julho, ele foi desenvolvido secretamente, por boa parte da oficialidade da Escola do Realengo, então considerada mais politizada do que a da Praia Vermelha. Ás vésperas do levante, Siqueira Campos, o gatilho mais rápido do Forte de Copacabana, disse a Hermes que, em seu nome, iria haver uma revolta, envolvendo o Forte, a Vila Militar e a escola do Realengo.

Entre nervoso e irritado, Hermes não deixou Campos falar. Respondeu que não queria o levante de forma alguma. Depois, percebeu que não podia fazer nada. Mas o ex-presidente tinha uma relação íntima com o Forte de Copacabana: ele foi seu idealizador e quem colocou uma bela e moderna artilharia lá. Além do mais, seu filho, Euclides, estava lotado lá.

O filme O país dos Tenentes romanceou as cenas dos levantes da Vila e do Forte. Quando os tenentes prenderam seus superiores e deflagram a revolta, começam a cantarem coro: “ai, seu Mé, ai, seu Mé, lá no Palácio das Águias, olé, não hás de pôr o pé”. Não sei se isso aconteceu de fato (Hélio Silva, que escreveu o famoso 1922: sangue na areia de Copacabana, e narra o episódio com riqueza de detalhes, não menciona o fato), mas pode ter ocorrido. Isso é a mais pura verossimilhança.

O resto todos sabem: os levantes da Vila e em Realengo foram desmanchados a tempo. Ficou o Forte de Copacabana lá, impávido e sozinho, reinando diante do mar,  totalmente armado e cheio de minas na parte superior,  prontas para levar tudo pelos ares. Na revolta solitária, os tenentes lá lotados, (entre eles Mário Carpenter, Eduardo Gomes e Siqueira Campos), bombardearam anunciando a revolta; chegaram a bombardear o navio São Paulo que, vigiando a situação distraidamente, ficou na alça de mira do canhão de Siqueira, que também chegou a atingir vários alvos no centro do Rio, matando muita gente.

Sitiados, com várias peças de artilharia danificadas, eles resolveram sair em marcha e enfrentar mais de 3 mil legalistas, que os esperavam ao longo da praia. De todo o grupo de oficiais, restaram uns trinta. O restante resolveu enfrentar a caterva de Epitácio e Calógeras, na avenida Atlântica.

De peito aberto, repartiram uma bandeira do Brasil em pedaços, e cada um carregou um com eles. A que estava reservado a Euclides, que foi preso ao sair para tentar uma quixotesca rendição, foi dada a um civil que era amigo de Campos e de outros oficiais. Simbolicamente, ele foi o civil que representou sem querer o “Zé povo” da marcinha.  Otávio Côrrea, o ilustre civil, era filho de estancieros da fronteira do Rio Grande do Sul.

Depois de várias pândegas na Europa, ele voltou à terra natal desencantado em retornar à Jaguarão e à lide campeira, e sem poder permanecer na França, devido a um dueloem que se meteu, perdendo o passaporte, a contragosto ele voltou ao Rio. E resolveu fazer uma gauchada com os oficiais do Forte. Ele é o homem de chapéu que aparece nas fotos históricas de Zenóbio da Costa depois publica das em O Malho.

Assim como Canudos, na famosa frase de Euclides da Cunha, o Forte não se rendeu. Desceu a Atlântica e enfrentou os legalistas. Foram alvejados um a um, como patinhos num triste e heroico tiro ao alvo de mafuá. Muitos foram morrendo pelo caminho, pela areia, onde se escondiam para atirar como livre-atiradores. No fim, os 18 foram vencidos, poucos sobreviveram. Siqueira Campos, mesmo levando um balaço no ventre, sobreviveu. O civil, Otávio, ferido gravemente, morreu horas depois, no hospital. Eduardo Gomes também teve ferimentos graves.  

No fim das contas, “Seu Mé” pôs os pés no Catete, impôs ferrenha censura á imprensa e,  por pura implicância e desfeita, acabou com a divertida cantoria da marchinha de Freire Júnior.




Referências

Afonso Licks. Octávio, o civil dos 18 de Copacabana. Quattro Projetos, 2016.
Hélio Silva. 1922: sangue na areia de Copacabana, Civilização Brasileira, 1964.
Marly Rodrigues. O Brasil na década de 20. Ática, 1997.
Ruy Castro. Metrópole à beira-mar. Companhia das Letras, 2019.


Thursday, August 25, 2016

Vidas Paralelas


Jânio Quadros


Dia 25 é o Dia do Soldado é é também, para quem ainda se lembra, o fatídico dia da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961. Sempre eu passo por esta data e recordo dessa efeméride, me vem à mente um capítulo da autobiografia do Samuel Wainer* (que, aliás, recomendo tanto para quem faz jornalismo quanto para quem não faz jornalismo). Nunca esqueci deste livro porque meu professor de História no 2º grau, na antiga Escola Mauá (de quando ela ficava na Dr. Flores, em cima do prédio da Hudersfield, lá no começo dos anos 90. No curso, ele nos passou o xerox do capítulo 31 (mais tarde, eu leria o 32 e, mais tarde, o livro inteiro).

Os dois episódios narrados aqui — um com Jânio e o outro com o seu vice, João Goulart, mais do que subsídios para explicar a crise de 1961, servem um pouco para mostrar um retrato sem retoques da personalidade de ambos. Os dois personagens falam por si. O resto é só relacionar com os fatos.


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No começo do capítulo 31, Wainer discorre sobre como os empreiteiros começaram a tomar conta do Brasil, a partir da construção de Brasília e da relação de Juscelino Kubistchek com Marco Paulo Rabello. Em seguida, ele conta que, nas eleições de 1960, como seria natural, a Última Hora iria investir agressivamente contra o candidato da UDN. Porém, como Samuel salienta que Lott era um partido fraco, e que perdia-se em gafes — enfim, era um grande nome, porém potencialmente ruim de votos.

Quando Jânio venceu, Wainer viu-se obrigado a colocar trincheiras diante de si; afinal, Jânio iria certamente pôr Carlos Lacerda (que, por sua vez, havia sido eleito para o novíssimo Estado da Guanabara) como seu factorum. O efeito, contudo, foi nulo. Durante aqueles sete meses para ele seriam de bonança. De acordo com o diretor da Última Hora, Quadros tinha um certo 'fascínio' por ele, dos tempos em que fora prefeito de São Paulo.

Certo dia, Samuel recebeu uma ligação do secretário particular de Jânio, José Aparecido de Oliveira. Ele queria uma reunião com o dono da Última Hora, a fim de discutir a questão cambial no Brasil. O Presidente queria fazer restrições à importação de vários insumos, entre eles, o papel de jornal e, por fim, queria a opinião dele a respeito do assunto.

Pegou o primeiro voo para Brasília. Foi recebido pelo motorista oficial de Jânio, que o conduziu até a biblioteca do Palácio. Quando entrou na sala, viu o recinto vazio e uma garrafa de vinho do Porto, quase que pela metade. Wainer achou estranho: sabia que Quadros era um copioso bebedor de uísque.

Eis que, de repente, irrompe o presidente,. de slacks e robe de chambre.

— Que bom que vieste, Wainer. Estás fadado a apoiar-me — falou.

Depois de comentar sobre o apoio da Última Hora à candidatura Lott, reclamar do alto custo das importações brasileiras, entre goles e mais goles do vinho do Porto — que, por sinal, não ofereceu ao convidado ** — Jânio agarrou o braço de Samuel e disse:

— Vamos combater com essa plutocracia!

Wainer entendia o recado em parte: o presidente reclamava e acusava donos de jornais de, na opinião dele, torravam milhões de dólares em papel importado. "Ele achava que meu apoio ao governo era essencial, tanto pela influência [do jornal] quanto pelo fato de que eu sempre lhe fizera oposição", diz Samuel, em suas memórias. "Ponderei que, se aderisse incondicionalmente ao governo, meu jornal perderia peso político. Parecia mais sensato permanecer na oposição e apoiar o governo sempre que adotasse medidas corretas".

Jânio pareceu estar satisfeito com a tese. De repente — segundo Wainer — o presidente bateu na testa e, com um olhar enlouquecido, disse que contava com três forças:

— É a Santa Trindade — bradou. — Conto com a Santa Trindade para me apoiar nessa luta pela salvação da pátria!

Sem entender o rumo da conversa, o jornalista indagou:

— E com quantos generais o senhor conta?

— Não conheço sequer o nome do Chefe da Casa Militar — confessou. — Se um prelado com mandato parlamentar entra aqui como prelado, ajoelho-me e beijo-lhe o anel. Mas se me vem como político, eu o expulso porta afora — disse.

Na saída, Jânio voltou a saudar o virtual apoio da Última Hora ao seu governo e prometeu um novo convite — que não aconteceu.


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Com a renúncia (Já no capítulo 32), Wainer preferiu entrincheirar-se em São Paulo, novamente temendo qualquer represália de Lacerda. Como se sabe, quando Quadros renunciou, em 25 de agosto daquele ano, João Goulart estava na China e, enquanto fazia várias escalas em sua viagem de retorno, tentava aos poucos tomar parte da situação. Quando chegou em Paris, Goulart ligou para Samuel:

— Tu achas que devo voltar? — indagou.

Conhecendo Jango, ele preferiu despistar. Deu de ombros e respondeu:

— Não estou em condições de responder. Aliás, não sei nem o que é que vai acontecer comigo.

— Mas como? — insistiu o vice. — Então tu achas que eu não devo voltar?

O jornalista bateu na mesma tecla. Não sabia nem qual seria o seu futuro dali por diante.

— Então...tu és contra a minha volta?

— Não é nada disso — protestou Wainer. — Acho que devemos interromper essa conversa por aqui. Só que, antes, eu gostaria de lembrar ao senhor que um líder decide por si, a até mesmo contra os seus próprios impulsos, muitas vezes até contra os seus aliados. Você é o líder. Portanto, decida.

Mais adiante, Wainer revelou emocionar-se com a decisão (ou "decisão") de Jango. Com Goulart no governo, Getúlio ainda permanecia no poder. Contudo, ao traçar um paralelo entre os dois presidentes, ele esboçou uma imagem curiosa do herdeiro político do PTB: "João Goulart era um típico moço da fronteira, que adorava cabarés e bailarinas, que divertia-se com boêmios e prostitutas, que passvaa noites inteiras conversando em mesas de bares. Não tinha prazer algum em conviver com grã-finos, detestava enfiar-se numa casaca para comparecer a alguma solenidade (...) como líder populista, jango exibia uma evidente inapetência para certas exigências do poder. Getúlio sempre demonstrou enorme prazer pelo fato de ser o número um da República; Jango, não".

Certa feita, Samuel conta que foi procurar Goulart em seu apartamento, no edifício Chopin, ao lado do Copacabana Palace. encontrou-o rodeado de capangas e bebendo uísque, todos com os pés "confortavelmente colocados sobre mesas".

— Quero cumprimentá-lo pelo dia de hoje.

Ao saber que era 6 de janeiro, sorriu:

— Ah, o aniversário do João Vicente!

Wainer confessou que não sabia que era aniversário do filho de Jango. O presidente então coçou a cabeça. Pensou:

— Hoje é Dia de Reis!

Samuel explicou que, como judeu, não conhecia muito bem o calendário cristão.

— Ué, então o que temos para comemorar hoje, afinal?

— Presidente, hoje faz um ano do Plebiscito do presidencialismo! Não é possível que você tenha esquecido dessa data em apenas um ano!

— Pois é, me esqueci — respondeu Goulart.

Meses depois desse encontro, Wainer assistiria a mais uma crise política, está alijando o herdeiro político de Vargas definitivamente do poder. Para o jornalista, não havia muito a lamentar: "eu sabia que a perspectiva de ser deposto nunca afligira Goulart da mesma forma que inquietara, por exemplo, Getúlio [...]. Não seria preciso, portanto, chorar por ele".


* Samuel Wainer, Minha Razão de Viver. Editora Record, 1987. pp 224-236.

** No Depoimento (que inspirou o Minha Razão de Viver), Carlos Lacerda, por sua vez, conta o último encontro dele com Jânio, na véspera da renúncia. Essa história eu conto da próxima vez. Mas para quem quiser ler, é só procurar o livro.