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Capa do Goat Heads Soup, que será relançado dia 4 |
Os
Rolling Stones planejam comemorar a passagem do lançamento original do álbum Goat Head Soup (31 de agosto de 1973)
com um box com material inédito no próximo dia 4. A estratégia de reedições de
discos recheados de memorabilia e sobras de estúdio, além de ser uma boa
oportunidade para colecionadores e fãs, serve para revalidar os direitos
autorais desse material, enquanto hoje, em tempos de música digital, torna-se
uma alternativa para recolocar o antigo acervo em catálogo. Acervo esse que, se
olharmos em retrospectiva, tanto no caso da banda quanto de outros artistas,
também serve para renovar seus respectivos públicos. É provavel que eles jamais
imaginassem, na época da produção, que seus discos continuassem despertando a
curiosidade de novos ouvintes quase meio século depois. O digital em tempos de
streaming acabou servindo para que o antigo se transformasse em novo.
O
relançamento poderia servir para que seja possível olhar para a discografia dos
Stones nos anos 70 de forma diferente da maneira como era feita antes. Falo por
experiência própria: quando comecei muinha coleção do grupo, dizia-se que a
grande fase deles fora a com Brian Jones. A despeito da morte trágica, que o
mitificou através dos tempos, e também por causa disso, não é preciso dizer que
existe, por parte dos fãs, um carinho todo especial quanto ao primeiro capítulo
dos Stones. Foi ali que a banda se fez. Porém, essa construção se fez, de certa
forma, em detrimento do resto da produção do quinteto (agora quarteto). O que
eu quero dizer é que é notório que existe uma má vontade com a maior parte da
discografia dos Stones: a título de periodização, eu poderia resumir a coisa.
Primeira fase (1963-1968); segunda fase (1968-1972); terceira fase (1973-1981);
quarta fase (anos 80) e, vá lá, quinta fase (de 1994 em diante). É uma
pediodização arbitrária, mas está aqui apenas como artifício didático.
Assim,
as duas primeiras fases seriam o zênite: pega o começo e a fase áurea, entre o
Beggars Banquet e o Exile on Main Street. E o resto? O rsesto seria o resto,
ou, por outra, poderia ser resumida a coletâneas, algumas muito boas (e os
Stones são mestres em atolar os fãs com isso), com a Jump Back ou a Fourty
Licks. Outras hoje superadas, como a Made in the Shade.
Disse
tudo isso não porque eu gostaria que as pessoas tivessem mais paciência com o
resto da obra da banda de Mick e Keith. Mas, sim, porque eu acho que o grande
momento dos Stones está depois da fase considerada clássica. Óbvio que a
segunda ou terceira ou quarta não existiria sem a primeira. E nem vou fazer
história contrafactual de imaginar como teria sido o quinteto levando Brian nas
costas pelo resto da vida, fazendo quem sabe muito menos que o Ian Stewart fez
vivo ou morto pelos Rolling Stones. Maluco, eu? Dizer que Stu foi mais importante
que o Brian no cômputo geral é uma tese que eu abraço. Acho, inclusive, que
toda aquela multi-instrumentalidade do Brian nos Stones poderia facilmente ser
suprida em qualquer esquina de Los Angeles nos anos 60. Se não fosse o Brian,
poderia ser o Barney Kassel ou o Leon Russell ou qualquer reserva da turma do
Wrecking Crew. Mas também não é isso o que eu queria dizer.
Eu
poderia dizer que, em matéria de periodicidade, poderia ser dividido de outra
forma: a fase de palco e a fase de estúdio. Como é isso? Acho que tem uma fase
dos Stones, a do Andrew Oldham e a do Jimmy Miller, onde eles estavam do lado
de fora da sala de controle. Eles provavelmente trabalhavam em grupo os
arranjos das novas músicas autorais, mas a mixagem, produção e masterização era
coisa da turma da mesa. Até mesmo ouvindo os primeiros elepês, a impressão que
se tem é que eles reproduziam nos microfones aquilo que eles faziam ao vivo. Os
três ou quatro primeiros discos são eles ao vivo. Quando eles começaram a
gravar 100% material próprio, a coisa ficou diferente. As músicas nasciam em
estúdio. Isso foi um problema, primeiro porque os Stones não metiam a mão na
cumbuca e segundo porque Andrew não era o George Martin nem o Phil Spector.
A
produção do Aftermath é praticamente do dave Hassinger e da turma da RCA.
Quando veio o Between the Buttons, deu pra sentir, pelo menos, nas palavras de
Mick Jagger, que a mixagem final não ficou a contento. O disco no estéreo
parece mal enfeixado e o álbum não parece redondinho como o Aftermath. O primeiro
momento onde eles põem as mãos na graxa é do Satanic Majesties, mas aí não
valeu. O começo do aprendizado veio com a fase Jimmy Miller – é a onde aparecem
os grandes discos, como o Let it Bleed, e cujo paroxismo é o Exile. Note que,
nesse meio tempo, os Stones começaram arrumando a casa nas canções, depois
mudaram de casa, fundaram um selo, passaram a administrar os direitos autorais,
assumiram editora, gravadora, esquema de excursões, faltava apenas uma coisa: a
banda passar a produzir os próprios discos. E isso se deu justamente na meca
dos produtores mais quentes dos anos 70, você sabe, na Jamaica.
Coincidência
ou não – afinal, os Stones estavam atirando para todo o lado, como piratas,
fugindo do fisco britãnico como o nosferatu da luz do dia. Nos anos 70, eles e
mais uma pá de gente, de escritores a atores, produtores e músicos, promoveram
uma verdadeira diáspora para não pagar imposto a Sua Majestade Britânica. Foi
um negócio do tipo o último a sair apaga a luz do aeroporto. Os Stones viraram
corsários, ora morando na Suíça, ora nos Estados Unidos, ora gravando em
Munique, ora na França, até que, depois de não conseguirem visas nos Estados
Unidos, foram parar numa ex-colônia, a Jamaica de Coxone Dodd, dos Waillers, do
rocksteady, dos sound systems, Duke Reid, e isso justamente numa época em que o
caribe estava gamhando visibilidade em toda a parte. Os jamaicanos passaram por
68 (Keith teve lá no ano seguinte), presenciaram o nascimento da consciência
negra e o crescimento do rastafarismo com suas lembranças da África, como disse
Stuart Hall. As coisas haviam mudado, mas a música, não. Pelo contrário, foi
ficando cada vez melhor à medida em que ganhava o mundo. Foi nesse contexto que
os Stones aterrisaram lá.
Se a
troupe que ficou em Nelicôte acabou resumindo-se às experimentações musicais
entre paredes nas gravações do Exile, segundo Keith, na Jamaica, a integração
com músicos de lá foi total: Richards fez quase uma pseudoetnografia de sua
passagem lá, e que renderia certamente um livro sobre sua relação com a música
jamaicana e a produção do Goat Head Soup, que é um dos meus discos preferidos
deles, se não o meu preferido. Em alguma entrevista, Mick fala que não gostou
tanto do resultado do Exile. Disse que o álbum, em alguns momentos, ficou fora
de foco, e que ele não gostou de muita coisa que gravou ali. E, de fato, apesar
de toda a mitificação do Exile, afinal, o disco é considerado o grande momento
dos Rolling Stones e o resumo daquilo que eles desenvolviam desde “Jumpin’ Jack
Flash”, o decálogo do rock segundo Jagger, Richards e companhia limitada. Eu
diria quase o mesmo. Mas o Exile é o que é.
Seria
natural que o trabalho imediatamente posterior deles fosse ser diferente:
afinal de contas, eles estavam, desde o final dos anos 60, sob influência do
country blues, de Gram Parsons e arredores. No começo dos anos 70, estavam
longe da cena inglesa, que se dividia entre o progressivo e o glam, enquanto o
funk soul (Curtis Mayfield, Temptations da fase Cloud Nine) era o ritmo mais
pop na américa. Os Stones, ao lançarem o Exile, certamente encerraram aquele
ciclo para, num segundo momento, correr atrás do atraso. Por isso que, talvez,
esse fosse o momento da integração com Billy Preston em detrimento de Stu, e a
opção por baladas, como “Angie”, e por canções mais fanqueadas, como
“Fingerprint File”. Claro que essa mudança não iria pasar incólume por crítica
e por parte do público, que não os perdoou até hoje.
Mas,
no fim das contas, a passagem pela Jamaica foi importante para a independência
dos Stones como produtores. No momento da
troca da guarda, eles finalmente controlam todo o esquema. Tudo o que
eles precisavam aprender, foi durante o período de Miller na produção e,
coincidentemente ou não, na terra dos grandes produtores, gente como Reid e
Dodd, que vivia todos os lados da música, como ouvintes, estavam antenados até
nas blasters que mandavam a música ianque para o Caribe; como músicos, sabiam
como se portar em estúdio, afinar instrumentos e dispô-los; e como produtores,
eram verdadeiros alquimistas da arte pela arte, e muitas vezes fazendo milagre
com equipamentos defasados. Na música jamaicana, desde o mento ou antes, todas
as etapas estavam muito próximas, tudo andava junto. Se foi ou não
coincidência, a verdade é que os Stones, quando fizeram o Goat Head Soup,
estavam no lugar certo e no momento certo. A partir do Goat, eles eram músicos
de estúdio e de palco para todo e sempre, amém.
No
final de O Sol, a Lua e os Rolling Stones, Rob Cohen retoma a velha questão:
quando foi que os Stones acabaram? Ele relembra a rusga dos anos 80, que talvez
só não provocou a separação por causa da morte do Ian Stwart. Dizem as más
línguas (e Rob Cohen está entre elas) que a banda permaneceu porque a carreira
solo de Mick Jagger foi uma promessa que não se cumpriu. Outros dizem que o grupo acabou quando Brian
Jones morreu. Outros, quando eles largaram os covers. Uns dizem que o começo do
fim está nos anos 70, quando a banda se aburguesou. Ethan Russell diz que os
Stones acabaram em Altamont. Cohen entende que Steel Wheels, o primeiro depois
da rusga oitentista, nasceu datado e morto; contudo, vê pontos altos em discos
como Some Girls e Tatoo You. Junto com a maioria dos fãs roxos, ele faz coro à
teoria da fase clássica, que compreende a parceria com o produtor Jimmy Miller,
que vai de 1968 até 1972, ou seja, de “Jumpin’ Jack Flash” até o lançamento do
incensado Exile on Main Street. No fim, Rob bate o martelo: “Some Girls foi o
último movimento da banda antes de ela se acomodar na complacência”.
Hoje
de manhã eu estava escutando o Love Beach (1978), do Emerson, Lake and Palmer e
é notória a rejeição dos fãs do trio com relação à este álbum que, como se sabe,
foi o canto de cisne deles. E talvez tenha sido a maneira mais funesta de
encerrar uma carreira memorável como a do ELP no território do progressivo: com
um disco onde, em plena era da Discotheque, eles pareçam emular a imagem dos
Bee Gees, os reis do disco naquele fim de década. Então eu fiquei pensando:
será que Emerson, Lake and Palmer também, naquelas alturas do campeonato, “se
acomodaram na complacência”? Ou será que os tempos simplesmente mudaram e, no
caso do rock progressivo, mudou rápido demais? Ou será que uma banda com tanta
visibilidade e história como os Stones é que sejam obrigadas a prestas contas
de sua integridade estética. Os tempos que mudaram para o ELP, para o Yes ou
para o Jethro Tull também não mudaram para os Stones também?
A
questão é que essa hipótese do ponto de corte da decadência stoniana é uma
discussão que estará sempre em disputa. Sempre existirão fãs que irão defender
qualquer uma das possibilidades apontadas acima. O Keith, no seu Vida, diz que
quando eles começaram, eles sabiam que o normal no mercado era que um artista
durasse, no máximo, dois anos. Ou seja, eles sabiam que o prazo de validade no
mercado da música é curto. E a morte dos Stones foi decretada há quase meio
século. O que seria menos funesto, acabar com tantos outros grupos, seja por
fracasso ou por disemsão interna de seus integrantes, ou acabar “se acomodando
na complacência”? A questão, eu volto aqui, é que ninguém quer dar razão aos
Stones. Analisá-los apenas pela produção fonográfica deles puramente, sem
relacionar com todo o contexto da banda, da época, da música da época, é tipo
ser um eterno jurado de show de calouros, e querer que gente como os Stones
tenham que ser nota 10 sempre. Também é verdade que, em nome da nova moda, eles
estiveram muitas vezes tão longe do rock, que eles foram rencontrar, de certa
forma, quando finalmente voltaram aos temas da fase clássica, a partir do
Stripped, quando, ao que parece, não era mais fora de moda ser roqueiro.
A
questão de Altamont é boa, porque os Stones nunca surfaram no flower power e,
involuntariamente pagaram um preço alto ao fechar esse capítulo da história do
rock. Mas foi justamente nesse momento que eles se fizeram como produto do
rock, e justamente num momento de mudanças. Os Stones viraram empresa, com
selo, com relações públicas, começaram a fazer dinheiro trabalhando fora da
Inglaterra, montrando bases estratégicas
na Suíça e nas Bahamas (e gravando em muitos casos a partir de um estúdio móvel
e que, como se sabe, alugavam a outros artistas) e foram os arautos da era do
rock de arena. Quando os anos 70 terminaram, eles tinham uma marca consolidada,
haviam sobrevivido aos pequenos e grandes perdas e revezes, a Altamont, ao fim
do sonho dos anos 60, às mudanças no mundo da música, o progressivo, o glam, o
funk, o disco e o punk e, talvez o maior desafio de todos, atravessar incólumes
os famigerados anos 80 que, à guisa de uma teoria da conspiração maluca ou o
que quer que o seja, com sua ética do presenteísmo, fizeram de tudo para acabar
com a cultura e com os ídolos do rock do passado.
Muitos, ainda hoje, dizem que
o rock morreu. Se ele tivesse realmente morrido, teria morrido com os Rolling
Stones – se eles tivessem ficando pelo caminho. Mas eles cruzaram todos os
rubicões. Onde está a acomodação na complacência? Se um garoto hoje pega numa guitarra hoje e
resolve tocar rock, certamente irá passar por eles, se não pegou a guitarra por
causa deles. Os Stones são, em parte os
curadores do que nós podemos chamar de rock hoje, eles fazem parte da história,
da cultura, do imaginário; como ritual, o rock se renova e se presentifica a
cada vez que eles retornam aos palcos. Quem entende os Stones a partir do
pontual não é capaz de entendê-los como fenômeno a partir da perspectiva da
longa duração dos Stones como um fato cultural, não como uma novela com
mocinhos, bandidos, um clímax e um grande anticlímax, a grande tese de buteco
que paira sobre a trajetória do grupo, fundado em 1962, ou seja, quando já
haviam decretado a morte do rock.
Do
ponto-de-vista musical, pode-se questionar a qualidade das produções
posteriores à (chamada) fase clássica. Mas, se formos contextualizar, como uma
banda na ativa numa época em que tudo mudava, os Stones poderiam ser acusados
de acomodação se lançassem um Exile on Main Street por ano. Alguns vão dizer:
“seria ótimo”. Pois bem, mas talvez foi por essa mesma razão que o Emerson,
Lake and Palmer não lançaram um Tarkus por ano também. Eles não poderiam se
acomodar, nem por uma questão de atitude, e nem por uma questão de mercado. Senão,
era melhor ter ficado desde 1972 naquela mansão em Nelicôte, fazendo rock na
garagem. Além do mais, para quem sabia que não iria durar dois anos e meio e
começou como segunda ou terceira atração em turnês furrecas pelo interior dos
Estados Unidos, durar dez anos e ser capaz de ter selo próprio e agendar excusões
intercontinentais temáticas e gerenciar um circo de gente, desde a turma da
promoção até a da graxa, e continuar fazendo esse circo funcionar pelas décadas
seguintes, isso não é sinal de acomodação. Claro, como diz Rob Cohen, em algum
momento na história, os Stones deixaram de ser interessantes. Mas isso é da
vida. Inclusive, poderíamos dizer que essa exigência de ser interessante o
tempo todo foi a ruína de alguém como Elvis Presley, que pagou o preço de não
viver sequer para poder olhar para trás.
Segundo o biógrafo de Mick, Philip Norman, a opção pela jamaica seria uma forma de
atender tanto à questões de Keith quanto às de Jagger.
No
final de novembro de 1972, ele estava por conta própria novamente quando os
Stones se reuniram para iniciar um novo álbum no Dynamic Studios na Jamaica. A
escolha do local foi ditada pela notoriedade cada vez maior de Keith como
usuário de drogas: além da Suíça — que ele já estava começando a achar
insuportavelmente sem graça — nenhum outro país, a não ser a Jamaica, lhe
concederia um visto. Mick, além disso, decidira que o seguimento de Exile on
main street não deveria ser apenas “outra coleção de canções de rock” e
esperava que o berço do reggae desse à banda uma nova direção. Uma atração
secundária era que, graças a seu passado colonial, a ilha era tão obcecada por
críquete quanto a Grã-Bretanha, então ele seria capaz de assistir ao jogo no
meio do inverno para sua total alegria.
O
processo de gravação foi bem diverso do álbum anterior. Ao invés de levar meses
gravando bases num estúdio móvel, sem produtor e contando com o improviso e
quase sem a totalidade dos músicos, para depois enfeixar tudo em sessões de
overdub e gravação de vocais, nos Estados Unidos, os Stones optaram por resumir
o trabalho de estúdio.
A
despeito do que diz Norman, Mick falou à Rolling Stone que, justamente pelo
fato de gravar fora da Inglaterra, a vantagem residiria justamente no fato de
não haver tempo para distrações. Porém, segundo o depoimento de Richards em
Vida, o guitarrista praticamente encontrou o paraíso terreal no novo mundo:
Em
1972, o lugar estava estourando. Os Wailers estavam assinando contrato com a
Island Records. Marley estava aparecendo. Jimmy Cliff estava nos cinemas comThe
harder they come. Em Saint Ann’s Bay, o público atirava na tela enquanto os
créditos passavam, numa explosão familiar (para mim) de comportamento rebelde.
A tela já estava furada — talvez por causa dos spaghetti western, que eram a
moda naquela época. Havia muita gente com armas de fogo em Kingston. A cidade
estava tomada por uma forma exótica de energia, um sentimento muito quente, uma
boa parte do qual vinha do tristemente famoso Dynamic Sounds de Byron Lee. Era
construído como uma fortaleza, com uma cerca branca que parecia uma paliçada,
como aparece no filme. A faixa “The harder they come” foi gravada por Jimmy
Cliff na mesma sala que usamos para gravar parte de Goats Head Soup, com o
mesmo engenheiro, Mikey Chung. Um ótimo estúdio de quatro canais. Eles sabiam
exatamente qual era o melhor lugar para a bateria e, para prová-lo, bang bang,
pregaram o tamborete no chão.
Keith
disse que eles estavam vazios depois do Exile, mas a sinergia dentro do estúdio
e a filosofia de trabalhar bastante em pouco tempo foi fecunda: “Havia um ano
não entrávamos em um estúdio. Mas tivemos algumas ideias boas,
“Coming down again”, “Angie”, “Starfucker”, “Heartbreaker”. Gostei muito
de fazer esse álbum. Nossa maneira de fazer as coisas foi mudando enquanto o
preparávamos”, diz. A verdade é que, a despeito de ser um disco curto – e ter
uma faixa originalmente gravada no começo dos anos 70, “Silver Train”, as
sessões do Gost foram produtivas o suficiente para deixar muita coisa de fora. Isso
explica o lançamento da caixa especial este ano. Fora os outtakes, faixas como “Through
the Lonely Nights” e “Waiting on a Friend” seriam lançadas ao longo da década, a
primeira como lado B de “It’s only rock’n roll” e a última como música de
trabalho do Tatoo You. Além disso, "Short and Curlies" seria uma primeira influência explícita de reggae que nasceu das sessões do álbum, e que viria à lume apenas em 1974. Estas, por sinal, parecem ter mais relação com a produção do Goat do que as canções que os Stones lançaram recentemente como sobras de estúdio do disco ("Criss Cross"), e que mais parecem material dos tempos do Exile.
Mesmo que Philip Norman diga que os Stones foram parar na Jamaica por
não terem onde aterrisar naquele momento, a verdade é que Kingston era porto de
muita gente que estava fazendo música naqueles tempos. Paul Simon gravou lá “Mother
and child reunion”. Por causa da fama de Byron, o seu estúdio estava ganhando reputação
parecida com a do Muscle Shoals como base independente para produção de discos.
Surfando nesse clima favorável, Lee reformou o Dynamic justamente no momento em
que Mick e Keith chegaram: ele gastou uma pequena fortuna para reequipar as
instalações, adquirindo, a pedido da banda, um Hammond, um pianoforte de
concerto (que é ouvido em “Angie”), além de fones de ouvido e microfones, a
pedido de Jagger.
Goat Head Soup está aparentemente fadado como o momento em que eles se
afastam de sua fase áurea. Como é possível ver nesta comunicação, eu discordo
dessa visão, acho que é um olhar retrospectivo e descontextualizado e que não
leva em consideração mudanças na música ao longo dos anos 70.
Se pensarmos bem, é como se,
com o Goat Head Soup, os Stones definifivamente entrassem nos anos 70. Um disco
como o Exile, com seu apelo ao primitivismo do rock básico, ainda estava
servindo a partir do cardápio da renascença do rock stoniano que nasceu no
final dos anos 60: é possível pensar aquela que é chamada de fase clássica do
grupo como o momento onde eles estabeleceram-se como a banda de rock. Existe um
espírito que transita aqueles álbuns, que vão e vêm, de tal arte que existem
fortes pontos de contato entre eles: a música de um poderia muito bem estar em
outro. Com o Goat, ao entrar nos 70, os Stones interpolam as tendências da
época, as baladas, o funk com seus sintetizadores e o glam com seu filtro pop
em cima do rock básico.
Diria que ele
marca a fase em que os Stones passaram a ser julgados mais pelos que eles foram
do que pelo que eles queriam ser, isto é, uma banda na ativa - ou julgados mais em relação à eles mesmos do que a eles com relação ao contexto, essa é a régua pelo qual eles, a partir dali, e o Goat, sempre são medidos. Stephen Thomas, a
despeito de reclamar do aburguesamento estético dos Stones, levanta uma questão
interessante: enquanto Mick se transforma num relações públicas de si mesmo,
Richards parece perfazer o caminho do herói às avessas, cada vez mais associado
à personalidade desviante do roqueiro decadente que é tão caro ao imaginário do
gênero. No entanto, o que ele entende como algo aparentemente negativo, eu vejo
como a síntese perfeita do que são os Stones, nesse mesmo imaginário, hoje e
sempre. Mas, mais do que isso, e essa é uma questão que pode ser mais abordada –
eu paro por aqui – é que, pela primeira vê em diante, os Stones passaram a
administrar a sua própria produção musical a partir do Goat Head Soup - um grande disco
Ademais, acho fascinante o fato de que os Stones, quando entraram
nos anos 70, eram uma banda que havia perdido os direitos dos primeiros discos
para livrarem-se do antigo empresário. Fundaram um selo próprio, e tiveram que
fugir da Inglaterra para não pagar taxas escorchantes para o fisco britânico. E
também foram obrigados a isso não por mero capricho mas, na condição financeira
em que eles se encontravam à época, eles iriam falir, segundo previsões do seu
empresário, em pouco tempo. E começaram
um processo de gravação de discos e de produção de turnês a partir de outros
lugares fora do seu país de origem. Ou seja, nos anos 70, eles começam do zero.
Eles têm que reafirmar a sua reputação como banda de rock, banda de palco, e de
turnês agora mundiais, em shows em arenas. Eles não eram mais aqueles amadores
dos anos 60, e mais do que isso, eram os seus próprios empresários. Os Stones
viveram, por essas circunstâncias, como corsários pelo mundo afora, gravando
ora na Costa Zaul, ora na Alemanha, ora nos Estados Unidos, e ora na Jamaica, como
no caso do Goat Head Soup. Enquanto a crítica entendia que os Stones se
acomodavam, na verdade, eles estavam reafirmando sua marca e, mais o que isso,
transformando o rock, no âmbito do showbiz, num fértil modelo de negócios, algo
que segue até hoje, mesmo que o rock já atualmente seja um estilo musical
coadjuvante – embora os “acomodados” Stones ainda detenham o bastão de maior banda de rock em atividade, para todo o sempre, amém.
SOBRE A CAIXA de 2020. As canções "novas", como "Scarlet", ao que parece, foram gravadas apos as sessões da Jamaica, sendo mais próximas das graações do elep}e seguinte. Quando aos outtakes, é notável, ao ouvir a primeira gravação de "Hide Your Love", os Stones ainda estavam lidando com cacoetes do Exile: bateria seca, slide guitar, etc. Comparando o outtake com a versão final, vê-se que a proposta estética do Goat estava em aderir à musicalidade oleosa do funk dos anos 70, com wah-wahs, pianets a la Stevie Wonder e chipôs suingantes. Nada mais de "Rip This Joint". Ou, como disse Mike Edison no livro Sympathy for the Drummer: "se as melhores partes do Exile soavam black, o Goat Head Soup soava blaxplotation".
Referências
Keith Richards. Vida. Globo, 2012.
Phillp Norman. Mick Jagger. Companhia das Letras, 2012.
Rob Cohen. O Sol, a Lua e os Rolling Stones. Zahar, 2017.