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Batalha da Guanabara, 1560 |
A
adaptação de Otello, o Mouro de Veneza para a ópera por Verdi
(1887 libreto de Arrigo Boito) sempre nos provoca a atenção por causa da
sua abertura, que se dá em meio a uma tempestade, e essa cena, como
um começo, me parece de um efeito dramático impressionante.
É
bem sabido que Verdi (1813-1901) era um grande fã do bardo inglês.
Tanto que, segundo consta, em sua vila, sua biblioteca se resumia a
uma cópia do Lohengrin, do Wagner, e a obra completa do autor de
Hamlet.
O
que me chamou a atenção foi que, sabendo dessa influência do
Shakespeare no compositor da La Traviata está plasmada em sua obra.
Além de Otello, Verdi montou Macbeth (1847) e Falstaff (1893), sua
derradeira obra, baseada nas Alegres comadres de Windsor e Henrique
IV partes I e II.
Na
verdade, esse nariz de cera é porque areditamos que essa abertura de
Otello, fruto do libreto, foi inspirada, de certa forma, no primeiro
ato de A Tempestade (1610-11).
Verdi
não adaptou essa que é o canto do cisne do dramaturgo elisabetano.
No entanto, dentro das possibilidades poéticas da recriação
artística, dentro da teoria que Volcato (2007) chama de palimpesto,
poderia estar dentro das diversas influências da peça
shakespeareana, motivo de debate desde hoje.
Em
sua tese, Volcato vai mais além das chamadas teorias
pós-colonialistas, que observam como a escritura de A Tempestade se
relaciona com uma época em que a Europa havia não apenas descoberto
o novo mundo como repercutivo, através da imprensa (ou de livros) um
considerável número de escritos que lidam com o imaginário da era
das descobertas.
A
teoria do "palimpesto" não tem o objetivo de buscar
citações manifestas dentro da peça mas, sim, analisar todo o
contexto histórico, tando da era dos descobrimentos, sua repercussão
no Velho Mundo (textos como De orbe novo, de Erasmo, ou de Peter
Marty e Montaigne, (Sobre os Canibais).
Mais
do que isso, o autor pretende em sua tese preencher o que ele entende
como "lacunas" que existem nos estudos sobre as influências
de Shakespeare em A Tempestade. A sua teoria é a de que o autor
inglês conhecia as biografias tanto de Carlos V quanto de um
personagem conhecido dos brasileiros, Nicolas Durand de Villegagnon.
Villegagnon,
personagem que teria sido redescoberto tardiamente pelos franceses,
antes de fundar a França Antártica, em 1554, já era cavaleiro da
Ordem de Malta, diplomata, almirante da Bretanha (afundado vários
navios ingleses na região) e foi uma espécie de condottiere
(mercenário) ao ajudar nobres católicos escoceses a resistir contra
a Inglaterra, além de ser responsável pelo rapto da pequena Maria
Stuart (futura mãe do rei James, fato que não passaria despercebido
por Shakespeare) para a França.
Como
observador de campanha, ele acompanhou Carlos V em sua vitória sobre
Argel, tendo escrito um relato sobre a expedição, Carolus V
Imperatoris Expeditio in Africam ad Argeriam, que foi amplamente
difundida na Europa em várias linguas.
Para
Volcato, muitos desses relatos sobre guerras e naufrágios dialogam
com a concepção de A Tempestade, mesmo que a ilha de Próspero
fique em lugar diverso (nas caraíbas).
Ele
demonstra que, a despeito de que os primeiros estudos sobre a peça
façam uma leitura "metalinguística" (uma peça falando da
representação de uma história, algo recorrente em Shakespeare),
teorias pós-colonias vêem o enredo como engendrado à todo aquele
imaginário.
Caliban,
por exemplo, seria anagrama de "canibal", o discurso de
Gonçalo sobre uma utopia de um novo mundo ou da relação de
Próspero com Ariel e Caliban, personagem que é interpretado por
muitos analistas como o protótipo do autóctone irascível, Ariel é
vista como o espírito do bom selvícola.
Contudo,
além de tais estudos, que fazem parte do quabra-cabeças do
palimpesto que está por trás de A Tempestade, Volcato entende que
imagens, fatos, geografia, muitas coisas da peça estão interligadas
à Carlos V e Villegagnon.
Falando
em Mary Stuart, Volcato diz que, mesmo que não seja possível querer
cobrir toda a cronologia. Se ela foi raptada com três anos (1545).
Se somarmos dize anos, temos 1557, ano da segunda chegada de
Villegagnon na França Antártica.
Quando
Próspero e Miranda chegam à ilha, Ariel foi libertada depois de
doze anos. Com quinze anos, Miranda pretende desposar Ferdinando,
filho de Alonso, rei de Nápoles. Com a mesma idade, Mary casava com
o delfim filho de Henrique II, que foi o rei que mandou Villegagnon
para estreposto colonial no Brasil.
Ao
mesmo tempo em que busca revelar tais indícios, o autor tenta
demonstrar que Shakespeare, dentro da sua própria agenda, estava
omitindo elementos do novo mundo (do Brasil ou da América como um
todo) por não ver razão em descrever um novo mundo que não era
inglês, embora tratem-se de especulações a respeito dessa
'invisibilidade' da América, que parece falar mais pela "ausência"
no texto.
Já
sobre o pequeno texto de Carolus V Imperatoris Expeditio in Africam
ad Argeriam, Villegagnon observa o uso primitivo de algeirs (depois a
terra de Sycorax) ou a constante utilização da palavra "tempestade"
no relato.
Os
cvaleiros de Malta, por sua vez, são mencionados cinco vezes, entre
eles Ferrante Gonzaga, vice-rei de Nápoles. Ele, entre outros, a
mando de Carlos V comandou o ataque à Argélia em 1541 e, invetido
por Carlos, conquistaria o título de governante de Milão até 1554.
Passagens
de Villegagnon, por sua vez, teriam similaridades com o retorno de
Túnis e uma tempestade que seria aquela que Shakespeare criou no
começo de A Tempestade. Ao contrário da peça, muitos pereceram
nessa tempestade, e Villegagnon foi testemunha dessa efeméride.
Muitos
diálogos da peça, ao mesmo tempo, parecem representações de
personagens europeus, no entanto, como observa o autor, parecem falar
de uma outra realidade, que ele entende que parecem inspirados pelos
relatos sobre geografia, modos descritos pelo frei André Thevet,
cosmógrafo do rei da França, quando em missão nas cotas
brasileiras.
Já
respeito de possíveis relações de nomes ou lugares em Shakespere,
muitos críticos mesmo entendendo que o vate inglês não fosse muito
preciso com relação à geografia (como nas alusões em Noite de
Reis, por exemplo), há muitas possibilidades, no campo das
cogitações, de que a ilha de Próspero, dadas as leituras do autor
de Rei Lear de André Thevet e de que o protótipo da ilha de
Villegagnon seja a França Antártica.
MaIs:
nomes de personagens como Ferdiiando e Alonso mais parecem nomes de
nobres detentores de cargos nas américas ou de reinos ou ducados da
Baixa Europa, numa curiosa hibridização dos personagens em sua
caracterização.
O
que o autor acredita é que, desde o século XVIII até hoje, os
estudos focam o imaginário do local onde a peça ocorre fica nas
caraíbas, ou no Mediterrâneo, mas nenhum cogitou o Brasil.
Sobre
a escravidão, Volcato entende que, na épca de Shakespeare, a
prática havia sido tornada corrente naqueles tempos, mas não se
desenvovera nas colônias inglesas senão de forma embrionária, pelo
menos na época do bardo elizabetano. Logo, Ariel seria o tipo de
"escravo" ou seja, um servo que trabalhava para um senhor
por um determinado tempo.
Ao
mesmo tempo, ele entende que havia, ao longo do no século XVII, um
discussão a respeito de como a sociedade da época via a prática da
escravidão, ora legitimada por fontes (como a Política de
Aristóteles), ora quesionada pelo fato de não possuir nenhuma base
legal, e essa questão estaria, de certa forma, poste em debate em A
Tempestade, na figura de Caliban e Ariel.
Um
exemplo que Volcato julga sintomático dessa 'invisibilidade' do que
seria essa possível localização da ilha de Próspero como situada
em terras sul-americanas ele busca em The Tempest Critical essays de
Patrick Murphy.
Este
autor liga Montaigne ao trecho de Ferdinando como um personagem cuja
caracterização parece estar numa feitoria (citações de Miranda e
Ferdinando sobre pilhas de madeira para consumo ou fogo),
provavelmente especializada no corte e expotação de madeira
(presumivalmente o pau-brasil). Do contrário, por que haveria de, no
enredo, Caliban de ser tão necessário para o corte de madeira num
país tropical como o Brasil (daí a razão do título da tese de
Volcato).
Por
fim, o que é o cerne do seu pensamento aqui é entender e
problematzar, junto com possíveis paralelos históricos na esxritura
da peça, essa recorrente 'sublimação' da imagem da experiência da
exploração européia em terras sul-americanas, experiência que
fora transcriada de forma subliminar na pena de Shakespeare (a partir
de todas as possíveis fontes disponíveis na época sobre o tema dos
descobrimentos, em crônicas e livros em geral, disseminados pela
Europa) e da forma como essa visão européia foi, durante muito
tempo e a partir dali, tratada de forma "subliminar" (como
uma 'espiral de silêncio', usando uma figura da teoria de
comunicação, um desagendamento temático proposital ou negligente),
e que isso não pode ser mais negligenciado depois de analisar-se a
figura proeminente de Villegagnon e da França Antártica nesse
quebra-cabeças.
Próspero,
como místico e nobre, em sua ótica parece possuir elementos do lado
“negro” de Agrippa, escritor místico ligado à Carlos V, com
elementos de Villegagnon em seu respectivo lado negro, como o Caim
das américas (relacionado signicamente com Caliban), dado à suas
polêmicas religiosas entre o catolicismo e calvinismo na França
Antártica. Ambos, aliás, divididos entre credulidade e ceticismo.
Sobre questões do novo mundo e a teoria da invisibilidade do Brasil, Volcato diz que, assim sendo, se essa invisibilidade foi criada, reproduzida e perpetuada na peça, conscientizar-se desse fenômeno nos permite exorcizar esse elemento oculto. Da mesma forma, diz ele, ser capaz de reproduzir a possibilidade da existência desse Brasil invisível em A Tempeestade é perceber que temos em Shakespeare 'ecos' não apenas os primeiros americanos nativos mas os primeiros escravos afriicanos também.
Quando
ao trabalho, diz o autor, além de dar conta da existência até a
presente data de lacunas na percepção dos críticos e também até
a respeito da nossa compreensão do processo criativo do bardo inglês
e seu manejo de fontes e (seus processos criativos), relações com a
realidade histórica da época ora manifestas ora ocultas e, mais
especificamente, entende Volcato, sobre o nascimento de A Tempestade,
sua pesquisa pode contribuir para que o Brasil “fique menos
invisível para os críticos mais insignes de William Shakespeare”.
BIBLIOGRAFIA:
VOLCATO,
José Carlos Marques. Pilling up logs in a brave new world: Brazilian
invisibility abroad the genesis of Shakespeare's The Tempest.
PortoAlegre, 2007.
SHAKESPEARE,
William. A Tempestade. Tradução de Beatriz Viegas Faria. LPM, Porto
Alegre, 2002.