Wednesday, July 05, 2017

Sultans of Swing



Esses dias estava eu zapeando o rádio do celular pela rua afora quando tocou Sultans of Swing em duas emissoras quase que ao mesmo tempo.

Lembro dos gloriosos tempos do jabaculê no rádio, nos anos 80. Também lembro de certos artistas ou cantores que eram tão incensados que tocavam, às vezes, na hora das mais pedidas (fim da manhã ou fim de tarde nas programações em geral) quase que as mesmas músicas rodando simultaneamente.

Um exemplo foi o "Melo do Marinheiro", do terceiro disco dos Paralamas. Você podia rodar o tuning do aparelho e pegava a música tocando ao mesmo tempo em até cinco rádios diferentes.

Creio que nunca, em toda a história da indústria da música, houve uma total e irrestrita veneração pelo imediatismo como nos anos 80. Parecia que você deveria estar completamente integrado aos anos 80. Do contrário, você seria um pária. Ao mesmo tempo, quem tivesse vindo antes e não aceitasse integrar-se àquela cultura imediatista e feérica, seria taxado de anacrônico.

Isso em parte explica por que tantos músicos dos anos 60 e 70 derraparam nos anos 80. Entre fazer o que sempre faziam ou produzir para o novo público da MTV, eles se perderam nos anos 80. Hoje, a maioria dos sobreviventes relembram apenas dos primeiros sucessos. Os anos 80, para eles, não existiram.

Não sei se existe uma teoria da conspiração sobre isso, mas a verdade, é isso já foi dito aqui outras vezes (e vale a pena ser redito): os anos 80 fizeram de tudo para que tudo o que foi feito antes fosse esquecido. No fim das contas, foi a última época em que esse desejo insaciável pelo novo foi capaz de tentar apagar o passado.

Digo isso porque, no fim dos anos 80, lembro de ter descoberto o Dire Straits a partir de uma retrospectiva deles lançada em CD, o Money For Nothing. Eles haviam quebrado recordes com o último disco, o Brothers in Arms. No entanto, a música daquele conjunto inglês fazendo um country-folk-rock em plena época disco e punk soava estranho ao mundo do disco.

Aqui, por exemplo, lembro que descobri Sultans of Swing. Ficava ouvindo aquilo dezenas de vezes. Claro que, na intenção de fazer com que outros ouvissem, como a gente ficava ligando para as estações de rádio. Aliás, era justamente isso que fazia com que a gente ficasse enchendo o saco do pessoal das rádios, principalmente de madrugada — para ver só, numa época do rádio quando existia programação ao vivo nesse período.

Pois lembro que a maior parte da programação das 'grandes' era puro jabaculê. Poucas cediam a esse apelo. Nada de estranho nisso. Por sinal, passando pelo aval do público, pelo menos a gente sabia o que era descaradamente vendido e o que caia realmente no gosto dos ouvintes. Ou, pelo menos, estranhava quando uma determinada música tocava mais do que a nossa paciência fosse capaz de suportar.

O problema é que, no fim das contas, não havia, como hoje, espaço para revival. A maior parte da programação era direcionada e, em quase sua totalidade, lançamentos. A conta é que, por toda a década, essa demanda do inédito foi apagando o passado. diferente de hoje, onde a Internet serve como database, sedimentando a história desses processos culturais; Muita coisa foi sendo solapada naqueles anos em favor das mais pedidas. Muitas músicas, artistas, discos, tudo foi ficando na poeira do tempo.

Quando eu pedia incessantemente Sultans of Swing, lá por 89, a música tinha uma década. Já era velha demais para aqueles tempos. Como as rádios funcionavam com cartuchos ou com promos (aqueles bolachões de 33 com apenas uma música, cedidos pelas gravadoras). Ligava para o Nilo Cruz, na Ipanema. Eles tocavam a única versão que eles tinham, a do Alchemy ao vivo; a Universal eles me diziam que o único disco que eles tinham com a música estava rachado.

Um dia eu acabei comprando o disco, mas em fita (no tempo quando a gente comprava fita gravada na loja). E, depois, como acontece com todo mundo, fui ouvir também outras coisas.

Mas, passado tanto tempo, eu vejo que o rádio mudou. Não é aquela indústria vital como nos anos 80, quando rolava muita grana. Mas — curioso! Todas as rádios que hoje, pelo menos, no dial da Grande Porto Alegre (que musicalmente não é tão extenso e intenso como nos anos 80) o clássico dos Dire Straits toca em todas.

É incrível pegar um exemplo como esse para ver uma música que, num percurso diacrõnico, passou por um processo de esquecimento total e reconhecimento. Hoje, ela é mais clássica do que era quando já era clássica, isto é, quando da época do lançamento daquela coletânea.

Uma música que não enjoa. E que marcou a vida de tanto garoto dos anos 80 que queria ouvir rock nos anos 80, uma década cheia de new romantics, de pop, synth, eurodance e teclados escorrendo pelas paredes, por todas as partes. dire Straits foi a nossa resistência, e marcou a vida de tanta gente e a minha também.



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