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Mário Filho durante a construção do Maracanã, em 1949 |
Instigado pela polêmica em torno da virtual mudança do nome do Maracanã,
nosso repórter foi pesquisar a história em torno daquele que dá o nome ao
antigo Estádio Municipal, inaugurado em 1949, às vésperas da Copa do Brasil de
1950: Mário Rodrigues Filho. Quem foi ele, afinal? Quando o editor jogou a
pauta no seu colo, ele ficou espantado. Não sabia nada de quem era Mário Filho.
No acervo de jornais, descobriu
que quem teve a idéia de homenagear o jornalista foi de Waldir Amaral. Ele
achava que, mais do que um busto, ele merecia ser nome do estádio. Afinal de
contas, leu o repórter num artigo de fundo, escrito anos após sua morte: “Mário
foi o idealizador não apenas do Maracanã como de todo um contexto esportivo e
cultural e de toda uma economia do desporto brasileiro que permitiu que a primeira
Copa depois da Segunda Guerra Mundial viesse para o Brasil. Sem ele, não
haveria estádio, nem copa, nem nada. Nem imprensa esportiva nos moldes que
conhecemos hoje”.
Foi procurar algo a respeito de quando houve a mudança do nome do
estádio. Descobriu nas páginas de O Globo:
viu que, mesmo separado de Mário há anos, Roberto Marinho, patrão de Amaral na
Rádio Globo, apoiou a campanha. O radialista contatou também o Marechal Mendes
de Morais, então prefeito do Rio na época da construção do estádio, e os então
líderes da Arena e do MDB, os partidos da época na Câmara. Raul Brunini e Jamil
Haddad, líderes respectivamente das duas agremiações partidárias na Câmara do
distrito federal nos anos 1960. Ambos propuseram a moção e a Assembléia a aprovou
por unanimidade. Em menos de um mês após a morte de Mário Filho, em setembro de
1966, o Maracanã passava a ser denominado Estádio
Mário Filho – nome que Nelson Rodrigues orgulhosamente ostentava sempre em
suas crônicas, chamando o Municipal de “ex-Maracanã”.
Ao pesquisar, nosso repórter descobriu vários
detalhes.
Descobriu que Mário Filho começou no jornalismo na redação de A Manhã, em 1926. O rapaz assinava uma
página, intitulada Espírito Moderno,
que abria espaço para suas divagações literárias, embora contasse com
colaboradores, como Ronald de Carvalho e Orestes Barbosa. Porém, do nada, ele
desistiu de qualquer arroubo de jornalismo cultural e resolveu abraçar a
editoria de esportes no ano seguinte. Até então, a editoria não existia na
imprensa: quem eventualmente cobria o setor, o fazia por sua conta e risco –
muitas vezes quase pagando para trabalhar ou dependendo de terceiros, até
auxílio dos próprios clubes.
Com Guevara em A Manhã, até
1928 e. depois, em Crítica (de seu
pai), Mário Filho iria transformar a seção de esportes numa editoria que
puxasse as vendas de um jornal. Além de qualquer formalismo, ele diminuiu a
distância entre os clubes e o torcedor. Ao invés de dizer solenemente Clube de
Regatas Flamengo, dizia “Flamengo”; ao invés de uma foto posada de um escrete
da Capital Federal, ele publicava o joelho estourado de um jogador. Também
acabou com as palavras em inglês. O jogo não era mais “match” e a lateral
também deixava por decreto de ser “offside”, e por aí vai.
Desempregado com o empastelamento de Crítica,
com conseqüência ao apoio do jornal de seu pai à Washington Luís e ao seu
candidato em 1929, o paulista Júlio Prestes, Mário Filho encontraria esteio na
redação do recém fundado O Globo,
jornal de Roberto Marinho. Para poder empregar seus irmãos, Nelson, Joffre e
Mílton, fundou o efêmero Mundo Esportivo.
Ele duraria menos de um ano, mas seria responsável pela divulgação do primeiro
concurso de escolas de samba no Rio de Janeiro. O futebol ainda não conseguia
arrebatar mentes e corações numa publicação diária.
No entanto, como se sabe, o
Carnaval é uma obsessão diária do carioca. Mas, naquela época, ainda não era.
Com o tempo, o samba seria a matéria-prima de O Mundo Esportivo e iria divulgar as nascentes escolas, como Mangueira,
Estácio e Portela, que desciam o morro e iam desfilar na Praça Onze. Promovido
pelo jornal, a Mangueira seria campeã do certame, com um tema do jovem e
desconhecido Cartola. O sucesso da iniciativa fez com que o concurso fosse
posteriormente encampado pela Prefeitura. No ano seguinte o Mundo... não mais existia (durou apenas
oito meses). Mesmo assim, Mário Filho levou a promoção das Escolas de Samba
para O Globo. E o resto é história.
No jornal de Roberto Marinho, Mário Filho empenhou-se numa campanha sem
quartel em favor do profissionalismo no futebol. Até então, havia uma cisão
bizantina entre os que postulavam a profissionalização ampla, total e
irrestrita. E aqueles que defendiam que tudo ficasse como dantes no quartel de
Abrantes. Uma entrevista com Russinho, do Vasco, provocou o debate. O jogador
reclamava que, a despeito de receber dinheiro, era pouco para a subsistência
dos atletas. A polêmica dividiu os clubes: os que eram a favor, criaram uma
liga específica. Logo, surgiriam duas, a em favor dos “profissionais” e outra,
encabeçada pelo Botafogo, defendendo o amadorismo. Para o ranger dos dentes dos
ludistas, a marcha do tempo provou que o único caminho era a
profissionalização.
Defendendo a primeira liga, Mário Filho logo se transformaria em
celebridade. Participava de todos os eventos esportivos da cidade,
entrevistando atletas e dirigentes. Montou seu quartel general no Café Nice, no
centro, ao lado de O Globo. Mário
pagava a bebida e levava no bolso as entrevistas para a redação. Na mesma
época, meados dos anos 30, ele passaria a promover a rivalidade Fla-Flu.
Através da imprensa, fustigava os torcedores de Flamengo e Fluminense a se
auto-promoverem num campeonato, promovido por O Globo. O melhor torcedor ou a melhor torcida concorreriam a
prêmios. Logo, cartazes, flâmulas e bandeiras, charangas, bumbos e camisetas
coloridas iriam ganhar ruas e avenidas.
Quando o tema futebol minguava, Mário Filho partia para outros esportes,
do boxe até o então incipiente automobilismo. O Circuito da Gávea, então totalmente
subestimado (e perdido na Lagoa ainda desabitada), foi agendado nas páginas de O Globo. Em 1934, depois da primeira
prova, o jornal cozinhava o assunto aos poucos. Na data da corrida, o resto da
imprensa se via obrigada a cobri-la. Mário soube planejar a pauta e cobrir o
evento em todos os detalhes, tirando várias edições especiais. O sucesso foi
grande o suficiente para que a prova de 1935 levasse mais de 200 mil almas
empolgadíssimas para a Gávea.
Em 1936 surgiu a oportunidade de comprar o Jornal dos Sports. Argemiro Bucão queria vendê-lo. Confiando no
taco de Mário Filho, tão bom na imprensa quanto na mesa verde, Arnaldo Guinle e
José Bastos Padilha sabiam que ele saberia fazer a publicação deslanchar. Cada
um entrava com uma parte no negócio – o resto ficaria por conta de Roberto
Marinho que, além de acionista, encamparia o projeto, rodando o jornal nas
mesmas oficinas de O Globo.
No fim dos anos 1940, com as campanhas e o Jornal dos Sports, Mário Filho era o maior cronista de futebol no
Brasil. Mais do que isso, ele era o seu sociólogo, o seu historiador. Em suas
colunas, amiúde Nelson Rodrigues chamava seu irmão de “Homero do futebol”. Mais
do que homem de imprensa, ele era um agitador cultural: se não houvesse
notícia, ele “inventava” a notícia. Criava campeonatos, conclamava multidões
aos eventos que promovia, sempre com gente “dependurada até no lustre”, como
diria o autor de Vestido de Noiva.
Nosso repórter descobriu, pálido de espanto, como no soneto de Bilac,
que Mário Filho era maior do que a vida. Como diz Ruy Castro, sua presença não
sabia mais nos estádios, nas redações. Era um mandarim – um ministro sem pasta.
Todos iam pedir a sua opinião, de cartolas até a própria direção da CBD (antiga
Confederação Brasileira de Desportos). Muito antes de Juca Chaves dizer que o
futebol era o ganha-pão de imprensa, o irmão de Nelson fora aquele que pôs o
ovo de Colombo de pé. Para cobrir a Copa de 1938, na França, Mário praticamente
encampou a Radiobrás. Entrevistava por telefone jogadores e treinador. Com
farto material, sempre anotado estenograficamente à lápis, ele tinha material
de sobra para edições e mais edições de seus espaços tanto no Jornal dos Sports quanto em O Globo, que agora também contava com
um suplemento, o Globo Sportivo. Exemplares
vendiam mais que Chica-Bon na arquibancada do Maracanã.
O suplemento, mais do que inspirado nos tablóides portenhos, tinha em
suas hostes o caricaturista argentino Lorenzo Molas. Ele seria o criador dos
símbolos dos clubes cariocas: o Popeye rubro-negro, o Pato Donald botafoguense
e o diabo do América, entre outros. Na coluna Da Primeira Fila, Mário Filho destilava sociologia: compunha desde
perfis de grandes craques até histórias, como a do futebol brasileiro ou a do
Flamengo – seu clube do coração entre quatro paredes. Foi a partir destes ensaios que, em 1947, ele
publicaria a sua Casa Grande e Senzala
em chuteiras – O Negro no Futebol
Brasileiro.
Em 1949, às vésperas da Copa do Brasil, se separaria definitivamente de
Roberto Marinho, sendo agora o meneur
du jeu do Jornal dos
Sports. Nessa época, concebeu os Jogos
da Primavera. O evento, que duraria até 1972, foi uma espécie de olimpíada
carioca que envolvia desde escolas até clubes, atraindo toda a população para o
esporte. Todo setembro era dedicado ao evento, dedicado a todos os esportes
excto os profissionais – e que ocorria sempre no Estádio São Januário. Por
incrível que pareça, os Jogos eram bancados inteiramente por Mário Filho. Ele
pensava que, se dependesse de um presidente, iria depender de todos. E se algum
deles se recusasse a ajudar?
Segundo a política de pautar o calendário de
esportes, Mário propôs a criação de um interestadual entre Rio de Janeiro e São
Paulo. A idéia era a de ocupar espaço na entressafra dos estaduais. Em 1950,
foi criado, por sua iniciativa, o Torneio Rio-São Paulo, depois incorporando
clubes do Sul e de Minas, chamado de Roberto Gomes Pedrosa – embrião do
Brasileiro. A homenagem ao ex-dirigente do São Paulo foi, de certa forma, um
meio de açodar os clubes paulistas a topar a parada. Estes, por sua vez,
gostaram tanto da idéia que praticamente amealharam todas as taças até 1957,
quando o Fluminense quebrou finalmente o jejum dos cariocas. Outra glosa de sua
cepa foi a Copa Rio – um campeonato que atrairia também clubes do exterior,
como Juve, o nacional do Uruguai e o
Estrela Vermelha.
Dessa forma, Mário Filho preenchia o ano com desportos. No começo, em
fevereiro, acontecia a Rio-São Paulo; em julho, a Copa Rio. A partir da segunda
metade do ano, havia os Jogos da Primavera e o Campeonato Carioca. Como resumiu
Ruy Castro, criar competições era uma maneira inteligente de vender jornal.
Mesmo que Mário se pautasse por seus próprios interesses, por tabela, suas
idéias acabavam ajudando o resto da imprensa que, no fim das contas, também
lucrava com a respectiva cobertura desses eventos. A Copa Rio, mesmo que tenha durado pouco
(dois anos), foi um choque cultural: até então, os clubes brasileiros não
tinham pensado em numerar as camisetas. Foi em 1949, na partida entre Arsenal e
Fluminense, que um time daqui se fardou com número às costas.
Mas o grande legado de Mário Filho ao desporto foi o Maracanã. Era
preciso um estádio para mandar os jogos da Copa de 1950. Na Câmara do Rio, a
proposta de erguer o campo no Maracanã enfrentava resistência da bancada da
UDN, na figura do vereador Carlos Lacerda. Para ele, o estádio devia ser
construído em Jacarepaguá, área que, de acordo com a visão do polêmico edil,
então ainda um jovem político em ascensão, a cidade iria caminhar no futuro. Lacerda
ganhava adeptos à medida que afirmava que seria irônico construir uma obra
faraônica ao lado de um hospital não terminado na região. Mário Filho respondeu
pela imprensa: “quanto mais estádios de futebol, menos precisaremos de
hospitais”. Contudo, ele ia fazer o chope da oposição virar água quanto trouxe
para suas tropas frescas o também udenista e flamenguista fanático Ary Barroso
e Luis Galotti, ministro do Supremo. A tese do Municipal no bairro do Maracanã
venceu: enquanto isso, Mário iniciou campanha para vender cadeiras perpétuas do
estádio. A Prefeitura quis dar uma cadeira para ele; Mário fez questão de pagar
a sua com dinheiro do próprio bolso. Para o resto da vida, ele seria chamado de
“O namorado do Maracanã”.
Mário era figura constante na tribuna de honra do Municipal – sempre de
terno e gravata, com um charuto, suas sobrancelhas de “vilão de cinema mudo” e
um exemplar do Jornal dos Spots no bolso do casaco – sempre comprado na banca,
como fazia questão de fazer. Flamengo entre quatro paredes, publicamente ele
era um homem ecumênico: transitava com dirigentes, torcedores e gente de todos
os clubes – muito embora, consciente ou inconscientemente sempre deixava
rastros ou atos falhos de seu ‘rubro-negrismo’ no seu cotidiano. Isso ia desde
panegíricos ao clube de Gávea em sua coluna até sua confraria permanente de
amigos notoriamente rubro-negros, como Ary, Fadel Fadel, Gilberto Cardoso e
José Lins do Rego.
Em 1955, conseguiu dois sonhos inusitados. O primeiro foi convencer
Adolfo Bloch a lançar a Manchete
Esportiva. O segundo foi trazer para a redação seus irmãos, Paulinho,
Augusto e, é claro, o tricolor Nelson Rodrigues. Ainda colocou na publicação
Ney Bianchi e outro pó-de-arroz, Ronaldo Bôscoli. Manchete Esportiva não foi um tremendo sucesso – era difícil atrair
anunciantes: era vencedor embora apenas dentro das suas quatro linhas. Mas
serviu para que Nelson, que até então limitava-se ao teatro e o folhetim à
crônica policial com A Vida como ela É...
passasse a militar nas hostes da crônica esportiva, e para sempre (e hoje
sendo mais lembrado que seu irmão). Profético, nas páginas da manchete Nelson
Rodrigues seria – ele sim, o arauto, ou melhor, o Homero da vitória maiúscula
do escrete brasileiro na Suécia. Para ele, o teórico do “complexo de
vira-latas” que se instaurou no ethos
brasileiro após o Maracanaço, 1958 enterraria de vez o sapo psicológico da Copa
do Brasil. “Somos heróis de esporas e penacho”, bradava, com o olho rútilo e o
lábio trêmulo enquanto a Seleção voltava com a flamejante Jules Rimet para o
Brasil.
Nesse ritmo, com muito engenho e arte, Mário Filho moveu mundos e fundos
para a Copa de 1966. Pôs o coração na ponta de chuteira: importou toneladas de papel,
investiu em novas máquinas para o jornal, montou uma grande equipa para
testemunhar o tri. Não fora nas conquistas anteriores, em 58 e 62. Agora,
apostou todas as fichas, toda sua vida e sua reputação.
Foi, viu e não acreditou. Irreconhecível, mesmo com Pelé e Garrincha, o
escrete não passou da fase de classificação A crônica acusava o time de velho e
medroso e o que era pior, desentrosado. No último jogo, havia jogadores que
sequer haviam jogado um único e escasso rachão juntos. A campanha do tri foi
adiada para dali a três anos. E Mário Filho, como um Moisés que não pôde entrar
na terra prometida, morreu bem antes do México e dois meses após a débâcle nas
terras inglesas. Seu coração o deixou na mão: fora o primeiro e fulminante
infarto, na madrugada do dia 17 de setembro.
Além de O Negro no Futebol
Brasileiro, História do Flamengo
e Viagem em Torno de Pelé, Mário
Filho tem ainda toda uma produção jornalística ao longo de mais de trinta anos
de carreira ainda por ser descoberta. Mais: quando se fala que o jornalismo de
comunicação ou o jornalismo comercial encontrou seu caminho além do gênero
político, a partir do século 20, é importante salientar a importância da própria
popularização do futebol nesse processo, principalmente a partir dos anos 1940
e das formas pelas quais a imprensa soube agendar essa pauta a seu favor. Se no
caso brasileiro, isso teve um começo, esse começo foi a partir da atuação de
Mário Filho no campo jornalístico, a partir dos anos 1930.
Depois da pesquisa, nosso repórter começou a redigir o texto, catando
milho pacientemente em sua Remington, sob a luz de archotes. Lembrou que foi
interpelado pelo responsável pela seção do arquivo de jornais. O homem, como
olho rútilo e lábio trêmulo, disse: “meu amigo, a falta de memória do
brasileiro – que, como dizia Millôr, a cada vinte anos esquece o que aconteceu
nesses vinte anos, certamente ajudou a enterrar de vez a imagem de Mário Filho
como o Homero do futebol, do desporto e da imprensa esportiva brasileira.
Aliás, seria injusto dizer que aqui não existe memória: ela só é reativada a
partir de interesses de ocasião ou por revisionismo puro e irresponsável”.
Referências:
CASTRO, Ruy. O Anjo Pornográfico. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.