Monday, January 28, 2008

Da série "Contos de Verão"

Bizzare Love Triangle
Gostava de provocar o amigo com essa história: abandonara a mulher e a trocara por uma boneca inflável



O Miranda se espantou:

— O quê? Mas você está maluco?

Guedes riu:

— Maluco nada. É isso aí, meu filho.

Ele foi dizendo: “não, isso é coisa de maluco, quem faz dessas coisas é maluco, é completamente maluco”. Impressionado, Guedes dava frouxos de riso. Gostava de provocar o amigo com essa história: abandonara a mulher, e a trocara por uma boneca inflável.

— Porra, mas boneca inflável, Guedes??? Isso é golpe baixo!

Ele ria, mais à medida em que se encharcava de cerveja. Dizia que aquela reação dele era normal, a princípio. Explicou que podia ter as mulheres que quisesse, que poderia fechar todos os cabarés da cidade com o salário que recebia como ascensorista da Assembléia, afilhado de deputado. Mas podia usar e abusar de uma boneca inflável.

— Eu não sabia que você era um desses, não imaginava que você chegasse a esse ponto tão vil, tão grosseiro, de se entregar com tanto cinismo a tamanho ato de fetichismo!

Guedes ria. Ria, como um vilão de filme mudo. Só faltava as olheiras de rolha queimada. E descrevia os detalhes da tal boneca, com frieza naturalista:

— Ela pode ter cabelos castanhos, louros, prateados, pode ter pele morena, escura, alva, pode ter uma língua pegajosa de três metros! Você pode fazer o que quiser com ela, olhos postiços, cílios postiços, pele cheirosa, com textura de pêssego, e unhas pintadas de vermelho, de vermelho, ouviste? Vermelho!

Miranda resolveu não levar a sério. A certo ponto da discussão, decidiu concordar com tudo o que seu amigo dizia. Afinal, não se pode destratar um bêbado. E, afinal de contas, queria bem ao Guedes que, na verdade, não passava de um estafeta de deputado. Claro, tinha os seus arroubos de sapiência, mas no fundo, era um simples. Era aquele tipo de sujeito a quem ele tinha apreço, mas sabia de suas limitações. E achava que, naquele estado de embriaguez, ele poderia estar apenas vazando algum espírito de porco que, como ele entendia, todos tinham em seu íntimo. Porém, ficou estacado com a tal hipótese da mulher de plástico.

Ainda mais quando rompeu com a noiva. Foi um displante! Depois de dois anos, trocado por um mecânico, um braçal! Sua mamãe o consolava: “as mulheres de hoje não prestam! As mulheres de hoje não prestam para nada, não sabem nem esquentar água, só pensam em adultério!”. E repetia, com o olho rútilo e lábio trêmulo: “Adultério!”. Ele encheu a cara; disse: “porra, eu não mereço uma porra dessas, é injustiça, mas que porra, porra”. E pensava no seu pobre e cálido amigo estafeta da Assembléia. Apesar do nojo, do verdadeiro asco do naturalismo com que o cordial Guedes explicava os detalhes da boneca inflável, ele pensou consigo: “carambolas, eu vou arranjar uma boneca dessas”. Ligou para o amigo:

— Alô? — Era o Guedes, aparvalhado com a ligação em plena madrugada.

— Guedes — soluçava o desconcertado Miranda. — Desculpe estar ligando a estas horas, mas... como você falou da boneca...

— Que boneca?

— A inflável!

— Ah, o que tem ela?

— Não, eu queria saber onde consigo uma dessas...— respondeu, um tanto envergonhado.

— Porra (balbuciou, enquanto procurava o número do vendedor, em alguma página amarela de guia telefônico. Não do classificado do jornal)!

E deu o número.

Miranda pediu a encomenda por telefone. Queria total descrição. No fim do dia, apareceu o motoqueiro com a encomenda. Acostumado com esse tipo de entrega e adivinhando o que estava dentro daquela caixa, o moto-boy olhava para a cara tímida de Miranda, que assinava o papel da encomenda. O homem da motoca conhecia esse tipo de figura, é apenas mais um maluco. Largou um “há!”. Fechou o visor do capacete, deu de ombros, e foi embora.

Miranda leu todo o manual de instruções. Com dificuldade, abriu o pacote, desenrolou aquele espectro de gente. Encheu a boneca de ar, como se fosse um Gepeto pós-moderno. Ali estava ela, nuazinha, com a pele cheirosa e com textura de pêssego que seu amigo falara, seios generosos e bundinha arrebitada. Cabelinhos cacheados loiros, língua pegajosa, unhas vermelhas mas com um olhar meio paranóico. Sentiu vergonha daquilo. Meu Deus, não me reconheço, dizia de si para si. Precisou tomar um trago para se desanuviar da timidez de estar com a boneca inflável. Duas, três, quatro, enfim, várias doses depois, conversava com a boneca, revelava confidências! Dizia: aquela vagabunda da minha noiva não prestava mesmo! Aquela vagabunda! E o meu sogro era um filha da puta (sic). Então, a conversa ficou mais íntima. Ele elogiava os cabelos da boneca. Os olhos paranóicos dela.

Então, como estava escrito nos oráculos, se deu a conjunção. Miranda lambuzou-se da boneca. Ele experimentou um inefável prazer naquele corpinho macio e inerte. Ele se descobria ali um fogoso amante de uma mulher totalmente entregue aos seus ávidos desejos. Mas, no outro dia, acordou com uma ressaca incomensurável...

Olhava aquela boneca inerte. Meu Deus, eu sou um necrófago! Aliás, eu sou um necrófilo (não conseguia distinguir a diferença, de tão embriagado que ainda estava) de bonecas. Eu sou um doente (olhava-se no espelho, chocado com seu ímpeto). Um psicopata! Pensava em sua linda e compassiva noiva. Pensou na noiva. Glorinha. Glorinha! Meu Deus! Ela me abandonou! Por que, meu Deus? Por que me fizeste sofrer? E era um estuprador, um currador de bonecas! Se sentiu abjeto. Então viu que havia se transformado num necrófilo de boneca inflável! Teve um choque de realidade! Como pude? Como pude? Estava chocado consigo mesmo. E chorava. Chorava alto, chorava forte.

Mas, à medida em que o tempo passava, ele foi se acostumando com aquela boneca. Tanto que Miranda até entendia os pensamentos de sua amada. De repente, tudo se transformou naquilo: ele se acostumara totalmente àquele ser inerte, que o satisfazia a toda noite. Porém, nem tudo é para sempre. Certo dia, ávido de saciar sua lascívia, nosso herói forçou tanto a amante contra a ponta da cama que acabou furando-a. Furou a coitada da boneca. Ela saiu voando pelo teto do quarto, como se fosse uma cena de desenho da tevê. Foi parar em cima do armário. Perplexo, Miranda pensava: o que foi que eu fiz?? E agora?

E agora? Olhou pelo corpo da boneca, era um furinho no pescoço. O problema é que ele não sabia como consertá-la. Precisava de ajuda. Um borracheiro? Teria que levá-la a um borracheiro ou coisa parecida. Tinha um, de confiança, que arrumava os pneus do seu carro há mais de vinte anos, mas não tinha coragem de demonstrar que ele tinha uma boneca inflável.

Rodou quilômetros a fio, de estrada a estrada, a fim de encontrar um borracheiro distante, que pudesse entregar a boneca para consertá-la, mas sem deixar que a história se alastrasse. Imagine como é? Esse tipo de história sempre acaba vazando por aí, pode acabar virando coluna de site na Internet, tema de enquete! Achou um borracheiro num cafundó. Bateu a porta. Um velhinho atendeu. Era um velhinho. Não sabia por que motivo se sentiu aliviado em ver que o borracheiro era um velhinho, e que mancava com uma bengalinha, como o Mestre Yoda. Então, contou a sua triste história. O homem, do alto de sua sabedoria, sabia o que fazer, achou tudo normal, disse até que já ouviu falar de casos como o dele. E prometeu, com a mão posta sob uma Bíblia imaginária, que iria reparar o furo em dois dias, com sigilo.

Aliviado, Miranda voltou para casa feliz. Logo, logo, ele teria a sua amada boneca em seus braços, para todo o sempre. E sonhava. Sonhava com aquela pele de pêssego, aquela língua pegajosa, com aqueles olhinhos lindamente paranóicos e compassivos. O problema é que passou o prazo, e nada. Esperou. Talvez alguma coisa tenha acontecido, faltou matéria prima, talvez algum problema de agenda. Excesso de demanda de clientes. Mas passou seis, sete dias, uma semana. Duas semanas. A cada telefonema, o borracheiro de beira de estrada dizia que havia sempre algum problema. Miranda se inquietava. Não pode ser, não pode ser! Alguma coisa está acontecendo.

Irritado, Miranda foi atrás do homem de madrugada, em plena chuva. Chovia uma tempestade diluviana. Mesmo assim, ele se resignou. Foi até o cafundó: iria buscar a boneca de qualquer maneira. Desceu do carro, a chuva estava cada vez mais forte. Bateu a porta uma, duas, três vezes. Na quarta, de tanto bater a porta, eis que apareceu o velhinho borracheiro, de samba-canção cor-de-rosa, besuntado de suor, da carequinha às chinelas. Teve um pressentimento: aquele pulha estava usando a boneca! Aquele canalha! Filha duma puta! Não pensou duas vezes:

— Eu quero ela! Ela é minha! Ela é minha! Ela é minha!

Muito encabulado, e principalmente entendendo o desespero de seu cliente, o borracheiro foi buscá-la, no seu quarto. Lá do escuro, aparecia o espectro do homem carregando a sua amada amante. Bufando de raiva como um bode, Miranda agarrou a boneca inflável, escondeu-a sob a sua capa de chuva e retornou para o carro. Lá dentro, largou sua concubina de plástico no banco do carona. Dirigiu pela cidade por duas horas. Não trocaram palavras. Até que, numa sinaleira, teve um acesso de raiva! Um guarda-noturno o flagrou dando murros no volante.

— Fui traído por uma boneca! Traído por uma porra duma boneca!!! Fui corneado por uma merda duma boneca!

Entrou em casa, jogou a boneca no sofá. Atirou sua capa de chuva num outro canto. Começou a discutir furibundamente com a boneca inflável, que ouvia a tudo, fedendo a suor e ao Trés-Brut de Marchand do borracheiro.

Os vizinhos estranharam. O Miranda, logo ele, um tímido, discursava como um louco, de dentro do seu quarto-e-sala. A senhoria chamou a polícia. Aquela discussão iria terminar em sangue, coitada da pequena, esse homens são todos iguais! Muitos acordaram. Era uma discussão de uma pessoa só, com um tom de voz jamais ouvido antes. Isso sem falar do baixo calão. Logo o Miranda, um homem tão pacato, todos ouviam aquilo de longe, desconcertados. Logo, a polícia, chegou. Nem as sirenes conseguiram constrangem o aparvalhado Miranda, que tinha acessos, dentro do apartamento. Foram todos até a porta. O policial bateu uma, duas, três vezes. Mas o homem estava descontrolado. De repente, estava consumando algum assassinato. Todos estavam brancos, todos.

— Dá licença, madame, dá licença. — disse o policial, meio confuso com a situação, tomando distância no corredor, para arrombar a porta.

A porta abriu, com um grande estrondo. A cena era inacreditável. O coitado do Miranda, dando golpes mortais de faca de cozinha naquele fiapo de borracha com cabelos loiros e olhar paranóico, que fitava o teto do quarto-e-sala, como que sonhasse. Golpeava uma, golpeava duas, golpeava três, enfim, várias golpeadas com força, com um ódio iracundo, do pélago da sua raiva. Golpeava e chorava. Ninguém entendeu quando ele esfaqueava com raiva e chorando desesperadamente sobre aquela boneca murcha, aos berros surdos de “Cínica, cínica, cínica”.

2 comments:

Nildo Júnior said...

Quá, quá, quá, quá, quá, quá, quá...
Tens que publicar isso.

Zé Henrique said...

Excelente!
Tem algo que lembra Luís Fernando Veríssimo, muito bom!