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O Carnaval de 1919 |
“Além disso, sobreveio a morte de inúmeras pessoas
que, certamente, se tivessem merecido ajuda, teriam sobrevivido. Em decorrência
da escassez de serviços no momento azado, que os doentes precisavam mas não alcançavam,
e também em vista da violência da peste, era tão grande o número dos que
faleciam, de dia e de noite, na cidade, que provocava estupefação escutar, e
ainda mais ver, o que ocorria. Porque por força das circunstâncias, muitas
coisas que contrariavam os costumes básicos de qualquer cidadão, começaram a
existir entre os que permaneciam vivos”.
“O tratamento dado às pessoas mais pobres, e à
maioria da gente da classe média, era ainda da maior miséria. Em sua maioria,
tal gente era retida em suas próprias casas, ou por esperança, ou por pobreza. Ficando,
deste modo, nas proximidades dos doentes e dos mortos, os que sobreviviam
ficavam doentes aos milhares por dia; como não eram medicados, nem recebiam
ajuda de espécie alguma, morriam todos quase sem redenção. Muitos eram os que
findavam seus dias na rua, de dia ou de noite. Inúmeros outros, mesmo morrendo
em suas residências, levavam os seus vizinhos a não se manifestarem, mais por
causa do mau cheiro dos próprios corpos em decomposição, do que por outro
motivo. De pessoas assim de outras, que faleciam em toda parte, as casas estavam
cheias”.
“Tão grande era o número de mortos que, escasseando
os caixões, os cadáveres eram postos em cima de simples tábuas. Não foi um só o
caixão a receber dois ou três mortos simultaneamente. Também não sucedeu uma
vez apenas que esposa e marido, ou dois e três irmãos, ou pai e filho, foram encerrados no mesmo féretro. Muitíssimos
destes fatos podiam ser narrados. E infinitas vezes se viu que, indo dois clérigos,
com uma cruz por alguém, atrás do primeiro se colocaram dois ou três ou quatro
caixões, carregados por seus respectivos portadores; assim sendo, onde supunham
os padres ter um morto para enterrar, havia sete ou oito; com freqüência, até
mais. Tais mortos excedentes eram, por esta razão, homenageados com alguma lágrima,
às vezes, ou alguma vela, ou alguma companhia”.
A descrição acima, feita por Boccacio, no começo do
clássico Decamerão, faz um retrato sem retoques do que foi a Peste Negra na Europa,
mais precisamente em Florença, no século XIV. Na narrativa, a peste é o ponto
de partida para que um grupo de jovens fuja da cidade, e isolado da epidemia,
decida enfim contar histórias para passar o tempo.
As cenas da peste, descritas por uma testemunha
ocular da história, no entanto, não estão longe do cotidiano do que se vê no
auge de uma pandemia. Tanto que essas descrições poderiam se encaixar
perfeitamente no que foi a Gripe Espanhola de 1918 quando atingiu o Rio de
Janeiro em 1918, como descreve Ruy Castro em Metrópole à Beira-Mar. Aliás,
assim como Bocaccio, ele abre o livro, que conta a história dos anos 1920 na Capital
Federal, com o apocalipse que tomou conta da cidade por dois anos.
No fim da guerra, o Brasil enviou conselheiros
militares para a França. A embarcação parou em Dakar. Sem desconfiar, eles ficaram expostos a uma
gripe que havia chegado à Europa no final do conflito, por intermédio das
tropas norte-americanas. Em pouco tempo, quase toda a tripulação fora
contaminada e quase duzentos morreram pouco depois de entrarem em contato com o
vírus.
Ninguém tinha a menor ideia do que era aquilo. Num
espaço de dois anos, a pandemia, que entraria para a história com o nome de
Gripe Espanhola iria matar cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo. O vírus apareceu nos estertores da Primeira
Guerra, quando não havia maiores perspectivas com relação a vencedores e
vencidos: havia, sim, apenas o desejo do fim daquele longo e traumático
conflito.
A medicina não soube à época do que se tratava. O
certo, e que se soube muito tempo depois é que, a despeito do nome, ela não
surgiu em terras ibéricas. Na verdade, muitos outros países a contraíram mas a Espanha,
que estava neutra na guerra, foi o primeiro país a publicizar de fato os
primeiros casos, que atingiram grande parte de sua população, incluindo o rei
Alfonso. O que se sabe hoje é que ela veio dos Estados Unidos. E que não era
uma gripezinha qualquer. Ela começou a
se disseminar no começo de 1918 pela Europa, até espalhar-se pelo resto do
mundo e Brasil de setembro em diante.
Ela ia de uma singela dor de cabeça até um quadro de um piriri e cansaço extremo e dificuldade de respiração, cuja conseqüência era
cianose dos extremos do corpo, tosse, tosse, tosse, hemoptise e morte. Matou desde o sociólogo Max Weber até o
presidente do Brasil, Rodrigues Alves.
Conta a história que a Espanhola chegou sorrateira e
discreta, a bordo da embarcação Demerara, que havia fundeado em Dakar antes de
aportar no Rio. Boa parte da tripulação,
marinheiros, por exemplo, entraram em contato com cariocas a partir de
arredores do cais e nos mafuás da vida. A cidade não estava preparada para uma
pandemia desconhecida como aquela. Em semanas, pessoas começavam a apresentar
os sintomas citados acima, indo a óbito em questão de horas.
A fim de conter o contágio, as pessoas recorriam a
remédios caseiros, de sopa de galinha e benzeduras a cachaça com limão. No
começo diz Ruy Castro, as pessoas brincavam com a epidemia, dizendo que se
tratava de alguma arma secreta provocada pelos alemães, que teriam colocado
algum veneno de efeito retardado nas salsichas que eram exportadas para cá.
Importante lembrar que cidades como o Rio, assim
como Recife, Santos, Salvador e Porto Alegre eram, naquele tempo,
essencialmente portuárias: tudo passava pelo cais, de produtos até passageiros
em massa.
Delas, o Rio seria a urbe mais atingida pela Espanhola, com gente
morrendo aos magotes, como Bocaccio descreve no primeiro capítulo do Decamerão.
O precário sistema hospitalar da época não dava conta. Não havia leitos para
todos; as pessoas morriam em questão de horas, a maioria durante um improvável
atendimento: muitos em estágio terminal, já vomitando sangue e com os dedos das
mãos e pés enegrecidos, no estágio avançado da doença. Em dado momento, não
havia mais remédios, nem razão de ministrá-los a pessoas que estavam à
beira-morte.
Não havia qualquer possibilidade de logística para
velórios e enterros. Não havia caixão ou covas suficientes. Esquifes eram
improvisados. Cadáveres ficavam pacientemente deitados à frente das casas, à espera de que
ambulâncias os levassem. Corpos eram atirados em caçambas como se fossem lixo,
muitos ainda moribundos, eram carregados com os mortos – às vezes, como diz
Pedro Nava em suas memórias, citadas por Ruy Castro, crianças ainda vivas eram
carregadas com suas respectivas mães mortas.
Muitos deles eram sacrificados na
hora pelos padioleiros. Em campas improvisadas, eram finalmente cremados e
inumados de qualquer maneira, em valas comuns e sem identificação nenhuma. Nesse meio tempo, era comum amigos do alheio
roubarem pertences dos defuntos, de dentes de ouro até jóias.
Em dado momento, nem o decoro do luto fazia sentido;
eram tantos os vitimados que já não havia quem vendesse víveres nos armazéns. De
repente, não havia mais víveres. Os poucos secos e molhados que tinham coragem
de abrir eram atacados por horas de pessoas, em geral infectadas, que apelavam
para o saque de produtos de primeira necessidade. Com a escassez, os produtos
custavam cada vez mais caro: um honesto e preclaro ovo custava o equivalente a
uma galinha viva.
Os poucos jornais que circulavam avisavam seus
parcos leitores a evitarem aglomerações e ou transporte público, estabelecimentos,
escolas e fábricas. O centro do Rio se transformou numa cidade fantasma, com
exceção das igrejas, onde muitos iam rezar como se fosse pela derradeira vez. Logo,
policiais eram obrigados a fazer sentinela, de forma a que tais
estabelecimentos pudessem funcionar.
Em
menos de um ano de Espanhola, mais da metade dos cariocas haviam contraído o
vírus. Até o final do ano, quando boa parte da população passou a desenvolver
resistência à gripe. “Assim como surgira, a gripe fora embora”, diz Castro. “Não
por alguma poção ou magia, mas porque as pessoas haviam ficado imunes”.
Segundo ele, se poucas semanas antes, a população
estava à beira-morte, agora se encontrava às vésperas do tríduo momesco de 1919.
“Quem sobreviveu não perderia por nada aquele Carnaval”, diz. Os festejos
seriam as exéquias daquele período negro na história da Capital Federal. De
repente, a então vazia avenida Rio Branco passou a se encher de foliões se
perdiam no entrudo na batalha de lança-perfume, enquanto davam passagem às
bandas de música da polícia e dos bombeiros. A Light dera passe livre para a
população, que encheu o centro com ranchos carnavalescos, desfiles de corsos e a
chegança de blocos, como o Cordão da Bola Preta. Mas, mesmo que existisse o
medo de que aquela maldita gripe voltasse, ninguém parecia se importar. E se fosse o último
Carnaval da história da humanidade?