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Compacto original de "That's All Right, de 49 |
David Browne assina uma matéria muito interessante sobre os setenta anos do single de 45 rotações na Rolling Stone americana de março. Em março de 49, a Victor lançou uma série de compactos nesse formato, indo do clássico ligeiro ao rhythm'n blues, passando pela música infantil. Um desses singles, e que se tornaria clássico, é "That's All Right Mama" com Arthur Crudup.
Browne compara o impacto do 45 na época como Iphone nos dias de hoje. Nos anos seguintes, essa seria a mídia que iria ser a base do pop mundial.
Ele fala da ascensão e queda do compacto, principalmente com relação à adoção, por parte dos artistas, do álbum em detrimento do single, no final dos anos 60 e do advento do CD duas décadas depois. Porém, entende que a concepção do single como modelo de formato de lançamento e divulgação de música popular passou pela era do Mp3 e ainda resiste, em plena era do streaming.
Uma coisa que a matéria da Rolling Stone não falou ou desdobrou propriamente é como o surgimento do 45 mudou tanto a forma de produção quanto a de consumo de música popular.
Com o advento dessa tecnologia, o eixo de produção de discos saiu progressivamente da cena musical de Nova Iorque e da Broadway e deslocou-se para outros centros do país, como o meio-oeste e o sul. A partir do 45, surgiram dezenas - e depois centenas - de pequenas gravadoras, ao mesmo tempo que facilitou o trabalho dos disk-jockeys quanto à armazenagem e operação das bolachinhas.
Ao mesmo tempo, a partir da aparição desses pequenos selos, acontceria uma drástica horizontalização da produção musical no país. Longe do Tim Pàn Alley, essas gravadoras iriam propagar largamente, com o auxílio de rádios locais, outros gêneros, como o country e o rhythm'n blues no final dos anos 40 e o rock, na década posterior.
Para o surgimento do rock, com a descoberta de um mercado ainda pouco explorado pelas majors (Decca Columbia e Victor) que era o público jovem por parte desses selos, tudo seria uma questão de tempo.
Um exemplo é a Sun Records. Ela nasceu um ano depois do advento do 45, com auxílio de Jim Bullet da Bullet Records, de Nashville. Jim era o dono e Sam Phillips era caça-talentos de artistas para o selo. Na época do surgimento da Sun, a Bullet havia conseguido um inesperado sucesso nacional com "Near You" de Francis Craig.
Porém sendo obrigado a continuar o êxito obtido com o disco, a Bullet não conseguiu ombrear as operações das grandes gravadoras e quebrou, mais ou menos como time pequeno quando é campeão e é obrigado a pensar grande. Pensando localmente, o cauteloso Philips preferiu concentrar-se estritamente no mercado regional e já contando com a tecnologia do 45.
Seu horizonte era o sul com suas emissoras e o seu respectivo público. "Near You" um fox-canção para crooners com voz de travesseiro do estilo Bing Crosby ou Dick Haymes - era o tipo de música que fazia o gosto do mainstream e seu público radiofônico moldado na era do swing, que em 49 vivia um lento declínio com relação à preferência dos ouvintes.
Sam não queria swing. Ele queria o rhythm'n blues. Ao contrário da Bullet, a Sun deu certo porque apontou para o mercado local, que consumia a música local ao invés de querer disputar o mercado titânico e estabelecido do Tim Pan Alley. A Bullet, por sua vez, quis bispar um mercado além da sua húbris e quebrou.
Ao contrario do Brasil, o esquema rádio-gravadora praticamente moldou a história do rádio americano. Victor e Columbia jogavam nas duas divisões. Logo não havia nada de errado que esse modelo se insurgisse e se propagasse embora em pequena escala.
O problema é que essa mesma cadeia produtiva em pequena escala podia incomodar os grandes. E os DJs, tendo cada vez mais autonomia para caçar talentos, gravar e lançar essa produção musical no éter, poderiam agora sim ameaçar a sólida hegemonia dos mandantes do campo da música ianque. Ele teriam dessa vez, cada vez mais, o público do seu lado.
Quando estourou o escândalo da payola, em 1960, 'patrocinada' pelas grandes gravadoras e editoras musicais estadunidenses, o foco eram justamente esses DJs que, naquele momento, haviam tornado-se verdadeiros corsários da música, dessa vez, ao contrário dos tempos da Bullet versus Tim Pan Alley, realmente afrontando as majors.
Ou seja não era apenas pelo fato de payola tratar-se de contravenção. As gravadoras queriam destruir os DJs menos pelo que eles faziam por debaixo dos panos do que pelo que eles representavam: acabar com a idade do ouro do Tim Pan Alley. Essa é outra história e com seus desdobramentos.
Mas para fazer isso eles teriam que depois abraçar o rock e toda a cultura que floresceu pelos aos 50, como corolário da popularidade do compacto de 45 rotações, que esse ano completa seus 70 anos de surgimento.