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Gerry Marsden no Cavern Club, circa 1963. |
Ao comentar o desaparecimento do líder dos Gerry and
the Pacemakers, neste domingo (3) Paul McCartney lembrou que eles eram seus principais rivais em
Liverpool e na sua carreira, muito antes dos Stones.
Os Pacemakers são hoje muito menos conhecidos do que
muita banda de rock guindada ao panteão do gênero. Posteriormente eclipsada
pelos Beatles e outros conjuntos britânicos ao longo dos anos 60, eles
representaram uma cena importante em Liverpool.
Numa época – começo dos anos 60, quando o mercado da
música, em especial o anericano, havia docilizado o pop em uma sucessão de teen
idols como Frankie Avalons e Neil Sedakas (que, em geral, cantavam músicas sob encomenda, de editora musical, e não tocavam instrumentos no palco), eles e aquela cena foi um momento em
que o rock foi preservado para a posteridade.
Bandas de guitarra estavam fora de moda quando os
Beatles foram rejeitados por várias gravadoras em 62, em especial os Beatles,
que não assinaram com a Decca depois de um teste. Eles olhavam para esse
mercado, feito pelo mercado. Ele era feito de artistas jovens fabricados, com
música de gaveta, bem vestidos e bem nascidos.
Enquanto o rock fora banido da America, ele foi
preservado por uma cena de rock na Europa que ainda descobria aquela primeira
água do bebê dos anos 50. Ao mesmo tempo em que mitificavam aquele legado, nos palcos
de Liverpool e Hamburgo, eles preservaram aquela cultura. Lá por 1961, eram
outsiders, vestiam-se como o Marlon Brando de O Selvagem. E sua atitude não era
menos selvagem. Em geral, eram anárquicos, aproveitavam suas turnês em Hamburgo
para testar um repertório ligeiro e versátil, misturando covers meio
inusitados, como "Take Five" ou "Falling In Love Again" com clássicos do rock, como "Maybeline".
Paul McCartney fala bem quando diz que os Pacemakers
eram seus maiores rivais. Quando os Beatles se estabeleciam a duras penas,
tentando manter a banda unida e seus membros ainda incertos sobre seu futuro
fora da música e dentro dela, a banda de Gerry Marsden tocava em vários clubes
em Liverpool e foi uma das que abriu para uma apresentação de Gene Vincent em
1960. Eles faziam tanto sucesso em Liverpool que, de forma relutante, aceitaram o convite de Allan Wiliams para tocar em Hamburgo. Os Beatles foram rejeitados para abrir para Vincent e pela Decca porque, segundo os produtores (mesma alegação
de George Martin ao ouvi-los pela primeira vez) eles “não eram tão bons”(muito embora tenham aprendido muito nos anos na Alemanha).
Mas eles dividiam os mesmos palcos e, como outras
bandas de Liverpool, desenvolveram um circuito de bailes onde seus talentos
eram moldados ao vivo, e construindo um repertório forte e eclético. Um exemplo
é “Pretend”, uma canção popularizada por Nat King Cole nos anos 60, e que virou
uma espécie de hino dessas bandas. Esse era o grande wit desses jovens músicos,
que aliaram uma paixão incondicional por um tipo de músico que não era mais
apreciada mas que, para eles, era o futuro. Os Beatles e os Pacemakeers eram fãs do Cliff
Richard e os Shadows, mas eles sabiam que a última coisa que eles queriam ser
eram soar como eles. Isso explicaria por que o produtor dos Shadows, Norrie
Paramor, foi outro que rejeitou os Beatles.
Todos tocavam uma versão meio rhytm’n blues de “Pretend”,
inclusive os Beatles que, como os Pacemakers, tinham “Shot of Rhytm’n Blues”, “Pretend”
ou “Where Have You Been” em seus respectivos repertórios. Em Hamburgo, eles
podiam tocar qualquer coisa para qualquer um em lugares como o Top Ten. Um fato
que pode explicar isso é essa natureza circular do público hamburguense, ums flaneurs de uma região portuária e de baixo meretrício como o Reeperbahn.
O capital dessas bandas era o repertório e a
capacidade de ter música suficiente paras tocar por horas para este público
diverso. Foi nessas usinas de som que essas bandas, depois em Liverpool,
passaram a granjear público e chamar a atenção de empresários como Brian
Epistein. Ele faria o resto: viu o potencial dos rapazes, decidiu ao guindá-los
ao topo da fama contra tudo e todos, até porque ele, Brian, também não tinha
nada a perder com isso. Ele estava na mesma encruzilhada dessas bandas, que
enquanto tinham um talento potencial, ainda careciam de direção e visibilidade.
A Invasão Britânica estava começando a ser traçada.
Gerry Marsden nasceu no Dingle em Liverpool, em 1942, mesma região
onde vivia o futuro baterista do Rory Storm e dos Beatles, Ringo Starr. Era
guarda-freios de ferrovias como seu pai. Com ele também aprendeu atocar banjo.
Porém, como todos de sua geração, seria arrastado pela moda do Skillfe, de
Lonnie Donegan. Marsden formou um grupo do gênero em 1956, chamado Mars Bars,
mas teve que trocar o nome, que aludia a uma marca de chocolates. Arthur
McMahon, o primeiro pianista da banda foi quem deu a idéia de “pacemaker”.
Em 1960 eles abrem para Gene Vincent, então já uma
estrela decadente nos Estados Unidos, nm concerto no Liverpool Stadium, em maio
de 1960. Já tinham uma boa reputação na área de Liverpool e isso fez com que
relutassem em partir para os ares de Hamburgo. Mesmo assim, foram – como os Beatles,
a partir de Allan Williams, então proprietário do Jacaranda. Les Chadwick,
pianista dos Pacemakers e hoje o único sobrevivente da banda, diz que o contato
com Tony Sheridan (que eram músico residente no Top Ten com a banda The Jets) foi importante para Marsden. Segundo ele, Gerry inspirou-se
na performance de palco e pela forma como Sheridan era capaz de segurar uma
banda a partir da sua guitarra-base (influência que também não deve ter passado
despercebida por John Lennon).
Alás, o líder dos Pacemakers conta como Lennon o
introduziu à vida noturna. Quando chegaram na frente do Herbertstrasse, um
puteiro do Reeperbahn, Mardsen viu aquelas janelas com moças seminuas e estava
quase morrendo de vergonha, mas John bateu na porta e perguntou ao cafetão
quando custava a entrada. “oitenta marcos”, falou o homem. John tinha vinte e
arrumaram sessenta. O cafetão mandou eles passaram na semana seguinte. Uma
semana depois, eles estavam de volta. Porém, segundo Marsden, não havia nada de
mais lá, exceto o tipo de fauna circense que se poderia encontrar num lugar
como a barra pesada da zona portuária de Hamburgo. “Que desperdício de dinheiro”,
Gerry lamentou, quando eles saíram sem nada. “Azar”, falou John, “somos
testemunhas das maiores bizarrices da nossa vida inteira”.
Quando Paul fala da rivalidade das bandas de
Liverpool, a verdade é que era essa rivalidade que fazia com que os Beatles
tivessem que ser maiores que os Searchers, e os Searchers maiores que o Big
Three, e todos eles maiores do que os Beatles que, por sua vez, tinha que
superar todos eles. Essa rivalidade ia da melhor performance ao melhor
repertório, ou a capacidade de “tirar” uma música que havia aparecido nas
paradas. Numa sexta, lembrou Marsden, você tinha “Will You Love Me Tomorrow”
das Shirelles nas lojas; na quarta seguinte as bandas de Liverpool disputavam
entre si qual delas era capaz de fazer o melhor cover.
E todos trabalhando o repertório noite após noite.
Isso explica, por exemplo, por que os Beatles, trabalhando essas canções de
palco, foram capazes de gravar um disco como o Please Please Me em um dia.
Aquelas canções estavam nas medulas deles, era uma segunda natureza desses
músicos castiços, e que aprendiam na lida diária, uns com os outros ou novas
músicas ou acordes.
Em 1961, no Litherlandtall Hall, Pacemakers e
Beatles dividiram o palco juntos como os Beatmakers. Segundo Marsden, não foi
nada formal, não houve sequer ensaios. Eles se guiaram pelos outros e pelo set
list de ambos que, no fim das contas, era quase o mesmo – A Shot of Rhythm’n
Blues”, “Pretend”, “Jambalaya”, “Maybeline”,
entre outras (as quatro foram gravadas no primeiro álbum do Gerry and The
Pacemakers, How do You Like It?, de 1963). Eles se revezavam: “Eu toquei piano,
John tocou e Paul também, foi incrível e nós sabíamos que aquela performance
jamais seria repetida”, lembrou Gerry.
Mesmo não tocando juntos, eles dividiam o espaço do
Cavern, o porão cheio de ruídos como dizia Brian Epstein, referindo-se ao
ambiente típico do pub no título da sua autobiografia. Gerry lembra que era uma
festa porque muitos passavam o dia ou a noite lá, muitos estudantes,
trabalhadores diurnos e músicos, em geral, desocupados ensaiando e esperando o
momento de tocar. Diferente de Hamburgo, onde o público era circular, ali era o
momento de celebração com o seu público, com a sua comunidade. Diferente do que
se via na Beatlemania, a platéia pedia canções, que eles respondiam. Vestiam-se
de maneira informal, usando blue jeans e bonés. Quem iria mudá-los, Beatles e
Pacemakers, seria Brian. Como empresário e conhecendo o campo da música, sabia
que mais do que esforço e vontade de vencer, eles tinham que ceder e usar
tuxedos ou coisa parecida para buscar um público mais amplo e até tocar no
teatro e na televisão.
Marsden fala em sua autobiografia que quando assinou
com Epstein não esperava ser um artista de disco. Eles sabiam que ele era um
pequeno negociante da cidade com relações comerciais com gravadoras mas não
pensava em nada mais sério do que de repente alguns discos de graça da loja do
pai de Brian.Com o relativo sucesso de “Love Me Do” com os Beatles, os Pacemakers,
que eram a segunda opção, foram para o estúdio também. Como se sabe, a ambos
foram oferecidas canções de gaveta de um compositor chamado Mitch Murray, que
conseguia emplacar sucessos com cantores como Shirley Bassey e Mark Winter. Aos
Beatles uma canção, “How Do You Do it” foi oferecida. Eles gravaram, mas não
tinham coragem de ver aquela gravação ganhando a luz do dia. Ela foi repassada
aos Pacemekers, que conseguiram um número um na Inglaterra. Os Pacemakers
gravaram a versão deles em 22 de janeiro de 1963, depois de uma viagem terrível
de Liverpool para Londres, em pleno inverno. Chegaram nos estúdios de Abbey
Road à uma da tarde e gravaram na hora seguinte. Freddy, o baterista, lembra
que não conseguia entender por que os Beatles a tinham recusado.
“Achamos que foi bobagem da parte deles, eu a achava
bem melhor que “Love Me Do”. Naturalmente, a partir daí, os Beatles foram
desafiados: deixaram passar um sucesso de encomenda (e para seus rivais), mas
era justamente esse o desafio, vencer com suas próprias canções. Mas como tudo
era relativo, assim como Gerry também passou a compor (“Give All Your Love”, “Ferry
Crosss the Mersey”, “Don’t Let the Sun Catch You Crying”) os Beatles também
começaram a escrever música de encomenda para outros artistas.
Mas a rivalidade continuava, agora no disco. Depois
de semanas nos primeiros lugares, Gerry and The Pacemakers perderam o primeiro
lugar para os Beatles com “From Me To You”. Semanas depois, era a vez dos
Pacemakers voltaram com “I Like It”, também de Mitch Murray. Era a guerra das
bandas de Liverpool ganhando espaço cada vez mais na mídia britânica.
Para o single seguinte, eles escolheram “You’ll
Never Walk Alone”, uma canção do musical Carousel e que refletia o clima de
otimismo no pós querra, em 1945. Chris Curtis dos Searchers lembra que Tony
Sheridan cantava essa música em Hamburgo. Gerry diz que gostava do musical. Les
Chadwick pensou num arranjo que lembrasse o pop do Nashville Sound de cantores
como Conway Twitty. Daí nasceu o cover de “You’ll Never Walk Alone”. O compacto
seguinte, foi uma escolha final entre “Pretend” ou “Chills” mas recaiu sobre “I’m
the One”. A diversidade de opções mostra como no pico do merseysound, tudo era
possível. Tanto que os próprios Searchers conquistaram a America com outro
cover, “Needles And Pins”. A ideia era sempre pegar um cover obscuro e
transformá-lo num signature song. Os Searchers eram imbatíveis nisso, seus
primeiros sucessos eram música de palco.
O sucesso dos Pacemakers, também empresariados por
Epstein, no auge da British Invasion levou a sugestão de um roteiro para a
banda, nos rastros de A Hard Day's Night - Ferry Cross the Mersey (ou "Os Frenéticos do Ritmo" no Brasil, nunca lançado em DVD). Dessa vez, Marsden teve que compor as
canções, como a que dá nome ao filme. A música é notável por falar de Liverpool
e do cotidiano das viagens de ferryboats. Tanto a música quanto o filme mostram
o quanto o conjunto estava integrado ao som do Mersey e ao ambiente de
Liverpool. Mesmo integrados com o mundo e excursionando pelos Estados Unidos,
eles eram uma banda de Liverpool e viveram em morreram em torno desse
imaginário e daquela cena musical que, pelos idos de 1966 já dava mostras de
desgaste - ainda mais numa época em que estrelas do rock eram exploradas ao máximo de sas capacidades.
Os Pacemakers não se adaptariam às mudanças no gosto
musical e no mercado da música a partir de então. Ao contrário de seus “rivais”,
não buscaram explorar o estúdio e suas possibilidades ou outros realidades
estéticas. Os últimos temas gravados pela banda sequer foram compilados em
disco na Inglaterra, embora tenham sido lançados no Canadá e nos Estados
Unidos. Ouvindo as gravações da época hoje, é possível concordar com Les
Chadwick que, embora eles não estivesem emplacando mais sucessos, eles estavam fazendo boas gravações, como o
cover de “I’ll Be there”, balada inspirada num disco que o DJ Bob Wooler sempre
tocava no Cavern, e “Walk Hand In Hand”. Garry talvez estivesse se associando
mais ao folk – suas músicas sempre soavam bem ao violão, como “Ferry” ou como
crooner, cantando temas como “Girl on a Swing”. Mas aquilo estava longe do que
era a moda no pop britânico. Eles talvez não estivessem conseguindo renovar o
seu público naquele contexto. Esse estilo de crooner fez com que Gerry se
interessasse por outro palco, o teatro: naquele mesmo ano, ele estrearia um
musical de Joe Brown no West End, chamado Charlie Girl.
Nos anos 70, ele tentaria reformular a banda, já que
seu irmão virou motorista de van e Chadwick e Maguire passaram a administrar
uma garagem em Liverpool. Como disse Freddie certa vez, ele encarava a música
menos como senso de profissionalismo e mais como esporte. É de se pensar que
muitos desses artistas daquele tempo sabiam que havia uma bolha e que eles
teriam um tempo de duração no show business. Talvez nem sonhando que eles
cogitassem que aquele tipo de música fosse ressurgir com força décadas depois e
essa atmosfera e todo o imaginário em torno do Cavern Club fosse se perpetuar
até hoje. Gerry virou símbolo das torcidas do Liverpool por causa de “You’ll
Never Walk Alone”, ganhou uma MBE em 2003 e teria papel decisivo para que
Liverpool se transformasse em capital cultural de Europa em 2007.
Por essas e outras, é interessante notar que Mardsen
não era um cidadão do mundo. O rock lhe deu essa visibilidade, mas ele era uma
pessoa da sua comunidade, de sua cidade. Porém, no campo da música, foi um dos
artistas que, mesmo sem saber (quem sabe), foi um dos responsáveis pela
perpetuação da mensagem e do espírito do rock numa época em que ele parecia
coisa do passado. Mas isso ele certamente sabia muito bem.